Wednesday, 26 January 2022

A Liberdade Religiosa na Alemanha Hoje

Michele McAloon
Vivo numa pequena aldeia na Alemanha, perto de Frankfurt. A semana passada apareceu um sinal com letras grandes e encarnadas, nas portas da Igreja Católica local, a avisar que quem não apresentar prova de vacinação contra a Covid-19, de recuperação, ou teste feito nas últimas 24 horas, não pode entrar. Durante a missa de domingo – a única altura em que a Igreja está aberta – um paroquiano fica à porta, como um guarda, a verificar o certificado de vacinação de todos os que pretendem entrar.

Num país onde a prática religiosa nos últimos anos tem sido anémica, na melhor das hipóteses, este último golpe pode ser fatal para a vida espiritual dos alemães. Porém, os bispos mantêm-se em silêncio sobre restrições locais e estaduais motivadas pela Covid.

Salvo o que se passou o ano passado quando a anterior chanceler alemã Angela Merkel tentou cancelar a Páscoa – não estou a gozar – não tem havido quaisquer relatos nos media da Alemanha de prelados, ou até cidadãos individuais, a protestar contra ordens governamentais sobre quem é que as Igrejas podem servir durante a pandemia. Merkel acabou por ceder e permitir as celebrações pascais, mas só depois de protestos e pressão de empresários e comerciantes.

A comparação entre a resposta americana e a alemã relativa à regulação de ajuntamentos religiosos diz muito sobre o diferente entendimento de liberdade religiosa nas duas nações.

A reação nos Estados Unidos às restrições a ajuntamentos religiosos não podia ter sido mais diferente. Em Abril de 2020, quando foram introduzidas restrições para prevenir a propagação da Covid-19, surgiu uma verdadeira tempestade de processos judiciais, a alegar a violação da Primeira Emenda.

As batalhas sobre liberdade religiosa foram travadas de forma apaixonada nos tribunais e nos media por organizações como o Becket Fund for Religious Liberty e a Alliance Defending Freedom que interpuseram acções nos tribunais federais contra governadores que emitiram decretos estaduais para impedir as celebrações religiosas. A reação pública foi audível e rápida. O resultado é que durante esta última vaga da pandemia as igrejas têm-se mantido maioritariamente abertas. Os governadores evitam arreliar os eleitores.

Mas ao contrário dos Estados Unidos, onde a Constituição proíbe o governo federal de se intrometer em assuntos religiosos, a Constituição alemã nada diz sobre o assunto. Oficialmente não existe Igreja de Estado na Alemanha, mas desde 1919 que o Governo alemão cobra um “imposto eclesial” (Kirchensteuer, em alemão). Na prática, este imposto transforma a Igreja alemã numa espécie de agência estatal.

Se alguém estiver oficialmente registado como católico, ou membro de outra confissão, são-lhe cobrados mais 8 ou 9% de IRS. A única forma de evitar este imposto é fazendo uma declaração a renunciar a pertença religiosa. Nesse caso, o indivíduo deixa de poder receber os sacramentos ou um enterro cristão.

Em 2020 este imposto gerou 7,75 mil milhões de dólares para a Igreja Católica Alemã, apesar de um número recorde de católicos terem abandonado a Igreja. Em 2019 foram 272,771 os que saíram – um ligeiro aumento em relação aos números de 216,078, em 2018. Contudo, o dinheiro tem comprado silêncio e muito pouca oposição dos bispos (cujo ordenado é pago pelo Estado) quando o governo interfere em assuntos religiosos.

O quarto presidente dos Estados Unidos, e arquitecto da Primeira Emeda à Constituição, James Madison, poderia apontar para a Alemanha como um exemplo para o não financiamento das igrejas pelo Estado. Na sua excelente biografia James Madison, America´s First Politician, Jay Cost mostra como o jovem Madison entrou na arena política precisamente através da luta pela liberdade religiosa.

A Colónia de Virgínia designou o Anglicanismo como religião de Estado e de seguida passou a cobrar impostos para financiar a igreja. O tratamento desigual e por vezes abusivo de outras denominações religiosas na colónia – tanto da parte de representantes do Governo como dos cidadãos – revoltou Madison. No seu discurso na Assembleia Estadual observou que as Igrejas de Estado “tendem para grande ignorância e corrupção” por causa da promoção do “orgulho, ignorância e malandrice” e “vício e maldade entre os leigos”. Madison acabou por convencer os seus concidadãos a deixarem de financiar as igrejas, e esta experiência ao nível do Estado sublinhou a necessidade da Primeira Emenda à Constituição dos Estados Unidos.

Tendo em conta a diferença na lei alemã, não admira que o infame Caminho Sinodal da Conferência Episcopal (que está a ser acompanhada de perto por leigas particularmente estridentes) se tem desviado rumo à corrupção (como Madison avisou), tentando abençoar uniões homossexuais, a ordenação de mulheres e até a abolição do sacerdócio. Entretanto a evangelização – a missão central da Igreja – tem sido quase completamente esquecida.

