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Wednesday, 13 December 2023

As raízes jesuítas da guerra contra a Igreja na Nicarágua

Robert W. Shaffern

Desde Agosto que o governo Sandinista declarou guerra à Igreja Católica no pequeno país centro-americano da Nicarágua. Bispos e padres têm sido detidos ou exilados. O Governo congelou as contas bancárias e pensões de padres. A Universidade da América Central (UAC), uma instituição católica, foi confiscada e acusada de servir de centro de treino para terroristas. O regime sandinista tem ignorado as repreensões de figuras da Igreja e de Governos de todo o mundo e parece determinado a erradicar a Igreja Católica do seu território. O presidente sandinista Daniel Ortega quer criar uma Nicarágua onde só cabem as opiniões do Estado.

Para sua grande vergonha, algumas figuras da Igreja Católica da Nicarágua contribuíram significativamente para esta catástrofe, cujas sementes têm estado a germinar desde a conclusão, em 1979, da guerra civil brutal e sangrenta que sacudiu o país durante uma década. Nesse ano os bolcheviques sandinistas expulsaram os últimos membros da dinastia ditadora Somoza do país. Muitos membros do clero católico apoiaram os sandinistas, especialmente membros da ordem jesuíta.

Em vésperas da II Guerra Mundial os jesuítas aumentaram a sua presença na América Central. Em 1937 a Sociedade de Jesus criou a vice-província da América Central, separando-a da região administrativa do México. O Padre Pedro Arrupe Gondra, superior geral da Sociedade de Jesus entre 1965 e 1983, elevou a vice-província a província plena em 1976, quando a guerra civil da Nicarágua estava no seu auge.

Na sua tentativa de aliviar o sofrimento das massas de pobres naquela região, e preocupados em evitar o surgimento de um regime comunista, os jesuítas que trabalharam na América Central durante as décadas de 1940 e 1950 promoveram a formação de partidos e movimentos democratas-cristãos semelhantes aos que foram criados na Europa depois da II Guerra Mundial. Uma grande contribuição para esta missão aconteceu em 1960, quando os jesuítas fundaram a Universidade da América Central. Ironicamente, foi a família Somoza que doou o terreno onde viria a ser construída a única universidade privada da Nicarágua.

Durante os anos 60 e 70, porém, os jesuítas da América Central foram-se aliando cada vez mais à extrema-esquerda, seguindo os passos de figuras oitocentistas como Abbé Sieyès e Talleyrand. Foram arautos e aliados da vitória dos comunistas sandinistas. Aliás, muitos jesuítas chegaram a desempenhar cargos importantes no regime sandinista, incluindo os irmãos Fernando e Ernesto Cardenal, Miguel D’Escoto e Edgar Parrales, que foram todos teólogos da libertação que apoiaram a revolução armada contra o regime Somoza.

Depois de 1979, todos eles ocuparam posições no governo. Fernando Cardenal foi ministro da Educação (que obviamente promovia propaganda do regime), Ernesto Cardenal foi ministro da Cultura (igualmente propagandística), e D’Escoto foi Ministro dos Negócios Estrangeiros.

Por sua parte, Arrupe apelou a uma espécie de ralliement na Nicarágua, parecida com a do Papa Leão XIII, quando este pediu aos católicos franceses, em 1892, para não rejeitarem os governos anticlericais da III República Francesa. Arrupe pediu aos jesuítas e a outros para dar o seu “generoso apoio” aos sandinistas. Porém, Arrupe tinha algumas reservas em relação aos comunistas, e dizia que estes também deviam ser criticados quando necessário.

Infelizmente, um estudo feito pela UAC no final dos anos 90 encontrou pouco para criticar no Governo. Os jesuítas receberam os sandinistas de braços abertos.

João Paulo II de dedo em riste a 
repreeender Ernesto Cardenal
A resposta mais firme a estes jesuítas sandinistas veio do Papa João Paulo II, que os fez ver que segundo o cânone 285 do Direito Canónico, um padre não deve ocupar cargos políticos. Em 1985 os jesuítas expulsaram Fernando Cardenal, sob pressão do Vaticano, mas ainda assim ele manteve-se como Ministro da Educação e continuou a viver numa residência jesuíta em Manágua.

Os jesuítas reabilitaram-no em 1997, depois de ter repetido o noviciado. Tal como um moderno Georges Danton (que virou de apoiante para opositor do Reino de Terror francês), Cardenal acusou o movimento sandinista de corrupção, e renunciou a sua ligação ao mesmo em 1994.

À medida que o tempo foi passando, a brutalidade do regime de Ortega foi-se tornando cada vez mais evidente. Ortega perdeu a eleição de 2001, mas não se retirou da política. Pelo contrário, arregimentou os seus apoiantes e acabou por regressar à presidência. Apenas cinco anos mais tarde, com o apoio de alguns líderes católicos, foi reeleito presidente da Nicarágua. Desta vez, muitos padres foram significativamente menos acolhedores do que tinham sido em 1979, mas Ortega continuou a gozar de algum apoio. O jornal dos estudantes da UAC não o apoiou directamente, mas a linha editorial continuou a revelar simpatia para com os sandinistas.

Contudo, nem todo este apoio católico impressionou Ortega, que manipulou cinicamente os seus aliados na Igreja. Quando alguns líderes católicos manifestaram o seu desagrado com o facto de ele ter uma amante, decidiu casar. Claro que o casamento não foi realizado por arrependimento dele, ou da sua amante, mas apenas para conseguir mais apoio de católicos de esquerda. Estes foram na conversa.

No final dos anos 60 o filósofo italiano Augusto del Noce avisou que o catolicismo progressista estava num beco sem saída, porque na coligação entre os católicos e os esquerdistas o elemento progressista, que rejeita os ensinamentos básicos do catolicismo sobre a pessoa, predominaria. Sob pena de terem de abdicar dos seus objectivos utópicos no campo da política, economia e sociedade, os marxistas não tinham como não perseguir e suprimir a Igreja Católica. O marxismo rejeita totalmente as realidades transcendentais que o Cristianismo entende como sendo o fundamento de tudo o que existe, bem como a esperança última da raça humana.

O guião deste drama infeliz já tinha sido encenado na Revolução Francesa. O pai de todos os movimentos de esquerda da civilização ocidental, o jacobinismo, tentou erradicar o Catolicismo. Os jacobinos Robespierre, Danton, St. Just e outros, enviaram milhares de católicos para a guilhotina entre 1793 e 1794 por considerarem que a sua religião fomentava a superstição, a credulidade e a intolerância. Ser católico era – alegavam – rejeitar o patriotismo. Mais tarde movimentos semelhantes, como o bolchevismo, seguiram o mesmo caminho.

