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Friday, 5 January 2024

Esclarecimentos necessariamente desnecessarios

Espero que tenham entrado da melhor maneira no novo ano, e que ele seja o mais abençoado possível.

O ano não podia ter acabado de pior maneira na Nicarágua, onde só nos últimos quinze dias do ano foram detidos cerca de 20 padres pelo regime sandinista, incluindo pelo menos um no próprio dia 31 de Dezembro.

A Nicarágua é apenas um de muitos países e regiões onde a Igreja sofre por perseguição ou falta de recursos. A fundação Ajuda à Igreja que Sofre existe para acudir a estes casos e ajudar da forma possível, seja materialmente, através de advocacia ou, muito importante, através da oração e do apoio espiritual. Nesta entrevista, a nova presidente executiva da fundação internacional, Regina Lynch, explicou-me quais são as prioridades da organização para o 2024.

Na Igreja continua-se a falar do Fiducia Supplicans. Depois de o prefeito do Dicastério da Doutrina da Fé ter dito que não haveria mais pronunciamentos ou esclarecimentos sobre a declaração, temos assistido a uma sucessão de… pronunciamentos e esclarecimentos, o mais recente na forma de um comunicado de imprensa. Fiz um apanhado da situação, e da polémica que tem gerado, neste texto.

Por cá, o Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, pediu o fim da “crispação” entre partidos e instituições e o Papa lamentou os dias “vazios de paz” que o mundo está a viver.

O artigo desta semana do The Catholic Thing assinala simultaneamente a solenidade de Maria, Mãe de Deus, que se celebrou no dia 1 de Janeiro, e também o aniversário da morte de Bento XVI. É um excerto da última homilia que ele fez enquanto Papa nessa solenidade, leiam que é muito bonito.

Wednesday, 3 January 2024

A Paz que é Dom de Deus

Assinalando o ano da morte de Bento XVI, e o início de um novo ano, publicamos neste dia a homilia, ligeiramente encurtada, que o anterior Papa fez no dia 1 de Janeiro de 2013, o seu último ano de pontificado.

Queridos irmãos e irmãs!

“Que Deus nos dê a sua graça e a sua bênção, e sua face resplandeça sobre nós”. Assim aclamamos com as palavras do Salmo 66, depois de termos escutado, na primeira leitura a antiga bênção sacerdotal sobre o povo da aliança. É particularmente significativo que, no início de cada ano novo Deus projete sobre nós, seu povo, o brilho do seu santo Nome, o Nome que é pronunciado três vezes na fórmula solene da bênção bíblica. Não menos significativo é o fato de que seja dado ao Verbo de Deus - que “se fez carne e habitou entre nós», como «a luz de verdade que ilumina todo ser humano” (Jo 1, 9.14) -, oito dias depois seu natal - como nos narra o Evangelho de hoje - o nome de Jesus (cf. Lc 2, 21)

(…)

O homem é feito para a paz, que é dom de Deus. Tudo isso me sugeriu buscar inspiração, para esta Mensagem, às palavras de Jesus Cristo: “Bem-aventurados os obreiros da paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5, 9).

Esta bem-aventurança “diz que a paz é, simultaneamente, dom messiânico e obra humana.... é paz com Deus, vivendo conforme à sua vontade; é paz interior consigo mesmo, e paz exterior com o próximo e com toda a criação” (Ibid., 2 e 3). Sim, a paz é bem por excelência que deve ser invocado como um dom de Deus e, ao mesmo tempo, que deve ser construído com todo o esforço.

Podemos perguntar-nos: qual é o fundamento, a origem, a raiz dessa paz? Como podemos sentir em nós a paz, apesar dos problemas, da escuridão e das angústias? A resposta nos é dada pelas leituras da liturgia de hoje. Os textos bíblicos, a começar pelo Evangelho de Lucas, há pouco proclamado, nos propõe a contemplação da paz interior de Maria, a Mãe de Jesus.

Durante os dias em que “deu à luz o seu filho primogênito” (Lc 2,7), Maria deve de afrontar muitos acontecimentos imprevistos: não só o nascimento do Filho, mas antes a árdua viagem de Nazaré à Belém; não encontrar um lugar no alojamento; a procura de um abrigo improvisado no meio da noite; e depois o cântico dos anjos, a visita inesperada dos pastores.
Maria, no entanto, não se perturba com todos estes fatos, não se agita, não se abala com acontecimentos que lhe superam; Ela simplesmente considera, em silêncio, tudo quanto acontece, guardando na sua memória e no seu coração, refletindo com calma e serenidade. É esta é a paz interior que queremos ter em meio aos acontecimentos às vezes tumultuosos e confusos da história, acontecimentos cujo sentido muitas vezes não conseguimos compreender e que nos deixam abalados.

A passagem do Evangelho termina com uma menção à circuncisão de Jesus. Conforme a Lei de Moisés, oito dias após o nascimento, o menino devia ser circuncidado, e nesse momento lhe era dado o nome. O próprio Deus, através de seu mensageiro, dissera a Maria - e também a José – que o nome a ser dado para a criança era “Jesus” (cf. Mt 1, 21; Lc 1, 31), e assim aconteceu. Aquele nome que Deus já tinha estabelecido antes mesmo que o Menino fosse concebido, lhe é dado oficialmente no momento da circuncisão.

E isto marca definitivamente a identidade de Maria: ela é “a mãe de Jesus”, ou seja, a mãe do Salvador, do Cristo, do Senhor. Jesus não é um homem como qualquer outro, mas é o Verbo de Deus, uma das Pessoas divinas, o Filho de Deus: por isso a Igreja deu a Maria o título de Theotokos, ou seja, “Mãe de Deus”.

A primeira leitura nos recorda que a paz é um dom de Deus e está ligada ao esplendor da face de Deus, de acordo com o texto do Livro dos Números, que transmite a bênção usada pelos sacerdotes do povo de Israel nas assembleias litúrgicas. Uma bênção que por três vezes repete o santo Nome de Deus, o nome impronunciável, ligando a cada repetição o santo Nome a dois verbos que indicam uma ação em favor do homem: «O Senhor te abençoe e te guarde. O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face, e se compadeça de ti. O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz» (6, 24-26). A paz é, portanto, o ponto culminante dessas seis ações de Deus em nosso favor, em que Ele nos dirige o esplendor da sua face.

Para a Sagrada Escritura, a contemplar a face de Deus é a felicidade suprema: «o cobristes de alegria em vossa face», diz o salmista (Sl 21, 7). Da contemplação da face de Deus nascem alegria, paz e segurança. Mas o que significa concretamente contemplar a face do Senhor, tal como se entende no Novo Testamento?

Significa conhecê-Lo diretamente, tanto quanto é possível nesta vida, através de Jesus Cristo, no qual Deus se revelou. Deleitar-se com o esplendor da face de Deus significa penetrar no mistério de seu Nome manifestado a nós por Jesus, compreender algo da sua vida íntima e da sua vontade, para que possamos viver de acordo com seu desígnio de amor para a humanidade.

