segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Ecumenismo que floresce e polémica de fim de vida em Inglaterra

Abriu no Porto um novo museu do Holocausto, o primeiro da Península Ibérica, que permite conhecer a interessante história da comunidade judaica daquela cidade.

O Papa deseja para o ecumenismo a força viva das árvores!

Há uma nova polémica no Reino Unido relacionado com cuidados em final de vida. Neste caso é um cidadão polaco a quem se interrompeu o suporte artificial de vida e também a nutrição e a hidratação. Bispos ingleses e o Governo polaco já intercederam a seu favor.

O Papa Francisco está com uma crise de ciática. É um problema antigo que o volta a acometer e que afeta a sua agenda.

O ex-presidente e fundador da CNIS lamenta que o Estado seja “calaceiro” na resposta aos mais necessitados e a mesma organização pede agora que se cumpram as regras de vacinação nos lares.

Não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing, sobre a relação entre Biden e os bispos e aproveitem também para ler o artigo do padre Paul Scalia sobre São José e a importância de um ano dedicado a ele.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Biden bem, Biden mal, nacional-vacinismo nunca mais!

Duas notícias hoje sobre a nova administração Biden, uma positiva (a meu ver) outra negativa (idem). A suspensão das ordens radicais de deportação de imigrantes ilegais – independentemente do seu percurso no país ou do facto de terem mulher e filhos – está a permitir a dezenas de pessoas saírem de igrejas onde procuraram asilo há mais de três anos.

Por outro lado, a redefinição de todas as leis de discriminação sexual abre as portas a uma enxurrada de abusos e de violações da liberdade religiosa, entre outros. O artigo desta semana do The Catholic Thing é sobre algumas das dificuldades de relação entre Biden e os bispos católicos.

O Papa quer que o mundo evite o “nacional vacinismo”.

Com a suspensão das missas públicas, a Renascença voltará a transmitir missa diariamente na Rádio. Também o Santuário de Fátima transmite cinco celebrações por dia.

O médico que descobriu a forma de diagnosticar a Síndrome de Down durante a gravidez e que compreendeu o perigo disso mesmo, está a caminho dos altares. Dizem que faltam milagres, mas eu digo que cada bebé com trissomia que consegue nascer, sobrevivendo ao genocídio em curso, é um milagre! Aqui podem ler sobre outro homem admirável que também está a caminho dos altares!

Eu queria evitar escrever este texto, mesmo, mas em consciência não posso. Tenho assistido com desalento a várias pessoas que partilham da minha visão do mundo e dos meus valores a ir no que considero ser o canto da sereia. Estou a falar do “fenómeno” André Ventura… Leiam aqui para compreender melhor.

Eu não voto, mas se votasse não era nele

Desde os 14 anos que sou monárquico e nunca votei em eleições presidenciais. Faço-o conscientemente. Claro que há muitos monárquicos que votam nestas eleições, e não os critico, mas a minha forma de mostrar a minha discordância com o regime é de não participar no processo.

Pela mesma lógica não costumo comentar os candidatos ao cargo, mas escrevo este texto porque André Ventura tem-se tornado um fenómeno maior do que aquele que representa nestas eleições em particular e porque estou verdadeiramente preocupado em ver muita gente com quem em princípio me identifico – católicos ou cristãos, tendencialmente conservadores, preocupados com questões sociais como o aborto e a eutanásia, etc., – a deixarem-se levar por um fascínio que não só não compreendo como acho perigoso.

Uma última nota, antes de continuar. Há quem diga que os críticos do Chega da direita só temem a perda de influência dos seus partidos. Sobre isso sou insuspeito. Não tenho partido, nunca tive, muito menos exerci qualquer cargo ou tenho em perspetiva fazê-lo.

1 – A fraude

O André Ventura até pode ser mais ou menos simpático, não está em causa o gosto pessoal. O problema é que eu não confio em André Ventura. E não confio em André Ventura porque acho que ele é uma fraude.

