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Friday, 29 October 2021

Eutanásia 2.0 é pior que a versão original...

A Renascença divulgou esta sexta-feira a nova versão da lei da eutanásia que os deputados vão votar na próxima quinta-feira. Fizeram alterações para tentar ultrapassar o chumbo do Tribunal Constitucional. Será que vai funcionar? O constitucionalista Paulo Otero diz que é pior a emenda que o soneto…

Joe Biden foi hoje ao Vaticano. Deu ao Papa um presente com um significado muito pessoal e conversaram durante mais de uma hora. No final, aos jornalistas, disse que não falaram do aborto, mas que o Papa o tinha encorajado a continuar a comungar. A polémica já está instalada. Saiba porquê.

A Universidade Católica vai acolher um simpósio internacional para promover a ideia da “aprendizagem-serviço”. O Papa Francisco e António Guterres gostaram da ideia e mandaram mensagens de incentivo.

Já todos sabemos que Portugal vai estar debaixo de chuva intensa estes dias, mas se estiver pelos lados de Fátima e quiser ir a um concerto de Rock cristão italiano, ao menos é num auditório.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre conhecimentoque cega, em vez de iluminar.

Wednesday, 27 March 2019

“Cantare, Amantis Est”

James V. Schall S.J.
A frase de Santo Agostinho “Cantare, amantis est”, foi usada como título de um dos pequenos clássicos do autor Joseph Pieper, que são tão ricos. O título em português também é muito belo – “Só quem ama canta”*. Recordo-me de ler algures que os passarinhos cantam mais do que seria necessário para viverem no dia-a-dia e se reproduzirem. A realidade está cheia de uma abundância de coisas aparentemente desnecessárias, sem as quais passaríamos perfeitamente. Mas temo-las, todavia, e embelezam a nossa existência. Foi-nos dado mais do que precisamos. A realidade não é parcimoniosa. Isso interroga-nos, e deixa-nos felizes.

Porque é que cantamos e dançamos? Chegamos a um ponto em que tanto a prosa como o estar sentados nos parecem insuficientes. Porque é que a noiva dança com o seu marido e com o seu pai no casamento? Dizemos que os anjos estão organizados por coros. Louvam e glorificam a Deus. Mas será que Ele precisa da sua música para ser glorificado? Precisa de nós para o glorificarmos? Deus encontra-se para além da categoria de “necessidade”. Ele já existe na glória.

Deus não precisa de nós para completar qualquer tipo de ausência na sua vida trinitária. A “vida” de Deus não seria menos sujeita a dúvidas se Ele não precisasse de explicar porque é que trouxe seres humanos finitos e obviamente falíveis para o seu mundo? A maior acusação que costuma ser feita a Deus é: “Se Ele não queria que pecássemos, então porque é que se deu ao trabalho de nos criar?”

A existência do pecado numa criação boa significa que Deus tinha outra coisa em vista. Ele não queria que pecássemos, certamente; mas também não queria não nos criar, apesar de saber que pecaríamos. Por isso nos criou. Homem e mulher Ele nos criou. Calculou que pecássemos. Arcou Ele próprio com as consequências, no seu Filho.

A resposta a esta questão perene e paradoxal do pecado deve estar no “Cantare, amantis est”, de Agostinho. A última palavra do Deus/homem não foi lidar com os nossos pecados, embora essas tenham sido as suas últimas palavras na Cruz.

No Livro da Sabedoria lemos: “Tu amas tudo quanto existe e não detestas nada do que fizeste” (Sabedoria 11, 24). Este amor por tudo o que existe também incluiria, naturalmente, o amor por aqueles que acabaram por O rejeitar, o que é sempre uma possibilidade. Deus não pode “obrigar” alguém a amá-lo contra a sua vontade. De que serviria?

A Dança de Míriam
Numa passagem de Teoria dos Princípios Teológicos (1987), que faz lembrar tanto Martin Buber como Joseph Pieper, Ratzinger escreve: “A chave do eu está no tu; a chave do tu através do eu. Chegamos assim à pergunta mais importante. Será verdade, então, quando alguém me diz: ‘É bom que tu existas?’”. Só pode ser verdade se a minha existência e a sua existência forem elas mesmas fruto da vontade de uma Existência que é em si mesma boa, que seja incapaz de não existir. Caso contrário, as nossas existências e os nossos amores são apenas passageiros.

