Showing posts with label homossexualidade. Show all posts
Showing posts with label homossexualidade. Show all posts

Friday, 26 January 2024

Mortes suspeitas de padres e freiras raptadas - e libertadas - no Haiti

Papua aguarda Papa

Abrimos com uma notícia triste e trágica. Um padre foi encontrado morto na cidade de Valência, em Espanha, pelo porteiro do prédio onde vivia. Para surpresa de todos, poucos minutos depois o porteiro recebeu uma mensagem do número do dito padre… Tenho os detalhes da descoberta do cadáver e do assassinato aqui, em inglês, e o “Las Províncias”, de Valência, tem uma excelente cobertura em espanhol. Infelizmente, as mais recentes notícias apontam para um homicídio levado a cabo por um homem a quem o padre estava no hábito de pagar por favores sexuais. Tudo lamentável, mas ainda em fase de investigação.

O cónego de Valência é o segundo padre a aparecer morto em circunstâncias suspeitas este ano. O outro caso teve lugar logo no dia 1, quando um missionário queniano foi encontrado enforcado de uma árvore numa zona remota da Venezuela. As autoridades concluíram que foi suicídio, mas os católicos locais – sobretudo os indígenas warao com quem ele trabalhava – rejeitam essa teoria e dizem que ele pode ter sido assassinado pelo trabalho que desenvolvia em defesa do seu povo, contra traficantes de droga e de mulheres.

Seis freiras foram raptadas há dias no Haiti, um país que está basicamente transformado num estado falhado. Felizmente, esta quinta-feira tivemos a boa notícia da sua libertação. Ainda assim, foi um começo pouco auspicioso para 2024, e representa mais raptos de religiosos do que em todo o ano de 2023 naquele país.

O Papa Francisco volta a mostrar que leva muito a sério o seu compromisso de visitar os países das periferias. Depois de em Agosto do ano passado ter visitado a Mongólia, agora tem viagem marcada para o mesmo mês, mas para a Papua-Nova Guiné. Tendo em conta que Ramos Horta já veio a público dizer que o Papa pretende visitar Timor este ano, presumo que as visitas sejam feitas numa só viagem, mas veremos.

Esta semana soubemos que o padre de Lamego que tinha sido acusado de abuso sexual de um maior de idade vulnerável foi reintegrado pela diocese, depois de um ano afastado, tendo visto o seu processo canónico arquivado. A diocese costuma esperar pela conclusão dos processos civis, mas neste caso, com base em “fortes indícios de que o processo civil também estava prestes a ser arquivado”, antecipou-se. Outro caso que decorria em Lamego também foi arquivado. Está tudo na cronologia, actualizada.

O Arcebispo de Cantuária, Justin Welby, visita Portugal em Fevereiro. Trata-se do líder espiritual da Comunhão Anglicana, e vem participar no sínodo da Igreja Lusitana, que é o ramo português do Anglicanismo.

Já ouviu falar da doutrina da “impanação”? Eu também não tinha. Mais grave, contudo, é que muitos católicos desconhecem a doutrina da transubstanciação, ou então conhecem mas rejeitam. Uma sondagem nos EUA em 2019 revelou que apenas um em cada três católicos acredita que o pão e o vinho se transformam no Corpo e Sangue de Cristo, na Eucaristia. No artigo desta semana do The Catholic Thing, Randall Smith explica o conceito e demonstra porque é que não faz qualquer sentido os católicos rejeitarem um conceito que afinal de contas é mais simples do que a Encarnação, por exemplo. Leiam que vale a pena, e ainda ficam a saber o que é, afinal, a “impanação”.

Thursday, 4 January 2024

Os esclarecimentos sobre o documento que não teria esclarecimentos

Cardeal Victor Manuel Fernández

Todos terão reparado que há cerca de 15 dias o Dicastério para a Doutrina da Fé publicou uma declaração a dizer que as pessoas em uniões irregulares, incluindo homossexuais, podem pedir bênçãos à igreja, nomeadamente aos seus ministros, mas que essas bênçãos não podem ser confundidas com um casamento nem pretendem legitimar as situações. Interessantemente, o documento fazia questão de dizer que os fiéis não deviam esperar qualquer tipo de esclarecimento adicional. Fiz a minha leitura do documento em vários locais, podem consultar aqui.

Desde então, não só o presidente do Dicastério se viu obrigado a dar várias entrevistas para tentar explicar melhor o documento que não precisaria de esclarecimentos adicionais, como hoje o Dicastério publicou um comunicado de imprensa para esclarecer ainda mais o documento que dispensava esclarecimentos adicionais. Chama-se a isto controlo de danos. Virá a tempo?

Como bom comentador, já levei porrada dos dois lados. Alguns críticos, incluindo bons amigos, acusaram-me de “Popesplaining”, isto é, de estar a fazer contorcionismo para tentar procurar a leitura mais benigna possível do Fiducia Supplicans, enquanto outros acharam, no texto que escrevi no blog e no Expresso a dar conta de como a declaração estava a causar divisões, que estava com isso a criticar o Papa e a própria ideia de dar bênçãos a homossexuais.

Deixem-me então, se é que interessa, expressar a minha opinião. Eu acho evidente que pessoas homossexuais, estejam ou não em uniões, bem como outras pessoas em uniões irregulares, podem e devem pedir e receber bênçãos à Igreja e aos seus ministros. Concordo plenamente com o texto quando este diz que esses pedidos, na maior parte dos casos, representam uma sede de aproximação de Deus e do Evangelho, e que as bênçãos devem ser entendidas como auxílio nessa caminhada, e não como sacralização do estado de vida de quem quer que seja.

Acredito – não só em teoria, mas por experiência pessoal de convívio próximo com pessoas nessas situações – que tal como os indivíduos não são a soma dos seus pecados, uma relação entre duas pessoas do mesmo sexo, ou entre duas pessoas que não se encontram validamente casadas, não se resume às suas dimensões pecaminosas, ou “irregulares”, embora estas possam existir. Todos os laços de amizade e de amor, ainda que seja um amor que não compreendamos ou que não consideramos equivalente ao que é consagrado no matrimónio cristão, têm dimensões positivas de entreajuda, de apoio mútuo, de amizade, de projectos de vida em comum, que podem e devem ser nutridos para crescerem e se desenvolverem da melhor maneira. Dito isto, no que diz respeito aos homossexuais, eu teria evitado usar a palavra “casais” na declaração, precisamente porque acredito que gera e promove precisamente a confusão que o texto diz querer evitar.

Uma porta aberta ou uma gaffe desnecessária

A pergunta que se impõe, a meu ver, é se esta declaração era necessária. Há quem diga que sim, porque aquilo que eu e outros consideramos evidências não as eram para todos. Haveria padres e bispos que se recusariam a abençoar um homem só porque estava numa relação homossexual, por exemplo. Acredito que sim, mas sinceramente parece-me que aquilo que a declaração urge era já prática mais que habitual.

Convence-me mais a ideia de que o Papa queria, com esta declaração, dar mais um sinal às pessoas em uniões irregulares de que se devem aproximar da Igreja, que as portas estão abertas, e que as coisas que nas suas vidas estão em dessintonia com o Evangelho devem ser resolvidas dentro da Igreja, e não fora, como se só os perfeitos e imaculados pudessem ter acesso à mesma.

O problema é que, se era essa a intenção, o resultado acabou por ser, em larga medida, contrário. A reacção causada pelo texto – quer pela ambiguidade que contém, quer pela que alguns fizeram os possíveis para encontrar – acabou por passar o sinal de que a Igreja Universal está dividida sobre os méritos de dar bênçãos a pessoas cuja vida não encaixa na perfeição sugerida. Isto passa tudo menos uma imagem de porta aberta.

Alguns temiam que o documento passaria a ser substituído por um vago e etéreo “espírito do Fiducia Supplicans” que passaria a justificar a bênção de facto, litúrgica, de uniões irregulares. Seria contrário ao texto da declaração em si? Sim, seria. Mas isso não seria impedimento para o exagero de alguns pseudo-iluminados. Se acho que esta preocupação é legítima, também acho que a sucessão de intervenções e, agora, este comunicado da Santa Sé, mostram claramente que esse não é um propósito disfarçado do Papa ou do prefeito do Dicastério.

