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Thursday, 28 December 2023

Estará Francisco a perder o controlo da Igreja?

[Esta é uma versão resumida de um artigo que escrevi para o Expresso, que pode ser lida na edição impressa e no site]

O Pontificado do Papa Francisco poderá estar a atravessar o seu momento mais difícil, com crises em diferentes pontos do mundo católico a pôr seriamente em causa a autoridade de Roma e a própria unidade da Igreja.

A declaração Fiducia Supplicans causou bastante polémica na Igreja, com o Dicastério para a Doutrina da Fé a anunciar que pessoas em uniões homossexuais podem receber bênçãos. Sem surpresas, a ideia que passou para o mundo foi de que o Papa acabava de aprovar a bênção de uniões homossexuais, apesar de o texto dizer explicitamente que a bênção é para as pessoas, e em caso algum para a relação em si.

No seguimento dessa declaração aconteceu um facto muito pouco comum, com muitos padres, bispos, e até conferências episcopais inteiras, a dizer que não aplicarão a Fiducia Supplicans nos seus territórios.

Pelo menos 10 conferências episcopais, incluindo a Polónia e o Canadá, já reagiram negativamente ao documento, algumas proibindo explicitamente a sua implementação, e outras apenas reiterando a proibição de bênçãos específicas para relações e uniões homossexuais.

E se é verdade que algumas das reações negativas vieram dos “suspeitos do costume”, também há bispos que são tidos como próximos de Francisco, como Ambongo Besungo, da República Democrática do Congo, que faz parte do grupo de cardeais consultores do Papa desde 2020 e chegou mesmo a pedir uma resposta conjunta de todos os bispos africanos, na qualidade de presidente do Simpósio de Conferências Episcopais de África e Madagáscar.

Talvez uma das respostas mais firmes tenha sido do arcebispo maior Sviatoslav Shevchuk, que é o líder da Igreja Greco-Católica da Ucrânia, que se demarcou do documento, dizendo que ele não se aplica à sua igreja. Shevchuk e Francisco podem ter tido alguns desentendimentos por causa da guerra na Ucrânia, mas são amigos e conhecem-se há muitos anos, pois Shevchuk liderou a comunidade ucraniana na Argentina.

Alemanha e Índia

Entretanto a maioria dos bispos alemães continua a defender o seu “caminho sinodal”, que já apelou explicitamente a mudanças na doutrina moral e sexual da Igreja e tem um caráter marcadamente progressista e liberal.

Francisco criticou abertamente o “caminho sinodal”, dizendo que “a Alemanha já tem uma Igreja evangélica, não precisa de outra”, mas até agora tem evitado tomadas de posição mais firmes que possam acelerar a divisão ou mesmo promover uma rutura. Esta atitude, contudo, leva as alas mais conservadoras a estranhar a dualidade de critérios, recordando que o Papa tem tido mão firma contra outras comunidades, como por exemplo os tradicionalistas, que viram limitada a liberdade que o Papa Bento XVI tinha concedido para a celebração de missa de acordo com a liturgia anterior ao Concílio Vaticano II.

O clima de desconfiança entre Roma e os grupos tradicionalistas espalhados pelo mundo tornou-se conhecida como a “guerra litúrgica” e torna ainda mais bizarro o que está a acontecer neste momento na Índia, onde o clero de uma diocese inteira pode estar prestes a ser excomungado.

Trata-se da diocese de Ernakulam-Angamaly, a principal da Igreja Siro-Malabar, a segunda maior igreja católica de rito oriental do mundo, a seguir à já referida igreja ucraniana. A Igreja Siro-Malabar tem mais de quatro milhões de membros, e só a diocese de Ernakulam tem 500 mil, com pelo menos 400 padres.

Tal como outras igrejas de rito oriental, a Igreja Siro-Malabar tem a sua própria liturgia, de origem siríaca, muito anterior à chegada dos portugueses à Índia. Contudo, essa liturgia sofreu muitas influências latinas ao longo dos séculos, que a Igreja tem tentado retificar. Uma dessas influências levou a que em algumas dioceses, incluindo em Ernakulem, os padres passassem a celebrar a liturgia voltados para a comunidade, em vez de seguir a tradição de celebrar voltados para o altar.

Como parte do esforço de uniformização e regresso às raízes litúrgicas, o sínodo da Igreja Siro-Malabar chegou a uma fórmula de consenso em que os padres celebram voltados para os fiéis, exceto a liturgia eucarística, em que se voltam para o altar. Todas as dioceses aceitaram, menos a de Ernakulem, onde padres e fiéis se revoltaram de tal forma contra as novas regras que a polícia encerrou a catedral para evitar cenas de violência e grupos de fiéis queimaram efígies de cardeais da cúria romana.

Falhadas várias tentativas de mediação, o Papa Francisco enviou uma mensagem para a diocese em que pediu aos padres para “não se tornarem uma seita”, sublinhando que a persistência na desobediência poderia levar à excomunhão. Francisco deu até ao Natal para se começar a celebrar o novo rito, mas no dia 25 de dezembro os padres da diocese limitaram-se a celebrar uma missa de acordo com essa liturgia, deixando claro que o faziam por respeito ao Papa, e que ela não se tornaria regra. A possibilidade de um acordo não está descartada, mas o braço-de-ferro mantem-se.

A ironia de o Vaticano estar, de um lado, a pressionar os fiéis de rito latino que querem celebrações com o padre voltado para o altar e, do outro, a ameaçar com excomunhão os padres e fiéis que querem celebrar voltados para o povo, tem sido sublinhada, embora as situações não sejam idênticas. Mas o que as duas realidades revelam é que Francisco tem entre mãos uma Igreja Católica universal cada vez mais dividida, com conflitos abertos sem solução evidente à vista.

Acresce que a idade avançada do Papa, e a sua saúde frágil, tornam ainda menos provável que ele consiga resolver estas crises antes do final do seu pontificado, até porque os seus opositores podem estar dispostos simplesmente a esperar que seja eleito o seu sucessor, para terem um novo parceiro de diálogo, o que implica também que todas estas questões: as bênçãos a homossexuais, o caminho sinodal alemão e as diferentes frentes das guerras litúrgicas, podem vir a desempenhar um papel importante no próximo conclave. 

Thursday, 14 December 2023

Bispos e política, falar ou não falar?

Causou alguma polémica a notícia de que dei conta a semana passada de que os bispos da Baviera tinham denunciado o partido Alternativa para a Alemanha (AdF), que muitos consideram ser de extrema-direita.

Embora alguns tenham considerado que o facto de eu divulgar a notícia constituía apoio da decisão, a verdade é que eu não sei mesmo o que pensar sobre este assunto. É, sem dúvida, um terreno muito complicado.

Entretanto, acabei de publicar ontem um artigo do TheCatholic Thing que explica como o regime da Nicarágua, que tem perseguido de forma implacável a Igreja Católica, chegou ao poder com o apoio de muitos católicos, que chegaram a desempenhar cargos no Governo.

Sem dúvida, a intervenção da Igreja na política é um campo difícil e pantanoso. Normalmente os pântanos evitam-se, mas quando é preciso ir para lá – e às vezes é preciso – deve-se caminhar com o maior cuidado para não se afundar no lodo.

Se é verdade que não tenho uma posição firme sobre este assunto, tenho certamente várias ideias soltas que acho que podem contribuir para uma discussão interessante, a que vos convido a dar seguimento na caixa de comentários* ou nas redes sociais.

