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Thursday, 14 September 2023

O Papa e a Ucrânia: uma sucessão de falhas de comunicação e interpretações mal-intencionadas?

Um dos aspectos mais curiosos e inesperados da guerra na Ucrânia é o facto de o Papa Francisco estar a ser visto por muitos como sendo de alguma forma pró-russo, ou pelo menos russófilo.

Porque é que isto tem acontecido, e será justa a sugestão?

Recentemente os bispos da Igreja Greco-Católica Ucraniana estiveram em Roma para o seu sínodo, e encontraram-se com o Papa, tendo o seu líder, o arcebispo-maior Sviatoslav Shevchuk, aproveitado a ocasião para dizer francamente a Francisco que o seu povo está magoado com ele.

O último incidente foi a mensagem por vídeo que o Papa fez aos jovens católicos da Rússia, em que apelou que estes sejam fiéis à herança intelectual e espiritual dos seus antepassados, referindo como exemplos figuras históricas da Rússia como Pedro o Grande e Catarina II. Os ucranianos sentiram-se ofendidos com essas palavras, recordando que esses imperadores cometeram crimes contra vários povos, incluindo os ucranianos. (As palavras polémicas foram ditas de improviso, no final do discurso, e não aparecem no discurso oficial publicado no site do Vaticano.)

Mas este foi apenas mais um caso. Antes tinha havido dois episódios nas vias sacras de Roma, na Sexta-feira Santa, em que o Vaticano pediu a russos e ucranianos para carregarem a cruz juntos. No primeiro caso eram duas mães, uma de cada nação, e no segundo eram duas crianças que tinham perdido os pais na guerra, um de cada lado. Em ambas as situações os ucranianos ficaram lívidos, acusando o Vaticano de estar a equiparar o sofrimento e a condição das vítimas e dos agressores.

Tivemos ainda a ocasião em que o Papa pareceu dar a entender que a Rússia tinha sido provocada pela aproximação da NATO às suas fronteiras.

Sejamos claros, há aqui sérias falhas de comunicação por parte do Vaticano, e mais especificamente do Papa. Referir Pedro e Catarina era desnecessário e o próprio Francisco lamentou-o no final da sua viagem à Mongólia; e depois de no primeiro ano a ideia da Via Sacra ter caído tão mal na Ucrânia – foi a primeira vez em mais de uma década que a televisão católica ucraniana não a transmitiu em directo – é incompreensível que o tenham feito outra vez no ano seguinte. Pior, sei que queriam repetir o gesto na JMJ, mas a organização portuguesa conseguiu evitá-lo.

Mas estamos também perante um problema de interpretação. Há muito de subjectivo na forma como interpretamos palavras, ou até falhas de comunicação. É sempre possível fazê-lo pela pior lente possível, e parece ser isso o que se está a passar aqui.

O Papa Francisco não é militar, nem é apenas o Papa dos ucranianos, apesar de haver mais católicos na Ucrânia do que na Rússia. Ele é o Papa, ponto final, e a sua obrigação é pugnar pela justiça, sim, e pela paz, certamente, mas não pode, em prol disso, sacrificar as relações com toda uma nação, sobretudo uma nação como a Rússia que, por mais que esteja corrompida a sua chefia, tem uma das Igrejas ortodoxas mais importantes do mundo.

Isso significa que sempre que Francisco age neste campo ele está a levar a cabo uma operação de equilibrismo complexa, em várias frentes. É importante que a guerra acabe, mas a guerra deve acabar sem uma paz justa que devolva à Ucrânia todo o seu território e, já agora, as centenas de milhares de crianças que os russos raptaram? E defender explicitamente essa vitória total não é, de certa forma, defener o prolongar da guerra e, por conseguinte, mais mortes? É importante denunciar o agressor nesta guerra, mas como fazê-lo sem virar a Rússia ainda mais contra o ocidente e contra a Igreja Católica do que já está?

O risco do equilibrismo é que inevitavelmente pode-se cair. E Francisco, ou a diplomacia da Santa Sé, já teve umas quedas, mas só cai quem lá está e a Igreja está lá porque quer mesmo, sinceramente, ver alcançada a paz na Ucrânia.

Para muitos ucranianos, contudo, e incluindo os líderes religiosos, tudo o que não seja a defesa incontestada de uma vitória ucraniana a todos os níveis é visto como uma facada nas costas. E isso explica as reacções negativas por parte de muitos ucranianos. Não me entendam mal… Acho que isto é completamente compreensível, e simpatizo. Mas o papel do Papa não é ser cheerleader para a Ucrânia nesta guerra, até porque se o fizer perde qualquer margem de manobra junto da Rússia, e já vimos que o Papa tem conseguido alguns sucessos nesse campo, nomeadamente a nível de trocas de prisioneiros.

Mas parece-me evidente que chegámos ao ponto em que muito ucranianos já perderam a tolerância e por isso interpretam sempre da pior forma possível tudo o que Francisco diz sobre este assunto. Vejamos a tal mensagem que ele proferiu aos jovens católicos russos, recordando que está a falar com pessoas que estão na Rússia, a viver debaixo do regime de Putin. “Desejo-vos, jovens russos, a vocação de serdes artífices da paz no meio de tantos conflitos, no meio de tantas polarizações de todos os lados, que assolam o nosso mundo. Convido-vos a ser semeadores, a lançar sementes de reconciliação, pequenas sementes que, neste inverno de guerra, não brotarão, entretanto, no solo gelado, mas florescerão numa futura primavera.”

Isto são palavras de coragem, é um desafio que embora não referindo especificamente a guerra da Ucrânia, foi claramente compreendida como tal pelos ouvintes. Mas no meio disto, tudo o que ficou para os críticos foi o elogio à herança russa e uma referência, mal pensada é certo, aos imperadores Catarina e Pedro.

Para mim todos estes ataques ao Papa parecem particularmente injustos uma vez que eu tive o trabalho meticuloso e muito desgastante de acompanhar todas as intervenções feitas sobre a guerra na Ucrânia por líderes religiosos significativos. Só o fiz durante o primeiro ano da guerra, mas foi tempo suficiente para perceber que Francisco foi, mas de longe, o líder religioso não-ucraniano que mais falou da Ucrânia. Só o líder da Igreja Greco-Católica da Ucrânia o superou, e isso é porque ele publicava uma mensagem diária para os seus conterrâneos. Francisco falou um total de 126 vezes sobre a Ucrânia em 365 dias.

Mas não foi só falar. O Papa condenou a guerra, tendo sido dos primeiros líderes mundiais a dizer explicitamente que se tratava de uma guerra e não de uma “operação militar”; nunca hesitou em dizer que a Rússia é que era a responsável pela mesma e que a Ucrânia e os ucranianos eram e são as vítimas; rompeu com o protocolo e foi pessoalmente à embaixada da Rússia no Vaticano para pedir justificações aquando da invasão; enviou representantes para os locais de massacres e matanças; recebeu e beijou bandeiras ucranianas, vindas desses mesmos locais de massacres; apelidou os ucranianos de “corajosos”, “atormentados”, “sofredores” e “mártires”; chamou ao Patriarca de Moscovo acólito de Putin… A lista é enorme.

