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Wednesday, 23 November 2022

O Caminho do Amor Misericordioso

Elizabeth A. Mitchell

Talvez já tenhamos lá estado. Deitados com o homem à beira do caminho, espancados pelo Acusador, feridos pelos nossos pecados, sentindo-nos inanimados e sós. Os espíritos da confusão, da discórdia, ira, insulto, dúvida e medo atacaram-nos quando menos esperávamos. Submetemo-nos a elas e deram cabo de nós. Roubando-nos a alegria e a paz, partiram e continuam a “passear pela terra, a patrulhá-la” (Job 1,7), em busca da próxima vítima.

Cristo identifica a nossa condição na parábola do homem roubado por salteadores no caminho para Jericó – a parábola do Bom Samaritano – explicando que “caiu nas mãos de assaltantes. Estes lhe tiraram as roupas, espancaram-no e se foram, deixando-o quase morto”. (Lucas 10,30)

O abandono do pecado é real. Sentimo-nos isolados, incapazes de ser tocados pelo outro, entregues nas mãos dos salteadores mentirosos. Os ladrões espirituais destroçaram as nossas almas e partiram, deixando-nos a definhar.

E quando damos por nós nesta condição, juntos ao homem deitado à beira do caminho, incapazes de nos levantarmos e de restaurarmos a graça nas nossas almas, onde podemos procurar ajuda? Que mão amorosa nos procurará? Como podemos ser restaurados quando estamos já sem forças?

Recentemente estava à espera de me confessar e percebi que todos nós que estávamos na fila estávamos à beira daquele caminho. O caminho para Jericó. E que só uma pessoa é que iria parar, com toda a sua compaixão, e aceitar tocar nas nossas feridas e ligá-las: o padre, na confissão, agindo em nome de Cristo.

Com o seu vinho e óleo para os nossos pecados, o Espírito Santo ministra-nos através do sacerdócio sacramental. “Mas um samaritano, estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem e, quando o viu, teve piedade dele. Aproximou-se, enfaixou-lhe as feridas, derramando nelas vinho e óleo. Depois colocou-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele.” (Lucas 10, 33-34)

A única coisa que nos pode sarar, que pode restaurar as nossas almas, é a graça de Deus. Ele vem ao nosso encontro com profunda misericórdia, no meio da nossa exaustão e a incapacidade de nos curarmos a nós mesmos, e unge-nos com compaixão. O Senhor Deus, no seu poder e na sua misericórdia, levanta-nos da beira do caminho.

No seu Tratado Contra as Heresias, Santo Ireneu descreve esta graça como o “orvalho divino”, explicando:

“Por isso necessitamos deste orvalho divino para produzirmos fruto e para que não sejamos lançados ao fogo; e já que temos quem nos acusa, tenhamos também um Advogado, pois que o Senhor encomenda ao Espírito Santo o cuidado do homem, sua propriedade, que havia caído em mãos de ladrões, compadecendo-se de suas feridas.”

Somos levantados do caminho, e colocados no animal de carga do Senhor, levados para a hospedaria e restaurados. Por pura compaixão. Pura misericórdia. Lucas continua: “No dia seguinte, deu dois denários ao hospedeiro e lhe disse: 'Cuide dele. Quando eu voltar, pagarei todas as despesas que tiver'”. (Lucas 10,35)

Ireneu chama a nossa atenção para as moedas “régias” que são dadas por nós: “para que nós, recebendo pelo Espírito a Imagem e a Inscrição do Pai e do Filho, consigamos multiplicar o denário que nos foi confiado, retornando ao Senhor com juros.”

Juros para o Senhor.

Pelo nosso encontro com Deus e com a Sua graça, somos restaurados. E somos restaurados para O servir. O facto de termos estado deitados à beira do caminho teve um propósito. Estávamos lá para podermos ser colocados mais plenamente e para sempre sob o comando de Cristo, para sermos postos ao seu serviço uma vez restaurados para a vida e para a força. Fomos marcados pela imagem e pela inscrição do Pai e do Filho, que nos deram a cura e a salvação divina. Foi-nos dada uma missão e um propósito.

Jesus termina o seu ensinamento, dizendo “vá e faça o mesmo”. (Lucas 10,37)

Vá e faça o mesmo. Nós podemos ser vasos de misericórdia, jorrando óleo e vinho sobre as almas feridas e maltratadas que nos rodeiam. Estão em todo o lado. Não é preciso ir procurar nos recantos. Enchem a autoestrada, estão na bomba de combustível, estão na sua casa, sofrendo, a precisar de serem amados debaixo de um exterior duro. Estão demasiadamente fracos para amar, mas precisam de ser amados. Precisam de compaixão pura, unilateral. Tal como o Bom Samaritano confia a alma ferida ao Espírito Santo, também nós devemos fazer o mesmo. Como recebemos, devemos dar.

E a nossa caminhada não termina na hospedaria ou no caminho para Jericó. Presumivelmente estávamos a viajar quando fomos assaltados. Recebemos misericórdia pura. Devemos continuar, diferentes, a nossa caminhada. Com um coração purificado, penitente e agradecido, partimos pelo nosso caminho no seu serviço, para ir e fazer o mesmo. “Assim como recebestes Cristo Jesus como Senhor”, diz São Paulo, sob inspiração do Espírito Santo, “continuai a caminhar nele… fortalecidos na fé como vos foi ensinada e a transbordar de gratidão.” (Col. 2, 6-7)

Já não nos encontramos prostrados à beira do caminho. Pela graça fomos renovados. Usando a moeda régia que foi entregue para o nosso cuidado, confiando-nos ao Espírito Santo, partimos de novo no caminho do amor misericordioso.