O apóstolo Paulo expressa justamente isso na segunda leitura, da Carta aos Gálatas (4, 4-7), afirmando que do Espírito, que no íntimo dos nossos corações, clama: “Abá! Ó Pai». É o clamor que brota da contemplação da verdadeira face de Deus, da revelação do mistério do Nome. Jesus diz: «Manifestei o teu nome aos homens” (Jo 17, 6).

O Filho de Deus feito carne nos deu a conhecer o Pai, nos fez perceber no seu rosto humano visível a face invisível do Pai; através do dom do Espírito Santo derramado em nossos corações, nos fez conhecer que n’Ele nós também somos filhos de Deus, como diz São Paulo na passagem que escutamos: “Porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abá! Ó Pai” (Gal 4, 6).

Queridos irmãos e irmãs, eis o fundamento da nossa paz: a certeza de contemplar em Jesus Cristo o esplendor da face de Deus, de ser filhos no Filho e ter, assim, na estrada da vida, a mesma segurança que a criança sente nos braços de um Pai bom e onipotente. O esplendor da face do Senhor sobre nós, que nos dá a paz, é a manifestação da sua paternidade; o Senhor dirige sobre nós a sua face, se mostra como Pai e nos dá a paz. Aqui está o princípio daquela paz profunda – “paz com Deus” – que está intimamente ligada à fé e à graça, como escreve São Paulo aos cristãos de Roma (Rm 5, 2).

Nada pode tirar daqueles que creem esta paz, nem mesmo as dificuldades e os sofrimentos da vida. De fato, os sofrimentos, as provações e a escuridão não corroem, mas aumentam a nossa esperança, uma esperança que não decepciona, porque "o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado" (Rm 5, 5).

Que a Virgem Maria, que hoje veneramos com o título de Mãe de Deus, nos ajude a contemplar a face de Jesus, Príncipe da Paz. Que Ela nos ajude e nos acompanhe neste novo ano; que Ela obtenha para nós e para o mundo inteiro o dom da paz. Amém!


Bento XVI, Joseph Aloisius Ratzinger, foi eleito Papa a 19 de Abril de 2005, tornando-se o 265º sucessor de São Pedro. Tornou-se Papa emérito com a sua resignação, a 28 de Fevereiro de 2013. Morreu, aos 95 anos, no dia 31 de Dezembro de 2022.

(Publicado em The Catholic Thing na Segunda-feira, 1 de Janeiro de 2024)

© 2024 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Wednesday, 14 June 2023

Tornar perceptível o bater do Senhor

Corpus Christi 
Bento XVI
é uma festa singular e constitui um encontro importante de fé e de louvor para cada comunidade cristã. É uma festa que teve origem num determinado contexto histórico e cultural: nasceu com a finalidade de reafirmar abertamente a fé do Povo de Deus em Jesus Cristo vivo e realmente presente no santíssimo Sacramento da Eucaristia. É uma festa instituída para adorar, louvar e agradecer publicamente ao Senhor, que "no Sacramento eucarístico continua a amar-nos "até ao fim", até à doação do seu corpo e do seu sangue" (Sacramentum caritatis, 1).

Corpus Christi constitui assim uma retomada do mistério da Quinta-Feira Santa, quase em obediência ao convite de Jesus para "proclamar sobre os telhados" o que Ele nos transmitiu no segredo (cf. Mt 10, 27). Os Apóstolos receberam do Senhor o dom da Eucaristia na intimidade da Última Ceia, mas destinava-se a todos, ao mundo inteiro.

Eis por que deve ser proclamado e exposto abertamente, para que todos possam encontrar "Jesus que passa" como acontecia pelas estradas da Galileia, da Samaria e da Judeia; para que todos, recebendo-o possam ser curados e renovados pela força do seu amor. É esta, queridos amigos, a herança perpétua e viva que Jesus nos deixou no Sacramento do seu Corpo e do seu Sangue.

Precisamente porque se trata de uma realidade misteriosa que ultrapassa a nossa compreensão, não devemos surpreender-nos se também hoje muitos têm dificuldade em aceitar a presença real de Cristo na Eucaristia. Não pode ser de outra forma. Foi assim desde o dia em que, na sinagoga de Cafarnaum, Jesus declarou abertamente ter vindo para nos dar em alimento a sua carne e o seu sangue (cf. Jo 6, 26-58).

A linguagem pareceu "dura" e muitos se retiraram. Então como agora, a Eucaristia permanece "sinal de contradição" e não pode deixar de sê-lo, porque um Deus que se faz carne e se sacrifica a si mesmo pela vida do mundo põe em dificuldade a sabedoria dos homens.

Mas com humilde confiança, a Igreja faz sua a fé de Pedro e dos outros Apóstolos, e com eles proclama, e nós proclamamos: "A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna" (Jo 6, 68). Renovemos também nós esta tarde a profissão de fé em Cristo vivo e presente na Eucaristia. Sim, "é certeza para nós cristãos: / o pão transforma-se em carne, / o sangue faz-se vinho".

Como o maná para o povo de Israel, assim para cada geração cristã a Eucaristia é alimento indispensável que ampara enquanto atravessa o deserto deste mundo, ressequido por sistemas ideológicos e económicos que não promovem a vida, mas ao contrário a mortificam; um mundo no qual domina a lógica do poder e do ter em vez da do serviço e do amor; um mundo no qual com frequência triunfa a cultura da violência e da morte.

Mas Jesus vem ao nosso encontro e infunde-nos segurança: Ele mesmo é "o pão da vida" (Jo 6, 35.48). Repetiuno-lo nas palavras do Cântico ao Evangelho: "Eu sou o pão vivo descido do céu; quem come deste pão viverá eternamente" (cf. Jo 6, 51).

São Lucas, narrando o milagre da multiplicação dos dois peixes e dos cinco pães com que Jesus deu de comer à multidão "numa zona deserta" conclui dizendo: "Todos comeram e ficaram saciados" (cf. Lc 9, 11b-17).

Em primeiro lugar gostaria de ressaltar este "todos". De facto é desejo do Senhor que cada ser humano se alimente da Eucaristia, porque a Eucaristia é para todos.

Se na Quinta-Feira Santa é ressaltado o vínculo estreito que existe entre a Última Ceia e o mistério da morte de Jesus na cruz, hoje, festa do Corpus Christi, com a procissão e a adoração coral da Eucaristia chamamos a atenção sobre o facto de que Cristo se imolou pela humanidade inteira. A sua passagem entre as casas e pelas estradas da nossa Cidade será para quantos nela habitam uma oferenda de alegria, de vida imortal, de paz e de amor.

No trecho evangélico, sobressai um segundo elemento: o milagre realizado pelo Senhor contém um convite explícito a oferecer cada qual a própria contribuição. Os dois peixes e os cinco pães indicam a nossa contribuição, pobre mas necessária, que Ele transforma em doação de amor por todos.

