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Wednesday, 1 November 2023

O Islão e o Realismo Cristão

Francis X. Maier

Na sua maioria, os ocidentais ficaram chocados com a selvajaria dos recentes ataques do Hamas contra Israel, e o assassinato sistemático de cidadãos israelitas por terroristas do Hamas. Essa maldade foi agravada pela culpabilização de Israel pelo catastrófico bombardeamento de um hospital em Gaza, quando as provas demonstram agora que na verdade as centenas de mortes foram causadas por um projéctil do Hamas. Mas talvez o mais surpreendente de tudo tenha sido ver milhões de pessoas no mundo árabe e em muitas capitais do ocidente a celebrar a violência do grupo terrorista palestiniano.

Desde o Concílio Vaticano II que os católicos, e muitos outros cristãos, têm valorizado o diálogo e a cooperação inter-religiosa, sobretudo com o judaísmo, mas também com o Islão. Os resultados – como eu vi em primeira mão nos anos em que trabalhei na área inter-religiosa de uma diocese – têm sido muitíssimo benéficos. Contudo, vale a pena recordar que enquanto o Cristianismo tem as suas raízes no Judaísmo, a nossa relação com o Islão é um assunto muito diferente. Daí que valha a pena meditar seriamente sobre alguns dos seguintes pensamentos:

Islão e a Palavra de Deus:

Quem conhece o Antigo e o Novo Testamentos e depois lê o Alcorão, pode ver claramente o processo através do qual ele reduz completamente a Revelação Divina [ênfase no original]. É impossível não reparar no afastamento daquilo que Deus disse sobre Si mesmo, primeiro no Antigo Testamento, através dos profetas, e por fim no Novo Testamento, através do seu Filho. No Islão toda a riqueza da autorrevelação de Deus, que constitui a herança do Antigo e do Novo Testamento, é definitivamente posta de lado.

Alguns dos nomes mais belos da linguagem humana são atribuídos a Deus no Alcorão, mas no final de contas Ele é um Deus fora do mundo, um Deus que é apenas majestade, nunca Emmanuel, Deus connosco. O Islão não é uma religião de redenção

Por esta razão, não só a teologia, mas também a antropologia islâmica é muito distante do Cristianismo.

– São João Paulo II, em Atravessar o Limiar da Esperança

Islão e Conflito:

O mundo, tal como o académico Bat Ye’or tão brilhantemente demonstra, divide-se em duas regiões: o dar al-Islam e o dar al-harb; por outras palavras, o “domínio do Islão” e “o domínio da guerra”. O mundo já não se encontra dividido em nações, povos e tribos. Antes, estes encontram-se localizados em bloco no mundo da guerra, onde a guerra é única relação possível com o mundo exterior. A Terra pertence a Allah, e os seus habitantes devem reconhecê-lo; para atingir este objectivo só existe um método: guerra. A guerra, por isso, é claramente uma instituição, não apenas uma instituição acidental ou fortuita, mas uma parte constituinte do pensamento, organização e estruturas deste mundo. A paz com este mundo da guerra não é possível. Como é evidente, por vezes pode ser necessário travá-la; existem circunstâncias em que é melhor não travar guerra. O Alcorão também prevê isto. Mas isso não muda nada: Para o Islão, a guerra permanece uma instituição, pelo que deve ser resumida logo que as circunstâncias o permitam. 

Enfatizei muito as características desta guerra porque hoje em dia se fala tanto da tolerância e do pacifismo fundamental do Islão, que se torna necessário recordar a sua natureza, que é fundamentalmente bélica.

 o já falecido Jacques Ellul, distinto teólogo e crítico social protestante francês, do prefácio que escreveu para The Decline of Eastern Christianity Under Islam: From Jihad to Dhimmitude, de Bat Ye’or

Islão, política e cultura:

As duas religiões que têm uma dimensão “política” não a adquiriram do mesmo modo. O Cristianismo ganhou terreno no mundo antigo contra o poder do Império Romano, que perseguiu os cristãos durante quase três séculos antes de adoptar a religião cristã. Já o Islão, depois de um período breve de provações, triunfou durante a vida do seu fundador. Depois conquistou, pela guerra, o direito a operar em paz, e até mesmo o direito de ditar as condições de sobrevivência para os seguidores das outras religiões “do livro”. Em termos modernos, podemos dizer que o Cristianismo conquistou o Estado através da Sociedade Civil; o Islão, pelo contrário, conquistou a sociedade civil através do Estado [ênfase no original].

Assim, desde o início, o Cristianismo colocou-se à parte do domínio político, e os seus textos fundadores dão testemunho de uma desconfiança dos assuntos políticos… Para o Islão, a separação entre o político e o religioso não tem direito a existir. Chega a ser chocante, pois parece um abandono dos assuntos humanos ao poder do mal, ou a despromoção de Deus para um lugar fora da sua esfera própria. A cidade ideal deve ser aqui na Terra. Em princípio, ela até já existe: é a cidade islâmica. 

– Remi Brague, vencedor do prémio Ratzinger e professor emérito de filosofia medieval e árabe na Sorbonne, em A Lei de Deus

Não obstante a sua relação de herança comum com o Judaísmo e o Cristianismo, remontando a Abraão, e apesar do seu respeito formal por Jesus e por Maria, o Islão tem muito pouco em comum com a fé cristã. O Islão rejeita a Trinidade, a Encarnação e a Redenção. Nega a veracidade dos Evangelhos, e nega as origens e o propósito da Igreja. Na verdade, o Islão reconhece o Judaísmo e o Cristianismo apenas como aberrações na sua própria história sincretista.

Hoje, em estados islâmicos como o Sudão, o Egipto, o Irão, o Paquistão, a Turquia, o Bangladesh e a Indonésia, os cristãos enfrentam desde a marginalização e o assédio até à violência explícita. A razão é simples. Independentemente de todas as forças do Islão, o preconceito antijudaico e anticristão tem um historial longo e frequentemente amargo no Islão, não obstante afirmações em contrário. 

Isto não constitui uma licença para agirmos de igual modo, mas exige, isso sim, que tragamos para os nossos encontros modernos com o Islão – tanto no Médio Oriente como aqui no ocidente – uma abordagem realista e firme, e uma memória histórica correcta. À luz do Evangelho, Maomé não é um verdadeiro profeta e o Alcorão não é a Palavra de Deus. Como Jesus Cristo afirmou, apenas ele é o caminho para o Pai. E no final de contas os muçulmanos não O conhecem. Sem o nosso testemunho activo junto do mundo Islâmico, nunca o conhecerão.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 25 de Outubro de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 4 October 2023

O Mundo para Além da Nossa Janela

Este artigo é sobre o futuro, mas começa com o passado. Deixem-me explicar.

Faço 75 anos em Outubro. No que diz respeito a aniversários, este é importante. Mas a minha mulher e eu fomos ambos abençoados com boa saúde, por isso a mortalidade, para já, parece-nos uma obrigação maçadora, mas ainda distante. As pessoas morrem, todos morremos. Quando entramos nos setentas, conscientemente ou inconscientemente começamos a fazer contas ao que vimos e aprendemos, ao que conseguimos cumprir, ao que a nossa vida significou.

E assim, ao longo dos últimos muitos anos, tenho-me focado cada vez mais na passagem 1 Pedro 1, 24-25:

Toda a humanidade é como a relva

e toda a sua glória como a flor da relva;

a relva murcha e cai a sua flor,

mas a palavra do Senhor permanece eternamente.

