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Thursday, 16 November 2023

Indi Gregory. Braço-de-ferro entre governo britânico e direitos paternais faz mais uma vítima

Morreu esta segunda-feira, com quase oito meses de idade, a pequena Indi Gregory.

Para quem não acompanhou a história, a Indi nasceu com uma rara doença mitocondrial que lhe causou danos cerebrais irreparáveis. Estando internada, os médicos sugeriram aos pais que nada havia a fazer, e que por isso deveria ser desligado o suporte de vida e administrados cuidados paliativos, deixando o bebé morrer.

Os pais contestaram, dizendo que a sua filha reagia aos estímulos e que queriam prolongar a sua vida. Perante este impasse, como tem acontecido com alguma frequência no Reino Unido, o hospital levou o caso a tribunal, que tem decidido sempre a favor dos médicos, contra a vontade dos pais.

Já perto do final do processo o hospital Bambino Gesú, em Roma, ofereceu-se para acolher a Indi e cuidar dela, tentando eventualmente umas terapias alternativas que não lhe conseguiriam restaurar à saúde plena, mas talvez permitissem prolongar a vida sem sofrimento. Para tal, o Governo italiano até aprovou a concessão de cidadania italiana à menina, mas ainda assim o tribunal não permitiu a transferência.

Perdidos os últimos recursos, o hospital retirou o suporte de vida, transferindo a pequena Indi para um hospício especializado em acompanhamento de final de vida, onde ela morreu. Não foi sequer permitido aos pais levar a sua filha para casa, para morrer perto deles.

Charlie, Alfie, Indi

Em primeiro lugar, este não é um caso extremo e isolado. Faz parte de um padrão de casos que têm surgido ao longo da última década no Reino Unido. Entre os que causaram mais polémica, e por isso se tornaram mais conhecidos, estão os casos de Charlie Gard e de Alfie Evans, mas há mais.

Nem todos os casos são iguais, claro, mas têm elementos comuns, nomeadamente o facto de a dada altura surgir uma diferença de opinião entre a equipa médica e os pais sobre o tratamento da criança e aquilo que concorre para o seu melhor interesse. Em todos os casos a equipa médica recorreu aos tribunais, tendo obtido destes o consentimento para cessar qualquer tratamento, deixando as crianças morrer.

Não vou entrar em detalhes, mas posso dizer que a minha opinião sobre os três casos não foi unânime. No caso de Charlie parece-me que o tribunal tomou a decisão correcta, e no caso de Alfie Evans e de Indi Gregory parece-me que tomou a decisão errada. Este texto que escrevi sobre o Alfie Evans explica os contornos gerais de ambos os casos.  

Filhos dos pais ou do Estado?

A questão polémica aqui não é a morte das crianças. Tristemente, as crianças também adoecem e morrem, e se desaprovamos a distanásia – o prolongamento desnecessário e forçado de uma vida em sofrimento – para os adultos, não há razão para a aprovar para crianças. Prolongar a vida a todo o custo não é uma solução ética, e nem a Igreja Católica, nem a bioética em geral, o defendem.

O verdadeiro cerne desta questão é o conflito entre pais e Estado sobre a custódia da criança e o direito a decidir o que é melhor para ela, e quais as abordagens clínicas que querem adoptar.

Deixem-me ser claro. Este é um direito fundamental dos pais. É deles a responsabilidade de decidir qual é o melhor interesse dos seus filhos. Contudo, a sociedade admite que em casos extremos o Estado possa retirar esse direito aos pais, como faz noutros casos extremos em que a criança é vítima de maus tratos, por exemplo. Mas sublinho: casos extremos.

Devemos então interrogar-nos: estávamos perante um caso extremo? Não vejo qualquer razão para pensar que sim. Ao contrário do que se passou no caso de Charlie Gard, os pais não estavam a tentar transferir a sua filha para outro continente, para prosseguir uma terapia vaga e experimental proposta por um médico isolado que tinha muito a lucrar. A proposta aqui, como já tinha sido no caso do Alfie Evans, era a transferência para um hospital sério, com excelente reputação e especializado no cuidado de crianças, onde a Indi seria acompanhada por uma equipa de médicos igualmente séria. A transferência para Itália, e o tratamento, não acarretariam qualquer custo para o sistema nacional de saúde do Reino Unido (embora esse não deva ser um factor decisivo, como é evidente).

Ao negar aos pais o exercício desse direito o Estado está a dizer, repetidamente, que é ele o melhor garante do bem-estar das crianças doentes e, o que é extremamente grave, a normalizar o princípio de se substituir ao poder e discernimento paternal.

No Reino Unido caminha-se – se é que não se chegou já – a uma situação em que os filhos são encarados como propriedade e responsabilidade do Estado, estando apenas emprestados aos pais enquanto as escolhas destes não colidirem com a visão da tutela. Isto é próprio de um estado autoritário, e não de um estado de direito, e põe em causa a aquela que é a célula base e essencial de toda a sociedade saudável: a família, unida e sólida.

Há outras preocupações com o sistema de saúde inglês, por um lado o protocolo para cuidados de fim de vida, o chamado Liverpool Care Pathway, que prevê a retirada de cuidados essenciais como a hidratação, a nutrição e a oxigenação, e por outro uma derrapagem do conceito de dignidade, que já não é vista como inerente à condição humana, mas sim ao conforto material e sanitário dos doentes. Mas não há espaço aqui para aprofundar todas estas complicações.

Em resumo, os pais da Indi merecem a nossa solidariedade. Porque perderam uma filha, sim, mas sobretudo porque lhes foi retirado o direito a tomarem – em consciência – as decisões que acreditavam melhor servir os interesses da sua filha e da sua família. E se a primeira dessas coisas é uma tragédia infelizmente comum e própria da vida humana, que é sempre frágil, a segunda não devia acontecer a ninguém.

Wednesday, 22 February 2023

“Esta Missa é celebrada em sufrágio pela alma de X”

John M. Grondelski
A frase que dá título a este artigo é tão comum que a maioria dos católicos nem se deve dar ao trabalho de pensar sobre o seu significado. Arriscaria dizer que muitos dos que estão presentes nas igrejas não conseguiriam explicar o que o padre está a dizer, para além de “estamos a rezar por X”. E embora isso seja verdade, há muito para além disso que uma geração anterior de católicos talvez pudesse articular, mas que, temo, a actual não consegue.

Porque é que rezamos por X?

Rezamos por X porque ele está morto e já não se pode valer a si mesmo. Isso não significa que os mortos estão simplesmente deitados, passivos. Invocamos os santos no Céu e pedimos as suas orações, eles também já morreram, mas acreditamos que nos podem ajudar.

Então porque é que rezamos por X?

Porque ele não se pode ajudar a si mesmo.

Teólogos de outros tempos poderiam ter escrito algo como “no mistério da economia da salvação de Deus, os mortos podem ajudar os outros através das suas orações, mas não se podem ajudar a si mesmos”. Essa explicação, porém, parece reduzir Deus a um fazedor de regras que “obriga” as pessoas a serem caridosas umas para com as outras, evitando que se possam ajudar a si mesmas. O problema é que isso não é verdade.

