quinta-feira, 8 de abril de 2021

Monge detido por caridade na Turquia

Um monge na Turquia foi condenado a mais de dois anos de prisão por aquilo que considera ter sido apenas um acto de caridade cristã.

Está a formar-se uma comunidade de católicos chineses em Lisboa. Saiba mais aqui.

O Papa lamenta que exista ainda um fosso entre ricos e pobres no que diz respeito à saúde e diz que as leis do mercado não podem sobrepor-se à lei do amor e à saúde.

As cheias da semana passada em Timor-Leste causaram grande devastação e muitas vítimas. O Papa rezou pela situação e os salesianos, no terreno, ajudaram como puderam.

O que representa a bandeira arco-íris? Amor? Tolerância? Direitos? O autor do artigo do The Catholic Thing desta semana, Anthony Esolen, argumenta que representa toda a revolução sexual e que por isso mesmo deve ser arreada. Um artigo a ler aqui.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Arrear a Bandeira

Recentemente o Vaticano recusou permitir que clérigos católicos abençoem uniões entre pessoas do mesmo sexo, evitando um cisma imediato e mundial. Ninguém deve ficar surpreendido; aliviado, talvez, mas não surpreendido. O que o Vaticano fez foi negar-se a reverter toda a antropologia bíblica no que diz respeito aos sexos, já para não falar de uma visão coerente da criação – da ordem formal impressa com a sabedoria de Deus.

Mas o mundo continua.

Passadas poucas horas já tinha ouvido os críticos da Turner Classic Movies a defender os filmes antigos, apesar de estes por vezes estarem manchados por racismo-sexismo-homofobia-transfobia. Os críticos falavam como se não fosse possível qualquer pessoa decente contestar a sabedoria moral assente que toma todas estas coisas por iguais, a serem tratadas com a mesma reprovação.

Depois ouvi falar de dois rapazes de um liceu que foram escolhidos para representar dois amantes homossexuais numa peça de teatro. E de outro jovem, noutra escola, que teve de cantar uma música ordinária sobre ter uma erecção quando olha para outra rapariga da sua sala.

Os trios amorosos estão nas notícias a toda a hora. Duvido que haja uma única escola pública no país que não tenha hasteado a bandeira arco-íris, aqui, ali, em todo o lado, nos cadernos, nos planos de aula, em material de leitura e nas lapelas dos professores.

A maldade, disse Edmund Burke, é demasiado inteligente para aparecer sempre da mesma forma. As nossas paixões – orgulho, inveja, fúria, luxúria e avareza – mantêm-se iguais, mas mudam conforme as modas. É por isso que o homem ataca tão frequentemente formas que em larga medida já passaram. Burke chamava-lhe enforcar a carcaça.

E sabemos que as novas formas não atraem apenas monstros. Não duvido que tenha havido muitas pessoas simpáticas que hastearam a suástica nas suas casas embora não odiassem verdadeiramente os judeus, mas estavam satisfeitos por irem na corrente com os novos e revolucionários líderes de opinião bem-pensantes, construtores de autoestradas e restauradores da Alemanha.

Não duvido que na Rússia estalinista houvesse muitas pessoas simpáticas que hasteavam a foice e o martelo nas suas casas embora não odiassem verdadeiramente os ucranianos ou os ortodoxos recalcitrantes, mas estavam contentes por irem na corrente da novidade, e por aí fora. O desejo de obter emprego, de manter o emprego ou de merecer a aprovação dos líderes de opinião bem-pensantes pode ser muito tentador e não requer grande grau de coragem face ao mal.

Eu não estou a dizer que a bandeira arco-íris é igual à suástica ou à foice e martelo. Claro que não. Não estou a dizer que é igualmente má: quando estamos a lidar com males fundamentais a questão não tem qualquer sentido. Adorar a Baal era tão mau como adorar Moloch? Enquanto nós discutimos o estilo de luxúria ou de ódio, os princípios em si, tanto Baal como Moloch, apreciam um cognac espiritual flamejante e brindam. E Baal também matou os seus milhões.