(Publicado pela primeira vez no Domingo, 20 de Novembro de 2022 em The Catholic Thing)

Elizabeth A. Mitchell, é doutorada em Comunicação Social Institucional pela Universidade Pontifícia da Santa Cruz, em Roma, Itália, onde trabalhou como tradutora para a Sala de Imprensa da Santa Sé e para o L’Osservatore Romano. É decana dos alunos na Trinity Academy, um colégio católico privado no Wisconson. A sua tese “Artist and Image: Artistic Creativity and Personal Formation in the Thought of Edith Stein,” trata o papel da beleza na evangelização pela perspetiva de santa Edith Stein. Mitchell faz ainda parte da direção do Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe em La Crosse, Wisconsin, e é conselheira do Centro Internacional St. Gianna e Pietro Molla para a Família e para a Vida.

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



Monday, 25 October 2021

Políticos metidos no confessionário, povo pró-vida na rua

O segredo da Confissão está de novo sob ataque na Austrália, onde mais um estado legislou no sentido de obrigar os padres a revelar casos de abusos de que tenham conhecimento no confessionário. As críticas chegaram dos locais mais prováveis, mas também improváveis.

Claro que por detrás de tudo isto está o escândalo dos abusos. E para quem tem dúvidas sobre o que constitui um abuso, a diocese de Bragança tem uma ação de formação.

O Patriarca de Constantinopla foi hospitalizado nos Estados Unidos, onde tinha acabado de chegar de visita. Bartolomeu tem 81 anos.

A entrevista desta semana da Renascença e da Ecclesia é ao padre Pedro Fernandes, provincial dos Espiritanos, uma das maiores ordens missionárias do mundo.

Decorreu no passado sábado a Caminhada Pela Vida. Um grande sucesso, em ambiente de festa, como sempre. Parabéns aos organizadores e todos os que participaram!

Thursday, 7 October 2021

Encontro de Médicos Católicos em Sintra, polémica em França

É já no sábado que se realiza o encontro da Associação de Médicos Católicos, no campus da nova faculdade de Medicina da Católica, em Sintra. Os temas em destaque são a pandemia e a eutanásia. Eu estarei lá para moderar uma conferência, mas há muito mais razões de interesse para não faltar! Médicos, estudantes de medicina ou apenas interessados, não percam! O programa e detalhes estão aqui.

Como prometido, trago-vos hoje o texto em que questiono o rigor do relatório sobre abusos sexuais de menores na Igreja francesa. Não se trata de uma defesa cega da instituição. Este é um problema muito grave que merece – mesmo por respeito às vítimas – ser tratado com rigor, o que não me parece ter sido agora o caso.

Entretanto os efeitos do relatório já se fizeram sentir, com Macron a chamar o presidente da Conferência Episcopal Francesa para falar sobre o segredo da confissão.

Boas notícias do Curdistão iraquiano, onde o Governo regional cedeu um distrito para ser gerido pela maioria cristã que lá vive. Saiba mais aqui.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre as possíveis sementes do Evangelho que foram plantados no Afeganistão.

Wednesday, 30 September 2020

Pecadores, mas não Hipócritas

Pe. Paul D. Scalia
Qual é a diferença entre um hipócrita e um pecador? São muito semelhantes. O hipócrita apresenta-se de uma forma e depois comporta-se de outra. O pecador escolhe, deliberadamente, aquilo que sabe que não devia escolher. Ambos sofrem de divisão interior. Na verdade, podemo-nos sentir como hipócritas quando pecamos, quando escolhemos o contrário daquilo em que acreditamos. Ainda assim, sentimos que existe uma diferença entre os dois. Intuímos correctamente que nem toda a gente que peca é, só por isso, um hipócrita.

A distinção encontra-se no seguinte. O hipócrita fez as pazes com a divisão que existe dentro dele; o pecador luta contra ela. É verdade que pode lutar mal, e perder mais vezes do que ganha, mas independentemente disso, continua a resistir a esta desintegração interior. O pecador arrepende-se e tenta conformar a sua vida à verdade. O hipócrita recusa-se a arrepender-se e, em vez disso, procura deturpar a realidade para se encaixar na sua forma de viver. Tornou-se, talvez sem o perceber, confortável com a sua divisão interior.

A diferença entre o hipócrita e o pecador explica porque é que reagimos de forma tão diferente quando confrontados por eles. Podemos ficar zangados ou frustrados com o estado pecaminoso de um homem, ou então podemos ter pena da sua fraqueza. Mas o hipócrita é diferente. Sentimos que ele sofre de uma fundamental desonestidade mais profunda. É perigoso de uma forma que o pecador não é. Enquanto que o pecador se desvia ocasionalmente do seu caminho (talvez até frequentemente), o hipócrita perdeu a bússola.

Esta é a diferença entre os dois filhos na parábola do Senhor do passado domingo (Mt. 21, 28-32). Enquanto que ambos falham, o primeiro é capaz de se arrepender e o segundo não. O pecado do primeiro é a sua rebeldia, o segundo já se tornou confortável na sua duplicidade. O primeiro é simplesmente um pecador, o segundo é um hipócrita.

