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Wednesday, 26 January 2022

A Liberdade Religiosa na Alemanha Hoje

Michele McAloon
Vivo numa pequena aldeia na Alemanha, perto de Frankfurt. A semana passada apareceu um sinal com letras grandes e encarnadas, nas portas da Igreja Católica local, a avisar que quem não apresentar prova de vacinação contra a Covid-19, de recuperação, ou teste feito nas últimas 24 horas, não pode entrar. Durante a missa de domingo – a única altura em que a Igreja está aberta – um paroquiano fica à porta, como um guarda, a verificar o certificado de vacinação de todos os que pretendem entrar.

Num país onde a prática religiosa nos últimos anos tem sido anémica, na melhor das hipóteses, este último golpe pode ser fatal para a vida espiritual dos alemães. Porém, os bispos mantêm-se em silêncio sobre restrições locais e estaduais motivadas pela Covid.

Salvo o que se passou o ano passado quando a anterior chanceler alemã Angela Merkel tentou cancelar a Páscoa – não estou a gozar – não tem havido quaisquer relatos nos media da Alemanha de prelados, ou até cidadãos individuais, a protestar contra ordens governamentais sobre quem é que as Igrejas podem servir durante a pandemia. Merkel acabou por ceder e permitir as celebrações pascais, mas só depois de protestos e pressão de empresários e comerciantes.

A comparação entre a resposta americana e a alemã relativa à regulação de ajuntamentos religiosos diz muito sobre o diferente entendimento de liberdade religiosa nas duas nações.

A reação nos Estados Unidos às restrições a ajuntamentos religiosos não podia ter sido mais diferente. Em Abril de 2020, quando foram introduzidas restrições para prevenir a propagação da Covid-19, surgiu uma verdadeira tempestade de processos judiciais, a alegar a violação da Primeira Emenda.

As batalhas sobre liberdade religiosa foram travadas de forma apaixonada nos tribunais e nos media por organizações como o Becket Fund for Religious Liberty e a Alliance Defending Freedom que interpuseram acções nos tribunais federais contra governadores que emitiram decretos estaduais para impedir as celebrações religiosas. A reação pública foi audível e rápida. O resultado é que durante esta última vaga da pandemia as igrejas têm-se mantido maioritariamente abertas. Os governadores evitam arreliar os eleitores.

Mas ao contrário dos Estados Unidos, onde a Constituição proíbe o governo federal de se intrometer em assuntos religiosos, a Constituição alemã nada diz sobre o assunto. Oficialmente não existe Igreja de Estado na Alemanha, mas desde 1919 que o Governo alemão cobra um “imposto eclesial” (Kirchensteuer, em alemão). Na prática, este imposto transforma a Igreja alemã numa espécie de agência estatal.

Se alguém estiver oficialmente registado como católico, ou membro de outra confissão, são-lhe cobrados mais 8 ou 9% de IRS. A única forma de evitar este imposto é fazendo uma declaração a renunciar a pertença religiosa. Nesse caso, o indivíduo deixa de poder receber os sacramentos ou um enterro cristão.

Em 2020 este imposto gerou 7,75 mil milhões de dólares para a Igreja Católica Alemã, apesar de um número recorde de católicos terem abandonado a Igreja. Em 2019 foram 272,771 os que saíram – um ligeiro aumento em relação aos números de 216,078, em 2018. Contudo, o dinheiro tem comprado silêncio e muito pouca oposição dos bispos (cujo ordenado é pago pelo Estado) quando o governo interfere em assuntos religiosos.

O quarto presidente dos Estados Unidos, e arquitecto da Primeira Emeda à Constituição, James Madison, poderia apontar para a Alemanha como um exemplo para o não financiamento das igrejas pelo Estado. Na sua excelente biografia James Madison, America´s First Politician, Jay Cost mostra como o jovem Madison entrou na arena política precisamente através da luta pela liberdade religiosa.

A Colónia de Virgínia designou o Anglicanismo como religião de Estado e de seguida passou a cobrar impostos para financiar a igreja. O tratamento desigual e por vezes abusivo de outras denominações religiosas na colónia – tanto da parte de representantes do Governo como dos cidadãos – revoltou Madison. No seu discurso na Assembleia Estadual observou que as Igrejas de Estado “tendem para grande ignorância e corrupção” por causa da promoção do “orgulho, ignorância e malandrice” e “vício e maldade entre os leigos”. Madison acabou por convencer os seus concidadãos a deixarem de financiar as igrejas, e esta experiência ao nível do Estado sublinhou a necessidade da Primeira Emenda à Constituição dos Estados Unidos.

Tendo em conta a diferença na lei alemã, não admira que o infame Caminho Sinodal da Conferência Episcopal (que está a ser acompanhada de perto por leigas particularmente estridentes) se tem desviado rumo à corrupção (como Madison avisou), tentando abençoar uniões homossexuais, a ordenação de mulheres e até a abolição do sacerdócio. Entretanto a evangelização – a missão central da Igreja – tem sido quase completamente esquecida.

Os bispos alemães têm feito ouvidos moucos aos apelos repetidos do Papa Francisco para se focarem na evangelização, dada a “crescente erosão e deterioração da fé”. Numa carta de 28 páginas endereçada aos bispos, o Papa Francisco escreve: “Sempre que uma comunidade eclesial tentou resolver os seus problemas sozinha, dependendo apenas das suas próprias forças, métodos e inteligência, acabou por multiplicar e fomentar os males que pretendia ultrapassar.” Ironicamente, em resposta, os bispos acentuaram os seus esforços. Desde 2019, quando o Papa escreveu a carta, vários bispos encorajaram publicamente a bênção de uniões entre pessoas do mesmo sexo. Porém, a Conferência Episcopal tem-se mantido em silêncio sobre as restrições ao culto religioso motivados pela Covid-19.