No final da Celebração eucarística unir-nos-emos em procissão, como que para levar idealmente o Senhor Jesus por todas as estradas e bairros de Roma. Imergi-lo-emos, por assim dizer, na quotidianidade da nossa vida, para que Ele caminhe onde nós caminhamos, para que Ele viva onde nós vivemos.

De facto, sabemos como nos recordou o apóstolo Paulo na Carta aos Coríntios, que em cada Eucaristia, também na desta tarde, nós "anunciamos a morte do Senhor até que ele venha" (1 Cor 11, 26). Nós caminhamos pelas estradas do mundo sabendo que O temos ao nosso lado, amparados pela esperança de o poder ver um dia face a face revelado no encontro definitivo.

Entretanto, já agora ouvimos a sua voz que repete, como lemos no Livro do Apocalipse: "Olha que Eu estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, Eu estarei na minha casa e cearei com ele e ele comigo" (Ap 3, 20).

A festa do Corpus Christi quer tornar perceptível, não obstante a surdez do nosso ouvido interior, este bater do Senhor. Jesus bate à porta do nosso coração e pede-nos para entrar não só pelo espaço de um dia, mas para sempre. 

- Excerto da homilia do Papa Bento XVI no dia do Corpo de Cristo de 2007


Bento XVI, Joseph Aloisius Ratzinger, foi eleito Papa a 19 de Abril de 2005, tornando-se o 265º sucessor de São Pedro. Tornou-se Papa emérito com a sua resignação, a 28 de Fevereiro de 2013. Morreu, aos 95 anos, no dia 31 de Dezembro de 2022.

(Publicado em The Catholic Thing no domingo, 11 de Junho de 2023)

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Friday, 13 January 2023

O legado de Bento XVI e os avisos do Cardeal Pell

A Igreja despediu-se a semana passada de Bento XVI, num belíssimo funeral presidido por Francisco. Será este o novo normal do Vaticano, a que nos devemos habituar? A resignação vai tornar-se regular? Falámos de tudo isto para o novo episódio do podcast Hospital de Campanha, com Henrique Mota, o fundador da Princípia Editora, provavelmente o homem que mais obras de Bento XVI publicou em língua portuguesa. Henrique Mota também privou algumas vezes com o antigo Papa e neste episódio recordamos a sua personalidade e alguns aspectos da sua teologia que mais nos marcaram.

Não deixem de ler os dois artigos de homenagem a Bento XVI do The Catholic Thing da semana passada, de Robert Royal e de David Warren. O desta semana também é sobre Ratzinger, nomeadamente sobre o seu importantíssimo legado teológico.

Entretanto fomos apanhados de surpresa pela morte de outro homem importante na Igreja, o cardeal australiano George Pell. O cardeal ficou conhecido por ter sido acusado e condenado a pena efectiva de prisão por abusos sexuais, mas depois foi ilibado pelo Supremo. Neste artigo explico que esse episódio da sua vida deve servir de alerta para nós em Portugal, que estamos prestes a receber o relatório da Comissão Independente. O relatório vai provocar muita discussão e muita indignação, mas é bom que não leve a um estado de histerismo, como aconteceu noutros países, e que conduz a injustiças.

Por falar em injustiças, o bispo Rolando Alvarez, de Matagalpa, na Nicarágua, vai mesmo permanecer em prisão preventiva e ser julgado por atentar contra a integridade da nação.

Convido-vos ainda a ler o meu mais recente artigo para a revista World Mission, dos Combonianos na Asia, que por ocasião do Natal recorda-nos que os refugiados do nosso tempo são para nós, ou devem ser, ícones da Sagrada Família.

Podem ainda ler a minha análise das mais recentes declarações do Patriarca Cirilo, de Moscovo, sobre o conflito na Ucrânia, nas quais se mostra particularmente preocupado com a divisão da Igreja, e não tanto com o bombardeamento de alvos civis por parte das forças russas. As declarações completas dele, e de outros, aqui.

Thursday, 12 January 2023

Hospital de Campanha - Recordar Bento XVI em conversa com Henrique Mota

Entrámos em 2023 com a notícia da morte do Papa Emérito Bento XVI e o seu funeral celebrado pelo Papa Francisco. Para melhor entender o seu pontificado único, e que tanto nos provocou, convidámos o Henrique Mota, fundador da Editora Principia, que tanto pela sua experiência passada com Bento XVI  como pela edição de tantas das suas publicações nos trouxe histórias e episódios e uma visão próxima desta personalidade que tanto nos marcou.

Pedimos desculpa pelo estático que se ouve ao princípio, mas é só no primeiro minuto do som, depois passa! 

 

Wednesday, 11 January 2023

O Legado de Bento XVI: Teologia Ancorada no Logos

Roland Millare
No tempo dos Padres da Igreja não existia qualquer incompatibilidade entre servir a Igreja como intelectual e o chamamento à santidade. O monge do deserto Evgário (c. 346-399) exorta-nos a recordar que “aquele que é teólogo reza”. Durante um bom período, ser santo e ser intelectual era a norma para homens e mulheres como São Tomás de Aquino, São Boaventura, Santa Teresa Benedita da Cruz e São João Paulo II.

Através da sua obra escrita, e pelo testemunho da sua vida, Bento XVI mostrou como devemos praticar a exortação do teólogo suíço Hans Urs von Balthasar, de começar e terminar a teologia “de joelhos”. Por outras palavras, a vocação académica e o chamamento à santidade nunca devem ser mutuamente exclusivos.

Nas suas reflexões sobre a história e o desenvolvimento da teologia na história da Igreja, Bento XVI distingue cuidadosamente entre dois métodos teológicos: o escolástico e o monástico.

A teologia monástica, naturalmente representada por monges (tipicamente abades), dedica-se sobretudo a inspirar e encorajar os desígnios amorosos de Deus, enquanto que a teologia escolástica interessa-se por demonstrar a relação próxima entre a fé e a razão. Os teólogos escolásticos interessam-se em apresentar explanações sistemáticas da razoabilidade da fé e da unidade da revelação divina.

Agora e sempre, espera-se que o Cristianismo possa dar ao mundo razões da sua esperança (1 Pedro 3,15). Todos os crentes devem poder dar uma razão, ou apologia, da sua esperança a quem a pedir neste mundo. A teologia monástica ou a teologia escolástica do período medieval não são capazes, por si, de penetrar os corações empedernidos dos homens e das mulheres dos tempos modernos.

O teólogo no mundo moderno deve beber profundamente da sabedoria de ambos os métodos no estudo, oração, fé e contemplação. Se o teólogo quiser tornar o logos razoável então deve estar profundamente enraizado numa vida alimentada regularmente pelo Logos Encarnado, através da leitura orante das Escrituras, oração mental consistente e a celebração da liturgia.

No que toca à verdade temos dois caminhos distintos: a verdade (logos) que recebemos ou a que construímos para nós mesmos. No decurso do seu trabalho, Ratzinger sublinhou a perspectiva de Giambattista Vico (1668-1774), que distingue entre uma verdade que é exclusivamente produzida (verum quia factum) e uma verdade que nos antecede (verum est ens). Posto assim, esta escolha levou Ratzinger a tomar como sua a tese de Romano Guardini: a primazia do logos sobre o ethos.