Quem acompanha o que o Papa escreve e diz, e não apenas as polémicas que de vez em quando surgem quando diz a coisa errada, não pode se não concluir que Francisco está firmemente do lado do povo ucraniano e que deseja o melhor para ele. Que os ucranianos, que tanto sofrem, sintam que isso não basta, porque queriam era ver o Papa a lançar anátemas sobre toda a Rússia e a apelar a uma vitória militar, é compreensível, mas que pessoas de fora, e boa parte da imprensa, alinhem nessa imagem distorcida é perfeitamente injusto.

Wednesday, 19 April 2023

O Catolicismo Bizantino e a Luta pela Ucrânia

Robert W. Shaffen

O apoio dos americanos à resistência ucraniana à invasão de 24 de Fevereiro de 2022 parece estar a esmorecer. Embora a Administração de Biden não tenha feito qualquer promessa de envio de soldados americanos para a Ucrânia, muitos comentadores e candidatos políticos supostamente conservadores têm criticado o que consideram ser um compromisso aberto para com a causa ucraniana e o envio continuado de carregamentos de sistemas de armas americanos e munições para o exército ucraniano. Entretanto há factores tácticos, estratégicos e espirituais em jogo, como a existência do Catolicismo Oriental.

Os críticos dão muitas razões para descontinuar o apoio militar americano. Em primeiro lugar, argumentam, a Ucrânia não é uma democracia comparável à dos Estados Unidos. O seu Governo é corrupto, e por isso não merecedor do apoio americano. Em segundo lugar, as contribuições de armas e de munições enfraquecem a capacidade dos Estados Unidos se defenderem em caso de um ataque inimigo. Em terceiro lugar, alguns comentadores, como Sohrab Ahmari, acreditam que o preço do apoio americano será a introdução na Ucrânia do liberalismo ocidental, com a consequente corrupção moral e cultural da sociedade.

Outras personalidades, como Michael Brendan Dougherty, da National Review, temem que a América seja arrastada para o conflito nuclear que conseguiu, com tanto esforço, evitar durante a Guerra Fria do século XX. Outro grupo preocupa-se com o facto de o envio de armas estar a encorajar a China a tomar de assalto o Taiwan e, finalmente, há aqueles que, como J. D. Vance e Matt Walsh, simplesmente acham que os americanos não têm nada que se meter na guerra entre a Rússia e a Ucrânia.

Do lado contrário, os defensores do apoio à Ucrânia invocam a contenção da Rússia, que voltou a revelar a brutalidade pela qual tem sido responsável incontáveis vezes ao longo da história. O compromisso americano para com os direitos humanos exige que o poder dos Estados Unidos seja colocado ao dispor daqueles que resistem a agressões injustas – algo semelhante ao programa Lend-Lease de FDR para um Reino Unido isolado durante a II Guerra Mundial. Desta perspectiva os Estados Unidos devem procurar estar activamente do lado da conduta civilizada.

Mas há outro factor que devemos ter em consideração. É que o combate ucraniano também envolve a segurança da Igreja Católica na Europa de Leste. O destino das Igrejas Católicas de rito latino e oriental dependem do resultado da guerra. Por um lado, se a Ucrânia colapsar completamente, a história sugere que a Rússia voltará a suprimir a Igreja Católica Bizantina, que forma a maioria nas zonas ocidentais da Ucrânia (tendo Lviv como sua “capital”).

A Ucrânia foi originalmente evangelizada por gregos, pelo que os ucranianos adoptaram a teologia e a liturgia do Cristianismo oriental no século X. A queda de Constantinopla para os turcos em 1453 minou a influência e a autoridade do respectivo patriarca, e as subsequentes negociações entre os papas e os ucranianos conduziram à reunificação das igrejas. Os ucranianos mantiveram as suas tradições, mas submeteram-se à autoridade do Papa.

Ratificada a União de Brest-Litovsk, em 1596, passou a existir a Igreja Greco-Católica Ucraniana, ao abrigo do Reino Unido da Polónia e da Lituânia. Desde então os ucranianos formam a maior das igrejas católicas de rito oriental.

Historicamente a Rússia sempre alimentou o ódio ao Catolicismo Bizantino e a sua perseguição. Os russos desprezavam a obediência bizantina a Roma, que associavam ao inimigo Católico Romano Polaco. Os moscovitas consideravam os católicos bizantinos traidores. Quando a Rússia imperial avançou para ocidente e para sul, no século XVIII, as igrejas greco-católicas foram destruídas ou expropriadas e os seus padres enviados para as prisões do Czar, na Sibéria.

Quando Catarina a Grande estendeu as fronteiras imperais da Rússia através da conquista e da repartição, pressionou os católicos bizantinos a submeterem-se à Ortodoxia. Os padres católicos que desafiassem a Czarina eram deportados e substituídos por clero Ortodoxo Russo. O Catolicismo foi forçado à clandestinidade no Império Russo, embora a Igreja tenha sobrevivido e prosperado nos territórios mais pequenos da Ucrânia ocidental que ficaram sob o domínio da Áustria dos Habsburgos, que eram católicos.

Mas o pior estava para vir com o restabelecimento do controlo da martirizada República da Ucrânia por parte da União Soviética, depois do fim da Guerra Civil da Rússia, em 1922. Os bolcheviques perseguiram impiedosamente o Catolicismo Bizantino, levando-o novamente à clandestinidade, e enviaram muitos padres para os gulags. 

Não se pode esperar que seja o antigo agente da KGB, Vladimir Putin, a estender a mão aos católicos bizantinos da Ucrânia. Ele já está a deportar os ucranianos de leste e jamais reconheceria uma religião cujos fiéis aceitam a autoridade do bispo de Roma. O domínio russo da Ucrânia seria catastrófico para o catolicismo bizantino.

Essa ameaça foi sublinhada no início da guerra pelos mais importantes hierarcas da Igreja Greco-Católica da Ucrânia. O Arcebispo Maior Sviatoslav Shevchuk, líder da Igreja, expressou o seu medo pelo futuro da mesma. Fez notar que alguns padres católicos já foram submetidos a torturas e afirmou que concessões territoriais à Rússia enfraqueceriam fatalmente o seu país.

Mais ou menos ao mesmo tempo o Arcebispo Metropolita da Arquieparquia Greco-Católica Ucraniana de Filadélfia afirmou que “esta batalha é, simplesmente, sobre se a Ucrânia aceita ser uma colónia e se os ucranianos aceitam ser submetidos”. Depois de mais um ano de guerra o povo ucraniano – católicos e ortodoxos – já deram uma resposta convincente.

O sucesso militar da Rússia também constitui uma ameaça para a segurança do Catolicismo de rito latino. Uma Ucrânia dominada pela Rússia aumentaria a fronteira entre a Polónia e o seu antigo inimigo. A ameaça à Lituânia também cresceria muito. Uma vez que ambos estes países são aliados formais dos Estados Unidos (ao contrário da Ucrânia) as Forças Armadas americanas estão obrigadas por tratado a socorrê-los em caso de guerra.

