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Wednesday, 17 January 2024

Três previsões esperançosas para o Ano Novo

Stephen P. White
O começo de um novo ano é sempre tempo de olhar para trás sobre a mais recente volta dada ao sol, fazendo contas ao que se passou, tanto de bom como de mau, e de fazer resoluções sobre aquilo que pode ser feito melhor, ou pelo menos diferente, durante a volta seguinte.

Na minha experiência, a frescura do novo ano tende a encher-nos de optimismo. Mas também na minha experiência, esse optimismo raramente perdura para além de Quarta-feira de Cinzas. O optimismo do início de Janeiro raramente chega sequer intacto a Fevereiro. Pelo início da Quaresma eu já estou pronto para penitência.

Dito isto, Janeiro também é um bom mês para prognósticos. Agora é tão boa altura como qualquer outra para antecipar o que nos trará 2024 – tanto de bom como de mau – para que possamos estar o mais preparados possível para o que vier. E para que em Janeiro do ano que vem possamos olhar para trás para as nossas previsões e rirmo-nos por termos sido exageradamente esperançosos ou desnecessariamente preocupados com todas as coisas erradas.

É por isso num espírito de autocrítica preventiva que submeto as seguintes três previsões para este ano de Nosso Senhor de 2024.

Primeiro, como devem saber, aqui nos Estados Unidos estamos novamente em ano de eleições. As eleições nacionais nos Estados Unidos, sobretudo as presidenciais, tornaram-se exercícios de medo e ódio em massa. Medo, na medida em que este mais recente episódio de “a eleição mais importante de sempre”, levou ambos os lados a convencerem-se de que a fasquia nunca esteve tão alta, e que a situação nunca foi tão desesperada. Ódio, no sentido em que toda a gente, em ambos os partidos, parece desgostar do seu próprio lado só um bocadinho menos do que odeiam os bárbaros do outro lado da coxia. 

Pelo menos às vezes parece tratar-se de “todos”. Eu não gosto de desdramatizar a importância da política, até quando, ou talvez especialmente quando, a nossa cena política parece estar tão fracturada. Nem faz o meu género menosprezar a gravidade dos desafios que enfrentamos, que há muito deixaram de ter a ver com como atingir os nossos objectivos comuns, transformando-se em profundos desentendimentos sobre a própria natureza e propósito do ser humano, e por isso da própria sociedade.

A história, como nos recordou João Paulo II, tem-nos demonstrado que até as democracias se podem transformar em totalitarismos mais ou menos disfarçados, se não tiverem as fundações morais e filosóficas adequadas. É possível insistir tanto que a ameaça é real, e até que o processo já está avançado, e ao mesmo tempo que estamos muito longe de chegar ao ponto crítico de não regresso. As “teorias do declínio” não são muito úteis enquanto “teorias de bater no fundo”, salvo em restrospectiva.

Bom, passando à minha previsão: 2024 vai ser um ano duro em termos políticos, mas os piores medos tanto da direita como da esquerda não serão realizados no dia da tomada de posse, em 2024, e a pessoa que fizer o juramento enquanto Presidente dos Estados Unidos será a mais velha de sempre a fazê-lo.

Falando de eleições, esta será a primeira presidencial desde a decisão de anular Roe v. Wade. Por esta altura já todos devem ter percebido que as discussões políticas sobre o aborto não vão desaparecer tão depressa. Mas o lugar do aborto na política americana transformou-se desde a decisão de Dobbs. Há, e continuará a haver, menos enfoque no processo político de conseguir a combinação certa de juízes no Supremo Tribunal, e muito mais nas leis estaduais.

Aquilo que quero sublinhar aqui é a forma como os bispos católicos, tanto individual como colectivamente, se relacionam com a política de um mundo pós-Roe. O aborto continua a ser uma das grandes preocupações dos bispos. Aliás, os bispos reafirmaram recentemente a sua posição, sem as polémicas de anos recentes, de que a ameaça do aborto continua a ser a sua “prioridade preeminente”. Durante quase meio século isso significava, em primeiro lugar, reverter Roe.

A verdade é que, embora nenhum dos bispos deseje o seu regresso, Roe v. Wade desempenhava um papel galvanizante, tanto eclesiástica como politicamente. A sua anulação era um objectivo claro, alcançável e justo. Sem ele, a ameaça do aborto não deixou de ser grave ou urgente, mas enquanto questão política para católicos, assumiu um carácter mais difuso.

Neste próximo ano teremos um primeiro vislumbre do novo “status quo” do envolvimento episcopal na política presidencial. Os católicos estarão de olho nos seus bispos, e os bispos estarão de olho uns nos outros. A isto vem somar-se a antipatia geral que a maioria dos bispos sentem tanto para com o actual Presidente, como para com o mais que provável candidato republicano, Donald Trump. Prevejo, por isso, um ano de envolvimento político bastante reservado para os nossos bispos.

A minha terceira previsão: O Congresso Eucarístico Nacional poderá ser a última, e melhor, esperança para a sinodalidade ganhar alguma aderência nos Estados Unidos. O Sínodo sobre a Sinodalidade, de Outubro, não incendiou propriamente muitos corações. Uma recente missiva da Conferência Episcopal a pedir mais uma ronda de sessões de escuta sinodais não foi recebida propriamente com grande entusiasmo. As polémicas sobre a Fiducia Supplicans também não fizeram grandes favores ao sínodo, parecendo até contradizer a visão de sinodalidade que o Papa Francisco tanto tem proposto.

Então como é que um encontro de 70 mil católicos em Indianápolis pode revigorar a sinodalidade? Juntando dezenas e dezenas de milhares de católicos de toda a nação para escutar a palavra de Deus e adorar o Senhor. Na medida em que o Congresso conseguir criar um sentido de fraternidade e comunhão, criando um sentido vital de participação na vida da Igreja, e plantar nos seus participantes a semente do zelo missionário, o Congresso Eucarístico terá feito avançar a missão da Igreja na América de uma forma que nenhum encontro sinodal em Roma alguma vez poderia fazer. Isso seria uma enorme vitória para a Igreja nos Estados Unidos e para a sinodalidade. Acredito que Roma concordaria.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing no Domingo, 11 de Janeiro de 2024)

© 2024 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Wednesday, 6 December 2023

Esperança numa nova geração de padres

No passado mês de Outubro o The Catholic Project, que eu dirijo na Universidade Católica da América, publicou os primeiros resultados da maior sondagem sobre padres católicos americanos em mais de 50 anos, o Estudo Nacional de Padres Católicos (ENPC). O primeiro relatório olhava para várias questões, incluindo se os padres estão ou não a ser bem-sucedidos (estão) e como é que a crise dos abusos, e a resposta da Igreja a essa crise, têm afectado os níveis de confiança entre padres e bispos (tem, sim, de forma negativa).

Em Novembro a nossa equipa publicou um segundo relatório, demonstrando algumas perspectivas adicionais da ENPC, olhando mais de perto para a polarização intergeracional entre o presbiterado.

Os padres mais velhos tendem a descrever-se mais como teologicamente “progressistas” e politicamente “liberais” enquanto os mais novos tendem a descrever-se como sendo teologicamente “ortodoxos” e politicamente “conservadores”.

O resultado em si não é especialmente surpreendente. Temos visto sinais a apontar nesta direcção há décadas, e estudos recentes sobre padres americanos têm demonstrado uma tendência conservadora semelhante entre jovens padres. É de notar que recentemente tanto o Papa Francisco como o Cardeal Christophe Pierre indicaram que Roma está inquieta com aquilo que considera ser uma tendência conservadora entre o clero americano mais novo.

Resumindo, o nosso estudo demonstra com provas concretas aquilo que já todos sabiam: os padres jovens americanos tendem a ser mais conservadores que os seus pares mais velhos. Mas há mais. Parece que a narrativa de que o presbiterado americano está a ser tomado de assalto por jovens conservadores não é tão simples como possa parecer à primeira vista.

Em primeiro lugar, mais do que um dilúvio triunfante de vocações conservadoras, o que os nossos dados demonstram é um colapso quase total de vocações sacerdotais entre homens que se consideram teologicamente progressistas ou politicamente liberais. Mais, esse colapso não é repentino ou recente, mas parece ser constante e contínuo, radicando nas coortes que foram ordenadas logo a seguir ao Concílio Vaticano II. Se eu fosse bispo, ou director vocacional, quereria muito poder compreender melhor este colapso.