A ameaça que nos coloca na pós-modernidade é que a sociedade optou pela escolha de ver a verdade apenas como o produto dos nossos próprios esforços. A verdade torna-se assim sujeita ao capricho individual autónomo, ou à vontade da turba. O juiz Anthony Kennedy, tornou-se o porta-voz desta mentalidade na sua sentença do caso Planned Parenthood v. Casey (1992): “No cerne da liberdade está o direito de cada um definir o seu próprio conceito de existência, de sentido, do universo, e do mistério da vida humana”.

Assim o logos torna-se subordinado ao ethos através do liberalismo e todas as formas de filosofia materialista.

A linha actual na comunicação social tem sido de que a maior contribuição do Pontificado de Bento XVI foi a sua resignação. Mas a história poderá bem demonstrar que ele lembrou a Igreja de como podemos interagir efectivamente com o mundo moderno – em particular o Estado moderno – com a constante mensagem de que a razão, o direito natural, o logos, são capazes, com o assentimento da fé, de alcançar muito mais do que a concepção limitada de razão do homem moderno. Como escreveu James V. Schall, S.J., Bento XVI colocou as fundações para uma teologia da política, ou política filosófica, verdadeiramente cristãs.

Nos seus discursos na Universidade de Ratisbona, no Bundestag alemão, em Westminster Hall, no Reino Unido, e no grande discurso que foi impedido de dar na Universidade La Sapienza, em Roma, Bento XVI explicou a quem estivesse disposto a escutar e a ler cuidadosamente que a sociedade apenas pode florescer com o livre exercício, em conjunto, da fé e da razão.

Bento XVI descreveu a sua própria teologia como “inacabada” ou “fragmentária”, porém, à medida que formos descobrindo os tesouros que se encontram nos seus livros, artigos, homilias e discursos, encontrarmos a rica teologia que está ancorada na Palavra de Deus como nos foi revelada na Escritura e na Tradição, interpretada fielmente pelos Padres da Igreja, em especial por Santo Agostinho.

Embora várias partes da sua sinfonia teológica estejam por terminar, ele desenvolveu os contornos de um método teológico que volta a enfatizar a unidade entre a fé e a razão, Oriente e Ocidente, Escritura e Tradição, antigos e modernos, e muito mais. Desenvolveu uma teologia completamente aberta que entra em diálogos frutíferos com outros.

Bento XVI também deixa à Igreja uma nova teologia missionária que tem o potencial de alcançar a humanidade moderna através tanto da fé como da razão. A descrição da teologia monástica que o próprio faz, resume bem a sua abordagem à teologia:

Fé e razão, em recíproco diálogo, vibram de alegria quando ambas estão animadas pela busca da união íntima com Deus. Quando o amor vivifica a dimensão orante da teologia, o conhecimento, adquirido pela razão, alarga-se. A verdade é procurada com humildade, acolhida com estupefacção e gratidão:  numa palavra, o conhecimento cresce unicamente no amor pela verdade. O amor torna-se inteligência e a teologia, autêntica sabedoria do coração, que orienta e ampara a fé e a vida dos crentes.

Já não temos de “esperar por um São Bento novo e, sem dúvida, muito diferente”, para citar Alasdair MacIntyre, porque Bento XVI foi beber à fonte da Palavra de Deus e à celebração da Sagrada Liturgia para colocar a teologia no caminho definitivo da renovação e da santidade: a face de Jesus Cristo – o eterno Logos.


Roland Millare, STD é Vice-Presidente de Currículo e Director de Programas para Iniciativas do Clero para a Fundação São João Paulo II, em Houston. É doutorado em Sagrada Liturgia pela Universidade Litúrgica, na Universidade St. Mary of the Lake, em Mundalein. É ainda professor assistente de teologia de candidatos ao diaconato na Universidade de St. Thomas, em Houston e na Diocese de Fort Worth. É autor de A Living Sacrifice: Liturgy and Eschatology in Joseph Ratzinger (Emmaus Academic, 2022).

(Publicado pela primeira vez no Sábado, 7 de Janeiro de 2023 em The Catholic Thing)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Wednesday, 4 January 2023

Multidões no adeus a Bento XVI

É paradigmático. O Papa que passou o seu pontificado inteiro a surpreender os mais cépticos com a sua popularidade está a fazer o mesmo na morte. As autoridades em Roma esperavam cerca de 30 mil pessoas por dia no velório de Bento XVI, mas os números têm sido mais ou menos o dobro.

O enterro do Papa Bento XVI é amanhã e quem quiser pode acompanhar na SIC Notícias, onde eu estarei, em estúdio, a comentar.

Logo no dia em que o Papa morreu publiquei um post em que coloquei links para os principais artigos, reportagens, etc., sobre Bento XVI. Deixei de o actualizar nos últimos dias, pois a informação já é excessiva, mas convido-vos a ler este meu texto em que elogio a sua capacidade teológica, recordando um episódio que foi de grande importância também nas relações da Igreja com o mundo judaico.

Esta semana o The Catholic Thing publicou uma série de textos de homenagem a Bento XVI, por isso em vez de um artigo mais longo, hoje publiquei no blog dois desses pequenos textos, traduzidos para português. Um é do criador do site, Robert Royal, o outro do comentador David Warren. Ambos valem a pena.  

Há mundo para lá de Roma, e infelizmente as tragédias também não param. Em Moçambique, novo ataque em Cabo Delgado, desta vez a um par de aldeias cristãs.

E a guerra na Ucrânia também continua, tal como o meu acompanhamento das principais declarações dos líderes religiosos relevantes. Os quatro principais foram actualizados ao longo dos últimos dias, com particular destaque para o Patriarca de Moscovo, Cirilo, e para o primaz da Igreja Greco-Católica da Ucrânia, Sviatoslav Shevchuk.

Benedictus qui venit in nomine Domini

Já esperávamos, devido à sua avançada idade e ao facto de o Vaticano ter avisado para a deterioração do seu estado de saúde, que Bento XVI estava perto de entrar para a eternidade. Mas, como sempre acontece quando alguém morre – ainda para mais um amado mestre, um académico, pastor e Papa – quando esse dia chega de facto não deixa de ser um choque, e tudo muda.

Joseph Ratzinger contribuiu de tal forma para a Igreja e para o mundo que o seu nome e legado entrarão agora na grande herança cultural da fé Católica, como matéria permanente para reflexão sobre numerosas coisas, tanto humanas como divinas.

Houve grandes momentos públicos na sua vida que deixaram marcas grandes nas recentes décadas. Por exemplo, foi acusado por alguns de ter sido um progressista durante o Concílio Vaticano II, mas de ter “passado para o lado negro” durante as manifestações estudantis de 1960. Mas uma análise rigorosa dos factos (veja-se, por exemplo, o livro “Bento XVI: Uma Vida”, de Peter Seewald), mostra que essa ideia é simplesmente errada.

