quarta-feira, 1 de julho de 2020

Amor e Dignidade


Pe. Paul Scalia
“Quem amar o seu pai ou a sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim”, (Mt. 10,37). Pergunto-vos, o que é mais chocante nessa afirmação? Que aquele homem, Jesus, um mero carpinteiro provinciano exigiu que o amássemos mais do que aos nossos familiares mais próximos? Ou que Jesus, nascido de Deus antes de todos os séculos, está a dizer que podemos ser dignos dele?

Ambos os conceitos são chocantes, e é suposto. O primeiro é de tal forma contrário à nossa forma de pensar que talvez nem apreciemos suficientemente o segundo. Mas é precisamente o segundo que é a chave da passagem.

Parece absurdo que possamos ser dignos dele. Em bom rigor, não podemos ser dignos de Deus. Só Deus é digno de Deus. Porém, ao contrário de outras afirmações de Cristo, Nosso Senhor não estava aqui a falar em hipérboles ou figuras de estilo. Não é suposto arrancarmos os nossos olhos, nem cortar as mãos, ou odiar o nosso pai e mãe (Mt 5,29-30; Lc 14-26) mas devemos ser – ou devemos ser tornados – dignos de Cristo.

Esta é a verdade simples, mas assombrosa, sobre a graça de Deus. É pela graça que Ele nos dá a participação na sua própria vida, tornando-nos “participantes da natureza divina” (2 Pedro 1,4). Descrevemos essa graça como deificante. O seu poder e o seu propósito não servem apenas para nos tornar melhores, mas sim para nos divinizar, para nos dar a capacidade de amar como Deus ama e – por mais chocante que possa parecer – ser dignos dele. De facto, este é o propósito e o escândalo da Encarnação: “O filho de Deus tornou-se homem para que nos tornássemos Deus” (Santo Atanásio). 

Nesse sentido, encontramos orações sobre a dignidade em várias vertentes da nossa religião. São Paulo escreve aos Tessalonicenses: “Por isso também rogamos sempre por vós, para que o nosso Deus vos faça dignos da sua vocação” (2 Tess 1, 11). O terço conclui com o pedido de que sejamos dignos das promessas de Cristo. Igualmente, a colecta [oração de abertura] da festa do Sagrado Coração de Jesus pede que “sejamos dignos de receber uma medida transbordante de graça.

Não se trata de mera poesia ou metáfora, mas o apelo para aquilo que o próprio Senhor deseja. A sua graça fez-nos participantes da sua vida; pedimos a graça acrescida para podermos viver de forma digna dela. Das duas uma, ou a sua Graça tem este poder, ou estamos a pedir um absurdo.

Se pensarmos sobre a fé em termos naturais – como uma mera ajuda para viver uma vida neste mundo que nos realiza – então as palavras de Nosso Senhor no Evangelho de domingo passado não são apenas erradas, são verdadeiramente ofensivas. Mas quando apreciamos o dom da graça – que nos eleva para participarmos na sua vida – então as suas palavras parecem-nos inteiramente razoáveis. Não são ordens extremistas, mas a consequência lógica da graça.

Viver de acordo com a graça requer um reordenar radical dos nossos amores: “Quem ama o seu pai ou a sua mãe mais do que a mim não é digno de mim, e quem ama o se filho ou a sua filha mais do que a mim, não é digno de mim. Se queremos amar como Deus ama (que é o que a graça nos permite fazer), então é preciso amá-lo primeiro – acima de, e por vezes mesmo contra, o mais importante dos nossos amores naturais.

Todos os outros amores devem ceder ao divino. Se colocarmos o afeto humano, ou a lealdade, acima de – ou até a par de – a graça de Cristo, então perdemos a visão sobrenatural e começamos a vê-lo de um ponto de vista humano (2 Cor, 5-16).

Mais do que isso, a vida de graça requer que renunciemos a nós mesmos: “Quem não pegar na sua cruz para me seguir, não é digno de mim. Quem encontrar a sua vida perdê-la-á e quem perder a sua vida por minha causa encontrá-la-á”. No final de contas é disto que se trata: Recebemos a nossa força de nós mesmos, ou da sua graça? Pegar na Cruz e perder as nossas vidas significa transferir a nossa força e a nossa dignidade de nós para Ele.  

A vida de graça requer ainda recetividade. De facto, é este o propósito da auto-negação cristã. A renúncia e a auto-negação não existem por si mesmas. Praticamo-la para criar espaço para Deus, para libertar as passagens da alma para o fluir da sua graça. Esvaziamo-nos do orgulho e da autossuficiência para termos espaço para o receber. A sua graça chega-nos livremente, mas a sua eficácia depende da nossa vontade de receber e responder.

Consequentemente, depois de falar sobre renunciar, Nosso Senhor fala sobre receber: “Quem vos recebe é a mim que recebe”. Receber significa aceitar um dom, não de acordo com os nossos critérios e requisitos, mas como nos é dado. “Quem receber um profeta por ser profeta receberá recompensa de profeta”. Ter as nossas expectativas e requisitos em relação à graça de Deus cria um obstáculo ao seu trabalho em nós. Recebemo-lo segundo os seus termos, ou não recebemos de todo.