Não tenho qualquer intenção de apontar o dedo a indivíduos. Tenho muita simpatia por pessoas que, num tempo de profunda solidão, se agarram a uma relação homossexual como uma última esperança. Mas o arco-íris representa toda a revolução sexual.

Não me refiro aqui ao pecado sexual, que teremos sempre connosco, tal como teremos mentiras, furto, homicídio, blasfémia e traição. A revolução sexual não é uma erva daninha. É uma árvore: plantada deliberadamente, regada e cuidada. Não é um acumular de pecados ou de maus hábitos. É um princípio que dá maus frutos.

O princípio é o da autonomia corporal: que o que os adultos fazem, sexualmente, é da sua conta e de mais ninguém. Junte-se a isto a paixão romântica para adoçar o princípio, junte-se o feminismo para obscurecer a verdade de que os homens são para as mulheres e as mulheres são para os homens, espere umas décadas para que os gostos se mudem e temos uma sequóia completa.


Não foram os homossexuais que plantaram e fertilizaram a árvore, embora tenham feito a sua parte. Mas não interessa agora como é que a árvore cresceu, e como cresceu de tal forma que agora cobre todo o mundo ocidental com a sua sombra. A questão é que a árvore tem de ser abatida.

Repito, não estou a dizer que não haverá pecado sexual. Estou a dizer que o princípio deve ser repudiado: a árvore é o princípio e dá o fruto mau desse princípio.

Temo que alguns católicos possam tolerar a árvore, porque não querem ferir os sentimentos daqueles que se deliciam com o fruto, ou porque, ainda que não tenham gosto por aquela maçã, gostam desta; porque a árvore é generosa e tem muito a oferecer para cada gosto, uma grande variedade de maus frutos.

Talvez os que plantaram a árvore não tenham tido a noção de que chegaria a isto. Talvez pensassem que uma certa cortesia poderia conter o mal: que piscaríamos o olho ao engate do João e da Maria, mas não ao do João e do Martim; aceitaríamos o divórcio apenas nos casos difíceis; aceitaríamos a contracepção, mas não o aborto; aceitaríamos a pseudogamia homossexual, mas não a poligamia; sem pensar que o aço moral mais firme não é suficientemente duro para conter um princípio mau.

E a cortesia, a simpatia, não é aço, é papel.

A árvore tem de vir abaixo.

Pensem, pensem só nas coisas humanas e normais que poderíamos ver, que se poderiam esperar, alcançar, coisas banais: muito amor saudável entre rapazes e raparigas, em vez de um campo minado tanto para os morais como para os imorais; direcção mais segura para jovens cujo caminho para o estado de homem ou de mulher adultos foi dificultado pelo infortúnio ou pelo pecado dos seus antepassados; uma apreciação mais clara e agradecida de cada sexo para o outro; e com tudo isso, pecados e falhanços, ervas daninhas que nascem, como sempre, mas em pequenas manchas, ou individualmente, e não de forma planeada, sem que toda a humidade e nutrição fossem canalizados para alimentar um leviatã vegetal.

É preciso arrear a bandeira.


Anthony Esolen é orador, tradutor e autor. As suas obras incluem: Out of the Ashes: Rebuilding American Culture, Nostalgia: Going Home in a Homeless World e o mais recente The Hundredfold: Songs for the Lord. É professor e autor residente na Magdalen College of the Liberal Arts em Warner, New Hampshire.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 31 de Março de 2021 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Votos de Santa Páscoa!

Nos últimos dias não tenho conseguido postar, por isso peço desculpa, mas não queria deixar de o fazer antes da Páscoa.

Por falar em Páscoa, este ano os católicos podem participar nas celebrações, mas há várias tradições que continuam confinadas. Pede-se criatividade para as ultrapassar.