A maioria dos alemães que continuam a ir à missa são católicas fiéis e ortodoxos que não concordam com o caminho sinodal. Mas mantêm-se em silêncio, com medo de uma sociedade religiosamente intolerante e obcecada com regras. Resta ver se estes poucos crentes – o último bastião de católicos fiéis na Alemanha – irá cumprir com as regras de admissão nas suas igrejas locais.

Historicamente, não é despropositado nem xenófobo perguntar o que pode vir a preencher o vazio numa Alemanha espiritualmente despojada ou, por falar nisso, noutra nação qualquer. Mas dêem graças pelo barulho e a revolta demonstrados pelo povo americano – por mais preocupante que possa parecer no momento. Desde a fundação dos Estados Unidos até hoje, a luta dos americanos pela liberdade religiosa tem tido consequências muito para além das suas fronteiras.


Michele Malia McAloon é casada há quase 28 anos. É mãe, oficial das Forças Armadas americanas na reserva e advogada de direito canónico. Vive em Wiesbaden, na Alemanha. Pode ouvir o seu podcast “Cross Word” no Spotify, Apple Podcasts e archangelradio.com.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 20 de Agosto de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

Thursday, 4 November 2021

Higiene democrática e orações sacerdotais

O Parlamento discutiu esta quinta-feira a nova versão da lei da eutanásia, que será votada amanhã. A Federação Portuguesa pela Vida diz que a oposição à lei é uma “questão de higiene democrática” e o presidente da Conferência Episcopal questiona a legitimidade do processo.

Há 20 anos que a eutanásia é legal na Holanda e na Bélgica, mas só agora, segundo este especialista, é que as consequências para os médicos se estão a começar a fazer sentir.

Vale ainda a pena ler a opinião de Henrique Leitão, de José Pedro Ramos Ascensão e de Manuel Fúria sobre o assunto.

Os bispos vão rezar em Fátima pelas vítimas da pandemia.

Os jesuítas abriram um “serviço de escuta” para vítimas de abusos sexuais, num dia em que o Papa apela ao fim do “silêncio cúmplice” por parte da Igreja nesta matéria.

Numa semana em que tanto se falou de morte, pelas boas razões (2 de Novembro) e pelas más (eutanásia), o artigo do The Catholic Thing em português fala da importância de se rezar pelos mortos, sobretudo pelos que não têm descendentes que rezem por eles… Os padres!

Wednesday, 5 May 2021

Não sabemos a Hora

Elizabeth A. Mitchell
No conto macabro de Edgar Allen Poe “A Máscara da Morte Vermelha”, o Príncipe Próspero toma uma decisão surpreendente quando o seu reino é ameaçado por uma praga mortal. Ele tem poder absoluto e, por isso, encerra o seu palácio, fecha os portões e não deixa ninguém entrar nem sair, isolando-se da morte. Simples. Próspero e os seus cortesãos podem divertir-se em segurança, a Morte não consegue entrar. 

Até que entra. A morte chega, qual convidado indesejado nas soirées exclusivas do Príncipe, e todos os foliões, incluindo o próprio Príncipe, perdem a vida, sem se poderem proteger deste intruso.

E nós, com os nossos confinamentos modernos, com os nossos edifícios isolados e listas de pessoas “essenciais” não somos muito diferentes do Príncipe e das suas tolices. Pior, porque ao tentar manter a Morte fora da nossa sociedade, também fechámos as portas à Vida.

Eu tenho o privilégio de poder aceder a um lar perto de onde vivo. É uma instituição bem gerida e sobreviveu a esta crise sem qualquer surto significativo. Um triunfo para os idosos e uma alegria para todos os residentes. Mas como ninguém pode entrar e ninguém pode sair – nem o carteiro, nem amigos e familiares, nem mesmo o padre – também Cristo foi vedado.

Cristo costumava ser recebido todas as semanas e os residentes católicos apreciavam poder ir juntos à missa. Mas durante o confinamento, que foi mais severo nos lares do que em qualquer outra parte do país, o padre já não pôde entrar. Os residentes estavam ainda impedidos de se juntar em pequenos grupos para rezar. Aceitaram a sua nova realidade: Missa só na televisão, sozinhos, nos seus quartos.

Passaram-se meses. A Páscoa chegou e partiu e veio o calor do verão. Passou a primavera, e o Natal, sem visitas de familiares, e os residentes revelaram uma resiliência e uma força de vontade invulgares. Muitos viveram os tempos da Segunda Guerra Mundial, a vacina da poliomielite e outros desafios. Isto, concluíram, era difícil, mas viável.

Depois veio a Semana Santa e algo mudou. Residente após residente comentou o quanto sentia a falta da Eucaristia. Muitos destes católicos da vida inteira, habituados à missa diária, não recebiam a Eucaristia há mais de um ano. Nem uma vez. E não havia esperança de o fazer.

Foi então que se tornou evidente que, uma vez que eu podia entrar no edifício, Cristo poderia usar-me para aceder. Não duvido que Ele queria vir. Ele via estas almas amadas e ansiava poder estar com elas. 

A aprovação pelo nosso diretor-geral – quase um milagre em si mesmo – combinada com a confiança do pároco, levou à determinação de uma data para eu poder levar a Eucaristia aos residentes. À tarde de Sexta-feira Santa. Sexta-feira Santa? O único dia no mundo em que a Missa não é celebrada, em que Cristo está no sepulcro e o mundo aguarda a Ressurreição em silêncio e solidão.

Quantas hóstias quer? Perguntou o pároco. Vinte e cinco, respondi, pensando que chegaria. Mas algo dentro de mim dizia-me que seriam precisas mais, que devia pedir quarenta. Devia ter ouvido.

Cristo e eu chegámos pontualmente às 13h e fomos diretamente para a Sala das Actividades. Tinha sido colocado um aviso apressado no elevador a dizer que os católicos que quisessem receber a Santa Comunhão podiam juntar-se para a distribuição.