Fortaleza v. Hospital de Campanha

Depois há o problema do timing. Porquê lançar esta declaração precisamente numa altura em que a civilização cristã parece estar a travar – e a perder – uma guerra contra as ideologias que promovem a homossexualidade e as siglas-alfabeto? Não se trata de uma concessão ao espírito dos tempos?

O problema com esta ideia é de que parte do pressuposto do conflito, a famosa guerra cultural. A Igreja contra o mundo. A Igreja fortaleza. Se há alguma coisa que o Papa tem demonstrado durante o seu pontificado é de que essa não é uma visão própria para os cristãos. Não somos a Igreja entrincheirada, somos a Igreja hospital de campanha, e as hordas que nos batem à porta, ainda que professem ódio a tudo o que somos e defendemos, não são inimigos a abater, mas vítimas estropiadas de uma cultura individualista e niilista, uma cultura de morte. Somos chamados a ajudá-las, a não a derrotá-las.

Visto desta perspectiva, não havia melhor altura para este gesto de boa-vontade. O que não implica que o gesto tomasse esta forma. Pessoalmente acho que teria sido muito mais útil, e bem mais ao estilo do Papa, fazê-lo de forma informal, em conversa ou entrevista, ou ter tomado mesmo a iniciativa de dar uma destas bênçãos não litúrgicas. Acredito que causaria bem menos polémica do que uma declaração definitiva que afinal não é tão definitiva assim.

O que temos agora é um ciclo de explicações e esclarecimentos, com o prefeito para o Dicastério para a Doutrina da Fé a ver-se na situação de ter de publicar um comunicado a explicar que a sua mais recente declaração não é “herética, contrária à Tradição da Igreja ou blasfema”. Não é uma posição confortável para o guardião da ortodoxia, resta ver se não é pior a emenda que o soneto.

Thursday, 28 December 2023

Estará Francisco a perder o controlo da Igreja?

[Esta é uma versão resumida de um artigo que escrevi para o Expresso, que pode ser lida na edição impressa e no site]

O Pontificado do Papa Francisco poderá estar a atravessar o seu momento mais difícil, com crises em diferentes pontos do mundo católico a pôr seriamente em causa a autoridade de Roma e a própria unidade da Igreja.

A declaração Fiducia Supplicans causou bastante polémica na Igreja, com o Dicastério para a Doutrina da Fé a anunciar que pessoas em uniões homossexuais podem receber bênçãos. Sem surpresas, a ideia que passou para o mundo foi de que o Papa acabava de aprovar a bênção de uniões homossexuais, apesar de o texto dizer explicitamente que a bênção é para as pessoas, e em caso algum para a relação em si.

No seguimento dessa declaração aconteceu um facto muito pouco comum, com muitos padres, bispos, e até conferências episcopais inteiras, a dizer que não aplicarão a Fiducia Supplicans nos seus territórios.

Pelo menos 10 conferências episcopais, incluindo a Polónia e o Canadá, já reagiram negativamente ao documento, algumas proibindo explicitamente a sua implementação, e outras apenas reiterando a proibição de bênçãos específicas para relações e uniões homossexuais.

E se é verdade que algumas das reações negativas vieram dos “suspeitos do costume”, também há bispos que são tidos como próximos de Francisco, como Ambongo Besungo, da República Democrática do Congo, que faz parte do grupo de cardeais consultores do Papa desde 2020 e chegou mesmo a pedir uma resposta conjunta de todos os bispos africanos, na qualidade de presidente do Simpósio de Conferências Episcopais de África e Madagáscar.

Talvez uma das respostas mais firmes tenha sido do arcebispo maior Sviatoslav Shevchuk, que é o líder da Igreja Greco-Católica da Ucrânia, que se demarcou do documento, dizendo que ele não se aplica à sua igreja. Shevchuk e Francisco podem ter tido alguns desentendimentos por causa da guerra na Ucrânia, mas são amigos e conhecem-se há muitos anos, pois Shevchuk liderou a comunidade ucraniana na Argentina.

Alemanha e Índia

Entretanto a maioria dos bispos alemães continua a defender o seu “caminho sinodal”, que já apelou explicitamente a mudanças na doutrina moral e sexual da Igreja e tem um caráter marcadamente progressista e liberal.

Francisco criticou abertamente o “caminho sinodal”, dizendo que “a Alemanha já tem uma Igreja evangélica, não precisa de outra”, mas até agora tem evitado tomadas de posição mais firmes que possam acelerar a divisão ou mesmo promover uma rutura. Esta atitude, contudo, leva as alas mais conservadoras a estranhar a dualidade de critérios, recordando que o Papa tem tido mão firma contra outras comunidades, como por exemplo os tradicionalistas, que viram limitada a liberdade que o Papa Bento XVI tinha concedido para a celebração de missa de acordo com a liturgia anterior ao Concílio Vaticano II.

O clima de desconfiança entre Roma e os grupos tradicionalistas espalhados pelo mundo tornou-se conhecida como a “guerra litúrgica” e torna ainda mais bizarro o que está a acontecer neste momento na Índia, onde o clero de uma diocese inteira pode estar prestes a ser excomungado.

Trata-se da diocese de Ernakulam-Angamaly, a principal da Igreja Siro-Malabar, a segunda maior igreja católica de rito oriental do mundo, a seguir à já referida igreja ucraniana. A Igreja Siro-Malabar tem mais de quatro milhões de membros, e só a diocese de Ernakulam tem 500 mil, com pelo menos 400 padres.

Tal como outras igrejas de rito oriental, a Igreja Siro-Malabar tem a sua própria liturgia, de origem siríaca, muito anterior à chegada dos portugueses à Índia. Contudo, essa liturgia sofreu muitas influências latinas ao longo dos séculos, que a Igreja tem tentado retificar. Uma dessas influências levou a que em algumas dioceses, incluindo em Ernakulem, os padres passassem a celebrar a liturgia voltados para a comunidade, em vez de seguir a tradição de celebrar voltados para o altar.

Como parte do esforço de uniformização e regresso às raízes litúrgicas, o sínodo da Igreja Siro-Malabar chegou a uma fórmula de consenso em que os padres celebram voltados para os fiéis, exceto a liturgia eucarística, em que se voltam para o altar. Todas as dioceses aceitaram, menos a de Ernakulem, onde padres e fiéis se revoltaram de tal forma contra as novas regras que a polícia encerrou a catedral para evitar cenas de violência e grupos de fiéis queimaram efígies de cardeais da cúria romana.

Falhadas várias tentativas de mediação, o Papa Francisco enviou uma mensagem para a diocese em que pediu aos padres para “não se tornarem uma seita”, sublinhando que a persistência na desobediência poderia levar à excomunhão. Francisco deu até ao Natal para se começar a celebrar o novo rito, mas no dia 25 de dezembro os padres da diocese limitaram-se a celebrar uma missa de acordo com essa liturgia, deixando claro que o faziam por respeito ao Papa, e que ela não se tornaria regra. A possibilidade de um acordo não está descartada, mas o braço-de-ferro mantem-se.

A ironia de o Vaticano estar, de um lado, a pressionar os fiéis de rito latino que querem celebrações com o padre voltado para o altar e, do outro, a ameaçar com excomunhão os padres e fiéis que querem celebrar voltados para o povo, tem sido sublinhada, embora as situações não sejam idênticas. Mas o que as duas realidades revelam é que Francisco tem entre mãos uma Igreja Católica universal cada vez mais dividida, com conflitos abertos sem solução evidente à vista.

Acresce que a idade avançada do Papa, e a sua saúde frágil, tornam ainda menos provável que ele consiga resolver estas crises antes do final do seu pontificado, até porque os seus opositores podem estar dispostos simplesmente a esperar que seja eleito o seu sucessor, para terem um novo parceiro de diálogo, o que implica também que todas estas questões: as bênçãos a homossexuais, o caminho sinodal alemão e as diferentes frentes das guerras litúrgicas, podem vir a desempenhar um papel importante no próximo conclave. 

Friday, 22 December 2023

Assassinatos na Terra Santa e bênçãos polémicas na Santa Sé

O Papa Francisco fez esta semana 87 anos, e que semana foi!

Começou no passado sábado com a notícia da condenação de dez pessoas e quatro empresas no megaprocesso de corrupção no Vaticano. O Cardeal Becciu recebeu a sentença mais pesada, com cinco anos e seis meses de prisão. Agora haverá recursos, como é evidente, e a coisa pode ser demorada, mas a primeira fase está concluída.