É inteligente, sem dúvida; é articulado, sem dúvida; tem boa presença, sem dúvida e é cativante, evidentemente. Mas tudo isso só torna mais perigoso o fenómeno, porque a verdade é que eu não acredito por um segundo que ele concorde com uma fração das coisas que diz para cativar o eleitorado do Chega.

E isso – um político que prega aquilo em que não acredita, acicatando rivalidades e divisões para se promover e conquistar eleitores – é muito grave. Mas o populismo é isso mesmo.

Eu não acredito que Ventura seja contra o casamento homossexual, que seja contra a eutanásia e que seja contra a legalização do aborto. Há registos de ele ter defendido quase todas estas coisas, e mais, como a legalização da prostituição e alguns desses registos são até bem recentes. Um homem não pode mudar? Pode. O problema é que não vejo qualquer sinal de que essa mudança seja sincera e não um simples aproveitamento político.

Da mesma forma não acredito por um segundo que Ventura seja o devoto católico por que se faz passar, deixando-se fotografar ajoelhado em oração, afirmando sem vergonha na cara que a sua missão está intimamente ligada à mensagem de Fátima e depois criticando o Papa.

André Ventura é um actor. No teatro e no cinema isso não é vergonha nenhuma, mas na política faz dele uma fraude.

2 – As políticas

Há políticas que o Chega defende que são discutíveis, mas há outras que são pura e simplesmente inaceitáveis. A castração química é uma solução aparentemente fácil para um problema terrível, mas é uma solução que não tem provas dadas, tem efeitos secundários gravíssimos para a saúde e por isso jamais pode ser imposto a quem quer que seja.

A prisão perpétua atira pela janela toda a base de um sistema penal que tem por objetivo reformar o cidadão e não o castigar ad aeternum e toda a insistência na segurança faz passar uma imagem completamente falsa de Portugal ser um país inseguro, que não é. Da mesma forma, nunca, repito nunca, terá o meu apoio quem publicamente apelida pessoas – sejam quais forem os seus crimes – de monstros, como o Chega faz quando fala da questão da criminalidade.

Um dos problemas mais graves é mesmo a insistência na tecla dos ciganos. E o mais irónico é que eu acho que André Ventura foi mal compreendido quando, ainda candidato pelo PSD a Loures se tornou polémica a frase dele sobre os ciganos. Na altura ele disse que há um problema com os ciganos e foi crucificado por isso, mas é inegável que existe em Portugal – mais nuns sítios do que noutros – um problema com a integração dos ciganos. A forma como ele foi crucificado por um lado, mas elogiado por muitos, por outro, terá tido um papel no percurso que veio a seguir?

Agora, o discurso actual de Ventura sobre os ciganos é inacreditável. Propor leis específicas para membros de uma etnia? Está tudo maluco? E se reconhecemos que existe um problema com a integração dos ciganos, digam-me, por favor, como é que resolvemos isso cavando um fosso ainda maior entre ciganos e não ciganos? Hostilizando-os? Este género de discurso tem o condão precisamente de piorar as situações que pretende denunciar.

Por fim, o discurso desumanizante sobre os imigrantes é demoníaco. Sim, é esse o termo. Trata-se de criar um fantasma à volta de um problema que em Portugal simplesmente não existe e que acicata ódios e alimenta discursos xenófobos. Um cristão pode, naturalmente, defender a existência de regras e de limites à imigração, mas não pode, nunca, adoptar o tipo de discurso que o Chega adopta, sobre este assunto, muito menos o pode fazer invocando alguma espécie de messianismo fatimista. Mete nojo.

3 – Os apoiantes

Deixem-me clarificar já, para não ser mal-entendido. Se eu achasse que todos os apoiantes do Chega são idiotas, não estaria a escrever este texto. O que me preocupa é precisamente ver bons amigos, pessoas próximas, pessoas com as quais me identifico, a deixarem-se levar por este engodo.