Uma possível explicação pode ser encontrada numa homilia feita pelo já falecido Cardeal Francis George. Um quarto de século mais tarde, as suas palavras mantêm uma relevância surpreendente:

O Catolicismo Liberal é um projecto cansado. Essencialmente uma crítica, uma crítica até necessária em dada altura da nossa história, tornou-se agora parasítica de uma substância que já não existe. Revelou-se incapaz de passar a fé na sua integridade, e por isso desadequada para fomentar a entrega alegre que é pedida no casamento cristão, na vida consagrada e no sacerdócio ordenado. Já não vivifica.

Note-se que o Cardeal George disse “cansado” e não “morto”. Justamente, pode-se dizer que os anos recentes demonstraram que as notícias da morte do catolicismo liberal têm sido muito exageradas. Não obstante, se o cansaço do catolicismo liberal explica, pelo menos em parte, a quebra de vocações de certas alas na Igreja, o aviso que o Cardeal George faz sobre certo tipo de “Catolicismo conservador” é igualmente pertinente. “A resposta, porém, não se encontra num tupo de catolicismo conservador obcecado com práticas particulares e tão sectária na sua mundivisão que não pode servir de sinal de unidade para todos os povos em Cristo”.

Jesuítas americanos ordenados em 2023

Aqui, o nosso estudo revela um desvio significativo (e, penso eu, encorajador) da narrativa comum do colapso liberal e avanço conservador entre o clero. Enquanto que os padres mais novos têm muito mais tendência para se verem como politicamente conservadores do que os seus pares mais velhos, a coorte mais nova de padres americanos é também a que tem mais probabilidade de se descrever como politicamente moderada. Se a política fosse uma força motriz significativa por detrás das vocações sacerdotais “conservadoras”, então esperar-se-ia que os dados fossem bastante diferentes.

Junte-se a isto o facto de a coorte mais nova de padres ser também a mais diversa, étnica e racialmente, de todas as que sondámos e aquilo que emerge é um retrato de jovens padres americanos que contradiz muitos estereótipos persistentes. Os jovens padres americanos são mais teologicamente ortodoxos, politicamente moderados e etnicamente diversos do que qualquer coorte de padres desde antes do Concílio Vaticano II.

Se estivéssemos à procura de padres que pudessem evitar o “cansaço do catolicismo liberal” e ao mesmo tempo evitar formas de conservadorismo “obsessivo” e “sectário” – se estivéssemos com esperança de encontrar padres que fossem “sinal de unidade de todos os povos em Cristo” – então provavelmente procuraríamos uma geração de padres que, pelo menos no papel, fosse muito semelhante à geração de padres mais novos que temos hoje nos Estados Unidos.

Mas o sacerdócio, como todas as vocações, não se desenrola no papel. Tem de ser vivido por entre todas as armadilhas do mundo. Contudo, o Cardeal George também tinha algo a dizer sobre isso na sua homilia:

A resposta é, simplesmente, o Catolicismo, em toda a sua plenitude e profundidade, uma fé capaz de se distinguir de qualquer cultura e de se envolver com todas, transformando-as, uma fé alegre em todos os dons que Cristo nos quer dar e aberta a todo o mundo que ele morreu para salvar. A fé católica molda uma Igreja com muito espaço para diferentes abordagens pastorais, para discussão e debate, para iniciativas tão variadas como os povos que Deus ama. Mas, mais profundamente, uma Igreja capaz de distinguir entre aquilo que encaixa na tradição que a une a Cristo e o que é uma falsa partida ou uma tese distorcida, uma Igreja unida aqui e agora, porque é sempre una com a Igreja pelos séculos e com os santos no Céu.

O Cardeal Francis George viu claramente o que significa ser fiel, mas também unido em tempos de conflito e divisão. Os nossos jovens padres – bem como o resto de nós todos – devem ter em conta a sabedoria das suas palavras.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 30 de Novembro de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Wednesday, 3 May 2023

Conclusões do Relatório de Abusos em Maryland, EUA

Stephen P. White
Durante a Semana Santa a Procuradoria-Geral de Maryland, nos EUA, publicou um relatório de 456 páginas sobre a história de abuso sexual da Arquidiocese de Baltimore. O relatório inclui alegações contra cerca de 137 padres, cinco diáconos, quatro leigos e duas religiosas. Detalha abusos contra mais de 600 jovens.

O conteúdo do documento é simultaneamente horrível e vergonhosamente familiar para quem tem estado a seguir a crise de abusos na Igreja Católica. Não é só a questão dos abusos depravados, mas também as mentiras, a incapacidade de compreender a gravidade do mal, a deferência para com os abusadores, a indiferença para com as vítimas, as mudanças de paróquia de padres abusadores, o encobrimento.

Cada instância de abusos constitui um momento de grave trauma e dor na vida da vítima. Porém, por mais que nos esforcemos, ao ler um relatório destes os eventos terríveis começam a confundir-se. Se lermos um número suficiente deste tipo de documentos, começamos a ser imunes aos detalhes.

Mas há algumas coisas que ficam. Um dos detalhes mais preocupantes – se bem que menos gráficos – do relatório de Maryland é que 11 dos 137 padres nomeados no documento serviram na mesma paróquia entre 1964 e 2004. Contudo, a maioria das histórias, tanto de abuso como de falha no tratamento dos casos, são pateticamente previsíveis.

Mas ao ler este relatório houve outra coisa que sobressaiu. A Procuradoria-Geral de Maryland acaba de passar cinco anos a investigar a Arquidiocese de Baltimore, procurando qualquer prova de abuso sexual de crianças. Intimou centenas de milhares de páginas de documentação da Arquidiocese, conduziu centenas e centenas de entrevistas. E o que é que se conclui no final de tudo?

Resumindo, o relatório é confirmação independente de que a Igreja Católica, pelo menos na Arquidiocese de Baltimore, tem sido muito bem-sucedida em prevenir abusos, lidar com alegações quando estas surgem, e demonstrar transparência na condução desses casos. Levou demasiado tempo, e a um custo demasiado alto, especialmente para as vítimas, mas também para os fiéis – cuja confiança nos seus líderes sofreu uma erosão dramática.

Ainda assim, a tendência de melhoria é inconfundível. Como sabemos através de estudos nacionais, os incidentes de abuso sexual clerical na Igreja Católica neste país tiveram o seu ápice nos anos entre 1960 e 1980, depois caíram a pique.

Os casos sublinhados neste relatório revelam a mesma tendência. Têm sobretudo, mas não exclusivamente, mais de 25 anos – ou seja, antes da passagem do milénio. Em média, a data de ordenação dos padres nomeados neste relatório é 1960. Nenhum dos padres acusados foi ordenado depois de 1989. Dos abusadores nomeados, 103 já morreram. Dos 137 padres nomeados no relatório, 53 eram membros de ordens religiosas. (o relatório nomeia ainda cinco diáconos, quatro leigos e duas religiosas). Dos padres de Baltimore nomeados, apenas três nasceram em 1950 ou mais tarde, e todos esses já estavam referidos publicamente pela Arquidiocese como credivelmente acusados desde 2002.

Nos anos 90 a forma como se lidava com casos de abusos já tinha melhorado, mas faltava ainda a claridade e a firmeza de decisão que veio com a Carta de Dallas, em 2002. Sempre que são referidos no relatório, tanto o actual Arcebispo de Baltimore, o Arcebispo William Lori como o seu antecessor, Cardeal Edwin O’Brien, tomaram as medidas apropriadas para tratar das alegações. Por vezes até foram para além do expectável para garantir que os padres fossem afastados do ministério, ou que Roma tomasse as medidas necessárias.

A forma como a arquidiocese lidou com casos nos piores anos foi claramente inaceitável, ainda que fosse típico da época. E era bastante típico para a época. O relatório em si confirma-o quando elenca a história dos estatutos criminais relativos ao abuso sexual de menores por parte de Maryland.