No Salmo 13 lemos: “Cantarei ao Senhor, porquanto me tem feito muito bem”. A linguagem do amor afirma que “É bom que tu existas”. A linguagem da amizade acrescenta que “é bom que existamos conhecendo-nos”. A linguagem da verdade afirma: “É verdade que tu existes”. A linguagem da criação afirma que “Tu e eu existimos ambos, ainda que a nossa existência não seja necessária”. A linguagem dentro da Trindade fala de “vida eterna”.

No livro de Judite somos convidados a “entoar um cântico ao nosso Deus com tamborins, cantar ao Senhor com címbalos. Entoai-lhe salmos e louvores, exaltai e invocai o seu nome. Cantarei a Deus um cântico novo: Senhor, sois grande e glorioso, de admirável poder, invencível” (Judite 16) e no Salmo 47 “o Senhor subiu ao som de trombeta. Cantai louvores a Deus, cantai louvores; cantai louvores ao nosso Rei, cantai louvores.”

Há muitas referências musicais nas escrituras mas, para além do cantar dos anjos do alto, na Natividade, vemos muito poucas no Novo Testamento. Quando Cristo visita a sinagoga em Nazaré, Ele “lê” Isaías. Não entoa nem canta. Não me recordo de ver referências a instrumentos nas bodas de Caná.

“O ser humano começa de novo em cada homem”, escreveu Ratzinger em 1979: “O sucesso da geração anterior não pode ser simplesmente transferido para a vindoura. Cada geração pode e deve tirar proveito do que foi alcançado antes. Mas cada geração deve também sofrer, suportar e ganhar para si mesma o estado de ser humano”.

Cada vida humana começa na escuridão do Verbo. “No final, apenas quem ama o canta”.


*Não consegui encontrar referência a uma versão portuguesa, mas traduzi assim porque o mais próximo que encontrei, em espanhol, é “Solo quien ama canta”.


James V. Schall, S.J., foi professor na Universidade de Georgetown durante mais de 35 anos e é um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seus mais recentes livros são The Mind That Is CatholicThe Modern AgePolitical Philosophy and Revelation: A Catholic Reading, e Reasonable Pleasures

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 26 de Março de 2019 em The Catholic Thing)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing. 

Wednesday, 18 July 2018

Noli impedire musicam

Lenine – que deu ao mundo a máquina de extermínio socialista conhecida por União Soviética – era um amante de música enquanto esteve no exílio. Quando regressou à Rússia, para dar início à Revolução Bolchevique, disse que já não era capaz de ouvir música. “Afecta-nos os nervos, faz-nos querer dizer coisas parvas e simpáticas e fazer festinhas na cabeça de pessoas capazes de criar tanta beleza enquanto vivem neste vil inferno”.

Sempre houve, e sempre haverá, aquele tipo de amante radical da humanidade que está disposto a sacrificar “dizer coisas parvas”, ou mesmo sacrificar pessoas, em nome de algum esquema marado que acabará por tornar o nosso mundo decaído ainda mais vil. Mas há aqui uma lição para nós, sobretudo os que vivem em sociedades ricas e ultra-tolerantes, que podem sucumbir à tentação de pensar que todas as suas vidas devem ser consumidas por guerras culturais, políticas ou espirituais.

Esta tentação é particularmente forte para pessoas em posições como a minha, pelo que é necessário sempre tomar medidas activas, de outra natureza. Da minha parte, tento tocar piano todas as manhãs pelo menos meia-hora, pois isso recorda-me – ainda que não tenha esse efeito sobre quem me ouve – de que a Criação de Deus é harmonia, uma harmonia discordante, por certo, mas definitivamente uma concórdia de criaturas e não um estado de guerra perpétua.