Tal como em muitas outras parábolas, o Senhor dirige esta “aos chefes dos sacerdotes e do povo”. O ponto não é simplesmente que estes homens pecaram. Nosso Senhor faz questão de os distinguir dos pecadores, dos cobradores de impostos e das prostitutas, que entrarão antes deles no Reino dos Céus. Não, neles existe uma falha mais profunda do que o pecado, pior do que qualquer pecado em particular. São homens que se tornaram confortáveis com a divisão no seu seio, que trocaram a integridade pelo poder. São, como Jesus diz noutras partes dos Evangelhos, hipócritas.

Reagimos de forma visceral contra a hipocrisia precisamente porque sentimos o seu poder desintegrador da pessoa. A hipocrisia implícita nos escândalos eclesiais enfurece-nos mais do que os pecados propriamente ditos. Igualmente, a hipocrisia dos nossos famosos políticos pró-aborto é, de certa forma, pior do que qualquer pecado particular ou falha moral habitual. Tornaram-se tão confortáveis com esta sua desintegração interna que conseguem afirmar-se católicos ao mesmo tempo que defendem a causa do aborto.

O oposto da hipocrisia é a integridade – aquela qualidade que salvaguarda a unidade da pessoa. A integridade torna a pessoa inteira, em vez de uma fracção; garante que é completa e não dividida. O homem de integridade combinou e uniu – integrou – os vários aspectos da sua vida. O que ele crê, pensa, diz e faz está em sintonia. E embora a integridade não seja tecnicamente uma virtude é – ou pelo menos o desejo e o esforço de a alcançar – o que torna a virtude possível. E a virtude, por sua vez, ajuda a aprofundar essa integração.

Graças ao pecado original, todos experimentamos essa divisão e conflito entre o que sabemos ser bom e verdadeiro, por um lado, e o que desejamos e escolhemos por outro. “Não entendo o que faço. Pois não faço o que desejo, mas o que odeio (Rom. 7,15). Quando pecamos, exacerbamos essa divisão e arriscamo-nos a ceder à hipocrisia. Quando nos arrependemos encontramos a cura para essa divisão. “Simplex fac cor meum”, reza o salmista, (Ps. 86,12): torna o meu coração simples, completo e inteiro.

O mundo espera que os cristãos sejam, acima de tudo, homens e mulheres de integridade. Na verdade, quanto dano não foi causado à evangelização pela hipocrisia dos cristãos? Então como crescemos na integridade do coração?

Beato Fulton Sheen

Primeiro, pela devoção à verdade. Note bem: não apenas um interesse pela verdade, mas o desejo de nos conformarmos a ela; não apenas para conhecer, mas para responder à verdade. Afinal de contas, o hipócrita também sabe recitar verdades profundas, mas ele não se conforma a elas. São Tiago avisa-nos para não sermos o tipo de pessoa que considera a verdade interessante, mas não determinativa:

Sejam praticantes da palavra, e não apenas ouvintes, enganando-se a si mesmos.

Aquele que ouve a palavra, mas não a põe em prática, é semelhante a um homem que olha a sua face num espelho e, depois de olhar para si mesmo, sai e logo esquece a sua aparência. Mas o homem que observa atentamente a lei perfeita que traz a liberdade, e persevera na prática dessa lei, não esquecendo o que ouviu mas praticando-o, será feliz naquilo que fizer. (Tiago 1:22-25)

Ou, como diria o beato Fulton Sheen, “Se não conformares o teu comportamento às tuas crenças, acabarás por conformar as tuas crenças ao teu comportamento”.

Em segundo lugar está a devoção ao Sacramento da Reconciliação. A diferença entre o pecador e o hipócrita é que o pecador se arrepende. O nosso crescimento na integridade do coração requer não apenas uma visita ocasional ao confessionário, mas o alinhar da nossa vontade com a de Deus através da frequência desse sacramento. Na confissão não tentamos refazer a nossa realidade à nossa medida, mas tentamos conformar as nossas vidas à vontade de Deus.

Talvez a acusação mais comum que se faça contra os católicos (e contra os cristãos em geral) é de que somos hipócritas. É verdade que muitas vezes é uma acusação infundada. Todavia, vamos fazer todos os esforços para que, por mais que sejamos pecadores, não sejamos hipócritas.

 

O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 27 de setembro de 2020 em The Catholic Thing

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Wednesday, 5 August 2020

O Exemplo de São Jean Vianney

Michael Pakaluk
O verão de 1859 viu começar a Corrida ao Ouro em Pike’s Peak. Amhurst e Williams jogaram o primeiro jogo de basebol interuniversitário. Em Outubro John Brown tomou de assalto o Ferry de Harper mas viria a ser capturado pelas forças de Robert E. Lee e enforcado no dia 2 de Dezembro. E foi precisamente nesse dia que morreu, na sua aldeia em França, o Santo Cura d’Ars, Jean Baptiste Vianney, aos 73 anos. 

A beatificação e a canonização de Vianney foram das mais rápidas dos tempos modernos, antes das reformas promovidas pelo Papa João Paulo II. Pio X beatificou-o em 1905 e no dia 31 de maio de 1925 foi canonizado por Pio XI.

Num artigo recente referi-me à conhecida citação de S. Josemaria Escrivá, de que “as crises do mundo são crises de santos”. Podemos concordar com essa frase, mas ainda assim não compreender bem o seu alcance. O seu significado parece variar tanto em relação ao indivíduo, e à própria crise, como o conceito de santidade. Consideremos os exemplos de Juan Diego, Tomás Moro, John Henry Newman, madre Teresa e João Paulo II. Mas por hoje consideremos Vianney.