A oração do apóstolo não é em vão: Que o nosso Deus vos torne dignos do seu chamamento”. Pela sua graça, Deus tornou-nos dignos dele, participantes da sua própria natureza divina. Isto é um grande dom. A tarefa que o acompanha é reconhecer esse dom – “Cristão, reconhece a tua dignidade!” (São Leão) – e “leva uma vida digna do chamamento” (Efésios 4,1)


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 1 de Julho de 2020 em The Catholic Thing)

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quarta-feira, 24 de junho de 2020

A Vida num Sistema Pós-Totalitário

Em todo o lado estamos a ver sinais da cultura “woke”, numa sociedade cada vez mais dominada por pessoas brancas que se atropelam umas às outras para mostrar que são mais “woke” que todas as outras e muito menos tolerantes de tudo o que não consideram “woke” e “impuro”. Trata-se do equivalente das tentativas na era vitoriana de mostrar que eram mais “cultos” que os outros, com as suas demonstrações grandiosas de justa indignação contra qualquer tipo de comportamento que lhes parecesse insuficientemente culto.

Nestas circunstâncias, o livro “Regras para Radicais” de Saul Alinsky, tornou-se o manual preferido para o envolvimento político, em vez da Constituição ou dos Fundadores. Mas a obra “O Poder dos Sem Poder”, de Vaclav Havel, devia ser leitura obrigatória para todos os que desejam defender, contra forças aparentemente inultrapassáveis, aquilo que se tornou o movimento contra-cultural mais ameaçador nos Estados Unidos: o Cristianismo.

Havel descreveu a vida na Europa de Leste comunista dos anos 70 como “pós-totalitária”, não porque o sistema não era totalitário, mas porque a forma como esse totalitarismo era exercido na sociedade era radicalmente diferente do totalitarismo de ditadores como Hitler e Mao. O biógrafo John Keane descreveu a definição de Havel de um mundo pós-totalitário da seguinte forma:

“Dentro do sistema cada indivíduo está preso por uma espessa rede dos instrumentos do Governo… legitimados por uma por uma ideologia flexível mas englobante, uma ‘religião secularizada’… torna-se assim necessário ver, segundo Havel, que as relações de poder… podem ser descritas da melhor forma como labirintos de influência, repressão, medo e autocensura que engole toda a gente, deixando-os em silêncio, estultificados e marcados por prejuízos indesejados dos poderosos.”  

O exemplo mais Famoso de Havel é do merceeiro que expõe um cartaz na janela da sua loja a dizer “Trabalhadores do mundo, uni-vos!”. Não o faz porque está particularmente interessado nos trabalhadores do mundo, mas porque não o fazer seria um sinal de desobediência inadmissível à ideologia dominante da sociedade.

Aqueles que lhe impõem essa obediência, recusando tolerar qualquer falha em expor o requerido sinal de submissão, não estão mais preocupados com os “trabalhadores do mundo” do que o merceeiro. Mas denunciá-lo-ão e puni-lo-ão para mostrar que continuam a aderir fielmente à ideologia dominante, ainda que o merceeiro seja precisamente um dos trabalhadores com quem alegam estar preocupados.

O merceeiro teria vergonha de colocar um cartaz a dizer: “Eu, merceeiro XY, vivo aqui e sei o que devo fazer. Comporto-me da forma que é esperada. Podem contar comigo e não têm nada a apontar-me. Sou obediente e, por isso, tenho o direito a ser deixado em paz”. A exposição do esperado “Trabalhadores do mundo, uni-vos”, permite ao merceeiro esconder a sua cobardia atrás de uma fachada de preocupação desinteressada. “Mas a verdade é que os trabalhadores do mundo estão a ser oprimidos”, dirá ele. E isso é incontestável. Mas não é por isso que ele colocou o cartaz. O cartaz é um sinal da sua submissão, não das suas convicções pessoais.

Vaclav Havel
“A ideologia é uma forma ilusória de se relacionar com o mundo”, escreve Havel. “Oferece ao ser humano a ilusão de uma identidade, de dignidade e de moralidade, ao mesmo tempo que torna mais fácil dissociar-se delas. Enquanto repositório de algo supra-pessoal e objetiva, permite às pessoas enganarem as suas consciências e esconder as suas verdadeiras posições e o seu inglório modus vivendi, tanto do mundo como de si mesmos… É um véu atrás do qual os homens podem esconder a sua própria existência decaída, a sua trivialização e a sua adaptação ao status quo. É uma desculpa que todos podem usar, desde o merceeiro, que disfarça o seu medo de perder o emprego com um alegado interesse pela unificação dos proletários do mundo, até ao mais alto funcionário, cujo interesse em permanecer no poder pode ser escondido em frases sobre o serviço às classes operárias.” É um “mundo das aparências”, escreve Havel, “a tentar passar-se por realidade”.

“O sistema pós-totalitário toca todos os aspectos da vida das pessoas, mas fá-lo com luvas ideológicas. É por isso que a vida nesse sistema está de tal forma permeada por hipocrisia e mentira: ao governo por burocracia chama-se governo popular… a total degradação do indivíduo é apresentada como a sua máxima libertação; à privação de informação chama-se disponibilização; ao uso do poder para manipular chama-se o controlo popular do poder e o uso arbitrário do poder é descrito como a observação do código legal; chama-se desenvolvimento cultural à repressão da cultura; a expansão de influência imperial é apresentada como apoio pelos oprimidos; a falta de liberdade de expressão torna-se a mais elevada forma de liberdade; as eleições fraudulentas tornam-se a mais alta forma de democracia; a proibição do pensamento independente torna-se a mais científica das mundivisões.”

Havel argumentou que a restauração de uma sociedade livre apenas podia ser alcançada pela recusa de dar crédito a slogans vazios e a rituais sem sentido – ao recusar tornar-se parte da mentira que oprime os outros sem dar liberdade a ninguém. Havel descreveu isto como “vivendo na verdade”. E esse, afirmou, é o poder mais importante que ainda resta aos sem-poder.