Parecem palavras destinadas a chafurdar na melancolia. Mas para mim têm tido o efeito contrário. A chave é aquela última linha: a palavra do Senhor permanece eternamente. Eternamente é uma palavra muito grande. Põe-nos a pensar no tempo. E pensar no tempo, pelo menos para mim, leva a pensar na história; ao que devemos à vida dos outros, que já partiram; como vivemos as nossas próprias vidas hoje, como traçamos as rotas para o futuro.

A minha mãe era de uma família católica irlandesa e tinha um sentido muito apurado da história, bem como um desdém pelos ingleses. Por “ingleses” queria dizer Oliver Cromwell. Tinha uma memória impecável da repressão protestante na Irlanda católica. A sua família irlandesa, de Galway e de Longford, tinha sido muito pobre, eram pouco mais que famintos.

Emigraram para a América durante a grande fome de 1845-52 e a Grã-Bretanha nunca era um tema bem-vindo à mesa, com uma excepção: os mártires católicos. A minha mãe nutria uma devoção enorme a São Tomás Moro, John Fisher, Edmund Campion e muitos outros santos assassinados judicialmente por Henrique VIII e Isabel I.

A sua memória era um pouco menos de fiar no que diz respeito aos protestantes queimados vivos pela Bloody Mary, mas voltava a ser cristalina quando se falava da Inglaterra Católica antes dos Tudors, sobretudo o assassinato de Thomas Becket e amigos à mão de Henrique II. Fazia questão de recordar aos seus filhos que a Igreja tinha sido banida e perseguida em Inglaterra desde os tempos de Isabel I, do final do Século XVI e em diante. As restrições acabariam por ser gradualmente atenuadas e eventualmente levantadas apenas no final do Século XVIII até meados do Século XIX.

Tudo isto me voltou à memória no início deste mês quando, graças à generosidade de uns amigos, fiz uma peregrinação a locais de referência católicos de Inglaterra. As peregrinações modernas tendem a transformar-se numa espécie de turismo religioso, com os participantes a consumir e a esquecer episódios históricos como se fossem petiscos. Mas esta não.

Não há como visitar o convento de Tyburn, em Londres – perto do local onde os mártires eram enforcados até estarem quase mortos, depois esventrados vivos e finalmente esquartejados – sem ficar emocionado. Acontece o mesmo com a cela da Torre de Londres onde esteve detido Tomás Moro, bem como a capela onde as suas ossadas foram misturadas com as de John Fisher e muitas mais vítimas, para serem sepultadas.

Noutros locais, a noroeste de Londres, a cidade de Oxford assistiu à conversão de John Henry Newman no Século XIX. Tomás Moro passou dois anos na Universidade de Oxford, e no século passado J.R.R. Tolkien, que era católico, leccionou juntamente com C.S. Lewis, que era anglicano, bem como outros membros dos Inklings.

O Caminho de Addison, onde Tolkien e Hugo Dyson convenceram Lewis a tornar-se cristão, fica no terreno do Colégio Magdalen, de Oxford, a cerca de 100 metros de janela do quarto de estudante onde fiquei durante a minha peregrinação; um quarto não muito diferente daquele que John Colet terá usado durante os seus dias a estudar ali. Educador brilhante, padre e amigo de Moro e Erasmo, Colet fez uma das melhores homilias reformistas, no limiar da Reforma.

O mundo para lá da minha janela no Colégio de Magdalen certamente seria familiar a Colet: os mesmos serenos relvados a perder de vista, uma ilha de paz num mundo atribulado.

Mas eu disse que este artigo é sobre o futuro. Vamos a isso, então.

Uma das bolsas de fé católica clandestina que sobreviveu em Inglaterra, quer durante, quer depois da Reforma, foi o condado de Lancashire, bem longe da esfera de influência quer de Londres, quer de Oxford. Os “recusants”, aqueles que se recusavam a cumprir com os requisitos do culto protestante – levaram a cabo um jogo longo, evasivo e ambíguo com as autoridades. O resultado é que a fé nunca desapareceu por inteiro. Quando a Igreja voltou a ter espaço para respirar, Stonyhurst College, em Lancashire, tornou-se um centro de educação nacional para jovens rapazes, e agora também para raparigas.

Stonyhurst (onde Tolkien também leccionou, e onde ainda existe o “Caminho Tolkien”) tem um legado que se estende 430 anos até locais na Europa continental. Mas o futuro não pertence tanto aos alunos formados no Colégio, como à comunidade de líderes católicos adultos que podem, e serão, formados ao longo dos próximos anos no Christian Heritage Centre e na Theodore House, localizados nos terrenos de Stonyhurst.

A CFC/Theodore House é uma instituição soberba de educação e conferências, liderada com zelo e capacidade pelo diretor Stefan Kaminski. Desde que João Paulo II criou o termo, que a Igreja nos impele a uma “nova evangelização”. O CHC/Theodore House é o tipo de lugar onde essas palavras têm realmente peso, onde o trabalho pode começar a sério. E essa é uma fonte de esperança.

No fundo, o que estou a dizer é que o mundo para além da janela das nossas vidas, enquanto cristãos, é uma longa fila de almas normais numa história extraordinária; uma história de salvação que remonta ao passado e em diante, para o futuro, rumo a um Deus que nos ama, em que todos desempenhamos papéis insubstituíveis. Olhando para a minha própria vida – e para a de todos nós – posso dizer que tem sido um enorme privilégio, bem como um consolo, fazer parte dessa história, pois:

a relva murcha e cai a sua flor,

mas a palavra do Senhor permanece eternamente.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 27 de Setembro de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



Wednesday, 20 September 2023

Toma o Comprimido

Francis X. Maier
O momento mais icónico do cinema do final dos anos 90 é a escolha que Neo tem de fazer no primeiro filme da série Matrix. Para quem não se lembra, o Matrix retrata um futuro em que os seres humanos vivem num mundo ilusório de aparente normalidade, mas na realidade cada pessoa está a flutuar num banho de narcóticos, administrado por máquinas sencientes. Os humanos criaram as máquinas e dotaram-nas de inteligência. Depois as máquinas escravizaram os humanos, que agora são usados como fontes vivas e anestesiadas de energia.

O enredo é bastante simples. Neo (um anagrama para “One”, o escolhido) é um programador e hacker que sente que há algo indefinível de errado no tecido da vida diária. Neo é contactado online por membros de uma resistência humana que procuram destruir as máquinas. Estes dão-lhe a escolher entre dois comprimidos. O azul levá-lo-á de volta aos prazeres da sua realidade imaginada, sem qualquer memória do que se passou. O encarnado abre-lhe os olhos para a dura verdade. Neo toma o comprimido encarnado e liberta a sua mente. Acabará por se tornar, para todos os efeitos, o salvador da humanidade.

Escrito e realizado pelos Irmãos Wachowski (actualmente, graças ao “milagre” dos medicamentos hormonais e de cirurgia, as Irmãs Wachowski) o filme é uma mistela de génio imaginativo, messianismo bíblico e misticismo oriental, que captura de forma perfeita o custo de o homem brincar ao Aprendiz de Feiticeiro; o custo de sobrestimar a nossa sabedoria e subestimar as consequências das ferramentas que criamos.

Aquilo a que chamamos progresso vem sempre com um senão. Se a tecnologia nos dá, também nos tira. A escrita permite gravar os nossos pensamentos, mas como Platão argumentou, também enfraquece a memória. O automóvel transporta-nos mais depressa, mas também polui a atmosfera. É o mesmo com qualquer nova tecnologia. 