As notícias que chegam de Cabo Delgado são cada vez mais preocupantes. Uma religiosa fala de um “filme de terror”.

Nesta Páscoa somos, como sempre, convidados a olhar de forma especial para os que são perseguidos pela sua fé.

Temos dois artigos do The Catholic Thing para vos propor, e que vêm mesmo a propósito para este tempo pascal. O da semana passada, de Stephen White, é dirigida especialmente aos católicos de tendência mais conservadora (como o autor) e contém um importante aviso e o desta semana, do padre Paul Scalia, pergunta se continuamos a escolher Barrabás em vez de Cristo, quando a questão nos é posta.

quarta-feira, 31 de março de 2021

Barrabás: Um Exame de Consciência da Semana Santa

Pe. Paul Scalia

Nas suas respetivas narrativas da Paixão do Senhor, todos os quatro Evangelhos referem o facto de a multidão ter preferido Barrabás a Jesus. A escolha surge no final da tentativa, meia irresoluta, de Pôncio Pilatos de libertar Jesus. É o momento em que a multidão rejeita definitivamente Cristo e abraça o mal. 

A narrativa capta o pecado humano em poucos versos. Primeiro Pilatos coloca diante da multidão “Jesus Barrabás” (Mt. 27,17) – isto é, Jesus, filho do pai” – e depois Jesus o Filho eterno do Pai. A multidão é chamada a escolher o verdadeiro filho do Pai ou a sua contrafação, a verdadeira filiação ou a falsa. A escolha da contrafação e do falso resume o nosso estado pecaminoso.

Nas liturgias de Domingo de Ramos e de Sexta-feira Santa a congregação pede a libertação de Barrabás. Ao desempenhar esse papel no drama, o povo de Deus está também, de certa forma, a fazer uma confissão. Porque na verdade escolhemos Barrabás. Preferimos o falso filho do pai ao filho de Deus. Tal como os israelitas um dia “trocaram a sua glória pela imagem do Touro que come relva” (Salmos 106,20), também nós preferimos uma pseudofiliação em vez da “Glória que em nós será revelada” (Rom. 8,18). Escolhemos ser filhos no espírito de Barrabás e não de Cristo.

Quem é este que escolhemos? Barrabás é descrito alternadamente como um rebelde, um assaltante e um assassino. Estas acusações não são mutuamente exclusivas. Cada uma delas ilumina uma dimensão diferente da nossa pecaminosidade. E seguem-se muito bem uma à outra. Primeiro, como disse C.S. Lewis, “Não somos meramente criaturas imperfeitas que devem ser melhoradas; somos rebeldes que devem depor as armas”. A nossa insistência por autonomia total, de sermos uma lei para nós mesmos – para ser como Deus (Gen. 3,5) – não pode existir na ordem de Deus. É rebelião aberta.

E somos também assaltantes. Tomámos os dons e a glória de Deus para nós mesmos. Tudo o que somos e temos é um dom de Deus a ser oferecido. Mas mantivemos estas coisas como nossas possessões, para nosso propósito e glória. E gabamo-nos delas como se fossem as nossas conquistas.

E tudo isto faz de nós homicidas também. Deus é a condenação e repreensão final e o travão para a nossa rebelião e o nosso roubo. Não podemos continuá-los se ele estiver em cena. Para preservar a nossa autonomia e a nossa glória temos de nos desfazer dele. O mundo moderno não é mais que esta verdade escrita em letras garrafais. Mas cada um de nós vive-a pessoalmente.  

No fundo a escolha entre Jesus Barrabás e Jesus Cristo é uma escolha entre a nossa autopreservação e o dom de nós mesmos. É a escolha fundamental que o Senhor articula repetidamente e à qual regressa pouco antes da sua Paixão. “Quem amar a sua vida perdê-la-á, e quem odiar a sua vida neste mundo preservá-la-á para a vida eterna”. (Jo. 12,25; conferir Mt. 16,25; Lc 17,33).