Contudo, a “verdade” só por si raramente chega. A “verdade” deve ser defendida através da coragem e da disponibilidade para servir os outros e sacrificar-se. É quase certo que o merceeiro perderá a sua loja caso se recuse a exibir o cartaz. E depois? Alguém virá defendê-lo? Apoiá-lo e talvez contratá-lo? Ou ficarão em silêncio para que não lhes seja lançado também o olhar duro da suspeita?

Aqueles que proclamam a “verdade aos poderosos” devem ter a credibilidade que vem de servir os outros na verdade. Quando as pessoas não podem negar que o merceeiro se preocupa com os trabalhadores, torna-se mais difícil tirar-lhe a mercearia. Não deixarão de o fazer. Mas quando o fizerem isso revelará o sistema por aquilo que é: um frágil véu de mentiras. A escolha é nossa: Cuidar dos outros na verdade, ou colocar cartazes da vossa submissão às narrativas que oprimem sem libertar.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 17 de Junho de 2020)

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quarta-feira, 17 de junho de 2020

Duas Visitas à Casa dos Escravos

Michael Pakaluk
O Papa João Paulo II visitou a Maison des Esclaves, a “Casa dos Escravos”, na ilha de Goreia, ao largo do Senegal, em 1992. Mais de vinte anos mais tarde, o presidente Obama também a visitou. O que é que disseram nessa ocasião, e o que é que as diferenças nos dizem?

A Ilha de Goreia, elevada a Património Mundial em 1978, era um centro de tráfego de escravos entre os séculos XV e XIX, sob o domínio de quatro países europeus: Portugal, Holanda, Inglaterra e França. A ilha é marcada pelo contraste entre as belas casas coloniais e as escuras masmorras onde se processavam os escravos. A UNESCO refere-se a ela como a “ilha da memória” e pretende que permaneça “um símbolo da exploração humana e um santuário para a reconciliação”.

A “Casa dos Escravos”, com a sua ameaçadora “Porta sem Regresso”, que se diz ter sido a última coisa que os escravos viam quando estavam a ser colocados nos barcos para serem enviados para o Novo Mundo, foi transformada num museu em 1962 e hoje é um importante local de visita de turistas.

Na década de 90, depois da visita de João Paulo II, surgiu alguma controvérsia entre historiadores sobre se a Casa dos Escravos tinha de facto processado escravos – o mais provável é que não – e se Goreia tinha sido mesmo um importante porto do mercado esclavagista – e certamente não foi. Em todo o vasto sistema de exploração que foi o negócio dos escravos, parece que “apenas” 30.000 escravos passaram pela ilha. Não obstante, a UNESCO fez bem em não alterar a sua avaliação sobre a importância da ilha.

Os breves comentários feitos pelo Presidente Obama (ver aqui) focam a empatia e a vigilância. Na companhia da Primeira Dama, da sua filha Malia e da sua sogra, disse que esta visita era importante pois dava-lhe “a sentir, de forma muito íntima, a incrível desumanidade e dificuldade que as pessoas enfrentavam antes de embarcarem”, mas que a visita também o recordava que “temos de permanecer alerta no que toca à defesa dos direitos humanos – porque eu acredito firmemente que a humanidade é fundamentalmente boa, mas só é boa quando pessoas boas se levantam em defesa do que está certo. E isto é um testamento em memória de quando não somos vigilantes na defesa do bem, do que pode acontecer”. Segundo os arquivos Obama, o Presidente concluiu as suas declarações – feitas a um público entre os quais estavam o Presidente do Senegal e o presidente da Câmara de Goreia – com um “Obrigado, malta”.

Não deixamos de apreciar as suas boas intenções, mas nada disto faz muito sentido. Se a humanidade é fundamentalmente boa, então porque é que só alguns de nós são “boas pessoas” e porque é que estas boas pessoas só se levantam “em defesa do que está certo” de forma bastante seletiva? E que tipo de natureza é esta que, se não estivermos sempre muito alerta, regride a um estado em que nos matamos e escravizamos? Seja como for, é absurdo dizer que o sistema de escravatura foi simplesmente uma consequência de pessoas não serem vigilantes em defesa do que está certo.  

João Paulo II começou o seu discurso (que poder ser lido aqui) em francês, com “C’est un cri!” – “É um grito que ouço”.

E prosseguiu, dizendo: “Vim aqui escutar o grito de séculos e de gerações e gerações de negros, de escravos. E sou levado a considerar que o próprio Jesus Cristo se tornou um escravo, um servo, pode-se dizer: mas Ele também iluminou a realidade da escravatura. Essa luz chama-se a presença de Deus, libertação em Deus”.

João Paulo II na Casa dos Escravos
E depois disse algo extraordinário: Goreia é um local onde ficamos bem posicionados para pensar sobre a injustiça. A injustiça é “o drama trágico no seio da civilização que se intitula cristã. O grande filósofo antigo, Sócrates, disse que aqueles que sofrem a injustiça encontram-se numa condição melhor do que aqueles que são causa da injustiça”.

Como tantas das declarações de João Paulo II, esta requer muita reflexão e análise. Estará o santo a criticar a noção de uma civilização cristã, e a chamar hipócritas aos nossos antecessores? Não. Ele parte do princípio que as suas declarações de fé são verdadeiras, tão verdadeiras como podem ser para criaturas como nós. Afinal de contas, foi essa mesma civilização cristã, esclavagista, que preservou os ensinamentos de Sócrates. Mas estamos apanhados no meio de algo que nos ultrapassa – daí o drama. Afinal não é assim tão fácil viver como se acreditássemos verdadeiramente que é melhor ser tratado de forma injusta do que praticar a injustiça.