A Administração de Biden descartou a possibilidade de uma invasão russa até que esta aconteceu. A equipa de Biden disse que seria uma loucura Putin iniciar uma grande guerra na Europa, como se não houvesse contributos históricos de loucos para aquilo a que Churchill chamou “o longo e lamentável catálogo de crime humano”.

Mas a Rússia invadiu na mesma. Um ataque contra a Polónia ou a Lituânia seria uma loucura ainda maior. Mas alguém se atreve a contar com a racionalidade de Putin?


Robert W. Shaffern é professor de história medieval na Universidade de Scranton. Também lecciona cursos de civilizações antigas e bizantinas, bem como sobre o Renascimento Italiano e a Reforma. É autor de The Penitents’ Treasury: Indulgences in Latin Christendom, 1175-1375.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 13 de Abril de 2023)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Thursday, 28 April 2022

Vias Sacras, polémicas e obsessões: Hospital de Campanha - Episódio 4

Neste episódio o Duarte, a Inês e eu falamos sobre a Via Sacra de Sexta-feira Santa em Roma, analisando algumas das meditações que este ano se centraram em diferentes tipos de vida familiar, com partilhas extraordinárias.

Mas a Via Sacra foi também alvo de alguma polémica, com os católicos ucranianos a manifestar o seu desagrado pela ideia de juntar uma família ucraniana e outra russa na 13ª Estação. Afinal de contas do que se queixam os ucranianos em relação a Roma e ao Papa Francisco? Têm razões para isso? Falámos bastante sobre o tema.

Por fim, olhámos para a obsessão do Governo e de certos partidos com a legalização da Eutanásia em Portugal.


Ouçam, partilhem, comentem connosco! Nós estamos muito contentes com este projecto e o feedback que temos tido até agora tem sido bastante positivo. 

Podem ouvir no Spotify ou no Google.

Thursday, 21 April 2022

A posição de Francisco sobre a Ucrânia, e a posição da Ucrânia sobre Francisco

Nos últimos dias têm surgido alguns sinais de desagrado da parte de figuras religiosas ucranianas, nomeadamente da Igreja Católica, em relação ao Papa Francisco e ao Vaticano.

Há duas grandes razões para esse desagrado:

   1. O facto de Francisco continuar a insistir em manter os planos para se encontrar com o Patriarca Cirilo, de Moscovo, apesar de este teimar em manter a ligação a Vladimir Putin, de falar da guerra na Ucrânia como se tratasse de uma guerra santa e benzer as forças armadas que partem para a Ucrânia para matar ucranianos e ocupar o seu país.

2.   O facto de o Vaticano ter planeado colocar duas famílias – uma russa e uma ucraniana – a carregar juntas a cruz na décima terceira estação da Via Sacra na Sexta-feira Santa.

Acresce que alguns lamentam o facto de Francisco nunca ter referido pelo nome Vladimir Putin, nem a Rússia, nas suas condenações da guerra.

Alguns destes protestos são compreensíveis, outros nem tanto. Mas o que não é aceitável é concluir que Francisco tem uma posição dúbia sobre esta guerra, nem sobre quem é culpado pela tragédia que se está a desenrolar na Ucrânia.

Aqui no blog tenho juntado todas as declarações dos principais líderes religiosos relevantes sobre esta guerra, desde o seu início. Pelas minhas contas, para além do líder da Igreja Greco-Católica da Ucrânia, que divulga todos os dias uma mensagem de vídeo sobre a situação, e do líder da Igreja Ortodoxa Autocéfala da Ucrânia, o Papa Francisco é o que mais se tem expressado sobre o conflito. Eu conto 17 pronunciamentos públicos, para além de quatro gestos significativos: a ida em pessoa à embaixada da Rússia na Santa Sé, o telefonema a Zelensky, o telefonema ao líder da Igreja Greco-Católica e a conversa por videoconferência com o Patriarca de Moscovo.

Mas mais importante que a quantidade é mesmo o conteúdo das declarações do Papa.

·       Francisco começou logo por dizer, no dia 6 de Março, que esta é uma guerra, desmentindo assim linha oficial de Moscovo de que se trata de uma “operação militar especial”.

·      Antes, a 27 de Fevereiro, quarto dia da guerra, referiu-se ao “povo sofredor da Ucrânia” e disse estar de “coração partido” com o que se está a passar.

·   No já referido dia 6 anunciou ainda o envio de dois cardeais para a Ucrânia, em sua representação.

·       No dia 13 de Março pediu que se pusesse fim ao “massacre” de Mariupol e referiu a “barbárie” da matança de crianças. Nesse mesmo dia publicou uma oração especial pelo fim da guerra na Ucrânia em que identifica Cristo com os bebés que nascem debaixo de bombas em Kiev e com as crianças que morrem nos braços das suas mães em Kharkiv, pedindo a Deus que “trave a mão de Caim”, que aqui é claramente identificado com a Rússia.

·     No dia 15 de Março classificou o ataque à Ucrânia como um “abuso perverso do poder e dos interesses partidários”.

·     No dia 20 de Março referiu-se à guerra como uma “agressão violenta contra a Ucrânia” e um “massacre sem sentido”, falando de matanças e atrocidades. Disse ainda que a guerra é desumana e foi mais longe, apelidando-a de “sacrilégio”, no que pode ser entendido com uma resposta aos que a consideraram uma guerra santa.

·     No dia 2 de Abril, em Malta, disse: “Mais uma vez alguma potência, tristemente apanhada em reivindicações anacrónicas de interesse nacional, está a provocar e fomentar conflito”. No mesmo discurso classificou a pretensão russa de invadir a Ucrânia de “infantil” e disse que “essa criancice, infelizmente, não desapareceu. Reemergiu com força nas seduções da autocracia, novas formas de imperialismo, agressividade em larga escala”.

·      No dia 3 de Abril, ainda em Malta, falou na “guerra injusta e selvagem” na Ucrânia e mais tarde, nesse mesmo dia, voltou a dizer que esta guerra, em particular, é um “sacrilégio”.

·     No dia 6 de Abril referiu-se ao massacre em Bucha, um massacre que os russos dizem que nunca aconteceu, e exibiu publicamente uma bandeira da Ucrânia vinda precisamente dessa cidade.

·     No dia 10 de Abril referiu-se aos “odiosos massacres e cruéis atrocidades levadas a cabo contra civis indefesos”.

·      No sermão de Domingo de Ramos, também no dia 10 de Abril, disse que na guerra Cristo volta a ser crucificado.

·      No dia 13 de Abril disse que esta guerra “é um ultraje contra Deus, uma traição blasfema da Ceia do Senhor, uma preferência pelo falso Deus deste mundo”.

·      E finalmente, na bênção Urbi et Orbi, no dia 17 de Abril, Domingo de Páscoa, disse guardar no coração as muitas vítimas ucranianas, descrevendo-as em detalhe.

A tudo isto acresce o envio dos dois cardeais à Ucrânia, e tudo o que eles têm dito e feito para expressar o horror perante a tragédia e a solidariedade para com a Ucrânia, com o cardeal Krajewski a dizer que tal como Cristo, a Ucrânia ressuscitará.