Muitas pessoas enviam-me livros, livros bons, sobre o estado de confusão actual em que vivemos. Agradeço, mas como estou sempre envolvido em leituras pesadas para vários projectos de escrita, muitas vezes não consigo chegar a estes livros, nem agradecer as ofertas. Esta semana, contudo, recebi um livro de um generoso mecenas do The Catholic Thing que me chamou a atenção: Spiritual Lives of the Great Composers [A Vida Espiritual dos Grandes Compositore] de Patrick Kavanaugh, um compositor que é também director do Christian Perfoming Arts Fellowship.

Trata-se de um relato claro e sucinto das crenças religiosas de vinte compositores clássicos de renome, desde Bach a Messiaen, passando por muitos outros grandes nomes. É um registo maravilhoso de como o espírito e a música andaram tão próximos na cultura ocidental, até há bem pouco tempo.

O grande Johann Sebastian Bach, por exemplo, não teve qualquer dificuldade em ver uma interligação entre Deus e a música, tendo dito: “O único propósito da Música deve ser para a glória de Deus e a recreação do espírito humano”. Músico humilde, embora prodigioso (chegou a caminhar 200 milhas para ouvir o então famoso organista Dieterich Buxtehude), costumava assinalar as suas folhas com J.J. (Jesus Juva – “Jesus ajuda”), antes de compor.

Há exemplos semelhantes do mesmo período. Certa vez um criado interrompeu Georg Friedrich Handel enquanto terminava o refrão do Aleluia, para o Messias, e encontrou-o em lágrimas: “Acredito que vi todo o Céu à minha frente, e o próprio Senhor”. (Incrivelmente, se descontarmos a inspiração divina, Handel produziu toda esta obra de evangelização sonora em apenas 24 dias).

Georg Friedrich Handel
Estes músicos viviam em paz e confiantes na sua fé cristã. Kavanaugh não elabora muito sobre a época em que viveram, mas é significativo que eles podiam atribuir a sua obra aos dons de Deus, apesar do facto de muitos deles terem vivido ao mesmo tempo que grandes figuras anticristãs do Iluminismo, como Diderot, Hume e Voltaire. É o género de coisa que não encontramos na maioria dos textos sobre as nossas raízes no Iluminismo do século dezoito.

Claro que Bach e Handel eram protestantes, mas é interessante, e pouco conhecido, que muitos dos maiores compositores clássicos ao longo dos séculos tenham sido católicos (em diferentes graus): Haydn (o mais firme e ortodoxo de todos), mas também Mozart, Beethoven, Schubert, Liszt, Chopin, Bruckner, Gounod, Dvorak, Elgar e Messiaen. Stravinsky, talvez o melhor compositor do Século XX, era ortodoxo russo, mas compôs uma missa e outras músicas sacras. Apesar das suas diferenças, estavam praticamente todos unidos na crença de que a inspiração derivava de, e regressava a, o próprio Criador.

O poeta católico moderno Paul Claudel gostava de usar a frase noli impedire musicam (“Não interrompas a música”), uma referência a Eclesiástico 32,3 sobre a importância de não falar durante um festim, enquanto se toca música.  Ele sugeria que o sentido era mais lato: que frequentemente estragamos a música natural do mundo com as nossas arrogantes preocupações.

Fala-se muito, nestes dias, daquela misteriosa frase de Dostoyevsky, “A beleza salvará o mundo”. São João Paulo II e Alexander Solzhenitsyn já forneceram umas importantes reflexões sobre este tema. E de Bento XVI temos isto:

O encontro com a beleza pode tornar-se a ferida da seta que nos atinge no coração e, dessa forma, nos abre os olhos, de modo a que depois, com base nesta experiência, adoptamos os critérios para ajuizar e conseguimos avaliar correctamente os argumentos. Lembro-me de um concerto de música de Johann Sebastian Bach, em Munique, dirigido por Leonard Bernstein, depois da morte inesperada de Karl Rahner. Ao meu lado estava o bispo luterano Hanselmann. Enquanto se dissipava, triunfantemente, a última nota de uma das grandes Cantatas-Thomas-Kantor, olhámos um para o outro e dissemos espontaneamente: "Quem tenha ouvido isto sabe que a fé é verdadeira”.