Barrabás é a imagem do homem que ama a sua vida e procura preservá-la a todo o custo. Rebeldia, furto e homicídio são apenas formas diferentes que arranjou para poder manter o seu pequeno reino seguro. Por outro lado, Nosso Senhor – espancado, flagelado e coroado de espinhos – é o homem que odeia a sua vida neste mundo. Perdeu tudo: poder, possessões, saúde, dignidade, amigos, etc., mas sabe que esta perda não é o final mas o começo, o plantar de uma semente.


Seguimos Barrabás quando abraçámos esta autopreservação desordenada. Podíamos dizer que é orgulho, mas na nossa cultura essa palavra implica tradicionalmente autoafirmação e exige reconhecimento. Embora possa ser ambas essas coisas, na maioria das vezes o nosso orgulho – essa preservação das nossas vidas, do nosso conforto, da nossa reputação acima de tudo – não é altivo e forte, mas incómodo e fraco. É no interesse da autopreservação que os apóstolos fogem e abandonam Nosso Senhor. É para preservar a sua vida que Pedro hesita diante da pergunta da criada e renega Cristo. É para preservar o seu reinado inconsequente que Pilatos entrega Cristo para ser crucificado. 

Este medo desordenado de perder a nossa autonomia, esta ânsia de preservar as nossas vidas, é a fonte de todo o pecado. Reagimos enfurecidos quando sentimos uma ameaça à nossa reputação e ao nosso ego. A nossa gula leva-nos a açambarcar mais e mais coisas, para nos protegermos e assegurar as nossas fronteiras. Deixamo-nos cair na preguiça para evitar Deus e preservar o nosso tempo como nosso. E por aí fora. Cada pecado tem esta característica de autopreservação.

Jesus Cristo é o verdadeiro Filho do Pai. O seu despojamento é o meio da nossa redenção e o padrão para vivermos a nossa filiação. “Vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte, e morte de cruz!” (Fil. 2, 7-8). A conversão contínua do cristão requer esta repetida rejeição de Barrabás e o abraço a Nosso Senhor. A Semana Santa é o tempo certo para aprofundar essa conversão, para nos dedicarmos de novo ao verdadeiro Filho.

“A quem querem que eu liberte, [Jesus] Barrabás, ou Jesus, a quem chamam o Messias?” (Mt. 27,17). No passado temos clamado por Barrabás, para que também nós pudéssemos viver essa falsa filiação. Agora arrependemo-nos e clamamos por Cristo, para que sejamos libertados para seguir o verdadeiro Filho do Pai e o seu caminho de autodoação.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 28 de março de 2021 em The Catholic Thing

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quarta-feira, 24 de março de 2021

O que Cobre uma Multidão de Pecados?

O conceito de pecado privado não existe. As nossas falhas morais – sejam quais forem – têm consequências que vão bem para além da nossa culpa ou inocência pessoal. As minhas falhas morais têm consequências para a minha mulher e filhos, para os meus amigos e por aí fora. Os meus falhanços causam sofrimento nos outros, muitas vezes de forma invisível. O meu pecado fomenta o pecado e limita a virtude, em mim e nos outros. Como o mundo seria melhor se eu fosse santo!

Às vezes conseguimos apenas vislumbrar os filamentos morais que ligam as nossas ações às vidas de quem nos rodeia. Noutras alturas as consequências dos nossos pecados são muito evidentes. Qualquer pai que ouve o seu filho a repetir as suas próprias palavras menos que caridosas conhece o poder do seu próprio mau exemplo. Às vezes pecados que, insensatamente, esperávamos que se mantivessem secretos são expostos à luz para que todos os possam ver, para nosso horror e humilhação.

Estes momentos de reconhecimento podem ser ocasiões para a graça mexer com a consciência – como o canto do galo que levou Pedro a chorar lágrimas de amargura. Mas tais ocasiões, em que somos postos em situações embaraçosas pelas nossas próprias consciências, nem sempre levam a arrependimento e conversão. Pelo menos não no imediato.