Podemos ajudar os outros porque é uma forma de caridade – no verdadeiro sentido teológico, e não apenas como quem dá dinheiro para uma boa causa. Mas mudar-nos a nós mesmos implica sermos verdadeiramente nós mesmos e, depois da morte, já não o somos. Os humanos são seres corporais e espirituais. A minha alma pode estar no purgatório, mas o meu corpo está no cemitério de Santa Gertrude.

É por isso que no Credo dizemos “creio na ressurreição dos mortos” e não apenas “na vida eterna da alma”. Foi toda a pessoa – corpo e alma – que me fez ser bom ou mau. Toda a pessoa – corpo e alma – deve agora partilhar o meu destino eterno.

Vemos, assim, que a alma não é capaz de se valer a si mesma, uma vez que é preciso a pessoa por inteiro – corpo e alma – para agir, o que já não é possível. Nós, porém, que continuamos a ser pessoas completas neste mundo e podemos por isso praticar a caridade, podemos ajudar os nossos entes queridos que já morreram.

O que por sua vez significa que devemos apreciar a absoluta importância da corporificação e da sua relevância para a vida neste mundo e no mundo que há de vir. Não obstante o cartesianismo e a dualidade que deturpam o pensamento ocidental, contrariamente a todas as ideologias da “identidade” que depreciam o corpo ou acreditam que este pode ser alterado através da vontade, o corpo tem valor.

(Claro que isto levanta uma série de questões sobre outras práticas funerárias actuais, desde a aceitação em larga escala da cremação à destruição deliberada – compostagem – do corpo para transformar o Tio Zé em solo. Mas deixemos isso para outro artigo.)

Percebemos, então, que devemos rezar pelos mortos. Mas porquê oferecer uma Missa?

Será porque “onde dois ou três se reunirem em seu nome” – e nós somos uma “comunidade”? Ou talvez porque algumas pessoas pensam que a oração comunitária multiplica a eficácia. Talvez para recordar o nosso antigo paroquiano que costumava vir à missa das 9h30, e se sentava ali mesmo?

Não.

Oferecemos “Missa por sufrágio da alma de X” porque a Eucaristia é um sacrifício, uma re-presentação do sacrifício de Cristo na Cruz, uma oferta do Preciosíssimo Dom que Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, ofereceu em e com o seu Verdadeiro Corpo e Sangue, que se torna verdadeiramente presente aqui e agora neste sacramento e que é verdadeiramente parte da grande dádiva de si mesmo “por nós e por nossa salvação”.

A compreensão, sequer, deste último parágrafo pressupõe uma compreensão da Eucaristia como sacrifício, e nos termos da Presença Real. Uma sondagem da Pew, de 2019, revelou que 69% dos católicos americanos contemporâneos pensam que a Eucaristia é apenas um símbolo. Se os autores da pesquisa tivessem perguntado, acredito que teriam descoberto uma iliteracia teológica equivalente no que diz respeito à Missa enquanto sacrifício.

Se não compreendermos a Eucaristia como um sacrifício em que Jesus Cristo se faz presente de novo, aqui e agora, corpo e sangue, alma e divindade, então também não podemos compreender a ideia do sufrágio pelos mortos, nem como ou porque é que a Missa pode contribuir de facto para o repouso da alma de X.

Se a Eucaristia não passa de uma refeição comunitária que nos une “simbolicamente” e nos recorda de Jesus, bem como dos nossos entes queridos, então na prática não passamos de protestantes. A ideia católica do verdadeiro valor da oração – em especial da Missa – pode, nesse caso, servir como pensamento piedoso, mas não é nada de real. Não faz sentido.

Tenho argumentado que a falta de uma compreensão católica do valor da Eucaristia como oferta sacrificial pelos mortos é a razão pela qual, sem saber verdadeiramente porque estamos num enterro ou numa Missa, os queremos transformar em “memoriais” que servem “tanto para os vivos como para os mortos”, uma mera recordação de boas memórias e frases sentimentais sobre “um sítio melhor” sem que as palavras tenham um verdadeiro sentido profundo. A necessidade dessas memórias alicerça-se hoje em dia na ausência de uma vigília tradicional, ou na substituição de corpos por fotografias em funerais pós-cremação.

Os bispos americanos começaram um “reavivamento eucarístico” em resposta ao escândalo de mais de dois terços dos católicos não compreenderem a Presença Real. Essas pessoas também não compreendem a Eucaristia como a Presença Real oferecida em sacrifício, e como isso agora serve para sufrágio da alma de X. Até que a verdadeira teologia eucarística seja recuperada e ensinada em larga escala, inteiras secções de doutrina católica continuarão a ser “mistérios”, não no sentido próprio das dimensões suprarracionais do divino, mas de iliteracia religiosa. Incluindo compreender porque é que “Esta Missa é celebrada em sufrágio pela alma de X”.  


John Grondelski (Ph.D., Fordham) foi reitor da Faculdade de Teologia da Seton Hall University, South Orange, New Jersey.  As opiniões expressas neste texto são apenas suas.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 18 January 2023

A Compostagem Humana Mete Nojo

David G. Bonagura

Sem grandes alaridos, no final de 2022 a governadora de Nova Iorque, Kathy Hochul, promulgou uma lei autorizando a “redução orgânica natural”, conhecida popularmente como “compostagem humana”. Nova Iorque junta-se assim a outros cinco dos estados mais progressistas do país que já legalizaram a prática. A compostagem humana consiste em aquecer e rodar regularmente um cadáver humano dentro de um contentor cheio de material orgânico. Depois de seis a oito semanas todo o corpo se transforma em solo. Os ossos são depois colocados num incinerador (o eufemismo usado é “cremulador”), e queimado para formar mais solo, que é acrescentado àquilo que era o resto do corpo e lançado a um jardim, floresta, ou outro paraíso hortícola.

É uma nova versão da profecia bíblica: “Lembra-te que és pó, e ao pó tornarás. E tornarás”.

Os argumentos a favor da compostagem humana, recentemente articulados no New York Times, são utilitários, emocionais e filosóficos. Custa menos do que um enterro tradicional e, embora seja mais cara do que a cremação, a incineração de ossos resultantes da compostagem é menos prejudicial para o ambiente. Satisfaz a ligação emocional à terra, que inclui tanto o desejo de regressar a ela como de entrar em comunhão com os outros mortos que ela agora contém. Por fim, representa um novo ritual de morte que tem significado para alguns pelo que, no espírito de relativismo moral, devemos respeitar as escolhas de cada um.

Esta lógica radica num dualismo filosófico que defende a separação radical entre a alma e o corpo. Segundo este princípio, o corpo é acidental, e não essencial, à existência humana. Logo, o corpo pode ser tratado como um mero instrumento: os seus processos naturais podem ser interrompidos, os seus membros saudáveis mutilados para ir ao encontro de uma ideia distorcida, ou pode ser descartado depois da morte, uma vez que a sua ligação à pessoa nunca teve real valor.