E no mundo do Matrix esta nova ferramenta tira tudo, a começar pela liberdade e dignidade humana. As máquinas alimentam-se, literalmente, da vida e da energia das suas vítimas iludidas, tal como os ídolos pagãos, naturalmente vazios, vampirizam a vida dos seus idólatras.

Claro que o Matrix é ficção científica. É apenas uma história, muito longe do mundo em que vivemos aqui e agora. Mas talvez não tão longe como gostaríamos de pensar. Consideremos o seguinte trecho, escrito à menos de dois anos:

Às vezes fico acordado à noite, ou deambulo pelo campo atrás da minha casa, ou passeio pela rua da vila em que vivo e penso que a consigo ver toda a volta: a rede. As veias e tendões da máquina que nos rodeia, que nos paralisa e que agora nos sustenta e nos define. Imagino uma espécie de rede de fios luminosos no ar, brilhando como uma teia de aranha coberta de orvalho ao nascer do sol. Imagino os cabos e as ligações de satélites, os filmes e as palavras e os discos e as opiniões, os nós e os centros de dados que rastreiam e registam os detalhes da minha vida. Imagino a malha criada pelas transacções bancárias e as compras, os pedidos de passaporte e as mensagens enviadas. Vejo esta coisa, seja o que for, a ser construída, a construir-se à minha volta, vejo-a a erguer-se e a apertar o punho, e vejo que nenhum de nós a pode impedir de evoluir para se tornar o que seja que se está a tornar.

Vejo a Máquina, a zumbir gentilmente para si mesmo enquanto nos prende com as suas ofertas, seduzindo-nos com as suas promessas enquanto nos puxa devagarinho para dentro. Penso sobre as partes com que interagimos diariamente, a interface brilhante e branca à qual revelamos voluntariamente cada detalhe das nossas vidas em troca de informação, ou prazeres, ou histórias contadas por corporações globais de entretenimento que mercantilizam a nossa cultura para no-la revender. Penso nas palavras que usamos para descrever esta interface, que carregamos nos nossos bolsos para todo o lado, que nos rastreia em cada rua, em cada floresta que ainda existe: a teia [web], a rede.

E penso: Isto são coisas concebidas para apanhar presas.

Trata-se de uma passagem da extraordinária série de ensaios The Tale of the Machine, escrito pelo autor britânico Paul Kingsnorth, que recentemente se tornou cristão (ortodoxo). Este ensaio em particular chama-se You Are Harvest, e foi publicado em Outubro de 2021. É leitura importante, como toda a série. O seu site no Substack, The Abbey of Misrule, está ao nível do The Upheaval de N.S. Lyon e de Archedelia de Matthew B. Crawford, alguns dos melhores comentários culturais disponíveis actualmente.

Devemos evitar a tentação de achar que Kingsnorth está meramente a ser alarmista ou excessivo. O grande filósofo e teólogo protestante francês Jacques Ellul disse o mesmo e ainda mais em A Sociedade Tecnológica, há quase 70 anos.

Ellul argumentava que a adição moderna à tecnologia enquanto panaceia leva inevitavelmente o “estado a tornar-se totalitário, a absorver completamente as vidas dos seus cidadãos. Mesmo quando o estado é liberal e democrático, não pode se não tornar-se totalitário. Pode fazê-lo directamente, ou como no caso dos Estados Unidos, através de interpostas pessoas. Mas independentemente das diferenças, todos os sistemas acabam por chegar ao mesmo resultado.” O adolescente médio americano passa agora até nove horas por dia a olhar para ecrãs. Isso tem consequências psicológicas, logo sociais, logo políticas.

No Matrix o despertar de Neo para a realidade implica desligar-se literalmente das máquinas e suportar uma recuperação dolorosa, embora salvífica. Paul Kingsnorth livrou a vida diária da sua família de grande parte do casulo narcótico de alta tecnologia. (Não deixou de escrever no computador, não é propriamente chanfrado).

E está mais feliz por isso – por uma boa razão. Não podemos ser as criaturas de dignidade que Deus quis; não podemos ser fermento neste mundo; não podemos servir Jesus Cristo e ver claramente aquilo que deve ser feito no mundo, se formos apenas montes de detrito adormecidos. Fomos feitos para mais do que isso. Como escreve São Paulo, fomos feitos para ser filhos e filhas da luz, por isso, “não durmamos, pois, como os demais, antes vigiemos e sejamos sóbrios” (Tess. 5,6).

Por outras palavras: Toma o comprimido.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 14 de Setembro de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 13 April 2022

70 Bispos Alertam para “Caminho Sinodal” Alemão

Francis X. Maier

Em tempos de desassossego e confusão, tentativas bem-intencionadas de descentralizar uma comunidade ou uma organização podem ter consequências indesejadas. A Igreja não é imune a este facto, e isso é algo que os católicos na Alemanha parecem determinados a comprovar.

Em declarações feitas à revista “Stern”, em finais de Março, o cardeal Reinhard Marx, de Munique, pareceu incentivar alterações ao ensinamento da Igreja em relação à homossexualidade. Reconhecendo que já abençoou casais homossexuais, Marx notou que “o catecismo não está escrito na pedra” acrescentando que “há anos que me sinto mais livre para dizer aquilo que penso, e quero modernizar o ensinamento da Igreja”.

Os comentários de Marx não nos devem surpreender. Estão em linha com o trabalho desenvolvido, até à data, pelo “Caminho Sinodal” alemão, um processo de consulta plurianual em curso na Alemanha. Embora não sejam vinculativos para os líderes da Igreja alemã, os documentos do Caminho Sinodal já expressaram apoio ao celibato opcional para os padres, para bênçãos para uniões homossexuais, revisão do ensinamento da Igreja sobre homossexualidade e ordenação de mulheres, e um papel maior para os leigos na nomeação de bispos.

Especialmente numa altura em que se está a preparar um “sínodo sobre a sinodalidade”, para 2023, o teor do Caminho Sinodal Alemão tem implicações profundamente perturbadoras e, para alguns, cismáticas. No dia 9 de Março os bispos dos países nórdicos expressaram a sua preocupação com o percurso alemão. Isto seguiu-se a uma carta pública divulgada em finais de Fevereiro pelo presidente da Conferência Episcopal polaca. Agora, numa carta de 11 de Abril tornada pública na passada segunda-feira e divulgada pela Catholic News Agency, mais de 70 bispos, incluindo quatro cardeais, dos Estados Unidos, Canadá e África, juntam as suas vozes ao coro de preocupações.

Na sua “Carta Aberta Fraterna aos Nossos Irmãos Bispos na Alemanha”, os signatários notam que “enquanto irmãos bispos, as nossas preocupações incluem, mas não se limitam ao seguinte”:

1. Ao não escutar o Espírito Santo e o Evangelho, as acções do Caminho Sinodal minam a credibilidade da autoridade da Igreja, incluindo a do Papa Francisco; da antropologia cristã e moralidade sexual; e a fiabilidade das Escrituras.

2. Embora incluam ideias e vocabulário religioso, os documentos do Caminho Sinodal Alemão parecem ser inspirados, em grande medida, não pela Escritura e pela Tradição – que de acordo com o Concílio Vaticano II são “um único depósito da Palavra de Deus” – mas antes por análises sociológicas e ideologias políticas contemporâneas, incluindo de género. Eles vêem a Igreja e a sua missão da perspectiva do mundo, e não pela lente das verdades reveladas na Escritura e pela autoridade da Tradição da Igreja.