Os bispos alemães têm feito ouvidos moucos aos apelos repetidos do Papa Francisco para se focarem na evangelização, dada a “crescente erosão e deterioração da fé”. Numa carta de 28 páginas endereçada aos bispos, o Papa Francisco escreve: “Sempre que uma comunidade eclesial tentou resolver os seus problemas sozinha, dependendo apenas das suas próprias forças, métodos e inteligência, acabou por multiplicar e fomentar os males que pretendia ultrapassar.” Ironicamente, em resposta, os bispos acentuaram os seus esforços. Desde 2019, quando o Papa escreveu a carta, vários bispos encorajaram publicamente a bênção de uniões entre pessoas do mesmo sexo. Porém, a Conferência Episcopal tem-se mantido em silêncio sobre as restrições ao culto religioso motivados pela Covid-19.

A maioria dos alemães que continuam a ir à missa são católicas fiéis e ortodoxos que não concordam com o caminho sinodal. Mas mantêm-se em silêncio, com medo de uma sociedade religiosamente intolerante e obcecada com regras. Resta ver se estes poucos crentes – o último bastião de católicos fiéis na Alemanha – irá cumprir com as regras de admissão nas suas igrejas locais.

Historicamente, não é despropositado nem xenófobo perguntar o que pode vir a preencher o vazio numa Alemanha espiritualmente despojada ou, por falar nisso, noutra nação qualquer. Mas dêem graças pelo barulho e a revolta demonstrados pelo povo americano – por mais preocupante que possa parecer no momento. Desde a fundação dos Estados Unidos até hoje, a luta dos americanos pela liberdade religiosa tem tido consequências muito para além das suas fronteiras.


Michele Malia McAloon é casada há quase 28 anos. É mãe, oficial das Forças Armadas americanas na reserva e advogada de direito canónico. Vive em Wiesbaden, na Alemanha. Pode ouvir o seu podcast “Cross Word” no Spotify, Apple Podcasts e archangelradio.com.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 20 de Agosto de 2022)

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Wednesday, 19 January 2022

O Corpo de Notting Hill

James Matthew Wilson

Uma pergunta feita pelos meus filhos fez-me lembrar uma música que lhes canto todos os dias, de manhã, desde que me lembro. É a mesma música que a minha mãe me cantava, naquelas manhãs desagradáveis da minha juventude, para amortecer a dura realidade do despertar. Deixem-me repetir: canto esta música praticamente todos os dias.

Mas aqui estava eu, numa tarde de Advento, e não me conseguia lembrar da letra. Algumas partes sim, mas outras claramente estavam erradas. Por mais que tentasse, não me conseguia lembrar de tudo.

Porém, no dia seguinte, às 6h30, entrei na escuridão do quarto dos meus filhos e cantei-a de cor. As palavras vieram-me sem pensar e sem esforço. “Bom dia, bom dia, está uma linda manhã” (trata-se de uma variação do “Good Morning” do filme Singing in the Rain, de 1952).

Estamos perante um caso daquilo que aprendi a chamar memória somática: a mansão que é a mente, em que nos podemos perder nos pensamentos, abstraídos, como se nos esquecêssemos completamente do nosso corpo – na verdade não permite tal esquecimento. Podemos divagar sobre os anjos, mas os intelectos humanos são feitos para depender do corpo. Dependemos do corpo para aprender o que quer que seja; este é o meio através do qual obtemos algo da solidez do mundo exterior para o grande interior do intelecto. Mas isso é só o começo. Corpo e alma formam um só.

O bispo Robert Barron escreve sobre esta unidade no seu excelente livro “The Strangest Way”, rejeitando uma separação que para muitos é tentadora. Estamos habituados a pensar nas coisas corporais como animalescas e inferiores, e das coisas da mente como espirituais e dignas. Frequentemente menosprezamos a bondade dos actos exteriores, por exemplo, caso não tenham sido intencionadas pela mente, e louvamos as intenções interiores, ainda que não se cumpram através de um acto corporal.

Barron discorda. São Tomás diz-nos que a alma é a forma do corpo. Logo, não existe nenhum lugar em que o corpo esteja, mas a alma não. Se é esse o caso, então a prática da fé, as acções muito físicas do corpo em oração – o joelho dobrado, as mãos juntas, as palavras nos lábios – ou nas obras da misericórdia, são elas mesmas práticas da alma.

A encarnação de Cristo, que é simultaneamente inteiramente Deus e inteiramente homem, é um evento singular, sem precedentes e irrepetível. E, porém, revela também algo universal sobre a realidade em geral. O Logos, o Verbo criador, de Deus, tem primazia sobre o mundo material que gera. Todavia, enquanto o mundo desta criação é inferior ao espírito não criado de Deus, o mundo não é de forma alguma meramente acidental. Expressa em si mesmo algo da verdade sobre Nosso Senhor e, na realidade, é um dos caminhos através dos quais regressamos para Ele e o vimos a conhecer. “Cada criatura é, em si mesma, uma teofania”, escreve Henri de Lubac.