Não estou inteiramente convencido. Bernstein e muitos outros músicos modernos parecem transformar a própria da música num ídolo, e duvidam do próprio Deus por detrás da música em quem tantos dos grandes compositores acreditavam.

Mas numa coisa Bento XVI tem razão, nomeadamente na importância da “ferida” que a beleza inflige ao coração e a importância que estas feridas têm em abrir-nos a realidades com as quais os nossos argumentos e a nossa lógica frequentemente lidam mal, ou ignoram.

Sempre que eu escrevo sobre este tipo de assunto, normalmente durante o Verão, ou noutras alturas em que conseguimos respirar um pouco mais fundo e pôr os olhos em reinos mais alargados, há alguém que me escreve a dizer que devia deixar-me destas mariquices, porque o que precisamos mesmo é de um partido político militante. De certa forma é verdade, precisamos de facto de uma Igreja Militante.

Mas também me lembro de Lenine, e da importância de dizer “coisas parvas e simpáticas” e do perigo de deixar que os bolcheviques interrompam a música e ditem toda a agenda para as nossas vidas.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 16 de Julho de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 29 March 2017

Filipe Durão e Fúria

Podem assistir aqui à interessante conferência que moderei na sexta-feira dia 24 de Março, no Meeting de Lisboa, no Campo Pequeno.



E porque o Manuel Fúria estava doente e não cantou, podem ouvir aqui um dos seus mais recentes singles.



E como não podia deixar de ser... Bonus track!

Thursday, 3 March 2016

Let him rock!

Imã roqueiro da Turquia
É uma invenção portuguesa e vai agora chegar a todo o mundo. A aplicação Click to Pray, desenvolvida pelos jesuítas portugueses, vai ser adoptada pelo Vaticano a partir de amanhã.

O jornal Audácia e o iMissio estão a publicar testemunhos de pais ao longo do mês de Março. Hoje é o meu, que podem ler aqui, em que explico porque é que sou um Rei, um herói e um génio, mas acima de tudo muito feliz.

Plácido Domingo quer cantar para o Papa. O cantor encontrou-se ontem com Francisco, em Roma.

Quem também só quer cantar é Ahmet Muhsin Tuzer, o “imã roqueiro” da Turquia, que foi convidado para actuar em Serralves. A autoridade que tutela a actividade dos imãs naquele país não o quer deixar vir. Ele diz que vai tentar vir na mesma. Mais rock é difícil.

Fique a conhecer o livro “Clavis Bibliothecarum”, um instrumento fundamental para investigadores, que contém o acervo de todas as bibliotecas religiosas em Portugal.

Monday, 11 January 2016

David Bowie homenageia os mortos



Não vejo melhor homenagem que se possa fazer por ele...

Wednesday, 6 January 2016

A Beleza é o Coração da Nossa Fé Cristã

James V. Schall sj
Quando o Papa Bento XVI entrou na Catedral de Westminster para celebrar missa durante a sua visita a Inglaterra em 2010, fê-lo ao som de “Tu est Petrus”, composto pelo compositor escocês Sir James MacMillan. Como comprovam as ruínas de inúmeras catedrais, a Escócia foi em tempos um país católico. Alguns dos clãs ainda são. Nas palavras de Samuel Johnson, no seu “Diário de uma Viagem às Hébridas”, “Não é de invejar o homem cujo patriotismo não ganhe força na planície de Maratona ou cuja piedade não se acalente entre as ruínas de Iona”.

MacMillan foi escolhido como “Católico do Ano, 2015” pelo “Catholic Herald” e é um admirador confesso de Bento XVI, que também coloca a música e a beleza no cerne da vida humana. “A beleza é o coração da nossa fé cristã”, escreve o compositor. “Deve estar no centro das nossas atenções quando nos aproximamos, em adoração, do trono de toda a Beleza”. Há muito que a Igreja percebe que os homens precisam tanto de beleza como de pão para a boca, a longo prazo, talvez precisem mais.