3. O conteúdo do Caminho Sinodal também parece reinterpretar, e por isso diminuir, o sentido da liberdade cristã. Para o cristão a liberdade está no conhecimento, na vontade e na capacidade desimpedida de fazer o bem. A liberdade não é “autonomia”. A verdadeira liberdade está, como ensina a Igreja, ligada à verdade e ordenada à bondade e, no final de contas, à beatitude. A consciência não cria a verdade, nem é uma questão de preferência pessoal ou autoafirmação. Uma consciência cristã bem formada mantem-se submissa à verdade sobre a natureza humana e às normas que orientam uma vivência recta, revelada por Deus e ensinada pela Igreja de Cristo. Jesus é a verdade, que nos liberta. (Jo. 8)

4. A alegria do Evangelho – que como o Papa Francisco tantas vezes sublinha é uma parte essencial da vida cristã – parece estar totalmente ausente das discussões e dos textos do Caminho Sinodal, uma falha gritante num esforço que procura a renovação pessoal e eclesial.

Cardeal Marx
5. Em quase todo o seu processo, o Caminho Sinodal é o trabalho de peritos e de comissões: cheia de burocracia, obsessivamente crítica e introspectiva. Assim reflecte uma manifestação alargada de esclerose eclesial e, ironicamente, é marcada por um tom antievangélico. Nos seus efeitos, o Caminho Sinodal revela maior submissão e obediência ao mundo e às ideologias que a Jesus Cristo enquanto Senhor e Salvador.

6. O enfoque do Caminho Sinodal no “poder” dentro da Igreja sugere um espírito absolutamente contrário à verdadeira natureza da vida cristã. No final de contas, a Igreja não é apenas uma “instituição”, mas uma comunidade orgânica; não é igualitária, mas familiar, complementar e hierárquica – um povo consolidado no amor por Jesus Cristo e uns pelos outros, em seu nome. Este encontro com Jesus, como visto no Evangelho e nas vidas dos santos ao longo da história, muda corações e mentes, cura, afasta-nos de uma vida de pecado e infelicidade e revela o poder do Evangelho.

7. O pior problema do Caminho Sinodal alemão, e o mais preocupantemente imediato, é terrivelmente irónico. Através do seu exemplo destrutivo, poderá levar alguns bispos e muitos leigos fiéis, a desconfiar da própria ideia de “sinodalidade”, dificultando assim ainda mais a conversa necessária da Igreja sobre o cumprimento da missão de converter e santificar o mundo.

Num tempo de confusão, a última coisa de que a nossa comunidade de fé precisa é de mais do mesmo. Enquanto discernem a vontade do Senhor para a Igreja na Alemanha, asseguramos-vos das nossas orações por vós.

Embora reconhecendo que “muitos dos que estão envolvidos no Caminho Sinodal são sem dúvida pessoas de carácter excelente”, os bispos signatários notam que “a história do Cristianismo está recheada de esforços bem-intencionados que perderam a âncora da Palavra de Deus, num encontro fiel com Jesus Cristo” e numa “verdadeira escuta do Espírito Santo”. Entre esses esforços podemos incluir até a Reforma, que começou quase precisamente há 500 anos… na Alemanha.

O cerne da carta de 11 de Abril está aqui: “A urgência da nossa carta conjunta está enraizada em Romanos 12 e sobretudo na cautela deixada por Paulo: Não se conformem com o mundo. E a sua seriedade deriva da confusão que o Caminho Sinodal já causou e continua a causar, e o perigo de um cisma na vida da Igreja que inevitavelmente resultará”.

Como outros avisaram antes de nós: O que acontece na Alemanha não se fica pela Alemanha. A história já nos ensinou essa lição uma vez.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 12 de Abril de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 23 March 2022

Somos mais livres que os ucranianos?

Francis X. Maier
Dia de semana, à noite. Tínhamos acabado de ter um óptimo jantar. E agora, relaxados e confortáveis na nossa sala de estar, ligámos a televisão para ver as últimas notícias da Ucrânia. Em Lviv é meia-noite e o horizonte escuro está iluminado por uma chama cor-de-laranja, o mais recente alvo dos mísseis russos. Seguem-se imagens de um bairro civil destruído, e vítimas em lágrimas; seguidas de outras imagens de uma longa trincheira que agora serve de vala comum, recheada de corpos rapidamente amortalhados. E depois disso, um anúncio.

É um anúncio para algo caro – férias na Jamaica, um Cadillac eléctrico, um conjunto de implantes dentários, esqueço-me do produto, mas não interessa. Uma actriz atraente, por volta dos 40 anos, explica porque é que o adquiriu. Sim, pode parecer caro, mas ela queria-o, merecia-o e, explica, “tive de aprender a pôr-me em primeiro lugar”. Depois voltámos às imagens da redação, com opinadores a comentar a carnificina na Ucrânia.

“Tive de aprender a pôr-me em primeiro lugar”. Por um instante a minha imaginação viaja e imagino esta pobre criatura do anúncio, envolvida numa batalha titânica contra o seu “eu” altruísta por um conjunto de implantes dentários.

Mas a minha mulher, estupefacta, estraga o sonho. “O que é que aquela mulher acabou de dizer?” A minha cara metade trabalhou a vida toda em educação, e depois de quatro décadas a lidar com miúdos – a maioria dos quais quase tão centrados em si mesmos como é possível ser – ela tem a credibilidade calejada. Ela sempre adorou os seus alunos, mas nunca observou neles, nem em mais ninguém, qualquer problema em “aprender” a “colocar-se em primeiro lugar”. Claro que o seu cepticismo não é bem-vindo numa economia de consumo. Tenho uma razão para falar disto, já lá vou.

A guerra na Ucrânia tem todos os elementos de um videojogo excepcionalmente realístico. Só que aqui há pessoas verdadeiras e estão mesmo a combater e a morrer. Há poucas imagens no passado recente que nos marcam tanto como as de homens ucranianos a escoltar as suas famílias até à fronteira polaca e depois a voltar para trás para combater. Sim, eles são obrigados a ficar para lutar, mas a maioria fá-lo, e fá-lo voluntariamente, como se vê pela teimosa resistência à invasão russa.

Eles lutam por algo mais importante que si mesmos, e neste caso trata-se da sua nação, das suas famílias, casas e compatriotas. E eles lembram-se. Lembram-se da selvajaria que foi a Segunda Guerra Mundial que violou e pilhou a Ucrânia. Lembram-se de como os bolcheviques perseguiram as suas igrejas, as deportações soviéticas de agricultores, académicos e clero inocentes, e lembram-se do Holodomor, a campanha genocida de fome que Estaline impôs à Ucrânia, matando milhões.

Seria demasiado melodramático descrever a resistência ucraniana como “destemida”, afinal o temor da morte é uma característica humana universal. Mas a vontade de arriscar a própria vida por uma causa maior revela uma liberdade autêntica, uma liberdade que vem da abnegação e não da auto-indulgência. É uma liberdade que contrasta de forma desagradável com aquilo a que nós costumamos chamar “liberdade”, do conforto das nossas vidas.

Tive de aprender a colocar-me em primeiro lugar.” Este é o nosso lema não oficial. E não é por acaso. Para o público americano os anúncios são uma forma de catequese de estilo religioso, tal como Neil Postman compreendeu há anos no seu ensaio The Parable of the Ring Around the Collar (ver aqui). Se os americanos não comprarem coisas, e continuarem a comprar imensas coisas mais, tudo se desmorona. Por isso precisamos de abandonar os nossos escrúpulos sobre o desejo excessivo e o consumo infindável. Precisamos que nos ensinem, e precisamos de aprender, a colocar-nos a nós mesmos em primeiro lugar.