Este processo é de uma complexidade enorme, e é muito difícil acompanhar tudo em detalhe. Uma das pessoas que tem feito o melhor trabalho nesse campo é o Ed Condon, do The Pillar. Por isso, se lêem bem inglês, sugiro que acompanhem a reportagem dele, que será certamente a melhor fonte de informação.

Dois dias depois de ter saído a sentença, o Dicastério para a Doutrina da Fé lançou um documento sobre bênçãos, que explica que pessoas em uniões irregulares, incluindo em uniões homossexuais, podem pedir bênçãos aos ministros da Igreja. O documento foi apresentado na imprensa como uma revolução e como se a Igreja estivesse a aceitar as uniões homossexuais. Não é mesmo assim tão simples. Fui chamado várias vezes a falar do assunto, para diferentes órgãos de imprensa, sugiro que cliquem aqui e sigam os diferentes links para ver a minha opinião.

Estamos em vésperas do Natal e a Terra Santa, onde tudo começou, continua a ferro e fogo. Recentemente tivemos a terrível notícia do assassinato – é mesmo esse o termo – de duas mulheres cristãs que se encontravam dentro do complexo da paróquia Católica em Gaza. Foram mortas com tiros de sniper, e outras sete pessoas ficaram feridas. Quem carregou no gatilho? Israel dirá Hamas, Hamas dirá Israel. A própria da comunidade cristã palestiniana acredita que foi Israel, mas o que interessa é que isto é mais um prego no caixão da já pequena comunidade de Gaza.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, no qual Stephen White comenta o facto de a nossa civilização guardar cada detalhe minúsculo do passado, mas não parecer capaz de produzir nada que dure mais do que uma ou duas gerações. Para saber o que isto tem a ver com a Basílica de São Pedro, leia.

Convido ainda a quem possa ou queira que leia o meu artigo na edição em papel da revista Brotéria, que está agora à venda, e que oiçam o programa “E Deus Criou o Mundo” da RDP de dia 26 de Dezembro, para o qual fui convidado.

Só me resta desejar a todos um Santo Natal! Voltarei para a semana, se Deus quiser.

Wednesday, 20 December 2023

As minhas declarações sobre o Fiducia Supplicans

Ao longo dos últimos dias tenho sido chamado a pronunciar-me algumas vezes sobre a mais recente declaração do Dicastério para a Doutrina da Fé "Fiducia Supplicans".

Junto aqui links para os que estão disponíveis.

Aqui encontram o meu texto para o Expresso online. É apenas para assinantes. Vai sair outro texto na edição impressa desta semana.  

Aqui encontram as minhas declarações à Rádio Observador.

Aqui encontram a minha participação na SIC Notícias de quarta-feira de manhã.

Aqui podem ouvir a minha participação no podcast Expresso da Manhã. 

E por fim, aqui encontram o artigo que escrevi sobre esta questão em Outubro, quando foram publicadas as respostas às dubia, em que este assunto apareceu.

Wednesday, 4 October 2023

Papa autoriza bênçãos a uniões homossexuais? Calma aí…

Sempre que o Papa diz alguma coisa ligada a um assunto minimamente polémico, é certo que acontecerão duas coisas. Primeiro virão pessoas – frequentemente jornalistas e activistas – dizer que o Papa acaba de virar de pernas para o ar a posição da Igreja Católica sobre o assunto; e logo de seguida vêm pessoas explicar que o Papa não disse nada daquilo, e se disse não devia ter dito, ou que é indiferente, porque ele não o poderia dizer de qualquer maneira.

O que raramente vemos é tempo de antena dado a interpretar as palavras do Papa de forma correcta e ponderada.

É certo que com o Papa Francisco a questão põe-se mais vezes, até porque ele tem o hábito de se pronunciar de forma mais espontânea sobre tudo o que lhe perguntam, e também – há que ceder este ponto aos seus mais ferozes críticos – porque tende a formular as suas posições de forma ambígua, permitindo diferentes interpretações. Mas também é verdade que aconteceu o mesmo, e mais que uma vez, com o Papa Bento XVI.

A mais recente questão tem a ver com as bênçãos para uniões homossexuais.

Vamos então aos factos. Um grupo de cardeais endereçou ao Papa Francisco uma série de questões, vulgo “dúbia”, incluindo uma pergunta sobre se a prática “generalizada” de abençoar uniões homossexuais está de acordo com o magistério da Igreja Católica.  

Em resposta, o Papa disse que para a Igreja o casamento é entre um homem e uma mulher, e que por isso a Igreja se opõe a qualquer prática ou bênção que possa gerar confusão sobre esse assunto. Isto parece claro.

Mas a resposta prossegue, apelando à caridade pastoral quando se lida com pessoas. “A defesa da verdade objectiva não é a única expressão dessa caridade, que também é composta de bondade, paciência, compreensão, carinho e encorajamento. Logo, não podemos tornar-nos juízes que apenas negam, rejeitam e excluem”.

Diz ainda que, por esta razão, é necessário exercer prudência pastoral para determinar “se existem formas de bênçãos, solicitadas por uma ou mais pessoas, que não transmitem um conceito errado de casamento. Porque quando uma bênção é solicitada, isso expressa um pedido de auxílio de Deus, um desejo de poder viver melhor, confiança num Pai que nos pode ajudar a viver melhor”.

Por fim, diz a resposta, “embora existam situações que, de um ponto de vista objectivo, são moralmente inaceitáveis, a caridade pastoral requer que não tratemos como pecadores pessoas cuja culpa ou responsabilidade possa ser atenuada por vários factores”.

Bênçãos há muitas

A primeira conclusão que podemos tirar é que é muito exagerado dizer que o Papa está com isto a reverter a posição tradicional da Igreja sobre bênçãos a uniões homossexuais. Não há nada nesta resposta que indique que a união em si pode ou deve ser objecto de uma bênção. Pelo contrário, na medida em que tal bênção necessariamente implicaria uma confusão com o casamento, isso deve mesmo ser evitado.

Mas o Papa vai mais longe e diz que outra coisa são bênçãos solicitadas por pessoas – seja um, ou um par – que são homossexuais e estão numa união homossexual. Ou seja, é possível abençoar duas pessoas que estão numa relação, sem estar a abençoar a própria da relação.

Vejamos alguns exemplos hipotéticos. Dois homens homossexuais que estão numa relação e estão prestes a fazer uma viagem juntos, pedem a um padre uma bênção para a viagem. O padre pode dar essa bênção, até em conjunto, sem que isso implique, ou seja entendido como, uma bênção aos dois enquanto casal, ou o abençoar de tudo o que se passa na sua relação.

Mais, imaginemos que dois homens que estão numa relação homossexual decidem acolher em sua casa crianças com deficiência, com o sentido de missão de dar a essas crianças um lar onde possam sentir o amor de uma família, e que pedem a um padre uma bênção para esse empreendimento. O padre pode dar essa bênção, como abençoaria outras duas pessoas que se estão a dedicar a uma missão de ajudar os mais frágeis e vulneráveis, sem que passe pela cabeça de ninguém que ele está a dar luz verde ao que se passa na intimidade do quarto daqueles dois homens.

O mesmo se poderia aplicar se em vez de dois homens falássemos de um casal, homem e mulher, que vivem juntos, mas não são casados, talvez por um deles ser divorciado.

No fundo, o Papa está a dizer que todos temos fragilidades e pecados, e que uma bênção, seja por que razão for, não deve ser entendida como a validação ou o encorajamento desse nosso pecado ou fragilidade, mas sim como uma ajuda para o nosso crescimento espiritual e constante conversão. Se fosse necessário estarmos todos em estado de graça e impecabilidade para recebermos bênçãos, então as bênçãos pouco nos acrescentariam.

A Igreja continua a ter um ideal para a humanidade, mas não afasta de nós o seu auxílio só porque não estamos ainda nesse ideal, da mesma forma que não se deve mostrar condescendente com essas fraquezas ou fragilidades, antes ajudando-nos a ultrapassá-las, compreendendo, todavia, que todos estamos em diferentes fases de conversão e crescimento, e por isso não se pode nem deve colocar a mesma exigência a todos, indiscriminadamente.

Por isso não, o Papa não diz que se possa abençoar “uniões” homossexuais, mas isso não significa que pessoas que estão em uniões homossexuais não possam pedir bênçãos para as áreas mais variadas das suas vidas, seja pessoais, seja em conjunto. A isso chama-se cuidado pastoral, a arte de acompanhar espiritualmente as pessoas partindo do lugar, tempo e estado em que estão, e não de exigir que estejam primeiro onde achamos que deviam estar antes de lhes estendermos a mão.