No “Relatório Ratzinger” (1985) lemos: “O Cristianismo não é uma especulação filosófica; não é uma construção da nossa mente. O Cristianismo não é obra ‘nossa’; é uma Revelação; é uma mensagem que nos foi confiada e não temos o direito de a reconstruir ao nosso gosto ou à nossa escolha.”

Os papas e bispos não têm missão mais importante do que manter essa “mensagem” essencial intacta. A “especulação filosófica” surge apenas no seguimento, e como auxílio, da recepção adequada da revelação e do seu conteúdo. Qualquer tentativa de “reconstruí-la” ou diluí-la à luz de uma imaginada “construção” da mente é em si a recusa daquilo que nos foi confiado. É isso que Deus quis que estivesse presente no mundo ao longo dos tempos e entregou à Igreja com esse objectivo, por mais impopular ou estranho que seja numa dada cultura ou era.

O Sir James MacMillan colocou a questão desta forma. “Muitas pessoas, crentes ou não, dedicaram toda a vida a tentar diluir o Cristianismo, vendo num secularismo uniforme e cinzento um inevitável passo seguinte. É verdade que vivemos numa sociedade plural, mas a nossa civilização foi moldada por uma cultura e valores judaico-cristãos. Alguns de nós continuaremos a celebrar isto e a viver a nossa fé como pluralistas”. Não há que duvidar que muito do Protestantismo e do Catolicismo liberal moderno tem-se dedicado de facto a “diluir” os princípios básicos da revelação e da realidade a que se referem.

Sir James MacMillan
Este esforço para “diluir” o Cristianismo num “secularismo uniforme cinzentão” tornaria a Igreja um agente da uniformidade cultural. Aquilo que torna a Cristianismo único – a própria revelação da Trindade e da Encarnação – seria eliminado ou explicado até à insignificância. Esta revelação e a sua unicidade são, a crer no que se apregoa, a causa das nossas desordens civis, pelo que ninguém deve sentir-se obrigado ao que quer que seja salvo aquilo que o Estado ordena para a paz na praça pública. Um “humanismo” ou “secularismo” universal esforça-se para eliminar qualquer causa de conflito. A Igreja não pode, por isso, reclamar qualquer liberdade de acção fora das suas próprias portas. A liberdade religiosa termina à porta das igrejas.

O tipo de “pluralismo” seguido por MacMillan é mais robusto do que o “multiculturalismo” que actualmente nos rege. O “multiculturalismo” moderno, do estilo que MacMillan rejeita, baseia-se no cepticismo. Por princípio, nada é verdade. Todas as ideias religiosas são igualmente erradas. Ninguém pode reclamar conhecer a verdade.

No “pluralismo” de Sir James MacMillan, os pensamentos e as ideias diferentes não são algo que se deve esconder, mas que se devem viver de forma aberta e legal. Frequentemente é preciso grande coragem para o fazer.

A ideia de que a paz se alcança através da remoção forçada de qualquer símbolo religioso estabelece, de facto, o “humanismo secular” como “confissão pública” obrigatória, tudo em nome de “multiculturalismo”. É um conceito que, pelo que se vê, se revelou tão estreito e letal como qualquer religião do passado. Baseia-se, novamente, na afirmação de que não existe verdade.

Tal como Bento XVI, Sir James compreende que o seu pluralismo tem por base a razão. Não nega a existência de fanatismo nalgumas religiões, que deve ser enfrentado de forma directa, mas ao mesmo tempo afirma que aquilo que foi revelado é para ser conhecido e vivido. Estas são as verdades que ele continuará a celebrar e defender dentro das nações, a começar pela sua própria.

Por fim, repito, com Joseph Ratzinger que “o Cristianismo não é obra ‘nossa’; é uma Revelação”, e com Sir James: “A beleza é o coração da nossa fé cristã”.


“Tu est Petrus” de James MacMillan.