A compostagem humana corrói a dignidade da pessoa. Tenho uma compostagem no meu jardim, é para lá que mandamos o nosso lixo orgânico: cascas de banana, sacos de chá, borras de café, cascas de ovo, fruta incomestível e restos de legumes, abóboras podres, depois do Halloween.

O corpo humano não é um pedaço de lixo, é o modo essencial da nossa existência – somos almas incorporadas. A alma não tem qualquer vida, auto-compreensão ou experiências fora do corpo. A pessoa é mais do que o seu corpo, mas não pode viver nem ser conhecido sem ser no seu corpo.

Mesmo fora dos círculos cristãos as pessoas civilizadas acreditam que cada pessoa possui uma dignidade inerente que ninguém pode violar. Por causa da união essencial entre alma e corpo, respeitar essa dignidade implica respeitar também o corpo humano. Não podemos, por exemplo, causar danos físicos a alguém e dizer que estamos a respeitar a sua alma ao mesmo tempo. Por isso condenamos, e bem, o racismo e o sexismo, pois estes atacam a pessoa, devido a aparência do seu corpo. Ao menorizar o corpo, estes preconceitos desumanizam.

Ao reduzir o corpo humano a uma matéria informe, a compostagem humana também é uma forma de desumanização. Se os corpos são dignos de respeito em vida, também o são na morte. É por isso que ao longo de milénios tantas culturas, de tantas religiões diferentes, desenvolveram a prática de sepultar os seus mortos: faze-lo é um acto de homenagem a uma pessoa que em tempos foi filho, filha, irmão, irmã, esposo, pai, amigo ou vizinho de alguém – e deve ser homenageado como tal até na morte.

Contrariamente às aparências, a compostagem humana não acelera um processo natural. Sim, os corpos decompõem-se com o tempo, mas como se a própria natureza nos tivesse a dar uma lição de dignidade humana, aos ossos isso não acontece. Eles permanecem juntos, fixos na terra, como marcadores de um ser intacto, único, a recordação de uma pessoa que outrora viveu. Consideramos os cemitérios terra sagrada porque eles contêm algo especial. Permitimos aos mortos descansar em paz como testemunho ao facto de que eram pessoas que mereciam respeito em vida, e merecem ainda na morte.

Claro que do ponto de vista cristão o argumento para preservar o corpo na morte é ainda mais forte. No Natal celebramos o Deus que se fez homem, um evento que atribuiu à carne humana uma nobreza divina. O corpo humano é de tal forma abençoado por Deus, e de tal forma essencial à existência humana, que a morte traz apenas uma separação temporária da alma e do corpo. No final dos tempos Deus ressuscitará os nossos corpos decaídos da terra e transformá-los-á em corpos espirituais – tal como o de Cristo – com que serão reunidas as nossas almas. Proclamamos essa crença todos os domingos na recitação do Credo: “Espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir”.

Quando o Papa Francisco lamenta a nossa “cultura do descarte” contemporânea, que desrespeita os pobres e os marginalizados, implora-nos que recordemos que “Ninguém é descartável!”. A este uso figurativo do termo devemos acrescentar agora, infelizmente, o sentido literal: nenhum ser humano, em vida ou na morte, deve ser descartado como lixo para apodrecer num monte de compostagem.

Não há apelos ao consentimento ou amor pela terra que justifiquem tratar o corpo humano como lixo, transformando-o em terra para embelezar os nossos jardins. A edificação da terra não se pode fazer à custa da dignidade humana, que se decompõe ao mesmo ritmo que o corpo, caso aceitemos tolerar a compostagem como apenas mais uma “escolha de vida”.


David G. Bonagura, Jr. leciona no Seminário de São José, em Nova Iorque. É autor de Steadfast in Faith: Catholicism and the Challenges of Secularism, que será lançado no próximo inverno pela Cluny Media.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 11 de Janeiro de 2023 no The Catholic Thing)

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Wednesday, 2 November 2022

Daqui até à Eternidade

Randall Smith

Poucas coisas desafiam a nossa tranquilidade e provocam em nós um sentido de temor existencial mais profundo do que a recordação da morte. Se tudo aquilo que procurámos alcançar – tudo o que aprendemos e experienciámos, toda a gente a quem amámos – se resume a nada, haverá, pensamos nós, algum sentido para a vida?

O Vaticano II observa, e bem, que: “É em face da morte que o enigma da condição humana mais se adensa. Não é só a dor e a progressiva dissolução do corpo que atormentam o homem, mas também, e ainda mais, o temor de que tudo acabe para sempre” (Gaudium et Spes, 18).

Ao longo da história muitas pessoas se convenceram de que deve haver uma vida depois da morte para que a vida tenha algum sentido. E, porém, algumas das concepções da vida depois da morte também tornam esta vida sem sentido.

Se o Céu é assim tão maravilhoso, porquê perder o nosso tempo na terra? E o que é feito de tudo aquilo pelo qual nos esforçámos? Todas as nossas relações, os nossos amores, a nossa dedicação aos outros? As coisas que amamos são simplesmente abandonadas quando morremos? Para muitos, mesmo aqueles que crêem na vida depois da morte, o maior medo que existe é de perderem as ligações com aqueles que amam.

Assim, também, a ideia do tipo de boa vida que devemos ter nesta vida não deve contradizer a vida abençoada no Céu, e vice-versa. Se a “melhor vida para o homem” é uma vida de virtude, então não podemos, sob risco de sermos culpados de grave inconsistência, afirmar que a vida dos bem-aventurados no Céu envolve relações sexuais dissolutas com setenta virgens.

De igual modo, se um cristão crê que o Céu é um reino de amor abnegado de Deus e dos outros, mas vive a vida presente em busca de riqueza, poder e estatuto, então essa pessoa não compreendeu a relação essencial entre esta vida e a próxima.

Uma das coisas que a divina Revelação nos mostra, e que se confirma de forma mais plena nas aparições de Jesus Ressuscitado, é que a promessa de Cristo de vida eterna inclui a ressurreição do corpo. Infelizmente, muitos cristãos parecem não ter noção desta crença central da nossa fé. Apesar de repetirmos em cada recitação do credo que cremos “na ressurreição da carne”, é raro o cristão que verdadeiramente se apercebe deste ensinamento cristão.

Se um cristão afirma que a morte implica a libertação da alma do corpo, como Sócrates parece ter defendido, então estariam em contradição não apenas com o ensinamento de São Paulo sobre a ressurreição da carne, mas também com o entendimento cristão da unidade intrínseca entre corpo e alma. Mesmo os cristãos que sabem que a fé implica acreditar na ressurreição da carne perguntarão o que é que isso significa.