Quando aceitamos o ensinamento de Sócrates começamos a alcançar “o outro lado da realidade da injustiça”, que é invisível e está para além da empatia. A empatia só lida com sentimentos, prazeres e dores, e por isso apenas pode compreender o sofrimento da injustiça, e não a sua prática, como sendo o pior dos males. Mas quando vemos que, ao agir de forma injusta, estamos a escolher o que é pior para nós, e não o que é melhor, começamos a perceber que “as raízes deste drama trágico estão em nós, na natureza humana, no pecado”.

Para reforçar a ideia, João Paulo II actualiza a escravatura: “Vim aqui para prestar homenagem a todas estas vítimas, vítimas desconhecidas… Tristemente, a nossa civilização, que se chamou a si mesma, que se chama a si mesma cristã, regressou novamente no nosso século a esta situação dos escravos anónimos. Sabemos o que foi feito nos campos de concentração. Eis o seu modelo”. E sabemos também que noutros locais João Paulo II fez analogias entre o holocausto contemporâneo do aborto com a escravatura.

Nestes dois discursos vemos duas mundivisões: de um lado, as “pessoas boas” de entre nós, movidas apenas pela empatia, devem estar em constante modo de mobilização, para obrigar todos os outros a ser as boas pessoas que são; no outro, todos estamos envolvidos num drama, como pecado em cada um de nós, ameaçando derrotar-nos, colocando-nos na dependência da ajuda de Deus.

Misericórdia e perdão? Apenas têm um papel a desempenhar na segunda: “Não nos podemos chafurdar na tragédia da nossa civilização, na nossa fraqueza e no pecado”, concluiu João Paulo II. “Devemos permanecer sempre fiéis a outro grito: ‘Onde o pecado abundou, superabundou a graça’ [Rom. 5,20]”.




Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 10 de junho de 2020)

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quarta-feira, 10 de junho de 2020

Pelos Olhos de Uma Criança

Elizabeth A. Mitchell
Uma turba enfurecida emerge das sombras do fim da tarde na prisão municipal de Maycomb, no romance “Mataram a Cotovia”, de Harper Lee, e exige que lhes seja entregue o recluso Tom Robinson. Armado com um candeeiro, um livro e com a sua integridade, o advogado Atticus Finch defende Tom da fúria incontida da multidão. A tensão está já a descambar em violência quando uma pequena voz surge das sombras e identifica um vizinho do meio da turba.

“Olá Sr. Cunningham”, diz Scout Finch, a filha de seis anos de Atticus.

“Disse ‘Olá’, Sr. Cunningham… Eu ando na escola com o seu filho… Diga-lhe ‘olá’ da minha parte, pode ser?”

Com estas palavras Scout retira ao Sr. Cunningham o anonimato da turba e coloca-o novamente no ambiente de Maycomb, um pobre agricultor com uma história de vida, com filhos e ligações próprias. Devolvido assim ao seu estado normal pelo olhar claro de uma criança, o Sr. Cunningham devolve o cumprimento a Scout e, com isso, assinala o fim da intenção da turba. “Eu digo ao meu filho que disseste olá”, promete, e o resto da multidão vai-se afastando para a escuridão.

Na história da Igreja, sempre que o Senhor quer partilhar mensagens especiais com o seu povo, sobretudo por intermédio da sua Mãe, tem escolhido crianças como mensageiras.

Desde Jacinta, Francisco e Lúcia, de Fátima, a Bernadette Soubirous de Lourdes, Dominic Savio e Maria Goretti, de Itália e o contemporâneo Carlo Acutis, de Milão, o Senhor revela a sua sabedoria aos pequeninos. Ele próprio veio a nós como uma criança, como nos recorda o poeta inglês William Blake: “He is meek, and He is mild,/ He became a little Child.”

Há algo no olhar de uma criança que penetra através das mentiras dos adultos e das verdades confundidas. Todos nós já tivemos momentos de profunda veracidade que nos foram comunicadas com a frontalidade de uma criança. As crianças não lisonjeiam, e as crianças não adulam; as crianças existem na transparência do agora.

Podem ser tentadas, e podem errar, mas a sua culpa honesta costuma ser bastante evidente. Podem irritar-se no instante, mas quando são corrigidas tendem a revelar-se profundamente agradecidas pelo amor de que a disciplina é uma expressão essencial. Dizem-nos aquilo que pensam e amam sem vergonha.

As crianças perdoam e esquecem e são infalivelmente fiéis. Não guardam ressentimentos e começam cada dia renovados. Acreditam no bem e aguentam o mal. Têm sido heroicamente pacientes enquanto lhes pedimos para abrir caminhos novos através de uma realidade assustadora e contraditória em tempos recentes. Não mudaram e recordam-nos do que é realidade.

Às crianças também falta o escudo defensivo da realidade, que nós, adultos, usamos para nos esconder quando precisamos. Dante Alighieri fala no “Inferno” da traição da confiança das crianças como sendo particularmente grave, uma vez que ela é dada de forma tão livre. O véu da razão, ou mesmo da autodefesa, com a qual racionalizamos, protegemos e diminuímos problemas, e pessoas, e situações que nos assoberbam, é um instrumento que as crianças não são capazes de utilizar. A realidade apresenta-se-lhes com toda a força bruta.

Em tudo isto encontramos uma confiança sagrada. Robert Royal escreveu um artigo cativante o ano passado chamado “Em busca dos jovens”, em que perguntava se os jovens amáveis, responsáveis e cheios de fé estavam a receber da Igreja aquilo de que precisam, precisamente quando os líderes da Igreja estão desesperadamente a tentar “abrir-se” à juventude. A melhor resposta para essa pergunta seria “Procurar Verdadeiros Adultos”. Uma criança responde a adultos que acreditam nela, que cria limites para ela e que fornece um caminho de crescimento e maturidade.  