A minha preocupação principal neste ponto é aquela franja de apoiantes do Chega que são inegavelmente de uma extrema-direita feia, porca e má e que estão a ganhar relevância e a sentir-se em casa no Chega.

Quando eu participo nas cerimónias do 10 de junho, em Lisboa, frente ao monumento de homenagem aos mortos nas guerras, sei que estão sempre lá os skinheads da praxe. Estão num grupinho, sozinhos, fazem a sua própria festa, mas não é possível olhar à volta e confundir o espírito do evento com a sua presença marginal. Portanto se eu visse que havia uma extrema-direita que votava Chega por achar que era o melhor que se arranjava, eu até compreendia. Mas não é isso que eu vejo. Eu vejo uma extrema-direita que se sente em casa no Chega e que o partido não se limita a aturar, mas que procura mesmo seduzir, com o discurso, com os gestos, com a simbologia. E isso… Bom, isso Chega para mim.

A imagem do apoiante de Ventura a fazer uma saudação romana durante o comício dele não é um infeliz acidente e a forma como outro se aproxima dele e o convence a baixar o braço não tem nada de condenação, mas de cautela e preocupação com a imagem. E este é apenas um caso de pessoas com claras conotações fascistas (uso o termo de forma pensada, e não como a esquerda que considera fascista tudo o que não esteja à esquerda do PSD) que estão felizes e entusiasmados no partido e não se vê nada da parte da estrutura para os demover ou para contrariar esse entusiasmo.

E por isso pergunto às pessoas de bem – os tais de quem o Ventura diz que quer ser Presidente – é neste barco que querem andar? São estes os vossos companheiros de viagem? Bem sei que a existência de fascistas e neo-nazis no partido não faz de vocês fascistas e neo-nazis mas devia, pelo menos, deixar-vos desconfortáveis. Deixa? É que eu não conseguiria estar ali de consciência tranquila. 

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Médicos a escolher quem vive e quem morre é mau, menos quando é bom

Quando regressei, há uns meses, disse que ia tentar voltar a mandar estes mails com regularidade. Ao longo do último mês isso foi completamente impossível, por várias razões, e por isso peço desculpa. Agora vai assim, dia-a-dia, a ver o que se consegue fazer.

Os bispos voltaram a suspender as missas com presença de fiéis, numa altura em que a Covid atingiu dimensões nunca vistas em Portugal. A maioria das comunidades religiosas minoritárias já tinha tomado decisão igual antes.

E numa altura em que morrem centenas de pessoas por dia de coronavírus e os médicos choram, literalmente, por se encontrarem na posição de ter de decidir quem vive e quem morre, o nosso Parlamento não achou melhor ideia do que aprovar uma lei que permite aos médicos matar os seus doentes. A lei da Eutanásia segue agora para Belém, veremos o que acontece a seguir.

Biden foi empossado ontem. A cerimónia teve muita simbologia e linguagem religiosa e o Papa mandou uma mensagem. O presidente da Conferência Episcopal Americana também o fez, mas essa não caiu tão bem, causando até divisões dentro do episcopado. A relação entre Biden e os bispos promete dar que falar e foi tema do artigo desta semana do The Catholic Thing em português.

O tribunal do Vaticano condenou hoje a penas pesadas dois ex-dirigentes do Banco do Vaticano, um com 81 anos e outro com 97 e ainda confiscou dezenas de milhões de euros das suas contas!

Como sabem estive a coordenar a publicação no site da Renascença de uma série de Postais de Quarentena. Hoje publicámos o 100º, mas um dos mais recentes foi um postal da clausura, escrito pelas monjas de Campo Maior, que podem ler aqui.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Biden e os Bispos

Stephen P. White
Enquanto pai eu sou responsável pela formação moral de muitas pessoas pequenas, cada uma das quais com uma forte inclinação para a tirania ou, pelo menos, para a anarquia. O cumprimento destes deveres tem-me tornado, ao longo dos anos, mais cuidadoso no que diz respeito aos meus juízos sobre como os outros devem disciplinar as suas ninhadas.