Esta é, obviamente, uma questão muito importante, demasiado complexa para encaixar num curto artigo como este, por isso o leitor perdoar-me-á se eu aproveitar para falar do meu novo livro, From Here to Eternity: Reflections on Death, Immortality, and the Resurrection of the Body que acaba de ser publicado pela Emmaus Press. Deixem-me dar-vos só umas luzes, para que decidam por vós se é o género de coisa que gostariam de ler (ou de oferecer a muitos amigos – não que eu esteja a insinuar nada…).

No livro argumento que a revelação mais plena da visão cristã da vida depois da morte se dá na pessoa do Cristo ressuscitado. Há outras imagens de “Céu” nas Escrituras, e não estão desprovidas de importância, mas não deixam de ser apenas imagens. A revelação mais central e importante da vida após a morte é dada pelo próprio Cristo, no seu corpo ressuscitado.

Essa revelação assegura-nos que, depois da morte, podemos, se respondermos às graças que Deus nos deu, partilhar de forma plena no amor trino de Pai, Filho e Espírito Santo. Mas mostra também que estaremos unidos a Deus de tal forma que não perdemos a nossa identidade ou a nossa relação com aqueles que amamos. O Cristo ressuscitado que se revela a si mesmo no Cenáculo continua a ser Jesus, aquele que eles conheciam, e não um “espírito” gnóstico que se libertou depois da morte do seu corpo.

Maria e os Santos não foram “absorvidos” por Deus como uma gota de água a regressar ao oceano. Permanecem pessoas distintas, ainda ligadas a nós no amor, mas cada vez mais intimamente, não só junto a nós, mas agora acima e dentro de nós, rezando por nós de uma forma ainda mais potente a cada momento, unidos a nós precisamente porque unidos ao Corpo Ressuscitado de Cristo.

A Ressurreição de Cristo e a ressurreição geral dos fiéis dão-nos esperança – não apenas a esperança de uma fuga desta vida, deixando para trás todos aqueles que amamos, mas sim uma esperança na transformação e na redenção desta vida – uma caminhada que, ainda que apenas encontre o seu destino na próxima vida, começa agora, hoje, nesta vida.

“Fomos sepultados com ele na morte por meio do batismo”, escreve São Paulo aos Romanos, “a fim de que, assim como Cristo foi ressuscitado dos mortos mediante a glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova.”

Tal como a Igreja há muito que ensina que a graça não viola a natureza, antes a aperfeiçoa, assim também a noção cristã da vida depois da morte não nega o valor desta vida, mas aperfeiçoa-a. A promessa cristã é de que, quando vivemos as nossas vidas em continuidade com Cristo crucificado e ressuscitado, estamos a viver agora uma antevisão da vida de que gozam os bem-aventurados – todos os santos que por estes dias celebramos – no Céu.

Assim, a mensagem crista é esta: Comecem a viver agora a vida do céu, que é a vida do Cristo crucificado e ressuscitado, uma vida purgada do nosso falso eu e do seu egoísmo, abrindo assim caminho para uma “vida eterna”, uma vida devotada ao amor abnegado por Deus e pelo próximo. A “Boa Nova” é o conhecimento de que nenhum poder no mundo, por maior que seja, nem mesmo a morte, pode separar-nos desse amor por Deus e pelo próximo.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 1 de Novembro de 2022)

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Wednesday, 6 April 2022

Esperança e Morte

A semana passada marcou o quinto aniversário da morte do meu pai. Tinha apenas 60 anos quando morreu. Morreu durante a Quaresma, o que nunca deixará de me parecer adequado. A Quaresma é uma boa altura para nos recordarmos, por mais doloroso que seja, de como a vida é fugaz. Também é uma boa altura para contemplar a forma como a fragilidade humana é transformada pelos eventos gloriosos para os quais este tempo quaresmal nos prepara.

Para um filho que perdeu o pai é fácil desejar que as coisas não fossem como são. É tentador deter-nos nas inumeráveis possibilidades do que poderia ter sido – netos que ficaram por conhecer, músicas por cantar, alegrias por partilhar. Mas deixarmo-nos levar por essa tristeza – e admito que há uma certa doçura em fazê-lo – apenas disfarça a belíssima gratuidade da vida, por mais breve que seja. O facto de tudo não ser como eu gostaria é um pequeníssimo preço a pagar por ter existido de todo.

A Quaresma é um tempo de preparação, de olhar para o futuro. De certa forma a Quaresma é-me mais cara desde que o meu pai morreu. A esperança da Páscoa é a esperança do que há de vir, a esperança da restauração, da ressurreição. Mas a esperança não é só para o futuro. A esperança muda o espectro de como podemos sofrer, daquilo pelo qual estamos dispostos a sofrer. A esperança permite-nos, como São Paulo, contar tudo o que seja o aqui e agora como perda. A esperança liberta-nos. 

Há um episódio da grande série da HBO sobre a II Guerra Mundial, “Band of Brothers”, sobre o qual penso com frequência e que ilustra esta questão. O cabo Albert Blithe salta de paraquedas para a Normandia na véspera do Dia-D. No caos que se segue, separa-se do seu pelotão. Mas em vez de partir em busca dos seus camaradas, Blithe esconde-se numa valeta, por baixo de uma sebe, com medo. Tal é o pânico, que sofre de “cegueira histérica”. Ou seja, teve tanto medo que ficou literalmente sem ver.

Blithe acaba por recuperar a visão e reagrupa-se com os seus camaradas, mas está assombrado por o que considera ser a sua cobardia – um sentimento reforçado pelos actos de bravura que testemunha à sua volta. Certa noite, na linha da frente, Blithe encontra o Tenente Speirs, um homem com uma reputação de brutalidade sanguinária. Blithe decide confessar a sua cobardia a Speirs e a resposta que este lhe dá, sobre o medo face à morte, ficou na minha memória.

Speirs: Sabes porque é que te escondeste nessa valeta, Blithe?

Blithe: Estava com medo…

Speirs: Todos temos medo. Tu escondeste-te naquela valeta porque achas que ainda há esperança. Mas, Blithe, a única esperança que tens está em aceitar o facto de já estares morto. E quanto mais depressa o aceitares, mais depressa conseguirás agir como um soldado deve agir, sem misericórdia, sem compaixão, sem remorsos. Toda a guerra depende disso.

Esta visão de Speirs é obscura e pagã. Mas se a sua visão é pagã também possui um certo realismo. A falsa esperança da autopreservação, a falsa esperança de que podemos adiar indefinidamente a morte, leva apenas a paralisia e medo ofuscantes (literalmente, no caso de Blithe). Se a morte significa o aniquilamento e o esquecimento, então a única opção que temos perante a morte é a aceitação. Esta realização livra-nos da cegueira da falsa esperança e permite-nos ver com mais claridade a tarefa que temos pela frente.

E São Paulo, que sabe uma coisa ou duas sobre cegueira, concorda! “Se é somente para esta vida que temos esperança em Cristo, somos, de todos os homens, os desgraçados”. Speirs aconselha Blithe a abandonar a esperança para poder ver claramente a difícil tarefa que tem de desempenhar. Tal como Speirs, também Paulo sabe que a sua vida está perdida. Mas uma vez que ele vê pelos olhos da fé – “Fui crucificado com Cristo, porém já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” – a visão de Paulo estende-se não só para o que fica deste lado da morte, mas através dela e mais além.