Monday, 30 January 2023

Palcos polémicos em Portugal e nabice noticiosa na Nigéria

Fake News... 
Se há dias em que tenho de andar à procura de notícias para vos enviar, há outros em que nem sei por onde escolher!

Obviamente começamos pelo Palco da Polémica. Está tudo num alvoroço por causa dos 4,2 milhões que vai custar o palco da missa final da JMJ. Mas o alvoroço é inimigo da clareza. Neste post tentei congregar aquilo que já se sabe de certeza e aquilo que está por esclarecer, convidando todos a contribuir com explicações e factos, mais do que com opiniões infundadas.

Ontem um sacristão foi assassinado e um padre gravemente ferido num ataque a duas igrejas em Espanha, aparentemente por um muçulmano fanático.

Também ontem surgiu a notícia de que só em 2022 foram assassinados 145 padres na Nigéria. O único problema com esta notícia é não ser verdade. Leiam este meu artigo que explica como nasce uma “fake news”, muitas vezes mais por ignorância e falta de rigor jornalístico do que por má fé.

O Papa Francisco deu uma entrevista à Associated Press em que disse muita coisa interessante. Entre outras coisas, criticou as leis que criminalizam a homossexualidade, ressalvando que os actos homossexuais são pecado aos olhos da Igreja. Fui contactado pelo Observador para dar a minha opinião sobre o assunto, que podem ouvir aqui.

Esta semana, infelizmente, não temos episódio do Hospital de Campanha para vos trazer. Tínhamos uma entrevista interessante alinhavada, mas a convidada adoeceu e não conseguimos acertar agendas para gravar noutro dia. Esperamos voltar em breve. Entretanto, se ainda não ouviram, têm aqui o mais recente episódio sobre a morte e o legado de Bento XVI.

No ano lectivo de 2021/2022 só nas escolas públicas de Chicago, nos EUA, houve 600 denúncias de abuso sexual de menores. No mesmo espaço de tempo, para todo o país, na Igreja Católica houve 30 denúncias, das quais apenas seis foram consideradas credíveis. A conclusão? A Igreja tem aprendido com os erros e é hoje das instituições mais seguras para crianças. Há muito por fazer? Há, mas o progresso tem sido bom. Tudo isto está explicado no artigo do The Catholic Thing, por Stephen P. White.

E no dia 31 de Janeiro o Papa parte para a República Democrática do Congo e para o Sudão do Sul. Eis o que se pode esperar desta viagem.

Termino com dois desafios. Nos dias 10-12 de Fevereiro realiza-se o Segundo Congresso Nacional de Pueri Cantores. Toda a informação aqui.

Wednesday, 25 January 2023

Papa Francisco sobre a homossexualidade: pecado, mas não crime

O Papa Francisco deu uma entrevista à Associated Press em que foi questionado sobre as leis que criminalizam a homossexualidade. 

Respondeu que embora os actos homossexuais sejam pecado, não são crime nem devem ser tratados como tal. 

O Observador pediu-me para comentar estas declarações.

Thursday, 19 January 2023

O caso Tony Anatrella. Perguntas para meditar...

Pe. Tony Anatrella

Há vários anos, em 2005, saiu um documento de Roma a explicar que pessoas com tendências homossexuais “profundamente radicadas” não devem ser aceites como candidatos para a ordenação sacerdotal. Causou alguma polémica, mas dentro da Igreja penso que muitos viram-no como uma medida necessária para acabar com uma certa subcultura gay entre o clero, sobretudo na Europa Ocidental, que estava a causar grandes problemas.

Em 2016 a instrução foi reafirmada num novo documento. Lembro-me que na altura falei com responsáveis dos seminários de Lisboa que defenderam o documento e que até já estavam, anteriormente, a rejeitar candidatos com atracções homossexuais.

Ao mesmo tempo iam-se conhecendo histórias de homens já ordenados que, sendo homossexuais, não deixavam por isso de ser bons padres, nem levavam vidas devassas, abraçando o celibato.

Julgo que, no fundo, cabia, e cabe, aos formadores nos seminários ajuizar bem entre aqueles que são capazes de controlar os seus impulsos sexuais – seja qual for a orientação – e os que se deixam controlar por eles. Mas isso é tema para outro texto.

A razão deste texto é que há alguns anos surgiram indicações de que um dos padres que contribuiu de forma mais importante para as orientações de 2005 era suspeito de ter abusado de jovens do mesmo sexo, ainda por cima utilizando para o efeito a sua prática clínica de psiquiatra.

Esta semana essas suspeitas foram confirmadas pela decisão de afastar o Pe. Tony Anatrella, que agora tem 81 anos, de qualquer ministério sacerdotal, remetendo-o para uma vida de oração e penitência. Uma revelação como estas leva-nos obviamente a questionar muita coisa e torna-se difícil defender um documento sobre um assunto desta natureza que tenha tido mão de um homem assim.

Cada vez mais, à medida que vão surgindo estes casos, teremos de nos questionar se os pecados dos homens envolvidos, ainda que sejam pecados desta gravidade (e notem que não estamos a falar apenas de homossexualidade, ou sequer de ephebofilia – a atracção por jovens rapazes pós-pubescentes – mas de aproveitamento de uma posição de confiança e de autoridade para manipular e abusar de pessoas vulneráveis) põem em causa todo o resto da sua obra de vida.

É certo que ninguém é a soma dos seus pecados, e isso inclui pedófilos e abusadores, mas haverá pecados que são tão graves que mancham por associação o resto do que fazemos? Uma boa homilia, um bom retiro que nos ajuda, uma obra social levada a cabo, deixam de ter valor porque descobrimos mais tarde que o padre envolvido afinal tinha uma vida escondida? Lembro-me bem do choque que senti quando vi as primeiras revelações sobre Jean Vanier, que sinceramente considerava um santo.

No caso do Pe. Rupnik, de que falei recentemente, as suas obras de arte – que são sem dúvida muito belas – devem ser retiradas das igrejas porque descobrimos os requintes de malvadez dos abusos que ele praticava sobre freiras que supostamente deveria estar a dirigir espiritualmente?

E agora, no caso do Pe. Anatrella, o documento sobre o acesso ao sacerdócio, que com certeza não foi obra de apenas um homem, deve ser totalmente descartado porque descobrimos que nem ele estava em linha com o que estava a recomendar?

Lembram-se do caso McCarrick? Ele foi o principal autor e promotor da Carta de Dallas, que tem revolucionado a forma como a Igreja americana lida com a questão dos abusos sexuais. No entanto, veio-se a descobrir coisas do pior sobre ele também. Devemos descartar a Carta de Dallas?

Eu não tenho as respostas para estas perguntas. Tenho algumas ideias, mas não são bandeiras pelas quais estou disposto a lutar ainda. Acho é que devemos todos – nós que levamos a Igreja a sério e a amamos – pensar a fundo sobre estas questões porque a verdade é que nenhum de nós está a salvo de descobrir que aquele que tanto nos inspirou no passado, ou mesmo agora, afinal tinha telhados de vidro.

Wednesday, 13 April 2022

70 Bispos Alertam para “Caminho Sinodal” Alemão

Francis X. Maier

Em tempos de desassossego e confusão, tentativas bem-intencionadas de descentralizar uma comunidade ou uma organização podem ter consequências indesejadas. A Igreja não é imune a este facto, e isso é algo que os católicos na Alemanha parecem determinados a comprovar.

Em declarações feitas à revista “Stern”, em finais de Março, o cardeal Reinhard Marx, de Munique, pareceu incentivar alterações ao ensinamento da Igreja em relação à homossexualidade. Reconhecendo que já abençoou casais homossexuais, Marx notou que “o catecismo não está escrito na pedra” acrescentando que “há anos que me sinto mais livre para dizer aquilo que penso, e quero modernizar o ensinamento da Igreja”.

Os comentários de Marx não nos devem surpreender. Estão em linha com o trabalho desenvolvido, até à data, pelo “Caminho Sinodal” alemão, um processo de consulta plurianual em curso na Alemanha. Embora não sejam vinculativos para os líderes da Igreja alemã, os documentos do Caminho Sinodal já expressaram apoio ao celibato opcional para os padres, para bênçãos para uniões homossexuais, revisão do ensinamento da Igreja sobre homossexualidade e ordenação de mulheres, e um papel maior para os leigos na nomeação de bispos.