O pensamento de Ratzinger movia-se de forma calma, silenciosa, consistente e a uma profundidade que não era afectada nas suas bases pelos tumultos sociais. A sua grande consistência, só por si, é um ponto de referência que deixa grandes saudades.

Os seus alunos mais radicais respeitavam-no – e elogiavam-no – por isso, ainda que tenha vindo a reconhecer os limites do “diálogo” com certo tipo de radicais no meio académico, na Igreja e no mundo em geral. Tratou-se de um discernimento que o serviu bem quando, enquanto bispo e prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, teve de confrontar dissidentes, movimentos como a teologia da libertação e aquilo a que mais tarde veio a chamar o “Concílio dos Média”, que era bem diferente daquele que ele e o jovem Karol Wojtyla tinham ajudado a formar.

Para mim houve um encontro pessoal que resumiu grande parte da sua vida e pensamento. Foi-me pedido que escrevesse a história da Guarda Suíça por ocasião do seu 500º aniversário e ofereci-lhe um exemplar de “The Pope’s Army”, no dia 6 de Maio de 2006. Estávamos rodeados de uma multidão, mas pegou no livro e, tratando-o com o carinho de um verdadeiro bibliófilo, começou a folheá-lo, olhando com atenção para diferentes capítulos, e disse: “Isto é maravilhoso, agora posso ler sobre estes guardas que me protegem”.

A propósito, embora ainda haja muito por esclarecer sobre a sua resignação, os Guardas Suíços disseram-me na altura que, entre outras coisas, ele estava fisicamente exausto a um ponto que era doloroso ver.

Sempre me pareceu que a escolha do nome Bento – um entre dezasseis com o mesmo nome – era um símbolo de muitas coisas em que ele acreditava na sua vida. Benedictus, “abençoado” certamente, por ter nascido quem nasceu, e onde nasceu, e ao longo de uma longa vida. Benedictus, no sentido da continuidade com Bento XV, que quase um século mais cedo lidou com a Primeira Guerra Mundial e com os seus efeitos por todo o mundo. Mas, finalmente, Benedictus porque ainda que fosse Papa – e apesar de tanta sabedoria – era um mero cristão, numa longa linha que remonta ao próprio Cristo.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 2 de Janeiro de 2023 em The Catholic Thing)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Saturday, 31 December 2022

Morreu o Papa que surpreendeu o mundo

Este texto foi originalmente escrito como parte de um pacote a publicar na morte de Bento XVI, pela Renascença. De todos os que deixei, era o que sentia ser mais "meu". Poderá, ao longo dos próximos dias, ser publicado numa versão alterada. Publico-a aqui com autorização da Renascença, a quem agradeço.

Durante séculos os cristãos perseguiram e mataram judeus, culpando-os pela morte de Cristo. Uma frase em particular da Bíblia parecia justificar esta tese da culpa colectiva, o grito dos judeus quando Pôncio Pilates tenta livrar Jesus da crucificação: “Que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos”.

O Concílio Vaticano II foi enfático ao negar esta visão das coisas, mas a passagem bíblica permanece e continuava a ser usada por alguns para criar problemas e minar o diálogo entre católicos e o mundo hebraico.

Entra em cena Bento XVI, com esta passagem do II volume da sua trilogia sobre “Jesus de Nazaré”: “Mesmo que ‘todo o povo’, segundo Mateus, tivesse dito ‘que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos’, o cristão há de recordar que o sangue de Jesus fala uma linguagem diferente da do sangue de Abel: não pede vingança nem punição, mas é reconciliação.”

Bento XVI era, sobretudo, isto. Homem de uma inteligência brilhante e de grande perspicácia teológica, com uma fé apaixonada mas firmemente ancorada na razão. Os seus discursos e homilias tinham sempre uma grande carga de erudição mas conseguiam ainda assim manter uma simplicidade que os deixava abertos a todos, mesmo os que não se moviam com naturalidade nos meios da teologia e da filosofia.

Ao mesmo tempo, porem, o Papa alemão não era um homem mediático. Foi-se habituando, mas nunca se sentiu particularmente confortável com a atenção dos meios de comunicação social. O seu sorriso não era espontâneo, as suas intervenções não se prestavam facilmente à cultura do “soundbite” e a forma como defendia a cultura e civilização cristã, sempre com base na razão e na história e não em sentimentalismos ou saudosismos, valeram-lhe a inimizade dos media mais ideológicos.

Este último aspecto pode ser comprovado pela constante discrepância entre a cobertura mediática dos eventos do Papa e a realidade. Cada viagem de Bento XVI era precedida de augúrios de fracasso. A missa campal iria estar vazia, a população local sentia-se indiferente, os manifestantes seriam mais que os fiéis. Mas no fim, surpresa geral, dava-se o braço a torcer, porque o povo acorria a este Papa, enchia estádios e descampados e cantava o seu nome deixando-o com aquele sorriso envergonhado que o caracterizava. Mesmo os intelectuais, tanto em França como em Portugal, como os políticos, no Reino Unido e na Alemanha, aplaudiram-no longamente e com o respeito de quem reconhece que está diante de uma mente brilhante, de um professor.

“Este poder de ensinamento assusta muitos homens dentro e fora da Igreja. Perguntam-se se ela não ameaça a liberdade de consciência, se não é uma presunção oposta à liberdade de pensamento, mas não é assim. O poder conferido por Cristo a Pedro e aos seus sucessores é, em sentido absoluto, um mandato para servir. O poder de ensinar na Igreja implica um compromisso ao serviço da obediência à fé”, disse, no dia em que tomou posse da Basílica de São João de Latrão.

As viagens eram menos frequentes que as de João Paulo II, mas ainda assim significativas tendo em conta que Bento XVI tinha 78 quando foi eleito. Houve várias de grande importância, a primeira de todas enquanto Papa, à Jornada Mundial da Juventude em Colónia, em 2005; a viagem ao Reino Unido, primeira visita de Estado às ilhas britânicas de um Papa; a Jornada Mundial da Juventude em Madrid, onde debaixo de uma ferocíssima tempestade o Papa, tocado pela insistência de dois milhões de jovens que não o abandonavam, manteve-se firme dizendo aos presentes: “A vossa força é maior que a chuva”, enquanto os seus colaboradores o tentavam proteger com guarda-chuvas brancos; a ida a Cuba, uma das últimas, onde terá concluído que lhe começavam a faltar as forças para prosseguir com a missão que lhe tinha sido encarregada.

Mas a viagem a Portugal em 2010 distingue-se de todas por uma razão muito particular. O Papa chegou visivelmente cansado, alguns diriam até desanimado. Como sempre, previa-se o pior. Entre os católicos discutia-se a possibilidade de esperar o cortejo no caminho entre o aeroporto e Belém, muitos diziam que se devia abandonar a ideia porque a fraca participação popular ficaria mal na televisão. Mas em todo o percurso nunca faltou gente, bandeiras, estandartes de apoio para mostrar ao Papa que se devia sentir em casa entre os portugueses.