Portanto não, o Papa não se referiu diretamente a Putin, nem invocou o nome da Rússia, mas é preciso uma enorme dose de má vontade para interpretar as suas muitas palavras e gestos desde que esta guerra começou como qualquer coisa que não seja uma duríssima condenação da Rússia e do regime russo, como responsáveis por esta guerra e tudo o que ela espoletou.

Arrumada esta questão, analisemos então as principais queixas dos ucranianos em relação a Francisco.

A insistência do Papa em encontrar-se com Cirilo é de facto complicada de compreender. Cirilo é a figura religiosa que saiu mais desacreditada em todo este conflito. Incapaz de sair debaixo da asa de Vladimir Putin, incapaz de perceber que esta estratégia é um enorme tiro no pé naquilo que ele considera serem os seus principais objectivos estratégicos, nomeadamente manter os ortodoxos ucranianos debaixo da autoridade de Moscovo e, também, de se afirmar como o principal líder na comunhão ortodoxa, remetendo o Patriarca de Constantinopla para segundo lugar, se tanto.

Depois deste terrível fiasco, muito dificilmente Cirilo será levado a sério pelo mundo, incluindo o mundo religioso. Nesse sentido, um encontro com o Papa é tudo o que ele pode desejar para tentar projectar alguma credibilidade. Com tudo o que se tem passado, porque é que o Papa insiste em dar-lhe esta “borla”?

Não posso fingir saber o que se passa na Santa Sé nem no coração do Papa, mas posso especular que o Papa sabe que por mais que Cirilo esteja na lama, neste momento, não deixa de ser o líder da maior Igreja Ortodoxa do mundo, e que o diálogo ecuménico com o mundo ortodoxo nunca irá a lado nenhum sem a Rússia a bordo. Se as outras igrejas ortodoxas estão dispostas a entrar no mesmo barco que Cirilo ou não, é outra questão, interna, mas o Vaticano não pode simplesmente cortar os laços.

Por outro lado, Cirilo sabe que o Papa poderia perfeitamente não fazer isto, sacudir as mãos dele, como muitos fizeram, e por isso é possível que ele se revele agradecido a Francisco pelo gesto de o manter à tona de água, e que isso dê frutos ecuménicos no futuro.

Finalmente, por mais tentador que seja analisar tudo isto pela perspectiva do poder, devemos lembrar-nos que a lógica do Cristianismo não é a do poder e que o Papa sabe isso.

Chegamos assim ao segundo ponto que causou atrito nos últimos dias. A decisão do Vaticano de ter duas famílias, uma russa e outra ucraniana a escrever em conjunto uma das meditações da Via Sacra caiu muito mal na Ucrânia. E não foi só entre ortodoxos, mesmo o Arcebispo-maior Sviatoslav Shevchuk, da Igreja Greco-Católica da Ucrânia, condenou a iniciativa, sugerindo que ela passava a imagem de que o sofrimento dos dois povos era equivalente.

Perante a pressão, o Vaticano cedeu e mudou a meditação, que foi substituída apenas por um apelo à oração silenciosa pela paz, enquanto duas jovens mulheres, uma russa e uma ucraniana, seguravam na cruz.

Mesmo essa versão mais “light” não foi aceite pelos ucranianos, e pela primeira vez em anos os meios de comunicação católicos do país não transmitiram a cerimónia em directo.

Esta reacção dos ucranianos apenas se compreende no contexto da enorme injustiça a que estão a ser sujeitados. Mas compreender não é dar-lhes razão. Pelo contrário, diria que imagens de russos e ucranianos lado-a-lado, a condenar a guerra, são exactamente o que faz falta neste momento. Houvesse mais!

É importante não confundir o regime de Putin com o povo russo e é importante não esquecer que quando esta guerra acabar há dois países enormes e dois povos numerosos e antigos que precisarão de encontrar forma de sarar as feridas e viver em conjunto. Qualquer gesto nesse sentido parece-me ser de louvar em vez de criticar.

Infelizmente estas críticas ucranianas não são novas. Na recente conferência em que participei, organizada pela Capela do Rato, o padre da Igreja Ortodoxa Moldava, que está ligada a Moscovo, disse que tinha tentado ir com padres da Igreja Ortodoxa Russa em Portugal prestar apoio aos refugiados ucranianos que chegaram a Cascais, mas foram impedidos de o fazer por ordem da Embaixada da Ucrânia em Portugal. Convém esclarecer que o padre Petru tem falado abertamente contra a guerra e até – de forma corajosa – contra a liderança da Igreja Ortodoxa Russa, e ainda que os três padres russos em Portugal neste momento são signatários da Carta dos Padres Russos pela Paz, que é dos documentos mais bonitos que já li – do ponto de vista cristão – contra esta guerra. Mantê-los longe de refugiados porque são da “confissão errada” foi uma decisão cruel e injusta.

Esta insistência em ver a realidade de uma perspectiva nacional/étnica é, infelizmente, uma das fraquezas inerentes ao Cristianismo oriental. Mas Roma, por mais que simpatize com a Ucrânia e esteja convencida da razão da sua causa, não pode partilhar dessa visão reduzida.

Tuesday, 29 March 2022

CNN - Consagração da Ucrânia e da Rússia a Nossa Senhora

Na sexta-feira passada voltei à CNN para falar sobre a Consagração da Ucrânia e da Rússia a Nossa Senhora.
Estive em duas ocasiões diferentes. Aqui podem ver a primeira intervenção, só em voz, durante a própria consagração. Começa à 1h e 38 minutos do vídeo, ou às 16h35, caso se guiem pela hora indicada no ecrã. 
Nessa mesma noite voltei para conversar com a Judite de Sousa sobre o que se tinha passado em Roma e em Fátima, e sobre o contexto religioso do conflito. Podem ver o vídeo aqui. Começa aos 31 minutos do vídeo, 20h37 se se guiarem pela hora no ecrã. 

Saturday, 26 March 2022

Entrevista à Agência Ecclesia, no programa Fé dos Homens

Ontem, dia 25 de Março, passou uma entrevista que dei ao programa da Agência Ecclesia, na RTP2, na rubrica "A Fé dos Homens". No final da conversa sobre a Ucrânia e a Rússia, e sobre a consagração, ainda comentei o Evangelho de domingo.

Friday, 18 March 2022

A imagem de Nossa Senhora em Lviv

Aqui podem ver a minha participação ontem na CNN Portugal para falar da visita da imagem peregrina de Fátima a Lviv. Começa em 1'15 minutos do vídeo, 21h13, se se guiarem pela hora da emissão. 

Nos minutos antes da minha participação há uma interessante reportagem feita no local, que também devem ver.

Friday, 18 February 2022

Dimensões religiosas da crise na Ucrânia

A situação de tensão que se vive neste momento na Ucrânia, com a ameaça de uma invasão russa, não é um conflito religioso. Isso deve ficar bem claro à partida. Mas tal não significa que não haja dimensões religiosas para este problema. E há. Neste artigo vou tentar abordar algumas delas.