Arcebispo William Lori, de Baltimore
“Foi só em 1963 que Maryland aprovou a primeira lei que criminaliza o abuso infantil”, diz o relatório. Só em 1974 é que o estatuto de abuso infantil de Maryland “deixou claro, finalmente, que incluía abusos sexuais”. As leis sobre abuso sexual de crianças e abuso físico só foram separados em 2003.

Claro que a medida para avaliar a forma como a Igreja lidou com casos de abusos não é o Estado, mas sim a lei da Igreja e, no final de contas, o Evangelho. Mas vale a pena sublinhar um ponto: não é apenas a Igreja Católica que tem evoluído e adaptado ao longo dos anos na compreensão do abuso sexual de crianças. 

Há duas semanas o governador de Maryland assinou uma lei a revogar permanentemente o prazo de prescrição para processos civis de abuso sexual infantil. Esta foi a principal recomendação, e o principal objectivo, do relatório da procuradoria. Esta mudança tem efeitos retroactivos. Para além disso, a nova lei coloca limites às indemnizações nestes casos, mas esses limites são quase o dobro para instituições privadas – como é o caso da Igreja – do que para as instituições públicas (como escolas).

Se a lei se mantiver – a sua constitucionalidade está a ser contestada – a Arquidiocese será sujeitada a uma torrente de processos. A Conferência Católica de Maryland opôs-se ao levantamento retroactivo dos prazos de prescrição, embora tanha defendido a sua eliminação daqui em diante.

Devia ser claro que a Igreja ainda tem muito que pagar pelos pecados e os crimes do passado. A vergonha e a verdade aqui é que o fardo desses pecados e crimes tem sido carregado pelos inocentes: as vítimas, em primeiro lugar, mas também de forma real, a totalidade dos fiéis.

Não há nada para celebrar no relatório de Maryland, o seu conteúdo é demasiado doloroso e vergonhoso para isso. Mas há décadas que a Igreja se tem esforçado para recuperar a confiança, insistindo que no meio da podridão já tem feito progressos assinaláveis, bem como reformas duradouras e eficientes a favor da transparência e da responsabilidade.

O procurador-geral de Maryland acaba de passar cinco anos a provar que, pelo menos na diocese mais antiga da nação, a Igreja Católica está a dizer a verdade.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 20 de Abril de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Friday, 31 March 2023

Papa hospitalizado em Roma e Centro Ismaili atacado em Lisboa

O Papa Francisco está hospitalizado com uma infecção respiratória. Por mais alarmante que isto seja, convém lembrar que estamos a falar de um homem de 86 anos com um historial de problemas respiratórios, pelo que o seu internamento à mínima preocupação não é uma grande surpresa. Em todo o caso, é sempre uma boa oportunidade para os católicos rezarem pelo seu Papa. Para quem tiver interesse, estive ontem no noticiário das 23h da SIC Notícias para participar numa conversa sobre o estado de saúde do Papa e as eventuais consequências imediatas e a médio prazo dos seus problemas de saúde. Não está online, tanto quanto vejo, mas podem recuar nas boxes para ver, se tiverem interesse. De resto, para um acompanhamento mais próximo sugiro, como sempre, a minha ex-colega e amiga Aura Miguel na Renascença.

Na terça-feira um homem atacou vários membros da comunidade ismaelita em Lisboa, matando duas mulheres e ferindo três pessoas. Chegou-se a pensar que era um atentado terrorista, motivado por extremismo religioso, mas essa possibilidade está definitivamente posta de parte, uma vez que o atacante era ele mesmo membro da comunidade. Eu ia dizer “chegou-se a temer” que era um atentado terrorista, mas a verdade é que, olhando para algumas das reacções de quem imediatamente partiu desse pressuposto parece que “temer” não é a palavra certa. Tristemente, parece haver mesmo quem anseie por um atentado que possa dar razão às suas profecias apocalípticas sobre as políticas migratórias e de admissão de refugiados. Sobre esta questão dos refugiados escrevi um texto já em 2015 que expressava a minha posição, e que mantenho.

Do Haiti chegam notícias preocupantes de mais raptos de sacerdotes. Nas últimas semanas foram dois.

Na Nigéria os cristãos ficaram preocupados quando o partido principal decidiu contrariar a convenção de apresentar uma candidatura com dois muçulmanos para os cargos de presidente e vice-presidente. Contudo, o candidato vencedor, Bola Ahmed Tinubu, sendo muçulmano, vem de uma zona marcada por diálogo e boas relações inter-religiosas e é casado com uma cristã praticante, o que dá aos bispos nigerianos alguma esperança para uma melhoria de relações entre as duas comunidades e o fim do que consideram ser discriminação.

Há notícias de um interessante milagre eucarístico nos EUA. Está a ser investigado. À primeira vista não parece ser uma coisa muito espectacular, mas neste artigo explico porque é que o aparente milagre de Thomaston pode ter um significado muito profundo para todos nós.  

Por falar em milagres, o padre Paul Scalia escreve esta semana para o The Catholic Thing sobre o milagre da ressurreição de Lázaro e como Jesus procura sempre expandir a fé de quem o segue.

Uma última nota. Na passada semana, já depois de ter enviado o mail, escrevi um texto em que falei do “caso” do Pe. Mário Rui, de Lisboa, que foi provisoriamente afastado do ministério por constar da lista da Comissão Independente. Em resultado desse artigo recebi, mais ou menos em igual medida, elogios e críticas. Mais do que uma pessoa, e algumas em público, acusaram-me de estar a partir de um ponto de presunção de culpa do Pe. Mário Rui. Isso é falso. Em lado nenhum no texto digo ou dou a entender isso. A presunção de inocência é uma conquista civilizacional que muito valorizo e pessoalmente ficarei muitíssimo satisfeito caso o Padre Mário Rui, ou qualquer outro na mesma situação, seja ilibado ou veja o processo arquivado e possa voltar ao ministério. Queria só deixar isso claro.

Thursday, 30 March 2023

Um milagre eucarístico nos EUA?

A arquidiocese de Hartford, nos EUA, está a investigar um possível milagre eucarístico que terá ocorrido na Igreja de St. Thomas, em Thomaston, no Connecticut.

Normalmente associamos milagres eucarísticos a hóstias que sangram, ou hóstias e vinho que se transformam materialmente em carne e sangue, e que ficam miracolosamente preservados, etc., e muitas vezes esses milagres ocorrem como resposta a uma profanação, mas este é de natureza diferente.

O padre Crowley estava a preparar a distribuição da Comunhão na missa das 10h. Ele não podia fazer a distribuição, pelo que percebi, porque tinha um dedo ligado, e por isso deu a uma ministra da comunhão um cibório com hóstias. Ela dirigiu-se a uma das zonas da igreja onde costuma haver mais gente para comungar e quando olhou para a quantidade de hóstias no cibório ficou preocupada porque pensou que não iriam chegar e que teria de ir pedir mais a outro ministro da comunhão. 

Contudo, quando olhou novamente para o cibório, já depois de ter distribuído muitas hóstias, apercebeu-se que ele estava aparentemente tão ou mais cheio do que inicialmente. À medida que continuava a distribuir, acontecia o mesmo. Quando terminou a distribuição, a bem mais de uma centena de pessoas, o cibório continha tantas ou mais hóstias do que no início. A questão não lhe passou despercebida e informou também o padre, que sabia mais ou menos quantas hóstias tinha o cibório e viu que em nenhuma altura ela foi pedir "reforços". O padre informou a congregação na missa e depois as autoridades diocesanas, que agora irão documentar e analisar o fenómeno. 

Aqui podem ouvir a homilia da semana seguinte, em que o Pe Crawley explica o que se passou.


Há uma série de pontos que me vêm logo à cabeça ao ouvir estas palavras. 

Em primeiro lugar, como não pensar imediatamente no milagre da multiplicação dos pães e dos peixes? Mas não é só isso. Eu sei e acredito que essa passagem do Evangelho tem várias camadas de significados, que o número de cinco pães e dois peixes, que somados dá sete, não é um acaso e tem um simbolismo, e admito até que possa haver fundamento na teoria de que se tratou também de uma partilha geral de alimentos. Agora, sempre me irritou a insistência por parte de alguns de que a multiplicação foi apenas simbólica, e que o verdadeiro milagre foi a partilha por parte de todos. Não é que a partilha não seja uma coisa boa, mas isto é normalmente dito dando a entender que Jesus não poderia ter multiplicado os pães porque isso é fisicamente impossível. Pois bem, a confirmar-se o que se diz ter passado em Thomaston, não é. 