Depois de uma missa no Terreiro do Paço, perante centenas de milhares de pessoas, o Papa foi pernoitar à nunciatura. Os jovens, que tinham estado em grande destaque na missa campal, não o abandonaram e junto ao edifício cantaram e chamaram por ele até que veio à janela e, com um sorriso genuíno na cara, agradeceu a sua presença mas pediu que o deixassem dormir.

Foi em Portugal que Bento XVI beijou pela primeira vez um bebé em público e os vaticanistas que o acompanhavam por todo o mundo não hesitaram em dizer que depois de três dias cansativos viam partir um homem que parecia refrescado. Falar-se-ia então de um pontificado pré e pós visita a Portugal.

A injecção de energia que terá recebido era bem precisa. Na altura já havia rumores de que nem tudo ia bem no Vaticano, nomeadamente na cúria. Entre mal-estar e guerra civil, não faltavam adjectivos, mas poucos esperariam algo da dimensão do vatileaks, um escândalo que arrastou a reputação da Santa Sé pela lama e que abalou muito o Papa pelo envolvimento pessoal de um dos seus colaboradores mais próximos, o seu mordomo.

Se o vatileaks foi decisivo na sua decisão de resignar é especulação, mas contribuiu certamente para a perda da sua idoneidade física e espiritual, para usar os seus próprios termos.

Em retrospectiva, a escolha não deveria ter sido tão surpreendente assim. O Papa já tinha dito, no livro-entrevista conduzido por Peter Seewald, que aceitava a ideia de resignar se sentisse incapacidade de desempenhar a sua função. Foi recuperada também a fotografia que na altura tinha passado bastante despercebida, de Bento XVI a deixar o seu pálio, símbolo de autoridade, em cima do túmulo do Papa Celestino V, um dos poucos na história da Igreja a resignar por sentir que não era capaz.

Mas quando o Papa anunciou a sua decisão, num consistório quase insignificante e em latim, o mundo parou. Bento XVI era visto por muitos como o guardião inflexível da doutrina e da tradição e a tradição dizia que um Papa só abandona o seu posto quando é chamado pelo Criador. Afinal de contas, este era o mesmo homem que tinha dito: “O Papa não é um soberano absoluto cujo pensar e querer são leis. Pelo contrário: o ministério do Papa é a garantia da obediência a Cristo e à sua palavra. Ele não deve proclamar as próprias ideias, mas vincular-se constantemente a si e à Igreja à obediência da palavra de Deus perante todas as tentativas de adaptação, de adulteração e todo o tipo de oportunismo”.

Não deixa de ser paradoxal que um dos homens da Igreja mais inteligentes e brilhantes dos últimos séculos seja recordado para sempre por aquele que foi um dos seus últimos gestos, o de desprendimento do poder. É uma memória que não lhe faz justiça, mas talvez isso não desagradasse a Joseph Ratzinger, que nunca se mostrou muito confortável debaixo dos holofotes e que preferiria, certamente, deixar os seus livros e textos falar à história por ele.

Morreu o Papa Bento XVI

Morreu hoje o Papa Bento XVI. 

Neste espaço irei colocando links para os principais textos, reportagens e notícias que surgirem sobre ele. 

Que o Senhor lhe dê eterno descanso. Obrigado por tudo nosso querido Papa, que foste apresentado como um feroz Rottweiler, mas revelaste-te um afável Pastor Alemão.

O funeral de Bento XVI já está marcado para o dia 5 de Janeiro. O seu testamento espiritual foi divulgado pela Santa Sé e pode ser lido aqui na íntegra












Wednesday, 28 December 2022

Rezemos por Bento XVI

O Papa Francisco pede-nos que rezemos pelo Papa Bento XVI, que está gravemente doente. O que significa um pedido destes para um homem frágil, de 95 anos? Rezamos pela sua cura, porque nos faz impressão que morra, ou rezamos para que morra em paz? Rezemos para que se faça a vontade de Deus e não a nossa, neste caso e sempre. É um bom princípio.

Em todo o caso, este pedido pode ser lido como um simpático aviso por parte do Vaticano de que Bento XVI está muito próximo da morte. Já haverá certamente jornalistas a marcar viagens para Roma. Da minha parte, antecipo o envio deste mail por um dia, mas prometo que, se o Papa emérito de facto morrer nos próximos dias, estarei em cima do acontecimento para vos trazer as principais notícias e os melhores textos de obituário. Para já, fiquem com este texto que eu escrevi em Fevereiro de 2013, quando ele resignou.

Olhando para a realidade internacional, mais de uma centena de clérigos e freiras foram raptados, mortos ou detidos em contexto de perseguição ao longo de 2022. São números terríveis. Podem conhecê-los melhor aqui, num texto em inglês da minha autoria, ou numa versão portuguesa.

Estão abertas as inscrições para famílias que queiram acolher jovens nas JMJ. Toda a ajuda é pouca! Não fiquem de fora.

O artigo desta semana do The Catholic Thing fala dos dons do Espírito Santo e como se desenvolvem em nós de forma gradual, quase despercebida e discreta. Assim como um bebé divino que nasce no meio do mundo, para a sua salvação.

Se vos interessam questões de justiça económica e financeira, recomendo espreitarem este evento que se vai realizar em Janeiro. Uma abordagem diferente à noção de concertação social!

Actualizei também as mais recentes declarações dos líderes religiosos sobre a Ucrânia, com interessantes textos da Igreja Ortodoxa da Ucrânia, a que está, ou estava, ligada a Moscovo, a pedir liberdade religiosa e o fim do que dizem ser um clima de perseguição movida pelas autoridades. É um tema complexo, podem ler aqui a minha análise, e os textos completos aqui.

E para quem não leu, mas tem interesse, está aqui também a minha análise da polémica envolvendo o Pe Rupnik, que tem deixado muita gente perplexa e chocada.

Wednesday, 23 February 2022

A Mea Culpa de Bento XVI

Stephen P. White

Com o aproximar do final da longa e extraordinária vida do Papa emérito Bento XVI, a luta pelo seu legado já começou. Na sua Alemanha natal o “Caminho Sinodal” parece apostado em apagar 50 anos de interpretação magisterial do Concílio Vaticano II – uma interpretação que deve mais a Joseph Ratzinger do que a qualquer outra pessoa, salvo, talvez, São João Paulo II. O Caminho Sinodal é uma espécie de referendo sobre a sua vida e legado.

E depois temos o relatório, publicado o mês passado, sobre a história dos abusos sexuais na Arquidiocese de Munique-Freising, que resulta de uma investigação conduzida por um escritório de advogados a pedido da arquidiocese. Joseph Ratzinger liderou a arquidiocese entre 1977 e 1982, quando foi chamado a Roma para chefiar a Congregação para a Doutrina da Fé. O relatório abrange quase 75 anos, mas, naturalmente, muita da atenção tem sido dada aos breves anos em que Ratzinger foi arcebispo.