Saber disciplinar uma criança de uma forma que não só preserva a paz no lar, mas também contribui para o crescimento e a maturidade da mesma não é fácil. Às vezes uma criança responde melhor à misericórdia e ao carinho; noutras é preciso uma mão mais firme. Depende das circunstâncias. Depende do filho. Navegar entre o legalismo e a laxidão requer prudência e bastante humildade.

Como em todas as coisas, o guia mais seguro é o amor.

Tudo isto serve de prelúdio à questão de se políticos pró-aborto como Joe Biden devem ou não ser admitidos à comunhão. Russell Shaw escreveu de forma interessante sobre o assunto recentemente, não pretendo duplicar o seu esforço, mas recomendo a leitura.

Desde então também o arcebispo Chaput tomou posição contra a comunhão para Biden. A Conferência Episcopal dos Estados Unidos já juntou uma comissão para considerar o assunto. O cardeal Gregory, na qualidade de arcebispo de Washington DC, já indicou que vai manter a prática pastoral que está em curso desde os tempos em que Biden era vice-Presidente, dizendo que não lhe será negada a comunhão.

O cardeal está no seu direito de tomar uma decisão pastoral nesse sentido. Devemos partir do pressuposto de que foi tomada tanto para o bem do fiel em questão como da igreja local, uma vez que a politização de discussões sobre a receção dos sacramentos é tudo menos favorável ao sentido de unidade e de cura necessários numa arquidiocese que ainda está a sofrer com o escândalo do cardeal McCarrick e a resignação do cardeal Wuerl.

E, claro, há muitos católicos – pelos quais os nossos bispos são também responsáveis – que consideram pura hipocrisia ver a hierarquia a julgar os políticos quando os próprios bispos se mostraram tão inefectivos a lidar com a crise dos abusos sexuais. A prudência exige que compreendamos que o exercício da autoridade legal está fortemente ligado à autoridade moral e aqueles a quem esta escasseia devem ter cautela em parecer ter demasiada vontade em exercer aquela.

Pondo de lado os detalhes particulares do caso de Biden, os pastores que agem com grande solicitude por causa de um só pecador podem às vezes não dar atenção suficiente aos que foram prejudicados por esse mesmo pecador, nem à comunidade eclesial como um todo. (Há aqui um paralelo com a forma como alguns bispos reagiram à situação de padres abusadores com grande solicitude para com o pecador mas sem preocupação suficiente para com quem sofreu diretamente com os seus crimes, ou pelo bem da comunidade no seu todo).

Em nenhum lado a tendência individualista do catolicismo americano se revela mais profundamente do que na crença de que a recepção da Santa Eucaristia é um assunto privado entre mim e Deus. A recepção da Comunhão é um assunto profundamente pessoal, mas é um acto fundamentalmente eclesial, e não privado. Este facto informa todos os debates correntes sobre políticos católicos e comunhão, e explica porque é que os argumentos antecedem longamente a eleição de Joe Biden e vão certamente continuar muito depois de ele ter abandonado o cargo.


Mais, não é difícil perceber porque é que tratar actos eclesiais pela lente dos actos privados tem implicações que vão muito além da disciplina dos sacramentos.

A Igreja fala frequentemente e consistentemente sobre a ideia de pecado social e estrutural. Como escrevi em 2020, “a noção de responsabilidade coletiva – de ‘pecado social’, para usar um termo muito criticado – não deve ser estranha a ninguém que esteja familiarizado com as escrituras. Deus julga-nos como indivíduos, sim, mas também como membros de povos, atribuindo culpa e julgando agravos tanto pessoal como corporativamente”.