Para isso é preciso um currículo social de constante excitação do apetite popular por mais – e é por isso que Postman também sugere que aos estrangeiros basta olhar para Las Vegas para compreender a América. Aqui, no coração do império, longe de terras curiosas como a Ucrânia, vivemos cada vez mais numa permanente bolha de presente; uma bolha que não está carregada de memória ou das suas lições, infestada de distrações, falsos prémios (reembolso de todas as compras em dinheiro!), apetites manufacturados e ilusões mascaradas de liberdade.

Para proteger essa bolha precisamos de agentes ágeis, com capacidades analíticas superiores, fundados na psicologia comportamental. Sem grandes surpresas, Las Vegas é um bom modelo. Em Addiction by Design: Machine Gambling in Las Vegas, a professora Natasha Dow Schüll, do MIT, descreveu o enorme esforço feito pela indústria do jogo para conhecer, alimentar e assim moldar os seus clientes. Os dados coligidos pela indústria acabam assim por determinar o aspecto, a sensação e o equilíbrio risco-benefício da experiência. Assim os clientes continuam a regressar e, no final de contas, a perder. O jogador individual numa máquina está sozinho e profundamente isolado na sua própria zona mental, aguentando por vezes um dia inteiro sem parar para comer ou para ir à casa de banho e sem outros jogadores a chatear.

Uma das viciadas com quem Schüll falou, uma mulher chamada Mollie, descreveu a sua experiência assim:

Quanto mais jogava, mais sábia ficava sobre as minhas possibilidades [de ganhar]. Mais sábia, mas também mais fraca. Menos capaz de parar. Hoje quando ganho – e de vez em quando ganho – meto tudo de volta nas máquinas. O que as pessoas nunca percebem é que eu não estou a jogar para ganhar. Eu jogo para continuar a jogar – para continuar naquele ambiente da máquina em que mais nada interessa. Todo o mundo gira à nossa volta, mas não conseguimos ouvir mais nada. Não estamos verdadeiramente presentes – somos nós e a máquina, só nós e a máquina.

Outras indústrias têm visto e aprendido, adaptando técnicas de psicologia comportamental para os seus próprios fins. A publicidade é um exemplo.

Tive de aprender a colocar-me em primeiro lugar.” É uma simples frase, apenas oito palavras. Mas não a consigo tirar da cabeça, porque levanta uma simples questão. Afinal de contas quem é que é verdadeiramente livre? Os combatentes nos escombros da Ucrânia, ou nós?


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 17 de Março de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 16 March 2022

Vendendo o Homicídio

Francis X. Maier

O que vou fazer aqui é publicidade pura, mas o produto merece. Se ainda não viu a curta-metragem “Perdoai as Nossas Ofensas”, na Netflix, que saiu no dia 17 de Fevereiro, arranje maneira de o fazer rapidamente. O filme tem pouco mais de 14 minutos e quase que parece um trailer para uma longa metragem. Nem se trata de uma obra de genialidade cinematográfica. O guião, a realização e a produção são muito simples, quase primitivos. E, contudo, como escreveu um crítico, está cheio de “notas de tensão, acção dramática e descompressão que normalmente esperaríamos num filme de visão mais alargada”. Enquanto “grande filmografia em pequena escala” é um sucesso. É por isso que é memorável.

Dezenas de filmes têm sido feitos sobre a tragédia do Holocausto ao longo dos últimos 70 anos. Mas poucos examinaram o programa que antecedeu a Solução Final e permitiu aperfeiçoar as suas técnicas. Entre 1939 e 2945, a campanha Aktion T4, do Terceiro Reich, assassinou 300 mil pessoas com deficiências físicas e mentais através da eutanásia involuntária. Através da propaganda oficial do Estado, as matanças eram vendidas como um acto de compaixão pelas vítimas, de necessidade económica para a nação e geneticamente benéfico para o povo alemão.

“Perdoai as Nossas Ofensas” conta uma história muito diferente: a história de uma mãe que sacrifica a sua vida para ajudar o seu filho deficiente a fugir a uma campanha de desumanidade clinicamente organizada.

Como é que a nação supostamente mais avançada da Europa, do ponto de vista cultural, embarcou numa tarefa destas? É tentador explicar o programa Aktion T4 como sendo o fruto da ideologia Nazi. Mas isso seria incompleto. Grande parte do corpo médico alemão tinha “seguido a ciência” e aceitado como benéfica a esterilização forçada e a eutanásia voluntária, e não só, antes de Adolf Hitler chegar ao poder. Foram médicos e cientistas, e não os capangas do Partido Nazi, que abraçaram a ideia em primeiro lugar. O Reich simplesmente tirou proveito do seu apoio implícito e, por vezes, entusiástico. Pessoal médico falsificou milhares de certidões de óbito para disfarçar os homicídios da Aktion T4. E muitos desses mesmos médicos escaparam à justiça depois da guerra.

De início as matanças envolveram injecções letais individuais. Mas isso demonstrou ser uma solução morosa e muito desproporcional à dimensão do “problema” da deficiência. O programa evoluiu até chegar a um veículo selado que podia matar dezenas de deficientes e indesejados ao mesmo tempo, através do bombeamento de monóxido de carbono. Em locais como o asilo psiquiátrico de Hadamar, as vítimas – frequentemente descritas como “cascas humanas” – eram gaseadas em massa numa cava disfarçada de balneário.

Na sua história brilhante, emocionante e profundamente perturbadora da Aktion T4, “Death and Deliverance”, o historiador britânico Michael Burleigh escreve que os deficientes eram despidos, pesados e examinados por um médico que escolhia uma “causa de morte” fictícia de uma lista de 61 factores. Depois

os doentes desciam uma dezena de degraus, em grupos de 60 de cada vez, e eram fechados na câmara de gás. Um médico posicionado na parte de fora ligava a válvula e o gás entrava por um cano. Longe de ser uma “morte tranquila” as vítimas experimentavam terror extremo, bem como todos os sintomas de envenenamento por dióxido de carbono. Depois de uma hora, restava o silêncio.  

Entrava então uma equipa de “desinfectadores” para desembaraçar os cadáveres. “Aqueles que tinham sido marcados de antemão como sendo de especial interesse científico”, nota Burleigh, “eram separados e levados para uma sala de autópsia ali perto. Os seus cérebros eram depois enviados para clínicas universitárias em Frankfurt e Würzburg”. Depois de se retirarem os dentes de ouro dos mortos, os seus corpos eram incinerados num crematório. As cinzas eram espalhadas e os ossos esmagados numa prensa.

O Holocausto veio apenas aplicar este procedimento numa escala muito maior, com três inovações: balneários maiores, fornos maiores e gás Zyklon B.

Sondagens secretas feitas na altura pelo Reich revelaram que o povo alemão estava muito dividido e inquieto sobre o assunto. Quanto mais religiosa fosse a pessoa, o mais provável que se opusesse ao Aktion T4. Mas muitos cidadãos comuns apoiavam a campanha de eutanásia, desde que fosse apresentada como “voluntária” por parte das vítimas adultas, ou pelos pais, no caso de crianças.


A propaganda do Reich teve muito cuidado em suavizar a percepção pública da campanha, apresentando o programa de eutanásia da melhor forma possível. Isto incluía a produção de melodramas de qualidade como o “Eu Acuso”, um filme de resto desprovido dos toques nazis normais.