A Igreja na Nigarágua está apenas a colher o que os jesuítas e os teólogos da libertação semearam.


Robert W. Shaffern é professor de história medieval na Universidade de Scranton. Também lecciona cursos de civilizações antigas e bizantinas, bem como sobre o Renascimento Italiano e a Reforma. É autor de The Penitents’ Treasury: Indulgences in Latin Christendom, 1175-1375.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na sexta-feira, 8 de Dezembro de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 22 March 2023

Os Dois Martírios de São João Brébeuf

Michael Pakaluk
Uma réplica exacta do Santo Sudário está em exposição no Centro de Informação Católica em Washington, D.C., promovida pelo Museu Bíblico. O padre Charles Trullols, do CIC, comenta que: “Contemplando a marca dos sofrimentos de Nosso Senhor no Sudário, temos de manter a mensagem da Quarta-feira de Cinzas marcada nas nossas almas. Também devemos ajudar Jesus com a sua Cruz e com os seus sofrimentos”.

Lendo essas palavras, por alguma razão não me saía da cabeça o martírio de São João de Brébeuf. Fui por isso à procura do relatório original preservado pelos Jesuítas, que tem por base o testemunho dado logo no dia seguinte por dois índios Huron que testemunharam a sua morte e conseguiram escapar.

Começaram por lhe arrancar as unhas. Depois espancaram-no ferozmente com cacetes, atingindo-o cerca de 200 vezes nos lombos, barriga, pernas e face. “Embora o peso destes golpes tenha sido esmagador para o padre De Brébeuf, não deixou de falar continuamente de Deus, e de encorajar os novos cristãos que estavam cativos como ele a sofrer bem, para que pudessem morrer bem, podendo assim ir com ele para o Paraíso.”

A seguir, um dos índios Iroquois levou a cabo uma caricatura de um baptismo, entornando água a ferver três vezes por cima da sua cabeça. “Echon”, disse o índio, usando o seu nome em Huron, “tu dizes que o baptismo e os sofrimentos desta vida conduzem directamente ao Paraíso; tu para lá irás em breve, por isso vou-te baptizar, e fazer-te bem sofrer, para que possas ir tanto mais rápido para o teu Paraíso.”

Então colocaram sobre ele um colar de seis machados de guerra incandescentes. “Nunca vi um tormento que me causasse tanta compaixão como aquele. Estávamos diante de um homem, atado nu a um poste, com este colar à volta do pescoço, que não sabe em que posição deve estar. Inclinando-se para a frente, pesam-lhe mais os que tem em cima dos ombros, inclinando-se para trás sofre o mesmo com os que tem sobre a barriga; mantendo-se direito, sem se inclinar para um lado ou para o outro, os machados incandescentes, aplicados de igual forma de ambos os lados, torturam-no duplamente”.

Depois, puseram-lhe em torno do peito um cinturão recheado de alcatrão e resina altamente inflamáveis e pegaram-lhe fogo, “assando todo o seu corpo”. Durante tudo isto o padre De Brébeuf aguentou que nem uma rocha, insensível ao fogo e às chamas, para espanto dos malditos sanguinários que o atormentavam. O seu zelo era tal que pregava continuamente a estes infiéis, tentando convertê-los”.

Então, para o impedir de falar, cortaram-lhe os lábios. Depois esfolaram-lhe as pernas, até ao osso, e assaram a carne diante dele. Continuaram a gozar. “Como bem vês, estamos a ser teus amigos, pois seremos a causa da tua felicidade eterna. Porque é que não nos agradeces por estes bons ofícios que te prestamos, uma vez que quanto mais sofres, mais Deus te vai recompensar.”

Quando estava já prestes a morrer, mas ainda vivo, arrancaram-lhe o coração e comeram-no, bebendo o seu sangue ainda quente. Estavam de tal forma impressionados pela sua coragem que queriam ser como ele.

Sabia que a solenidade dos mártires da América do Norte é a 19 de Outubro, mas quando é que João de Brébeuf morreu? Fui ver. Foi a 16 de Março de 1649, durante a Quaresma. (Nesse ano o Domingo de Páscoa calhou a 4 de Abril). Tinha sido capturado às primeiras horas da madrugada e morreu às 16h, depois daquilo que um autor secular descreveu como “um dos martírios mais atrozes nos anais do Cristianismo”.

Note-se que este testemunho extraordinário não veio do nada. O padre de Brébeuf tinha chegado a “Nova França” 24 anos antes. Estudou com muito cuidado primeiro os Algonkin, depois os Huron. Foi o primeiro europeu a aprender a falar fluentemente a língua Huron, tendo escrito um dicionário, uma gramática e catecismos.

Escreveu também um famoso cântico Huron, em Wendat, que contém um aviso contra as tentações do demónio.

Tende coragem, vós, que sois homens. Jesus, Ele nasceu.

Vede, fugiu aquele espírito que nos aprisionava.

Não o escutais, pois corrompe-nos a mente, o espírito dos nossos pensamentos.

(Aqui podem ouvir a música original, tirada de “Une Jeune Pucelle,” uma música tradicional francesa de 1557.)

A Viagem Espiritual de João de Brébeuf revela um homem profundamente dedicado à oração contemplativa, e que seguia rigorosamente a sua regra; que teve muitas visões místicas, algumas das quais acompanhadas em simultâneo por tentações demoníacas. Em 1631 fez um “juramento de serviço”, com as seguintes palavras: “Juro nunca falhar, da minha parte, na graça do martírio, caso na tua infinita misericórdia algum dia o ofereceres a mim, o teu servo indigno”.

Mas talvez seja igualmente impressionante o seu martírio sem sangue, o facto de ter regressado ao apostolado, uma e outra vez, ao longo de três décadas, apesar da repetidas rejeições e perseguições, e com nada mais que uma mão cheia de conversões. Pouco antes de morrer, escreveu:

Deus meu, porque é que não és conhecido? Porque é que esta terra bárbara não está convertida a ti? Porque não foi abolido daqui o pecado? Porque não és amado? Sim, meu Deus, se todos os tormentos que os cativos podem aguentar nestes países, pela crueldade das torturas, caírem sobre mim, a isso me ofereço com todo o coração, e sofrê-los-ei sozinho.