No Evangelho de Marcos um homem rico vai ter com Jesus, ansioso por fazer o que for preciso para herdar a vida eterna. De início fica satisfeito por ouvir que já fez tudo o que é necessário, mas a sua alegria transforma-se em desapontamento quando Nosso Senhor lhe pede mais. Todos conhecemos a história:

“Só te falta uma coisa. Vai, vende tudo o que possuis e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu; depois vem, e segue-me.”

Perante essas palavras caiu-lhe o semblante e afastou-se, triste, pois tinha muitos bens.

O homem rico estava tão perto, só lhe faltava uma coisa. Mas não era capaz de abdicar dessa amarra. E Cristo, que “olhando para ele o amou”, deixou-o ir.

Lembrei-me novamente desta passagem esta semana por causa da resposta da Congregação para a Doutrina da Fé (aqui) a uma questão sobre “bênçãos de uniões entre pessoas do mesmo sexo”. A decisão da Congregação para a Doutrina da Fé, apoiada pelo Papa Francisco, é de que as uniões homossexuais não podem ser abençoadas. “[Deus] não abençoa, nem pode abençoar, o pecado”. A resposta causou angústia entre aqueles que esperavam há muito tempo que a Igreja encontrasse uma forma de contornar a Escritura e a Tradição para abraçar as uniões homossexuais.

Que isto tenha vindo do Papa Francisco – o Papa do “Quem sou eu para julgar”, o Papa que deu apoio cauteloso a uniões de facto entre pessoas do mesmo sexo, o Papa em quem tantos tinham colocado as suas esperanças por mudanças radicais de doutrina – tornou esta questão ainda mais difícil de aceitar.

O que me leva de volta à história do homem rico.

Para aqueles que, como eu, vêem a clarificação da CDF como necessária e bem-vinda, a tentação é a de responder à revolta e à dissidência com um “Ainda bem! Se preferem agarrar-se ao que lhes é caro em vez de seguir a verdade, então deixem-nos ir!”

Poderá chegar a isso. Alguns poderão mesmo abandonar, mas isso não seria uma coisa boa. A Igreja é para os pecadores.

Não. Fazer pouco da derrota dos outros, perante verdades difíceis, é sobranceria. Todos precisamos de misericórdia e sabê-lo deve servir para nos tornar humildes.

Não foi por ver alguns a abandonar Cristo e a Sua Igreja que me lembrei da história do homem rico, foi porque é muito fácil ver-me a mim próprio no seu lugar: orgulhoso, satisfeito e indisposto a despojar-me daquilo que me impede de crescer em união com Deus.

O que a Igreja pede aos católicos com atração pelo mesmo sexo pode ser simplesmente e claramente a castidade – mas isso não o torna fácil. Deus oferece a sua misericórdia a todos, mas a sua oferta de misericórdia não nos poupa às escolhas difíceis. De certa forma, a sua maior misericórdia é mesmo essa escolha, ele oferece-nos uma saída, por mais estreita que possa ser, em vez de nos deixar como somos. E embora Ele nos olhe e nos ame, como com o homem rico, deixa ao nosso critério aceitar essa oferta. Ou não.

Só de pensar nisso devemos tremer.

Nas semanas e nos meses que se seguem vai haver muita discussão sobre esta declaração da CDF. Haverá muitas verdades difíceis para defender e argumentos a expor. A questão entrará sem dúvida nos nossos debates políticos: basta pensar no “Equality Act” que está atualmente a ser discutido pelo Congresso. E é natural que continue a gerar mal-estar entre católicos.

Mas se o pecado fomenta o pecado e limita a virtude, então o amor alcança o oposto. Por mais bem-vinda que seja a clareza da resposta da CDF, essa clareza não nos absolve do trabalho de amar aos nossos inimigos, quanto mais os nossos irmãos e irmãs em Cristo.