Um bom exemplo de um adulto que compreendia este papel formativo foi o Papa São João Paulo II, que passou uma parte significativa do seu pontificado a pedir aos jovens para darem as suas vidas por Cristo de forma destemida. No leito da morte, o Papa dos Jovens soube que na Praça de São Pedro, mesmo ali ao lado, estavam milhares de jovens a guardar vigília. Respondeu, com gratidão e convicção: “Eu procurei-vos e vocês vieram a mim. Obrigado”.

O coração da criança recebe o estímulo do ambiente com abertura. A exposição a estas influências, positivas ou não, tem um enorme impacto na alma da criança durante os seus anos de formação. Se o ambiente for de fé, e confiança e altos ideais, a criança responderá com alegria aberta e aceitação amorosa. Quando as crianças se sentem seguras ficam cheias de paz. Vêm a tornar-se os jovens, e depois os adultos, que alguém teve o cuidado de acreditar que podiam vir a ser.

Os olhos de uma criança vêem a verdade e, frequentemente, se nos dermos ao trabalho de olhar, há alguém no seu olhar que nós próprios devíamos reflectir. Eles vêem a realidade como devia ser, e recordam-nos daquilo que sabem. Vêem o Sr. Cunningham quando nós nos vendemos ao medo, vêem Nossa Senhora quando nós só vemos um riacho lamacento, e vêem mãe, pai, professor e guardião cada vez que falamos e agimos com amor.

As nossas crianças estão a observar-nos, a escutar-nos. Estão a observar-nos para ver que tipo de pessoas devem tornar-se. Estão a escutar-nos para ouvir-nos falar palavras de vida para as suas almas e para verter bênçãos e propósito nos seus corações. As palavras de um progenitor, e em particular de um pai, geram de forma profunda a vida e a identidade neles. “Este é o meu filho muito amado”, diz o Pai, identificando Cristo pela sua essência.

Sejamos dignos dos olhos dos nossos filhos e da verdade que vêem. Recordemo-nos de como Deus nos chama a sermos crianças também, para poder ir a Ele, receber o seu amor e conhecer a sua graça. Através os olhos de uma criança somos fortalecidos para nos tornarmos os homens e as mulheres nobres, fiáveis e abnegadas que somos chamados a ser pelo nosso próprio Pai que nos ama.


(Publicado pela primeira vez no Sábado, 6 de Junho de 2020 em The Catholic Thing)

Elizabeth A. Mitchell, é doutorada em Comunicação Social Institucional pela Universidade Pontifícia da Santa Cruz, em Roma, Itália, onde trabalhou como tradutora para a Sala de Imprensa da Santa Sé e para o L’Osservatore Romano. É decana dos alunos na Trinity Academy, um colégio católico privado no Wisconson. A sua tese “Artist and Image: Artistic Creativity and Personal Formation in the Thought of Edith Stein,” trata o papel da beleza na evangelização pela perspetiva de santa Edith Stein. Mitchell faz ainda parte da direção do Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe em La Crosse, Wisconsin, e é conselheira do Centro Internacional St. Gianna e Pietro Molla para a Família e para a Vida.

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quarta-feira, 3 de junho de 2020

Conflito Total, a Toda a Hora

Francis X. Maier

Cerca de 60% dos americanos acredita na existência do Inferno. Para o benefício dos que não acreditam, temos assistido a uma réplica bem fiel nas nossas ruas desde 25 de Maio, quando um polícia assassinou George Floyd. Se o Inferno é uma imagem demasiado forte, pense antes na República de Weimar. Mas Inferno é mais próximo da verdade.

As pessoas tendem a pensar no Inferno como um lago de fogo, graças às Escrituras, ou então como nove círculos descendentes de tormenta, graças a Dante. Mas eu suspeito que o Inferno é ao mesmo tempo mais prosaico e mais aterrador. É mais próximo da resposta obtida por Fausto quando perguntou ao demónio Mefistófeles como é que conseguia sair do inferno, uma vez que tinha sido condenado. “Mas isto é o inferno”, respondeu o demónio, “eu não saí”.

Tal como o amor é a energia que alimenta o Ceu, a fúria – com todos os seus afluentes de confusão, desespero, frustração e conflito – irradia o inferno. Os condenados não podem escapar porque não podem escapar a si mesmos. O inferno tem a forma que eles próprios fizeram.

Mas o que é que isso tem a ver com os últimos dias (e noites) a que assistimos na América?

Henri de Lubac notou certa vez que, nos tempos modernos, o ódio pelos hereges diminuiu. Mas isso não se deve, disse ele, ao facto de os nossos corações se terem tornado mais caridosos. Simplesmente transferimos os nossos interesses e os nossos ódios para a política. A nossa verdadeira paixão hoje é o poder e a eliminação de tudo o que esteja entre nós e o seu exercício.

A revolta na América causada pela morte de George Floyd tem raízes profundas e legítimas. O racismo é um dos pecados primordiais da nossa nação. Os seus resíduos continuam a envenenar a nossa vida pública. Muitos dos motins a que assistimos ao longo da última semana resultam de uma explosão de fúria por causa de mais uma dose desse veneno. As frustrações acumuladas por causa da quarentena da Pandemia, receios de saúde e problemas por causa do desemprego ajudaram a alimentar o caos nas ruas. Mas os motins também provocaram uma violência sistémica e um ódio político que não víamos há décadas.

Ao longo da vida da geração “boomer” houve uma altura em que a maioria dos americanos acreditavam que eram corresponsáveis pelo Governo da nação. A maioria conhecia as ideias básicas da Fundação. É verdade que a política americana sempre teve um lado feio e toda a gente que viveu os tempos conturbados dos anos 1960 sabe que a unidade nacional não passa de uma ilusão.