São João de Brébeuf, rogai por nós.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 15 de Março de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Monday, 26 December 2022

O caso do Padre Rupnik e a purificação do templo

O mais recente escândalo que está a abalar o mundo católico é a da acusação de assédio sexual de religiosas por parte do famoso jesuíta e artista Marko Rupnik. Podem ler tudo o que se sabe sobre este caso aqui, mas leiam também a minha reflexão em que explico que embora haja semelhanças importantes entre o abuso de menores e as relações entre adultos, há também algumas diferenças fundamentais. Se isto justifica a forma como o Vaticano lidou com este caso? Não chego tão longe. A Igreja tem avançado muito na forma de lidar com situações de abuso de menores e talvez seja altura de aplicar algumas dessas lições a outras áreas, como esta. Leiam e comentem, ou no blog ou respondendo para mim, caso tenham alguma coisa a acrescentar. Todos somos poucos para contribuir para estas reflexões.

Várias instituições católicas escreveram ao presidente Marcelo Rebelo de Sousa a pedir que ele vete a lei da eutanásia.

O ex-reitor do Santuário de Fátima critica a actual gestão daquele espaço, pedindo uma “purificação do templo”.

Nos últimos dois dias foram raptados mais dois padres na Nigéria. Uma praga sem fim naquele país.

As discussões sobre masculinidade estão na moda. Por um lado, os que insistem que qualquer característica masculina é “tóxica” e do outro os que consideram que um verdadeiro homem deve ser musculado, usar barba, fumar cachimbo e tratar a mulher com condescendência. Onde está o bom-senso? Felizmente ainda existe e o artigo desta semana do The Catholic Thing em português é um bom exemplo disso, com Stephen White a argumentar que se queremos homens que vivem a sua masculinidade de forma saudável não temos de fazer mais do que educá-los para a virtude. Leiam que vale mesmo a pena, e partilhem, sobretudo com homens e jovens pais.

O Mundial acabou, com o troféu a ir para o país do Papa e do jogador com uma tatuagem gigante de Jesus no braço. Fui acompanhando e sublinhando as dimensões religiosas do torneio no Twitter, podem ver aqui, ou aqui, caso não tenham conta no Twitter.

Esta semana, por estarmos em vésperas do Natal, não há Hospital de Campanha, mas se ainda não o fizeram ouçam o mais recente episódio, sobre como amar os mais frágeis da nossa sociedade.

Thursday, 22 December 2022

Abusos de menores e de adultos: Diferenças e semelhanças

Um caso de abusos sexuais de mulheres adultas por parte de um sacerdote está a dar muito que falar no mundo católico. Em causa está o padre Marko Rupnik, um jesuíta esloveno. Rupnik é muito conhecido no mundo católico pela sua arte, tendo desenhado mosaicos e outras obras em algumas das mais importantes igrejas do mundo, incluindo a nova Basílica da Santíssima Trindade, em Fátima.

Há várias acusações graves contra Rupnik, nomeadamente de ter criado um ambiente de abuso de poder e manipulação numa ordem de freiras da qual era assistente religioso. Mais, a dada altura o padre jesuíta terá mantido uma relação sexual com uma das religiosas desse mosteiro, tendo posteriormente absolvido a mesma em confissão. Trata-se de um crime canónico de tal gravidade que o responsável incorre na pena de excomunhão, a qual só é levantada quando o culpado revela arrependimento, o que terá acontecido.

Mais do que uma simples coleção de falhas pessoais de um padre isolado, este caso tem levantado grandes críticas em relação à forma como foi tratado pelos jesuítas, em primeiro lugar, mas também pelo Vaticano. Apesar das várias acusações que foram feitas contra ele, e de estas serem do conhecimento dos seus superiores e do Dicastério para a Doutrina da Fé, Rupnik continuou a aparecer em público, a aceitar encomendas e a executar obras de arte sacra, a apresentar um vídeo semanal de análise das leituras de cada Domingo e até a pregar uma reflexão quaresmal para a Cúria romana.

Quando as alegações se começaram a tornar públicas, a informação foi sendo libertada a conta-gotas, tanto pelos jesuítas como pelo Vaticano, o que só levantava mais questões e criava maior confusão. Eventualmente a ordem religiosa do padre Rupnik acabou por admitir os factos todos – ou pelo menos assim parece – mas não sem antes sofrer grandes danos ao nível da sua própria credibilidade e transparência.

Numa altura em que tanto se exige transparência em relação à questão dos abusos de menores, logicamente muitos questionam porque é que o mesmo não se aplica a este caso, e porque é que a própria Santa Sé, que deve dar o exemplo e que tanto tem progredido nos últimos anos neste campo, não o fez.

A resposta mais evidente é de que não estamos perante um caso de abuso de menores, mas de relações entre adultos, ainda que, por ser assistente espiritual das religiosas, não se possa falar de uma relação desprovida de abuso de poder. É uma distinção importante? É, e já vamos ver porquê. Justifica a falta de transparência? A meu ver não, não justifica, e penso que com tudo o que já aprendemos sobre a crise de abusos é importante a Igreja, quer as locais, quer a Santa Sé, compreendam que muitas das lições que aprendemos com a crise dos abusos de menores podem e devem aplicar-se a outras áreas, incluindo esta.

Uma questão de corrupção

Vamos então tentar perceber quais são as grandes diferenças entre o abuso de menores e as relações consensuais, embora pecaminosas, entre adultos.

A primeira e mais evidente diferença é o mal causado às vítimas. Choca sempre mais, e bem, o abuso de uma criança, seja ele de natureza física, sexual ou psicológica. Os abusos abrem sempre feridas terríveis nas suas vítimas, feridas duradouras, mas o seu potencial destrutivo é ainda mais grave nas crianças. Isto não significa que não se deva ter também compaixão das vítimas adultas, e ajudá-las ao máximo, como é evidente.

Mas há outra grande diferença, que está na disposição e no estado de alma do próprio abusador. E penso que essa merece mais atenção do que costumamos dar.

Um dos temas a que o Papa Francisco volta sempre é à corrupção. Para os nossos ouvidos, quando se fala em corrupção pensamos em troca de favores por dinheiro, enriquecimento ilícito, cunhas e favorecimento. Mas não é nesse sentido que o Papa usa o termo. Ele explica que existem pecados, que todos cometemos, mas a corrupção é mais do que um pecado, é uma doença, uma doença da alma, no sentido em que contamina toda a forma como agimos e pensamos.

Para usar um exemplo prático. Um homem que está a passar na rua e repara que alguém deixou cair a carteira e aproveita para a roubar, está a cometer um pecado, claro, mas é um grau diferente daquele que acorda decidido a ir roubar; justifica a si mesmo que pode e deve roubar, porque a satisfação da sua necessidade ou do seu desejo é a prioridade máxima; que desenvolve planos e esquemas para poder roubar e depois as executa. Esse, ainda que não consiga obter o proveito de um roubo, já pecou no coração e tem a alma corrompida porque está já consumido da vontade de pecar.