Mas aqui nos Estados Unidos o ensinamento da Igreja sobre o “pecado social” costuma ser (erradamente) descartado como um esquema político de esquerda. Porquê? Uma das razões é porque, durante décadas, políticos católicos têm defendido e expandido o direito ao aborto, subsidiando-o tanto internamente como no estrangeiro, com quase total impunidade. Entretanto o leigo e a leiga comuns são chamados a sentirem-se pessoalmente responsáveis por todo um leque de assuntos estruturais – das mudanças climáticas ao racismo e o alojamento de refugiados – que estão muito para além do seu controlo direto.

Fica-se claramente com a impressão de que existe um padrão de expetativa e de comportamento para os católicos comuns e outro para católicos influentes e bem relacionados: que a nossa fé deve ter consequências para a nossa política, mas que a nossa política não tem qualquer influência na nossa fé. Se os bispos querem mesmo lidar com a questão do pecado social, então porque é que continuam a tolerar – sem quaisquer consequências eclesiais – o apoio direto e claro da expansão de uma injustiça sistémica (o aborto) que custa milhões de vidas?

Se os bispos não conseguem agir como se o apoio direto de alguém a um mal tão grave tivesse consequências eclesiais diretas, então porque é que alguém há de levar a sério a suposta urgência de assuntos sobre os quais os católicos individuais têm muito, muito menos influência? O desafio pastoral em causa vai muito para além da comunhão e do aborto. Estende-se à credibilidade do testemunho público da Igreja.

Já disse muitas vezes antes que nada é mais contrário a uma ética consistente da vida do que o apoio à erradicação em escala industrial de vidas inocentes através do aborto. É precisamente por isso que os bispos afirmaram que o aborto é a sua principal preocupação política. E é precisamente por isso que os bispos formaram uma comissão para coordenar a sua resposta aos desafios colocados por terem agora um Presidente católico pró-aborto.

A linha de acção que melhor serve o bem da Igreja e das almas é matéria sobre a qual bons homens podem discordar. Não invejo aos bispos essa tarefa. Rezemos pelos nossos bispos e pela Igreja. 


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2020)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Martírio “nas Mãos de Deus”

Ines A. Murzaku
Já visitei várias vezes o Vale dos Templos em Akragas – hoje Agrigento, na Sicília. É um dos locais mais arrebatadores da Magna Graecia, que remonta ao Século V antes de Cristo, a era dourada dos gregos na Sicília, antes da chegada dos cartaginenses e dos romanos.

Mas desde 1993 esse vale não tem sido o mesmo para mim. Nesse ano cobri para a Rádio Vaticano a viagem de São João Paulo II, no dia 9 de maio. Todos os presentes ficaram pasmados quando o Papa decidiu improvisar, denunciando enfaticamente a máfia siciliana durante uma homilia diante do Templo da Concórdia.

Foi um discurso histórico: João Paulo II tornou-se o primeiro Papa a pronunciar a palavra máfia. A partir desse discurso a relação ambígua entre La Cosa Nostra e a Igreja tornou-se mais clara (algo que nem sempre tinha sido no Sul de Itália): a máfia e a Igreja estavam em lados opostos. E aqueles que lutam para expor a máfia, incluindo clero e heróis leigos como o juiz Rosario Livatino, são aliados da Igreja, combatendo juntos na mesma trincheira pela justiça:

Deus disse: Não matarás! O homem não pode, nenhum homem, nenhum grupo… a máfia não pode mudar e espezinhar esta mais sagrada lei de Deus!... Este povo, o povo siciliano, ligado à vida, pessoas que amam a vida, que dão a vida, não podem viver para sempre debaixo da pressão de uma civilização contraditória, uma civilização da morte!... Em nome deste Cristo crucificado e ressuscitado, do Cristo que é vida, caminho, verdade e vida. Digo-o aos responsáveis: Convertam-se! Um dia chegará o juízo de Deus!

Poucos sabem que este apelo de São João Paulo foi feito depois de uma reunião privada com os pais do juiz assassinado Rosario Livatino, que será beatificado em breve. Mas o pontífice foi mais longe, descrevendo o juiz de 38 anos morto pela Stidda (a Estrela), um grupo criminoso do Sul de Itália, como: “um mártir da justiça e indirectamente da fé”.