  • Os primeiros interessados em que os bispos se mantenham calados sobre questões de política partidária são os políticos. Talvez seja mesmo uma das coisas que mais une a esquerda e a direita.
  • Pelo contrário, acho que os bispos têm não só o direito como mesmo o dever de falar de política, sobretudo para alertar os fiéis para políticas, medidas ou propostas que sejam claramente contrárias à doutrina e aos valores cristãos.
  • Obviamente, este zelo dos bispos pelo bem-comum deve-se aplicar tanto à direita como à esquerda. Quando isso não acontece, os bispos perdem credibilidade e expõem-se a críticas que acabam por desviar a discussão daquilo que é essencial.
  • A Igreja alemã tem um historial recente louvável de intervenção pública e denúncia de políticas anticristãs. Foi firme, e sofreu devidamente, durante o regime nazi. Isso está muito bem documentado. Esse é um legado que honra os católicos alemães.
  • Há uma tendência hoje em dia para confundir direita populista com extrema-direita. Existem ligações, mas não são a mesma coisa. Eu não sei se a AdF é de extrema-direita ou não, mas aceito que os bispos da Baviera sintam que existe uma ameaça suficientemente grande para que deva ser denunciada. Agora, a AdF é a única força partidária que defende posições anticristãs? Todos os outros partidos na Alemanha defendem posições compatíveis com a doutrina católica? Tenho sérias dúvidas. A solução não é os bispos estarem calados, é os bispos falarem, mas falarem de tudo, e não apenas da ameaça mais recente ou mais premente.

E em Portugal?

Estamos a meses das eleições e os partidos preparam-se para entrar em campanha. Devem os bispos falar sobre a previsível subida da direita populista em Portugal? Podem fazê-lo sem falar sobre os perigos de reeleger uma esquerda supostamente moderada, mas que continua a insistir em presentear-nos com medidas perigosíssimas como a lei da autodeterminação de género nas escolas, a eutanásia e o aborto?

A questão, a meu ver, é que a Igreja em Portugal parece distinguir entre os partidos do sistema – com os quais tem anos de ligação, diálogo e experiência, e que por isso considera serem “seguros”, ainda que discorde e se pronuncie pontualmente sobre certas políticas isoladas – e os partidos “antissistema”, especialmente os novos. No caso da direita populista, por exemplo, acresce o facto de alguns tentarem apresentá-lo como estando alinhado com os valores católicos. Eu percebo que para os bispos seja mais fácil alertar contra esses partidos novos, e pessoalmente não acho mal que o façam, mas acho que estamos num ponto em que não podem continuar a confiar cegamente nos partidos “do sistema” que continuam a inquinar o mesmo, tornando-o impróprio para consumo, alimentando assim a impaciência e a revolta que fazem subir os partidos populistas e extremistas.

Pessoalmente, gostava de ver bispos com coragem de criticar abertamente as políticas anticristãs do populismo da direita e da esquerda, mas que critiquem com igual vigor as políticas dos partidos supostamente moderados que continuam a destruir a família, a impor uma cultura da morte e a tratar os nossos filhos como matéria-prima para formatação ideológica.

É possível fazer isto? Não é certamente fácil. Mas talvez se os bispos demonstrassem vontade firme de criticar as medidas e propostas condenáveis de qualquer partido, mesmo que isso implique criticá-los a todos, elogiando as medidas que verdadeiramente promovem o bem comum e os valores cristãos, ainda que isso implique elogiar medidas em todos os partidos, isso leve os próprios partidos a passar a tomar em consideração a possível reacção da Igreja – como força formadora de consciências – quando elaboram e anunciam os seus programas políticos.

Utópico? Talvez. Mas se não acreditarmos que há uma saída deste lamaçal, então só nos resta o desespero, e o desespero transformado em votos costuma dar muito mau resultado.  


* Há algum tempo que adoptei a prática de não entrar em diálogo com autores de comentários anónimos. Eu assumo tudo o que escrevo e digo, espero o mesmo de quem quer conversar comigo. 

Thursday, 7 December 2023

Votos na Baviera e Colonatos na Terra Santa

Não votarás na extrema-direita - Marx
A semana passada escrevi um texto sobre a retirada do apartamento e do estipêndio ao Cardeal Raymond Burke, que gerou alguma conversa. O texto original está aqui, e ainda está a valer, mas entretanto o The Pillar diz que soube que o cardeal foi informado por escrito de que teria de começar a pagar uma renda ao valor do mercado pelo seu apartamento, ou sair até final de Fevereiro de 2024. Segundo o site, a carta nada dizia sobre o estipêndio, mas parece que o cardeal já começou a procurar outra residência porque quer permanecer em Roma.

Ao longo dos últimos anos temos assistido a alguma tensão no campo da religião e da política, com as diferentes Igrejas e religiões a reagir à subida da direita populista em vários países. Recentemente vimos a eleição na Argentina de um homem que considera que o Papa Francisco é comunista, e agora temos os bispos da Baviera, o coração do catolicismo alemão, a declarar que um católico não pode, em consciência, votar no partido Alternativa para a Alemanha, de extrema-direita. É sem dúvida um assunto que ainda vai dar muito que falar, possivelmente até aqui em Portugal.

Continua em força a ofensiva israelita em Gaza. A minha amiga Catarina Santos, da Renascença, traz-nos esta bela reportagem sobre a vida dentro de um colonato judeu nas Cisjordânia que vale a pena verem. Isto enquanto o Papa continua a apelar, incansavelmente, pela paz, apesar do cansaço físico causado pela doença.

Já todos sabemos que os novos padres tendem a ser mais conservadores que a geração anterior. Isto preocupa uns e anima outros, mas um novo estudo aprofundado feito nos Estados Unidos demonstra que a realidade é mais complexa do que parece. No mais recente artigo do The Catholic Thing em português, Stephen P. White explica que os dados mostram uma nova geração de padres mais conservador em termos teológicos que a geração dos anos 60 e 70, sim, mas também mais moderado em termos políticos do que a geração imediatamente anterior e, o que é também importante, etnicamente mais diverso do que qualquer outra geração de padres desde antes do Concílio Vaticano II. É verdade que são dados relativos aos EUA, mas eu acredito que pode haver aqui paralelos importantes, e interessantes, com Portugal. Leiam que vale bem a pena e partilhem as vossas opiniões.

Estamos no Advento, um excelente tempo para aprofundar a oração. Rezemos pela paz no Médio Oriente, rezemos pelos padres, novos e velhos, e se tiverem um minuto rezem por mim e pela minha mulher, que fazemos amanhã 18 anos de casados. Tem sido cada ano melhor que o outro, e os que virão serão melhores ainda, com a Graça de Deus!

Thursday, 7 September 2023

Józef e Wiktoria Ulma e filhos, orate pro nobis

Regressado de férias estava a pensar sobre o que é que deveria escrever neste dia em que recupero a actividade da Actualidade Religiosa. Não faltam possibilidades! O novo Patriarca de Lisboa e a viagem do Papa à Mongólia são duas das mais evidentes, mas um dos objectivos da Actualidade Religiosa é de fazer chegar aos meus leitores informação e perspectivas que não encontram facilmente noutro lado. É por isso que hoje decidi escrever sobre a família Ulma.

Józef e Wiktoria Ulma casaram em 1935 na Igreja de Santa Doroteia, na aldeia de Markowa, na Polónia.

Quatro anos mais tarde começou a Segunda Guerra Mundial, precisamente com a invasão da Polónia pela Alemanha Nazi.

Em 1942 os Ulma já tinham vários filhos quando oito judeus – os seis membros da família Szall e as irmãs Goldman – vieram pedir ajuda para se refugiar dos nazis, que estavam a proceder à captura e assassinato sistemáticos dos judeus naquele país.

Józef e Wiktoria tinham todas as razões do mundo para dizer que não. Já tinham assistido à matança dos judeus de Markowa no Verão de 1942, sabiam como os nazis eram implacáveis e sanguinários. Ainda por cima tinham filhos com que se preocupar, mais as suas próprias vidas para salvaguardar. Todos sabiam que albergar ou auxiliar judeus era um crime punível com a morte.

Todavia, eles abriram a sua casa àquelas famílias.

Ao longo destes últimos anos tenho lido bastantes livros sobre este período da história, incluindo um livro perturbador sobre os homens que compunham os pelotões de polícia alemã que eram responsáveis por prender e executar judeus em massa na Polónia, um livro quase enciclopédico sobre a perseguição nazi aos católicos na própria da Alemanha e outro sobre pessoas comuns que resistiram aos nazis na Alemanha também. É muito simples dizer que os Ulma arriscaram as suas vidas para salvar judeus porque eram católicos, e porque os católicos são chamados a esse tipo de sacrifício. Mas é demasiado simples. A Polónia estava repleta de católicos naquele período, como está agora, e embora haja muitas histórias de homens e mulheres que arriscaram ou deram mesmo a vida para salvar quem era injustamente perseguido – sendo que pelo menos 1000 polacos não-judeus foram executados pelos nazis por essa razão – também não há falta de actos terríveis de violência levados a cabo contra judeus por cidadãos normais, ou de pessoas que denunciaram aqueles que escondiam os judeus.