A história de “Eu Acuso” envolve um casal atraente e fiel. A mulher, que sofre de uma doença terminal, suplica ao seu marido para pôr fim ao seu sofrimento. Movido por amor e pelos seus apelos insistentes, ele mata-a e é imediatamente levado a tribunal como homicida. Mas sem qualquer arrependimento, o marido deslumbra o tribunal com palavras que vos poderão soar familiares.

Aqui estou eu, o acusado, e agora sou eu que acuso. Acuso os defensores de crenças passadas e leis antiquadas. Isto não diz respeito só a mim, mas a centenas de milhares de outros que sofrem sem esperança, cujas vidas prolongamos de forma antinatural, e cujo sofrimento aumentamos na mesma medida… E é sobre os milhões de pessoas saudáveis, que não podem ser protegidas contra doença, porque todos os recursos necessários estão a ser usados para manter vivos seres cuja morte seria para eles um alívio e para o resto da humanidade a libertação de um jugo… E agora, senhores juízes e jurados, façam favor de ler a vossa sentença!

Muitos clérigos católicos e luteranos resistiram ao programa de eutanásia como puderam. O mais vocal de entre eles foi o Beato Clemens August Graf von Galen, bispo de Münster. Mas muitos outros mantiveram-se em silêncio. Tipicamente as instituições de deficientes, que frequentemente eram de natureza religiosa, cediam à pressão do regime e entregavam os seus residentes para “tratamento”.

E de que serve recordar tudo isto? Aqui e hoje tal coisa não seria possível. Suicídio medicamente assistido? Milhões de abortos? Venda de restos mortais de fetos? Experiências com tecido fetal? Funcionários públicos católicos que ignoram ou permitem tais coisas? Aqui não seria possível!

Ou então, talvez tenhamos as nossas próprias ofensas que precisam de ser perdoadas.

Para mais informação sobre este assunto aconselho a ver o premiado (e angustiante) documentário Selling Muder: The Killing Films of the Third Reich, também escrito por Michael Burleigh e disponível no YouTube.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 5 de Março de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

Wednesday, 16 February 2022

Pro Deo et Patria

Francis X. Maier
Para muitas famílias, os ventos de guerra que nos chegam da Ucrânia nestes dias trazem memórias comoventes.

Bill Degnan nasceu no final da Primeira Guerra Mundial, o mais velho de dez irmãos numa família de católicos irlandeses. O seu pai trabalhou nos andaimes de Nova Iorque. Os Degnan viviam pouco acima da linha da pobreza. Winnie, o irmão mais novo do Bill, morreu de difteria na infância. Mas o Bill e o seu outro irmão Joe chegaram a adultos. Depois do ataque ao Pearl Harbour alistaram-se os dois na tropa. Nem hesitaram. Estavam ansiosos para ir. Era a coisa certa a fazer. O Joe serviu como radialista da Marinha num submarino no Pacífico. O Bill entrou para o exército como tripulante de um caça-tanques e esteve envolvido em combates na Europa. Ambos sobreviveram à guerra.

Eram meus tios. Conheci-os quando era criança. Eram bons homens, muito católicos, e eu adorava-os. Cresci à sua sombra, com uma dieta regular de filmes de heróis feitos na ressaca da vitória na guerra. Claridade moral, sacrifício pessoal e um sentido de propósito atravessam uma geração de filmes de combate. Neles eu via o reflexo de homens como o Bill e o Joe.

O cinema de guerra tornou-se mais escuro com a Coreia e o Vietname. No seu cinismo, os filmes tornaram-se uma espécie de imagem invertida dos melodramas que vieram substituir. Foi só com o brilhante “O Resgate do Soldado Ryan” (1998), seguido da soberba minissérie “Band of Brothers” (2001), que o cinema arranjou forma de combinar a necessidade moral de uma guerra justa com o seu terrível custo em termos de sofrimento e violência. O patriotismo, bem entendido, é uma virtude. Mas pode ser acompanhado de uma factura muito alta e muito feia. 

Mais recentemente a HBO produciu “O Pacífico” (2010), uma minissérie que segue os fuzileiros que combateram nas selvas e através das ilhas do Pacífico. É inesquecível. Eu vi tanto o filme de Spielberg como as séries da HBO várias vezes. A guerra na Europa foi terrível e devastadora, mas travou-se nas ruínas de uma cultura ocidental comum. A guerra no Pacífico teve uma ferocidade incessante mais profunda e pura, livre de qualquer sistema de ética ou religião comuns e frequentemente agravada por ódio racial de ambos os lados. A Convenção de Genebra e as suas “regras de combate” foram largamente ignoradas. O resultado disto é que a violência representada em “O Pacífico” é de um realismo que tem tanto de historicamente correcto como de horrendo.

Onde é que eu estou a chegar com isto?

Horácio, o poeta romano, escreveu a famosa frase “Dulce et decorum est pro patria mori” no primeiro século antes de Cristo – uma fase tardia da República Romana, repleta de um intenso orgulho nacional, ambição e expansão territorial. Dois mil anos mais tarde essas mesmas palavras estão gravadas em pedra noutra república – a americana – por cima da entrada do Anfiteatro Memorial do Cemitério Nacional de Arlington, em Washington. A tradução é “É doce e adequado morrer pela pátria” ou, mais precisamente, “pela terra dos seus pais”.

As palavras do poeta perduraram pelos séculos porque, na sua melancólica nobreza, são verdadeiras. Defender as pessoas que amamos, e a nação que é a nossa casa, é uma coisa boa. É uma coisa boa arriscar o conforto e a liberdade e, em última instância, quando assim for necessário, a vida, para proteger os outros e resistir ao mal.

Batalha das Ardenas

É verdade que o patriotismo pode transformar-se de forma tóxica. A nação pode tornar-se uma espécie de ídolo. Como disse Chesterton, a expressão “o meu país, bem ou mal” faz tanto sentido como dizer “a minha mãe, bêbada ou sóbria”. Existem limites morais para a lealdade. Mas os seres humanos são criaturas de lugares e das relações que neles brotam raízes e dão fruto. Essa “pertença” a algo maior do que nós mesmos – o lugar e o povo que nos deram vida, que nos formaram e sustentam – é o que queremos dizer quando falamos em casa, e é por isso que os melhores ideais de uma “pátria” podem, de facto, exigir o nosso serviço.

Os católicos americanos sempre compreenderam isto. Tipicamente, os católicos encheram as fileiras das academias militares de forma desproporcional. O mesmo padrão pode ver-se (como bem notou o académico protestante Stanley Hauerwas) nas agências nacionais de segurança e de informação. A mais alta condecoração militar dos Estados Unidos, a Medalha de Honra, foi entregue a nove capelães ao longo da nossa história. Cinco deles eram padres católicos.

O amor pela pátria levou o Bill e o Joe Degnan a alistarem-se. No final da guerra o Joe regressou do Pacífico, criou uma família e teve uma carreira de sucesso na General Motors. A experiência do Bill foi diferente. Num combate de proximidade, nas Ardenas, o seu veículo antitanque foi atingido directamente. O combustível e as munições detonaram, incinerando a tripulação – todos menos o Bill, que foi lançado 10 metros pela explosão e ficou gravemente ferido.

Com o passar do tempo o Bill recuperou, pelo menos fisicamente. Regressado a casa, casou-se com uma boa mulher e tiveram uma filha linda, a minha prima Mary. O Bill era um bom trabalhador, mas tinha dificuldade em manter um emprego. Tudo lhe corria bem durante alguns anos, mas depois desaparecia para os hospitais de veteranos para aconselhamento e terapia de choque. Acabava sempre por regressar à família, bem e em paz. É assim que eu me lembro dele. Mas não durava. Nunca conseguiu esquecer a explosão, os gritos ou o cheiro. Quando a Mary morreu, ainda adolescente, num acidente de viação, ele nunca mais foi o mesmo.