Os autores do relatório identificam quatro casos em que o então cardeal Ratzinger não tomou as devidas acções contra padres acusados de abusos. Bento XVI sempre negou ter lidado erradamente com estes casos durante o seu tempo em Munique. Depois de ter digerido as quase 2.000 páginas do relatório de Munique, os assessores de Bento XVI responderam por ele.

A versão curta dessa resposta é: “Joseph Ratzinger não estava ciente de qualquer abuso sexual, ou suspeita de abuso sexual, cometido em nenhum dos casos analisados pelo relatório de peritos. O relatório não apresenta qualquer prova em contrário”.

Bento XVI forneceu aos investigadores uma longa declaração escrita enquanto eles preparavam o relatório. Mas essa declaração incluiu um erro significativo. Bento XVI disse que não estava presente numa reunião em que se aprovou a transferência de Munique para outra diocese de um padre acusado de abusos. O Papa emérito rapidamente emendou a mão e pediu desculpa. O erro não foi intencional, foi cometido por alguém da sua equipa durante a transcrição. Ratzinger esteve, de facto, presente na reunião, mas não sabia que o padre era abusador e não esteve envolvido na sua colocação ministerial.

Quem quiser acreditar nele acreditará, quem não quiser, não acreditará.

É quase certo que o Papa Bento lidou pessoalmente com mais casos de abusos sexuais praticados por padres do que qualquer outra pessoa. Laicizou 400 padres em apenas dois anos enquanto Papa e tratou de muitos outros, de forma célere, enquanto chefe da CDF – num período em que as primeiras ondas da crise de abusos começaram a chegar a Roma, antecedendo em poucos anos os tsunamis que têm atingido periodicamente a Igreja desde 2002.

Ratzinger estabeleceu um exemplo para outros clérigos e futuros papas ao pedir publicamente desculpas às vítimas de abusos e promovendo encontros regulares com vítimas. Quando resignou, em 2013, a resposta da Igreja aos abusos estava ainda longe de ser ideal. Mas era também incomensuravelmente melhor do que quando ele chegou a Roma como um jovem cardeal, em 1982.

Não estou com isto a dizer que as vítimas de abusos o deviam ver como um defensor, nem que devíamos ignorar as suas falhas (recordemos a forma desastrosa como lidou com o caso McCarrick). A questão é que ele colocou a Igreja no rumo certo no que diz respeito aos abusos sexuais praticados por clero por mais tempo, e de forma mais significativa, do que qualquer outra pessoa.

A Igreja e aqueles que foram lesados pela Igreja podem reconhecer isto sem se considerarem satisfeitos. Na verdade, vale a pena reconhecer que não há nada que a Igreja possa dizer ou fazer, nenhum pedido de desculpas que possa apresentar, nenhuma justiça que se possa fazer, que seja satisfatória.

Mas existe alguma satisfação, por mais que o digamos de voz trémula. E isso é algo de que Bento nos recorda, mesmo enquanto outros debatem o seu legado. Há semanas ele publicou uma carta curta, mas marcante. Os parágrafos finais são uma reflexão pungente sobre culpa, tristeza e exame de consciência diante da morte:

Em todos os meus encontros – sobretudo durante as numerosas Viagens Apostólicas – com as vítimas de abusos sexuais por parte de sacerdotes, observei nos olhos as consequências de uma tão grande culpa e aprendi a compreender que nós mesmos somos arrastados por esta tão grande culpa quando a negligenciamos ou não a enfrentamos com a necessária decisão e responsabilidade, como aconteceu e acontece com muita frequência. Como fiz naqueles encontros, mais uma vez posso apenas expressar a todas as vítimas de abusos sexuais a minha profunda vergonha, a minha grande dor e o meu sincero pedido de perdão. Tive grandes responsabilidades na Igreja Católica. Tanto maior é a minha dor pelos abusos e os erros que se verificaram durante o tempo do meu mandato nos respetivos lugares. Cada caso de abuso sexual é terrível e irreparável. Para as vítimas de abusos sexuais, vai a minha profunda compaixão e lamento cada um dos casos.

Em breve me encontrarei perante o último Juiz da minha vida. Embora ao olhar retrospetivamente a minha longa vida possa ter tantos motivos de susto e medo, todavia estou com o coração feliz porque confio firmemente que o Senhor não é só justo juiz, mas simultaneamente é o amigo e o irmão que já padeceu, Ele mesmo, as minhas deficiências e, consequentemente, ao mesmo tempo é juiz e meu advogado (Paráclito). Na perspetiva da hora do juízo, como se me torna clara a graça de ser cristão! O ser cristão dá-me o conhecimento, mais ainda, a amizade com o juiz da minha vida e permite-me atravessar com confiança a porta escura da morte. A propósito, retorna-me sem cessar à mente o que João conta no início do Apocalipse: vê o Filho do Homem em toda a sua grandeza e cai aos seus pés como morto. Mas Ele, pousando a mão direita sobre João, diz-lhe: «Não tenhas medo! Sou eu...» (cf. Ap 1, 12-17).

Rezem por Bento XVI. E rezem com ele pelas vítimas dos abusos.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2022)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing



Friday, 22 October 2021

A Caminhada Pela Vida é já no Sábado

Vem junta-te a nós...
É amanhã que se realiza a Caminhada Pela Vida. São dez cidades em simultâneo, sempre às 15h. Se acreditam na “dignidade e na beleza da vida”, ou se querem aproveitar para homenagear as vítimas da Covid, não deixem de aparecer!

Depois de uma primeira tentativa falhada, por causa da Covid, o Papa disse esta sexta-feira em entrevista que tenciona ir a Timor-Leste.

Recentemente falei do caso do padre que foi impedido de administrar os sacramentos ao deputado David Amess. Uma proposta no Parlamento britânico consagraria esse direito e ficaria associada sempre ao nome dele.

Bento XVI disse recentemente, numa carta, que espera juntar-se em breve a um amigo que morreu. Desejo de morrer? De todo, explica o arcebispo Ganswein, trata-se antes de uma antiga tradição cristã, a preparação para uma boa morte.

O líder do gangue que raptou 17 missionários no Haiti promete meter “uma bala na cabeça de cada um” caso não receba um resgate de 17 milhões de euros.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre as possíveis consequências para o movimento pró-vida no caso de o Supremo Tribunal americano revogar o Roe v. Wade.

Friday, 16 April 2021

São os santos que fazem avançar o mundo

Aos 90 foi assim, espero
que hoje tenha sido igual!
A CEP lançou ontem o aviso. Há paróquias que estão insolventes.

O Papa emérito Bento XVI faz 94 anos esta sexta-feira. Deus o guarde!

A Opus Dei também assinala 75 anos de presença em Portugal.

Os bispos da América Latina pedem a libertação imediata de padres e freiras raptados no Haiti.