Porque é que os Ulma eram diferentes? A sua fé era mais profunda? Acho que não será só isso. A meu ver há aqui um factor importante de decisão racional, assente, certamente – sobretudo neste caso – numa fé profunda, que sabemos que os animava.

Eu acredito que a dada altura os Ulma tiveram de pesar aquilo que lhes poderia acontecer caso fossem apanhados e tomaram uma decisão firme de que estavam dispostos a abraçar essa cruz caso lhes fosse apresentada. E acredito que é, acima de tudo, essa a lição que a sua história contém para nós.

Nós que temos a nossa fé, que fazemos a nossa vidinha, mas que, na pior das hipóteses, levamos com umas bocas nas redes sociais por sermos beatinhos, alguma vez parámos para pensar o que faríamos se estivéssemos numa situação em que fossemos chamados a pôr a nossa vida em risco para salvar inocentes? E não só a nossa vida, mas a dos nossos filhos? Não é bonito de pensar, mas penso que esse é um exercício a que todos nos devemos submeter de vez em quando, e idealmente devemos fazer as pazes com essa ideia, meditar nela e contemplá-la, para que se algum dia nos encontrarmos nessa situação termos mais armas espirituais para resistir ao instinto natural de preservação da nossa vida e da dos nossos filhos.

Claro que aqui estamos a falar de um gesto absolutamente radical, mas a verdade é que podem surgir nas nossas vidas muitas outras situações em que o que está em causa não é a vida, mas o bem-estar, o conforto material ou financeiro. Se fizermos este exercício para o sacrifício máximo, creio que estaremos em melhor posição para o podermos pôr em prática nos sacrifícios mais banais.

Em 1944 um polícia denunciou os Ulma aos nazis. Parece que era um homem que já tinha ajudado os Szall a troco de dinheiro e que estava a tomar conta dos seus pertences, e que assim fez quando eles tentaram reclamar as suas coisas.

No dia 24 de Março de 1944 a polícia alemã apareceu na casa dos Ulma. Os judeus foram localizados e executados. Depois toda a família foi reunida. Aparentemente, nesse momento Wiktoria entrou em trabalho de parto e deu à luz o seu sétimo filho. Sem qualquer piedade, os nazis executaram toda a família, incluindo o recém-nascido.

A execução dos Ulma causou tanto pânico entre os polacos que ainda estavam a esconder judeus, que na manhã seguinte foram encontrados 24 cadáveres de judeus nos campos. Tinham sido assassinados pelas mesmas pessoas que lhes tinham dado guarida durante 20 meses.

Em 1995 os Ulma foram reconhecidos Justos entre as Nações pelo memorial Yad Vashem, em Israel.

Mais recentemente, as autoridades locais usaram o exemplo da família Ulma como justificação para acolher ucranianos refugiados e continuar a apoiar a nação ucraniana durante a guerra.

Agora, no dia 10 de Setembro, toda a família Ulma será beatificada, depois de terem sido considerados mártires. Trata-se da primeira vez que uma família é beatificada em conjunto.

No nosso tempo, pelo menos aqui na nossa realidade europeia e ocidental, temos os nossos desafios, mas felizmente sabemos que não corremos risco iminente de vida ou de liberdade por viver a nossa fé. Mas nunca se sabe quão rapidamente essa realidade pode mudar e podemos ser chamados a actos de heroísmo altruísta, a que a Igreja chama santidade. Se esses dias chegarem, que tenhamos todos a força e a coragem dos Ulma e de tantos outros que se sacrificaram pelo bem em todos os períodos da história.

Monday, 3 April 2023

O Caminho Sinodal Alemão

Participei hoje no programa "O Explicador", da Rádio Observador, para falar sobre o Caminho Sinodal alemão. 

Durante a minha participação tentei passar os seguintes pontos importantes: 

1. O caminho que a Igreja alemã está a trilhar é tirado a papel químico do caminho percorrido pela Igreja Anglicana ao longo das últimas décadas. O fim, se as coisas continuarem assim, prevê-se idêntico: uma divisão quiçá insanável na Igreja Universal.

2. A importância do dinheiro. Na Alemanha continua a existir uma relação promíscua entre a Igreja e o Estado. Quem é católico paga um excedente de impostos que são depois enviados para a Igreja. Quem não tem religião declarada fica com esse dinheiro no bolso. Isso dá aos alemães um incentivo para se desvincularem da Igreja e quanto mais esta está distante dos valores mainstream da sociedade, mais estes se desvinculam, resultando numa perda de receitas para os cofres da Igreja. Existe assim um incentivo particular para os bispos estarem "em sintonia" com os valores da sociedade, pois o contrário sai-lhes do pêlo, ou do bolso. 

3. A Igreja alemã está claramente a avançar a este ritmo para criar factos no terreno para depois, quando os assuntos forem discutidos num sínodo da Igreja Universal, poderem dizer que as coisas já estão feitas e não há nada a fazer sobre o assunto. 

Podem ouvir o programa completo aqui.


Wednesday, 27 April 2022

A Resposta Alemã

Stephen P. White
A semana passada 70 bispos de vários países escreveram ao bispo Georg Bätzing, presidente da Conferência Episcopal Alemã, para expressar a sua crescente preocupação com o rumo do “Caminho Sinodal” alemão. (Entretanto outros bispos acrescentaram os seus nomes à carta.) Tratou-se da mais recente de uma série de intervenções a pedir aos alemães para pôr o pé no travão. A resposta do bispo Bätzing, publicada três dias mais tarde, não contribuiu muito para apaziguar essas preocupações.

Na verdade, o bispo Bätzing mostrou-se mais preocupado em descartar do que em confrontar as críticas. Disse-se mesmo “espantado” com as preocupações dos seus irmãos bispos em relação ao Caminho Sinodal, o que não deixa de ser estranho, tendo em conta que o mesmo género de preocupações tem sido expressado publicamente por outros, incluindo os bispos nórdicos, os bispos polacos (em mais do que uma ocasião) e até pelo próprio Papa Francisco.

Segundo Bätzing, o Caminho Sinodal “é precisamente orientado não por teorias sociológicas ou ideológicas, mas rumo às fontes centrais de conhecimento da fé: Escritura e Tradição, o Magistério e Teologia, bem como o sentido de fé dos fiéis e os sinais dos tempos, interpretados à luz do Evangelho”.

“Esta orientação básica”, continua o bispo Bätzing, “determina as considerações do Caminho Sinodal numa cuidadosa reflexão teológica. Logo, não é correcto dizer que existe um perigo de cisma a emanar da Igreja Católica na Alemanha”.

Claro que a preocupação manifestada pelas recentes intervenções episcopais não é de que o Caminho Sinodal tenha deixado de “reflectir” sobre a “Escritura e a Tradição, o Magistério e a Teologia”, mas que a visão germânica destas “fontes centrais” diverge de – e é mesmo incompatível com – o resto da Igreja. A confiança cega nas visões divergentes não diminui o perigo de cisma, muito pelo contrário.

É importante compreender o grau em que a crise dos abusos sexuais moldou o Caminho Sinodal alemão. O bispo Bätzing traça uma ligação clara entre a crise de abusos que abalou o seu país nos últimos anos e a necessidade de reformas significativas. “O Caminho Sinodal”, escreve Bätzing, “é a nossa tentativa, na Alemanha, de confrontar as causas sistemáticas da crise dos abusos e do seu encobrimento, que causou um sofrimento incomensurável a tanta gente na Igreja e através da Igreja.” É uma posição compreensível, e claramente partilhada por muitos na Alemanha”.

À luz desta realidade, algumas das reformas a ser consideradas ou propostas pelo Caminho Sinodal fazem sentido. Por exemplo, reformar o processo de nomeação dos bispos, a formação dos seminaristas e como são tratados os casos de abusos praticados por padres. Estes são assuntos evidentes, se bem que complexos, com os quais muitas igrejas se têm debatido, e continuarão a debater-se durante muitos anos. A Igreja nos Estados Unidos tem a Carta de Dallas há já duas décadas e continuamos a lidar com estas mesmas questões.