O Bill Degnan era um bom cristão. Um marido fiel, um pai devoto, de comunhão diária. E depois chegou o dia em que desistiu. Entrou na garagem, fixou uma corda a uma trave e enforcou-se.

Há mais de cinquenta anos que rezo pelo Bill todos os dias. Não me preocupo muito com a sua alma, Deus é demasiado rico em misericórdia para esquecer um homem quebrado por um sofrimento que não criou, nem merecia. Antes de entrarmos numa guerra – qualquer guerra, mesmo uma “boa” guerra – precisamos de pensar muito seriamente sobre o verdadeiro custo humano. E eu não consigo deixar de pensar se o Bill terá combatido e sofrido por uma nação e um povo… que já não somos.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 14 de Fevereiro de 2022)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 5 January 2022

Para 2022 temos Boas e Más Notícias

Francis X. Meier

De vez em quando um jovem pergunta-me se deve tornar-se um escritor católico, e como. Dou sempre a mesma resposta. Temos boas e más notícias. Agora que estamos no início de 2022, vale a pena olhar para os desafios particulares que todos enfrentamos nestes dias. Sendo de ascendência irlandesa-alemã, e melancólico por natureza, vou começar pelas más notícias:

1. O público católico está a diminuir. Isto tem impacto sobre os recursos materiais.

2. Muitos dos que permanecem estão a ficar mais velhos, ou então não estão bem-formados em termos da imaginação sacramental e substância intelectual da Igreja.

3. Os media generalistas são hostis; não se limitam a formar os nossos pensamentos, mudam também a forma como pensamos.

4. O Governo é cada vez menos nosso amigo.

5. Os nossos sistemas económicos e políticos encorajam ao mesmo tempo a auto-absorção e a dependência; o resultado irónico é um sentido alargado de isolamento e impotência.

6. Salvo várias excepções, a liderança da Igreja é fraca. Há mais de 50 anos que os católicos americanos operam segundo premissas erradas. A assimilação levou à digestão pela cultura secular da vida autenticamente católica autêntica, que agora está a ser eliminada como desperdício num sistema orgânico. Não somos simplesmente pós-protestantes, mas pós-calvinistas. A América tem raízes calvinistas e, como argumenta o historiador Carlos Eire, de Yale, no seu livro “Reformations”, o calvinismo cauterizou a imaginação sobrenatural (eliminando o Purgatório, a comunhão dos santos, os sacramentos, as relíquias) e reorientou radicalmente a religião para as preocupações e resultados materiais deste mundo. Ao fazê-lo, abriu as portas para a secularização e a descrença.

7. O resultado de tudo o que escrevi acima é um ambiente de conflito e de declínio que conduz à acédia. Beleza, paz, esperança e alegria são factores frequentemente ausentes da Igreja e da sua vida religiosa – o que por sua vez faz a questão de Deus parecer esclerótica e irrelevante.

Passemos então às boas notícias:

1. Muitas das más notícias são, na verdade, boas notícias, na mesma medida em que um duche frio pode ser um remédio desagradável, mas eficiente, para curar uma bebedeira. A humilhação da experiência católica americana é boa porque os seus frutos têm sido insuficientes. A vida católica nos Estados Unidos produziu vários homens, mulheres e feitos excepcionais, incluindo alguns santos, mas também – pelo menos ao longo das últimas sete décadas – um bom número de fraudes, de amigos de Peniche e de cobardes.

2. Como gostava de dizer o guru da economia Peter Drucker, cada sucesso acarreta as sementes do falhanço, porque facilmente conduz ao excesso de confiança. Mas o inverso também é verdade. Cada falhanço carrega consigo as sementes do sucesso, desde que aprendamos as lições certas com o nosso falhanço. Uma das lições que devemos considerar é esta: Devemos amar as melhores virtudes do nosso país, mas no final de contas não é este o nosso lugar. O nosso lar e a nossa fidelidade pertencem a outrem.

Joseph Ratzinger


3. As nossas actuais circunstâncias não são surpreendentes, foram previstas com uma exactidão incrível por Joseph Ratzinger há mais de meio-século. A Igreja do futuro próximo será mais pequena. Mas será também mais vigorosa, pura, autêntica e preparada para voltar a crescer quando as falsas premissas da nossa cultura resultarem num fracasso. A fé é fértil, e por isso tem futuro. A descrença é um ventre estéril.

4. O conflito nem sempre é mau; às vezes é santo e bom. Produz clareza; a clareza revela a verdade; e a verdade torna-nos livres. Talvez não confortáveis, mas livres. Obriga-nos a escolher onde colocar a nossa lealdade e a enfrentar o que e quem somos verdadeiramente.

5. As Escrituras são para levar a sério: Onde abunda o mal, superabunda a graça e a bondade. Há milhares de pessoas boas a fazer coisas extraordinárias que são ignoradas pela cultura secular. Continua a existir um núcleo católico que está sedento de boa escrita, bom pensamento e encorajamento. É aqui que começa a renovação.

Quanto ao porquê e ao como de ser um autor católico… e na verdade para todos nós…

O porquê: Todos nós temos uma fome de compreender o verdadeiro significado das nossas vidas. A fé católica é verdadeira na sua explicação da realidade, e por isso satisfaz-nos a um nível visceral. A cultura liberal americana baseia-se na ficção de que a liberdade exige a rejeição de paradigmas morais e de verdades universais vinculativos. Mas a maioria das pessoas – e por boas razões – não consegue lidar com a tarefa impossível de criar e sustentar o seu próprio significado. Isto cria ansiedade. O que depois requer anestesia. O que por sua vez leva a uma cultura de dependência e escravidão. A fé católica é uma mensagem de libertação, esperança e significado; uma mensagem realística porque explica o pecado humano e fornece formas de redenção e de reconciliação.

O porquê: O cristianismo é relacional. Não é uma “ideologia”. A maioria das pessoas chega a Deus através da sua presença nas vidas de outras pessoas. É verdade que há quem chegue à Igreja através da conversão intelectual – como Edith Stein, por exemplo – mas a maioria tem um encontro com Deus, através do testemunho de outra pessoa, que muda a sua forma de ver o mundo. É por isso que as histórias são frequentemente mais poderosas que os argumentos. As pessoas adoram histórias; aprendemos ao mesmo tempo que somos informados e entretidos. E esta é a substância da boa escrita. Leiam o grande ensaio de Georges Bernanos “Sermão de um Agnóstico na Solenidade de Santa Teresa”, ou o excelente conto “Vislumbre de Explicação”, de Graham Greene.

Leiam. Leiam. Leiam com olhar crítico. Mas leiam tudo – católico ou não católico. Algumas das maiores influências no meu pensamento adulto não foram cristãs ou sequer religiosas, mas li-as de uma perspetiva católica aprendida de outros e depois refinada por mim. Leiam pelo estilo (Ernest Hemingway; Neil Postman; mesmo loucos como Terry Southern). Leiam pelo conteúdo (J.R.R. Tolkien, C.S. Lewis, Leszek Kolakowski, Christopher Lasch, Roger Scruton, Pierre Manent, George Parkin Grant). Comparem estilos e trunfos editoriais: NY Times vs. LA Times vs. Wall Street Journal.