A segunda coisa que me ocorre é que a Igreja Católica nos Estados Unidos está em plena campanha de renovação eucarística. Os bispos consideraram isto necessário depois de algumas sondagens mostrarem que a esmagadora maioria dos católicos nos EUA acreditam que a Eucaristia é apenas um símbolo da Última Ceia, e não o verdadeiro Corpo e Sangue de Cristo. Que este milagre - repito, a confirmar-se - tenha ocorrido nesta altura é, claro, muitíssimo significativo, e é algo que devemos agradecer a Deus. 

Terceiro, tocou-me o facto de o Pe Crawley estar aberto à ideia de que isto se calhar até acontece com mais frequência do que nós pensamos, só que desta vez foi notório e os envolvidos não podiam deixar de reparar. Talvez seja mesmo assim. Talvez não. Seja como for, faz-me pensar que nós não sabemos a quantidade de vezes que Deus intervém nas nossas vidas, através de gestos aparentemente pequenos mas que até podem afectar-nos muito. Andamos tantas vezes a pedinchar milagres, quem sabe a quantidade de milagres que já nos aconteceram sem darmos por isso?

Por fim, e como o Pe Crawley sublinha, isto até pode ter sido um milagre e se o foi, como diz de forma muito americana: "cool". Mas não nos esqueçamos que o verdadeiro milagre é o facto de Deus se deixar transformar todos os dias em alimento espiritual e físico para bem dos nossos corpos e das nossas almas. O verdadeiro milagre acontece na consagração, quer dêmos por isso ou não, e quando estamos a uma semana de Nosso Senhor nos ser retirado, no único dia do ano em que não há missa e em que os sacrários se esvaziam, fazemos bem em meditar sobre isso e dar muitas graças a Deus por esse tremendo dom. E isto é verdade, seja o milagre de Thomaston real ou não. 

Wednesday, 25 January 2023

Alhos, bugalhos e abusos

Em Agosto de 2018 o Procurador Geral da Pensilvânia, nos EUA, publicou um relatório sobre os abusos sexuais na Igreja na maior parte das dioceses daquele Estado. Não foi o primeiro relatório do género a ser publicado, e vários anos antes tinha sido publicado um relatório semelhante sobre a Arquidiocese de Philadelphia e a Diocese de Altoona-Johnstown, mas o relatório de 2018 foi divulgado apenas algumas semanas depois das revelações bombásticas sobre o ex-Cardeal Theodore McCarrick e o falhanço da Igreja em lidar com décadas de abusos por ele praticados.

Com detalhes de denuncias feitas por mais de 1.000 vítimas, sobre mais de 300 alegados abusadores em seis dioceses, o relatório da Pensilvânia lançou um camião cheio de combustível sobre um incêndio que já estava bem vivo. O resultado abalou a Igreja Católica nos Estados Unidos, provocando danos eclesiais e institucionais com as quais a Igreja terá de lidar, cá e a nível global, durante uma geração ou mais.

Alguns meses depois de ter saído este relatório, Peter Steinfels escreveu um artigo na revista Commonweal para colocar e responder a uma questão que a maioria das pessoas não estava sequer a contemplar. Os crimes descritos no relatório eram terríveis, os números assustadores. Mas a indignação gerada em 2018 tinha tanto a ver com encobrimento como com os crimes originais. Seria mesmo verdade, perguntou Steinfels, que enquanto “padres estavam a violar rapazes e raparigas, os homens de Deus responsáveis por eles não só não faziam nada, como escondiam tudo?”

A Igreja tinha mesmo passado décadas a investir a sua energia e esforços em esconder a verdade em vez de resolver o problema? A conclusão de Steinfels, cuidadosamente sustentada nas próprias conclusões do relatório, foi um claro “não”. Nas suas palavras:

No caso da Pensilvânia, quer se olhe para a forma como se lidaram com denúncias antigas ou para a prevenção de novos casos, a conclusão que surge de uma leitura cuidadosa e isenta do relatório é esta: A Carta de Dallas funcionou. Não funcionou na perfeição, e carece de melhorias regulares e constante atenção. Mas funcionou.

O fogo destrói, mas também pode purificar.

A crise de 2002 conduziu à Carta de Dallas, uma ferramenta imperfeita mas em larga medida eficiente que tornou as paróquias americanas muito mais seguras para crianças e permitiu responsabilizar centenas de abusadores. O novo escândalo de 2018 incentivou a Igreja – não só nos EUA, mas também em Roma – a fazer mudanças significativas na forma como lida com alegações de abusos, em particular as que dizem respeito a bispos e alto clero.

Ninguém deve supor que a conta – material e espiritual – da crise dos abusos já foi inteiramente paga. Nem de longe nem de perto. Nem devemos imaginar que o processo lento de purificação já terminou. Basta um olhar rápido pelas notícias (veja-se os recentes casos envolvendo o Pe Rupnik e D. Ximenes Belo) para se perceber que estamos ainda longe de onde gostaríamos de estar.

A forma como a Igreja lida com alegações de abusos sexuais clericais já progrediu muito, ainda que, duas décadas depois da Carta de Dallas, haja trabalho por fazer. Mas como podemos medir esse progresso? A Igreja está a progredir na protecção de menores em relação a quê? Melhorou muito na promoção da transparência em comparação com o quê?

Consideremos o seguinte.

No início deste ano o Gabinete do Inspector-Geral da Secretaria de Educação de Chicago publicou o seu próprio relatório, abrangendo o período entre 1 de Julho de 2021 e 30 de Junho de 2022. O relatório revela que houve mais de 600 denúncias de abusos praticados por adultos contra estudantes nas Escolas Públicas de Chicago só em 2021-2022. Destas, mais de metade foram consideradas fundamentadas e em 16 casos foram deduzidas acusações criminais.

Chicago é a terceira maior administração escolar dos Estados Unidos e é a única que tem uma unidade inteira de investigação dedicada a lidar com alegações de abusos sexuais nas escolas, uma iniciativa que começou em 2018. (Se é encorajador ou totalmente deprimente que exista sequer uma Unidade de Alegações Sexuais para escolas é uma questão de perspectiva.)

A comparação entre as dioceses católicas da Pensilvânia e as Escolas Públicas de Chicago não é propriamente uma questão de alhos e bugalhos, mas pode ajudar a compreender alguns dos avanços feitos pela Igreja neste país.

Ao longo do mesmo ano tratado pelo relatório da Inspecção-Geral de Chicago (2021) a Igreja Católica em todo o país recebeu 30 denúncias actuais de abusos envolvendo crianças, seis das quais foram consideradas credíveis. Das 3,103 denúncias históricas recebidas por dioceses católicas em 2021, apenas 38 diziam respeito a ofensas alegadamente cometidas depois do ano 2000. Nas escolas públicas de Chicago, repito, houve mais de 600 denúncias, das quais metade foram consideradas fundamentadas. Num só distrito escolar. Num só ano.

Para avaliar o progresso da Igreja em lidar com a crise de abusos é necessário fazer comparações razoáveis com outras instituições que também têm de lidar com a mesma praga de abusos. E isso significa ter expectativas razoáveis sobre a forma como medimos o progresso e o sucesso.

Se quer encontrar listas de professores ou pessoal educativo credivelmente acusados de abusos sexuais, procurará em vão. Não existem políticas de tolerância zero que permitam afastar funcionários escolares por denúncias que nunca são provados em tribunal. Também ninguém defende o casamento dos professores para travar a onda de abusos nas escolas, e o relatório da inspecção-geral de Chicago nunca refere a palavra “clericalismo”.

É claro que a Igreja tem outras responsabilidades morais, precisamente por ser aquilo que alega ser. A conduta dos padres e bispos católicos deve ser medido segundo a bitola do Evangelho, e não dos padrões impostos pela lei civil.