Por mais complicadas que sejam algumas destas questões, a criação de padrões de responsabilização, a reforma das nomeações episcopais ou a formação dos seminaristas são, de certa forma, a parte mais fácil. Mudar a cultura clericalista que instintivamente protege os seus é muito mais difícil. O abuso de poder não é um problema que se possa eliminar simplesmente passando o poder de um grupo (clero) para outro (leigos), como se os leigos fossem de alguma forma imunes à tentação de abusar da autoridade. Claro que a concepção da Igreja pela perspectiva do “poder” é, em si, um grave erro.

Na sua carta de 2019 à Igreja alemã, o Papa Francisco alertou para uma espécie de pelagianismo que espera “salvar” a Igreja através de reformas estruturais e organizacionais: 

Seguindo este caminho, a Igreja poderia eliminar tensões da sua vida, estar “em ordem e em sintonia”, mas isso significaria apenas que com o passar do tempo a Igreja adormeceria e o coração do nosso povo ficaria amestrado e mirrado até que a força vital e evangélica que o Espírito nos quer conceder se silenciasse. Este seria o grande pecado da mundanidade e do espírito antievangélico mundano. Teríamos uma Igreja boa, bem-organizada e até “modernizada”, mas sem alma e sem a novidade do Evangelho. Viveríamos num cristianismo vaporoso, sem sabor evangélico.

O Papa Francisco tem feito declarações semelhantes no passado a bispos americanos. As reformas organizacionais são importantes, mas a conversão – e mesmo a evangelização – são mais essenciais.


Por mais que se fale na necessidade de uma reforma sem medos, na sequência da crise de abusos, as propostas mais controversas que nos chegam do Caminho Sinodal alemão não têm qualquer relação evidente com esta crise de abusos. Na verdade, muitas das recomendações que saíram da última sessão do Caminho Sinodal são idênticas ao cardápio de assuntos que os católicos progressistas têm estado a propor há décadas: acabar com o celibato, ordenar mulheres, abandonar os ensinamentos da Igreja sobre a natureza da sexualidade e dos actos humanos (isto é, deixar de parte as proibições “antiquadas” da Igreja sobre a contracepção e os actos homossexuais).

Uma Igreja que perdeu a fé nos seus próprios ensinamentos não pode anunciar o Evangelho de forma credível. E a solução não passa por escolher ensinamentos mais socialmente aceitáveis. A fé na Alemanha não será ressuscitada por uma Igreja que vê nos seus próprios ensinamentos obstáculos a ultrapassar, em vez de uma Boa Nova a proclamar.

E esse é outro ponto que o Papa Francisco levantou com os bispos alemães. “A Igreja começa por se evangelizar a si mesma. Sendo uma comunidade de crentes, uma comunidade de esperança partilhada e vivida, uma comunidade de amor fraterno, precisa de ouvir recorrentemente aquilo em que deve acreditar, as razões para a sua esperança, o novo mandamento do amor”.

Uma Igreja sinodal é uma Igreja que escuta. Ouvimos isto vezes sem conta. Só podemos esperar que a Igreja alemã aprenda a “ouvir recorrentemente aquilo em que deve acreditar”, especialmente numa altura em que o número de bispos a sugerir cautela continua a aumentar.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing no sábado, 23 de Abrilo de 2022)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing 


Wednesday, 13 April 2022

70 Bispos Alertam para “Caminho Sinodal” Alemão

Francis X. Maier

Em tempos de desassossego e confusão, tentativas bem-intencionadas de descentralizar uma comunidade ou uma organização podem ter consequências indesejadas. A Igreja não é imune a este facto, e isso é algo que os católicos na Alemanha parecem determinados a comprovar.

Em declarações feitas à revista “Stern”, em finais de Março, o cardeal Reinhard Marx, de Munique, pareceu incentivar alterações ao ensinamento da Igreja em relação à homossexualidade. Reconhecendo que já abençoou casais homossexuais, Marx notou que “o catecismo não está escrito na pedra” acrescentando que “há anos que me sinto mais livre para dizer aquilo que penso, e quero modernizar o ensinamento da Igreja”.

Os comentários de Marx não nos devem surpreender. Estão em linha com o trabalho desenvolvido, até à data, pelo “Caminho Sinodal” alemão, um processo de consulta plurianual em curso na Alemanha. Embora não sejam vinculativos para os líderes da Igreja alemã, os documentos do Caminho Sinodal já expressaram apoio ao celibato opcional para os padres, para bênçãos para uniões homossexuais, revisão do ensinamento da Igreja sobre homossexualidade e ordenação de mulheres, e um papel maior para os leigos na nomeação de bispos.

Especialmente numa altura em que se está a preparar um “sínodo sobre a sinodalidade”, para 2023, o teor do Caminho Sinodal Alemão tem implicações profundamente perturbadoras e, para alguns, cismáticas. No dia 9 de Março os bispos dos países nórdicos expressaram a sua preocupação com o percurso alemão. Isto seguiu-se a uma carta pública divulgada em finais de Fevereiro pelo presidente da Conferência Episcopal polaca. Agora, numa carta de 11 de Abril tornada pública na passada segunda-feira e divulgada pela Catholic News Agency, mais de 70 bispos, incluindo quatro cardeais, dos Estados Unidos, Canadá e África, juntam as suas vozes ao coro de preocupações.

Na sua “Carta Aberta Fraterna aos Nossos Irmãos Bispos na Alemanha”, os signatários notam que “enquanto irmãos bispos, as nossas preocupações incluem, mas não se limitam ao seguinte”:

1. Ao não escutar o Espírito Santo e o Evangelho, as acções do Caminho Sinodal minam a credibilidade da autoridade da Igreja, incluindo a do Papa Francisco; da antropologia cristã e moralidade sexual; e a fiabilidade das Escrituras.

2. Embora incluam ideias e vocabulário religioso, os documentos do Caminho Sinodal Alemão parecem ser inspirados, em grande medida, não pela Escritura e pela Tradição – que de acordo com o Concílio Vaticano II são “um único depósito da Palavra de Deus” – mas antes por análises sociológicas e ideologias políticas contemporâneas, incluindo de género. Eles vêem a Igreja e a sua missão da perspectiva do mundo, e não pela lente das verdades reveladas na Escritura e pela autoridade da Tradição da Igreja.

3. O conteúdo do Caminho Sinodal também parece reinterpretar, e por isso diminuir, o sentido da liberdade cristã. Para o cristão a liberdade está no conhecimento, na vontade e na capacidade desimpedida de fazer o bem. A liberdade não é “autonomia”. A verdadeira liberdade está, como ensina a Igreja, ligada à verdade e ordenada à bondade e, no final de contas, à beatitude. A consciência não cria a verdade, nem é uma questão de preferência pessoal ou autoafirmação. Uma consciência cristã bem formada mantem-se submissa à verdade sobre a natureza humana e às normas que orientam uma vivência recta, revelada por Deus e ensinada pela Igreja de Cristo. Jesus é a verdade, que nos liberta. (Jo. 8)

4. A alegria do Evangelho – que como o Papa Francisco tantas vezes sublinha é uma parte essencial da vida cristã – parece estar totalmente ausente das discussões e dos textos do Caminho Sinodal, uma falha gritante num esforço que procura a renovação pessoal e eclesial.

Cardeal Marx
5. Em quase todo o seu processo, o Caminho Sinodal é o trabalho de peritos e de comissões: cheia de burocracia, obsessivamente crítica e introspectiva. Assim reflecte uma manifestação alargada de esclerose eclesial e, ironicamente, é marcada por um tom antievangélico. Nos seus efeitos, o Caminho Sinodal revela maior submissão e obediência ao mundo e às ideologias que a Jesus Cristo enquanto Senhor e Salvador.