A ler, sobre o conceito de
corrupção segundo o Papa
Aplicando isto à realidade dos abusos sexuais, podemos ver que há diferenças entre o abuso sexual de um menor, ou uma pessoa vulnerável, e uma relação com um adulto. No segundo caso, para já, existe a possibilidade do consentimento da outra parte. Tomemos o caso de um padre que se sente muito atraído por uma mulher a quem está a dar direcção espiritual. Se do outro lado também existe atracção torna-se muito mais provável que o pecado seja consumado. Isto até pode acontecer espontaneamente. O padre pode nem estar a pensar no assunto, mas a outra pessoa vem procurar o contacto e o padre, perante essa possibilidade, sucumbe à tentação; ou duas pessoas encontram-se numa situação em que de repente reparam que têm possibilidade de ter uma relação e ambas cedem. Enfim, não adianta explorar todas as possibilidades.

Mas também pode acontecer o contrário. Pode acontecer que o padre sente atracção por alguém e procura manipular as circunstâncias para poder estar sozinho com ela, procura seduzir e despertar na outra pessoa a mesma vontade, etc., para poder satisfazer o seu desejo. Esta segunda situação seria já um caso de corrupção da alma, porque o padre já cometeu esse pecado no seu coração e agora está a tentar a toda a força cometê-lo de facto. Isto é tanto mais grave se o padre se aproveita do seu ministério, como director espiritual, por exemplo, e de algum ascendente que tenha sobre a outra pessoa, para fazer valer a sua vontade, podendo até manipulá-la ao ponto de a tentar convencer que o mal que ele procura praticar é na verdade um bem, ou que constitui a vontade de Deus.

A diferença quando lidamos com o abuso de crianças é de que não existe a possibilidade do primeiro cenário. Não pode haver consentimento, nem verdadeira compreensão do que está em causa por parte da criança ou do menor. E, por conseguinte, a situação de abuso nunca é a mera queda numa tentação espontânea.

A lógica dita, e a prática mostra, que os abusadores de menores são pessoas especialmente manipuladoras. A relação com as vítimas é cultivada, o abusador procura ganhar a confiança da vítima, mas também da sua família. As condições para estarem a sós e para se praticar os abusos são pensadas e depois executadas. Há uma predisposição necessária que agrava tudo o que se passa de seguida, e contamina muito, se não tudo, do resto da sua acção pastoral. Por isso é que para estes pecados em particular existe tolerância zero. Nenhum homem será apenas o somatório das suas falhas, e isso aplica-se também aos abusadores, mas isso não implica que se possa continuar no ministério sacerdotal.

Tudo isto configura um caso particularmente grave de corrupção da alma, o que tem ramificações importantes quando se trata de um padre ou outro agente pastoral. Os católicos compreendem e aceitam que os seus padres sejam sujeitos a tentações, que por vezes até nelas caiam. Não aceitam, nem devem aceitar, é que os seus padres sejam pessoas corruptas que no seu coração já cederam ao pecado e procuram de todas as formas manipular quem está em seu redor para o levar a cabo. Isto aplica-se a qualquer tipo de pecado, a questão é que com o abuso de menores aplica-se sempre.

Voltando ao caso do Pe. Rupnik, uma leitura benevolente do seu caso será de que os seus superiores, e os responsáveis do Vaticano, entenderam que com ele estavam perante situações de quedas pontuais, das quais estava devidamente arrependido e recomposto, e não de corrupção da alma, e por isso, depois de o corrigirem e de o castigarem de forma discreta, não tiveram problemas em permitir que ele prosseguisse com outras actividades pastorais, como o tal vídeo semanal e as muitas obras de arte que foi fazendo.

Foi um erro? Provavelmente, sim. A decidir que os seus crimes não justificavam a expulsão do estado sacerdotal, teria pelo menos feito sentido mantê-lo em funções mais discretas até se ter a certeza de que estava recuperado, que estava verdadeiramente arrependido. E se já estavam reunidas essas condições, deviam comunicá-las devidamente, logo que começaram a surgir as notícias, para evitar dar a entender que estavam a encobrir.

Por não o terem feito, e por terem respondido às revelações que entretanto foram surgindo de forma confusa e atabalhoada, tanto a Santa Sé como os Jesuítas sofreram graves danos reputacionais. Esperemos que aprendam com este caso, para evitar males parecidos ou mais graves no futuro. E esperemos que compreendam que as lições que temos aprendido com a crise dos abusos podem e devem ser adaptados a outras realidades também. Todos ficamos a ganhar com isso.

Thursday, 18 November 2021

Honestidade, Escuta, Drama e o Casarão

Os meninos de "O Casarão"
O Cardeal Sean O’Malley pede que se façam investigações “honestas e independentes” aos casos de abusos na Igreja.

Em Portugal os Jesuítas abriram um Serviço de Escuta para vítimas de abusos sexuais.

A Cáritas chama atenção para o que descreve como uma “situação muito dramática” na fronteira entre a Polónia e a Bielorrússia.

E estreia esta quinta-feira, no Cinema City em Alvalade, um filme sobre um seminário que foi um farol de liberdade durante o Estado Novo. Podem ler sobre “O Casarão” aqui, mas o melhor é mesmo irem ver o filme! (Trailer no final do post).

Não deixem de ler o artigo desta semana sobre como amar a Igreja, apesar de tanta coisa má que a aflige. É só seguir o exemplo de São Francisco de Assis!


Wednesday, 17 November 2021

Antes do Black Friday, o Red Week

Sílvio Alves Moreira, possível futuro beato
Sabemos como o mundo da liturgia pode ser polémico e cheio de divergências. Nos Estados Unidos, mais do que em muitos outros países! Por isso os bispos americanos escolheram um luso-descendente para pôr a casa em ordem. O bispo Steven J. Lopes tem um percurso peculiar, que vale a pena conhecer.

Estarão a caminho dois novos beatos jesuítas? Pode ser que sim, e um é português.

Por falar em jesuítas, conseguiram resgatar e acolher 220 cidadãos afegãos em Portugal.

Se vir um monumento iluminado de encarnado esta semana, lembre-se dos cristãos perseguidos! Começa hoje o Red Week. É uma iniciativa da AIS.

Ontem fez um mês que foram raptados 17 missionários no Haiti, incluindo cinco crianças. Há que rezar para que estejam bem!

Como amar uma Igreja que está assolada por crises, guerrinhas e polémicas? Seguindo o exemplo de São Francisco, explica o padre Thomas Weinandy, no artigo desta semana do The Catholic Thing em português.