A Igreja não merece nenhum prémio por ser melhor a prevenir e a relatar o abuso sexual de crianças do que o sistema de escolas públicas. Mas deve ser vista – e ver-se – como um modelo para todos os que querem combater a epidemia de abusos sexuais, que afecta toda a sociedade.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2023)

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Wednesday, 18 January 2023

A Compostagem Humana Mete Nojo

David G. Bonagura

Sem grandes alaridos, no final de 2022 a governadora de Nova Iorque, Kathy Hochul, promulgou uma lei autorizando a “redução orgânica natural”, conhecida popularmente como “compostagem humana”. Nova Iorque junta-se assim a outros cinco dos estados mais progressistas do país que já legalizaram a prática. A compostagem humana consiste em aquecer e rodar regularmente um cadáver humano dentro de um contentor cheio de material orgânico. Depois de seis a oito semanas todo o corpo se transforma em solo. Os ossos são depois colocados num incinerador (o eufemismo usado é “cremulador”), e queimado para formar mais solo, que é acrescentado àquilo que era o resto do corpo e lançado a um jardim, floresta, ou outro paraíso hortícola.

É uma nova versão da profecia bíblica: “Lembra-te que és pó, e ao pó tornarás. E tornarás”.

Os argumentos a favor da compostagem humana, recentemente articulados no New York Times, são utilitários, emocionais e filosóficos. Custa menos do que um enterro tradicional e, embora seja mais cara do que a cremação, a incineração de ossos resultantes da compostagem é menos prejudicial para o ambiente. Satisfaz a ligação emocional à terra, que inclui tanto o desejo de regressar a ela como de entrar em comunhão com os outros mortos que ela agora contém. Por fim, representa um novo ritual de morte que tem significado para alguns pelo que, no espírito de relativismo moral, devemos respeitar as escolhas de cada um.

Esta lógica radica num dualismo filosófico que defende a separação radical entre a alma e o corpo. Segundo este princípio, o corpo é acidental, e não essencial, à existência humana. Logo, o corpo pode ser tratado como um mero instrumento: os seus processos naturais podem ser interrompidos, os seus membros saudáveis mutilados para ir ao encontro de uma ideia distorcida, ou pode ser descartado depois da morte, uma vez que a sua ligação à pessoa nunca teve real valor.

A compostagem humana corrói a dignidade da pessoa. Tenho uma compostagem no meu jardim, é para lá que mandamos o nosso lixo orgânico: cascas de banana, sacos de chá, borras de café, cascas de ovo, fruta incomestível e restos de legumes, abóboras podres, depois do Halloween.

O corpo humano não é um pedaço de lixo, é o modo essencial da nossa existência – somos almas incorporadas. A alma não tem qualquer vida, auto-compreensão ou experiências fora do corpo. A pessoa é mais do que o seu corpo, mas não pode viver nem ser conhecido sem ser no seu corpo.

Mesmo fora dos círculos cristãos as pessoas civilizadas acreditam que cada pessoa possui uma dignidade inerente que ninguém pode violar. Por causa da união essencial entre alma e corpo, respeitar essa dignidade implica respeitar também o corpo humano. Não podemos, por exemplo, causar danos físicos a alguém e dizer que estamos a respeitar a sua alma ao mesmo tempo. Por isso condenamos, e bem, o racismo e o sexismo, pois estes atacam a pessoa, devido a aparência do seu corpo. Ao menorizar o corpo, estes preconceitos desumanizam.

Ao reduzir o corpo humano a uma matéria informe, a compostagem humana também é uma forma de desumanização. Se os corpos são dignos de respeito em vida, também o são na morte. É por isso que ao longo de milénios tantas culturas, de tantas religiões diferentes, desenvolveram a prática de sepultar os seus mortos: faze-lo é um acto de homenagem a uma pessoa que em tempos foi filho, filha, irmão, irmã, esposo, pai, amigo ou vizinho de alguém – e deve ser homenageado como tal até na morte.

Contrariamente às aparências, a compostagem humana não acelera um processo natural. Sim, os corpos decompõem-se com o tempo, mas como se a própria natureza nos tivesse a dar uma lição de dignidade humana, aos ossos isso não acontece. Eles permanecem juntos, fixos na terra, como marcadores de um ser intacto, único, a recordação de uma pessoa que outrora viveu. Consideramos os cemitérios terra sagrada porque eles contêm algo especial. Permitimos aos mortos descansar em paz como testemunho ao facto de que eram pessoas que mereciam respeito em vida, e merecem ainda na morte.

Claro que do ponto de vista cristão o argumento para preservar o corpo na morte é ainda mais forte. No Natal celebramos o Deus que se fez homem, um evento que atribuiu à carne humana uma nobreza divina. O corpo humano é de tal forma abençoado por Deus, e de tal forma essencial à existência humana, que a morte traz apenas uma separação temporária da alma e do corpo. No final dos tempos Deus ressuscitará os nossos corpos decaídos da terra e transformá-los-á em corpos espirituais – tal como o de Cristo – com que serão reunidas as nossas almas. Proclamamos essa crença todos os domingos na recitação do Credo: “Espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir”.

Quando o Papa Francisco lamenta a nossa “cultura do descarte” contemporânea, que desrespeita os pobres e os marginalizados, implora-nos que recordemos que “Ninguém é descartável!”. A este uso figurativo do termo devemos acrescentar agora, infelizmente, o sentido literal: nenhum ser humano, em vida ou na morte, deve ser descartado como lixo para apodrecer num monte de compostagem.

Não há apelos ao consentimento ou amor pela terra que justifiquem tratar o corpo humano como lixo, transformando-o em terra para embelezar os nossos jardins. A edificação da terra não se pode fazer à custa da dignidade humana, que se decompõe ao mesmo ritmo que o corpo, caso aceitemos tolerar a compostagem como apenas mais uma “escolha de vida”.


David G. Bonagura, Jr. leciona no Seminário de São José, em Nova Iorque. É autor de Steadfast in Faith: Catholicism and the Challenges of Secularism, que será lançado no próximo inverno pela Cluny Media.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 11 de Janeiro de 2023 no The Catholic Thing)

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Wednesday, 7 September 2022

Aborto, Trabalho e Vida

John M. Grondelski
Numa altura em que os católicos nos EUA assinalam o Dia do Trabalhador [5 de Setembro], somos desafiados a pensar sobre dois aspectos fundamentais da Doutrina Social Católica: o direito à vida, o direito ao trabalho, e a intersecção dos dois.

Até agra o debate sobre o aborto tem sido sobretudo político, em termos da sua legalidade nas legislaturas e – ao longo de quase 50 anos – nos tribunais. Depois de Dobbs, porém, devemos esperar que parte do debate passe do campo político para o económico, com alguns defensores do aborto a recorrer a incentivos financeiros para tentar inclinar a mesa de jogo numa sociedade capitalista que, ocasionalmente, gosta de falar de “justiça social”.

Desde que a decisão do caso Dobbs reverteu o direito constitucional ao aborto temos visto grandes empresas a atropelarem-se para anunciar que terão todo o gosto em financiar os abortos dos seus funcionários, ao ponto de pagar viagens para estados que permitem matar os nascituros, caso o aborto seja ilegal nos estados em que se encontram. Várias grandes corporações pressionaram legislaturas estaduais para não contemplarem adoptar leis pro-vida. O Governador de Nova Jérsia, Phil Murphy, e o da Califórnia, Gavin Newsom, têm estado a promover os seus estados como destinos para empresas, não por causa da sua pesada carga fiscal, mas porque ambos codificaram o aborto a pedido, até ao nascimento.

Um argumento tradicional dos defensores do aborto é que é essencial que este seja legal, e a pedido, porque sem “controlo e cuidados de saúde reprodutiva” as mulheres encontram-se em inerente desvantagem económica. Claro que essa afirmação colide diretamente com o mito do aborto como um “cuidado de saúde”. Mas com a saúde a ser definida, cada vez mais, como algo tão vago e sujeito a manipulação como “saúde financeira”, os alegados “benefícios” do aborto podem ser racionalizados quase de qualquer maneira.

Claro que ninguém aponta um foco à verdade crua e obscenamente nua de que é substancialmente mais barato para uma empresa abortar bebés do que fornecer cuidados de saúde maternos e infantis, bem como suportar licenças de maternidade, de doença, de acompanhamento escolar, etc., bem como as mudanças de horário que se seguem ao parto.