Como o Papa Bento XVI escreveu na Spe Salvi, “o Evangelho não é apenas uma comunicação de realidades que se podem saber, mas uma comunicação que gera factos e muda a vida. A porta tenebrosa do tempo, do futuro, foi aberta de par em par. Quem tem esperança, vive diversamente; foi-lhe dada uma vida nova.”

Acrescente-se a esperança Cristã, nascida da fé, à inevitabilidade da morte e toda a experiência humana se altera. A esperança cristã não previne a morte. A esperança cristã não atrasa sequer a morte. Mas uma vez que a esperança cristã é a esperança na vida eterna, altera completamente a forma como vivemos o aqui e o agora. A nossa esperança por aquilo que virá liberta-nos da necessidade de nos agarrarmos demais à vida. A esperança permite-nos viver a nossa vida generosamente e sem medo. A esperança liberta-nos para enfrentar a Cruz e abraçá-la.

Este é o coração da Boa Nova: A esperança, nascida da fé, liberta-nos para o amor. Aquele que tenta salvar a sua própria vida – para preservar aquilo que no final de contas não pode ser preservado – perdê-la-á. Quem perder a sua vida por amor – aquele que sabe que já morreu em Cristo, e para quem tudo o resto é perda – é quem receberá a vida eterna.

A nossa esperança não está em prevenir ou evitar a morte, mas em aceitar o facto de já termos morrido em Cristo. Quanto mais cedo aceitarmos isso, mais depressa poderemos viver como um cristão deve viver: cheios de misericórdia, cheios de compaixão, e cheios de esperança.

A Quaresma é um tempo em que devemos praticar a morte: morrer para nós mesmos de formas pequenas e grandes. Para o mundo isto é mera cegueira. Mas as muitas mortes da Quaresma são uma lembrança da nossa esperança que nos liberta para viver a Páscoa… E tudo o que fica adiante.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na terça-feira, 29 de Março de 2022)


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Wednesday, 3 November 2021

“A Memória dos Nossos Mortos”

Tanya-Renee Laframboise

As listas têm algo de paradoxal. Por um lado, haverá coisa mais aborrecida no mundo? Uma itemização mundana de questões diversas de que não se pode dar ao luxo de esquecer, mas que também não tem importância suficiente para se dar ao trabalho de memorizar. Por outro lado, a lista tem poder. Poder real. Não interessa se é uma lista de pessoas, compras ou inventário. Alguém, algures, achou suficientemente importante para tomar nota.

Isso deve fazer-nos pensar. Porque seja o que for que se coloca numa lista, podemos ter a certeza que a pessoa que a fez lá chegará. Será tomada uma acção. (E Deus proteja aqueles que, cada vez, mais, dão por si nas listas erradas.)

Seja como for, recentemente estive a pôr a conversa em dia com um teólogo respeitado, ao longo de alguns meses. Os nossos telefonemas tendem a ser conversas sobre interesses partilhados. Da última vez que falámos ele referiu uns livros de um jesuíta dos finais do Século XIX que poderiam ajudar a aprofundar o tema.

Bom. No que toca a este tipo de assuntos eu faço listas. Eu gosto de listas.

Por isso, enquanto ele referia os nomes dos livros eu ia escrevendo na minha listagem de “Livros a Ler ou Adquirir”, que guardo debaixo da lista longa e (ridiculamente) alfabetizada de livros que atualmente possuo. Foi com surpresa que vim a perceber que já tenho algumas das suas obras. Simplesmente eu tinha-me esquecido do nome do padre.

E é sobre a recordação desses nomes em particular que eu quero falar aqui.

A verdade é que uma lista de nomes pode ser a mais aborrecida de todas, sobretudo se não virmos uma ligação a nós mesmos. Lembram-se da chamada? Quando eramos crianças parecia interminável. E hoje em dia podemos observar os olhos dos adultos a embaciar quando escutam as genealogias nas Escrituras, na Missa.

Sim, tanto a Escritura como a Igreja tratam a genealogia – linhagem e listas de nomes – com reverência. E por boas razões. Num certo sentido, os bispos e os padres que estes ordenam têm uma linhagem milenar própria, a Sucessão Apostólica.

E o Cânone Romano guarda cuidadosamente uma lista de alguns dos primeiros mártires e santos, como eram invocados desde os primeiros tempos na liturgia. Foi a Igreja que declarou canónicos e inspirados por Deus os Evangelhos de Lucas e de Mateus. Se essas genealogias do Evangelho não nos dizem nada agora é porque não lemos devidamente a Bíblia. Porque esses nomes diziam algo a Jesus. Cada um deles é simultaneamente uma pessoa e uma história. Todos somos a nossa história, incluindo Cristo.

Há anos eu era uma genealogista certificada, numa altura em que era preciso mais do que uma assinatura num site, um computador e desenrascanço. Nessa altura procurava explicar aos que me pediam para investigar as suas linhagens que deviam querer mais do que uma mera lista de nomes. Queremos conhecer os indivíduos em si. Os seus esforços, os seus triunfos, as suas dores de alma. Como é que a fé pesava nas suas vidas? Que histórias eram as suas?


Raramente ligavam ao que eu dizia. A maioria das pessoas queria era descobrir uma pessoa famosa na sua família. Caso não surgisse ninguém, ficavam desapontados e queixavam-se de ter uma lista de “ninguéns”.

Não existe tal coisa como um “ninguém.”

Há almas que, tendo vivido as suas vidas de barro, partem para o seu juízo final. E como diz nas escrituras, “que coisa terrível é cair nas mãos do Deus vivo” (Heb 10,31). Merecem o nosso respeito e as nossas orações. Deram-nos vida.

Mas a outra coisa que tentava incutir nestas pessoas era de guardarem uma “árvore” dos padres que tinham ministrado às suas famílias ao longo dos anos. Os que constam dos registos baptismais e de casamento. Os homens que pregaram, absolveram e sepultaram os seus antepassados. Porque eles também fazem parte da sua história. E merecem ser recordados. 

Já vivi numa série de paróquias em que havia noites de oração semanais diante do Santíssimo para expiação dos pecados do clero. Realizavam-se em noites diferentes ao longo do mês. A experiência da primeira dessas noites marcou-me de uma forma assustadora. Nomeadamente a noção de que as almas de alguns destes homens, salvos apenas pela misericórdia de Deus e pelas orações dos outros, eram praticamente indistinguíveis dos nomes dos condenados. Nunca mais me esqueci dessa noite.

Nada que me tivesse ocorrido quando era criança. Nessa altura ainda se fazia uma procissão à luz da vela através do cemitério para rezar pelas Pobres Almas. Com grande solenidade, o padre transportava o Santíssimo pela escuridão da noite até à capela do cemitério. Os fiéis andavam em torno das campas, passando pelo monte onde estavam enterrados os padres, cantando litanias e rezando pelos mortos. Depois dispersavam, cada um para as campas dos seus familiares.