Deixamos passar essa oportunidade à nossa conta e risco.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 18 de Março de 2021)

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sexta-feira, 19 de março de 2021

Ano da Família is GO!

Hoje é dia de São José e arranca o Ano da Família, convocado pelo Papa Francisco. O Papa diz que é preciso defender a família de tudo o que compromete a sua beleza.

Também hoje arranca o ano letivo em Moçambique. Os bispos locais estão preocupados com os milhares de crianças que tiveram de fugir da região de Cabo Delgado e por isso não conseguem ir à escola.

Ontem estive no programa da Agência Ecclesia, na RTP2, para falar sobre a inconstitucionalidade da lei da eutanásia. Podem ver aqui.

Um relatório independente encomendado pela arquidiocese de Colónia concluiu que mais de 300 jovens foram sexualmente abusados por membros de clero naquela região da Alemanha.

Os bispos portugueses descartam a possibilidade de os políticos terem de declarar a sua pertença a organizações ou movimentos religiosos, dizendo que isso viola a liberdade religiosa.

Para o artigo desta semana do The Catholic Thing regressamos ao nosso querido Randall Smith, que pergunta como reagiria se vivesse na Terra Santa nos tempos de Jesus. As conclusões não são muito reconfortantes, e obrigam-nos a pensar também.

Por fim, um desafio. Na segunda-feira, a partir das 21h30, estarei com a minha querida colega e amiga Aura Miguel a falar sobre a recente viagem do Papa Francisco ao Iraque, num evento do Meeting do movimento Comunhão e Libertação, que este ano decorre online. Apareçam!

quarta-feira, 17 de março de 2021

Sepulcros Caiados

Às vezes penso se, caso estivesse vivo na altura em que Jesus pregava, teria estado entre a pequena minoria de pessoas que o aceitaram a Ele e à sua mensagem. Ou se, pelo contrário, teria sido um dos muitos que não, reagindo antes com medo, revolta e indignação moralista.

Teria sido um daqueles que, embora sem o rejeitar explicitamente, dizia a si mesmo “este homem é especial e importante, e enquanto eu puder continuar a agir como antes, sentindo-me especial e importante, então óptimo. Se as coisas se tornarem difíceis e esse sentimento desaparecer, então que se lixe (ou, neste caso, que se crucifique)”?

É difícil imaginar que teria sido suficientemente bom para fazer parte do pequeníssimo grupo, composto essencialmente por uma mão cheia de mulheres no início, que disse “Este é o meu Senhor muito amado, o Senhor da minha vida, e onde Ele for eu irei, mesmo até à Cruz”. É mais provável que eu fosse daqueles que aceitou alguns dos seus ensinamentos mais simpáticos, rejeitando as coisas difíceis – um daqueles que disse aos seus amigos: “até gosto de algumas das coisas que Jesus diz, mas Ele vai longe de mais. A maneira como ele diz as coisas, às vezes, não é… suficientemente intelectual. Não tem cuidado, não é prudente. Vai-nos meter em sarilhos”.

Como académico, penso se teria sido um daqueles escribas de segunda ou terceira categoria, que liam obedientemente os livros prescritos (em grego ou em hebraico), participando nos rituais prescritos (tanto romanos como judaicos) e debatendo os assuntos culturais e políticos da forma do costume (partido dos fariseus, partido dos saduceus, partido dos zelotas, oficial romano). Teria permitido que Cristo me mudasse? Ou teria sido um dos que achou Cristo e a sua mensagem um bocadinho perturbadores?

Suspeito que teria sido um daqueles que ia cumprir devidamente as obrigações litúrgicas, mas que estava vazio por dentro; que preferia crucificar o Salvador ungido do que deixar-se transformar por Ele. Temo que seria um daqueles “sepulcros caiados” de que Cristo fala, que são belos por fora, mas por dentro estão cheios dos ossos dos mortos.