Mas apesar das diferenças, a maioria dos americanos sentia que tinha alguma responsabilidade partilhada pelo curso do país. E muitos ainda acreditam. Mas à medida que os anos passam, esse acto de fé parece ter cada vez menos bases factuais. Eramos uma república. Agora, pelo menos em termos substanciais, somos um império.

Mudanças económicas e demográficas, sentenças judiciais e guerras estrangeiras ao longo dos últimos 50 anos transformaram a realidade americana. As nossas instituições públicas e estruturas legais dão ares de perdurar, mas não são imortais. Para sobreviver têm de ser alimentadas por confiança popular, um espírito de compromisso e uma sensação partilhada de propósito nacional que vá para além do “e o que é que eu ganho com isso?”

Uma cultura consumista – que é o que temos – é excelente para saciar os apetites pessoais, mas não consegue promover ou suster nada para além do eu. Essa fraqueza congénita começa por esvaziar de vida uma política de solidariedade e depois substitui-a por tribalismo e uma guerra hobbesiana de tudo contra todos. Esse ambiente de conflito total, a toda a hora, é um bom retrato do Inferno.


Seria fácil culpar a actual falta de nível da nossa política em Donald Trump, na sua tendência para o insulto desnecessário, os seus tweets beligerantes e o seu estilo pessoal agressivo. Muitos querem fazer isso mesmo e certamente ele merece alguma da responsabilidade. Mas ele é um sintoma e não a causa.

Líderes democratas como Pelosi, Schumer, Schiff e outros também fizeram mais do que a sua parte para alimentar o tom tóxico e extremista do nosso ambiente político. Sem um sentimento partilhado de obrigação para Deus ou um poder superior que nos responsabilize pelas nossas acções – algo a que hoje apenas se presta homenagem com a boca na nossa vida pública – a política não passa de um mecanismo para alcançar o poder e a guerra travada nesse sentido.

E a intensidade do espírito de conflito em D.C. desce para a população, levando a incontáveis tabuletas a dizer “O Ódio Não Tem Lugar Aqui” nos jardins, alguns dos quais são sinceros, mas outros que apenas mascaram as suas próprias sementes de amargura, fingindo virtudes.

É fácil sentirmo-nos demasiado pequenos diante da dimensão dos problemas que temos de enfrentar. A questão é, o que fazer? Posso oferecer duas ideias.

A primeira vem novamente de De Lubac. Ele escreveu que “Eu não preciso de conquistar o mundo, mesmo para Cristo: Tenho de salvar a minha alma. É disso que me devo lembrar sempre, contra a tentação de sucesso no apostolado. E assim me guardarei contra meios impuros. Não é nossa missão fazer triunfar a verdade, mas testemunhá-la.”

A segunda é da Primeira Epístola de São Pedro: “Deixem, portanto, toda a espécie de maldade, toda a mentira, fingimento, invejas e murmurações … Comportem-se como pessoas livres e não usem a liberdade como uma desculpa para fazerem o mal, mas para servirem a Deus. Respeitem toda a gente, amem os irmãos na fé, tenham temor a Deus” e, sim, até “respeitem o rei”, independentemente de quem ele seja. (1 Pedro, 2, 1-18)

Não é uma mensagem muito satisfatória. Temos vontade de justificar os bons e punir os maus, tenham eles a forma que tiverem. Mas fazemo-lo, ironicamente, através da forma que construímos e assumimos para nós mesmos. As nações mudam quando nós mudamos. E destas, a segunda é a tarefa mais difícil.


Francis X. Maier é pesquisador em Estudos Católicos na Ethics and Public Policy Center.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 3 de Junho de 2020)

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quarta-feira, 27 de maio de 2020

Barrigas de Aluguer: Um Problema de Dignidade

Ines A. Marzaku
Façam-me o favor de ver este vídeo perturbador. Um coro de recém-nascidos inocentes chora enquanto esperam ser entregues aos seus destinatários. Como é que podemos permanecer em silêncio perante imagens como estas? Estes são bebés sem identidade, a quem foi negada a experiência da voz, cheiro e braços abertos das suas mães, ou sequer a possibilidade de se voltarem para elas quando estiverem com fome.

Qualquer pessoa decente achará tudo isto muito preocupante. Mas a BioTexCom, uma empresa líder no campo dos tratamentos para a infertilidade e reprodução humana na Ucrânia, divulgou as imagens para garantir aos seus clientes que o produto, isto é, os bebés, está em boas mãos e chegará ao destino final logo que as fronteiras, fechadas por causa do Covid-19, sejam reabertas.

À data em que o vídeo foi lançado no YouTube havia 46 bebés à espera de serem entregues. Desde então o número de crianças aumentou para 51 – portanto a “produção” mantém-se. Os bebés nascem de barrigas de aluguer numa clínica reprodutiva atualmente localizada no Hotel Venezia, em Kiev.

Entre os serviços oferecidos pela BioTexCom aos seus clientes encontra-se um grande banco de dadores de óvulos e de barrigas de aluguer. Eis o que o centro promete:

Todos os dias examinamos até 200 candidatas que querem doar os seus óvulos, mas apenas 20% correspondem aos nossos requisitos relativos à saúde física e psicológica, idade, ter pelo menos uma criança saudável e, claro, boa aparência. A nossa base de doadoras tem uma vantagem enorme – você tem a oportunidade de escolher a dadora sozinho. Para isso, fornecemo-lo com fotografias, entrevista vídeo e fotografias em 3D através das quais pode ver a dadora de diferentes perspetivas. Temos a maior base de dadoras do mundo, o que nos permite começar o programa logo depois de assinar o contrato, sem perder tempo em busca de alguém.