James V. Schall, S.J., foi professor na Universidade de Georgetown durante mais de 35 anos e é um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seus mais recentes livros são The Mind That Is CatholicThe Modern AgePolitical Philosophy and Revelation: A Catholic Reading, e Reasonable Pleasures

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 5 de Janeiro de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Monday, 6 July 2015

O Papa, as famílias e as talhas de bom vinho

Fiéis aguardam o Papa no Equador
O Papa Francisco está no Equador, onde esta tarde visitou um santuário da Divina Misericórdia e, depois, celebrou missa para uma grande multidão, debaixo de um calor intenso.

Da homilia há uma frase sobre o sínodo da família que há-de ser interpretado e lido das mais variadas maneiras, mas seria uma enorme pena se essa frase desviar a atenção do texto como um todo, que é dos mais bonitos que já ouvi este Papa proferir.

Durante a semana que estive fora, de férias, o Papa Bento XVI fez um discurso oficial e público, o primeiro desde a sua resignação, sobre um dos seus temas preferidos… A música!

Também durante a semana publicou-se, como sempre, mais um artigo do The Catholic Thing. O padre Mark Pilon pergunta se a Igreja precisa de pessoas como João Baptista hoje em dia, recordando o caso do bispo de Nova Orleãs que excomungou um político que se opunha às leis de integração racial na década de 60.

Friday, 12 December 2014

A Santa Sé prepara-se para o Punk Rock

Patti Smith
Patti Smith vai cantar amanhã no concerto do Vaticano. Há quem ache surpreendente e escandaloso. Saiba aqui porque não devíamos sentir nem uma coisa nem outra.

Para melhor entender este caso recorremos ao nosso especialista de punk rock e Cristianismo, o cantor e pastor Tiago Cavaco. Ele tem muita coisa interessante a dizer sobre Patti Smith e revela que se fosse ele a ser convidado… porque não?

Noutras notícias, o bispo da Guarda espera que os casos de pessoas mediáticas a serem levadas à justiça sirvam para motivar a sociedade.



Termino com um aviso. A fundação Ajuda à Igreja que Sofre, que merece todo o nosso apoio, organiza uma série de concertos de Natal. Não deixem de consultar aqui as datas e os locais, e apareçam. É uma forma de ajudar!

“Se o Papa me convidasse para tocar para ele, porque não?”

Transcrição integral da conversa com Tiago Cavaco sobre o facto de Patti Smith actuar no concerto do Vaticano, em Roma. A reportagem está aqui.


O facto de Patti Smith cantar no concerto do Vaticano está a ser apresentado quase como uma hipocrisia, por ela dizer numa das suas primeiras músicas: “Jesus morreu pelos pecados de alguém, mas não os meus”. Concorda?
Ela escreve sobre isso num livro editado em Portugal, chamado "Apenas miúdos", onde conta um bocado a sua história com o seu companheiro que foi o Robert Mapplethorpe, um fotógrafo, e o que ela diz sobre essa frase é que revoltar-se contra Jesus era revoltar-se contra a própria rebelião, porque Jesus era também um rebelde.

Uma das coisas interessantes é que provavelmente hoje, comparado com os anos 70, em que ela escreveu isso, Jesus é um símbolo de maior rebeldia do que era nessa altura. Portanto termos uma cantora como a Patti Smith a associar-se à figura de Jesus até acho que é uma justiça poética e ela é uma poetisa. Eu encontro lógica aqui, não vejo incoerência, vejo lógica.

Mas podemos então dizer que ela é religiosa?
É uma boa pergunta. Às vezes tenho dificuldade em classificar o que é uma pessoa religiosa por oposição a uma pessoa não-religiosa. Por um lado acho que ter uma má vontade, a toda a prova, contra a religião, por si pode ser uma religião também, porque é uma coisa muito exigente, uma pessoa que esteja sempre contra a Igreja tem de ser muito zelosa nisso, é preciso dar muito de si para ser muito coerente com isso.

Não deixa de ser contraditório, a Igreja – e eu não sou católico romano – passa a vida a ser criticada por não falar com o mundo e cada vez que o mundo vem falar com a Igreja as pessoas também criticam. O que parece é que a Patti Smith é uma pessoa que se apercebe que a religião é uma coisa demasiado importante para ser rejeitada e descartada de maneira fácil.