 1.      Choque de civilizações, mais ou menos

Depois de décadas de Guerra Fria o mundo convenceu-se de que a religião tinha deixado de desempenhar um papel importante nas relações internacionais. O mundo enganou-se. A destruição das Torres Gémeas foi apenas o mais alto soar de um alarme que já se fazia ouvir desde os anos 80, quando os movimentos árabes se começaram a transformar de marxistas em islamitas.

Muitos passaram então a adoptar a visão catastrofista do choque de civilizações, antevendo como inevitável um conflito entre o mundo cristão e o mundo muçulmano. É verdade que em muitas partes do mundo esse conflito existe, basta ver a situação em muitos países do centro de África, onde o norte muçulmano encontra o sul cristão.

Mas convém não esquecer que alguns dos piores conflitos da história foram travados entre “irmãos de fé”. E isso não nos deve surpreender, porque tanto a história macro como a história das famílias mostra bem que as discussões mais severas, mais duradouras e muitas vezes mais sangrentas – seja metaforicamente, seja literalmente – são entre irmãos. Isto acontece nas famílias e acontece nos países. Olhemos para a Guerra Civil de Espanha, que se passou aqui tão perto, mas também para a nossa própria história.

Não deixa de ser curioso, por isso, e trágico, que a maior ameaça à paz mundial neste momento se passe no Leste da Europa, opondo dois países que partilham um historial de Cristianismo intimamente ligado. Foi a Kiev que chegou a fé em Jesus que depois seguiu para Moscovo e se espalhou por toda aquela região. O conflito na Ucrânia pode ter, por isso, algumas dimensões religiosas, que iremos ver com mais detalhe, mas não pode ser descrito como um choque entre duas civilizações religiosamente diferentes.

Contudo, o problema pode ser visto de outro prisma, da civilização não no seu aspecto religioso, mas cultural. Uma significativa parte da Ucrânia, temendo a influência de Moscovo, quer voltar-se para o Ocidente, abraçando as suas instituições e estilo de vida. Nesse sentido, ainda que passado a leste, entre dois países de leste, o conflito pode ser visto como representando o choque entre oriente e ocidente.

 2.      A religião neste conflito

Disse no primeiro ponto que a Ucrânia e a Rússia partilham uma história de Cristianismo. É verdade, mas a coisa não é assim tão simples.

De facto, o Cristianismo bizantino entra naquela parte do mundo através do Grão Príncipe Vladimir, de Kiev, que manda baptizar todo o seu povo e envia missionários para leste. Em breve grande parte da actual Rússia abraçou o Cristianismo.

Mais tarde, porém, Moscovo tornava-se o centro do Cristianismo de leste que, depois do grande cisma de 1054 viria a tornar-se o mundo ortodoxo.

Com o cisma, Constantinopla assumiu-se como a “nova Roma”, uma vez que a verdadeira Roma teria caído em heresia, segundo a sua visão. Mas quando Constantinopla cai nas mãos dos muçulmanos, tornando-se Istambul, começa a circular por Moscovo a ideia de que a “terceira Roma” devia ser ali, na capital de um grande império que era o garante da Ortodoxia cristã no mundo.

É assim que Moscovo continua a encarar-se não apenas como mais um Patriarcado inter pares no mundo Ortodoxo, mas como a principal Igreja. O problema para os Russos que partilham desta visão é que embora a cidade tenha caído, o Patriarcado de Constantinopla manteve-se e o verdadeiro primus inter pares ortodoxo continua a residir ali, apesar de ter na cidade pouco mais do que cinco mil fiéis, comparados com os 200 milhões de Moscovo.


O período soviético veio congelar as pretensões da Igreja Russa, que foi sujeitada a uma perseguição impiedosa, mas infelizmente quando esta foi restaurada, em vez de insistir numa saudável separação e distância, a Igreja deixou-se envolver com o Estado e em troca da protecção de que goza corre sempre o risco de ser usada para benefício dos projectos e intenções do Kremlin e do seu homem forte, Vladimir Putin.

Quando a Ucrânia se tornou independente a sua Igreja Ortodoxa continuava sujeita à hierarquia em Moscovo. Mas a tradição na Igreja Ortodoxa é de “uma nação, uma igreja”, e por isso alguns bispos ucranianos começaram a reivindicar a criação da sua própria igreja ortodoxa.

O resultado foi uma confusão. Em 1990 formou-se a Igreja Ortodoxa Autocéfala da Ucrânia e, dois anos mais tarde, a Igreja Ortodoxa da Ucrânia – Patriarcado de Kiev. As duas eram rivais, unidas apenas na sua oposição à Igreja Ortodoxa da Ucrânia – Patriarcado de Moscovo, que era, e é, a Igreja Ortodoxa que se mantém ligada à igreja russa.

Nas bancadas, a observar estas guerras internas e a comer pipocas, estavam os membros da Igreja Greco-Católica da Ucrânia, que é a maior Igreja oriental autónoma em comunhão com o Papa, representando cerca de 10% da população.

A resposta de Moscovo perante a criação das igrejas autónomas russas foi de desprezo. Eram hereges e não reconhecidas canonicamente pelo resto do mundo ortodoxo. O Patriarcado russo continuava a insistir que era a única autoridade legítima ortodoxa na Ucrânia. Mas tudo isso mudou em 2018, quando o Patriarca de Constantinopla concedeu à Igreja Ucraniana o tomos, isto é, o reconhecimento oficial de autocefalia. Inteligentemente, as duas Igrejas ucranianas fundiram-se nesse momento para formar uma única Igreja autocéfala na Ucrânia, que imediatamente teve o reconhecimento e o apoio do Estado, ansioso para se livrar de vez da influência de Moscovo. Claro que isso é mais fácil dizer do que fazer, e houve muitos padres, monges, bispos e comunidades que se mantiveram fiéis a Moscovo, por variadíssimas razões.

Como se pode ver a dimensão religiosa aqui não está na raiz do conflito actual, que tem muito mais a ver com questões económicas (recursos naturais) e geopolíticas (com a Rússia a querer manter e alargar a sua esfera de influência), do que com igrejas, mas não sendo a causa é uma dimensão que complica ainda mais um problema que já de si é difícil de resolver.

3.      O tribalismo no cristianismo oriental

E chegamos assim ao terceiro ponto, que é o perigo sempre presente do tribalismo no Cristianismo oriental.

Os católicos de tradição latina têm uma certa aversão às igrejas nacionais. Mas a história ditou que fosse essa a lógica a imperar no cristianismo oriental. Assim vemos que os ortodoxos não têm uma Igreja, com um líder, mas uma multiplicidade de igrejas nacionais ou étnicas, cada uma com o seu próprio líder. Assim, existe a Igreja Ortodoxa da Grécia, da Roménia, da Bulgária, da Letónia, etc., cada uma com o seu líder, seja Patriarca ou não, e todas em comunhão umas com as outras, reconhecendo no Patriarca de Constantinopla uma primazia de honra, que pouco tem a ver com a primazia do Papa na Igreja Católica.

