O Papa Francisco deu uma entrevista à Associated Press em que foi questionado sobre as leis que criminalizam a homossexualidade.
Respondeu que embora os actos homossexuais sejam pecado, não são crime nem devem ser tratados como tal.
O Papa Francisco deu uma entrevista à Associated Press em que foi questionado sobre as leis que criminalizam a homossexualidade.
Respondeu que embora os actos homossexuais sejam pecado, não são crime nem devem ser tratados como tal.
Pela mesma lógica não costumo comentar os candidatos ao
cargo, mas escrevo este texto porque André Ventura tem-se tornado um fenómeno
maior do que aquele que representa nestas eleições em particular e porque estou
verdadeiramente preocupado em ver muita gente com quem em princípio me
identifico – católicos ou cristãos, tendencialmente conservadores, preocupados
com questões sociais como o aborto e a eutanásia, etc., – a deixarem-se levar
por um fascínio que não só não compreendo como acho perigoso.
Uma última nota, antes de continuar. Há quem diga que os
críticos do Chega da direita só temem a perda de influência dos seus partidos.
Sobre isso sou insuspeito. Não tenho partido, nunca tive, muito menos exerci
qualquer cargo ou tenho em perspetiva fazê-lo.
1 – A fraude
O André Ventura até pode ser mais ou menos simpático, não
está em causa o gosto pessoal. O problema é que eu não confio em André Ventura.
E não confio em André Ventura porque acho que ele é uma fraude.
É inteligente, sem dúvida; é articulado, sem dúvida; tem
boa presença, sem dúvida e é cativante, evidentemente. Mas tudo isso só torna
mais perigoso o fenómeno, porque a verdade é que eu não acredito por um segundo
que ele concorde com uma fração das coisas que diz para cativar o eleitorado do
Chega.
E isso – um político que prega aquilo em que não
acredita, acicatando rivalidades e divisões para se promover e conquistar
eleitores – é muito grave. Mas o populismo é isso mesmo.
Eu não acredito que Ventura seja contra o casamento
homossexual, que seja contra a eutanásia e que seja contra a legalização do
aborto. Há registos de ele ter defendido quase todas estas coisas, e mais, como
a legalização da prostituição e alguns desses registos são até bem recentes. Um
homem não pode mudar? Pode. O problema é que não vejo qualquer sinal de que
essa mudança seja sincera e não um simples aproveitamento político.
Da mesma forma não acredito por um segundo que Ventura
seja o devoto católico por que se faz passar, deixando-se fotografar ajoelhado
em oração, afirmando sem vergonha na cara que a sua missão está intimamente
ligada à mensagem de Fátima e depois criticando o Papa.
André Ventura é um actor. No teatro e no cinema isso não
é vergonha nenhuma, mas na política faz dele uma fraude.
2 – As políticas
Há políticas que o Chega defende que são discutíveis, mas
há outras que são pura e simplesmente inaceitáveis. A castração química
é uma solução aparentemente fácil para um problema terrível, mas é uma solução
que não tem provas dadas, tem efeitos secundários gravíssimos para a saúde e
por isso jamais pode ser imposto a quem quer que seja.
A prisão perpétua atira pela janela toda a base de
um sistema penal que tem por objetivo reformar o cidadão e não o castigar ad
aeternum e toda a insistência na segurança faz passar uma imagem
completamente falsa de Portugal ser um país inseguro, que não é. Da mesma
forma, nunca, repito nunca, terá o meu apoio quem publicamente apelida pessoas
– sejam quais forem os seus crimes – de monstros, como o Chega faz quando fala
da questão da criminalidade.
Um dos problemas mais graves é mesmo a insistência na
tecla dos ciganos. E o mais irónico é que eu acho que André Ventura foi
mal compreendido quando, ainda candidato pelo PSD a Loures se tornou polémica a
frase dele sobre os ciganos. Na altura ele disse que há um problema com os
ciganos e foi crucificado por isso, mas é inegável que existe em Portugal –
mais nuns sítios do que noutros – um problema com a integração dos ciganos. A
forma como ele foi crucificado por um lado, mas elogiado por muitos, por outro,
terá tido um papel no percurso que veio a seguir?
Agora, o discurso actual de Ventura sobre os ciganos é
inacreditável. Propor leis específicas para membros de uma etnia? Está tudo
maluco? E se reconhecemos que existe um problema com a integração dos ciganos,
digam-me, por favor, como é que resolvemos isso cavando um fosso ainda maior
entre ciganos e não ciganos? Hostilizando-os? Este género de discurso tem o
condão precisamente de piorar as situações que pretende denunciar.