Há um aspecto que acho assinalável. A Patti começou a escrever antes de fazer música e o que diria é que o Cristianismo é por excelência uma fé da escrita, portanto alguém que escreva, mesmo que não creia, faz todo o sentido que tenha uma relação próxima com o Cristianismo, mesmo que não seja uma relação de crença. Portanto que uma cantora que é escritora, como a Patti Smith, se aproxime da Igreja, nem que seja em coisas destas, acho absolutamente normal e natural.

Num dos álbuns dela, "Easter", cita São Paulo "Combati o bom combate, completei a carreira..." A frase seguinte seria "Guardei a Fé", mas ela deixa de fora. Isso pode ter algum significado?
Lá está, acho que qualquer pessoa que goste de ler e que tenha passado por momentos da sua vida em que alguma coisa que leu a transformou, de um modo geral, se viver com acesso ao texto bíblico, vai ser uma pessoa com interesse por ler a Bíblia, e vai sentir-se desafiada pela Bíblia.

A Bíblia é o livro dos livros, quer as pessoas creiam nele enquanto revelação divina ou não. É o grande livro da nossa cultura, mesmo que não nos coloquemos perante ela sob uma perspectiva de fé. Portanto a capacidade que a Patti Smith tem de citar textos bíblicos, eventualmente trazendo questões às afirmações que lá estão, acho que é uma coisa absolutamente produtiva e sinal de que ler o nosso tempo é necessariamente ler o texto bíblico também. Eu acho que a Patti Smith está a caminho de fazer muito mais perguntas ao texto bíblico do que aquelas que já tem vindo a fazer. 

Essa é uma das grandes pobrezas da nossa cultura em Portugal, é que os nossos artistas não lêem a Bíblia. E portanto não têm sequer a capacidade de perceber o que lhes agrada ou não agrada, porque pura e simplesmente não a conhecem. Os Estados Unidos de facto são um país com uma cultura diferente e as pessoas estão habituadas a ir ao texto bíblico, nem que seja para se zangarem com ele, mas isso é saudável, irmos ao texto bíblico nem que seja para nos zangarmos com ele. Mais tarde traz encontros. Hoje a Patti Smith estar a tocar para o Papa acho que sem dúvida tem a ver com o facto de ela ter a Bíblia aberta, isso ajuda bastante. 

Independentemente de ser falsa a imagem dela ser um ícone anti-religioso, não deixa de ser surpreendente vê-la a cantar no Vaticano.
Depende da forma como o vemos. Se nós pensarmos em tocar para o Papa como um prémio carreira, vamos ter de pensar que a pessoa que vai tocar para o Papa tem de ter uma relação muito próxima com ele. Mas se tivermos a ideia de que tocar para o Papa é no fundo participar num momento em que os cristãos, neste caso os católicos, dialogam com o mundo, então é possível que o Papa naturalmente receba pessoas e que possam cantar para ele sem que isso represente um acto de profissão de fé. Acho que depende um bocado da maneira como se olha para isto.

Eu que não sou católico romano, mas que sou cristão, provavelmente não acontecerá, mas se o Papa me convidasse para cantar para ele, porque não? Da mesma maneira que se for convidado por um amigo para ir jantar lá a casa, apesar de não gostar de cantar nestes contextos, depende da amizade que temos pelas pessoas. Portanto eu acho que é preciso que a nossa visão do contacto que temos com a religião seja uma relação mais do campo da amizade, onde somos capazes de sermos amigos mesmo das pessoas com quem não concordamos. 

A esse nível, de modo nenhum me choca que a Patti Smith, ou qualquer outra pessoa que não seja conhecida pela sua fé, vá cantar e tenha alguma relação ou gesto de amizade, neste caso com a Igreja Católica e com o Papa em particular. 

O Papa também passa a vida a ter gestos de amizade com pessoas que não são católicas, portanto acho que faça sentido que as pessoas que não são católicas também tenham gestos de amizade com o Papa.