As empresas que financiam abortos insistem, claro, que essas suas políticas se devem ao seu “compromisso para com o direito a escolher”, sem querer admitir que a sua própria saúde financeira vê com melhores olhos certas “escolhas” em detrimento de outras.

É de suspeitar que as mesmas empresas que estão a comprometer-se tão “generosamente” com a interrupção de gravidezes (isto é, a matança de bebés no útero) protestariam fortemente caso fossem chamadas a cobrir cuidados maternais com a mesma liberalidade, para criar um ambiente onde fosse possível fazer “escolhas” verdadeiramente livres.

Daí que seja fundamental que neste momento ambos os nossos principais partidos políticos sejam desafiados a criar políticas económicas verdadeiramente amigas das famílias e das crianças.

A justiça social não se alcança sem a protecção dos direitos individuais e sociais mais básicos, isto é, o direito à vida. Independentemente das diferentes filosofias políticas, quase todos os pensadores concordam que é um absoluto sine qua non que uma sociedade proteja os direitos mais básicos dos seus membros.

Esse primeiro princípio implica dois corolários: que a sociedade identifique quem são os seus membros (sem fingir um agnosticismo epistemológico sobre o estatuto dos nascituros ou outros em estado de dependência) e que compreenda que direitos é que são “básicos”. Mesmo um puro materialista como era Thomas Hobbes admite que não existe um direito mais básico sobre o qual tudo o resto assenta do que a existência. Pode-se até dizer, como os nossos bispos americanos fizeram, que este é preeminente.

Logo, os católicos devem tomar a dianteira nesta discussão sobre justiça social. Revertida a decisão de Roe v. Wade, já não existem obstáculos constitucionais à reformulação da discussão. Mas a narrativa alternativa precisa de ser articulada de novo numa sociedade que não a escuta claramente há cerca de 50 anos.

Esquecemo-nos de liberais como Mark Hatfield, William Proxmire e Harold Hughes, que eram pro-vida precisamente porque reconheciam, correctamente, que a vida intrauterina era uma questão de direitos civis, provavelmente a maior do nosso tempo. 

A reformulação deste debate implica perguntar porque é que o aborto é visto como factor essencial para a ascensão económica das mulheres. Será porque no mundo económico as mulheres não conseguiam avançar pelo facto de não serem homens? Isto é, porque engravidavam, porque tinham filhos e os queriam criar, e porque queriam carreiras que se adaptavam a essa realidade, em vez de esperar que essas realidades se adaptassem aos seus empregos?

Será que a actual “generosidade” das empresas, dispostas a pagar por abortos, é apenas a expressão de uma visão empresarial que entende as suas trabalhadoras como “machos malparidos?”

A década que se segue ao fim da escola, seja o ensino secundário ou superior, costuma ser marcado por um “deixar para trás as coisas de criança” (I Cor 13,11) e pela transição para uma vida de permanência. Isso costumava implicar arranjar um emprego, mudar-se para o seu próprio espaço, casar e ter filhos.

A nossa configuração económica actual – incluindo as empresas financiadoras de abortos – está a minar o equilíbrio entre a vida e o trabalho.

Salários mínimos e expectativas máximas são uma mistura que torna cada vez mais difícil atingir a independência económica, levando ao adiamento do casamento e da paternidade. Não é de admirar que muitas destas mesmas empresas “woke” estão dispostas a pagar às suas trabalhadoras para congelar óvulos e adiar a gravidez, como se fosse a mesma coisa ter filhos aos 45 ou aos 25.

O professor Henry Higgens torna-se, assim, um modelo para qualquer director de Recursos Humanos de uma grande empresa moderna quando pergunta, em My Fair Lady, “porque é que uma mulher não pode ser mais como um homem?”


John Grondelski (Ph.D., Fordham) foi reitor da Faculdade de Teologia da Seton Hall University, South Orange, New Jersey.  As opiniões expressas neste texto são apenas suas.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 7 de Setembro de 2022)

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Wednesday, 29 June 2022

A Maneira de Chicago versus a Maneira Católica

Randall Smith

Quem decidiu divulgar a sentença do caso Dobbs na Solenidade do Sagrado Coração de Jesus foi um génio. O padre que celebrou a missa a que fui nesse dia não conseguia disfarçar a alegria com este maravilhoso dom. Suponho que essa alegria tenha sido um pouco amainada quando uma mulher entrou aos gritos na Igreja, na altura em que ele preparava a Eucaristia para a adoração, nessa tarde. Felizmente, conseguimos afugentá-la, e quando saí encontrei o nosso padre dominicano a falar com ela de forma calma, mas firme, no adro da Igreja.  

Há quem esteja zangado. Muito zangado. Como escreveu um amigo: “Os democratas não estavam tão zangados desde que Lincoln libertou os seus escravos e o Supremo Tribunal acabou com a segregação das suas escolas públicas”. Quando esses “direitos” lhes foram negados – “direitos” baseados, então, como hoje, na negação da plena humanidade de outros seres humanos – essas pessoas ficaram mesmo muito zangadas.

Tal como muitas outras pessoas, estou preocupado com o aumento das ameaças às igrejas católicas e aos centros de apoio a grávidas em crise. Houve pelo menos sessenta e três destes ataques desde que um rascunho da sentença de Dobbs foi divulgado há várias semanas. Um grupo chamado “A Vingança de Jane” está a apelar à participação em motins no que chamou um “Verão de Ira”. O seu lema é: “Aos nossos opressores: se o aborto não for seguro, vocês também não estarão”.

Como devemos responder?

Eu quero dizer o seguinte:

Ouçam lá, Vingança de Jane. Se os centros de apoio a grávidas em risco não estão seguros, vocês também não. Se gostam de dar, também vão levar, faz parte das regras do jogo.

Pensam que estão zangados? Há cinquenta anos que, pacifica e pacientemente, vivemos com um regime opressivo de aborto, sem qualquer capacidade de nos fazermos ouvir no sistema democrático que nos foi deixado pelos nossos fundadores, tentando, de todas as formas legais, proteger a vida intrauterina.

Por isso aqui fica um recado para os nossos opressores. Por cada um dos nossos que cair, caem dois dos vossos. É a “maneira de Chicago”.

Talvez se recordem dessa cena do filme “Os Intocáveis” em que o inestimável Sean Connery diz a Eliot Ness, protagonizado por Kevin Costner: “Queres apanhar o Capone? É assim que se faz. Ele puxa de uma navalha, tu puxas de uma pistola, ele envia um dos teus para o hospital, tu envias dois dos dele para a morgue. À maneira de Chicago”.

Para nós, Vingança de Jane, vocês são o Capone. Porque, sejamos honestos, é mesmo isso que vocês são: rebentam com crianças inocentes no útero, e ganham dinheiro com isso. Mantêm as mulheres reféns até pagarem. Os centros de apoio pró-vida oferecem serviços médicos, mas vocês incendeiam-nos para que as mulheres fiquem sem outras opções.

Por isso, Vingança de Jane, ouçam este conselho. Vocês não querem declarar guerra a um povo que tem uma tradição de mártires e que tem lutado para proteger os nascituros diante de oposição constante ao longo de cinquenta anos. Especialmente porque é claro que não passam de meros cobardes que gostam de fazer vandalismo adolescente a meio da noite e que ameaçam os filhos dos juízes do Supremo Tribunal. Ui, que corajosos.

É isso que eu quero dizer, mas não é isso que eu devo dizer. Porque a “maneira de Chicago” não é “a maneira americana”. Nem é a “maneira católica”.

Comecemos com a “maneira americana”, que demasiadas pessoas parecem ter esquecido.

Eu tinha um aluno magnífico que certa vez concluiu que existia uma injustiça na nossa universidade.

“Muito bem, e o que pretendes fazer sobre o assunto?”, perguntei.

“Organizar uma manifestação?”, respondeu.
“Essa é a tua primeira opção? E que tal votar? E que tal seres eleito e trabalhares pela mudança, mudando os corações e o espírito dos teus colegas?”

“Ah, pois é”, disse, mas sem estar completamente convencido.