Cultivem o vosso vocabulário, mas comprometam-se com a simplicidade. Sejam impiedosos na edição do vosso próprio material. Devem conhecer de cor e salteado o ensaio de George Orwell “Política e a Língua Inglesa”. E por uma questão de sanidade, afastem-se do Twitter. Pelo menos até aprenderem a pensar e expressarem-se como humanos adultos. O Twitter alimenta o conflito. Gera impudência e comentários estúpidos e venenosos. Já estamos saturados de ambos.

Por fim, e talvez mais difícil: tentem dar o benefício da dúvida aos outros. Critiquem assuntos e comportamentos, não pessoas. Por norma, a palavra falada pode ser ignorada ou esquecida.

A palavra escrita é eterna.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 1 de Janeiro de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 1 December 2021

Gratidão, Expectativa e Advento

Francis X. Maier

Este ano o Natal – aliás, peço desculpa, a época festiva – começou no início de Outubro. Foi nessa altura que vi o meu primeiro anúncio pré-Black Friday. Sim, parece um bocado prematuro, mas nunca é cedo para começar a comprar coisas. E numa economia em crise a satisfação dos nossos apetites, comprando mais do que quer que seja, é uma espécie de juramento da bandeira patriótico, real e muito prático. Falando por mim, gosto sempre de preparar estes festejos de Outono lendo dois dos meus textos festivos favoritos.

O primeiro é um clássico ensaio de Natal de Neio Postman, “A Parábola da Mancha no Colarinho”, sobre uma dona de casa despassarada que compra o detergente errado para as camisas brancas do marido. Podem ler aqui. Postman nota que “os anúncios de televisão são uma espécie de literatura religiosa. Comentá-los de forma séria é um exercício de hermenêutica, um ramo da teologia que se ocupa da interpretação e explicação das Escrituras”.

Os anúncios de televisão mais importantes, diz ele – e recordemos que o comércio de Natal tem um papel salvífico para muitas empresas – “assumem a forma de parábolas organizadas em torno de uma teologia coerente. Como todas as parábolas religiosas, propõem um conceito de pecado, apontam o caminho de redenção e uma visão do Céu. Também sugerem quais são as raízes do mal e quais as obrigações dos santos”.

Postman escreve:

Nas parábolas dos anúncios de televisão, a causa do mal é a Inocência Tecnológica, o desconhecimento dos detalhes dos sucessos benévolos do progresso industrial. Esse desconhecimento é a principal fonte da infelicidade, humilhação e discórdia na vida. E como se vê de forma poderosa na parábola da mancha, as consequências dessa inocência podem surgir a qualquer momento, sem aviso, e com toda a força da sua acção fulminante.

Acrescenta:

Não é fácil saber precisamente quando, como povo religioso, trocámos a nossa fé nas ideias tradicionais de Deus pela crença na força enobrecedora da Tecnologia, mas os anúncios de televisão constituem a maior fonte de literatura que possuímos sobre este nosso novo compromisso espiritual.

Tal como outros textos religiosos, “A Parábola da Mancha no Colarinho”, agora já com cerca de 40 anos, perdeu algum do seu contexto social. As críticas feministas e os especialistas em estudos do género podem ser particularmente hostis quanto a esta parábola. Contudo, ela contém um ensinamento-chave da ortodoxia americana moderna: desejar bugigangas é bom; comprar coisas é ainda melhor; e quanto mais quantidade e mais novas forem as coisas, melhor. Menos que isso é suspeito.

Claro que há outra forma de pensar sobre a temporada que começa este domingo, se bem que menos comercial, em tempos conhecido como “Advento”. Incrivelmente ainda há alguns seguidores de Jesus que usam esse termo.

O que me leva a Alfred Delp e o Advento do Coração, o segundo texto que leio sempre nesta altura do ano, e que é muito mais emocionante.

Os americanos nunca viveram uma ditadura política. A última guerra travada no nosso solo acabou há mais de 150 anos. Logo, para muitos de nós é difícil imaginar a vida nos regimes totalitários do século passado. Mas esses regimes, e toda a selvajaria catastrófica que soltaram, foram muito reais, tal como documentado por testemunhas desde Elie Wiesel a Alexander Solzhenitsyn. O Terceiro Reich assassinou milhões de vítimas inocentes, incluindo milhares de mártires cristãos. Alguns, como Dietrich Bonhoeffer, o pastor luterano e teólogo, são bem conhecidos. Alfred Delp, o padre jesuíta alemão, estão entre os mais significativos.

Alfred Delp S.J.

O Advento do Coração é uma coleção dos textos de Delp sobre o Advento escritos entre 1933, o ano em que os Nazis tomaram o poder na Alemanha, e Dezembro de 1944, semanas antes de morrer. Os textos fazem parte de um diário da fé de Delp e revelam uma alma que, mesmo debaixo de opressão brutal, está recheado de uma claridade, caridade, coragem e beleza penetrantes. No seu ensaio “O Advento Eterno”, escrito em 1933 e dirigido aos jovens, Delp escreve:

Como devemos celebrar a festa

Para a qual nos apressamos?

Que aprendamos a celebrá-la

Livres da avalanche de ninharias

Com as quais, tão facilmente, se submerge

O grande sentido deste dia santo

Que possamos encarar de frente

A grande, santa realidade do Natal.

No Advento do Coração encontram-se ainda as notas de Delp sobre o Advento de 1935, bem como as homilias e meditações sobre o Advento dos anos entre 1941 e 1944 e ainda as meditações da prisão de Tegel, das últimas semanas da sua vida. Quando a guerra começou a virar-se contra a Alemanha, aumentaram os bombardeamentos aliados e a repressão Nazi contra a dissidência subiu de tom. Delp continuou a enfatizar três temas do Advento: gratidão pelo dom da vida; esperança e alegria na expectativa do Natal; e confiança inabalável na Segunda Vinda de Cristo, o seu triunfo e a sua justiça.

Em 1942-1943, com o apoio do seu superior jesuíta, Delp juntou-se ao Círculo Kreisau, um grupo de resistência cristã preocupado com a reconstrução de uma Alemanha desnazificada depois da guerra. Juntamente com muitos outros, foi detido em Julho de 1944 depois de uma tentativa falhada para matar Hitler, apesar de não ter tido qualquer envolvimento. Foi interrogado e torturado durante seis meses. Algumas das suas meditações de Advento foram escritas em algemas e contrabandeadas para fora da prisão no meio da roupa suja. Em Janeiro de 1945 foi condenado por traição e sentenciado à morte pelo juiz homicida Roland Freisler, que presidia ao Tribunal Popular do Terceiro Reich. No dia 2 de Fevereiro de 1945 foi enforcado. Menos de 24 horas mais tarde, num pormenor de justiça divina, Roland Freisler morreu, atingido diretamente por uma bomba americana.

Entre as palavras de Delp que nos chegaram encontram-se estas:

Jamais experimentaremos o nosso desejo primordial e saudoso por Deus de forma mais activa e desperta que nesta época… O Advento é o tempo do que busca Deus. O desejo original contido em cada coração humano é um grande impulso em direcção ao Deus distante e escondido, um anseio para caminhar naquela longínqua e esquecida pátria da alma. Esse anseio é o que a Igreja exprime, tanto na sua atitude interior como na liturgia desta época.

Alfred Delp morreu a acreditar nessas palavras. Podemos pelo menos tentar vivê-las neste advento e, ao fazê-lo, entrar no verdadeiro coração do Natal.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na sexta-feira, 26 de Novembro de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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