O Papa Francisco divulgou três videomensagens ontem. Aos bispos do Brasil pediu união para vencer a pandemia e os seus efeitos; a um congresso no Reino Unido pediu o fim do “paternalismo politico” que ignora a participação popular e ao congresso sobre Santa Teresa de Ávila disse que são os santos que fazem avançar o mundo.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre a importância da verdadeira ressurreição dos mortos, escrito por Randal Smith.

Wednesday, 13 January 2021

Martírio “nas Mãos de Deus”

Ines A. Murzaku
Já visitei várias vezes o Vale dos Templos em Akragas – hoje Agrigento, na Sicília. É um dos locais mais arrebatadores da Magna Graecia, que remonta ao Século V antes de Cristo, a era dourada dos gregos na Sicília, antes da chegada dos cartaginenses e dos romanos.

Mas desde 1993 esse vale não tem sido o mesmo para mim. Nesse ano cobri para a Rádio Vaticano a viagem de São João Paulo II, no dia 9 de maio. Todos os presentes ficaram pasmados quando o Papa decidiu improvisar, denunciando enfaticamente a máfia siciliana durante uma homilia diante do Templo da Concórdia.

Foi um discurso histórico: João Paulo II tornou-se o primeiro Papa a pronunciar a palavra máfia. A partir desse discurso a relação ambígua entre La Cosa Nostra e a Igreja tornou-se mais clara (algo que nem sempre tinha sido no Sul de Itália): a máfia e a Igreja estavam em lados opostos. E aqueles que lutam para expor a máfia, incluindo clero e heróis leigos como o juiz Rosario Livatino, são aliados da Igreja, combatendo juntos na mesma trincheira pela justiça:

Deus disse: Não matarás! O homem não pode, nenhum homem, nenhum grupo… a máfia não pode mudar e espezinhar esta mais sagrada lei de Deus!... Este povo, o povo siciliano, ligado à vida, pessoas que amam a vida, que dão a vida, não podem viver para sempre debaixo da pressão de uma civilização contraditória, uma civilização da morte!... Em nome deste Cristo crucificado e ressuscitado, do Cristo que é vida, caminho, verdade e vida. Digo-o aos responsáveis: Convertam-se! Um dia chegará o juízo de Deus!

Poucos sabem que este apelo de São João Paulo foi feito depois de uma reunião privada com os pais do juiz assassinado Rosario Livatino, que será beatificado em breve. Mas o pontífice foi mais longe, descrevendo o juiz de 38 anos morto pela Stidda (a Estrela), um grupo criminoso do Sul de Itália, como: “um mártir da justiça e indirectamente da fé”.

Quando Livatino foi assassinado quase ninguém conhecia este jovem juiz talentoso e exemplar, que trabalhava nas periferias de Itália. O seu trabalho estava ligado à apreensão e confisco de propriedade de origem ilícita adquirida pela mafia siciliana. Fazia-o em total respeito pelos direitos dos acusados, com grande profissionalismo e com resultados concretos. E, também, por compromisso com a sua Fé Católica.

Em 2019 o Papa Francisco reflectiu sobre o que o juiz Livatino tinha escrito acerca da relação entre Fé, Direito e Caridade:

“Decidir é escolher [...]; e escolher é uma das coisas mais difíceis que o homem é chamado a fazer. [...] E é precisamente nesta escolha para decidir, decidir para ordenar, que o magistrado crente pode encontrar uma relação com Deus. Uma relação direta, porque fazer justiça é realização de si mesmo, é oração, é dedicação a Deus. Uma relação indireta, através do amor pela pessoa julgada. [...] E esta tarefa será tanto mais leve quanto mais o magistrado sentir humildemente as suas próprias fraquezas, quanto mais ele se reapresentar à sociedade disposto e inclinado a compreender o homem que está na sua frente e a julgá-lo sem a atitude de um super-homem, mas com contrição construtiva.”

A luta da Igreja contra a Máfia continuaria durante o pontificado de Bento XVI e do Papa Francisco que, em 2014, declarou que “aqueles que na sua vida percorrem este caminho do mal, como são os mafiosos, não estão em comunhão com Deus: estão excomungados!”. Em 2020 Francisco promulgou os “decretos sobre o martírio do Servo de Deus Rosario Angelo Livatino, leigo.” O caminho está por isso aberto para a beatificação do Juiz Livatino, que será o primeiro caso de um juiz-mártir morto pela mafia a ser declarado beato.

Teologicamente, o martírio do Juiz Livatino é um martírio indireto de fé. É mais um exemplo daquilo a que João Paulo II chamou os “novos mártires”, outro modelo de martírio que surgiu durante o Século XX, quando muitos morreram em condições de ataque ideológico ou de violência social em larga escala, ainda que muitas vezes a relação com a fé fosse indireta.

Desde o Século IV que a Igreja reconhece dois caminhos tradicionais para a canonização: a via martyrii (o caminho do martírio) e a via virtutum (o caminho das virtudes). Em 2017, baseando-se na referência de João Paulo II a “um mártir da justiça e indirectamente da fé”, o Papa Francisco introduziu um terceiro caminho para a canonização com um Motu Proprio que especifica que “A oferta da vida é um novo caso no processo de beatificação e canonização, que se diferencia do caso sobre o martírio e sobre a heroicidade das virtudes.”

Existem cinco critérios para avaliar uma “oferta de vida”:

a) oferta livre e voluntária da vida e aceitação heroica propter caritatem de uma morte certa e a curto prazo;

b) nexo entre a oferta da vida e a morte prematura;

c) exercício, pelo menos em grau ordinário, das virtudes cristãs antes da oferta da vida e, depois, até à morte;

d) existência da fama de santidade e de sinais, pelo menos depois da morte;

e) necessidade do milagre para a beatificação, ocorrido depois da morte do Servo de Deus e por sua intercessão.

Aquele jovem e bravo juiz siciliano ofereceu a sua vida, preenchendo abundantemente os cinco critérios: ofereceu a sua vida pela sua vocação de ser um juiz exemplar, combatendo um mal público – a máfia – sabendo que isso poderia conduzir a uma morta iminente; sendo um juiz cristão que aplicava as virtudes cristãs ao exercício do direito; demonstrando como juiz que a Fé e o Direito ou o Evangelho e o Código Civil podem coexistir se forem conduzidos pela virtude teológica da caridade; sendo um juiz que colocou a sua vida e vocação para combater a máfia Sub Tutela Dei (nas mãos de Deus), para usar a expressão que Livatino usava frequentemente no seu diário.


Ines A. Murzaku é professora de Religião na Universidade de Seton Hall. Tem artigos publicados em vários artigos e livros. O mais recente é Monasticism in Eastern Europe and the Former Soviet Republics. Colaborou com vários órgãos de informação, incluindo a Radio Tirana (Albânia) durante a Guerra Fria; a Rádio Vaticano e a EWTN em Roma durante as revoltas na Europa de Leste dos anos 90, a Voice of America e a Relevant Radio, nos EUA.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 8 de Janeiro de 2020 em The Catholic Thing)

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