Por fim, o discurso desumanizante sobre os imigrantes
é demoníaco. Sim, é esse o termo. Trata-se de criar um fantasma à volta de
um problema que em Portugal simplesmente não existe e que acicata ódios e
alimenta discursos xenófobos. Um cristão pode, naturalmente, defender a
existência de regras e de limites à imigração, mas não pode, nunca, adoptar o
tipo de discurso que o Chega adopta, sobre este assunto, muito menos o pode
fazer invocando alguma espécie de messianismo fatimista. Mete nojo.
3 – Os apoiantes
Deixem-me clarificar já, para não ser mal-entendido. Se
eu achasse que todos os apoiantes do Chega são idiotas, não estaria a escrever
este texto. O que me preocupa é precisamente ver bons amigos, pessoas próximas,
pessoas com as quais me identifico, a deixarem-se levar por este engodo.
A minha preocupação principal neste ponto é aquela franja
de apoiantes do Chega que são inegavelmente de uma extrema-direita feia, porca
e má e que estão a ganhar relevância e a sentir-se em casa no Chega.
Quando eu participo nas cerimónias do 10 de junho, em
Lisboa, frente ao monumento de homenagem aos mortos nas guerras, sei que estão
sempre lá os skinheads da praxe. Estão num grupinho, sozinhos, fazem a sua
própria festa, mas não é possível olhar à volta e confundir o espírito do
evento com a sua presença marginal. Portanto se eu visse que havia uma extrema-direita
que votava Chega por achar que era o melhor que se arranjava, eu até
compreendia. Mas não é isso que eu vejo. Eu vejo uma extrema-direita que se
sente em casa no Chega e que o partido não se limita a aturar, mas que procura
mesmo seduzir, com o discurso, com os gestos, com a simbologia. E isso… Bom,
isso Chega para mim.
A imagem do apoiante de Ventura a fazer uma saudação
romana durante o comício dele não é um infeliz acidente e a forma como outro se
aproxima dele e o convence a baixar o braço não tem nada de condenação, mas de
cautela e preocupação com a imagem. E este é apenas um caso de pessoas com
claras conotações fascistas (uso o termo de forma pensada, e não como a
esquerda que considera fascista tudo o que não esteja à esquerda do PSD) que
estão felizes e entusiasmados no partido e não se vê nada da parte da estrutura
para os demover ou para contrariar esse entusiasmo.
E por isso pergunto às pessoas de bem – os tais de quem o Ventura diz que quer ser Presidente – é neste barco que querem andar? São estes os vossos companheiros de viagem? Bem sei que a existência de fascistas e neo-nazis no partido não faz de vocês fascistas e neo-nazis mas devia, pelo menos, deixar-vos desconfortáveis. Deixa? É que eu não conseguiria estar ali de consciência tranquila.
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| Ines A. Murzaku |
Mas desde 1993 esse vale não tem sido o mesmo para mim.
Nesse ano cobri para a Rádio Vaticano a viagem de São João Paulo II, no dia 9
de maio. Todos os presentes ficaram pasmados quando o Papa decidiu improvisar,
denunciando enfaticamente a máfia siciliana durante uma homilia diante do
Templo da Concórdia.
Foi um discurso histórico: João Paulo II tornou-se o primeiro
Papa a pronunciar a palavra máfia. A partir desse discurso a relação ambígua
entre La Cosa Nostra e a Igreja tornou-se mais clara (algo que nem sempre
tinha sido no Sul de Itália): a máfia e a Igreja estavam em lados opostos. E
aqueles que lutam para expor a máfia, incluindo clero e heróis leigos como o
juiz Rosario Livatino, são aliados da Igreja, combatendo juntos na mesma
trincheira pela justiça:
Deus disse: Não matarás! O homem não pode, nenhum homem,
nenhum grupo… a máfia não pode mudar e espezinhar esta mais sagrada lei de
Deus!... Este povo, o povo siciliano, ligado à vida, pessoas que amam a vida,
que dão a vida, não podem viver para sempre debaixo da pressão de uma
civilização contraditória, uma civilização da morte!... Em nome deste Cristo
crucificado e ressuscitado, do Cristo que é vida, caminho, verdade e vida. Digo-o
aos responsáveis: Convertam-se! Um dia chegará o juízo de Deus!