A participação cívica e o governo democrático tornaram-se a última coisa em que as pessoas pensam hoje em dia, quando devia ser a primeira. Essa é a maneira americana.

E que dizer dos outros, com as suas t-shirts pretas e máscaras, que partem vidros e lançam cocktails Molotov? São fascistas. Pesquisam “camisas negras em Itália” e vejam o que aparece. Pesquisem “Kristallnacht”. Estão a ver quem é que usa camisas negras e parte vidros?

Agora vejam vídeos dos motins que se realizaram quando os primeiros alunos negros foram escoltados para a Universidade do Alabama, em 1963. Verão raparigas brancas com saias de feltro e meia curta a gritar aos altos berros, com ar de quem está prestes a morrer.

Vejam imagens dos protestos passivos de negros nos restaurantes segregados: pessoas a gritar, a fazer birras, a entornar bebidas e a atirar comida aos alunos pacíficos que se encontram sentados ao balcão. Os fascistas são assim. Tal e qual os manifestantes pro-aborto enraivecidos à porta do Tribunal.

Eu não levo a mal as pessoas que discordam com a sentença do caso Dobbs, mas não faz qualquer sentido dizer que uma decisão que leva o assunto de volta aos eleitores representa “a destruição da nossa democracia”.

Devolver um assunto aos eleitores é “antidemocrático”? Pessoas com t-shirts pretas e máscaras a vandalizar propriedade são antifascistas? Claro. E “guerra é paz”, “liberdade é escravatura” e “ignorância é força”.

Mas não se deixem enganar: todas estas medidas políticas, por mais importantes que sejam, não são as nossas principais armas. As nossas principais armas são o que sempre foram: oração, jejum, esmola, sacrifício pessoal, coragem, paciência, apoio incansável para mulheres e crianças necessitadas, e esforços pacíficos para converter mentes e corações.

Essa é a maneira católica. Foi assim que chegámos onde estamos. É nisso que temos de confiar enquanto caminhamos para um futuro incerto. Podemos alegrar-nos, mas o trabalho em prol dos bebés por nascer deve intensificar-se.

Os nossos opositores já deixaram bem claro o que pretendem. Deixemos também nós bem claro o que queremos. Estamos dispostos a qualquer sacrifício, sofreremos qualquer indignidade, e trabalharemos sem descanso e sem retribuição para proteger estas crianças e as suas mães. Diremos: “Se nos tirarem um, construiremos outros dois”. “Obriguem-nos a carregar este fardo durante uma milha, e carregá-la-emos durante duas”.

Essa é a maneira católica.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 28 de Junho de 2022)

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Tuesday, 21 June 2022

A Visão Profética de Samuel Alito

David F. Forte
Em breve saberemos se o rascunho da sentença de Samuel Alito no caso Dobbs v. Jackson Women’s Health Organization sobrevive enquanto opinião maioritária e ganha força de lei. Aconteça o que acontecer, o rascunho de Alito permanecerá como uma das maiores e mais corajosas decisões alguma fez redigidas por um juiz do Supremo Tribunal. É um documento purificador, que limpa muitos dos argumentos pretensiosos e errados feitos pelo Tribunal no passado.

A opinião é profética – no sentido clássico do termo. Frequentemente usamos a palavra profecia como sinónimo da previsão do futuro. Mas na Escritura os profetas não eram principalmente videntes, embora alguns emitissem avisos sobre o que aí vinha (Jonas ao povo de Nínive), ou afirmações sobre as coisas grandes e boas que Deus preparou (Isaías sobre a vinda do Messias).

O profeta não é, por isso, um leitor de sinas, mas aquele que diz a verdade. Ele dirige-se àqueles que se encontram apaixonados pelo seu próprio poder, tão envolvidos pela sua própria vontade ilimitada que cometem pecados graves. Foi nesse tom que Natã falou a David, que Eliseu desafiou Acab, Ester expôs Hamã e João Baptista condenou Herodes. Por sua parte, Alito expõe (de forma mal-educada, segundo os seus críticos) a sobranceria de Harry Blackmun, autor da sentença Roe v. Wade, que não só inventou um “direito” que não tem qualquer base na história ou na Constituição, mas apresenta também uma análise da gravidez que não tem lógica interna nem qualquer relação com a realidade médica.

Nas Escrituras os profetas não eram conhecidos pela sua linguagem polida. As palavras de Eliseu eram “como uma fornalha ardente”. De igual modo, o juiz Samuel Alito há muito que é conhecido por expor os factos por detrás de um caso, por mais feios ou chocantes que possam ser.

Em Stevens v. United States, por exemplo, na qualidade de único dissidente, Alito descreveu os gritos aflitos de um gatinho a ser morto num vídeo pornográfico “crush”*, apesar de a maioria ter revogado a lei do congresso que proíbe tais vídeos, com base na Primeira Emenda da Constituição.

Em Brown v. Enterntainment Merchants Association falou de jogos de computador em que: 

Dezenas de vítimas são mortas com qualquer utensílio imaginável, incluindo metralhadoras, caçadeiras, bastões, martelos, machados, espadas e motosserras. As vítimas são desmembradas, decapitadas, esventradas, imoladas e cortadas aos pedaços. Gritam em agonia e imploram por misericórdia. O sangue escorre, salpica e acumula. Partes de corpo decepadas e pedaços de restos mortais são exibidos de forma gráfica.

O Tribunal acabou por abolir uma lei que proibia a venda de tais jogos a menores e Alito votou com a maioria, mas apenas porque uma parte da lei era pouco clara.

E em Snyder v. Phelps protestou contra a protecção que a maioria decidiu dar a manifestantes em enterros de soldados mortos em combate, com cartazes como “Deus odeia-te”, “Vais para o Inferno”, “Deus odeia maricas” e “Maricas condenam nações”.

Mais do que qualquer outro juiz de memória recente – certamente mais do que o juiz Antonin Scalia – Alito condena o mal moral que é causado por raciocínios judiciais desnecessariamente rígidos: o mal moral da crueldade cometida contra animais, de permitir a jovens que se mascarem de assassinos em série, de permitir que pessoas maliciosas transformem a dor de um pai enlutado em agonia ou, no caso de United States v. Alvarez, de deixar que alguém roube a honra de heróis caídos, fingindo ser detentor de uma Medalha de Honra.

Referindo-se ao aborto como “uma questão moral profunda”, Alito volta a ir à essência do propósito da lei.

Em Dobbs, o tom de Alito deve-se à sua discordância com muitos dos seus colegas que desprezaram a sua vocação em nome do poder, chegando a consagrar esse mesmo poder em fórmulas solipsistas como a “passagem mistério” do juiz Kennedy**.

Alito “endireita as sendas” até à verdade, descartando pelo caminho os falsos ídolos que o Tribunal ergueu para justificar o direito a matar o inocente, e – por isso – ferindo gravemente o próprio Tribunal e dividindo a nação em facções ferozmente opostas.

Samnuel Alito

Não deixa nenhuma falsidade por revelar:

• A análise da história do aborto em Roe “varia entre o constitucionalmente irrelevante (…) e o simplesmente incorrecto”. De facto, a história revela que o aborto sempre foi tratado na lei como algum tipo de mal.

• “A Constituição não faz qualquer referência ao aborto, e tal direito não está implicitamente protegido por qualquer provisão constitucional”.

• A sentença maioritária em Planned Parenthood v. Casey modificou muito a sentença de Roe, enquanto afirmava, contraditoriamente, que estava a sustentá-la.

• “Roe estava profundamente errada desde início. A sua lógica era excepcionalmente fraca e a sentença tem tido consequências danosas”.

• Em vez de pôr fim à discussão, como o Tribunal presunçosamente afirmava, a sentença Roe v. Wade “inflamou” a questão e tornou-a ainda mais “amargamente divisiva”.

• Não existe direito de igualdade de protecção ao aborto, uma vez que a regulamentação do aborto não é uma classificação feita com base no sexo.

• A regra do respeito pelos precedentes não justifica manter esta sentença tão profundamente cheia de falhas.

• O conceito de viabilidade fetal é indeterminado e “nada tem a ver com o estatuto de um feto”.