Especialmente numa altura em que se está a preparar um “sínodo sobre a sinodalidade”, para 2023, o teor do Caminho Sinodal Alemão tem implicações profundamente perturbadoras e, para alguns, cismáticas. No dia 9 de Março os bispos dos países nórdicos expressaram a sua preocupação com o percurso alemão. Isto seguiu-se a uma carta pública divulgada em finais de Fevereiro pelo presidente da Conferência Episcopal polaca. Agora, numa carta de 11 de Abril tornada pública na passada segunda-feira e divulgada pela Catholic News Agency, mais de 70 bispos, incluindo quatro cardeais, dos Estados Unidos, Canadá e África, juntam as suas vozes ao coro de preocupações.

Na sua “Carta Aberta Fraterna aos Nossos Irmãos Bispos na Alemanha”, os signatários notam que “enquanto irmãos bispos, as nossas preocupações incluem, mas não se limitam ao seguinte”:

1. Ao não escutar o Espírito Santo e o Evangelho, as acções do Caminho Sinodal minam a credibilidade da autoridade da Igreja, incluindo a do Papa Francisco; da antropologia cristã e moralidade sexual; e a fiabilidade das Escrituras.

2. Embora incluam ideias e vocabulário religioso, os documentos do Caminho Sinodal Alemão parecem ser inspirados, em grande medida, não pela Escritura e pela Tradição – que de acordo com o Concílio Vaticano II são “um único depósito da Palavra de Deus” – mas antes por análises sociológicas e ideologias políticas contemporâneas, incluindo de género. Eles vêem a Igreja e a sua missão da perspectiva do mundo, e não pela lente das verdades reveladas na Escritura e pela autoridade da Tradição da Igreja.

3. O conteúdo do Caminho Sinodal também parece reinterpretar, e por isso diminuir, o sentido da liberdade cristã. Para o cristão a liberdade está no conhecimento, na vontade e na capacidade desimpedida de fazer o bem. A liberdade não é “autonomia”. A verdadeira liberdade está, como ensina a Igreja, ligada à verdade e ordenada à bondade e, no final de contas, à beatitude. A consciência não cria a verdade, nem é uma questão de preferência pessoal ou autoafirmação. Uma consciência cristã bem formada mantem-se submissa à verdade sobre a natureza humana e às normas que orientam uma vivência recta, revelada por Deus e ensinada pela Igreja de Cristo. Jesus é a verdade, que nos liberta. (Jo. 8)

4. A alegria do Evangelho – que como o Papa Francisco tantas vezes sublinha é uma parte essencial da vida cristã – parece estar totalmente ausente das discussões e dos textos do Caminho Sinodal, uma falha gritante num esforço que procura a renovação pessoal e eclesial.

Cardeal Marx
5. Em quase todo o seu processo, o Caminho Sinodal é o trabalho de peritos e de comissões: cheia de burocracia, obsessivamente crítica e introspectiva. Assim reflecte uma manifestação alargada de esclerose eclesial e, ironicamente, é marcada por um tom antievangélico. Nos seus efeitos, o Caminho Sinodal revela maior submissão e obediência ao mundo e às ideologias que a Jesus Cristo enquanto Senhor e Salvador.

6. O enfoque do Caminho Sinodal no “poder” dentro da Igreja sugere um espírito absolutamente contrário à verdadeira natureza da vida cristã. No final de contas, a Igreja não é apenas uma “instituição”, mas uma comunidade orgânica; não é igualitária, mas familiar, complementar e hierárquica – um povo consolidado no amor por Jesus Cristo e uns pelos outros, em seu nome. Este encontro com Jesus, como visto no Evangelho e nas vidas dos santos ao longo da história, muda corações e mentes, cura, afasta-nos de uma vida de pecado e infelicidade e revela o poder do Evangelho.

7. O pior problema do Caminho Sinodal alemão, e o mais preocupantemente imediato, é terrivelmente irónico. Através do seu exemplo destrutivo, poderá levar alguns bispos e muitos leigos fiéis, a desconfiar da própria ideia de “sinodalidade”, dificultando assim ainda mais a conversa necessária da Igreja sobre o cumprimento da missão de converter e santificar o mundo.

Num tempo de confusão, a última coisa de que a nossa comunidade de fé precisa é de mais do mesmo. Enquanto discernem a vontade do Senhor para a Igreja na Alemanha, asseguramos-vos das nossas orações por vós.

Embora reconhecendo que “muitos dos que estão envolvidos no Caminho Sinodal são sem dúvida pessoas de carácter excelente”, os bispos signatários notam que “a história do Cristianismo está recheada de esforços bem-intencionados que perderam a âncora da Palavra de Deus, num encontro fiel com Jesus Cristo” e numa “verdadeira escuta do Espírito Santo”. Entre esses esforços podemos incluir até a Reforma, que começou quase precisamente há 500 anos… na Alemanha.

O cerne da carta de 11 de Abril está aqui: “A urgência da nossa carta conjunta está enraizada em Romanos 12 e sobretudo na cautela deixada por Paulo: Não se conformem com o mundo. E a sua seriedade deriva da confusão que o Caminho Sinodal já causou e continua a causar, e o perigo de um cisma na vida da Igreja que inevitavelmente resultará”.

Como outros avisaram antes de nós: O que acontece na Alemanha não se fica pela Alemanha. A história já nos ensinou essa lição uma vez.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 12 de Abril de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 4 August 2021

O Que é Feito nas Trevas Será Trazido para a Luz

Stephen P. White

Na segunda-feira dia 24 de julho o secretário-geral da Conferência Episcopal dos Estados Unidos (USCCB), monsenhor Jeffrey Burrill, demitiu-se antes da publicação de alegações de que usava frequentemente uma aplicação de engate gay chamado Grindr.

A reportagem que levou a essa demissão surgiu no “The Pillar”, um órgão de comunicação novo, gerido pelo JD Flynn e o Ed Condon. (Advertência: São ambos meus amigos e recentemente escrevi um curto artigo de análise para o “The Pillar”). Quase de imediato o interesse por esta história ultrapassou o meio do jornalismo católico e os repórteres do costume. A história ganhou mais pernas que um polvo.

Existia o problema evidente de um padre num cargo de importância a viver uma vida dupla, em violação das suas promessas de ordenação. Mais, embora não exista qualquer indicação de que o conduto de Burrill envolvesse menores, a aplicação Grindr é conhecida por colocar menores em risco de exploração precisamente porque permite que os utilizadores se mantenham anónimos.

É significativo ainda que, uma vez que o “The Pillar” usou dados de rastreio de telemóvel comprados – mas sem revelar nem a fonte desses dados nem como ficou na posse dos mesmos – a história despertou uma série de polémicas sobre a segurança dos dados e sobre a perspetiva ética de usar estes dados numa reportagem.

Desde a reportagem de segunda-feira, o The Pillar publicou mais duas histórias baseadas no mesmo tipo de dados. Uma a dar conta do uso de aplicações de encontros e de engates em várias casas paroquiais na arquidiocese de Newark, e outra sobre as ameaças de segurança para a Santa Sé por causa do uso dessas aplicações de engate no Vaticano.

Resumindo, o trabalho jornalístico do “The Pillar” irritou muita gente. Desde a Secretaria de Estado do Vaticano à USCCB, passando por gurus de segurança de dados, supostos guardiões da classe jornalística e as vozes do costume das redes sociais católicas que clamam “homofobia” cada vez que se sugere que possa valer a pena falar do problema que é a existência de um vício contranatura entre clérigos.

Nem toda a gente está irritada com o “The Pillar”, como é evidente. A maioria dos católicos “normais” com quem tenho falado acha que o “The Pillar” prestou um serviço à Igreja. E isso indica outra coisa que merece a nossa atenção.

Olhemos para a cronologia dos eventos, como relatado pelo “The Pillar”, que nos dá alguma noção de como os responsáveis da Igreja têm respondido a tudo isto.

Jeffrey Burrill


• Algures durante a semana de 11 a 17 de julho, “O The Pillar abordou responsáveis da USCCB… propondo apresentar aos líderes da Conferência Episcopal informação sobre más práticas de funcionários, durante uma reunião off the record antes de esta ser publicada, permitindo assim à USCCB tempo suficiente para formular a sua resposta”. A reunião foi agendada para dia 19 de julho.