Ninguém parava junto ao monte.

Podemos perdoar o facto de uma criança pensar que os padres eram santos e não precisavam de orações. Os adultos podem ser perdoados por não quererem ficar mais tempo ao frio gélido. Mas hoje vejo as coisas de outra forma. E preocupa-me. E o padre que liderava essas procissões? Também me esqueci do nome dele. E isso também me preocupa.

Porque seja o que for que um padre é – santo ou pecador, zeloso ou indolente – não deixa de providenciar os sacramentos ao povo. Não deixa de oferecer o Sacrifício a Deus. Não deixa de se apresentar no dia do seu juízo, necessitado de orações. Mas sem herdeiros para além daqueles a quem ministraram, quem recordará os seus nomes diante do Senhor?

Todos os anos, por volta deste dia, vou buscar a mais valiosa de todas as minhas listas: as genealogias da minha família. E faço um rol dos mortos a lembrar nas minhas orações. Mas incluo na listagem os homens que tornaram possível a vida de fé da minha família. E cujo juízo final reflectirá a exigência mais alta a que foram chamados.

De facto, todos somos a nossa história. Mas estes homens formam dela uma parte crucial.


Taynia-Renee Laframboise é escritora, oradora e estudante de Sagrada Escritura, com licenciaturas de Marquette e de Notre Dame. É especializada em antropologia teológica e exegese patrística. Agradece todos os comentários e perguntas dos leitores, que podem ser enviados para tfranche@protonmail.com

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 30 de outubro de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Tuesday, 2 November 2021

A morte, sob várias perspectivas

Estamos a dois dias da votação da nova versão da lei da eutanásia. A Associação de Juristas Católicos critica este processo, o Dr. Pedro Vaz Patto, juiz desembargador e presidente da Comissão Nacional de Justiça e Paz espera que Marcelo Rebelo de Sousa vete a lei e o especialista em bioética, Michel Renaud, explica porque é que a lei – seja aprovada ou não – não presta.

O Papa Francisco esteve esta terça-feira no cemitério militar francês em Roma, onde criticou “as vítimas da guerra que devora os filhos da pátria”. Francisco mandou também uma mensagem para a Cimeira Climática que está a decorrer em Glasgow.

Chamo a vossa atenção para a entrevista conjunta da Ecclesia e da Renascença desta semana, com o provedor da Irmandade da Misericórdia e São Roque. Os voluntários da irmandade acompanham enterros daqueles que morrem sozinhos e Mário Pinto fala sobre a terrível pandemia de solidão que afeta cidades como Lisboa.

Este fim-de-semana decorreu o V Fórum Europeu One of Us, em Lisboa. Saiba o que se passou aqui.

E temos a lamentar a morte de D. Basílio do Nascimento, um homem que marcou muito Timor-Leste e que foi fundamental em garantir uma transição pacífica para a independência em Bacau, como não aconteceu em Dili e outras partes.

Wednesday, 18 August 2021

Como Novo

Stephen P. White

Quando estava na segunda classe saltei de uma árvore, num bosque ao pé da minha casa. Aterrei de pé, mas o terreno era desigual, por isso apoiem-me com as mãos para não cair. Em vez de encontrar terra, folhas secas ou raízes, a minha mão direita enfiou-se diretamente nos cacos de uma garrafa de cerveja partida. O vidro castanho enterrou-se na carne da palma da minha mão, mesmo abaixo do dedão.

Apertei o pulso com força para diminuir a hemorragia. Temia que se corresse sangrasse mais, por isso regressei a casa a andar. Lembro-me de ter tido cuidado para não sujar com sangue a minha roupa. O meu pai, que era médico, olhou para a minha mão e comentou: “Parece que isso vai ter de levar uns pontos”.

Foi aí que me descontrolei e larguei a chorar.

Nunca tinha precisado de pontos. E de certa forma orgulhava-me disso. Já me tinha magoado antes, claro. Arranhões, nódoas negras, estiramentos. Mas era sempre o género de coisa que, com tempo, passava. Até aí, sarar significava sempre que as coisas se restauravam ao ponto em que estavam antes. Como novo.

Mas este corte na minha mão era diferente. Não iria desaparecer com o tempo. As coisas jamais seriam como tinham sido antes. Nunca seria “como novo”. Ainda tenho uma cicatriz rasgada, de cerca de um centímetro e meio, na minha palma direita. Foi esta realização, esta compreensão imediata da corruptibilidade irreversível do meu próprio corpo, que me incomodou tanto. Na altura não o saberia explicar dessa forma, mas foi um despertar bastante forte para um miúdo de oito anos.

Escusado será dizer que agora que me aproximo da meia-idade, recordo-me de muitos outros momentos envolvendo ferimentos e perdas muito mais graves que aquele corte na minha mão e alguns pontos.

Talvez seja só eu, mas estes dias em que vivemos parecem revelar cada vez mais sinais da corrupção que nos rodeia. Talvez seja da pandemia. Talvez seja do facto dos Chicago Cubs estarem a vender todos os meus jogadores preferidos. Talvez seja a nossa vida política, interminavelmente cansativa. Talvez a loucura de uma cultura cada vez mais divorciada da realidade. Talvez os escândalos e as falhas da Igreja nas últimas décadas. Talvez seja tudo isso junto.

Talvez estas sejam todas, de uma forma ou de outra, a mesma coisa. Afinal de contas, “as raposas têm tocas e as aves do céu têm os seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”.


O meu objetivo aqui não é de lamentar a condição humana, por miserável que seja. Fica sempre mal um cristão queixar-se do tempo em que vive. Cheira sempre a ingratidão e a ingratidão carrega sempre o odor do orgulho – como se fossemos demasiado bons para o mundo que encontrámos, ou demasiado importantes para ter de aturar a fragilidade da nossa própria natureza humana.

Fica mal a um cristão pensar assim precisamente porque este tipo de pensamento ignora o mistério central da fé cristã: Deus amou de tal forma o mundo – um mundo aparentemente indigno de amor – que enviou o seu único Filho, que tomou sobre si a nossa frágil humanidade, sofreu a morte e ressuscitou. Em Cristo encontramos a resolução perfeita e o cumprimento de toda a indeterminabilidade da existência humana. Como disse o Papa João Paulo II, Cristo é “a resposta existencialmente adequada para o desejo de bondade, verdade e vida que existe em todo o coração humano”.

Não estamos aqui perante uma mera abstração. Jesus conheceu a fome e a sede, a tentação e o sofrimento, a humilhação e a perda. Chorou pelo seu amigo Lázaro. Mas o seu plano para a salvação não passava por desfazer qualquer uma destas coisas. Alguns esperavam que ele restaurasse o reino e devolvesse Israel ao seu antigo poder e glória, mas Ele tinha outra coisa em mente. Quando ressuscitou, na manhã da Páscoa, as coisas não eram, certamente, como antes, nem sequer como tinham sido no início.