Esta realidade leva a uma grande riqueza em termos de tradição e liturgia, por exemplo, uma vez que a descentralização promove a variedade. Mas tem também um enorme senão, que é a promoção do tribalismo cristão.

Este tribalismo tem duas grandes vertentes negativas. A primeira é mais estrutural, que é o facto de criar obstáculos à evangelização. Uma Igreja que se identifica com uma nação ou com uma etnia torna-se imediatamente menos atractiva para um convertido do que uma igreja que é universal. O resultado prático é que a Igreja Católica de rito latino, que sempre se viu mais como universalista do que étnica, cresceu de uma forma absolutamente desproporcional, enquanto as igrejas ortodoxas – não obstante alguns casos de sucesso de evangelização – continuam remetidas muito à sua própria realidade étnica ou nacional.

Isto é muito aparente nas Igrejas cristãs de países de maioria muçulmana, como a Igreja copta ou a igreja maronita, melquita, ou siríacas, no Médio Oriente. E assim vemos que quando um árabe muçulmano se quer converter, normalmente acaba por entrar para uma igreja evangélica, ou para a Igreja Católica, uma vez que as locais, apesar de serem originárias daquele espaço geográfico, estão de tal forma identificadas com etnias e tradições culturais próprias, que o convertido se sente sempre como um estrangeiro.

Mas o segundo aspecto negativo é mais conjuntural e imediato no seu perigo, que é a cooptação da Igreja pelo Estado para servir interesses que não são religiosos. É isso que estamos a ver na Ucrânia, onde as Igrejas ucraniana e russa estão a ser arrastadas – ou a correr de livre vontade – para um confronto, quando na verdade este nada tem de religioso. Esta promiscuidade entre estado e religião tende a cobrar às religiões um preço muito mais alto do que as eventuais vantagens a curto prazo que podem retirar. Esse é um erro com o qual ucranianos e russos já deviam ter aprendido ao longo do último século, mas que infelizmente parecem teimar em querer repetir.

 4.      E a Igreja Católica nisto tudo?

Da próxima em Moscovo?

Por estranho que pareça, a Igreja Católica é afectada por esta crise que se passa entre dois países de esmagadora maioria ortodoxa.

A Igreja Greco-Católica da Ucrânia pode representar só 10% da população, mas é a maior comunidade católica no mundo tradicionalmente ortodoxo. Para terem uma ideia, enquanto existem cerca de cinco milhões de católicos na Ucrânia – mais uma significativa diáspora de greco-católicos em várias partes do mundo – o número de católicos na Rússia é de apenas 140 mil.

Estes católicos ucranianos sofreram duramente, mais até do que os seus irmãos ortodoxos, pela sua fidelidade a Roma. Num momento destes, em que se sentem injustiçados, esperam poder contar com o apoio do Papa.

Mas não podemos esquecer que um dos grandes objectivos ecuménicos deste pontificado é de conseguir visitar a Rússia e ter, lá, um encontro com o Patriarca de Moscovo. É algo que o Papa Bento XVI e, sobretudo, João Paulo II já queriam ter feito e não conseguiram. Se a Igreja Católica for vista a manifestar demasiado apoio à Ucrânia ou a censurar a atitude da Rússia, as probabilidades de esta visita acontecerem reduzem-se a zero. Já o contrário, uma visita do Papa ao Patriarca Kiril num contexto de um cerco à Ucrânia e com a Igreja russa firmemente ao lado de Putin, será vista por muitos católicos ucranianos como uma traição.

Até agora o Papa tem feito aquilo que lhe cabe, que é apelar incansavelmente para uma solução pacífica para esta crise. Se de facto começar um conflito armado em maior escala, veremos se isso é suficiente.

Wednesday, 6 February 2019

A Transformação do “Pulmão Oriental”

Myroslav Marynovych

Embora quase ninguém no mundo ocidental tenha reparado, houve recentemente um desenvolvimento importante para o Cristianismo global. Durante o Sínodo da Igreja Ortodoxa de Kyiv, no dia 15 de Novembro de 2018, foi criada uma nova Igreja Autocéfala da Ucrânia. A medida foi saudada pela Igreja Greco-Católica da Ucrânia.

Estaremos perante mais um caso de “nacionalismo ucraniano” numa altura em que a Rússia se tem tornado cada vez mais ativa? Ou será este o resultado da rivalidade entre Constantinopla e Moscovo por influência sobre a Ucrânia? E o que é que isto representa para os Ortodoxos e para a Igreja Católica?

Na realidade, estamos perante uma mudança gigantesca na Igreja. O Papa João Paulo II convidou a Europa a respirar com dois “pulmões” – o Ocidental e o Oriental. Normalmente sabemos bem o que é o “pulmão ocidental”, mas o que é o oriental?

Entre os séculos XI e XIV a resposta era inequívoca: O oriente cristão estava organizado em torno de dois centros: a Igreja de Constantinopla (incluindo a Grécia e Atenas) e a sua Igreja “filha”, a Igreja de Kyiv, de onde o Cristianismo se espalhou para outras terras orientais.

Entre os séculos XV e XVIII aconteceu uma “deriva continental” tremenda e Moscovo acabou por substituir Kyiv (Kiev). A partir de então o Oriente Cristão passou a estar centrado em Constantinopla e Moscovo. Muscovy absorveu em si mesmo tanto o território da antiga Rus’ de Kyiv como a Metropoly eclesiástica de Kyiv, tornando-se o Império Russo.

As características distintivas da antiga espiritualidade de Kyiv foram rigorosamente limitadas para se conformarem com os interesses do modelo russo de Cesaropapismo. Livros eclesiais “suspeitos” foram queimados. Figuras dissidentes da Igreja foram reprimidas.

Kyiv passou a estar submetida à “Terceira Roma” (Moscovo) tanto debaixo do Czar como das ditaduras comunistas. Foi só com o colapso da União Soviética que o glaciar estalinista descongelou. O que a propaganda do Kremlin classificava de nacionalismos locais, que alegadamente destruíam a unidade cristã, era a libertação dos povos e das suas comunidades eclesiásticas da influência monopolista do mais poderoso dos nacionalismos, o chauvinismo russo.

Na Ucrânia voltou a nascer a ideia de uma Igreja Ortodoxa autocéfala. O Kremlin, e a Igreja Ortodoxa Russa que lhe era subserviente, responderam de duas formas.

A primeira foi uma descriminação metódica contra os desenvolvimentos eclesiais e políticos na Ucrânia. Nas palavras de um observador ucraniano, a propaganda russa usava terminologia aparentemente retirada do “dicionário ocidental de ‘valores humanitários’, mas na verdade operava com ideias-lobisomem, ideias-parasita e ideias-fantasma” (Andriy Baumeister). O mundo ocidental não deu por esta manipulação e, pelo menos até recentemente, aceitou-a de forma acrítica.

O segundo método consistia em propagar o conceito do “mundo russo” avançado por Cirilo, o Patriarca de Moscovo, que na verdade é uma doutrina imperial quasi-religiosa que proclama a “unidade espiritual” de todos os russófonos e povos ortodoxos. 