Em retrospectiva, Vianney parece ser um de vários padres e religiosos criados na sequência da Revolução Francesa para trazer França de volta à fé. Era um rapaz durante o Reino de Terror da Revolução Francesa. Assistiu à execução de padres e ao encerramento de igrejas por ordem das autoridades civis. Mas, para ele, a necessidade de padres tornou-se ainda mais palpável, e não menos. E não era caso único. Entre os que foram ordenados diáconos com ele em Lyons estavam Marcellin Champagnat (canonizado por João Paulo II em 1999) e Jean-Claude Colin, fundador dos padres maristas.

Mas embora os santos sejam as respostas às crises, não aspiram a ser “respostas às crises” – nem, pode-se dizer, seriam santos se o fizessem. Aspiram a amar Deus de forma apaixonada, independentemente das crises. O biógrafo de Vianney, Joseph Vianney, interpreta as conhecidas dificuldades do padre com o Latim e a Filosofia à luz disto mesmo.

Do ponto de vista humano, escreve Joseph, pode-se pensar que a crise em França seria confrontada por apologética brilhante na Sorbonne, ou pela bela oratória na catedral de Notre Dame. Mas a Igreja estava ainda mais necessitada de párocos rurais. “para demonstrar, pela santidade das suas vidas, a verdade do Evangelho, no qual as pessoas tinham deixado de crer. A criança de Dardilly havia sido escolhida, de entre todas as outras, para ser o modelo desses santos padres, que são indispensáveis para a execução do plano divino.”

Anos mais tarde um sacerdote trouxe ao confessionário do Cura d’Ars um problema de consciência complexo, que tinha confundido os maiores teólogos morais, e viu que foi resolvido de forma imediata, elegante e convincente pelo simples pastor. Perguntou a Vianney onde tinha obtido um conhecimento teológico tão astuto e o santo respondeu apontando ao genuflectório.

O Cura estava profundamente convicto da sua própria indignidade e não retirava qualquer consolo da sua virtude. Rezava ardentemente para que não se tornasse o centro das atenções. Por exemplo, através das suas orações milhares de peregrinos a Ars foram curados de males físicos. Mas, aparentemente em resposta às mesmas orações, nunca eram curados imediatamente. Ele dizia-lhes para regressarem a casa e rezarem uma novena a Santa Filomena – e ao nono dia eram curados, sem atenções, longe de Ars.

Já é bem sabido que ele passava 16 a 17 horas por dia no confessionário. Isso em si já é espantoso. Mas depois lembrem-se que a Igreja não era aquecida. Ele brincava que ao fim de cada dia, no inverno, via os seus pés antes de os conseguir sentir. Tocava-os, dizia, para se assegurar de que ainda lá estavam.

No pico do verão os peregrinos que aguardavam em filas podiam sair durante alguns momentos para respirar ar fresco, de forma a não desmaiar. Mas ele passava o tempo todo atrás de uma cortina, dentro de uma caixa, alimentado pelo respirar dos penitentes e, frequentemente, pelo seu cheiro.

E essas 16 ou 17 horas eram passadas a ouvir pecados. Esta era a grande causa do seu sofrimento. “Desfaleço com melancolia nesta terra maldita”, disse, certa vez, a um colega padre. “A minha alma está numa tristeza de morte. Os meus ouvidos nada ouvem se não coisas dolorosas que partem o meu coração com tristeza”. O seu biógrafo compara-o a São Pedro, obrigado a assistir à Paixão do Senhor durante 17 horas por dia.

Dormia em cima de tábuas, apenas algumas horas por noite, suportando dores crónicas. Só a graça e o amor podem explicar a energia que sentia durante o dia. A comida que consumia diariamente não chegaria para uma pessoa sobreviver por meios naturais. Mais tarde, por obediência, passou a tomar um bocado de pão com leite depois da missa. O seu biógrafo conta-nos um incidente revelador. “O irmão Jerome, que estava frequentemente presente durante este leve repasto, notou que ele consumia o pão primeiro e só depois bebia o leite. ‘Mas, Monsieur le Curé’, observou ele um dia, quando viu a dificuldade com que ele engolia o pão, ‘se molhasse o pão no leite, seria muito melhor’. ‘Sim, eu sei’, respondeu Vianney, suavemente.”

A vida de um pároco era muito mais difícil do que a de um religioso, dizia ele. “Pensa-se que aquilo de que um padre precisa é de meditação, oração e união íntima com Deus. Mas o cura vive no mundo; conversa, mistura-se com a política, lê os jornais, tem a cabeça cheia destas coisas; depois vai ler o seu breviário e celebra missa; e faz tudo isto como se fosse uma coisa normal!”

De facto! As suas palavras aplicam-se tanto a leigos como a padres seculares. E as crises deste mundo são crises de santos.

 

Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 4 de Agosto de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.


Wednesday, 10 July 2019

Califórnia recua do confessionário, Rússia das ogivas

Quantos objectos vê?
A Califórnia retirou da agenda uma proposta de lei que obrigaria os padres a violar o segredo da confissão nalguns casos de abusos sexuais.

As dioceses do interior estão abertas a ajudar os estudantes a conseguir alojamento mais barato.

O diretor da Capela Sistina demitiu-se, no meio de alegações de fraude e irregularidades financeiras.