A nossa Salvação não é uma restauração, o inverter da corrupção, da fraqueza ou da mortalidade. O nosso destino não passa por retornar à forma como as coisas foram em tempos, antes de serem sujeitadas à corrupção. Antes, a nossa redenção passa precisamente através da corrupção, através do sofrimento, mesmo através da morte, para aquilo que está além. E este mundo, esta vida, simultaneamente quebrada e preciosa, é a nossa hipótese de aceitar uma parte daquilo que Ele tem para nos oferecer:

Deus está com os homens, com os quais ele viverá. Eles serão os seus povos; o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus. Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou.

Se, pela misericórdia de Deus, algum dia tiver a bênção de habitar na presença do Senhor, não sei se a minha palma direita ainda manterá a cicatriz. Não sei que outras marcas no meu corpo ou na minha alma me acompanharão na próxima vida. Mas sei uma coisa. Se ali estiver, será pela graça daquele que ainda carrega as marcas da sua própria crucificação.

E é esse quem declara: “Eis que eu renovo todas as coisas”.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 12 de Agosto de 2021)

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Wednesday, 14 April 2021

A Ressurreição dos Mortos

A imagem mais comum de Jesus é da crucifixão. Algumas mostram-no morto, pendurado, outros, mais icónicos, mostram-no na Cruz, sim, mas ressuscitado, de olhos abertos e braços estendidos, convidando todos a ir ter com Ele. No seu conjunto, estas imagens captam a dupla verdade de que Cristo morreu e ressuscitou. Ambas as afirmações estiveram sempre no cerne do credo cristão.

Se, como proclama São Paulo, “Cristo ressuscitou, e é primícias daqueles que adormeceram” (1 Cor. 15,20), então podemos compreender algo do que nos espera ao olhar atentamente para o que Cristo revelou com a sua morte e ressurreição. Uma coisa que deve ser imediatamente evidente é que a promessa cristã da vida eterna não é a mesma coisa que o objetivo transhumanista da imortalidade. A promessa de que os cristãos jamais morrerão não existe.

No Evangelho de João, pouco depois de Jesus ter lavado os pés dos seus discípulos, ele diz-lhes: “Na casa de meu Pai há muitos aposentos; se não fosse assim, eu vos teria dito. Vou preparar-vos um lugar. E se eu for e vos preparar um lugar, voltarei e levar-vos-ei para junto de mim, para que estejam onde eu estiver. Vocês conhecem o caminho para onde vou” (João 14, 2-4).

Só com base nesta afirmação podemos bem imaginar que Jesus está a dizer que vai para um lugar e que mais tarde mostrará aos apóstolos como é que lá se chega. Tomé, sem compreender, diz: “Senhor, nós não sabemos para onde vais, como podemos saber o caminho?” (Jo. 14,5). Mas Tomé não captou o sentido subtil das palavras de Jesus. Ele é “o caminho”. Por isso quando diz, “vocês conhecem o caminho”, o que quer dizer é “vocês conhecem-me, e Eu sou o caminho”. De facto, é precisamente isso que ele diz a Tomé: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. (João 14,5)

Perto do final do conto humorístico de Mark Twain “Os Diários de Adão e Eva”, Adão, que inicialmente tinha resistido a Eva, esta nova criatura que está a invadir o seu espaço, chora sobre a sua campa, tendo compreendido que “onde ela estava, aí estava o Éden”. O “Diário” de Twain é uma comédia romântica, e não uma obra de teologia complexa, mas levanta questões importantes: O paraíso é um lugar, ou uma pessoa? Enquanto cristãos não somos também chamados a reconhecer que o Paraíso não é apenas um lugar, mas sim a união a uma Pessoa (ou Pessoas) – Cristo, que envia o Espírito Santo para “implementar a caridade em todo o mundo no meu coração” e nos introduz numa união com o Pai?

Na Última Ceia Cristo diz aos seus discípulos que Ele deve partir, mas que depois enviará o Espírito Santo para os ajudar e guiar. E, eventualmente, Ele “parte” mesmo. Mas depois da sua morte na cruz faz uma pausa antes de regressar ao Pai (por assim dizer) e passa mais algum tempo com os discípulos.

Porquê? Não lhes tinha dito já tudo o que precisavam de saber? Não lhes mostrou “o Caminho?” Têm a prova da sua ressurreição dos mortos no túmulo vazio.

Talvez fossem necessárias uma ou duas aparições do ressuscitado para convencer os apóstolos de que ainda vive. Mas Ele permanece com eles durante 40 dias e aparece várias vezes. Porquê?


Se, como São Paulo afirma, Cristo é as “primícias” daquilo que os fiéis defuntos vão poder gozar na ressurreição geral, o que é que as suas aparências nos revelam sobre a vida ressuscitada?

Sugiro duas coisas.

Primeiro, a sua morta não o desligou, como se poderia pensar, do Pai; pelo contrário, Ele partilha inteiramente a glória do Pai, que é revelada mais plenamente agora que Ele ressuscitou dos mortos. Mas, em segundo lugar, a pessoa diante deles ainda é o Jesus que conheciam e amavam. Dizemos às vezes que a presença de Cristo entre os onze na sala onde estavam escondidos, era uma presença glorificada, mas isso não significa que Ele estava menos presente para eles do que durante a sua vida. Ainda podiam sentar-se, conversar e comer com Ele.

O que nos é prometido, então, pelo Cristo ressuscitado, que é as “primícias” daquilo que também nós vamos gozar, é de que poderemos, depois da morte, obter a união plena com Deus e partilhar da comunhão eterna de amor partilhada entre o Pai, Filho e Espírito Santo. E porém, nesta união com o Deus Trino, não nos vamos perder como um pingo de água no oceano.

Aquilo que muitos temem na morte, seja a deles ou a dos outros, é a perda da ligação com as pessoas que amam. Se pensamos que ir para o Céu é como ir para Cleveland (só que melhor), então ficamos tristes porque eles, ou nós, “vamos embora”, ainda que esperemos que seja para “um sítio melhor”. Mas se o Céu é uma união com o Pai em Cristo através do Espírito, e se Cristo vive e está em cada um de nós, então também nós nos mantemos em comunhão com os nossos entes queridos – mais intimamente e plenamente, até – no Corpo de Cristo e na comunhão dos santos.

Uma das maiores tragédias, quando as pessoas perdem a fé na Presença Real de Cristo na Eucaristia, é de que rapidamente perdem a sua esperança na comunhão dos santos – de que mesmo na morte continuamos presentes para os nossos amados e eles connosco. Se Cristo não ressuscitou e está presente para nós, então o mesmo se aplica a todos aqueles que amamos. E isso é algo demasiado triste para contemplar.