Isto tornou-se uma forma de legitimar a guerra da Federação Russa contra a Ucrânia, alegadamente em nome da defesa da população russófona. Agora a propaganda do Kremlin está a preparar o mundo para um possível novo ataque contra a Ucrânia, para “proteger” a população ortodoxa.

Assim, hoje estamos a assistir a uma profunda transformação do “pulmão oriental”. O Patriarcado Ecuménico de Constantinopla pressentiu para onde as coisas estavam encaminhadas e tomou a medida pouco comum de intensificar as suas atividades no mundo ortodoxo. Apesar de o Patriarcado Ecuménico ser apenas um “primeiro entre iguais” – e não o líder solitário da Igreja (como acontece com o Papa no Ocidente) – ele assumiu a responsabilidade pelo destino da Igreja ucraniana, que tinha sido separada de Constantinopla.

Há vários sinais de que o Oriente Eslavo do “pulmão Oriental” é ainda largamente disfuncional. O comunismo foi um profundo trauma do qual os povos das antigas repúblicas soviéticas ainda não recuperaram inteiramente. Em muitos lugares as pessoas perderam a cultura cristã e a compreensão do verdadeiro significado da fé cristã. Por isso, ainda poderemos vir a ter notícias preocupantes – tanto políticas como religiosas – de Kyiv. Mas, apesar de tudo, está em curso uma importante reorganização e as mudanças futuras afetarão o mundo cristão por inteiro.

Metropolita Epifânio, da nova Igreja Ortodoxa da Ucrânia
A influência de Constantinopla poderá acabar por ser extremamente importante. Isto já foi manifestado através da promulgação do Estatuto da recém-constituída Igreja Ucraniana, que alterou substancialmente os procedimentos administrativos, democratizando-os.

Até aqui os cristãos ocidentais têm-se preocupado sobretudo com a preservação do status quo com Moscovo, como se o oriente cristão se resumisse à Igreja Ortodoxa Russa. Aos olhos ocidentais isto parecia ser essencial para a paz cristã e o diálogo ecuménico. A diplomacia do Vaticano tem sido cuidadosa em não intervir nos assuntos internos dos ortodoxos.

Mas a situação atual apresenta um desafio claro para a Igreja Católica. Nas palavras do cardeal Christoph Schönborn, de Viena: “Como é que o Vaticano deve relacionar-se com a nova Igreja Ortodoxa da Ucrânia? Se a reconhecer, isso levará a um conflito com o Patriarcado de Moscovo. Se não a reconhecer, isso conduzirá a um conflito com o Patriarcado Ecuménico.”

As Igrejas Ocidentais têm de compreender que o antigo status quo já não é sustentável. A situação exige uma mudança radical das posições atuais, incluindo a reconsideração dos atuais modelos de ecumenismo.

Os cristãos conscientes não podem continuar a considerar aceitável a linguagem de ultimatos e de exclusões usada pela Rússia. Os crentes ortodoxos da Ucrânia são uma parte legítima da oikumene cristã e estão, atualmente, sob cerco.  

Eles podem tornar-se um catalisador para uma transformação civilizada de todo o espaço pós-soviético, a começar pela Rússia. Os ocidentais devem compreender as novas realidades na Europa Oriental e perceber que a inclusão das Igrejas Ucranianas no diálogo com o mundo pode trazer mais benefícios do que o isolamento continuado.

Depois da queda do comunismo muitos ocidentais esperavam que o mundo eslavo, silenciado durante tanto tempo, ficaria finalmente livre para contribuir corretamente para a cultura cristã e para todo o mundo. Hoje, com a criação de uma Igreja Ortodoxa Ucraniana, pode ser que uma voz importante esteja finalmente a fazer-se escutar.



Myroslav Marynovych é vice-reitor para missão na Universidade Católica da Ucrânia, em Lviv, na Ucrânia, e president do Instituto de Religião e Sociedade da mesma universidade. Foi fundador do Ukraninian Helsinki Group e prisioneiro de consciência entre 1977 e 1987. Presidiu às estruturas da Amnistia Internacional na Ucrânia entre 1991 e 1996 e foi também president do Centro Ucraniano da PEN International.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 2 de Fevereiro de 2019)

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Tuesday, 18 September 2018

Conversas metropolitanas

Hoje entrevistei o Metropolita Hilário, número dois da Igreja Ortodoxa da Rússia. Da longa conversa surgiram três textos. No primeiro ele fala sobre a importância de se preservar o Cristianismo na Europa, avisando que a Europa ocidental deve aprender com os erros cometidos na Rússia.

Num segundo texto ele fala sobre a necessidade de católicos e ortodoxos aprofundarem o diálogo, nomeadamente sobre questões como casamento e ruptura familiar. Mas ao mesmo tempo critica a Igreja Greco-Católica da Ucrânia, um espinho cravado na Igreja Russa há já muitos anos.

E por fim um texto muito mais virado para dentro, com o metropolita a criticar duramente o Patriarca Bartolomeu, de Constantinopla, pondo a nu o conflito aberto que existe no seio da Igreja Ortodoxa.

O metropolita profere amanhã uma conferência na Universidade Católica, em Lisboa, às 18h30, caso queiram ouvi-lo falar da relação entre a sua Igreja e os cristãos do Médio Oriente.


E aqui podem ler sobre como a Igreja de Angola está a atravessar um momento de grande entusiasmo.

Thursday, 1 June 2017

Camisolas que Compensam Chapadas

"Francisco, toma a minha camisola"
Donald Trump poderá anunciar ainda hoje a saída dos Acordos de Paris. O Vaticano sentirá isso como uma “chapada na cara” e os bispos católicos americanos pedem ao Presidente que honre os seus compromissos.

O Papa Francisco recebeu esta quinta-feira mais uma camisola de futebol para a sua já assinalável colecção…

Morreu o antigo líder da Igreja Greco-Católica da Ucrânia. Saiba quem foi o cardeal Husar.

Decorreu ontem um seminário sobre “Paz e Futuro da Humanidade” que contou com a presença do bispo das forças armadas e do bispo da Igreja Lusitana.

Friday, 28 October 2016

Papa Francisco e bizantinices

Arcebispo de Melbourne Denis Hart
Existem em Portugal alguns milhares de católicos de rito oriental, nomeadamente da Ucrânia e mais alguns países de Leste. O líder da Igreja Greco-Católica da Ucrânia, o arcebispo-maior Sviatoslav Shevchuk, acredita que estas pessoas precisam de integração, mas não assimilação.

Há quem chame a Shevchuk Patriarca, mas oficialmente não é. Essa questão, e toda a da relação e autonomia em relação a Roma, é sensível, como é também o factor russo. São assuntos que o líder religioso refere aqui.

O Papa Francisco manifestou ontem a sua vontade de visitar o Sudão do Sul. Não está confirmado, mas falta só um convite oficial do Governo, o que não deve ser complicado. O complicado virá depois.

O Papa fez ontem um discurso à comunidade académica do Instituto João Paulo II,em Roma. O discurso era suposto ser feito pelo Cardeal Sarah, mas o Papa decidiu que faria ele. Francisco falou da enorme importância desta instituição – para a qual nomeou uma nova direcção em Agosto – mais ou menos no mesmo dia em que o arcebispo de Melbourne, na Austrália mandou encerrar o polo local.