E por fim, um desafio para que se inscrevam num curso sobre Ciência e Religião, organizado pela Brotéria, e que se realiza nos dias 20 e 27 de novembro. Podem inscrever-se num dos dias, ou no curso completo, e o programa completo está aqui.

Monday, 26 July 2021

Conversas inquietas sobre ritos antigos

De volta, depois de uma semana de férias, começo por dizer que quem quiser pode assistir a uma “conversa inquieta” promovida pelos jesuítas, esta segunda-feira à noite, sobre o motu proprio do Papa Francisco que restringe o acesso ao rito antigo da missa. Será em modo virtual, no YouTube, a partir das 21h15.

O artigo da semana passada do The Catholic Thing foi sobre o conceito de sinodalidade, que tem sido uma das marcas deste pontificado. O que significa o termo, exactamente? Stephen White dá-nos umas ideias, mas diz que está muito por definir, o que não é necessariamente mau.

Entretanto, nas notícias, destaque para o regresso dos retiros presenciais em Fátima, a partir de Agosto.

E há um novo caminho para Santiago, que começa na Península de Setúbal.

Wednesday, 27 January 2021

Revelado o hino das jornadas, economia de Francisco em debate

Já é conhecido o hino da Jornada Mundial da Juventude que se vai realizar em Lisboa em 2023.

Pode saber tudo, e ouvir o hino, aqui. A ideia, diz o secretário-executivo, é “chegar a todos”.

Num tempo em que a solidão é maior, os jesuítas criaram um “ponto de escuta” que pode ajudar quem precisa de companhia. Saiba tudo aqui.

O projeto sobre a “Economia de Francisco” continua a dar que falar. Hoje há uma mesa redonda sobre o assunto com jovens e menos jovens, a que pode assistir por zoom. Toda a informação aqui e na imagem que vai em anexo.

As escolas católicas não gostaram da ordem do Governo para interromperem as atividades letivas.

Morreu um padre assassinado nas Filipinas.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre como a santidade se pode construir nas coisas mais simples da vida. 

Monday, 3 February 2020

Absolutismos

Michael Nnadi, assassinado na Nigéria
Uma absoluta vergonha o que se passou esta segunda-feira no Paquistão, onde um tribunal decretou que o casamento de uma rapariga raptada, forçada a converter-se ao Islão e forçada a casar-se com um muçulmano é válido. Qual foi o critério? Pasme-se, não foi a lei nacional, mas sim a Sharia.

Uma absoluta tristeza a notícia que nos chega da Nigéria, da morte de um dos quatro seminaristas que foram raptados por bandidos a 8 de janeiro. Os outros três foram todos libertados.

Uma absoluta desgraça o que se passa no norte de Moçambique, onde o bispo de Pemba calcula que já tenham morrido 500 pessoas às mãos de jihadistas.

Domingo foi o dia da vida consagrada. A Aura Miguel entrevistou para o efeito uma monja concepcionista, numa conversa que vale bem a pena ouvir. Da minha parte, convido-vos a ler o artigo que escrevi para o Ponto SJ e que foi publicado no sábado.

Tuesday, 1 October 2019

Valorizar a Bíblia e clarificar a campanha

(Clicar para aumentar)
O Papa Francisco instituiu um dia especial para valorizar a Bíblia. Em 2020 calha a 26 de janeiro. Podem-se ir preparando.

A dias das eleições, o arcebispo de Évora acha lindamente que o Alentejo seja um destino de descanso para muitos, mas diz que os que de lá são gostariam também que fosse um sítio onde houvesse emprego.

Ainda neste tema os Juristas Católicos publicaram uma nota em que pedem clareza na campanha eleitoral e os Jesuítas publicam uma série de respostas dos partidos às suas questões, sobre temas marcantes destas eleições.

Dentro de dias começa o Sínodo da Amazónia, uma oportunidade para encontrar “novos ministérios” e até “uma nova maneira de ser sacerdote”, diz o padre Joaquim Fonseca, que conhece bem a realidade.

Deixo-vos ainda com este desafio para um curso de namorados. A informação vai em anexo, as inscrições devem ser feitas aqui.

Wednesday, 4 September 2019

Abusos nas Periferias

Stephen P. White
Os abusos sexuais são uma praga, seja onde for, ou quem envolvam. Mas uma das facetas menos exploradas da crise de abusos sexuais praticados por padres nos Estados Unidos é a forma como as comunidades minoritárias e marginalizadas têm sido particularmente susceptíveis tanto aos abusadores como às más-práticas dos bispos e superiores religiosos que lidaram tão mal com os casos de que tiveram conhecimento.

Esta semana a Associated Press publicou uma reportagem sobre uma família alargada em Greenwood, Mississippi que foi devastada por abusos sexuais na Igreja. Três dos rapazes da família, Joshua e Raphael Love e o seu primo La Jarvis Love, alegam que foram abusados por dois frades franciscanos na Escola São Francisco de Assis nos anos 90.

Certos aspetos destes casos de abuso são por demais familiares: a forma como foram recrutados, as ameaças, o silêncio, a ineficácia da resposta tanto das autoridades da Igreja como, pelo menos de início, das autoridades. Mas alguns dos detalhes dos casos da família Greenwood sobressaem.

Em primeiro lugar, os rapazes de Greenwood são afro-americanos e de uma das zonas mais pobres de um dos estados mais pobres. Os seus alegados abusadores eram ambos missionários franciscanos de outros estados, que tinham vindo para Mississippi para trabalhar numa paróquia missionária, para servir as populações mais desfavorecidas.

Em 2006 a diocese católica local – Jackson – chegou a um acordo judicial com dezanove vítimas de abusos, na maioria brancos, por uma média de 250 mil dólares cada. Mas os franciscanos ofereceram apenas 15 mil dólares a cada um dos Love, e apenas na condição de que assinassem um acordo de confidencialidade.

“Eles sentiam que nos podiam tratar assim porque somos pobres e porque somos pretos”, disse Joshua Love. E compreende-se que tenha sido o caso. Sem advogados, dois dos três rapazes Love aceitaram o acordo.

O terceiro Love, Raphael, não aceitou o acordo. Actualmente está preso por um duplo homicídio cometido quando tinha 16 anos. A sua vida teria sido diferente se não tivesse sido abusado? As duas vítimas abatidas a tiro estariam vivas? O trauma de abusos sexuais na infância tende a destruir vidas e é impossível saber o que poderia ter sido. Mas também não podemos deixar de pensar no assunto.

Quanto aos abusadores, o frei Paul West abandonou os franciscanos em 2002, mas ainda em 2010 estava a dar aulas numa escola católica perto de Appleton, Wisconsin e o frei Donald Lucas morreu em 1999, num aparente suicídio.