E do mundo das realidades paralelas, a Igreja Ortodoxa da Rússia está a pensar se devia, ou não, deixar de benzer coisas, tipo… ogivas nucleares e mísseis balísticos

É casado? Agora pense no que representa a sua aliança. Já pensou? A sua resposta foi algo do género: “representa o meu amor e fidelidade pela minha esposa/o meu esposo”?

Monday, 1 July 2019

Newman e ditadores ressuscitados

O Cardeal John Henry Newman vai ser canonizado no dia 13 de Outubro!

Espanha vai apresentar queixa formal sobre o núncio apostólico. A culpa é do Franco, claro.

Numa altura em que o segredo da confissão está sob ataque em vários sítios, o Vaticano emitiu um documento a falara da importância da inviolabilidade.



Ultimamente tenho lido, sobretudo nas redes sociais, várias referências aos trabalhadores das organizações que resgatam migrantes no Mediterrâneo como “negreiros” e traficantes humanos. Segundo esta lógica, evidentemente, as freiras que ajudam prostitutas são chulos e as instituições que socorrem grávidas adolescentes estão a incentivar a sexualidade desregrada. É a lógica dos “bloquistas de direita”.


Monday, 18 September 2017

E você, já rezou pelos políticos hoje?

Como tinha avisado, estive fora na semana passada e por isso não pude partilhar nenhuma das muitas notícias que foram publicadas por causa da morte inesperada de D. António Francisco, do Porto. Aqui podem recuperar algumas das mais importantes notícias e homenagens a um homem que era unanimemente considerado um cristão exemplar com um grande coração.

Esta segunda-feira o Papa alertou para a necessidade de se rezar pelos políticos, acrescentando que quem não o faz deve admiti-lo no confessionário. Ontem Francisco falou da necessidade de se perdoar e na incoerência de quem se recusa a fazê-lo.

Entretanto foi libertado o padre indiano que tinha sido raptado no Iémen há um ano e meio e um funcionário da nunciatura do Vaticano, em Washington, está a ser investigado por suspeita de pornografia infantil.

Durante a semana também publiquei um artigo novo do The Catholic Thing. David Warren recorda o autor Hillaire Belloc que previu, num livro escrito em 1938, que o Islão iria recuperar a sua força e continuar a ameaçar o Ocidente. Não perca!

Wednesday, 16 March 2016

O Patriarca, o Presidente e o Papa

Marcelo Rebelo de Sousa visita amanhã o Papa Francisco, na Santa Sé. A vaticanista Aura Miguel estará no local, pelo que podem saber de tudo na Renascença. Entretanto o Patriarca quer que o novo Presidente traga de Roma novidades sobre a visita do Papa a Portugal, em 2017.

Hoje, entretanto, o Papa Francisco ergueu a voz novamente sobre a situação dos refugiados.

Começa amanhã um curso de Marketing, comunicação e pastoral para organizações religiosas, organizado pelo Patriarcado. Saiba mais aqui.

A operação anti-terrorista na Bélgica terminou com um jihadista morto, dois detidos e outros em fuga e ainda hoje em França foram detidos quatro fundamentalistas que estariam a preparar um “ataque iminente” no centro de Paris. Enquanto isto, o congresso americano definiu a perseguição do Estado Islâmico aos cristãos como genocídio, o que coloca Obama sob pressão, saiba porquê.

Hoje temos um novo artigo do The Catholic Thing. Randall Smith fala, brilhantemente como sempre, da confissão, que descreve como “ser beijado por Deus”. Vale mesmo a pena ler e partilhar.

Penitência, Absolvição e o Perdão dos Pecados

Randall Smith
Estamos na Quaresma. É uma boa altura para nos confessarmos, embora as filas também sejam maiores. Lembro-me de me encontrar no final de uma dessas filas, à espera para me confessar, quando tive um pensamento terrível: E se eu passasse à frente de toda a gente na fila, me ajoelhasse diante do padre e dissesse: “Perdoa-me, padre, porque pequei. Acabei de passar à frente de uma data de pesso
as na fila”.

Será que ele me negaria a absolvição? Provavelmente não. Mas não tenho grandes dúvidas que a minha penitência seria voltar para o fim da fila e rezar Avé Marias até toda a gente acabar de se confessar.

A confissão é uma coisa bizarra. Não só entramos numa pequena divisão onde dizemos, em voz alta, todos os nossos pecados mais sórdidos e secretos, mas ouvimos uma pequena voz que nos diz as palavras do perdão, ainda antes de termos cumprido a penitência. Não devia ser ao contrário? Primeiro a penitência e depois a absolvição?

Claro que não. A penitência não é uma forma de ganhar o perdão de Deus. Aliás, ir-se confessar também não é. Cristo já nos conquistou esse perdão, através do seu sacrifício na Cruz. E esse perdão torna-se presente para nós através do seu Espírito Santo.

Mas se Deus já nos perdoou, e se a confissão torna esse perdão presente para nós de uma forma concreta, visível e audível, então para que serve a penitência?

Mesmo que alguém nos perdoe, isso não quer dizer que nós mudámos de alguma maneira. “Perdoar” é algo que a outra pessoa faz. E eu, que faço? Será que interiorizámos esse perdão? Mudou-nos? Dissemos verdadeiramente que “sim” ao amor transformador de Deus?

Digamos que eu roubo alguma coisa a alguém. Ao roubar, transformei-me num ladrão. Agora, digamos que essa pessoa, porque me ama, e porque não quer mais do que reconciliar-se comigo e fazer de mim seu amigo, ver-me andar para a frente e florescer, perdoa-me. A questão agora é: Será que vou continuar a ser ladrão?