Entrei na sala e vi fé, fé pura, e devoção. Homens de fato, mulheres com colares de pérolas e as suas melhores roupas, todos cientes da presença de Cristo. Coloquei a píxide na mesa e começámos a rezar. Enquanto passava de residente para residente, proclamando: “O Corpo de Cristo”, ouvia a resposta habitual: “Amen”, seguida de “Obrigado!”

Durante a Acção de Graças uma senhora na fila da frente inclinou-se para mim sobre a sua bengala e repetiu: “obrigado, obrigado, obrigado por nos trazer Cristo”.

O Senhor não se esqueceu daqueles indivíduos que nem conseguiam descer até à sala de um edifício confinado numa Sexta-Feira Santa tranquila para O receber. Ele viu-os, os mais isolados, sozinhos nos seus quartos, e foi ao seu encontro. Todos eles. Pelo nome.

Tinham-me dado uma lista de todos os católicos registados quando cheguei: quarenta nomes. Comecei a partir as hóstias em dois, dado o número de almas que desejavam Cristo, enquanto caminhava pelos corredores, batendo nas portas que me tinham sido indicadas, perguntando alto: “Gostaria de receber a Eucaristia?”

A resposta? Suspiros. Lágrimas. Alegria. “Agora? Posso receber a Eucaristia agora?”, perguntavam estupefactos.

Um homem caiu de joelhos à entrada do seu quarto quando me abriu a porta para receber a Eucaristia ali, na ombreira. “Senhor, eu não sou digno”.

Outro, que estava sentado sozinho no sofá a ver a bola, sentou-se direito, surpreendido e expectante, e rezámos juntos. “Senhor, que entreis na minha morada”.

Um casal estava sentado junto na sala de estar do seu apartamento. O marido precisou de ajuda para levar a Eucaristia até à boca, porque tinha as mãos paralisadas.

Alguns dos que estavam na lista já não estavam vivos, tinham sido chamados de volta ao Senhor durante o ano que passou.

Outros foram hospitalizados entretanto, por questões de saúde inesperadas. A sua Eucaristia de Sexta-feira Santa acabou por ser um viático. Não sabemos a hora.

Repeti a cada residente: “Cristo sabia que estava aqui. Ele vê-o. Ele queria vir. Arranjou maneira”.

Uma das mulheres limitou-se a chorar, inclinando-se sobre a sua bengala à entrada do quarto. “Obrigado”, murmurou, “não recebia a comunhão há mais de um ano”. Corriam-lhe lágrimas de gratidão pela cara.

Cristo vê-nos. Ele encontra-nos. “Ele nunca vos falhará ou abandonará” (Deuteronómio 31,6). Não há muro no mundo que o consiga excluir. Nenhum poder do Inferno pode superar a sua força. Nenhuma pandemia nos pode separar, se estivermos dispostos a recebê-lo.

Não sabemos nem o dia, nem a hora, mas a sua vinda é certa. A sua Vida triunfa sobre a Morte, porque a vitória já lhe pertence.


(Publicado pela primeira vez no Domingo, 2 de Maio de 2021 em The Catholic Thing)

Elizabeth A. Mitchell, é doutorada em Comunicação Social Institucional pela Universidade Pontifícia da Santa Cruz, em Roma, Itália, onde trabalhou como tradutora para a Sala de Imprensa da Santa Sé e para o L’Osservatore Romano. É decana dos alunos na Trinity Academy, um colégio católico privado no Wisconson. A sua tese “Artist and Image: Artistic Creativity and Personal Formation in the Thought of Edith Stein,” trata o papel da beleza na evangelização pela perspetiva de santa Edith Stein. Mitchell faz ainda parte da direção do Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe em La Crosse, Wisconsin, e é conselheira do Centro Internacional St. Gianna e Pietro Molla para a Família e para a Vida.

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.


Tuesday, 16 March 2021

Inconstitucionalidade eutanasial

O Tribunal Constitucional decidiu que a lei da eutanásia viola a Constituição.

Os bispos e outras organizações católicas saudaram a decisão, embora sublinhando – ao contrário do acórdão – que a eutanásia é sempre um grave mal que viola o direito à vida.

Houve muita discussão sobre a decisão do tribunal, tendo em conta que a sentença diz que a eutanásia, propriamente dita, não viola o direito à vida. Assim, esta pode parecer uma vitória fugaz, mas sugiro que leiam com atenção esta entrevista a Jorge Silva Pereira, da Faculdade de Direito da Universidade Católica, que ajuda a pôr as coisas em perspetiva.

Hoje é o dia em que os portugueses são chamados a rezar pelas vítimas da pandemia. É uma iniciativa europeia e Portugal ficou com o dia 16.

Fantástica descoberta arqueológica em Israel!

Os Estados Unidos poderão ter em breve o seu primeiro juiz federal de religião muçulmana.

Não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing, sobre as semelhanças entre a Quaresma e a jardinagem.

Thursday, 4 February 2021

Dificuldade e drama em Fátima e fraternidade sinfónica

Dez professores de Direito, incluindo catedráticos e “pais da Constituição” deram a cara para o facto de a lei da eutanásia aprovada no Parlamento ser inconstitucional.

Difícil e dramático” é como o Santuário de Fátima descreve o ano de 2020, que assistiu a um decréscimo grande de receitas devido às medidas Covid.

O Papa participou esta quinta feira no primeiro Dia da Fraternidade e decretou que “ou somos irmãos ou nos destruímos uns aos outros”. A fraternidade, diz ainda o Papa, é sinfónica.

A Igreja Católica de Angola alerta para um “grave massacre” que ocorreu no final de janeiro. As vítimas seriam membros do Movimento do Protectorado Português de Lunda Tchokwe. Eu também desconhecia, mas aqui podem aprender mais.