6. O enfoque do Caminho Sinodal no “poder” dentro da Igreja sugere um espírito absolutamente contrário à verdadeira natureza da vida cristã. No final de contas, a Igreja não é apenas uma “instituição”, mas uma comunidade orgânica; não é igualitária, mas familiar, complementar e hierárquica – um povo consolidado no amor por Jesus Cristo e uns pelos outros, em seu nome. Este encontro com Jesus, como visto no Evangelho e nas vidas dos santos ao longo da história, muda corações e mentes, cura, afasta-nos de uma vida de pecado e infelicidade e revela o poder do Evangelho.

7. O pior problema do Caminho Sinodal alemão, e o mais preocupantemente imediato, é terrivelmente irónico. Através do seu exemplo destrutivo, poderá levar alguns bispos e muitos leigos fiéis, a desconfiar da própria ideia de “sinodalidade”, dificultando assim ainda mais a conversa necessária da Igreja sobre o cumprimento da missão de converter e santificar o mundo.

Num tempo de confusão, a última coisa de que a nossa comunidade de fé precisa é de mais do mesmo. Enquanto discernem a vontade do Senhor para a Igreja na Alemanha, asseguramos-vos das nossas orações por vós.

Embora reconhecendo que “muitos dos que estão envolvidos no Caminho Sinodal são sem dúvida pessoas de carácter excelente”, os bispos signatários notam que “a história do Cristianismo está recheada de esforços bem-intencionados que perderam a âncora da Palavra de Deus, num encontro fiel com Jesus Cristo” e numa “verdadeira escuta do Espírito Santo”. Entre esses esforços podemos incluir até a Reforma, que começou quase precisamente há 500 anos… na Alemanha.

O cerne da carta de 11 de Abril está aqui: “A urgência da nossa carta conjunta está enraizada em Romanos 12 e sobretudo na cautela deixada por Paulo: Não se conformem com o mundo. E a sua seriedade deriva da confusão que o Caminho Sinodal já causou e continua a causar, e o perigo de um cisma na vida da Igreja que inevitavelmente resultará”.

Como outros avisaram antes de nós: O que acontece na Alemanha não se fica pela Alemanha. A história já nos ensinou essa lição uma vez.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 12 de Abril de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 16 March 2022

Vendendo o Homicídio

Francis X. Maier

O que vou fazer aqui é publicidade pura, mas o produto merece. Se ainda não viu a curta-metragem “Perdoai as Nossas Ofensas”, na Netflix, que saiu no dia 17 de Fevereiro, arranje maneira de o fazer rapidamente. O filme tem pouco mais de 14 minutos e quase que parece um trailer para uma longa metragem. Nem se trata de uma obra de genialidade cinematográfica. O guião, a realização e a produção são muito simples, quase primitivos. E, contudo, como escreveu um crítico, está cheio de “notas de tensão, acção dramática e descompressão que normalmente esperaríamos num filme de visão mais alargada”. Enquanto “grande filmografia em pequena escala” é um sucesso. É por isso que é memorável.

Dezenas de filmes têm sido feitos sobre a tragédia do Holocausto ao longo dos últimos 70 anos. Mas poucos examinaram o programa que antecedeu a Solução Final e permitiu aperfeiçoar as suas técnicas. Entre 1939 e 2945, a campanha Aktion T4, do Terceiro Reich, assassinou 300 mil pessoas com deficiências físicas e mentais através da eutanásia involuntária. Através da propaganda oficial do Estado, as matanças eram vendidas como um acto de compaixão pelas vítimas, de necessidade económica para a nação e geneticamente benéfico para o povo alemão.

“Perdoai as Nossas Ofensas” conta uma história muito diferente: a história de uma mãe que sacrifica a sua vida para ajudar o seu filho deficiente a fugir a uma campanha de desumanidade clinicamente organizada.

Como é que a nação supostamente mais avançada da Europa, do ponto de vista cultural, embarcou numa tarefa destas? É tentador explicar o programa Aktion T4 como sendo o fruto da ideologia Nazi. Mas isso seria incompleto. Grande parte do corpo médico alemão tinha “seguido a ciência” e aceitado como benéfica a esterilização forçada e a eutanásia voluntária, e não só, antes de Adolf Hitler chegar ao poder. Foram médicos e cientistas, e não os capangas do Partido Nazi, que abraçaram a ideia em primeiro lugar. O Reich simplesmente tirou proveito do seu apoio implícito e, por vezes, entusiástico. Pessoal médico falsificou milhares de certidões de óbito para disfarçar os homicídios da Aktion T4. E muitos desses mesmos médicos escaparam à justiça depois da guerra.

De início as matanças envolveram injecções letais individuais. Mas isso demonstrou ser uma solução morosa e muito desproporcional à dimensão do “problema” da deficiência. O programa evoluiu até chegar a um veículo selado que podia matar dezenas de deficientes e indesejados ao mesmo tempo, através do bombeamento de monóxido de carbono. Em locais como o asilo psiquiátrico de Hadamar, as vítimas – frequentemente descritas como “cascas humanas” – eram gaseadas em massa numa cava disfarçada de balneário.

Na sua história brilhante, emocionante e profundamente perturbadora da Aktion T4, “Death and Deliverance”, o historiador britânico Michael Burleigh escreve que os deficientes eram despidos, pesados e examinados por um médico que escolhia uma “causa de morte” fictícia de uma lista de 61 factores. Depois

os doentes desciam uma dezena de degraus, em grupos de 60 de cada vez, e eram fechados na câmara de gás. Um médico posicionado na parte de fora ligava a válvula e o gás entrava por um cano. Longe de ser uma “morte tranquila” as vítimas experimentavam terror extremo, bem como todos os sintomas de envenenamento por dióxido de carbono. Depois de uma hora, restava o silêncio.  

Entrava então uma equipa de “desinfectadores” para desembaraçar os cadáveres. “Aqueles que tinham sido marcados de antemão como sendo de especial interesse científico”, nota Burleigh, “eram separados e levados para uma sala de autópsia ali perto. Os seus cérebros eram depois enviados para clínicas universitárias em Frankfurt e Würzburg”. Depois de se retirarem os dentes de ouro dos mortos, os seus corpos eram incinerados num crematório. As cinzas eram espalhadas e os ossos esmagados numa prensa.

O Holocausto veio apenas aplicar este procedimento numa escala muito maior, com três inovações: balneários maiores, fornos maiores e gás Zyklon B.

Sondagens secretas feitas na altura pelo Reich revelaram que o povo alemão estava muito dividido e inquieto sobre o assunto. Quanto mais religiosa fosse a pessoa, o mais provável que se opusesse ao Aktion T4. Mas muitos cidadãos comuns apoiavam a campanha de eutanásia, desde que fosse apresentada como “voluntária” por parte das vítimas adultas, ou pelos pais, no caso de crianças.


A propaganda do Reich teve muito cuidado em suavizar a percepção pública da campanha, apresentando o programa de eutanásia da melhor forma possível. Isto incluía a produção de melodramas de qualidade como o “Eu Acuso”, um filme de resto desprovido dos toques nazis normais.

A história de “Eu Acuso” envolve um casal atraente e fiel. A mulher, que sofre de uma doença terminal, suplica ao seu marido para pôr fim ao seu sofrimento. Movido por amor e pelos seus apelos insistentes, ele mata-a e é imediatamente levado a tribunal como homicida. Mas sem qualquer arrependimento, o marido deslumbra o tribunal com palavras que vos poderão soar familiares.

Aqui estou eu, o acusado, e agora sou eu que acuso. Acuso os defensores de crenças passadas e leis antiquadas. Isto não diz respeito só a mim, mas a centenas de milhares de outros que sofrem sem esperança, cujas vidas prolongamos de forma antinatural, e cujo sofrimento aumentamos na mesma medida… E é sobre os milhões de pessoas saudáveis, que não podem ser protegidas contra doença, porque todos os recursos necessários estão a ser usados para manter vivos seres cuja morte seria para eles um alívio e para o resto da humanidade a libertação de um jugo… E agora, senhores juízes e jurados, façam favor de ler a vossa sentença!

Muitos clérigos católicos e luteranos resistiram ao programa de eutanásia como puderam. O mais vocal de entre eles foi o Beato Clemens August Graf von Galen, bispo de Münster. Mas muitos outros mantiveram-se em silêncio. Tipicamente as instituições de deficientes, que frequentemente eram de natureza religiosa, cediam à pressão do regime e entregavam os seus residentes para “tratamento”.