Quando Livatino foi assassinado quase ninguém conhecia este jovem juiz talentoso e exemplar, que trabalhava nas periferias de Itália. O seu trabalho estava ligado à apreensão e confisco de propriedade de origem ilícita adquirida pela mafia siciliana. Fazia-o em total respeito pelos direitos dos acusados, com grande profissionalismo e com resultados concretos. E, também, por compromisso com a sua Fé Católica.

Em 2019 o Papa Francisco reflectiu sobre o que o juiz Livatino tinha escrito acerca da relação entre Fé, Direito e Caridade:

“Decidir é escolher [...]; e escolher é uma das coisas mais difíceis que o homem é chamado a fazer. [...] E é precisamente nesta escolha para decidir, decidir para ordenar, que o magistrado crente pode encontrar uma relação com Deus. Uma relação direta, porque fazer justiça é realização de si mesmo, é oração, é dedicação a Deus. Uma relação indireta, através do amor pela pessoa julgada. [...] E esta tarefa será tanto mais leve quanto mais o magistrado sentir humildemente as suas próprias fraquezas, quanto mais ele se reapresentar à sociedade disposto e inclinado a compreender o homem que está na sua frente e a julgá-lo sem a atitude de um super-homem, mas com contrição construtiva.”

A luta da Igreja contra a Máfia continuaria durante o pontificado de Bento XVI e do Papa Francisco que, em 2014, declarou que “aqueles que na sua vida percorrem este caminho do mal, como são os mafiosos, não estão em comunhão com Deus: estão excomungados!”. Em 2020 Francisco promulgou os “decretos sobre o martírio do Servo de Deus Rosario Angelo Livatino, leigo.” O caminho está por isso aberto para a beatificação do Juiz Livatino, que será o primeiro caso de um juiz-mártir morto pela mafia a ser declarado beato.

Teologicamente, o martírio do Juiz Livatino é um martírio indireto de fé. É mais um exemplo daquilo a que João Paulo II chamou os “novos mártires”, outro modelo de martírio que surgiu durante o Século XX, quando muitos morreram em condições de ataque ideológico ou de violência social em larga escala, ainda que muitas vezes a relação com a fé fosse indireta.

Desde o Século IV que a Igreja reconhece dois caminhos tradicionais para a canonização: a via martyrii (o caminho do martírio) e a via virtutum (o caminho das virtudes). Em 2017, baseando-se na referência de João Paulo II a “um mártir da justiça e indirectamente da fé”, o Papa Francisco introduziu um terceiro caminho para a canonização com um Motu Proprio que especifica que “A oferta da vida é um novo caso no processo de beatificação e canonização, que se diferencia do caso sobre o martírio e sobre a heroicidade das virtudes.”

Existem cinco critérios para avaliar uma “oferta de vida”:

a) oferta livre e voluntária da vida e aceitação heroica propter caritatem de uma morte certa e a curto prazo;

b) nexo entre a oferta da vida e a morte prematura;

c) exercício, pelo menos em grau ordinário, das virtudes cristãs antes da oferta da vida e, depois, até à morte;

d) existência da fama de santidade e de sinais, pelo menos depois da morte;

e) necessidade do milagre para a beatificação, ocorrido depois da morte do Servo de Deus e por sua intercessão.

Aquele jovem e bravo juiz siciliano ofereceu a sua vida, preenchendo abundantemente os cinco critérios: ofereceu a sua vida pela sua vocação de ser um juiz exemplar, combatendo um mal público – a máfia – sabendo que isso poderia conduzir a uma morta iminente; sendo um juiz cristão que aplicava as virtudes cristãs ao exercício do direito; demonstrando como juiz que a Fé e o Direito ou o Evangelho e o Código Civil podem coexistir se forem conduzidos pela virtude teológica da caridade; sendo um juiz que colocou a sua vida e vocação para combater a máfia Sub Tutela Dei (nas mãos de Deus), para usar a expressão que Livatino usava frequentemente no seu diário.