O mundo material é uma revelação da glória divina. Na verdade, essa forma provou ser tão adequada que o próprio Senhor, na pessoa de Jesus Cristo, se revelou a nós na carne. Os cristãos são chamados a respeitar a matéria corporal da criação na sua capacidade de revelar Deus. Somos ainda chamados a respeitar a matéria corporal da criação, na medida em que não é Deus, mas uma realidade posta em moção pelo acto amoroso de criação de Deus.

No maravilhoso romance de G. K. Chesterton “O Napoleão de Notting Hill”, todos os países do mundo foram absorvidos pela ordem única e unificada da civilização britânica. Até a Nicarágua (pequena, mas recalcitrante e patriótica) foi colocada em ordem pela “civilização cosmopolita” do “secretário universal” de Inglaterra, o Rei.

Mas um dia um pateta sem quaisquer capacidades chamado Auberon Quin é nomeado Rei e decide, por puro capricho, dedicar o resto da sua vida “a cultivar um sentido mais apurado de patriotismo local nos vários municípios de Londres”. Hammersmith, Kensington, Bayswater, Brompton e Notting Hill devem, por assim dizer, reavivar as suas antigas divindades, tradições e lealdades.


Para Quin tudo isto não passa de uma piada. Mas um jovem chamado Adam Wayne dedica-se de corpo e alma ao programa e em breve dá por si a liderar Notting Hill numa rebelião corajosa para preservar a sua vetusta terra das invasões da razão universal, que aqui assumem a forma de uma importante estrada. Wayne entende o seu bairro nativo como algo poético, uma pura “Terra de Elfos”, onde “os candeeiros da rua” são “coisas tão eternas como as estrelas”. O corpo particular de um lugar particular deve ser reverenciado por si mesmo e pela beleza transcendental que revela aos olhos daqueles que o querem bem.

Esta personagem de Chesterton tem algo do conservadorismo de Burke, na forma como encarna essa sua frase batida do amor pelo “pequeno pelotão a que pertencemos na sociedade”. Mas o patriotismo local de Wayne é também particularmente católico. Ele ama Notting Hill pela sua profundeza, mistério e beleza – tudo coisas que o ajudam a melhor recordar e reverenciar aquilo que os transcende.

Em reconhecimento pela cada vez maior interdependência global, há muito que o ensinamento da Igreja clama por instituições internacionais munidas daquilo a que Bento XVI chama “verdadeiros dentes”. Porém, a Igreja também reconhece que o patriotismo local e a soberania são verdadeiros bens que não devem ser absorvidos pela “regulamentação uniforme”, as “soluções técnicas” ou, sobretudo, “economias de escala”, como argumenta o Papa Francisco em Laudato Si’.

Nessa encíclica o Papa até pausa para apreciar as favelas gigantescas das cidades da América Latina, enquanto lugares “capazes de tecer laços de pertença e convivência que transformam a superlotação numa experiência comunitária”.

Mesmo as particularidades mais esquálidas da carne em que nascemos são dignas da nossa reverência, fidelidade e defesa. Só penetrando o particular é que chegamos ao universal. Dele dependemos, tal como dependemos dos nossos corpos fracos para desempenhar aqueles actos espirituais de pensamento e de memória que iluminam ao som da música a escuridão da manhã.


(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 15 de janeiro de 2022)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. 

Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

 


Wednesday, 12 January 2022

A Consciência enquanto Libertação da Verdade?

Randall Smith
“Na discussão contemporânea sobre o que constitui a essência da moralidade, e como esta pode ser reconhecida, a questão da consciência assume a maior importância, sobretudo no campo da teologia moral católica”. Assim falou o então cardeal Ratzinger, em 1991, na conferência “Consciência e Verdade”. Este tema da ligação entre a consciência e a verdade, sobretudo a verdade acerca da pessoa, foi repetida incessantemente pelos papas João Paulo II e Bento XVI.

Na encíclica Veritatis Splendor, de João Paulo II, a palavra “consciência” surge 108 vezes, maioritariamente em contextos em que está a tentar corrigir erros modernos, como aqui:

Generalizada se encontra também a opinião que põe em dúvida o nexo intrínseco e indivisível que une entre si a fé e a moral, como se a pertença à Igreja e a sua unidade interna se devessem decidir unicamente em relação à fé, ao passo que se poderia tolerar no âmbito moral um pluralismo de opiniões e de comportamentos, deixados ao juízo da consciência subjectiva individual ou à diversidade dos contextos sociais e culturais. (#4)

E novamente aqui:

Em algumas correntes do pensamento moderno, chegou-se a exaltar a liberdade até ao ponto de se tornar um absoluto, que seria a fonte dos valores. Nesta direcção, movem-se as doutrinas que perderam o sentido da transcendência ou as que são explicitamente ateias. Atribuíram-se à consciência individual as prerrogativas de instância suprema do juízo moral, que decide categórica e infalivelmente o bem e o mal. À afirmação do dever de seguir a própria consciência foi indevidamente acrescentada aqueloutra de que o juízo moral é verdadeiro pelo próprio facto de provir da consciência. Deste modo, porém, a imprescindível exigência de verdade desapareceu em prol de um critério de sinceridade, de autenticidade, de «acordo consigo próprio», a ponto de se ter chegado a uma concepção radicalmente subjectivista do juízo moral. (#32)

Na conferência de 1991, o cardeal Ratzinger conta a história de um colega dos seus dias de professor que sugeriu que “devemos na verdade estar agradecidos” por Deus permitir a existência de “tantos descrentes de consciência tranquila. Pois se os seus olhos se abrissem e se tornassem crentes, não seriam capazes, neste nosso mundo, de carregar o fardo da fé, com todas as suas obrigações morais. Mas desta forma, uma vez que podem seguir o seu caminho de consciência tranquila, podem alcançar a salvação”. Este diálogo terá tido lugar numa universidade alemã em meados da década de 1950, ou seja, ainda à sombra da Shoah.

O que é que pensava aquele colega? Graças a Deus que tantas pessoas seguiam Hitler “de consciência tranquila”? Pense-se só como seria irrazoável a Igreja exigir a essas pessoas que carregassem “o fardo da fé, com todas as suas obrigações morais”!

Aquilo que mais incomodou no comentário deste homem, escreve Ratzinger, foi a noção nele contida de que a fé é um fardo que mal se consegue aguentar… a fé quase como uma punição, ou pelo menos, uma imposição difícil de acarretar. De acordo com esta visão, a fé não tornaria a salvação mais fácil, mas mais difícil. Ser feliz equivaleria a não ter de carregar o fardo de ter de acreditar, ou de ter de se submeter ao jugo moral da fé da Igreja Católica. A consciência errada, que torna a vida mais fácil e estabelece um caminho mais humano, seria então uma verdadeira graça… A inverdade, ou a verdade mantida ao largo, seria melhor para o homem do que a verdade. O homem estaria mais confortável nas trevas do que na luz. A fé não seria um dom de Deus, mas uma aflição. Se fosse esta a realidade, como é que a fé poderia conduzir à alegria? Quem teria a coragem de a passar a outros? Não seria melhor poupá-los à verdade, ou mesmo afastá-la deles?

Sem a âncora da verdade objetiva, “os supostos pronunciamentos da consciência” tornam-se “apenas o reflexo das circunstâncias sociais”. “Nenhuma porta ou janela se abre do sujeito para o mundo mais alargado da… solidariedade humana”.

Há décadas que estes documentos, que clarificam os ensinamentos da Igreja sobre a consciência, estão disponíveis. Então porque é que continuamos a ver padres a dizer aos católicos que lhes basta “seguir as suas consciências”, sem se preocuparem com a verdade e com os ensinamentos da Igreja? Não sabem ler?

E porque é que temos de levar com declarações como esta, num artigo do “The Washington Post”, do padre Pat Conroy, o jesuíta que foi capelão católico da Câmara dos Representantes em Washington, que se propõe explicar “porque é que há espaço para ser pro-escolha no catolicismo”?

No nosso sistema constitucional, como é que chegamos ao nosso valor católico neste caso, quando as mulheres têm o direito de optar… A ideia de que cada um pode escolher para onde caminhar com a sua vida é um valor americano. Mas acontece que é também um valor católico… A escolha é um alto valor católico e é também um valor da Igreja. O padre italiano e gigante da filosofia católica no Século XII [sic] Tomás de Aquino diz que se a tua consciência te diz que deves fazer algo que a Igreja diz ser pecado, então estás obrigado a seguir a tua consciência. Isso São Tomás de Aquino!

Não, isso não é Tomás de Aquino (que viveu no Século XIII) e também não é ensinamento da Igreja. Conroy defendeu-se mais tarde dizendo que “para mim o facto de o aborto ser uma tragédia não é debatível” – obrigado senhor padre! Mas acrescenta: “só ela é que pode tomar essa decisão, nós não a podemos tomar por ela”.

Mas essa mulher não está a tomar a decisão pelo seu filho nascituro? E será que o padre Conroy está na verdade a falar sobre consciência? Ou esta valorização da “escolha” não será mais um “reflexo das circunstâncias sociais” – nomeadamente os valores de certos progressistas de bolsos fundos?

Será demais pedir a estas pessoas que leiam os documentos oficiais e que não dêem apoio intelectual a políticos comprometidos com o holocausto de crianças inocentes?


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 11 de Janeiro de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Monday, 10 January 2022

Bons sinais da Comissão

A Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais na Igreja em Portugal deu esta segunda-feira uma conferência de imprensa em que abordou um pouco da sua metodologia e dos seus objetivos.