Poucos sabem que este apelo de São João Paulo foi feito
depois de uma reunião privada com os pais do juiz assassinado Rosario Livatino,
que será beatificado em breve. Mas o pontífice foi mais longe, descrevendo o juiz
de 38 anos morto pela Stidda (a Estrela), um grupo criminoso do Sul de
Itália, como: “um mártir da justiça e indirectamente da fé”.
Quando Livatino foi assassinado quase ninguém conhecia este
jovem juiz talentoso e exemplar, que trabalhava nas periferias de Itália. O seu
trabalho estava ligado à apreensão e confisco de propriedade de origem ilícita
adquirida pela mafia siciliana. Fazia-o em total respeito pelos direitos dos
acusados, com grande profissionalismo e com resultados concretos. E, também,
por compromisso com a sua Fé Católica.
Em 2019 o Papa
Francisco reflectiu sobre o que o juiz Livatino tinha escrito acerca da
relação entre Fé, Direito e Caridade:
“Decidir é escolher [...]; e escolher é uma das coisas mais
difíceis que o homem é chamado a fazer. [...] E é precisamente nesta escolha
para decidir, decidir para ordenar, que o magistrado crente pode encontrar uma
relação com Deus. Uma relação direta, porque fazer justiça é realização de si
mesmo, é oração, é dedicação a Deus. Uma relação indireta, através do amor pela
pessoa julgada. [...] E esta tarefa será tanto mais leve quanto mais o
magistrado sentir humildemente as suas próprias fraquezas, quanto mais ele se
reapresentar à sociedade disposto e inclinado a compreender o homem que está na
sua frente e a julgá-lo sem a atitude de um super-homem, mas com contrição
construtiva.”
Teologicamente, o martírio do Juiz Livatino é um martírio
indireto de fé. É mais um exemplo daquilo a que João Paulo II chamou os “novos mártires”,
outro modelo de martírio que surgiu durante o Século XX, quando muitos morreram
em condições de ataque ideológico ou de violência social em larga escala, ainda
que muitas vezes a relação com a fé fosse indireta.
Desde o Século IV que a Igreja reconhece dois caminhos
tradicionais para a canonização: a via martyrii (o caminho do martírio)
e a via virtutum (o caminho das virtudes). Em 2017, baseando-se na referência
de João Paulo II a “um mártir da justiça e indirectamente da fé”, o Papa
Francisco introduziu um terceiro caminho para a canonização com um Motu
Proprio que especifica que “A oferta da vida é um novo caso no processo de
beatificação e canonização, que se diferencia do caso sobre o martírio e sobre
a heroicidade das virtudes.”
Existem cinco critérios para avaliar uma “oferta de vida”:
a) oferta livre e voluntária da vida e aceitação heroica propter
caritatem de uma morte certa e a curto prazo;
b) nexo entre a oferta da vida e a morte prematura;
c) exercício, pelo menos em grau ordinário, das virtudes
cristãs antes da oferta da vida e, depois, até à morte;
d) existência da fama de santidade e de sinais, pelo menos
depois da morte;
e) necessidade do milagre para a beatificação, ocorrido
depois da morte do Servo de Deus e por sua intercessão.
Aquele jovem e bravo juiz siciliano ofereceu a sua vida, preenchendo abundantemente os cinco critérios: ofereceu a sua vida pela sua vocação de ser um juiz exemplar, combatendo um mal público – a máfia – sabendo que isso poderia conduzir a uma morta iminente; sendo um juiz cristão que aplicava as virtudes cristãs ao exercício do direito; demonstrando como juiz que a Fé e o Direito ou o Evangelho e o Código Civil podem coexistir se forem conduzidos pela virtude teológica da caridade; sendo um juiz que colocou a sua vida e vocação para combater a máfia Sub Tutela Dei (nas mãos de Deus), para usar a expressão que Livatino usava frequentemente no seu diário.
Ines A. Murzaku é professora de Religião na Universidade de
Seton Hall. Tem artigos publicados em vários artigos e livros. O mais recente é
Monasticism in Eastern Europe and the Former Soviet Republics. Colaborou com
vários órgãos de informação, incluindo a Radio Tirana (Albânia) durante a
Guerra Fria; a Rádio Vaticano e a EWTN em Roma durante as revoltas na Europa de
Leste dos anos 90, a Voice of America e a Relevant Radio, nos EUA.
(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 8 de Janeiro de
2020 em The Catholic Thing)
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