O perdão abre a porta para uma relação modificada e uma vida nova. Mas seria um erro pensar que o perdão é o fim de um processo, quando na verdade é apenas o primeiro passo. O próximo passo é deixar que esse amor mude o meu coração e me coloque num novo rumo para a minha vida. Ninguém que nos ama verdadeiramente e nos perdoa quer que permaneçamos no nosso pecado, da mesma maneira que quem ama e perdoa a um alcoólico não o quer continuar a ver escravo do vinho.

A penitência depois da confissão é precisamente o primeiro desses passos numa nova direcção. Trata-se de compreender que o perdão de Cristo não é apenas algo que existe por aí, num vazio incorpóreo – uma nota de crédito que posso apresentar algum dia quando estiver a enfrentar o Céu ou o Inferno. O amor transformador de Deus não me deixa no meu pecado; o seu objectivo é transformar-me imediatamente. A graça do sacramento funciona mudando o meu coração. E se o meu coração for verdadeiramente mudado, então preciso de começar a viver de forma diferente.

Por isso, depois da confissão, tomo esses pequenos passos num novo rumo, cumprindo por inteiro, e fielmente, a minha penitência. Não porque imagino que ao fazer estas coisas estou a fazer por merecer o perdão e o amor de Deus. Não, nós amamos “porque Deus nos amou primeiro” (1 Jo, 4). Só se eu aceitar o amor e o perdão de Deus é que posso mudar. Basta-me olhar para o crucifixo antes de entrar no confessionário para compreender que Ele me ama e que já me perdoou. Vou-me confessar, não para mudar Deus, mas para deixar que Deus me mude.

É normal que essa mudança não aconteça instantaneamente, nem de forma simples. A graça de Deus trabalha ao longo do tempo, e Deus tem o seu próprio ritmo. Deus não exige que nos tornemos perfeitos num instante. O que Deus pede, e o que o padre nos diz em seu nome, é: “Dá uns pequenos passos. Depois tem fé que eu estarei activo na tua vida, frequentemente de formas que não serás capaz de ver”.

Pode ser difícil confessar-se. Por vezes parece uma espécie de morte. E até é, pois morremos para nós mesmos. Mas esse “morrer para nós mesmos” é necessário se quisermos “viver em Cristo”.

As pessoas estão sempre a perguntar-me porque é que Deus precisa de um padre e da confissão para nos perdoar os pecados. Claro que Deus não precisa nem de uma coisa nem de outra, Ele já nos perdoou os pecados. Nós é que precisamos do padre e da confissão. Somos nós que precisamos de reflectir a fundo sobre as nossas vidas e ganharmos consciência das formas como nos afastámos de Deus. Somos nós que precisamos de coragem para pronunciar, em voz alta, por palavras e a uma pessoa de verdade, os nossos pecados, para que o som ressoe bem alto nos nossos ouvidos e nos nossos corações. E somos nós que precisamos de ouvir as palavras da absolvição, para que saibamos, naquele momento de vergonha e humildade, que Deus nos perdoa.

Os sacramentos tornam presente para nós o amor de Deus de uma forma física. Perguntar para que é que “precisamos” da presença física de um sacramento é como perguntar se na verdade “precisamos” de beijar a pessoa que amamos. Poderíamos amá-la à distância, de uma forma “espiritual”, mas assim a coisa tem muito menos piada. Enquanto seres humanos físicos, a maior parte das pessoas parece achar que a cena dos beijos até é uma coisa boa.

Antes de me converter ao Catolicismo, já adulto, achava que a confissão era uma das coisas mais absurdas que se podia fazer. Mas entretanto compreendi que o acto físico da confissão é um dos melhores aspectos do Catolicismo. É como ser beijado por Deus.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 9 de Março de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Friday, 26 February 2016

BE? LOL...

Responsável pela comunicação do BE?
Hoje só se fala do cartaz do Bloco de Esquerda. A Igreja lamenta a falta de respeito pelas convicções religiosas dos cristãos, o PSD diz que este cartaz revela que o interesse das crianças nunca foi o motor do debate sobre a adopção por homossexuais e o CDS queixa-se de “ofensa gratuita”. Raquel Abecasis, da Renascença, só tem coisas boas para dizer ao Bloco.

Eu, se fosse bloquista, mais do que ter ofendido milhões de pessoas, estaria preocupado com o facto de as campanhas partidárias serem pensadas, aparentemente, por miúdos de 13 anos, leitores do Charlie Hebdo e com a mania que são rebeldes.

Bem mais interessante é a reportagem que publiquei ontem, o segundo da série que estou a fazer ao longo do Jubileu da Misericórdia. Nesta, sobre a confissão, o padre Bernardo Magalhães explica os efeitos que confessar tem sobre os padres e admite que gosta mais das pessoas depois de conhecer os seus pecados.

Realiza-se amanhã, sábado, a primeira Jornada Diocesana da Comunicação, em Lisboa.

Friday, 25 October 2013

A Graça da Vergonha

Tem graça...
O Papa Francisco ordenou ontem dois bispos. Foi a primeira ordenação episcopal de Francisco desde que foi eleito.

Esta manhã o Papa falou novamente sobre a confissão e sobre a “graça” de sentir “vergonha diante de Deus”.

Este fim-de-semana realiza-se a peregrinação das famílias a Roma. Afamília Cortez Lobão, com os seus oito filhos, fala da alegria de ter umafamília numerosa.