Por isso regozijemos na Boa Nova. Cristo ressuscitou, o amor não foi derrotado, as portas da morte foram escancaradas e os santos correm ao nosso encontro em alegria.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 7 de Abril de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 22 April 2020

Respeito pelo Corpo

Pe. Gerald E. Murray
A Páscoa é a revelação da verdade do dom da vida eterna que Deus nos dá: Cristo ressuscitou e a todos os que estão unidos a Ele numa relação viva de amizade nesta vida, será dada a plenitude dessa união na vida no Céu.

Este dom da vida eterna é dada à pessoa como um todo, corpo e alma. Quem for salvo viverá para sempre com Deus até à segunda vinda de Cristo para julgar os vivos e os mortos. As almas daqueles que morreram na graça de Deus aguardam no Céu ou no Purgatório a ressurreição dos seus corpos. As almas dos condenados também aguardam a ressurreição dos seus corpos, mas no Inferno.

Quando Cristo regressar, os corpos de todos os homens, mulheres e crianças que alguma vez viveram serão reunidos às suas almas. Os justos manter-se-ão eternamente unidos a Deus, em corpo e alma, no Céu e os condenados serão eternamente separados, corpo e alma, de Deus, no Inferno.

A doutrina da ressurreição dos corpos no dia do Juízo Final raramente é compreendida ou apreciada pelos crentes. Concentramo-nos sobretudo naquilo que acontece à alma quando morremos. Rezamos pelas almas dos fiéis defuntos, “que descansem em paz”, mas bem poderíamos acrescentar “e que ressuscitem em glória dos seus sepulcros”.

Talvez tenham visto as imagens dos restos mortais das vítimas do coronavírus aqui em Nova Iorque a serem sepultados em massa em Potters Field, na Ilha de Hart, ao largo do Bronx. As filas de caixões, enterrados juntos numa longa vala, são uma imagem marcante de morte, mas também de esperança.

Tratamos dos corpos daqueles que não são reivindicados por ninguém com dignidade e respeito. Esta é uma manifestação social da herança judaico-cristã que trata com reverência os restos mortais da mais alta criação de Deus sobre a terra. O homem, feito do pó da terra, é devolvido à mesma terra no final da sua peregrinação terrena. O seu corpo tornar-se-á pó novamente, mas Cristo ensinou-nos que esta não é a palavra final. Esses corpos são dele, por Ele aguardam, e devem ser sepultados num lugar condigno.

A visão inerente à prática de sepultar os mortos era, até há poucos anos, universalmente apreciada e aceite pelos católicos, reforçada pelo requisito eclesial de sepultar os batizados em terra consagrada, sempre que possível, e pela proibição da cremação, uma prática estranha à fé cristã.

É providencial, por isso, que o livro mais recente de Scott Hahn, “Hope to Die: The ChristianMeaning of Death and the Ressurrection of the Body”, escrito em coautoria com Emily Stimpson Chapman, tenha aparecido durante esta pandemia de coronavírus. Hahn escreve de forma eloquente sobre a realidade da morte e a natureza da vida celeste, e como teremos a bênção de aprender o sentido de tudo quando, e se, atingirmos a Visão Beatífica.

Mas não se trata apenas de uma experiência “espiritual”. “Deus ressuscitará os mortos – não apenas espiritualmente, mas fisicamente. Afinal de contas, se a ressurreição fosse apenas espiritual, então seria indiferente o que fazemos aos corpos depois da morte. Mas havendo uma ressurreição física, os corpos interessam. O que acontece aos corpos interessa. Como sepultamos os corpos interessa”.

Scott Hahn
Durante os meus 35 anos de sacerdócio assisti à rápida disseminação da cremação entre os católicos. Sempre foi uma coisa que me preocupou, mas aceito que São Paulo VI autorizou a prática, anteriormente proibida, em 1963. Como escreve Hahn: “Para a maioria dos cristãos, durante quase dois milénios, era impensável que se optasse por destruir totalmente corpos destinados à glória e já tocados pela graça… Desde os primeiros tempos, os cristãos sepultavam os seus mortos, como Cristo havia sido sepultado”.

O Cristianismo desenvolveu uma cultura em que se visitam as campas dos mortos e os ossos dos santos são venerados como relíquias. Deus, que fez os nossos corpos, nunca nos mandou queimar os restos mortais dos falecidos. Ao enterrar os mortos na terra estamos a confiar o seu corpo a Deus, tal como confiamos a sua alma, que temporariamente o abandonou.

Hahn recorda-nos de uma coisa que muitos tendem a esquecer, ou nunca souberam. “A Igreja não aprova a cremação; permite-a. Não permite que se espalhem as cinzas ou que sejam guardadas em casa; proíbe-o. Considera que a sepultura é a forma mais digna de cuidar dos corpos dos mortos até que regressam no dia do Juízo Final e encoraja-nos a seguir essa recomendação.”

Porquê esta renitência em relação à cremação? Hahn analisa o significado da cremação, por oposição ao enterro, independentemente das intenções subjetivas de quem a pede: “A cremação diz coisas sobre o corpo que são diretamente contrárias ao que a Igreja professa. Ensina que o corpo é descartável. Ensina que o corpo não é uma parte integral da pessoa e ensina que o corpo não tem valor depois de a alma partir, que já deu tudo o que tinha a dar e que mais nada lhe espera. Nem ressurreição, nem transformação nem glorificação”.

Claro que a maioria dos católicos que manda cremar os seus familiares não o faz por negar a ressurreição do corpo no Juízo Final. Mas a forma como tratamos os nossos mortos devia refletir a nossa esperança na ressurreição da carne. É evidente que Deus também ressuscitará as cinzas daqueles que foram cremados, unindo-as às suas almas. Não podemos mudar ou frustrar os planos de Deus para a humanidade. Mas temos de perguntar porque haveríamos de obliterar pelo fogo os corpos de mortos que foram santificados no baptismo?

A cremação é, na sua essência, um costume pagão. Os cristãos devem evitá-la e honrar a Deus, honrando, através de um enterro reverente, os restos mortais dos filhos de Deus que partiram antes de nós, na expectativa daquele grande reencontro da humanidade, corpos e almas unidos de novo, no Juízo Final.


O padre Gerald E. Murray, J.C.D. é pastor da Holy Family Church, em Nova Iorque, e especializado em direito canónico.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 19 de Abril de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 19 February 2020

Once more unto the breach...

Valha-nos São Crispim
É já amanhã que se vota a eutanásia. Mas a luta não acaba amanhã, só muda de palco.

Passei os últimos dias a trabalhar muitos artigos sobre este tema, deixo-vos links para alguns:


Escusado será dizer que o Conselho de Ética da Ordem dos Médicos chumbou todas as propostas. Até agora todos os pareceres que o Parlamento recebeu – TODOS – foram negativos…

Mudando de assunto, no seguimento do artigo que escrevi sobre crianças nos funerais, publiquei um parecido, mas em inglês, no The Catholic Thing, que podem ler aqui.

O artigo desta semana do The Catholic Thing é sobre o génio da arte sacra Fra Angelico, aconselho vivamente, nem que seja para contemplar a beleza numa altura em que bem estamos a precisar dela.

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