Certamente já ouviram falar do livro “Quo Vadis”. O artigo desta semana do The Catholic Thing em português parte dessa obra primada literatura para retirar lições para os cristãos de hoje.

Wednesday, 27 January 2021

Revelado o hino das jornadas, economia de Francisco em debate

Já é conhecido o hino da Jornada Mundial da Juventude que se vai realizar em Lisboa em 2023.

Pode saber tudo, e ouvir o hino, aqui. A ideia, diz o secretário-executivo, é “chegar a todos”.

Num tempo em que a solidão é maior, os jesuítas criaram um “ponto de escuta” que pode ajudar quem precisa de companhia. Saiba tudo aqui.

O projeto sobre a “Economia de Francisco” continua a dar que falar. Hoje há uma mesa redonda sobre o assunto com jovens e menos jovens, a que pode assistir por zoom. Toda a informação aqui e na imagem que vai em anexo.

As escolas católicas não gostaram da ordem do Governo para interromperem as atividades letivas.

Morreu um padre assassinado nas Filipinas.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre como a santidade se pode construir nas coisas mais simples da vida. 

Thursday, 21 January 2021

Médicos a escolher quem vive e quem morre é mau, menos quando é bom

Quando regressei, há uns meses, disse que ia tentar voltar a mandar estes mails com regularidade. Ao longo do último mês isso foi completamente impossível, por várias razões, e por isso peço desculpa. Agora vai assim, dia-a-dia, a ver o que se consegue fazer.

Os bispos voltaram a suspender as missas com presença de fiéis, numa altura em que a Covid atingiu dimensões nunca vistas em Portugal. A maioria das comunidades religiosas minoritárias já tinha tomado decisão igual antes.

E numa altura em que morrem centenas de pessoas por dia de coronavírus e os médicos choram, literalmente, por se encontrarem na posição de ter de decidir quem vive e quem morre, o nosso Parlamento não achou melhor ideia do que aprovar uma lei que permite aos médicos matar os seus doentes. A lei da Eutanásia segue agora para Belém, veremos o que acontece a seguir.

Biden foi empossado ontem. A cerimónia teve muita simbologia e linguagem religiosa e o Papa mandou uma mensagem. O presidente da Conferência Episcopal Americana também o fez, mas essa não caiu tão bem, causando até divisões dentro do episcopado. A relação entre Biden e os bispos promete dar que falar e foi tema do artigo desta semana do The Catholic Thing em português.

O tribunal do Vaticano condenou hoje a penas pesadas dois ex-dirigentes do Banco do Vaticano, um com 81 anos e outro com 97 e ainda confiscou dezenas de milhões de euros das suas contas!

Como sabem estive a coordenar a publicação no site da Renascença de uma série de Postais de Quarentena. Hoje publicámos o 100º, mas um dos mais recentes foi um postal da clausura, escrito pelas monjas de Campo Maior, que podem ler aqui.

Wednesday, 18 November 2020

Cristãos iraquianos voltam para casa, bispos de Leiria também

O Papa disse esta manhã que “a oração acalma os inquietos”. Será verdade? Alguma vez viram um trapista inquieto? Então pronto.

Boas notícias do Médio Oriente. Três anos depois de o Estado Islâmico ter sido expulso de Mossul, mais um grupo de cristãos regressa a casa. Ainda assim, há muito a fazer e por isso a fundação AIS apela à generosidade de todos.

Boas notícias também em Leiria, onde D. António Marto teve alta hospitalar e vai poder ir recuperar para casa.

Os bispos católicos da Europa querem que a União Europeia encontre soluções solidárias e conjuntas para a crise provocada pela pandemia.

Faz sentido uma universidade ser cristã? A identidade religiosa não será um obstáculo à busca pelo conhecimento e pela verdade? Randall Smith discorre sobre isto no artigo desta semana do The Catholic Thing, recordando que foi precisamente no seio do Cristianismo que o conceito da universidade nasceu.

Friday, 13 November 2020

Tolentino e a competência dos pais para educar os filhos

Amanhã é o primeiro fim-de-semana de recolher obrigatório, o que vai dificultar as missas dominicais. Alguns padres e bispos tinham avançado a possibilidade de permitir a celebração de missa dominical ao sábado de manhã, mas uma nota publicada pela CEP, esta sexta-feira, explica que isso não é possível, afinal.

A Renascença publica hoje uma grande entrevista com o cardeal D. Tolentino Mendonça. A ler, como sempre!

Realizou-se na noite de ontem o segundo webinar da Pastoral da Família. O tema desta sessão era “Serão os pais competentes para educar?”. Podem saber mais aqui, e até assistir à conferência toda.

As eleições americanas deram muito que falar. Donald Trump continua a negar que tenha perdido, mas o Papa Francisco ligou a Joe Biden para lhe dar os parabéns.

Como já disse, tenho estado a coordenar uma interessantíssima série de “Postais de Quarentena” de diferentes partes do mundo. O de ontem é escrito por um padre romeno e vem em jeito de homilia, com criticas apontadas a quem dificulta o combate ao vírus.

Uma recomendação. Com o aproximar do Natal, não deixem de ver este livro de Thereza Ameal, que pode dar um óptimo presente. Podem saber mais sobre o projecto no programa da Aura Miguel em que a autora participou.

Não se esqueçam de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre o relatório McCarrick, a minha opinião sobre o assunto está aqui.

Thursday, 12 November 2020

Mais surpresa, mais McCarrick

Os bispos voltaram a afirmar que foram apanhados de surpresa pelo anúncio do recolher obrigatório e que vão discutir mais o assunto durante a reunião plenária da Conferência Episcopal.

O tema da pandemia está, por isso, na ordem dos trabalhos dos bispos, mas na abertura da reunião, quarta-feira, D. José Ornelas voltou a falar do tema da Eutanásia.