Pelo que vi e li sobre a conferência – não estive presente pessoalmente – os sinais parecem-me ser muito positivos.

1 – Não teremos Paris

A curiosidade tem sido muita para saber que abordagem a comissão portuguesa vai fazer, se a de praticamente todas as outras comissões até hoje, de apresentar o máximo número de testemunhos possível, mas só os casos que lhe chegam e que são dados como credíveis, ou a da comissão francesa, que optou por recolher dados e fazer uma extrapolação para a realidade nacional quese revelou aparentemente absurda, mas conseguiu fazer um estrondo na comunicação social. A comissão foi clara ao dizer que não serão feitas extrapolações, até porque existe a noção de que os casos recolhidos, ainda que sejam mais do que os esperados, não terão representatividade para tal.

2 – Prioridade para as vítimas

A grande prioridade desta comissão, como não podia deixar de ser, é de dar voz às vítimas. O site criado para receber testemunhas remete para isso mesmo: darvozaosilencio.org

Neste assunto trágico dos abusos só interessa a justiça e a verdade. Tudo o que seja uma instrumentalização das vítimas e dos abusos é de descartar. Até aqui os sinais dados pela Conferência Episcopal e pela comissão que esta nomeou são muito positivos nesse sentido. Não há indícios de que a comissão esteja lá para tentar “dourar a pílula” nem para tramar a Igreja. Isso é excelente, porque acima de tudo essa instrumentalização seria uma falta de respeito pelas vítimas e pela sua dor. Mais, como escrevi noutro artigo, a Igreja só pode crescer e melhorar a sua forma de lidar com este assunto se for guiada pela verdade, e por factos, e não por manipulações e campanhas sentimentalistas.

3 – À justiça o que é da justiça

É importante perceber – e os membros da comissão deixaram-no claro – que o trabalho que agora começa não é uma investigação criminal. Não se pode esperar isso da comissão, nem esta tem os meios. Essa é, aliás, uma excelente notícia, na medida em que liberta a comissão para poder tratar e avaliar casos e testemunhos que não sejam de âmbito criminal ou que já tenham prescrito. Foi garantido que a comissão encaminhará denúncias criminais e testemunhos que não tenham prescrito para as entidades adequadas, que certamente as investigarão.

4 – Boa relação com a imprensa

Um dos detalhes que ressalta desta conferência de imprensa é a vontade dos seus membros de trabalharem com a imprensa. Isto é importante pois, como bem foi dito, a comissão precisa da ajuda da imprensa para divulgar os meios pelos quais podem ser feitos os testemunhos. Em “troca” a comissão ir dando aos jornalistas algum feedback sobre como está a correr o processo, evitando assim especulações que não servem de nada. Esperemos que esta boa intenção se realize.

5 – Dados gerais

Quando – O grosso dos testemunhos será recolhido até junho. Se chegarem testemunhos depois desta data, far-se-á um esforço para que sejam tratados. O relatório final da comissão será apresentado em Dezembro.

Como – Os testemunhos podem ser feitos através do site: darvozaosilencio.org; por telefone: +351 917 110 000, por email: geral@darvozaosilencio.org, por atendimento pessoal, mediante marcação por telefone e, em breve, por carta.

Espaço temporal: A comissão está aberta a escutar casos que remontem até 1950.

6 – Expectativas

O que vai descobrir a comissão? Até ao momento, não tem havido muitos casos reportados de abusos sexuais na Igreja portuguesa. Alguns especulam que isso é porque o assunto nunca foi estudado, e que a realidade escondida é terrível. Na qualidade de jornalista que tem acompanhado este caso, com base no que tenho sabido em “on” e em “off”, julgo que não há razões para temer uma enchente de novas denúncias, sobretudo de eventuais casos recentes. Não nos devemos esquecer que o jornal Observador fez uma campanha de recolha de denúncias, ao longo de várias semanas e que, não obstante ter apresentado dados novos sobre vários casos, só surgiu um caso que até então não era do conhecimento público. O que isto diz sobre a realidade da Igreja e da sociedade portuguesa é assunto para outra reflexão mais profunda, a fazer-se em Dezembro.

Rezemos para que todo este processo corra bem, que contribua para o crescimento e para a santificação da Igreja e, sobretudo, para que algumas das vítimas consigam ver reconhecido o seu sofrimento e alcancem a paz.

Leia também:

Cronologia dos casos de abuso sexual em Portugal

Abusos em França: Números que não batem certo

Wednesday, 5 January 2022

Para 2022 temos Boas e Más Notícias

Francis X. Meier

De vez em quando um jovem pergunta-me se deve tornar-se um escritor católico, e como. Dou sempre a mesma resposta. Temos boas e más notícias. Agora que estamos no início de 2022, vale a pena olhar para os desafios particulares que todos enfrentamos nestes dias. Sendo de ascendência irlandesa-alemã, e melancólico por natureza, vou começar pelas más notícias:

1. O público católico está a diminuir. Isto tem impacto sobre os recursos materiais.

2. Muitos dos que permanecem estão a ficar mais velhos, ou então não estão bem-formados em termos da imaginação sacramental e substância intelectual da Igreja.