Ines A. Murzaku é professora de Religião na Universidade de Seton Hall. Tem artigos publicados em vários artigos e livros. O mais recente é Monasticism in Eastern Europe and the Former Soviet Republics. Colaborou com vários órgãos de informação, incluindo a Radio Tirana (Albânia) durante a Guerra Fria; a Rádio Vaticano e a EWTN em Roma durante as revoltas na Europa de Leste dos anos 90, a Voice of America e a Relevant Radio, nos EUA.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 8 de Janeiro de 2020 em The Catholic Thing)

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quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Catolicismo e a Plenitude da Verdade

Casey Chalk
“Se tivermos de escolher entre abdicar da religião ou da educação”, afirmou o fundamentalista cristão e populista William Jennings Bryan, “então abdicaremos da educação”. É fácil rirmo-nos hoje de tamanho absurdo, embora Bryan, por mais falhas que tivesse, estivesse a defender o Cristianismo daquilo que considerava serem ataques modernistas e antirreligiosos da escola pública americana. Embora muitos protestantes tenham vergonha, hoje, do anti-intelectualismo de Bryan eu, como católico convertido do protestantismo, detecto uma perspectiva muito problemática na sua visão absolutista que contrapõe a fé á razão.

O teólogo italiano Mauro Gagliardi argumenta no seu livro “A Verdade é Sintética: Teologia Dogmática Católica”, que o Protestantismo opera segundo um modelo de “ou-ou” que vê a verdade como um conjunto de binários simplistas. Já a teologia católica emprega um princípio de “não só, mas também” que sintetiza diferentes realidades.

Gagliardi identifica dois princípios fundacionais do Protestantismo. O primeiro é biblicismo, a crença de que a Bíblia é auto-interpretativa. Mas “quando Lutero diz que a Bíblia se interpreta a si mesma ele quer dizer, de facto, que é o leitor individual que o interpreta. O leitor das Escrituras não precisa… da Tradição, do Magistério, dos Padres nem dos Doutores da Igreja”.

Os protestantes costumam responder que isso confunde a noção de “sola scriptura” de alguns evangélicos com a noção de “sola scriptura” do Protestantismo histórico. Esta última, afirmam, aprecia a necessidade de se interpretar a Bíblia à luz da tradição eclesial.

É verdade que alguns protestantes falam favoravelmente da tradição. Porém, como os filósofos católicos Bryan Cross e Neal Judisch argumentam, acaba sempre por ser o protestante como indivíduo quem decide quais são as tradições que devem ser normativas. Os protestantes adoram citar Santo Agostinho sobre a soteriologia, por exemplo, já não tanto sobre a eclesiologia ou a mariologia. Sem outro princípio unificador para além da Bíblia, o Protestantismo é inerentemente instável e frágil. “É por isso que, desde o início, o Protestantismo se dividiu em centenas de diferentes denominações, todas obviamente convencidas de que são os intérpretes corretos da palavra de Deus”, refere Gagliardi.

O segundo princípio fundamental do Protestantismo é a justificação, nomeadamente a crença de que o cristão se salva unicamente pela Graça de Deus, através da fé – daí os credos reformados da “sola gratia” e da “sola fide”. Gagliardi refere-se a isto como uma conceção de soteriologia totalmente passiva: “mesmo em relação à fé, a pessoa não é um agente positivo; é Deus quem dá o dom e também é Ele quem está activo no dom”.

Isto é ainda mais evidente na famosa doutrina teológica luterana de “simul justus et peccator” (simultaneamente justo e pecador), que ensina que mesmo depois do momento salvífico o cristão retém quer o pecado original quer todos os seus pecados pessoais.