O Papa Francisco disse esta quarta-feira que a Igreja vai continuar a lutar pela erradicação dos abusos sexuais. Disse-o um dia depois de ter sido publicado o relatório McCarrick, que visa saber como é que um predador sexual como ele chegou a cardeal e arcebispo de Washington, gozando de enorme influência.

Esse relatório, que já referimos ontem, deixa o Papa João Paulo II bastante mal visto. Para quem, como eu, cresceu a amar aquele pastor, são revelações difíceis de engolir. Como conciliar estes seus erros com o facto de ter sido declarado santo? Em primeiro lugar, compreendendo que existe uma diferença entre o erro e a corrupção. Escrevo sobre isso, evocando outra figura sobre quem surgiram entretanto revelações tristes, Jean Vanier, neste artigo que vos convido a ler

E o relatório McCarrick é ainda o tema do artigo desta semana do The Catholic Thing. Normalmente publicamos um artigo que tenha sido publicado no site original na semana anterior, mas esta semana, pela primeira vez, publicamos nós em primeira mão, o artigo que só sairá mais tarde na edição americana. É a vossa oportunidade de se anteciparem aos leitores anglófilos! Não a percam.

Tuesday, 10 November 2020

Relatório McCarrick: Dores que saram

Demorou, mas chegou. O relatório sobre o caso do ex-cardeal McCarrick foi publicado esta terça-feira. Inclui a informação que se pedia: Como é que aquele homem conseguiu chegar onde chegou, apesar de serem conhecidos já boatos sobre o seu comportamento e abusos? Nem todos ficam bem na fotografia e é leitura que dói. Dói mas sara!

Há uma década que não existiam tantas restrições à liberdade religiosa no mundo. A conclusão é da Pew Research Forum e diz respeito a dados coligidos até 2018. Portugal sai-se bem no estudo.

O presidente da Conferência Episcopal de Itália está gravemente doente com Covid-19 e em Portugal já morreram alguns padres da doença que continua a dar cabo do nosso juízo. Com as novas restrições, os habitantes dos concelhos com recolher obrigatório estão sem saber como ir à missa ao domingo, enquanto as dioceses procuram soluções.

De Angola chega a notícia da morte do arcebispo de Malanje, de doença súbita, aos 74 anos, enquanto em Portugal temos o nosso D. António Marto hospitalizado, mas aparentemente estável.

Wednesday, 8 July 2020

Máscaras e a Sagrada Face

David G. Bonagura
A notícia atingiu-me como um choque eléctrico vindo do computador. No meio do confinamento, durante a missa diária da minha paróquia, a que assisti pelo YouTube, foi anunciado que o pai de um antigo aluno meu estava entre os infectados e a precisar de orações. Poucos dias mais tarde soube, da mesma forma, que o Joe Senior tinha morrido. Em vão procurei notícias. Não houve velório, funeral ou obituário público e os meus pedidos à paróquia não obtiveram resposta. Conhecia o Joe Senior dos quatro anos em que dei aulas ao seu filho; eles os dois tinham partilhado connosco os despojos de uma caçada há vários anos. O meu coração pesava por eles e pela sua mulher, que também tinha conhecido.

Algumas semanas mais tarde estava a ajudar a orientar as pessoas na missa de Domingo (com a Igreja a 25% de capacidade) quando entraram o Joe Junior e a sua mãe. Fixei os meus olhos nos dela e senti a minha face a manifestar simpatia. Mas a minha expressão não obteve resposta, ou pelo menos assim pareceu. As nossas caras estavam escondidas atrás de máscaras. Não nos podíamos abraçar. Tentei expressar o meu pesar e saber o que tinha acontecido, mas não foi possível com as nossas vozes abafadas atrás da máscara. O pedaço de tecido que estava a proteger a nossa saúde estava, ao mesmo tempo, a afligir as nossas almas. As máscaras criaram um momento doloroso e desconfortável.

Não estou a argumentar contra o uso de máscaras para evitar a propagação do vírus. Temos de fazer o que temos de fazer. É, antes, uma recordação (e temos tido tantas nesta pandemia) de algo preciso e que damos por adquirido: expressões faciais, que são o mais genuíno dos gestos humanos. Como os sacramentos, tornam visíveis os anseios invisíveis do coração, muitas vezes antes sequer de as palavras terem chegado às nossas bocas. Seja em momentos de dor, triunfo ou alegria, a face abre uma janela para a alma.

Esperamos que as máscaras se venham a tornar relíquias de um ano inesquecível quando finalmente vencermos a Covid-19. Por enquanto, porém, elas provocam alienação entre nós, no sentido mais verdadeiro da palavra: tornam-nos estranhos, estrangeiros, até dos nossos amigos próximos. As máscaras até já transformam o sorriso casual a um desconhecido, esse gesto tão simples, benévolo e quase automático, num olhar estranho. As caras tapadas escondem os nossos verdadeiros seres e formam uma barreira ao cumprimento da nossa vocação enquanto homens e mulheres chamados à comunhão uns com os outros e com Jesus Cristo.

Mas este meu encontro também me levou a pensar noutra face que nunca se cobriu, apesar dos perigos e ameaças. A sagrada face de Nosso Senhor, desprotegida do cuspo e das chapadas dos seus captores. Existe uma devoção piedosa à sagrada face de Jesus, menos conhecida do que deveria ser e de que eu me tinha esquecido. Compreendi logo que a pandemia e a crise civilizacional actuais são o ambiente perfeito para a retomar.

Há uma imagem da sagrada face de Jesus preservada de forma miraculosa no Véu de Verónica, que agora está guardado na Basílica de São Pedro. Na década de 40 do Século XIX, quando as revoluções políticas varriam a Europa, Nosso Senhor revelou à Irmã Marie de Saint-Pierre, uma carmelita francesa, que a blasfémia e a profanação dos domingos feria a sua sagrada face como “flechas envenenadas”. A blasfémia, em particular, comparou a ser insultado na face.