• 17 julho: “O The Pillar reuniu durante mais de 90 minutos com os cardeais Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano e Paolo Ruffini, prefeito do dicastério do Vaticano para as comunicações, para apresentar os seus dados… Concluída a reunião, Ruffini pediu ao ‘The Pillar’ que submetesse questões, que apresentaria ao Parolin para que ele respondesse, e solicitou uma semana para a formulação das respostas, a que o ‘The Pillar’ acedeu”.

• 18 julho: “O ‘The Pillar’ foi informado de que a reunião com altos quadros da USCCB, marcada para segunda-feira, 19 de julho, tinha sido cancelada. Em vez disso foi pedido ao ‘The Pillar’ que submetesse perguntas por escrito e, ainda, que o prazo fosse estendido até terça-feira 20 de julho, a que a publicação acedeu”.

• 19 julho: A “Catholic News Agency (antiga entidade patronal de Flynn e de Condon) “publicou uma notícia sobre possíveis futuras reportagens na imprensa baseadas no uso de dados de sinal de aplicações”.

• 20 julho: Quadros da USCCB ofereceram-se para reunir pessoalmente com o “The Pillar”: “A caminho dessa reunião, o ‘The Pillar’ tomou conhecimento, através da imprensa, da demissão do secretário-geral da USCCB, monsenhor Jeffrey Burrill, devido a ‘notícias pendentes alegando possível comportamento impróprio”.

Tudo somado dá nisto: A análise de dados de aplicações móveis feita pelo “The Pillar” revelou umas coisas muito desagradáveis. Em vez de publicar a informação, o “The Pillar” notificou as autoridades eclesiais relevantes, dando-lhes uma oportunidade razoável para formular uma resposta construtiva, e estendendo o prazo inicial quando isso lhes foi solicitado.

A USCCB ou a Secretaria de Estado (ou ambas) claramente não gostaram do que o “The Pillar” tinha para lhes dizer. A resposta foi empatar, espalhar partes da história a outros órgãos de comunicação mais amigáveis e depois fechar-se em copas. Deixarei aos diretores de comunicação e jornalistas a discussão sobre se esta estratégia é brilhante ou rasca. 

O que é evidente é que esta manobra tinha por objetivo punir e intimidar. A estratégia não passava por impedir que a história fosse publicada – claramente houve fuga de informação para outros órgãos e Burrill demitiu-se antes de o “The Pillar” ter publicado uma só linha – mas sim por infligir o máximo de danos a dois jornalistas católicos que tiveram a audácia de informar os líderes católicos sobre algo que eles não queriam ouvir.

É evidente que existem questões legítimas a colocar em relação à utilização de dados de aplicações por parte do “The Pillar”. Mas quando os líderes eclesiais tratam automaticamente jornalistas como Flynn e Condon – que claramente não estão nas margens – como párias simplesmente por terem revelado verdades inconvenientes sobre pecados clericais, há consequências não intencionais.

Perante as mudanças radicais no panorama dos media católicos, os bispos – e as suas equipas de comunicação, muitas vezes lideradas por leigos – terão de tomar umas decisões estratégicas. Querem uma imprensa católica “domesticada”? Uns media católicos em quem ninguém confia, com as notícias mais difíceis sobre a Igreja a terem de ser dadas por órgãos seculares (ou por procuradores públicos) com um conhecimento limitado de uma Igreja pela qual nada sentem?

E depois existe o espetro de uma franja de meios de comunicação católicos cada vez mais venenosa, que cresce na medida inversa à da credibilidade e transparência dos bispos, sobretudo no que diz respeito a questões de más práticas sexuais e de abusos por parte do clero. Bispos que lamentam o crescimento dessa franja e a sua influência sobre os seus rebanhos fariam bem em lembrar-se do que a alimenta.

A restauração da credibilidade episcopal vai exigir um grau de responsabilização e transparência que poderão ser dolorosos e, por vezes, até humilhantes. E nesse sentido jornalistas católicos independentes como Flynn e Condon não são o inimigo da Igreja, pelo contrário, são alguns dos seus mais importantes aliados.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 29 de Julho de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing


Wednesday, 30 June 2021

Igrejas incendiadas no Canadá, FNO no Porto

Sete igrejas foram incendiadas no Canadá nos últimos dias. Calcula-se que seja uma reação à descoberta de mais de mil cadáveres de crianças enterradas em valas comuns junto a antigas escolas residenciais. Tudo explicado aqui.

Depois do enorme sucesso que foi a edição em Lisboa, o Faith’s Night Out regressa ao Porto este fim-de-semana.

O Papa Francisco pede investimento na amizade social, para se evitar jogos de poder e, na audiência geral desta quarta-feira, elogiou publicamente o seu motorista.

Hoje marca o fim do mês em que as grandes corporações se aproveitam da bandeira arco-íris para tentar vender mais cerveja e carros à custa da comunidade homossexual. Vale a pena refletir um pouco sobre o que significa esta aproveitamento e a pressão social para o aceitar. Foi o que tentei fazer aqui, com a ajuda de Vaclav Havel.

No artigo da semana passada do The Catholic Thing pudemos ler a receita para fazer frente ao desespero social. Esta semana é a vez de Elizabeth Mitchel nos explicar porque é que é precisamente quando tudo parece perdido que se torna importante confiar e obedecer à ordem de Jesus para lançar as redes.

Monday, 28 June 2021

Como diria Vaclav Havel...

O Papa Francisco recebeu esta segunda-feira uma delegação do principal patriarcado ortodoxo e agradeceu os testemunhos crescentes de unidade entre cristãos.

Por falar em testemunhos de unidade, Francisco contribuiu para um livro contra a guerra cujo prefácio foi assinado pelo Patriarca da Igreja Copta Ortodoxa.

Francisco está preocupado com o Médio Oriente, especialmente com o Líbano, onde se passa fome por causa da crise política, social e económica.

A Obra Católica Portuguesa das Migrações está preocupada com o racismo em Portugal, incluindo entre as forças policiais.

Que dizer desta tendência de todas as marcas e instituições debaixo do sol de exibirem a bandeira arco-íris? Nada que Vaclev Havel não tenha dito já. “Têm de viver dentro de uma mentira. Não precisam de aceitar a mentira. Basta que tenham aceitado a sua vida com ela e no seio dela.” É sobre isso o meu mais recente artigo no blog da Actualidade Religiosa. Leiam e comentem.

E não deixem ainda de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing em português, que nos dá a receita para o antídoto contra a depressão social que a tantos atinge nestes dias.

A bandeira arco-íris na vitrine do merceeiro

Vaclav Havel escreveu um livro chamado “O Poder dos Sem-Poder”, sobre a relação dos cidadãos dos países comunistas da Europa central e de leste com o Estado. Nesse livro utilizou o exemplo do merceeiro que coloca um cartaz na vitrine da sua mercearia que diz “Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos”.

A conclusão de Havel é que o merceeiro não tem qualquer interesse na união dos trabalhadores, nem está comprometido com essa ideia, mas sente – correctamente – que tem de colocar o cartaz, sob pena de ser mal visto, e devidamente punido, pelas forças que dominam a sociedade. Resumindo, a colocação do cartaz é um esforço necessário para que de resto seja deixado em paz por um sistema totalitário.

Já essas forças que dominam a sociedade, que neste caso são comunistas, também não têm qualquer interesse no conteúdo nem na mensagem do cartaz, para além do facto de a sua colocação na vitrine da mercearia simbolizar a submissão do merceeiro à ideologia dominante.

É um sistema, conclui Havel, que depende da mentira e se perpetua na mentira. “Têm de viver dentro de uma mentira. Não precisam de aceitar a mentira. Basta que tenham aceitado a sua vida com ela e no seio dela.”

Como não pensar neste exemplo ao ver a onda de instituições a atropelar-se durante este mês de junho para colocar à martelada a bandeira arco-íris em toda a sua estratégia de comunicação? Desde a Câmara Municipal de Lisboa a clubes de futebol, bancos, marcas de carro e de cerveja, todos sentem a necessidade de se juntar à turba.