Gagliardi argumenta que a doutrina protestante da justificação reflete a manifestação do princípio “ou-ou” na forma como opõe a humanidade e Deus. A salvação é ou uma obra humana ou divina, e por isso “é preciso escolher”. Uma vez que no homem não existe nada de bom, o agente inteiro e exclusivo na salvação é Deus. Vemos algo de semelhante nos ensinamentos luterano e calvinista sobre a predestinação: uma vez que o homem é impotente em relação ao seu destino eterno, é só Deus quem escolhe. De facto, Calvino popularizou a noção da “dupla predestinação”: em toda a eternidade é Deus quem determina quem será salvo e quem será condenado, independentemente da escolha.

Esta dinâmica é visível também na cristologia protestante, especificamente no que diz respeito à humanidade de Cristo. Gagliardi escreve: “se Cristo é o Salvador, e se nele falamos de mérito, então é devido ao facto de que a divindade do Logos habita na sua humanidade. Pode-se dizer que mesmo para Jesus é verdade que é Deus quem faz tudo, que o ser humano não faz nada”.

Segundo este sistema, a humanidade de Cristo não é um instrumento junto com a sua divindade que colabora verdadeiramente na redenção do homem, mas um tipo de recipiente em que Deus se revela. Isto conduz a uma antropologia muito diferente daquela que encontramos no Catolicismo.


Consideremos, por exemplo, a própria ideia de um santo. Ou, em alternativa, pensemos na diferença entre uma soteriologia protestante em que a fúria divina cai sobre um Cristo que se “faz pecado” por nós e uma soteriologia católica em que o Deus-homem se oferece a si mesmo como sacrifício perfeito de expiação.

O paradigma do “ou-ou” vê-se também na doutrina protestante de “soli deo gloria”. Uma vez que só Deus é digno de glória, não só se proíbe a veneração de santos, mas também a devoção mariana. A veneração de humanos, dizem os protestantes, detrai necessariamente da adoração devida a Deus. Os iconoclastas da Reforma acreditavam que as imagens, ícones e relíquias eram blasfemos e que deviam ser destruídos para bem da pureza litúrgica e eclesial. Os huguenotes franceses, por exemplo, destruíram as relíquias de Santo Ireneu de Lyon, um dos maiores padres da Igreja.

Tendo em conta estes exemplos (e outros), Gagliardi descreve o princípio “ou-ou” como “a assunção fundamental do Protestantismo” e explica:

A Palavra de Deus ou se encontra na Escritura ou na Tradição; logo, devemos escolher, e Lutero escolhe a Escritura, apagando a Tradição. A justificação acontece ou pela fé ou pelas obras humanas, por isso só a fé salva. A salvação é fruto ou da graça divina ou do mérito humano, por isso só a graça salva. Só se deve honrar a Cristo ou a Maria e aos santos, por isso, obviamente, escolhe-se Cristo. Por fim, a glória é devida a Deus ou a um ser humano.

O resultado desta oposição dialética é uma visão profundamente pessimista do homem, bem como a priorização do subjectivo sobre o objectivo.

Os católicos têm sido tentados frequentemente pelo mesmo pensamento dualista, quer isso se manifeste na importação de pensamento protestante, na nossa teologia ou na apresentação do pensamento e da prática católica como sendo uma coisa e não outra, ainda que não exista nenhum pronunciamento do magistério sobre o assunto. Porém, como argumenta Gagliardi, o Catolicismo é inerentemente sintético: a revelação é não só Escritura, mas também Tradição; a salvação requer não só acção divina, mas também humana; Deus é digno de adoração, mas os santos são dignos de veneração.  

O princípio de “não só, mas também” é o que mantém o Catolicismo católico, isto é, fiel à plenitude da Verdade.


Casey Chalk escreve para a Crisis MagazineThe AmericanConservative e a New Oxford Review. É licenciado em história e ensino pela Univesidade de Virgínia em tem um mestrado em Teologia da Cristendom College.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 5 de janeiro, de 2021)

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