E de que serve recordar tudo isto? Aqui e hoje tal coisa não seria possível. Suicídio medicamente assistido? Milhões de abortos? Venda de restos mortais de fetos? Experiências com tecido fetal? Funcionários públicos católicos que ignoram ou permitem tais coisas? Aqui não seria possível!

Ou então, talvez tenhamos as nossas próprias ofensas que precisam de ser perdoadas.

Para mais informação sobre este assunto aconselho a ver o premiado (e angustiante) documentário Selling Muder: The Killing Films of the Third Reich, também escrito por Michael Burleigh e disponível no YouTube.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 5 de Março de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

Wednesday, 26 January 2022

A Liberdade Religiosa na Alemanha Hoje

Michele McAloon
Vivo numa pequena aldeia na Alemanha, perto de Frankfurt. A semana passada apareceu um sinal com letras grandes e encarnadas, nas portas da Igreja Católica local, a avisar que quem não apresentar prova de vacinação contra a Covid-19, de recuperação, ou teste feito nas últimas 24 horas, não pode entrar. Durante a missa de domingo – a única altura em que a Igreja está aberta – um paroquiano fica à porta, como um guarda, a verificar o certificado de vacinação de todos os que pretendem entrar.

Num país onde a prática religiosa nos últimos anos tem sido anémica, na melhor das hipóteses, este último golpe pode ser fatal para a vida espiritual dos alemães. Porém, os bispos mantêm-se em silêncio sobre restrições locais e estaduais motivadas pela Covid.

Salvo o que se passou o ano passado quando a anterior chanceler alemã Angela Merkel tentou cancelar a Páscoa – não estou a gozar – não tem havido quaisquer relatos nos media da Alemanha de prelados, ou até cidadãos individuais, a protestar contra ordens governamentais sobre quem é que as Igrejas podem servir durante a pandemia. Merkel acabou por ceder e permitir as celebrações pascais, mas só depois de protestos e pressão de empresários e comerciantes.

A comparação entre a resposta americana e a alemã relativa à regulação de ajuntamentos religiosos diz muito sobre o diferente entendimento de liberdade religiosa nas duas nações.

A reação nos Estados Unidos às restrições a ajuntamentos religiosos não podia ter sido mais diferente. Em Abril de 2020, quando foram introduzidas restrições para prevenir a propagação da Covid-19, surgiu uma verdadeira tempestade de processos judiciais, a alegar a violação da Primeira Emenda.

As batalhas sobre liberdade religiosa foram travadas de forma apaixonada nos tribunais e nos media por organizações como o Becket Fund for Religious Liberty e a Alliance Defending Freedom que interpuseram acções nos tribunais federais contra governadores que emitiram decretos estaduais para impedir as celebrações religiosas. A reação pública foi audível e rápida. O resultado é que durante esta última vaga da pandemia as igrejas têm-se mantido maioritariamente abertas. Os governadores evitam arreliar os eleitores.

Mas ao contrário dos Estados Unidos, onde a Constituição proíbe o governo federal de se intrometer em assuntos religiosos, a Constituição alemã nada diz sobre o assunto. Oficialmente não existe Igreja de Estado na Alemanha, mas desde 1919 que o Governo alemão cobra um “imposto eclesial” (Kirchensteuer, em alemão). Na prática, este imposto transforma a Igreja alemã numa espécie de agência estatal.

Se alguém estiver oficialmente registado como católico, ou membro de outra confissão, são-lhe cobrados mais 8 ou 9% de IRS. A única forma de evitar este imposto é fazendo uma declaração a renunciar a pertença religiosa. Nesse caso, o indivíduo deixa de poder receber os sacramentos ou um enterro cristão.

Em 2020 este imposto gerou 7,75 mil milhões de dólares para a Igreja Católica Alemã, apesar de um número recorde de católicos terem abandonado a Igreja. Em 2019 foram 272,771 os que saíram – um ligeiro aumento em relação aos números de 216,078, em 2018. Contudo, o dinheiro tem comprado silêncio e muito pouca oposição dos bispos (cujo ordenado é pago pelo Estado) quando o governo interfere em assuntos religiosos.

O quarto presidente dos Estados Unidos, e arquitecto da Primeira Emeda à Constituição, James Madison, poderia apontar para a Alemanha como um exemplo para o não financiamento das igrejas pelo Estado. Na sua excelente biografia James Madison, America´s First Politician, Jay Cost mostra como o jovem Madison entrou na arena política precisamente através da luta pela liberdade religiosa.

A Colónia de Virgínia designou o Anglicanismo como religião de Estado e de seguida passou a cobrar impostos para financiar a igreja. O tratamento desigual e por vezes abusivo de outras denominações religiosas na colónia – tanto da parte de representantes do Governo como dos cidadãos – revoltou Madison. No seu discurso na Assembleia Estadual observou que as Igrejas de Estado “tendem para grande ignorância e corrupção” por causa da promoção do “orgulho, ignorância e malandrice” e “vício e maldade entre os leigos”. Madison acabou por convencer os seus concidadãos a deixarem de financiar as igrejas, e esta experiência ao nível do Estado sublinhou a necessidade da Primeira Emenda à Constituição dos Estados Unidos.

Tendo em conta a diferença na lei alemã, não admira que o infame Caminho Sinodal da Conferência Episcopal (que está a ser acompanhada de perto por leigas particularmente estridentes) se tem desviado rumo à corrupção (como Madison avisou), tentando abençoar uniões homossexuais, a ordenação de mulheres e até a abolição do sacerdócio. Entretanto a evangelização – a missão central da Igreja – tem sido quase completamente esquecida.

Os bispos alemães têm feito ouvidos moucos aos apelos repetidos do Papa Francisco para se focarem na evangelização, dada a “crescente erosão e deterioração da fé”. Numa carta de 28 páginas endereçada aos bispos, o Papa Francisco escreve: “Sempre que uma comunidade eclesial tentou resolver os seus problemas sozinha, dependendo apenas das suas próprias forças, métodos e inteligência, acabou por multiplicar e fomentar os males que pretendia ultrapassar.” Ironicamente, em resposta, os bispos acentuaram os seus esforços. Desde 2019, quando o Papa escreveu a carta, vários bispos encorajaram publicamente a bênção de uniões entre pessoas do mesmo sexo. Porém, a Conferência Episcopal tem-se mantido em silêncio sobre as restrições ao culto religioso motivados pela Covid-19.

A maioria dos alemães que continuam a ir à missa são católicas fiéis e ortodoxos que não concordam com o caminho sinodal. Mas mantêm-se em silêncio, com medo de uma sociedade religiosamente intolerante e obcecada com regras. Resta ver se estes poucos crentes – o último bastião de católicos fiéis na Alemanha – irá cumprir com as regras de admissão nas suas igrejas locais.

Historicamente, não é despropositado nem xenófobo perguntar o que pode vir a preencher o vazio numa Alemanha espiritualmente despojada ou, por falar nisso, noutra nação qualquer. Mas dêem graças pelo barulho e a revolta demonstrados pelo povo americano – por mais preocupante que possa parecer no momento. Desde a fundação dos Estados Unidos até hoje, a luta dos americanos pela liberdade religiosa tem tido consequências muito para além das suas fronteiras.


Michele Malia McAloon é casada há quase 28 anos. É mãe, oficial das Forças Armadas americanas na reserva e advogada de direito canónico. Vive em Wiesbaden, na Alemanha. Pode ouvir o seu podcast “Cross Word” no Spotify, Apple Podcasts e archangelradio.com.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 20 de Agosto de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

Friday, 17 December 2021

Sugestão de Natal e liberdade de oração restaurada na Alemanha

Começo este mail com uma sugestão de Natal. Há vários anos li, fascinado, o livro “Not in God’s Name” do rabino Jonathan Sacks. Foi com enorme alegria que soube agora que a editora Saída de Emergência publicou o livro em português. Já comprei um exemplar (encomendei da editora, chegou em dois dias) e vou oferecer a pelo menos duas pessoas próximas. “Não em Nome de Deus” é uma resposta à subida da violência religiosa. O rabino, que tristemente já morreu, faz uma análise de episódios de conflito – incluindo conflito fratricida – no Antigo Testamento e mostra como o objetivo dos textos sagrados é mesmo o contrário de incentivar à violência. Termino assegurando que este não é um livro para especialistas ou académicos, sendo acessível para toda a gente.