• A questão essencial a tratar pelo legislador é saber se está em causa um ser humano. Nenhum dos precedentes citados pelo lado contrário toca nesta questão.

O juiz Alito conseguiu separar o trigo do joio. Mas um profeta não é um líder, um juiz não é um legislador. Não lhe cabe, em sua opinião, fazer a travessia para a terra prometida onde a vida intrauterina é protegida por lei. O seu sentido de vocação impele-o a ficar do seu lado do rio, mas indica o caminho para os Estados e para o povo.

Os legisladores, diz ele, só precisam de dar um passo racional para proteger aqueles bens morais que são do mais elementar senso comum:

respeito por, e protecção de, vida prenatal em todos os estágios de desenvolvimento; a protecção da saúde e segurança materna, a eliminação de procedimentos médicos particularmente grotescos ou bárbaros; a preservação da integridade da profissão médica; a mitigação da dor fetal; e a prevenção da discriminação com base em raça, sexo ou deficiência.

Se a opinião de Alito se tornar lei, como é que os americanos vão responder ao seu desafio? Alguns farão certamente como David fez com Natã, e escutá-lo-ão. Outros, como Herodes, tentarão cortar a cabeça ao profeta.

* Se, como eu, não fazia ideia o que é um filme “crush”, este artigo faz uma descrição bastante simples e, felizmente, não gráfica [NT].

** Refere-se a uma expressão que ficou conhecida na decisão Planned Parenthood v. Casey, em que o juiz Anthony Kennedy escreveu: “No cerne da Liberdade está o direito a definir o nosso próprio conceito de existência, de sentido, do universo e do mistério da vida humana”. Esta passagem tem sido ridicularizada desde então por conservadores, tendo sido definida por um como “jurisprudência new age” [NT].


David Forte é Professor Emérito na Universidade Estadual de Cleveland e faz parte do Conselho de Académicos na James Wilson Institute.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Terça-feira, 21 de Junho de 2022)

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Wednesday, 1 June 2022

Bem-aventurados os que choram

Randall Smith

“Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados” (Mt. 5,4). No comentário às bem-aventuranças, no livro “Jesus de Nazaré”, o Papa Bento XVI refere que existem dois tipos de tristeza: “Uma que perdeu a esperança, que deixou de confiar no amor e na verdade e, consequentemente, insidia e destrói o homem por dentro; mas há também a tristeza que deriva da comoção provocada pela verdade e leva o homem à conversão, à resistência contra o mal. Esta tristeza cura, porque ensina o homem a esperar e a amar de novo”.

Falando sobre as mulheres aos pés da Cruz, o Papa escreve que “num cenário cheio de crueldade e cinismo ou de conivência gerada pelo medo, permanecem fiéis”. Elas não têm o poder de mudar a situação geral, ou prevenir o desastre, mas ao recusar deixar os seus corações endurecerem-se perante a dor de outro, “estando com” e “sofrendo com” o inocente que foi injustamente condenado, elas colocam-se do seu lado, ao seu lado. Através da sua paixão – no sentido etimológico de partilhar da Sua paixão – e através da sua recusa de virarem as costas ou de deixarem que a revolta, o medo ou a vingança endureçam os seus corações, abriram-se ao amor do Deus que é amor.

Que mais poderiam elas fazer? Fugir, com medo, como os outros discípulos? Sair com armas e matar todos os que achincalhavam Cristo? Interromper uma conferência de imprensa para se queixarem das autoridades judaicas e romanas? Alguma dessas coisas teria ajudado a dar continuidade ao Reino que o Senhor veio estabelecer? Ou teria simplesmente tornado tudo incomensuravelmente pior?

Facilmente imaginamos a reacção de um transeunte: “Por amor de Deus, mulheres, parem de chorar e façam alguma coisa! Peguem numa espada, cortem uma orelha a alguém! Vinguem-se do Sinédrio e do governo romano corrupto”. E que mais é que estas mulheres poderiam responder para além de: “Por amor de Deus, não. Lamentamos, mas está muito enganado”.

“A tristeza de que o Senhor fala é o não-conformismo com o mal, é um modo de opor-se àquilo que todos fazem e que se impõe ao indivíduo como modelo de comportamento. O mundo não suporta este tipo de resistência, exige que se participe. Esta tristeza parece-lhe uma denúncia que se opõe ao aturdimento das consciências”.

Recentemente uma amiga enviou-me um link para um artigo de Elizabeth Bruenig chamado “Uma cultura que mata as suas crianças não tem futuro”. Na sua mensagem a minha amiga comentou “tem piada, pensava que isto ia ser sobre o aborto”. Não era. Não podemos chorar as crianças abortadas. O mundo exige conformismo e chorar essas crianças seria considerado uma acusação contra consciências que se tornaram aturdidas.

Assim, um editorial publicado nesse mesmo dia no L.A. Times tinha como título: “A Califórnia deve tornar-se um porto de abrigo para abortos? Não pode não fazê-lo”. Uma cultura que se tornou tão confortável com a ideia de matar crianças não deve sentir-se tão chocada quando descobre que outras pessoas estão a matar crianças.

No seu artigo, a senhora Bruenig fala várias vezes de uma “cultura de morte”. Ecos do Papa São João Paulo II! Mas no seu caso este termo não se referia aos milhões de bebés abortados todos os anos, ou sequer aos milhares de jovens dos guetos que morrem anualmente em violência relacionada com gangues. Falou também de “declínio moral”, mas para ela isso significa o aumento do número de pessoas que possuem armas.

Memorial para as vítimas do massacre de Uvalde
Eu não gosto de armas. Mas as estatísticas citadas por pessoas como David Frum, no seu artigo “A América tem Sangue nas Mãos” sugerem que estou em minoria. “Os Estados Unidos têm posto mais e mais armas em mais e mais mãos, 120 armas por cada 100 pessoas neste país”, escreve Frum. É uma construção estranha: “pôr mais armas em mais mãos”? Foi alguém que as pôs lá?

Eu poderia dizer: “A América pôs mais material pornográfico em mais mãos este ano do que nunca!” Mas aí alguém poderia referir que esse material foi adquirido. Parece que existe mesmo um mercado para isso. Posso não gostar (e não gosto), mas como há tantas pessoas dispostas a pagar, calculo que elas gostem. Presumo, por isso, que se isto fosse a votos eu perderia – a não ser que antes conseguisse converter as suas mentes e os seus corações.

Eu acho as minhas convicções fantásticas. Por isso é que as tenho. Mas às vezes há quem discorde. Aprendi, ao longo dos anos, que isto não significa que essas pessoas sejam necessariamente más ou estúpidas. Simplesmente discordamos. É importante saber discordar sem ser desagradável, sem ódio e sem recriminação.

A autora do tal artigo sobre uma cultura que mata as suas crianças, em contraste, escreve isto: “Depois há algumas pessoas que dizem que todas as coisas terríveis – incluindo esta coisa insuportável que nenhuma civilização deveria ter de aguentar, esta lotaria assassina e demoníaca de alunos – deve simplesmente continuar. E essas pessoas estão a ganhar.” Fiquei a pensar: quem são essas pessoas? Quem é que diz que “todas as coisas terríveis devem continuar”? Não devo ter apanhado essas entrevistas.

Este tipo de comentário ajuda? Irá trazer a paz que nós – todos nós, à sua maneira – tão desesperadamente deseja?

Tanta revolta, tanto ódio, tanta desconfiança, tanta vilificação desnecessária: talvez seja por isso que tantas pessoas compram armas. Pessoalmente, preferia que não o fizessem, mas as suas escolhas livres não dependem de mim.

Então, talvez haja momentos em que temos simplesmente que parar e chorar: sofrer com os outros, não virar as costas, nem apontar dedos de recriminação e culpa para anestesiar o sofrimento, mas simplesmente sentarmo-nos juntos e chorar. Não faltará tempo para voltarmos a arrancar olhos uns aos outros, amanhã, na próxima semana, ou no próximo mês.

“Quem não endurece o coração perante o sofrimento e a necessidade do outro, quem não abre a alma ao mal, mas sofre sob a sua pressão dando assim razão à verdade, a Deus, esse escancara a janela do mundo para fazer entrar a luz”. (Bento XVI).


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 31 de Maio de 2022)

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