A propósito da pastoral da Família, a jornalista Ângela Roque falou com D. Antonino Dias. Ele diz que a cultura actual abandonou a família e critica os ataques à mesma, incluindo os que derivam de cortes de ordenados e de pensões.

Wednesday, 17 July 2013

Idosos, doentes, nascituros e outras obras primas

Papa Francisco na praia
Hoje certamente não vos passaram despercebidas as dezenas de manchetes a informar que o Papa ia “perdoar os pecados através do Twitter”. Pois é, o Papa Francisco surpreende, mas não a esse ponto. Claro que a notícia é absurda. Está tudo explicado aqui.

Entretanto o Papa avisou que não quer andar num carro blindado quando estiver no Rio de Janeiro, isto enquanto os escultores de areia se apressam a fazer homenagens ao Pontífice.

O Reino Unido está imerso numa discussão sobre os cuidados paliativos e eutanásia e a Irlanda acabou de aprovar o aborto em casos de “perigo de vida” para a mãe (que pode incluir o perigo de suicídio…). É nesse contexto que o Papa escreve aos católicos ingleses a dizer que mesmo os idosos, doentes e nascituros são “obras-primas de Deus”. Amen!

Wednesday, 26 June 2013

Sobre “Penitências Severas”

James V. Schall S.J.
O autor australiano Frank Sheed, fundador, juntamente com a sua mulher Maisie Ward, da famosa editora católica Sheed & Ward, adorava falar das suas experiências com a Catholic Truth Society (CTS). Ele e os amigos apresentavam e debatiam questões de fé com quem quisesse aparecer na esquina de Hyde Park, ou outros lugares famosos de debate e discussão em Londres. Tratava-se de um jogo de verdade e de perspicácia. Recentemente encontrei um ensaio de Sheed chamado “The Church and I”, no qual ele recorda estas experiências de controvérsia na via pública (Catholic Digest, Janeiro 1975).

Certo dia um dos seus colegas foi insultado e desafiado por uma mulher barulhenta e bastante pouco atraente. Era conhecida pelos seus pontos de vista sobre a Igreja, tudo menos positivos. O homem da CTS falava sobre confissão quando a senhora o interrompeu, em tom jocoso: “Oh, eu conheço-vos, católicos. Os vossos rapazes vão se confessar à Igreja que fica em frente à minha casa. A seguir vêm ter comigo para fazer amor”. Era preciso lidar com esta mulher de forma cuidadosa.

O homem da CTS esperou para que a gravidade da acusação tivesse o seu devido efeito. Depois respondeu, solenemente: “Minha senhora, não fazia ideia que os padres estavam a dar penitências tão severas hoje em dia”. Há que louvar o recurso à destreza e ao humor na teologia!

É preciso conhecer bem a prática e o ensinamento católico para apreciar o humor nesta resposta. Muitas pessoas não acreditam no pecado e disputam se, na prática, existe tal realidade. No entanto não deixam de acusar os católicos de hipocrisia porque alguns deles confessam os seus pecados, cumprem as penitências e depois, apesar das admoestações, voltam a cometê-los.

O próprio Cristo foi questionado sobre a quantidade de vezes que se deve perdoar ao pecador. “Até setenta vezes sete”, disse, em Mateus 18,22. O Senhor parece ter ficado menos surpreendido com a existência de pecadores insistentes do que nós. Ele percebeu, como Aristóteles, a dificuldade que temos em ultrapassar os nossos vícios.

Cristo disse várias vezes que os rectos não precisam de arrependimento. Ele veio salvar os pecadores, cuja existência parecia ser uma evidência. A salvação dos pecadores pressupõe logicamente: a) a existência do pecado (ou, melhor, que não fomos capazes de fazer o bem quando o podíamos ter feito); e b) a existência de algum meio pelo qual esses pecados podem ser reconhecidos e perdoados, nomeadamente uma “penitência”, seguida de reconhecimento de culpa pelo sucedido por parte do pecador. Mais, o pecado não é apenas uma rejeição humana e desordenada de um padrão objectivo do bem, carrega consigo a noção de que todos os pecados são pessoais e que tocam na verdadeira essência do pecador. Esta realidade explica porque razão nem os homens nem os anjos podem “perdoar” os pecados, mas apenas Deus.

A desordem do pecado é algo que atinge até a divindade. Jesus escandalizou os escribas e os fariseus ao afirmar que tinha o poder de perdoar os pecados. Eles bem sabiam que ele estava a reclamar para si um poder divino, que ele provou possuir implicitamente através dos milagres que fazia nestas ocasiões.


Na verdade, as “penitências severas” serviam para mostrar que o penitente estava consciente da desordem causada pelos seus pecados. Era tudo o que se podia fazer para restaurar os danos causados à ordem moral. Platão já tinha dito, e com razão, que por essa mesma razão devíamos desejar o castigo.

A ausência de penitência, severa ou outra, implica, no meu entender, um mundo em que nada do que fazemos importa realmente. Isto é precisamente o contrário do mundo que Deus criou. Neste mundo a sabedoria e o pecado podem existir lado a lado. Porque quando a Palavra foi feita carne o pecado deixou de ter a última palavra.

Será por isso que lemos nos Evangelhos que há mais alegria no Céu por um penitente do que por 99 justos que não precisam de “arrependimento?” (Lucas, 15,7)


Nota: Por decisão minha, retirei os primeiros dois parágrafos deste artigo, pois para além de complexos não encontrei neles grande ligação ao resto do texto. Contudo, para que não falte nada aos nossos leitores, aqui ficam os dois parágrafos completos.