Mas os rapazes pobres do Delta do Mississippi não são os únicos que têm razões para se sentirem duplamente traídos – primeiro pelos seus abusadores, e depois pela Igreja, por os tratar tão mal.

Os missionários jesuítas que trabalharam com indígenas no Alasca amontoaram um registo assustador de vítimas ao longo de várias décadas. Os números em si não são tão impressionantes como as que se encontram em cidades com grandes populações católicas, mas dada a escassez da população, as décadas de abusos e o número de padres e voluntários jesuítas envolvidos, a imagem geral é terrível.

A Província Jesuíta de Oregon nega ter usado o Alasca como depósito para padres suspeitos de abusos, mas os números não mentem. Note-se neste parágrafo de um artigo do National Catholic Reporter sobre a bancarrota da Província, em 2009.

Joshua Love, uma das vítimas dos franciscanos no Mississippi
“Durante o período em questão, segundo um advogado no Alasca, houve no máximo 29 padres a servir ao mesmo tempo na diocese. Ao longo desses anos pelo menos 20 jesuítas foram credivelmente acusados e houve alturas, disse, em que oito padres acusados estavam a servir em simultâneo.”

Ou então tenha em conta estes números: A vila de Holy Cross, no Alasca, tem uma população de 200 pessoas. Entre 1930 e 1971 houve dezasseis padres, irmãos e voluntários jesuítas que trabalharam na Missão Holy Cross e que foram alvo de pelo menos uma acusação credível de abuso sexual. Dezasseis abusadores numa vila de cerca de 200 pessoas no espaço de 40 anos!

Talvez a faceta menos explorada da crise de abusos nos Estados Unidos seja a forma como afectou os católicos hispânicos. Tem sido referido que a resposta à crise de abusos tem sido bastante diferente – menos estridente – entre católicos de língua espanhola nos Estados Unidos do que nas partes anglófonas na Igreja. As razões destas diferentes reacções deveriam ser escrutinadas, mesmo que uma significativa minoria dos católicos americanos não fossem latinos.

Sejam quais forem as diferenças, ou as razões por detrás, vale a pena referir que os católicos hispânicos têm sido vítimas tanto de padres abusadores como de prelados à procura de um local para os esconder.

A arquidiocese de Chicago removeu um pároco o ano passado depois de ter sido detido por praticar actos sexuais com outro padre no interior de um carro estacionado. Embora essa história tenha sido muito divulgada, o que é menos conhecido é que o pároco em questão não foi o primeiro a ser removido dessa paróquia – uma missão de língua espanhola no que é de resto um subúrbio de classe média, em larga medida branca. O seu antecessor foi detido por pornografia infantil. O que é que uma missão de língua espanhola na terceira maior diocese do país precisa de fazer para ter um pastor que não seja depravado?

Depois há o caso da arquidiocese de Los Angeles, que sob o cardeal Roger Mahony enviou padres abusadores para paróquias de maioria hispânica, com grandes percentagens de imigrantes ilegais. Como devem calcular, paroquianos pobres que estão no país de forma ilegal têm menos tendência para recorrer às autoridades quando o sacerdote se porta mal.

Não é preciso considerar-se um campeão da justiça social para se sentir enojado com estas histórias.

Os abusos sexuais praticados por clero são uma praga, seja onde for e com quem aconteçam. Uma das verdades mais dolorosas de toda esta terrível confusão é que tanto predadores como prelados têm feito questão de concentrar os abusos nas periferias. Aqueles que lá vivem é que têm acarretado com o grosso do problema. O seu sofrimento também clama por justiça.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 29 de Agosto de 2019)

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Wednesday, 3 July 2019

A pré-publicação do padre João

Vai de férias? Não deixe Deus de parte. Os jesuítas ajudam.

A questão dos refugiados continua a mobilizar muita gente. Ao contrário de alguns, que insistem em demonizá-los, estes artistas reuniram-se para mostrar que “somos todos os ‘outros’ uns dos outros”.

Amanhã é publicado o livro “João Seabra – à Sua maneira”, sobre o padre João Seabra. Temos na Renascença um capítulo do livro em pré-publicação, para lerem. O lançamento é às 19h no liceu Pedro Nunes.

O Vaticano vai abrir dois túmulos como parte das investigações sobre o desaparecimento da uma rapariga italiana em 1983.

Hoje temos novo artigo do The Catholic Thing. Randal Smith volta à carga sobre a questão da morte, e como a Igreja pode ajudar a sociedade a lidar melhor com o processo de morte. Este é um dos grandes temas do nosso tempo. Não estamos a lidar bem com o assunto! Não deixe de ler.

Monday, 30 July 2018

As crianças são mais frágeis que as cidades

Pe. Fouad Nakhla
De volta, pelo menos por mais alguns dias, deixo-vos com esta interessantíssima entrevista com o pe. sírio Fouad Nakhla, que lidera o Serviço Jesuíta aos Refugiados em Damasco. Como é que se constrói o futuro num país com uma geração inteira que não conhece mais do que a guerra?

O Pe. Fouad trabalha em Damasco com um jesuíta português que, há dias, conversou com a minha colega Ana Lisboa.

O Papa aceitou a renúncia de um bispo australiano acusado de encobrir casos de abusos sexuais e aceitou também a renúncia do cardeal americano Theodore McCarrick, acusado de ter cometido abusos sobre menores e sobre seminaristas e jovens padres das dioceses que liderou.

Não se pode subestimar o quanto o caso do cardeal McCarrick está a revoltar a opinião pública nos Estados Unidos, sobretudo dos católicos, terrivelmente desapontados com a sua hierarquia. Pode saber mais sobre este caso aqui, no artigo da semana passada do The Catholic Thing. Uma leitura difícil, mas importante.

E nestes dias Portugal ganhou um bispo, D. José Tolentino Mendonça, e perdeu outro, D. António Rafael, emérito de Bragança-Miranda. Em relação a D. José Tolentino, destaque para as suas palavras, comparando uma biblioteca a um jardim, e para o significado das suas armas e do seu lema episcopal.

E por fim, as crianças devem ir a funerais? A Ana Rute Cavaco deu o mote para a discussão e eu acrescentei uma reflexão aqui.

Tuesday, 17 July 2018

Equipistas aos milhares em Fátima

Está a decorrer, desde ontem, o encontro das Equipas de Nossa Senhora.

O Papa enviou uma mensagem aos participantes, que salvo erro não existe publicada em lado nenhum, se não aqui no meu blog, tanto em português como numa tradução minha para inglês.