Ele pediu que oferecêssemos a sua sagrada face em oração a Deus Pai, em reparação e pela conversão dos pecadores. Como antídoto, apresentou a oração da “Flecha de Ouro”, a recitar diariamente e, juntamente com ela, esta oração simples: “Pai Eterno, eu Vos ofereço a adorável Face do Vosso Filho muito amado pela honra e glória do Vosso Nome, pela conversão dos pecadores e pela salvação dos moribundos”.

O venerável Leo Dupont, amigo da Irmã Marie, espalhou a devoção à sagrada face de Jesus em França, onde começaram a ocorrer curas milagrosas, atribuídas à sagrada face. O Papa Leão XIII aprovou a devoção, estabelecendo a Arquiconfraria da Reparação à Sagrada Face de Jesus, para que católicos em todo o mundo pudessem participar. Entre os mais entusiastas em França encontrava-se a família Martin, cuja filha, quando entrou para o Carmelo, adotou o nome Thérèse do Menino Jesus e da Sagrada Face.

A jovem santa compôs a sua própria belíssima oração à sagrada face de Jesus, cujo início se aplica muito bem aos nossos tempos. “Ó Jesus … eu adoro a Vossa Divina Face sobre a qual resplandecem a beleza e ternura da Divindade e que agora se tornou para mim como a face de um ‘leproso’. Mas sob estes traços desfigurados reconheço o Vosso infinito amor.”

A sagrada face de Jesus é o ponto perfeito de meditação para uma nação cuja realidade sanitária e civil está numa encruzilhada. A nossa oração universal agora, contudo, vinda da profundeza da nossa alma, é simples: Livrai-nos do mal. O único que o pode fazer passa irreconhecível, mascarado pelos crescentes pecados de todo o género. Só se escutarmos o seu pedido de fazermos reparação pelos nossos pecados e pelos que o desonram é que Ele nos reparará. E só quando nós formos reparados é que a vida social e civil terá qualquer possibilidade de ser reparada.

A Verónica não tinha qualquer cargo ou poder. Mas o seu gesto de compaixão aparentemente ínfimo para com a sagrada face do Senhor continua a ter impacto nos nossos dias, ao contrário das decisões políticas do seu tempo. Enquanto contemplamos a sagrada face, recordemo-nos de que a única forma de ultrapassar a alienação actual é através de um maior amor a Deus.


David G. Bonagura, Jr. leciona no Seminário de São José, em Nova Iorque. É autor de Steadfast in Faith: Catholicism and the Challengesof Secularism, que será lançado no próximo inverno pela Cluny Media.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 8 de julho de 2020 no The Catholic Thing)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Saturday, 2 May 2020

Missas só a 30 de maio? Uma confusão prejudicial e desnecessária

O Governo anunciou na quinta-feira que as celebrações religiosas comunitárias só regressam a 30 de maio e os bispos portugueses acabam de confirmar a decisão este sábado à tarde.

Pelo meio temos padres a anunciar missas em drive-in, outros a lamentar as decisões em homilias gravadas, fiéis a lançar e a assinar petições. Há muita revolta no ar, mas parece-me haver, acima de tudo, falta de certezas.

A decisão de só abrir as missas aos fiéis no final do mês pode ser inteiramente defensável. No máximo, será discutível. Não é isso que está em causa. O que interessa é saber se a decisão foi tomada em diálogo com as confissões religiosas ou é uma imposição.

É o Governo que está, fora de um estado de emergência, a proibir as missas com fiéis? Pelo que percebo de Direito (pouco, mas tento ler de quem percebe), não o pode fazer.

Mas o facto de ter sido o Governo a anunciar a decisão não significa que ela tenha sido tomada unilateralmente pelo Governo. Sabemos que António Costa tem estado em contacto com os bispos e por isso esta pode perfeitamente ter sido uma decisão alcançada em conjunto, ou sugerida pelo Governo e aceite pelos bispos, ou mesmo tomada unilateralmente pelos bispos e aceite e anunciada pelo Governo.

As afirmações do Bispo do Porto à Renascença permitem concluir que pelo menos não parece haver qualquer discordância por parte dos bispos em relação a esta decisão. Mas não nos diz mais do que isso.

Hoje a CEP emitiu um comunicado em que a questão poderia ter ficado esclarecida, mas não ficou. Lê-se: “Através da Resolução do Conselho de Ministros n.º 33-C/2020, que estabelece uma estratégia de levantamento de medidas de confinamento no âmbito do combate à pandemia da doença COVID-19, o Governo decidiu para 30-31 de maio, no que diz respeito a ‘cerimónias religiosas’, o reinício das ‘celebrações comunitárias de acordo com regras a estabelecer entre DGS e confissões religiosas’.”

“Tendo em conta somente estes elementos, a retomada gradual das celebrações comunitárias da Eucaristia, já anunciada pelo Governo, deverá iniciar-se, em princípio, a 30 maio, véspera da Solenidade do Pentecostes. A data depende ainda da avaliação que o Governo se propõe fazer da situação, nesta primeira etapa do desconfinamento. As Dioceses insulares terão em conta as indicações das respetivas autoridades regionais.”

O sublinhado é meu e serve para mostrar a frase chave. Afinal, ao que parece, foi o Governo que decidiu. Mas mesmo isto é vago. O Governo decidiu depois de escutados os bispos? Decidiu com base na recomendação dos bispos? Tudo isto continua a ser possível. Alguém há de saber, mas nós não.

Temos então dois cenários.