Filipe d’Avillez

Na audiência geral de 17 de Outubro de 2012 o Papa Bento XVI disse que muitos problemas são causados pela compreensão incorrecta ou incompleta de palavras precisas e sentidos de doutrina, em particular do Credo. Pensamos que, desde que haja boas intenções, não precisamos de ser demasiado precisos sobre o que ensinamos. Não é verdade que devemos a nossa obediência a uma “Pessoa” e não a verdades abstractas? É verdade, desde que percebamos que a verdade consiste numa pessoa afirmar, cuidadosamente, aquilo que é verdade e a negar aquilo que não é.

A precisão do discurso e da definição estão na base da nossa liberdade na lei. Cristo, como explicou Peter Kreeft no seu livro “Philosophy of Jesus”, apresentou-se como um orador e pensador preciso. O termo “a Palavra fez-se carne” carrega consigo uma longa história de pensamentos confusos, que tiveram como efeito prático muitas coisas indesejáveis no nosso tempo. Dizer “Cristo, enquanto pessoa, é a Verdade”, não nos livra de ter de falar em termos precisos sobre quem e o que é que Ele é. Nem todas as palavras têm o mesmo sentido.


James V. Schall, S.J., é professor na Universidade de Georgetown e um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seu mais recente livro chama-se The Mind That Is Catholic.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 25 de Junho 2013 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Friday, 30 November 2012

“Sexual abuse crisis is opportunity for Australian Church”

Robert Hiini
Full transcript of the interview with Robert Hiini, journalist with The Record, diocesan newspaper of Perth, Australia, about the sexual abuse crisis in Australia.
See news story here (in Portuguese).

Transcrição integral da entrevista a Robert Hiini, jornalista de The Record, jornal diocesano de Perth, na Austrália, sobre o escândalo de abusos sexuais na Austrália. Ver notícia aqui.


The sexual abuse crisis has hit Australia now, what exactly is going on at the moment?
The most recent event is that the Federal Government has announced a Royal Commission into sexual abuse of minors in institutions, religious and non-religious. Victim groups have been making a concerted push, as have the media in the last six months, to drive the Government to take this action. On November 12th Prime Minister Julia Gillard announced a Royal Commission.

So the Commission will also focus on non-Catholic institutions? But media coverage seems to be almost exclusively related to religious institutions, is it not?
It’s true that the media have focused largely on the Catholic Church. The Australian Broadcasting Corporation (ABC) has run several high profile stories about specific dioceses and terrible incidents that have occurred in those dioceses and that has stirred a wider national conversation.

There are a lot of organized victim groups which have agitated for an investigation into the Catholic Church. One of the things that the leader of the opposition in the Federal Parliament said was conditional to his support for a Royal Commission was that it should not only pertain to the Catholic Church but should be extended to other organizations such as Government and non-Catholic organizations.

The cases that have come to light, are they recent?
The cases that have been referenced, particularly by the ABC are cases in which the incidents occurred nearly 20 years ago. I have heard statistics from the State of Victoria, Australia’s second most populous state, which suggest something like 13 to 20 cases that happened after 1990, so there seems to be a massive drop-off in the number of offenses, whether this is due to delayed reporting is anyone’s guess, but it certainly is true that most of the allegations are 15 to 20 years old or older.

How have the bishops reacted to the Royal Commission?
Australia’s bishops have universally welcomed the Royal Commission. There was a joint statement put out on behalf of all Australian bishops saying they welcomed the move and were interested in continuing to ensure that healing was available for victims. The one point of controversy was Cardinal George Pell, from Sydney, who held his own press conference on November 13 in which he reiterated support for the Royal Commission but also said he hoped the Royal Commission would separate fact from fiction, accusing what he described as a hostile media of exaggerating the number of claims. He’s been roundly criticized by the media and victim groups for doing that, but broadly Australian bishops have welcomed this move.

Julia Gillard, primeira-ministra da Austrália
There has been debate about the seal of confession…
There was a debate for many days, mainly in tabloid publications such as the News Limited publications but also in Australia’s second largest media group Fairfax publications. That seems to have died down, at least for the time being. It was set off by the premier of New South Wales who said he couldn’t imagine how a priest who heard that in confession could sit on it and not report it to police, and that fuelled the debate.
In the quality press it has largely been assessed to be a red herring. Most people would agree it’s not how most incidences of abuse come to light, and most people want to see real action taken to real situations.

As a journalist but also as a Catholic, what has your reaction been to what is going on?
I guess it’s a mixed picture for me because I watch some of the media coverage and there has been an incredible looseness of language. Whether the coverage relates to specific incidences in specific dioceses its always the church that is held to account. Of course as a Catholic whenever I hear “the church” I think of myself and one billion other people and the saints in heaven and so on.

But the reporting aside, when you hear the accounts of victims you know that that pain is real. And where there are incidents, particularly in the last 20 years when we are supposed to have cleaned up our protocols and our acts, when you hear of incidents that are recent, I see that as an opportunity to do our best by children. Having said that I think most media in Australia are of a progressive, vaguely anti-Catholic bent and some of this reporting seems to be a proxy for underlying resentment against the catholic church and its teaching, but I am trying to focus on the facts that have happened, and the pain of victims and making sure it doesn’t happen again, I think it’s an opportunity for us to do that.


Filipe d’Avillez

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