Entre os participantes há milhares de casais como o Luís e a Waleska Silva e todos os dias começam com uma reflexão conduzida pelo padre Tolentino Mendonça, recém-nomeado arcebispo.

A fundação Ajuda à Igreja que Sofre aprovou 40 projetos para ajudar os cristãos na Síria, no valor de cerca de três milhões de euros.

E ontem saíram as nomeações de padres para Lisboa, sendo que a principal surpresa é o facto de os jesuítas assumirem a paróquia da Encarnação.


Wednesday, 22 February 2017

Cavaleiro de Deus: Recensão de “Inácio de Loyola”

Brad Miner
Embora esta biografia cinematográfica do fundador dos jesuítas tenha estreado no Verão passado, só esta semana é que tive oportunidade de a ver. O filme do guionista-realizador Paulo Dy foi gravado – em inglês – entre Espanha e as Filipinas, sob os auspícios da Fundação de Comunicações Jesuítas das Filipinas (JesCom Films). É pouco provável que apareça no seu cinema local mas, como explicarei mais à frente, pode tomar a iniciativa de organizar um visionamento para um grupo ou uma organização católica.

E sugiro que o façam, porque este é um filme católico que está muito à frente de qualquer outro que tenho visto nos últimos anos. Consegue ser simultaneamente verdadeiramente católico e bom cinema.

O filme começa com fogo e água – um tema que se mantém ao longo da película. Entramos pelo fogo da conversão e emergimos através do baptismo da vida nova. Inácio Lopez de Loyola (desempenhado pelo actor Andreas Muñoz) desenvolve-se como uma flor a brotar de terra queimada – é um soldado forjado como uma espada nas chamas e depois submetido à água para testar a força. É mesmo assim que culmina a cena, e é muito forte.

A história de Loyola, um nobre espanhol quebrado pela guerra que acaba por fundar a Sociedade de Jesus, é como muitas verdadeiras histórias de conversão: De Agostinho a Merton, mas sobretudo São Francisco de Assis, antes dele e Charles de Foucauld, depois, que também eram soldados para quem os profundos ferimentos da guerra levaram a uma vontade mais profunda para servir Cristo. Tal como Agostinho, Loyola viveu uma vida bastante carnal até ser gravemente ferido na Batalha de Pamplona, em 1521.

O filme custou cerca de 1 milhão de dólares (trocos para Hollywood). Normalmente nos filmes de guerra de baixo custo as cenas de combate são pouco impressionantes, mas não é o caso aqui. Alguns dos efeitos especiais, sim, são limitados, mas não podemos esperar efeitos ao nível do “Reino dos Céus” de Ridley Scott, que teve um orçamento dez vezes superior. Mas no geral, as imagens de guerra são potentes – sobretudo as imagens das sequelas do combate, por exemplo a perna destroçada de Loyola, que o deixou coxo para o resto da vida, precisa de ser colocada no sítio, depois partida novamente e recolocada. Estas cenas devem muito à realização prudencial de Dy e à cinematografia de Lee Briones Meily.

Mas é a representação de Muñoz que verdadeiramente faz com que as cenas e, na verdade, todo o filme, funcionem tão bem. É ele quem dá unidade. É um papel pelo qual facilmente poderia ter sido nomeado para um Oscar, caso os membros da academia tivessem visto o filme. Há outros actores igualmente bons, o suficiente para terem sido nomeados para um prémio de elenco da Screen Actors Guild, se essa malta tivesse visto o filme.

Deve ser mais fácil representar a agonia do que o carinho e há uma cena no filme – na minha opinião a melhor – em que entra um Inácio desgastado pela guerra, e uma prostituta, Ana. O seu irmão e o seu primo levaram-no a um bordel, na esperança de o animar depois da guerra, sem saber que ele já ouviu o chamamento de Deus. Sentado na cama de Ana, recusa os seus avanços, querendo apenas conversar, algo que nenhum homem lhe tinha pedido.

Ana, desempenhada por Marta Codena, e Inácio falam sobre Jesus. Tal como faz com outras personagens durante o filme, ele pede-lhe que use a sua imaginação para ver Jesus sentado numa cadeira no seu quarto. A conversão dele está bem encaminhada, a dela está apenas a começar. A cara de Ana é transformada primeiro pelo medo, depois pela esperança, e a dele também. É um momento tão emocionalmente poderoso como qualquer outro que tenho visto nos ecrãs nos últimos anos; a subtileza estonteante atinge-nos como uma vaga.

Pouco depois Loyola parte para seguir as pegadas de São Francisco. Serve os doentes e os moribundos num hospital em Manresa, Espanha, e vive durante meses numa caverna – torturando-se e sendo tentado por um demónio (também representado por Muñoz). As cenas de autoflagelação remetem sempre para uma forma de loucura, mas o resultado da angústia de Inácio é uma quase total sanidade. O que o leva à presença da Inquisição.

Esta parte do filme é estranha, não porque não tenha acontecido (aconteceu), mas porque o inquisidor que o julga por pregar sem ter curso de teologia nem ser ordenado, é Alonso de Salazar Frias. Mas Frias – desempenhado por Gonzalo Trujillo – que era conhecido como o defensor das bruxas, só nasceu oito anos depois da morte de Loyola. Talvez tenha havido outro inquisidor chamado Frias, mas se sim, não encontrei qualquer referência. Mas adiante.

Há medida que a história se desenrola, vemos Loyola a escrever um diário da sua vida (que formaria a base da sua autobiografia) e os seus Exercícios Espirituais. A conversão pode ser descrita como morrer em, e por, Cristo e, em certo sentido, Loyola desenvolveu uma fórmula para fazer isso mesmo – um processo disciplinado através do qual tudo é visto através de Jesus Cristo e oferecido a Cristo.

O filme termina sem contar a história da fundação da Sociedade de Jesus e as décadas finais da vida de Loyola, por isso talvez possamos esperar uma sequela – eventualmente com um flashback para a sua viagem à Terra Santa. Acredito que isso acontecerá se houver gente suficiente a ver o filme. A Ignatius Press está a disponibilizar o filme para exibições cinematográficas patrocinadas por qualquer organização. Podem encontrar mais informação aqui. [Nota do Tradutor: O gabinete de comunicação dos jesuítas em Portugal diz-me que estão previstas sessões de visionamento do filme, mas ainda não há detalhes concretos].