Mas alguém acredita que a Volkswagen e a Heineken estão mesmo preocupados com aquilo que representa a bandeira arco-íris? (se é que é possível haver acordo sobre o significado da bandeira…). Claro que não. Eles estão é preocupados com as consequências de não colocar aquele símbolo, pois ele tornou-se a bandeira oficial de um movimento social que persegue de forma impiedosa os seus inimigos e não aceita qualquer desvio da nova ortodoxia.

É evidente que isto não é apenas um problema desta causa e desta bandeira. Pode acontecer com qualquer causa que assume contornos de ideologia. Facilmente imaginamos uma aldeia rural e conservadora em que um indivíduo ateu empedernido se sente obrigado a ir à missa na Páscoa para não ser mal-visto pelos seus vizinhos. E isso também é grave.

Neste caso da bandeira arco-íris a prova da total insinceridade destas manifestações de apoio “à causa” está em todo o lado. Veja-se o caso recente do FC Barcelona, que mudou a sua imagem de perfil nas redes sociais, incorporando a bandeira arco-íris, em todas as contas menos na árabe, porque lá a coisa tende a não ser tão bem aceite. E acham que o TikTok está mesmo tão empenhado como dá a entender pela publicidade nos estádios do Euro 2020? Acham que eles fazem essa mesma publicidade na China, onde a empresa está sedeada? (Um leitor, a quem agradeço, partilhou entretanto este link que mostra que esta prática é aliás generalizada)

Vaclav Havel
Tal como o cartaz do merceeiro de Havel, o significado actual da bandeira arco-íris já não tem nada a ver com o seu significado original. O que é que significa exactamente a bandeira num anúncio da Heineken? Que os homossexuais, transsexuais e intersexuais também gostam de beber cerveja? Havia dúvidas? Que também podem beber cerveja? Estavam vedados? O que é que significa precisamente ser uma cerveja “inclusiva”? Ou será que tem a ver com as políticas internas da empresa? A Booking vai passar a tratar melhor os seus funcionários que não correspondem ao padrão social em termos de orientação sexual? Não o faziam já? Ou seja, esta ostentação da bandeira arco-íris muda alguma coisa, de facto, no terreno, no mundo, nas empresas, na sociedade? Então para que é que serve?

E porque é que me preocupa isto? Eu sou o primeiro a assinar por baixo se me perguntam se todos devem ser tratados com igualdade e respeito, independentemente da sua orientação sexual. Assino por baixo porque isso é um requisito básico dos direitos humanos, em que acredito, e de uma visão cristã da humanidade, que procuro ter sempre.

Mas o que se está a passar nada tem a ver com a dignidade inerente e indelével de todos os seres humanos, é meramente uma questão de imposição ideológica que assume contornos claramente totalitários. Ninguém quer saber em que é que você acredita, desde que exteriormente se comporte conforme a ortodoxia. Ninguém quer saber o que faz em prol dos homossexuais, desde que um dia por ano a sua foto de perfil nas redes sociais adopte as cores do arco-íris. Isto é a cultura da mentira e é uma das grandes marcas do totalitarismo. Porque o totalitarismo não precisa de ser apoiado por uma estrutura política ditatorial nem precisa de gulags e de campos de concentração para manifestar a sua intolerância.

Wednesday, 26 May 2021

#LoveWins, mas sem Alegria

Michele Malia McAloon
Há duas semanas, numa manhã chuvosa de segunda-feira, caminhei até uma pequena igreja Católica situada num beco na cidade de Mainz, na Alemanha. Mais de 100 igrejas católicas na Alemanha tinham anunciado serviços religiosos para os dias 9 e 10 de Maio, para abençoar casais de namorados, numa campanha publicitada na internet com o lema “love wins” [o amor vence].

Eu queria ver em que consistia esta “cerimónia de bênção” para todos os casais, independentemente da sua orientação sexual. Enquanto advogada de direito canónico que trabalha na área de processos de nulidade e de casamentos, estava interessada em ver que tipo de cerimónia seria esta, para pessoas que ou não estavam para se chatear com um casamento sacramental, ou então não compreendem que nem todas as proclamações de “amor” favorecem o florescimento humano.  

Esta iniciativa, que abrangeu toda a nação alemã, foi organizada por padres, diáconos e voluntários católicos que pensam, erradamente, que têm o direito e o dever de rejeitar a decisão de Março da Congregação para a Doutrina da Fé de que as uniões homossexuais não podem ser abençoadas. O site que promovia as cerimónias anunciava orgulhosamente: “Erguemos as nossas vozes e dizemos: Continuamos a colocar-nos ao lado daqueles que se comprometem numa relação vinculativa, e abençoamos as suas relações”.

Enquanto me instalava nas filas detrás da Igreja, rezei para que ninguém comparecesse. Esperava encontrar uma igreja vazia, e então iria alegremente jantar. Tanto quanto conseguia perceber, muito poucos casais tinham-se registado no site, como se pedia. E, de facto, só lá encontrei três casais – dois casais heterossexuais e um par de homens homossexuais.

No santuário, junto ao altar, estava um sacerdote e uma mulher vestida de diácono. Outro homem com um hábito castanho estava sentado, a tocar guitarra. O altar estava despido, à excepção de algumas velas. Ninguém se preocupou em levantar-se quando o padre entrou, nem em fazer o Sinal da Cruz. O “serviço” abriu com uma série de músicas folclóricas, cantadas pela mulher com a casula.

Toda a charada estava repleta de ironias, mas talvez a maior fosse o facto de estarmos a poucos metros de um famoso órgão pelo qual a pequena igreja, fundada em 1331 pelos antonitas e entregue às clarissas em 1620, é conhecida.

Durante todo o processo não houve a menor interação com a congregação. A mesma mulher aproximou-se do altar sem qualquer sinal de reverência exterior pela presença do Senhor no sacrário e fez uma homilia de 15 minutos sobre o amor. Depois dessa homilia, e de mais uma música, o padre fez uma leitura. Mais uma vez, ninguém se preocupou em levantar-se.

Depois, pediu aos casais que se levantassem e lessem algum tipo de declaração de amor um pelo outro. Não houve beijos para selar o acordo, nem qualquer sinal exterior de afeição. Toda a gente se sentou. A mulher cantou mais um bocado e em menos de 30 minutos tudo tinha acabado.

O padre aproximou-se de mim no final e, para dizer a verdade, só me consegui afastar. Não há palavras em inglês ou em alemão que pudessem justificar um tal gesto cismático por parte de qualquer pessoa na Igreja.  

São Bonifácio
Não me preocupei com o jantar, já não tinha apetite. Tudo aquilo tinha sido deprimente e triste. Não houve qualquer sentido de celebração, só o sentido duramente mundano de uma tarefa cumprida, algo mais parecido com o registo de um automóvel na Direção-geral de Viação do que a natureza alegre de um baptismo ou de um casamento.


Não houve trajes nupciais. Os casais estavam vestidos de calças de ganga e camisolas. Tudo se passou sem champagne, bolo, jantar, amigos e família juntos para celebrar o começo de uma comunidade de vida e de amor.

A terra de Martinho Lutero continua sujeita a fortes restrições por causa da Covid-19, por isso não havia restaurantes abertos para celebrar aquilo que tinha acontecido. Será que os casais voltaram para casa e festejaram com um jantar de restos e de Netflix? Terá esta bênção transmitido magicamente a ideia de que um compromisso para a vida toda tem de facto a ver com o trabalho duro e nada romântico de salvação e redenção, enquanto esposos que dão a vida um ao outro com o objetivo de levarem-se um ao outro até ao Céu?

Ou será que tudo não passou de uma farsa politica/ideológica?

Em vez da concessão de graça dada pelo Espírito Santo por via de um verdadeiro sacramento, os casais que alegadamente procuravam a riqueza dos tesouros da Igreja receberam migalhas sacramentais das mãos dos padres que deviam ser os primeiros a saber a diferença entre verdadeira empatia e falsa “compaixão”.

No final de contas, nada saiu de tudo isto para além da manipulação de pessoas para fazer uma espécie de afirmação política sobre casamento homossexual e um manguito adolescente para o Vaticano.

Enquanto regressava ao meu carro, passei por uma estátua de tamanho real de São Bonifácio, bispo e mártir (680-754 AD) que está diante da Catedral de Mainz. Durante a sua vida este santo anglo-saxónico tornou-se conhecido como o Apóstolo do povo germânico, depois de ter derrubado com um machado uma árvore sagrada, adorada pelos pagãos germânicos.