Passando às notícias do dia, os EUA impuseram sanções à China por causa da perseguição aos muçulmanos uigure.

Boas notícias da Alemanha, onde um tribunal anulou a proibição de se rezar em frente a uma clínica de aborto perto de Frankfurt.

A Renascença entrevistou o presidente da Conferência Episcopal, D. José Ornelas, que falou sobre vários assuntos, incluindo o papel das igrejas na pandemia, a crise dos abusos e ainda os problemas no sistema de nomeação dos bispos.

Tudo isto no dia em que o Papa Francisco completa 85 anos!

Friday, 1 October 2021

SEF, paga o que deves!

And the winner is...
O SEF está a dever milhões de euros a instituições que acolhem refugiados, incluindo centenas de milhares, pelo menos, ao Serviço Jesuíta aos Refugiados. Nem imaginam o esforço que estou a fazer para não meter aqui um comentário cáustico…

O Prémio Ratzinger de 2021 vai ser entregue a dois teólogos da Alemanha. Ou melhor, um alemão e uma alemã.

Ouve-se muito dizer que a Igreja tem um problema com a ciência. Será? Deve ser por isso que a Santa Sé escolheu como tema para o seu pavilhão na Expo 2020, no Dubai, “a estética, a ciência e a fé”.

Gosta de andar ou de correr? Então aproveite isso e adira à iniciativa do Serviço de Animação Missionária do Patriarcado de Lisboa para angariar dinheiro para ajudar Pemba, em Moçambique.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre as diferenças entre católicos e protestantes na forma de encarar Nossa Senhora.

Wednesday, 26 May 2021

#LoveWins, mas sem Alegria

Michele Malia McAloon
Há duas semanas, numa manhã chuvosa de segunda-feira, caminhei até uma pequena igreja Católica situada num beco na cidade de Mainz, na Alemanha. Mais de 100 igrejas católicas na Alemanha tinham anunciado serviços religiosos para os dias 9 e 10 de Maio, para abençoar casais de namorados, numa campanha publicitada na internet com o lema “love wins” [o amor vence].

Eu queria ver em que consistia esta “cerimónia de bênção” para todos os casais, independentemente da sua orientação sexual. Enquanto advogada de direito canónico que trabalha na área de processos de nulidade e de casamentos, estava interessada em ver que tipo de cerimónia seria esta, para pessoas que ou não estavam para se chatear com um casamento sacramental, ou então não compreendem que nem todas as proclamações de “amor” favorecem o florescimento humano.  

Esta iniciativa, que abrangeu toda a nação alemã, foi organizada por padres, diáconos e voluntários católicos que pensam, erradamente, que têm o direito e o dever de rejeitar a decisão de Março da Congregação para a Doutrina da Fé de que as uniões homossexuais não podem ser abençoadas. O site que promovia as cerimónias anunciava orgulhosamente: “Erguemos as nossas vozes e dizemos: Continuamos a colocar-nos ao lado daqueles que se comprometem numa relação vinculativa, e abençoamos as suas relações”.

Enquanto me instalava nas filas detrás da Igreja, rezei para que ninguém comparecesse. Esperava encontrar uma igreja vazia, e então iria alegremente jantar. Tanto quanto conseguia perceber, muito poucos casais tinham-se registado no site, como se pedia. E, de facto, só lá encontrei três casais – dois casais heterossexuais e um par de homens homossexuais.

No santuário, junto ao altar, estava um sacerdote e uma mulher vestida de diácono. Outro homem com um hábito castanho estava sentado, a tocar guitarra. O altar estava despido, à excepção de algumas velas. Ninguém se preocupou em levantar-se quando o padre entrou, nem em fazer o Sinal da Cruz. O “serviço” abriu com uma série de músicas folclóricas, cantadas pela mulher com a casula.

Toda a charada estava repleta de ironias, mas talvez a maior fosse o facto de estarmos a poucos metros de um famoso órgão pelo qual a pequena igreja, fundada em 1331 pelos antonitas e entregue às clarissas em 1620, é conhecida.

Durante todo o processo não houve a menor interação com a congregação. A mesma mulher aproximou-se do altar sem qualquer sinal de reverência exterior pela presença do Senhor no sacrário e fez uma homilia de 15 minutos sobre o amor. Depois dessa homilia, e de mais uma música, o padre fez uma leitura. Mais uma vez, ninguém se preocupou em levantar-se.

Depois, pediu aos casais que se levantassem e lessem algum tipo de declaração de amor um pelo outro. Não houve beijos para selar o acordo, nem qualquer sinal exterior de afeição. Toda a gente se sentou. A mulher cantou mais um bocado e em menos de 30 minutos tudo tinha acabado.

O padre aproximou-se de mim no final e, para dizer a verdade, só me consegui afastar. Não há palavras em inglês ou em alemão que pudessem justificar um tal gesto cismático por parte de qualquer pessoa na Igreja.  

São Bonifácio
Não me preocupei com o jantar, já não tinha apetite. Tudo aquilo tinha sido deprimente e triste. Não houve qualquer sentido de celebração, só o sentido duramente mundano de uma tarefa cumprida, algo mais parecido com o registo de um automóvel na Direção-geral de Viação do que a natureza alegre de um baptismo ou de um casamento.


Não houve trajes nupciais. Os casais estavam vestidos de calças de ganga e camisolas. Tudo se passou sem champagne, bolo, jantar, amigos e família juntos para celebrar o começo de uma comunidade de vida e de amor.

A terra de Martinho Lutero continua sujeita a fortes restrições por causa da Covid-19, por isso não havia restaurantes abertos para celebrar aquilo que tinha acontecido. Será que os casais voltaram para casa e festejaram com um jantar de restos e de Netflix? Terá esta bênção transmitido magicamente a ideia de que um compromisso para a vida toda tem de facto a ver com o trabalho duro e nada romântico de salvação e redenção, enquanto esposos que dão a vida um ao outro com o objetivo de levarem-se um ao outro até ao Céu?

Ou será que tudo não passou de uma farsa politica/ideológica?

Em vez da concessão de graça dada pelo Espírito Santo por via de um verdadeiro sacramento, os casais que alegadamente procuravam a riqueza dos tesouros da Igreja receberam migalhas sacramentais das mãos dos padres que deviam ser os primeiros a saber a diferença entre verdadeira empatia e falsa “compaixão”.

No final de contas, nada saiu de tudo isto para além da manipulação de pessoas para fazer uma espécie de afirmação política sobre casamento homossexual e um manguito adolescente para o Vaticano.

Enquanto regressava ao meu carro, passei por uma estátua de tamanho real de São Bonifácio, bispo e mártir (680-754 AD) que está diante da Catedral de Mainz. Durante a sua vida este santo anglo-saxónico tornou-se conhecido como o Apóstolo do povo germânico, depois de ter derrubado com um machado uma árvore sagrada, adorada pelos pagãos germânicos.

De acordo com a lenda, São Bonifácio usou a madeira da árvore para construir uma igreja dedicada a São Pedro. Quando se tornou arcebispo de Mainz, em 752, recebeu como pálio um pano que tinha sido colocado sobre o túmulo de São Pedro.

São Bonifácio foi martirizado por causa da sua fidelidade aos ensinamentos da Igreja, destemido apesar das muitas ameaças feitas por adoradores de falsos deuses. Quem diria que a sua vida santa seria, depois de séculos de Cristianismo na Alemanha, um comentário irónico sobre aqueles que preferem o cisma à unidade, o individualismo indulgente à comunidade e a destruição social à graça vivificante?

São Bonifácio, rogai pela Alemanha – e por nós.