3. Os media generalistas são hostis; não se limitam a formar os nossos pensamentos, mudam também a forma como pensamos.

4. O Governo é cada vez menos nosso amigo.

5. Os nossos sistemas económicos e políticos encorajam ao mesmo tempo a auto-absorção e a dependência; o resultado irónico é um sentido alargado de isolamento e impotência.

6. Salvo várias excepções, a liderança da Igreja é fraca. Há mais de 50 anos que os católicos americanos operam segundo premissas erradas. A assimilação levou à digestão pela cultura secular da vida autenticamente católica autêntica, que agora está a ser eliminada como desperdício num sistema orgânico. Não somos simplesmente pós-protestantes, mas pós-calvinistas. A América tem raízes calvinistas e, como argumenta o historiador Carlos Eire, de Yale, no seu livro “Reformations”, o calvinismo cauterizou a imaginação sobrenatural (eliminando o Purgatório, a comunhão dos santos, os sacramentos, as relíquias) e reorientou radicalmente a religião para as preocupações e resultados materiais deste mundo. Ao fazê-lo, abriu as portas para a secularização e a descrença.

7. O resultado de tudo o que escrevi acima é um ambiente de conflito e de declínio que conduz à acédia. Beleza, paz, esperança e alegria são factores frequentemente ausentes da Igreja e da sua vida religiosa – o que por sua vez faz a questão de Deus parecer esclerótica e irrelevante.

Passemos então às boas notícias:

1. Muitas das más notícias são, na verdade, boas notícias, na mesma medida em que um duche frio pode ser um remédio desagradável, mas eficiente, para curar uma bebedeira. A humilhação da experiência católica americana é boa porque os seus frutos têm sido insuficientes. A vida católica nos Estados Unidos produziu vários homens, mulheres e feitos excepcionais, incluindo alguns santos, mas também – pelo menos ao longo das últimas sete décadas – um bom número de fraudes, de amigos de Peniche e de cobardes.

2. Como gostava de dizer o guru da economia Peter Drucker, cada sucesso acarreta as sementes do falhanço, porque facilmente conduz ao excesso de confiança. Mas o inverso também é verdade. Cada falhanço carrega consigo as sementes do sucesso, desde que aprendamos as lições certas com o nosso falhanço. Uma das lições que devemos considerar é esta: Devemos amar as melhores virtudes do nosso país, mas no final de contas não é este o nosso lugar. O nosso lar e a nossa fidelidade pertencem a outrem.

Joseph Ratzinger


3. As nossas actuais circunstâncias não são surpreendentes, foram previstas com uma exactidão incrível por Joseph Ratzinger há mais de meio-século. A Igreja do futuro próximo será mais pequena. Mas será também mais vigorosa, pura, autêntica e preparada para voltar a crescer quando as falsas premissas da nossa cultura resultarem num fracasso. A fé é fértil, e por isso tem futuro. A descrença é um ventre estéril.

4. O conflito nem sempre é mau; às vezes é santo e bom. Produz clareza; a clareza revela a verdade; e a verdade torna-nos livres. Talvez não confortáveis, mas livres. Obriga-nos a escolher onde colocar a nossa lealdade e a enfrentar o que e quem somos verdadeiramente.

5. As Escrituras são para levar a sério: Onde abunda o mal, superabunda a graça e a bondade. Há milhares de pessoas boas a fazer coisas extraordinárias que são ignoradas pela cultura secular. Continua a existir um núcleo católico que está sedento de boa escrita, bom pensamento e encorajamento. É aqui que começa a renovação.

Quanto ao porquê e ao como de ser um autor católico… e na verdade para todos nós…

O porquê: Todos nós temos uma fome de compreender o verdadeiro significado das nossas vidas. A fé católica é verdadeira na sua explicação da realidade, e por isso satisfaz-nos a um nível visceral. A cultura liberal americana baseia-se na ficção de que a liberdade exige a rejeição de paradigmas morais e de verdades universais vinculativos. Mas a maioria das pessoas – e por boas razões – não consegue lidar com a tarefa impossível de criar e sustentar o seu próprio significado. Isto cria ansiedade. O que depois requer anestesia. O que por sua vez leva a uma cultura de dependência e escravidão. A fé católica é uma mensagem de libertação, esperança e significado; uma mensagem realística porque explica o pecado humano e fornece formas de redenção e de reconciliação.