O filme é para maiores de 13 [nos EUA], em grande parte por causa das cenas de flagelação. Entre o elenco contam-se ainda a belíssima Tacuara Casares, que representa a Princesa Casares e Javier Godino e Mario de la Rosa, que fazem de parentes de Loyola. A elegante Isabel Garcia Lorca representa uma das primeiras mecenas de Inácio e Julio Perillán aparece no papel do dominicano que defende Inácio diante da Inquisição. Pepe Ocio é um camarada em armas de Loyola, cuja morte assombra o futuro santo e o projecta em direcção a Deus.


(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 21 de Fevereiro de 2017 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Monday, 23 January 2017

Silêncio: “Aquilo que Deus nos pede pode não ser o mais lógico”

Transcrição integral da entrevista feita ao padre jesuíta José Maria Brito, sobre o filme "Silêncio". As reportagens sobre o filme podem ser lidas aqui e aqui. Podem também ver a minha interpretação, bem como ler as transcrições integrais das entrevistas feitas a Brad Miner e ao especialista em Shusaku Endo, padre Adelino Ascenso.


Há quem diga que Silêncio é uma justificação da apostasia. Concorda?
Não me parece. Acho que não. Parece-me é que o filme nos coloca numa situação em que percebemos o que é que pode ser, num dado momento, as dúvidas de fé e as dúvidas sobre por onde passa, verdadeiramente, a fidelidade.

Nesse sentido não é um filme que nos dá uma resposta óbvia – por isso compreendo que essa leitura se faça – embora não seja a leitura que eu faça, mas compreendo essa leitura, porque realmente percebe-se que não é o facto de se temer o sofrimento que faz com que se opte pela aparente apostasia, o que de facto motiva a apostasia não é o medo do sofrimento, mas sim o desejo de expressar compaixão por pessoas muito concretas, pela comunidade que lhes tinha sido confiada.

E por outro lado também – o que creio que é importante neste caso – é recordarmos que a experiência de martírio que era e continua a ser um exemplo muito grande para os cristãos, não só um exemplo como um modo muito honroso de as pessoas se identificarem com Cristo, mas também de garantia de reconhecimento. Mas aqui eles sabem, até pela própria experiência que tinham, pelo impacto que a apostasia de Ferreira tinha tido na Europa, que optar por aquele caminho também os vai levar a ser tidos como loucos, desprezados pela sua própria comunidade. Por isso a opção, que é realmente difícil, não é uma opção que lhes garanta nenhuma honra ou glória. A vida deles, depois dessa opção, não se torna para eles mais prazenteira. Percebe-se que vivem uma certa morte espiritual, ou da sua dignidade como cristãos, e terem optado por isso e com a consciência disso, parece-me que de facto não é uma justificação da apostasia, mas sim o fazer-nos perceber que muitas vezes aquilo que nos é pedido pode ser contrário ao que aparentemente nos parece mais lógico e até mais conforme ao que é a proposta cristã.

O filme apresenta três reacções possíveis diante da perseguição. Há os que morrem pela fé, o que está constantemente a cair e a arrepender-se e por fim os que apostatam e parecem viver conformados com isso. A ideia é identificarmo-nos mais ou menos com alguma?
Acho que a leitura dessas diferenças é uma leitura possível. Mas não sei se é uma questão de nos identificar mais ou menos com uns ou outros. Não tenho tanta certeza de que vivam confortáveis, não faço essa leitura, de que os que fazem esta apostasia aparente vivam confortáveis com isso, porque me parece que eles têm consciência de que há ali uma certa perda da sua identidade e percebe-se nos seus diálogos interiores que eles mantêm a inquietação religiosa, a inquietação da sua fé, e acho que tanto o livro como o filme nos dá pequenas indicações que tornam possível a visão de que eles realmente não perdem a sua fé nem a sua confiança em Jesus.

Acho que o filme nos obriga, mais do que a identificar-nos com uns ou outros, a perceber como é que podemos viver os nossos combates interiores pela busca da fidelidade e como isso por vezes é menos óbvio do que gostaríamos e esse é o grande desafio da própria fé e do caminho da relação com Deus. Isso é o que me parece mais interessante no filme, mais desafiador, o que é realmente levar a nossa fé ao ponto de termos de tomar decisões que não são óbvias, mas em que procuramos a maior fidelidade possível daquilo que nos parece ser, naquele momento concreto, aquilo que Deus nos pede e o filme dá-nos um bocado essa indicação.

Considera que é um filme “perigoso”?
Não sei se é um filme perigoso. É um filme que implica uma certa cautela quando o vemos, para evitar juízos precipitados. O grande esforço que fazemos quando vemos este filme, ou outro, é perceber até que ponto isto apela a alguma experiência que tenhamos tido. Por isso é também nós procurarmos ler o filme a partir da nossa experiência de inquietação, de dúvida e perceber também as nossas experiências do silêncio de Deus.

Acho que não é um filme de fácil leitura e também pode implicar algumas leituras que podem ser precipitadas. Creio que se de alguma forma há uma mensagem, algo que o filme nos diz, é que a última palavra é de Deus. E por isso a última palavra que pode verdadeiramente julgar os actos humanos é de Deus e sinto que isso é talvez um dos pontos a que o filme apela e que se pudermos fazer a leitura a partir daqui, e por isso também suspendermos alguns dos nossos juízos, acho que o filme se torna um bocadinho menos perigoso.

Não deixo de sentir que o filme é de difícil leitura e que nesse sentido pode gerar muitos desconfortos e essas sensações de que falávamos antes, que há uma justificação da apostasia, por exemplo.

Mas o que creio que é o nosso desafio é lê-lo em profundidade.

Que conselhos é que dá a um católico que vá ver o filme?
O grande conselho que dou é que se deixem o interpelar, que recordem que a fé tem tons muito diferentes e que procurem ler o filme a partir das suas próprias inquietações, de dúvida e daqueles momentos em que procurar a fidelidade de Deus não foi óbvio na sua vida, e procurar ler o filme ligando à sua própria experiência e perceber onde podem ter passado por situações semelhantes. Ao mesmo tempo, voltando ao início, acho que é bom lembrarmo-nos de todas as situações de verdadeira perseguição, de cristãos que continuam a sofrer, e também ter isso presente.

Saturday, 15 October 2016

Encontro de NECs e habemus Papa Negro

Foi eleito hoje o novo superior-geral dos jesuítas. O padre Arturo Sosa é venezuelano, o que significa que neste momento tanto o Papa como o “Papa Negro” são da América Latina. Conheça um pouco mais do homem que desafiou o regime de Chávez.

Decorre amanhã, sábado, o primeiro encontro de Núcleos de Estudantes Católicos. É um fenómeno em crescimento que pode conhecer melhor aqui.

O Papa denuncia a existência de 800 milhões de pessoas com fome no mundo, no dia Mundial da Alimentação.

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