De acordo com a lenda, São Bonifácio usou a madeira da árvore para construir uma igreja dedicada a São Pedro. Quando se tornou arcebispo de Mainz, em 752, recebeu como pálio um pano que tinha sido colocado sobre o túmulo de São Pedro.

São Bonifácio foi martirizado por causa da sua fidelidade aos ensinamentos da Igreja, destemido apesar das muitas ameaças feitas por adoradores de falsos deuses. Quem diria que a sua vida santa seria, depois de séculos de Cristianismo na Alemanha, um comentário irónico sobre aqueles que preferem o cisma à unidade, o individualismo indulgente à comunidade e a destruição social à graça vivificante?

São Bonifácio, rogai pela Alemanha – e por nós.


Michele Malia McAloon é casada há quase 28 anos. É mãe, oficial das Forças Armadas americanas na reserva e advogada de direito canónico. Vive em Wiesbaden, na Alemanha. Pode ouvir o seu podcast “Cross Word” no Spotify, Apple Podcasts e archangelradio.com.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 20 de Maio de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Thursday, 8 April 2021

Monge detido por caridade na Turquia

Um monge na Turquia foi condenado a mais de dois anos de prisão por aquilo que considera ter sido apenas um acto de caridade cristã.

Está a formar-se uma comunidade de católicos chineses em Lisboa. Saiba mais aqui.

O Papa lamenta que exista ainda um fosso entre ricos e pobres no que diz respeito à saúde e diz que as leis do mercado não podem sobrepor-se à lei do amor e à saúde.

As cheias da semana passada em Timor-Leste causaram grande devastação e muitas vítimas. O Papa rezou pela situação e os salesianos, no terreno, ajudaram como puderam.

O que representa a bandeira arco-íris? Amor? Tolerância? Direitos? O autor do artigo do The Catholic Thing desta semana, Anthony Esolen, argumenta que representa toda a revolução sexual e que por isso mesmo deve ser arreada. Um artigo a ler aqui.

Wednesday, 7 April 2021

Arrear a Bandeira

Recentemente o Vaticano recusou permitir que clérigos católicos abençoem uniões entre pessoas do mesmo sexo, evitando um cisma imediato e mundial. Ninguém deve ficar surpreendido; aliviado, talvez, mas não surpreendido. O que o Vaticano fez foi negar-se a reverter toda a antropologia bíblica no que diz respeito aos sexos, já para não falar de uma visão coerente da criação – da ordem formal impressa com a sabedoria de Deus.

Mas o mundo continua.

Passadas poucas horas já tinha ouvido os críticos da Turner Classic Movies a defender os filmes antigos, apesar de estes por vezes estarem manchados por racismo-sexismo-homofobia-transfobia. Os críticos falavam como se não fosse possível qualquer pessoa decente contestar a sabedoria moral assente que toma todas estas coisas por iguais, a serem tratadas com a mesma reprovação.

Depois ouvi falar de dois rapazes de um liceu que foram escolhidos para representar dois amantes homossexuais numa peça de teatro. E de outro jovem, noutra escola, que teve de cantar uma música ordinária sobre ter uma erecção quando olha para outra rapariga da sua sala.

Os trios amorosos estão nas notícias a toda a hora. Duvido que haja uma única escola pública no país que não tenha hasteado a bandeira arco-íris, aqui, ali, em todo o lado, nos cadernos, nos planos de aula, em material de leitura e nas lapelas dos professores.

A maldade, disse Edmund Burke, é demasiado inteligente para aparecer sempre da mesma forma. As nossas paixões – orgulho, inveja, fúria, luxúria e avareza – mantêm-se iguais, mas mudam conforme as modas. É por isso que o homem ataca tão frequentemente formas que em larga medida já passaram. Burke chamava-lhe enforcar a carcaça.

E sabemos que as novas formas não atraem apenas monstros. Não duvido que tenha havido muitas pessoas simpáticas que hastearam a suástica nas suas casas embora não odiassem verdadeiramente os judeus, mas estavam satisfeitos por irem na corrente com os novos e revolucionários líderes de opinião bem-pensantes, construtores de autoestradas e restauradores da Alemanha.

Não duvido que na Rússia estalinista houvesse muitas pessoas simpáticas que hasteavam a foice e o martelo nas suas casas embora não odiassem verdadeiramente os ucranianos ou os ortodoxos recalcitrantes, mas estavam contentes por irem na corrente da novidade, e por aí fora. O desejo de obter emprego, de manter o emprego ou de merecer a aprovação dos líderes de opinião bem-pensantes pode ser muito tentador e não requer grande grau de coragem face ao mal.

Eu não estou a dizer que a bandeira arco-íris é igual à suástica ou à foice e martelo. Claro que não. Não estou a dizer que é igualmente má: quando estamos a lidar com males fundamentais a questão não tem qualquer sentido. Adorar a Baal era tão mau como adorar Moloch? Enquanto nós discutimos o estilo de luxúria ou de ódio, os princípios em si, tanto Baal como Moloch, apreciam um cognac espiritual flamejante e brindam. E Baal também matou os seus milhões.

Não tenho qualquer intenção de apontar o dedo a indivíduos. Tenho muita simpatia por pessoas que, num tempo de profunda solidão, se agarram a uma relação homossexual como uma última esperança. Mas o arco-íris representa toda a revolução sexual.

Não me refiro aqui ao pecado sexual, que teremos sempre connosco, tal como teremos mentiras, furto, homicídio, blasfémia e traição. A revolução sexual não é uma erva daninha. É uma árvore: plantada deliberadamente, regada e cuidada. Não é um acumular de pecados ou de maus hábitos. É um princípio que dá maus frutos.

O princípio é o da autonomia corporal: que o que os adultos fazem, sexualmente, é da sua conta e de mais ninguém. Junte-se a isto a paixão romântica para adoçar o princípio, junte-se o feminismo para obscurecer a verdade de que os homens são para as mulheres e as mulheres são para os homens, espere umas décadas para que os gostos se mudem e temos uma sequóia completa.


Não foram os homossexuais que plantaram e fertilizaram a árvore, embora tenham feito a sua parte. Mas não interessa agora como é que a árvore cresceu, e como cresceu de tal forma que agora cobre todo o mundo ocidental com a sua sombra. A questão é que a árvore tem de ser abatida.

Repito, não estou a dizer que não haverá pecado sexual. Estou a dizer que o princípio deve ser repudiado: a árvore é o princípio e dá o fruto mau desse princípio.

Temo que alguns católicos possam tolerar a árvore, porque não querem ferir os sentimentos daqueles que se deliciam com o fruto, ou porque, ainda que não tenham gosto por aquela maçã, gostam desta; porque a árvore é generosa e tem muito a oferecer para cada gosto, uma grande variedade de maus frutos.

Talvez os que plantaram a árvore não tenham tido a noção de que chegaria a isto. Talvez pensassem que uma certa cortesia poderia conter o mal: que piscaríamos o olho ao engate do João e da Maria, mas não ao do João e do Martim; aceitaríamos o divórcio apenas nos casos difíceis; aceitaríamos a contracepção, mas não o aborto; aceitaríamos a pseudogamia homossexual, mas não a poligamia; sem pensar que o aço moral mais firme não é suficientemente duro para conter um princípio mau.

E a cortesia, a simpatia, não é aço, é papel.

A árvore tem de vir abaixo.

Pensem, pensem só nas coisas humanas e normais que poderíamos ver, que se poderiam esperar, alcançar, coisas banais: muito amor saudável entre rapazes e raparigas, em vez de um campo minado tanto para os morais como para os imorais; direcção mais segura para jovens cujo caminho para o estado de homem ou de mulher adultos foi dificultado pelo infortúnio ou pelo pecado dos seus antepassados; uma apreciação mais clara e agradecida de cada sexo para o outro; e com tudo isso, pecados e falhanços, ervas daninhas que nascem, como sempre, mas em pequenas manchas, ou individualmente, e não de forma planeada, sem que toda a humidade e nutrição fossem canalizados para alimentar um leviatã vegetal.

É preciso arrear a bandeira.


Anthony Esolen é orador, tradutor e autor. As suas obras incluem: Out of the Ashes: Rebuilding American Culture, Nostalgia: Going Home in a Homeless World e o mais recente The Hundredfold: Songs for the Lord. É professor e autor residente na Magdalen College of the Liberal Arts em Warner, New Hampshire.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 31 de Março de 2021 em The Catholic Thing)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Partilhar