Michele Malia McAloon é casada há quase 28 anos. É mãe, oficial das Forças Armadas americanas na reserva e advogada de direito canónico. Vive em Wiesbaden, na Alemanha. Pode ouvir o seu podcast “Cross Word” no Spotify, Apple Podcasts e archangelradio.com.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 20 de Maio de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Friday, 19 March 2021

Ano da Família is GO!

Hoje é dia de São José e arranca o Ano da Família, convocado pelo Papa Francisco. O Papa diz que é preciso defender a família de tudo o que compromete a sua beleza.

Também hoje arranca o ano letivo em Moçambique. Os bispos locais estão preocupados com os milhares de crianças que tiveram de fugir da região de Cabo Delgado e por isso não conseguem ir à escola.

Ontem estive no programa da Agência Ecclesia, na RTP2, para falar sobre a inconstitucionalidade da lei da eutanásia. Podem ver aqui.

Um relatório independente encomendado pela arquidiocese de Colónia concluiu que mais de 300 jovens foram sexualmente abusados por membros de clero naquela região da Alemanha.

Os bispos portugueses descartam a possibilidade de os políticos terem de declarar a sua pertença a organizações ou movimentos religiosos, dizendo que isso viola a liberdade religiosa.

Para o artigo desta semana do The Catholic Thing regressamos ao nosso querido Randall Smith, que pergunta como reagiria se vivesse na Terra Santa nos tempos de Jesus. As conclusões não são muito reconfortantes, e obrigam-nos a pensar também.

Por fim, um desafio. Na segunda-feira, a partir das 21h30, estarei com a minha querida colega e amiga Aura Miguel a falar sobre a recente viagem do Papa Francisco ao Iraque, num evento do Meeting do movimento Comunhão e Libertação, que este ano decorre online. Apareçam!

Wednesday, 24 February 2021

O Caminho Sinodal Cismático da Alemanha

Pe. Gerald E. Murray
Um esforço que só pode ser classificado como sendo de autodestruição da Igreja Católica na Alemanha – e mais além – está a ser levado a cabo pelos bispos do país, em conjunto com o Comité Central de Católicos Alemães, uma organização de leigos católicos, reconhecida oficialmente pela Igreja local. O vaticanista Sandro Magister chamou a atenção para o escândalo que constitui o chamado Caminho Sinodal, citando as recomendações, que melhor se podem descrever como exigências não-negociáveis, no documento fundacional divulgado recentemente sob o título “Poder e separação de poderes na Igreja – Participação comum e partilha na missão”.

O Caminho Sinodal Alemão (Der Synodale Weg) tem por objetivo subtrair o poder, autoridade e controlo ao Papa e aos bispos e entregá-lo a um laicado radical e clérigos e religiosos aliados. Tal deve acontecer através de uma proposta de um “fórum sinodal também na Igreja universal, uma assembleia da Igreja universal, um novo concílio em que os crentes dentro e fora do ministério ordenado deliberam e decidem em conjunto sobre questões de teologia e cuidados pastorais, bem como sobre a constituição e estrutura da Igreja”.

Nesta assembleia revolucionária os pastores já não seriam guias do rebanho, mas sim mais um bloco eleitoral a par do laicado, presumivelmente mais numeroso, que em todo o caso teriam escolhido os seus bispos uma vez que “a governação deve sempre ser codeterminada pelos governados, pelo que uma proposta importante é de que os decisores eclesiásticos devem também ser eleitos e sujeitos a eleição regular, em que os poderes que lhes são confiados possam ser confirmados ou delegados noutrem”.

De facto, “o objetivo é garantir a partilha de responsabilidade e participação de todos os fiéis tanto nos processos deliberativo como decisório”. Para o alcançar torna-se ainda necessário “reajustar a estrutura constitucional da Igreja para fortalecer os direitos dos fiéis na governação da Igreja”.

Se alguém contrapor que Cristo, o pastor-mor, é que atribui a autoridade aos apóstolos e seus sucessores, isso, ao que parece, é um conceito ultrapassado. “Os fiéis costumam aceitá-los como autoridades cujos juízos e decisões não podem ser questionados, como ‘pastores’ em virtude de uma legitimidade divina, a quem devem obedecer como ‘ovelhas’. Estes modelos foram ultrapassados pelo tempo, e bem, porque não eram teologicamente bem fundamentados”.

Dessa forma, a natureza hierárquica da Igreja é descartada como obsoleta e injustificada.

A autoridade episcopal e papal são rejeitadas de forma clara: “Ninguém tem a competência para decidir por si só sobre o conteúdo da fé e os princípios da moralidade; ninguém tem o direito de interpretar os ensinamentos da fé e da moral com a intenção de exortar os outros a ações que só servem os seus interesses ou correspondem às suas ideias, mas não às convicções dos outros”.

Será que as “convicções” se tornaram agora a norma das crenças e do comportamento cristão? Absolutamente: “A pluralidade de estilos de vida, tradições de piedade e posições teológicas no seio da Igreja não é uma ameaça, mas um bem que aprofunda a unidade viva da Igreja. ‘Não julgues, para não serdes julgado’. Mt. 7,1”.

Tudo isto encontra-se num documento cheio de juízos negativos sobre doutrinas católicas “teologicamente mal fundamentadas” e que evoca “estudos” que afirmam que a Igreja tem alienado pessoas através de “estruturas de poder que são vistas como retrógradas ou datadas… especialmente no campo da justiça de género e na avaliação de orientações sexuais ‘queer’, bem como em lidar com falhanços e novos começos (por exemplo casamento depois do divórcio).”

A responsabilização perante a Igreja por ignorar ou negar os ensinamentos do Evangelho passa agora a ser proibida porque, por incrível que pareça, isso “contradiz o Evangelho”: “O facto de haver pessoas na Igreja que temem ser punidas por comportamentos que não ‘encaixam no sistema’ contradiz o Evangelho. A denúncia é um mal que deve ser combatido de forma firme. A comunicação dos crentes tanto dentro como fora da Igreja não deve ser monitorizada nem criticada por detentores de cargos na Igreja”.


De facto, “uma forma de lidar com a complexidade que seja atenciosa e sensível à ambiguidade pode ser vista como um sinal básico de contemporaneidade intelectual – e também abrange a teologia contemporânea. Para a teologia também não existe uma perspetiva central, uma verdade única sobre o mundo religioso, moral e político, e nenhuma forma de pensamento que possa reclamar a autoridade definitiva. Também na Igreja os pontos de vista e estilos de vida diferentes podem competir uns com os outros mesmo nas convicções centrais. Sim, podem ao mesmo tempo reclamar teologicamente a verdade, a correcção, compreensibilidade e honestidade, ainda que se contradigam nas suas afirmações e na sua linguagem”.  

A mesma atitude de “viva e deixe viver” não se aplica, contudo, às decisões postas a votação na assembleia do Caminho Sinodal: “esperamos que as recomendações e as decisões adotadas pela maioria sejam também apoiadas por aqueles que votaram de forma diferente. Esperamos que a implementação das decisões seja examinada de forma rigorosa e transparente por todos. Esperamos que todos ajudem a promover a capacidade de ação da assembleia sinodal”.

Por isso vemos que os ensinamentos constantes e universais da Igreja podem e devem ser alteradas por maioria, permitindo, por exemplo, a ordenação de mulheres para o diaconado, sacerdócio e episcopado. Os participantes do Caminho Sinodal não têm de “apoiar” nem “promover” nada que rejeitem do Depósito da Fé, mas aqueles que votarem contra as inovações destrutivas são instruídos a “apoiar” e “promover” aquilo que rejeitaram, em consciência, como sendo ofensivo para a Fé.

Este mandato coercivo de “obedecer, senão” é revelador da natureza de todo este processo: um esforço calculado de derrubar o catolicismo em nome da conformidade com o espírito da nossa era de descrença, um espírito narcisistamente apostado em pôr as mãos em todo o poder na Igreja para poder redefinir a realidade e reescrever a revelação, promovendo a licença e suprimindo todas as recordações da lei de Deus. Esta subversão clara tem de ser travada já, antes de prejudicar ainda mais a Igreja.

Roma tem de intervir – e rápido.


O padre Gerald E. Murray, J.C.D. é pastor da Holy Family Church, em Nova Iorque, e especializado em direito canónico.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2021)

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