Desde a queda da Cortina de Ferro, a Ucrânia tornou-se destino para pessoas da Europa Ocidental e dos Estados Unidos, em busca de barrigas de aluguer. Casais ou solteiros da Alemanha, França, Espanha, Itália, Israel, Reino Unido, América e outros países viajam para a Ucrânia para “encomendar” o bebé perfeito.

Estranhamente, até tem bastante lógica. As mulheres do ocidente industrializado fizeram da reprodução um “outsourcing”; têm capacidade económica para sustentar bebés, mas não desejam, ou não podem, gerá-los. Para isso viram-se para a Ucrânnia e para outros países pobres do Leste Europeu, para mulheres com úteros fortes para carregar bebés e dá-los à luz.

O vazio legal criado pela queda do Comunismo permitiu a legalização das barrigas de aluguer na Rússia e na Ucrânia, e as agências e escritórios de advogados transformaram-no num negócio lucrativo.

Segundo um estudo da  União Europeia sobre as barrigas de aluguer nos Estados membros, os pais adotivos pagam na ordem dos 30 mil euros para “encomendar” um bebé a um escritório de advogados ucraniano.

A Igreja Católica não aceita bem estes insultos à dignidade humana. O arcebispo-maior Sviatoslav Schevchuk, de Kyiv-Halych, líder da Igreja Greco-Católica da Ucrânia e o arcebispo Mieczyslaw Mokrzycki de Lviv, presidente da Conferência Episcopal de bispos de rito latino, pediram ao Governo ucraniano para pôr fim ao “crime duplo de aluguer de ventres”, que se tornou uma praga na Ucrânia.

É uma grave violação da dignidade humana tratar pessoas como bens que podem ser encomendados, produzidos e vendidos. O apelo dos bispos vai ao cerne da questão: o duplo crime das barrigas de aluguer viola os direitos das crianças e a dignidade das mulheres que, por vários motivos – mas sobretudo dificuldades financeiras – se vêem na obrigação de vender os seus corpos e a sua maternidade.

A gestação de substituição é uma ofensa contra as mulheres; como se pode “alugar” o corpo de outro ser humano? E como é que esse pagamento nos torna pais ou mães? A maternidade não é uma mercadoria e não deve ter um preço. A ligação entre mãe e filho é forjada na altura da conceção e ninguém tem o direito de o quebrar.

O Papa Francisco falou de forma clara (AmorisLaetitia, 54) contra a exploração de mulheres pobres e do terceiro mundo. “A história carrega os vestígios dos excessos das culturas patriarcais, onde a mulher era considerada um ser de segunda classe, mas recordemos também o ‘aluguer de ventres’ ou ‘a instrumentalização e comercialização do corpo feminino na cultura mediática contemporânea’”.

As pessoas querem “tudo” mas há limites. Deus colocou esses limites para nosso benefício. Há coisas que são extra commercium, não podem ser compradas. As crianças são dons com a sua própria dignidade, não são bens que temos o direito a comprar no mercado livre.

A Igreja Católica tem sido consistente ao ensinar que a vida humana é sagrada porque, desde o momento da concepção, envolve a acção criadora de Deus e permanece para sempre numa relação especial com o Criador, que é o seu fim último. Ninguém deve finger-se de Deus, produzindo seres humanos em centros reprodutivos, explorando mulheres fragilizadas. Em 1987, São João Paulo II aprovou a Instrução sobre o respeito àvida humana nascente e a dignidade da procriação que aborda especificamente a questão da gestação de substituição:

A maternidade substitutiva representa uma falta objetiva contra as obrigações do amor materno, da fidelidade conjugal e da maternidade responsável; ofende a dignidade e o direito do filho a ser concebido, levado no seio, posto no mundo e educado pelos próprios pais; em prejuízo da família, instaura uma divisão entre os elementos físicos, psíquicos e morais que a constituem.

A Santa Madre Teresa, que passou toda a sua vida numa missão de serviço aos mais pobres de entre os pobres, poderá oferecer uma solução para as barrigas de aluguer, como fez para o aborto: “Vou-vos contar uma coisa muito bonita. Estamos a combater o aborto com a adopção – cuidado da mãe e tratando da adopção para o seu bebé. Assim salvámos milhares de vidas.” Talvez possamos fazer o mesmo para combater a desordem da gestação de substituição redescobrindo a adopção.


Ines A. Murzaku é professora de Religião na Universidade de Seton Hall. Tem artigos publicados em vários artigos e livros. O mais recente é Monasticism in Eastern Europe and the Former Soviet Republics. Colaborou com vários órgãos de informação, incluindo a Radio Tirana (Albânia) durante a Guerra Fria; a Rádio Vaticano e a EWTN em Roma durante as revoltas na Europa de Leste dos anos 90, a Voice of America e a Relevant Radio, nos EUA.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 21 de Maio de 2020 em The Catholic Thing)

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quarta-feira, 20 de maio de 2020

A Religião Causa Divisão?

David G. Bonagura

Na nossa sociedade secular e selectivamente crítica, a religião tem má fama. Os Ditadores do Relativismo afirmam que a religião – e normalmente referem-se ao Cristianismo – devia ser descartada por ser “divisiva”, causando separação entre as pessoas por obrigá-las a tomar partido. Nos últimos tempos, aos trunfos antigos das Cruzadas, Inquisição, as antigas Guerras Religiosas e as motivações religiosas do imperialismo, têm-se juntado as afirmações de que os serviços religiosos são imorais durante a pandemia e que os apelos à oração distraem do trabalho real de conter o vírus. 