Se estamos perante uma imposição do Governo, tout court, independentemente de os bispos acharem boa ideia, é uma coisa grave. O Governo não tem de decidir estas coisas, quem tem de decidir são os bispos. Há processos que é preciso respeitar precisamente para garantir a independência da Igreja e a liberdade religiosa. Julgo que a maioria das reações de revolta que tenho visto existem porque as pessoas estão a partir do princípio que foi isso que aconteceu. Contudo, pode não ser!

Se tudo foi feito nos conformes, então as petições, as missas drive-in e as homilias reivindicativas já não são dirigidas contra o Governo, mas sim contra os próprios bispos. E esse é um caminho insensato e perigoso para os católicos trilharem. Infelizmente, contudo, tem-se tornado cada vez mais comum e, infelizmente, em muitos casos por parte de católicos que deveriam ser os primeiros a defender a autoridade dos bispos.

Todos queremos o regresso das missas, e todos queremos contribuir da melhor maneira para que esta pandemia passe. O que parecia que ia ser um tempo de privação espiritual tornou-se, ao longo destes dois meses, uma fonte de grande riqueza, com as famílias a descobrirem novas formas de viver a sua fé e de a partilharem. Pelo menos tem sido assim com a minha, e com muitas que conheço. Temos podido compartilhar um pouco o sofrimento de tantas comunidades cristãs no mundo que estão privados dos sacramentos, por razões de segurança, de distância ou de escassez de vocações.

Há de passar, mais cedo ou mais tarde. Se for no dia 30 de maio, que seja. Se for mais cedo, glória a Deus!

Mas seria uma tragédia se agora caíssemos na tentação – e é uma tentação – de transformar esta recta final numa desculpa para nos dividirmos e nos colocarmos uns contra os outros e contra os nossos bispos.

Dito tudo isto, queria terminar dizendo apenas que tudo isto seria bastante fácil de evitar. É uma questão de comunicação. Os bispos podem – e devem, a meu ver – falar abertamente e pessoalmente – não apenas através de comunicados – com o seu rebanho para explicar quem tomou esta decisão e porquê.

E a nós, suas ovelhas, cabe apenas aceitar e dar graças a Deus.

Tuesday, 24 March 2020

A Igreja Católica no combate ao coronavírus

NOTA: Deixei de atualizar este artigo, simplesmente porque não tinha tempo para isso. Penso que cumpriu o seu propósito.


Por mais do que uma vez tenho visto, nas redes sociais, pessoas a questionar o que a Igreja está a fazer para colaborar no combate ao coronavírus. Desde pessoas a perguntar quantos ventiladores a Igreja ofereceu ao SNS a outros que questionam o silêncio do Vaticano, há um pouco de tudo.

Eu bem sei que não é um concurso. Mas por uma questão de transparência, de verdade e de memória futura, decidi abrir este artigo para ir juntando referências fundamentadas de todas as contribuições da Igreja nesta luta.

Aqui vou apenas contabilizar iniciativas da Igreja institucional. Simplesmente não é possível juntar iniciativas individuais de pessoas que são movidas pela fé e que, como sabemos, são inúmeras, entre profissionais de saúde que estão na linha da frente, a voluntários que ajudam a alimentar os sem-abrigo ou a fazer companhia aos idosos em isolamento ou que simplesmente estão a cuidar das suas famílias o melhor que podem.

Eu não sei tudo. Conto por isso com a ajuda de todos os meus leitores para me manterem informado e adicionarem, nos comentários do post ou das publicações nas redes, as iniciativas que conhecem. Vejam é se não estão já incluídas sff.

Vamos a isso…

Portugal
O Santuário de Fátima anunciou na terça-feira, dia 24 de março, a oferta de três ventiladores ao SNS. No mesmo dia a diocese de Viana do Castelo iniciou uma recolha de fundos para adquirir ventiladores para o hospital local. A mesma diocese de Viana do Castelo já tinha, na véspera, colocado todos os seus serviços logísticos ao dispor dos médicos e restantes profissionais que estão na linha da frente do combate ao coronavírus.

Em entrevista à Renascença, D. António Marto falou ainda de casos nas dioceses de Braga, Leiria e Aveiro: “a arquidiocese de Braga pôs à disposição um hotel no Bom Jesus, para os profissionais de saúde, a diocese de Aveiro também pôs à disposição uma ala do seminário, e aqui na diocese de Leiria também disponibilizámos uma casa de retiros, em resposta ao que nos foi solicitado, sobretudo pelos profissionais de saúde, pelos agentes sanitários”.

A diocese de Santarém disponibilizou um edifício para as autoridades e pediu ainda aos seus fiéis que seguissem o exemplo

Estas ofertas de ajuda das dioceses portuguesas devem ser lidas à luz da garantia dada por D. Manuel Clemente, presidente da Conferência Episcopal de disponibilidade total para ajudar as autoridades no combate à covid-19. A Igreja foi ainda das primeiras instituições a implementar o isolamento profilático, suspendendo as missas comunitárias.

Em Bragança as instituições de solidariedade social da Igreja mobilizaram-se para ajudar os idosos e mais vulneráveis a ultrapassar este período de isolamento social. Em Lisboa também há vários casos, como o do Centro Social e Paroquial São Francisco de Paula, que por ter de fechar o centro de dia arranjou voluntários para telefonar todos os dias aos idosos para fazer companhia e saber se está tudo bem.

Na paróquia de Santa Cecília, na Madeira, o grupo de acólitos disponibilizou-se para ajudar os idosos que ficam em isolamento.

A diocese de Angra, nos Açores, ofereceu às autoridades a Clínica do Bom Jesus, como meio complementar.

Os padres da diocese da Guarda, com a aprovação do seu bispo, juntaram-se a uma iniciativa de angariação de fundos para adquirir um ventilador para a Unidade de Saúde Local da Guarda.