O porquê: O cristianismo é relacional. Não é uma “ideologia”. A maioria das pessoas chega a Deus através da sua presença nas vidas de outras pessoas. É verdade que há quem chegue à Igreja através da conversão intelectual – como Edith Stein, por exemplo – mas a maioria tem um encontro com Deus, através do testemunho de outra pessoa, que muda a sua forma de ver o mundo. É por isso que as histórias são frequentemente mais poderosas que os argumentos. As pessoas adoram histórias; aprendemos ao mesmo tempo que somos informados e entretidos. E esta é a substância da boa escrita. Leiam o grande ensaio de Georges Bernanos “Sermão de um Agnóstico na Solenidade de Santa Teresa”, ou o excelente conto “Vislumbre de Explicação”, de Graham Greene.

Leiam. Leiam. Leiam com olhar crítico. Mas leiam tudo – católico ou não católico. Algumas das maiores influências no meu pensamento adulto não foram cristãs ou sequer religiosas, mas li-as de uma perspetiva católica aprendida de outros e depois refinada por mim. Leiam pelo estilo (Ernest Hemingway; Neil Postman; mesmo loucos como Terry Southern). Leiam pelo conteúdo (J.R.R. Tolkien, C.S. Lewis, Leszek Kolakowski, Christopher Lasch, Roger Scruton, Pierre Manent, George Parkin Grant). Comparem estilos e trunfos editoriais: NY Times vs. LA Times vs. Wall Street Journal.

Cultivem o vosso vocabulário, mas comprometam-se com a simplicidade. Sejam impiedosos na edição do vosso próprio material. Devem conhecer de cor e salteado o ensaio de George Orwell “Política e a Língua Inglesa”. E por uma questão de sanidade, afastem-se do Twitter. Pelo menos até aprenderem a pensar e expressarem-se como humanos adultos. O Twitter alimenta o conflito. Gera impudência e comentários estúpidos e venenosos. Já estamos saturados de ambos.

Por fim, e talvez mais difícil: tentem dar o benefício da dúvida aos outros. Critiquem assuntos e comportamentos, não pessoas. Por norma, a palavra falada pode ser ignorada ou esquecida.

A palavra escrita é eterna.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 1 de Janeiro de 2022)

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Wednesday, 29 December 2021

Um Mundo de Encarnação

Randall Smith
Quando Santo Agostinho chegou a Milão, em 384, já tinha ficado insatisfeito com os maniqueus, a seita gnóstica a que tinha estado ligado nos últimos 12 anos. Seguindo o conselho de amigos, começou a ler “certos livros dos platonistas”. Estas obras ajudaram-no a transcender os conceitos estreitamente materialistas e conceber um Deus que não é uma coisa, mas é a fonte do ser de todas as coisas. Foi um passo importante, mas não ausente de perigos.

No seu esforço para se unir às “coisas do alto” acabou por se encher de outro tipo de arrogância, dando-lhe a ilusão de ocupar um lugar privilegiado fora do mundo, olhando-o de cima. Ao procurar o Deus “nas alturas”, Agostinho esqueceu-se de procurar o Deus “cá em baixo”. O Cristo Encarnado – cujo nascimento celebramos nesta época de Natal – ensinou-lhe a encontrar Deus não só “nas alturas”, mas também “cá em baixo”: não só nos picos da mente, mas na matéria e nas realidades criadas do mundo.

Por isso, embora Agostinho tenha aprendido muito dos livros platónicos, o que é igualmente interessante é aquilo que não encontrou lá. Não encontrou nada sobre a Palavra se tornar carne e habitar entre nós; nada sobre o Deus que se esvazia e assume a forma de um servo; nada sobre Jesus a humilhar-se e a tornar-se obediente até à morte, mesmo a morte de cruz. “Onde estava esse amor que edifica sobre as fundações da humildade?”, perguntou.

Esta humildade não se baseava no desprezo pelo corpo, mas no amor bem-ordenado por ele; não em considerar os pecados como coisas carnais, mas na total responsabilização por eles; não em tentar elevar-se até ao divino, mas no reconhecimento das próprias limitações e pecados e da necessidade de perdão e auxílio divino.

E essa foi a segunda coisa que Agostinho não encontrou nos livros dos platonistas: um relato da graça de Deus. Esse, acabou por encontrar nas cartas de São Paulo.

Em breve deixaria de se querer contar entre um grupo de elite de filósofos que procuravam chegar aos pontos mais altos da “linha dividida” de Platão através dos seus próprios esforços intelectuais. Doravante, pelo contrário, depositaria a sua fé no “criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis”, que se tinha mergulhado na matéria da sua criação no amor, para a elevar no amor.

Para Agostinho a “linha dividida” já não era apenas uma ascensão vertical. A “salvação” era agora “história da salvação”. A linha tinha sido deitada de lado, por assim dizer, tornando-se a história da entrada de Deus na História – a sua autorrevelação e a redenção da humanidade realizadas no tempo e nos eventos da história humana. Desta perspetiva os humanos devem fazer a sua parte, mas a sua parte é tornada possível pelo amor divino que existe para além dos nossos méritos e dos nossos esforços. Assim, para se ser elevado, é preciso primeiro ser “como Cristo” e abraçar os humildes, os pobres, os meigos e os humildes. É necessário unir-se ao seu corpo e morrer para nós mesmos, e para o nosso egoísmo, para se ser erguido com Ele na comunhão eterna de amor, como o Filho está unido ao Pai. 