Estaria Cristo a falar de pessoas como eu quando disse: “Tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens, por isso alargam as filactérias e alongam as orlas dos seus mantos. Gostam de ocupar o primeiro lugar nos banquetes e os primeiros assentos nas sinagogas. Gostam das saudações nas praças públicas e de serem chamados ‘mestres’ pelos homens”. Preocupa-me, porque Cristo ainda vive, ainda está a tentar transformar as nossas vidas. E por isso pergunto-me se sou assim tão diferente dos “maus” da Bíblia.

Questiono-me sobre tudo isto porque quando se é convertido, como eu, repara-se em certas coisas. Repara-se que outros católicos – mesmo os “conservadores” piedosos – que se vestem bem e vão à missa, ouvem, semana após semana, as leituras de Amós, Oseias e Isaías sobre como viver vidas retas e da importância de cuidar das viúvas e dos órfãos e escutam os avisos de Cristo no Novo Testamento sobre o homem rico e Lázaro e depois, quando chega Segunda-feira, mentem e enganam nos seus trabalhos, tal como todos os outros.

Encontramos instituições católicas que se orgulham dos seus santuários a Nossa Senhora ou à Madre Teresa, ou dos seus bancos alimentares ou centros de justiça social mas que tratam os seus próprios empregados como lixo descartável.

Os católicos são muitas vezes como aquela criança a quem dizemos, duas ou três vezes, para não comer antes do jantar. A criança acena que sim e depois mete a mão no boião das bolachas. Vezes e vezes sem conta ouvimos São Paulo a exortar os cristãos: “Façam tudo sem queixas nem discussões para que vocês não tenham nenhuma falha ou mancha. Sejam filhos de Deus, vivendo sem nenhuma culpa no meio de pessoas más, que não querem saber de Deus. No meio delas vocês devem brilhar como as estrelas no céu”.

Ouvimo-lo a avisar todos aqueles que “não estão ocupados com o trabalho”, mas que se tornaram “coscuvilheiros”. Vezes sem conta ouvimos Cristo a dizer “todo aquele que se irar contra o seu irmão será submetido a julgamento. Quem chamar imbecil a seu irmão será submetido ao Sinédrio, e quem lhe chamar louco será submetido à geena de fogo.”

E apesar disso encontramos milhares de comentários enfurecidos nas redes sociais, sem caridade, de pessoas que se justificam dizendo que estão a praticar a “Verdadeira caridade católica”, como se os escribas e os fariseus estivessem a ser caridosos com Jesus e com o povo judeus quando pregaram Cristo na cruz.

Quando vamos à missa estamos apenas em modo automático, para depois viver vidas contrárias ao Evangelho? E se sim, como é que saberíamos? Estamos, como tantos nos dias de Jesus, a cegar-nos e a bloquear os nossos ouvidos para a verdade? Talvez precisemos de uma lista de controlo quaresmal.

Fiz comentários zangados e presunçosos nas redes sociais? Convenci-me de que eram totalmente justificados?

Confundi o “individualismo atomista” (ninguém manda em mim) com a verdadeira liberdade?

Alimentei a política hiperpartidária zelota, ou fiz os possíveis para lidar com ela com calma medida e caridosa?

Fui à missa, fiz gestos piedosos para com Maria e os santos e depois lidei com os meus assuntos seculares como se nada fosse?

Apelido-me de “católico” e depois parto do princípio de que isso não me deve levar a fazer qualquer sacrifício em termos de dinheiro, status e conforto para defender a Igreja e ajudá-la a concretizar as suas obras corporais de misericórdia?

Por fim, questiono-me sobre se a maioria de nós reconheceria Cristo se Ele voltasse? Ou veríamos uma grande multidão revoltada a tentar pregá-lo a uma Cruz em nome da “piedade religiosa”, ou simplesmente porque demasiadas pessoas o achavam uma ameaça à nação?

Como dizia, às vezes questiono-me. E não é reconfortante.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 10 de Março de 2021)

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