O padre Sandro Vasconcelos, em Braga, lançou a iniciativa "Uma mão amiga" e vai ele fazer compras pelos idosos que não podem sair de casa. Também em Braga a Pastoral da Saúde lançou uma linha de escuta e apoio espiritual e a arquidiocese lançou uma bolsa de recursos humanos para ajudar a socorrer os lares que precisam.

A arquidiocese de Évora disponibilizou 25 camas no seu seminário para uso de médicos e demais profissionais de saúde do Hospital do Espírito Santo, daquela cidade

A Cáritas de Lisboa fez donativos para reforçar a capacidade de ajuda de três instituições: A Comunidade Vida e Paz (40 mil euros), o Banco Alimentar Contra a Fome (40 mil euros) e a ReFood (25 mil euros). A informação consta de uma nota enviada pelo Patriarcado de Lisboa. A mesma nota informa ainda que foram entregues mais de 40 mil euros a cinco paróquias que diariamente oferecem refeições a mais de 1.300 pessoas. Quem quiser contribuir para a Cáritas pode fazê-lo através de transferência para este NIB 0033.0000.5005.7111.7070.5

De Viseu chega a notícia de que a diocese ofereceu 50 camas para funcionários de saúde e que há casas paroquiais a preparar mais.

A crise pôs também à prova as instituições de solidariedade que em muitos casos ficaram sem voluntários. A Comunidade Vida e Paz, porém, esforçou-se para garantir o apoio continuado aos sem-abrigo, tal como fez a Associação João 13.

Iniciativa diferente tiveram os alunos do curso Técnico de Desenho Digital 3, do Instituto Nun'Alvares, dos jesuítas, que estão a aproveitar o seu conhecimento para produzir material de proteção pessoal para o Centro Hospitalar do Médio Ave. As monjas concepcionistas, de Campo Maior, estão a convidar os profissionais de saúde a inscreverem-se para que do convento possam rezar por eles.

Em várias partes do país os escuteiros estão mobilizados. É o caso de um agrupamento de Tavira, no Algarve, que está a ajudar a distribuir refeições a pessoas vulneráveis, para não terem de sair de casa.

A diocese do Porto já disponibilizou vários espaços para uso das autoridades no combate à pandemia e está a fazer um levantamento para saber que outras se podem ceder, inclusivamente a idosos que tenham de ser retirados dos lares. O bispo do Porto lançou um apelo a que as empresas demonstrem ética e não aproveitem o momento para despedir funcionários. Duas paróquias da Trofa decidiram doar os 80 mil euros que tinham destinado a obras, para ajudar o hospital de São João a enfrentar esta crise e D. Manuel Linda disponibilizou 150 camas para isolamento após rastreio. O anúncio foi feito pelo próprio bispo na sua conta do Twitter.

Na diocese de Bragança-Miranda os serviços da Igreja estão abertos para acolher e cuidar dos filhos dos profissionais de saúde, para dar dormida aos que estão envolvidos no combate à covid-19 e para ajudar os mais idosos através da compra de alimentos.

O Grupo Renascença, emissora católica portuguesa, também fez um donativo de material médico a dois hospitais para ajudar na luta contra a covid-19.

A Ordem de Malta tem mais de 200 voluntários no terreno e cedeu meios logísticos, como tendas de campanha, ao combate à covid-19.

Nem vou listar aqui as palavras dos bispos portugueses de apoio moral às autoridades e espiritual aos fiéis. Duvido que haja um único que não o tenha feito.

Vaticano
O Papel do Papa nesta crise tem sido de pastor, encorajando os seus fiéis e não só e dando apoio espiritual. A acusação de silêncio por parte do Vaticano é absurda.

Desde que a crise começou o Papa:

Antes de a crise chegar a Itália a Santa Sé ofereceu mais de 600 mil máscaras à China para ajudar a combater a propagação da doença. O Papa fez um donativo pessoal de 100 mil euros à Cáritas italiana para ajudar os pobres e sem-abrigo de Roma, e o Vaticano continua a doar comida para ajudar na sua alimentação. Este artigo ilustra bem a atitude do Papa e da Curia romana diante desta crise. 
O Vaticano tomou a iniciativa de fechar os seus espaços aos turistas antes da declaração de quarentena do Governo italiano e o Papa cancelou as suas aparições públicas.
O Cardeal Peter Turkson emitiu uma reflexão em que comparaas vítimas do coronavírus a Cristo que sofre.
No dia 26 de março foi notícia que o Papa ofereceu 30 ventiladores aos hospitais das zonas mais duramente afetadas pela pandemia. 


Internacional
A Conferência Episcopal de Itália, o país mais duramente atingido pelo Coronavírus neste momento, fez um donativo de 10 milhões de euros à Cáritas italiana para ajudar no combate ao Coronavírus. Este valor foi reforçado em 3 milhões, mais tarde, dados diretamente ao Estado. 
A diocese de Milão juntou-se à Câmara Municipal e juntos criaram o Fundo de São José, no valor de 4 milhões de euros, para ajudar os que perderam os empregos por causa da crise. 
Notícia mais sombria a que vem de Bérgamo, onde as Igrejas vazias foram cedidas para servir de morgues improvisadas.

Este artigo explica, sem grandes detalhes, que várias dioceses e ordens religiosas em Itália se comprometeram com o combate à pandemia, oferecendo espaços para profissionais de saúde poderem ir dormir ou transformando os seus ateliês em fábricas de material de proteção individual.

Uma diocese chinesa ofereceu 24 mil máscaras a Itália, depois de o epicentro da pandemia ter passado da China para Itália.

As diferentes Cáritas do mundo têm-se desdobrado em iniciativas, relatadas aqui.

Outros cristãos
Se é verdade que o objetivo deste post era focar a Igreja Católica, havendo dados não há razão para ignorar outras iniciativas de cristãos. É o caso do grupo evangélico Samaritan's Purse, do Canadá, que abriu um hospital de campanha em Itália.


Actualizado às 00h56 de 4 de Abril

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