Santo Agostinho
Forçado a contemplar o significado de o Verbo se tornar carne, Agostinho chegou a várias conclusões importantes. A primeira é de que a matéria não é má, nem é a fonte do mal. Pensar que sim implica confundir uma causa com um efeito. Não é o corpo da mulher que leva o homem a pecar, mas sim a sua incapacidade de apreciar a beleza da pessoa como um todo: corpo, alma, espírito e mente. Ironicamente, Agostinho nunca conseguiu deixar de estar viciado em sexo durante os seus tempos com os maniqueus, que odiavam o corpo. Esta liberdade só foi alcançada quando ele reconheceu que o corpo não é uma prisão, mas um instrumento com o qual a alma exprime o seu amor desinteressado por Deus e pelo próximo.

O mesmo se aplica ao resto do mundo material: não se trata de uma prisão da qual temos de ser libertados. Através da encarnação ele torna-se o local da nossa salvação. Não somos salvos do mundo, somos salvos no mundo e com o mundo. Somos salvos de uma relação disfuncional com o mundo, através da qual tentamos usá-lo para nos exaltarmos, numa tentativa de autocriação e autodeificação.

Deus deu à Criação uma ordem e é importante que nos conformemos a ela. Não nos realizamos fugindo para outro mundo ou impondo uma ordem estranha a este. Realizamo-nos, e o nosso mundo realiza-se connosco, quando compreendemos a ordem que Deus pretende e nos disciplinamos para preservar e alargar essa ordem. E nesta nova vida, este acesso a uma nova ordem e harmonia não é algo que criamos ou alcançamos sozinhos; é algo que nos é dado de fora do mundo, por um poder fundamental de amor criativo que transcende as nossas próprias capacidades.

Por isso a redenção cristã é a transformação da criação e da pessoa, não uma obliteração ou negação. Não podemos destruir a natureza para realizar o nosso destino humano. Nem podemos controlar completamente a natureza e canalizá-la para os nossos propósitos egoístas sem nos preocuparmos com o bem-estar dos outros. A mensagem cristã é de que apenas realizamos o nosso destino humano quando o vivemos de acordo com a ordem natural criada por Deus, compreendendo-a de forma “encarnacional” e tratando-a “sacramentalmente” como um “instrumento” e “corporização” do amor de Deus.

Deve ter sido fascinante para um homem com um intelecto tão sofisticado como o de Agostinho reconhecer que todo o mundo conceptual da antiga filosofia tinha sido virado de pernas para o ar por uma única criança numa manjedoura em Belém – uma criança que, para além de toda as expectativas humanas, era o Verbo feito carne. Hoje não é mais fácil do que então, embora também não seja mais difícil. Mas se a história for verídica – e é – então não é nada menos do que a chave do sentido de todas as coisas.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 27 de Dezembro de 2021)

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Monday, 27 December 2021

Adeus Desmond Tutu, adeus Renascença

Na esperança de que tenham tido todos um óptimo e santo Natal, aproveito para vos informar que esta será a minha última semana na Renascença. A partir de janeiro vou começar uma nova fase na minha carreira, a trabalhar como freelancer, embora com uma estreita ligação ao gabinete de comunicação da sede da fundação Ajuda à Igreja que Sofre, na Alemanha. Com esta mudança devo ficar mais disponível para colaborações, trabalhos pontuais em regime de freelance, comentário e análise, etc., nas minhas áreas de especialidade, por isso não hesitem em contactar-me se tiverem interesse.

O que é que isto significa para a Actualidade Religiosa? Certamente haverá mudanças, mas não quero deitar a perder esta lista de contactos que fui construindo ao longo desta década e por isso posso garantir que tentarei dar continuidade ao trabalho, embora num formato diferente, que está por determinar.

Entretanto o mundo não pára e ontem disse adeus a Desmond Tutu. O herói da luta contra a discriminação na África do Sul foi também um elemento chave na reconciliação pós-apartheid. São factos que merecem ser recordados e elogiados, não obstante o arcebispo anglicano ter defendido outras causas incompatíveis com o Cristianismo tradicional. O Papa já enviou um telegrama de condolências pela sua morte e o Dalai Lama também.

Por cá as celebrações do Natal foram marcados pela Covid, mas se isso vos chateou, lembrem-se que na Nigéria os festejos são marcados pela cautela e em Cabo Delgado 800 mil celebraram longe das suas casas por causa do terrorismo.

O Papa escreveu uma carta aos casais de todo o mundo, publicada ontem.

Os militares são essencialmente homens e mulheres de paz, garante o bispo das Forças Armadas, o entrevistado desta semana da Renascença e da Ecclesia.

E não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing, que vem mesmo a propósito desta nossa época pré-eleitoral.

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