Por tudo isto podia-se pensar que o arcebispo estava metido em sarilhos, mas pelos vistos não, porque hoje foi nomeado para a congregação do Culto Divino e da Disciplina dos Sacramentos, juntamente com outros 25, incluindo o bispo de Bragança, D. José Cordeiro. Quem é o prefeito dessa congregação? Cardeal Sarah. Coincidências! (Mas leiam a notícia sobre o discurso, porque independentemente de todas estas confusões, é muito bonito).

“Greek Catholic migrants need integration, not assimilation”

This is a full transcript, in the original English, of my interview with His Beatitude Major-Archbishop Sviatoslav Shevchuk, of the Ukrainian Greek Catholic Church. The news reports, in Portuguese, can be found here and here.

Esta é uma transcrição integral, no inglês original, da minha entrevista a Sua Beatitude o Arcebispo-maior Sviatoslav Shevchuk, da Igreja Greco-Católica da Ucrânia. As reportagens podem ser vistas aqui e aqui.

You are in Portugal to discuss the pastoral care of Eastern Catholic migrants in Western countries. What are the main challenges?
This is the first meeting of Eastern Catholic Bishops of Europe here in Portugal.

We have not only Ukrainian Catholic Bishops, but bishops of the Byzantine Rite from Hungary, Romania, from Slovakia, Czech Republic. But also we have with us the Melkite Patriarch, from Syria.

We also have another family of Eastern Rite bishops, the Maronites.

So for us it is very important to meet in Portugal and the main issue that we will discuss is the pastoral care of migrants who belong to Eastern Catholic Churches.

Myself, as head of the UGCC, I am responsible for the Ukrainians not only in Ukraine, but also for Ukrainian Greek Catholics Worldwide. In Europe, in many countries, we have our structures, our dioceses, eparchies and metropolises, but there are many countries such as Portugal where we have our faithful, we have our priests, but we don't have our structure.

The main concern of our church is how can we help Roman Catholic Bishops who are responsible for the Eastern Rite faithful living in their territories, to be good pastors, to give an adequate pastoral care to those who belong not to the Latin tradition but to other Eastern Catholic traditions.

That question is very interesting and important, because the main message we would like to convey to our brethren Catholic Bishops in Europe is that pastoral care to the migrants from the Eastern Catholic Church can be expressed in the phrase “Integration, but not assimilation”.

We are very open to help our people to be well integrated, not only in society, but in the local church, because this is a way that we can share the richness of our Eastern Catholic liturgy, piety and worship, as well.

The man who greeted me at the airport told me today that many people would call us workers who are coming to look for a job, but we are really missionaries, because we are trying to share our Christian identity. So integration is very important, but not assimilation, because assimilation means to lose your own tradition, your own richness, to lose everything that you have to share with others.

For many years I have heard Eastern Catholics complain about their level of autonomy within the Catholic Church and their direct responsibility for diaspora communities. For example, until recently you could not ordain married clergy outside of your ancestral territories. That has changed, are there other changes you are hoping for?
I would like to stress not so much autonomy, but cooperation and communion.

I hope that this meeting will be a possibility to meet those responsible for the pastoral care of migrants from many different Roman Catholic Bishops Conferences in Europe, so as to exchange ideas.

The local Roman Catholic Bishop has his responsibility, but the mother Eastern Catholic Church has its own responsibility as well. How can we cooperate? How can we help each other to be good pastors, good fathers to migrants in Europe?

But for example the naming of bishops, how does that work? Are you responsible for naming bishops in the USA, for example, or in Western Europe? Or does that depend on Rome?
Well, if we have to elect a bishop for the Ukrainian Diaspora, normally we will do that during the synod of our bishops. At the synod we elect new bishops.

For the diaspora we are supposed to elect three candidates, and present them to the Holy Father and he has his authority to choose one among those three, who according to his vision would be the best for those responsibilities.

So it is not the Holy Father directly who appoints a bishop for the Eastern Catholic Diocese outside of his mother land, that election is done during the session of the bishops synod, because the synod – as a collegial body – is a way of rule in the Eastern Catholic churches “sui iuris”. And then we would present those candidates to the decision of the Holy Father.

And is that a decision you are comfortable with, or would you like to be able to name them directly?
Until now we are comfortable, because the election of a new bishop is not only an internal issue, a private issue. A new bishop is a bishop for the whole Catholic Church. And it is how we can be not only in a dialogue, sharing information, but in communion with the Holy Father.

And for the Holy Father it is also very important to have the possibility to listen to the decisions of the different synods, of the different Eastern Catholic Churches “sui iuris”.

You became Patriarch under Pope Benedict, but you knew Pope Francis well from your time in Argentina. He was very close to the Greek Catholic community in Argentina. From your point of view, has his knowledge and his love for the Eastern Catholic tradition played a role in his papacy?
I think so.

In Argentina he was an ordinary bishop for the Eastern Catholics who did not have their own ecclesiastical structure, so he was responsible for the pastoral care of the Eastern Catholics in Argentina.

The Ukrainian Catholic eparchy in Argentina is a part of the Archdiocese of Buenos Aires, so he was my direct superior. And I had a chance to meet with him many times, to convey to him the situation in the Ukrainian Catholic Church worldwide, so he knows pretty well our spirituality and our identity. Even more, the priest who was his spiritual director in the Salesian school in Buenos Aires was Ukrainian, so that is why the Holy Father would normally greet the Ukrainian bishops in Ukrainian.

But I think that the vision of the Universal Church, form the point of view of Latin America, brings some new horizons and perspectives, even for the Eastern Catholics in Europe.

During his speech, Patriarch Gregory III Laham referred to you as a Patriarch. I know that this is an issue which has a lot to do with Russia. Many Ukrainian Catholics feel that they are stuck in the middle of the relationship between Rome and Moscow. What are your feelings on this?
We are trying to be ourselves.

The patriarchate is a normal, organic stage of the development of an Eastern Catholic Church and we have reached that stage of development. Our people are praying for the Patriarchate. In the relations with the Holy Father, we are trying to be good Catholics, considering our own tradition, but in full communion with the successor of Peter, because we believe that is the image of the Church in the first Millennium, and that is our heritage of the baptism of Kiev-Rus.

Of course our Orthodox brethren have a different ecclesiology. Their way to understand the role of the successor of Peter is pretty different. Often they would deny any form of supremacy of the Pope in the Universal Church.

But nevertheless, being ourselves, we are trying to testify, to reveal that reality of the undivided Church of the first Millennium.

Are you worried that the UGCC might be almost sacrificed in favour of better relations with Moscow?
Not at all. But we are trying to be ourselves, and to speak out on behalf of our people, and if we feel that not everything is correctly interpreted, we are trying to testify to the reality in our country today.

When do you hope there might be peace in Ukraine?
We pray for peace. We work for peace. We defend peace. And I think that God will bless our nation and people with his heavenly blessing, and that blessing will bring us peace.

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