Com base nestas acusações, antigas e novas, os Ditadores do Relativismo concluem que a sociedade seria mais pacífica e mais unida sem a religião e sem opiniões religiosas que dividem os cidadãos uns dos outros.

Tendo em conta que os conflitos religiosos existiram de facto, e a actual ameaça do coronavírus, vale a pena considerar a questão: A religião causa divisão social?

Claro que não adianta nada, quando dialogamos com os Ditadores do Relativismo, sublinhar que o Cristianismo tem sido a maior força unificadora que o mundo alguma vez viu, juntando em harmonia todo o género de pessoas que não tinham mais nada em comum. Por cada guerra religiosa que existiu encontramos uma dúzia de exemplos do Cristianismo como factor unificador de sociedades inteiras e dos povos que nelas habitam. Mesmo nestes últimos tempos temos visto o altruísmo de tantos trabalhadores e voluntários que têm estado a trabalhar no sentido de travar o coronavírus e ajudar os doentes, motivados precisamente pela sua fé.

Também não adianta dizer que os princípios morais do Cristianismo – a obediência ao Decálogo, a adopção das virtudes cardeais, a caridade para com o próximo, o cultivo da vida familiar e da educação, o cuidado com o ambiente – são precisamente aquilo que qualquer sociedade são quereria – e precisa – para poder florescer.

Nem os conseguimos mover com a verdade evidente de que as sociedades seculares geraram mais do que a sua quota parte de conflito ao longo dos séculos. A Revolução Francesa, Comunismo e o Nacional Socialismo são ideias seculares que alegavam unir todos debaixo de uma causa comum, mas ao invés acabaram por gerar conflitos terríveis, divisão profunda e muito sangue derramado.

Não, temos mesmo de fazer o jogo no campo deles, por entre as minas antipessoais que colocaram.

Como disse o profeta Isaías, Jesus Cristo é o “Príncipe da Paz” que, como é conhecido, pregou – e depois mostrou durante a sua Paixão – que devemos “dar a outra face” e “amar o próximo como a nós mesmos”. Melhor fórmula para paz cívica é difícil de encontrar.

Mas antes de morrer Jesus avisou os apóstolos: “não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia”, (João 15:19). O que causa divisão é o ódio, uma atitude prescrita em muitas partes do mundo actual, e Cristo claramente se apercebeu da animosidade que os seus discípulos iriam enfrentar. Caso contrário não teria rezado ao Pai para que “eles sejam um, como nós somos um” (João 17,11).

Finalmente, o Senhor, que se descreveu como sendo “manso e humilde de coração”, também fez a seguinte afirmação, que nos dá que pensar:

“Não pensem que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Pois vim para fazer que ‘o homem fique contra seu pai, a filha contra sua mãe, a nora contra sua sogra; os inimigos do homem serão os da sua própria família’. Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim; e quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim.” (Mateus 10, 34-38).

Divisão? Sim, um bocadinho
Será que Jesus está a dizer, branco no preto, que veio para causar divisão e que aqueles que professam o seu nome também o são?

Bem vista, a resposta é que sim.

A paz de Jesus não é uma espécie de tolerância cívica fácil, em que toda a gente finge dar-se bem, com medo de ser castigada. A sua paz, como explicou São João Crisóstomo, é “quando a doença é removida, quando o cancro é retirado. Só com uma cirurgia radical é que é possível o céu ser reunificado com a terra”. A paz que Jesus traz é a verdade, e essa é a única base para uma unidade cívica justa. Só a verdade tem o poder autêntico para guiar a sociedade, porque permite pôr de parte ideias perigosas que podem conduzir à ruína.

Então devemos banir o Cristianismo da sociedade, uma vez que, como admite o seu próprio fundador, ele é divisivo?

O verdadeiro problema não é a religião, mas nós mesmos que, com as nossas mentes toldadas pelo pecado (a verdadeira causa de divisão no nosso mundo), nem sempre percebemos claramente – ou não queremos perceber – a verdade. A verdadeira unidade é a casa construída sobre a rocha, que é personificada em Jesus Cristo.


Conhecendo as nossas fraquezas, Cristo enviou o Espírito Santo para guiar a Sua Igreja, para podermos compreender bem os seus ensinamentos. Os indivíduos podem compreender mal a verdade, incluindo os que estão dentro da Igreja, mas a Igreja enquanto entidade não falhará. As guerras religiosas não são causadas pela verdadeira religião, mas por indivíduos a agir de forma errada, em nome da religião.

Respondemos, portanto, aos Ditadores do Relativismo: Não querem divisão porque não querem a verdade. E não querem a verdade porque querem o mundo a jeito dos vossos caprichos pessoais, que é precisamente a doença que a verdade procura remover. O lema popular, articulado em primeiro lugar pelo Papa Paulo VI, diz: “Se queres a paz, trabalha pela justiça”. Mas não pode haver justiça sem a verdade em que a justiça assenta. Jesus Cristo, conclui o Papa, é a nossa paz.

O Cristianismo é causa de divisão precisamente porque existe para curar o mundo de uma divisão maior ainda: o divórcio da sociedade e da verdade. A acusação feita pelos Ditadores do Relativismo está precisamente ao contrário: Uma sociedade que rejeita o Cristianismo é uma casa dividida contra si mesma que não pode permanecer de pé, e eventualmente cairá.


David G. Bonagura, Jr. leciona no Seminário de São José, em Nova Iorque. É autor de Steadfast in Faith: Catholicism and the Challengesof Secularism, que será lançado no próximo inverno pela Cluny Media.

(Publicado pela primeira vez no sábado, 16 de maio de 2020 no The Catholic Thing)

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