Da obra dela, em termos de referências religiosas, o que é que destacaria?
Na verdade não sou um conhecedor profundo da Patti Smith, é verdade que ela é de uma área que é a minha área de afectos, ali no início do punk, há quem lhe chame proto-punk, no sentido de ser aquilo que veio permitir que o punk aparecesse como uma reacção a uma música que era muito sofisticada, muito gorda, muito progressiva. 

A Patti Smith, é uma pessoa que escrevia e que começou basicamente por fazer discos muito mais falados do que propriamente cantados, isso é interessante, porque o punk, apesar de ter uma aura de simplicidade, não veio destituir o poder da palavra, nem que fosse pela palavra-choque, mas os discos da Patti Smith, que não conheço muito bem, tirando o "Horses" por exemplo, são discos que voltam a colocar naquilo que se está a dizer a importância daquilo que se está a tocar. 

Acho difícil que algum músico que faça música e que dê valor às palavras não torne a música com qualidade espiritual. Porque podemos ouvir músicas numa fase bastante simples, mas a partir do momento em que a palavra começa a ser uma coisa importante há um valor espiritual aí, pelo menos é isso que os cristãos acreditam. Deus é um Deus que se revela através da palavra, neste caso a Bíblia, mas que se revela através de Cristo enquanto Verbo, portanto a nossa cultura é uma cultura que valoriza a palavra e por isso acho que nos discos da Patti Smith, pelo valor dado à palavra, há uma espiritualidade. Essa é uma das coisas que podemos encontrar até na música popular e no rock, quando a palavra é importante.

Quando aquilo que se diz não é importante e é mais um pretexto para que os instrumentos toquem, então é provável que seja fácil distrairmo-nos com mensagens que não são assim tão vitais. Mas no caso da Patti Smith é um universo diferente, é um universo que valoriza aquilo que está a ser dito e isso, na minha perspectiva, leva sempre a uma relação pelo menos de indagar e questionar a fé.

Wednesday, 5 November 2014

Recordando Rich Mullins: Discípulo de São Francisco

Patrick Beeman
Nesta época de Todos os Santos e dos Fiéis Defuntos devemos recordar aqueles que tiveram uma grande influência nas nossas vidas espirituais. Há um homem a quem eu estou particularmente agradecido.

A 19 de Setembro de 1997 tinha eu 14 anos. Estava precisamente no meio dessa crise hormonal à qual chamamos puberdade, e no início de uma crise de fé (que acabaria por me conduzir à Igreja Católica), quando soube que Rich Mullins, autor de músicas como “Awesome God” e “Sing Your Praise to the Lord”, tinha morrido num trágico acidente de carro. A notícia foi divulgada numa estação de rádio cristã, e devastou-me.

O meu pai trabalhou numa rádio cristã durante grande parte da minha infância e em nossa casa não se ouvia música secular. Quando cheguei à adolescência, comecei a pensar nas grandes questões da vida: Deus, verdade, fé, o sentido da vida. Senti-me imediatamente atraído às letras profundas das músicas de Mullins e à beleza e clareza com que ele expressava a fé cristã.

Quanto mais ouvia, mais me sentia atraído pela sua vida extraordinária, uma vida marcada pelo total abandono a Deus e alegria cristã irreprimível, que são nada mais nada menos que os materiais que Deus usa para escrever a história de um santo.

Rich Mullins tinha uma vertente ecuménica corajosa, um sinal de contradição no meio da subcultura evangélica de que fazia parte e que tinha, em parte, ajudado a edificar. Trilhava a fronteira entre o Catolicismo, por um lado, com uma visão sacramental do mundo e o cheiro a incenso, imagens de santos, corpo e sangue de Cristo sob a aparência de pão e vinho e, por outro lado, (na medida do que tem de bom), as tendências anti litúrgicas e iconoclastas do Cristianismo Evangélico. Aos 40 anos abraçou o celibato, em forte contraste com a tendência geral protestante de ignorar esta opção tão bíblica e viva de seguir a Cristo de forma apostólica.

Mullins abordou a sua vocação como um monge (ou melhor: como os mendicantes dos quais cantava em “Land of My Sojourn”), dando particular atenção às virtudes evangélicas da pobreza, castidade e obediência. Para poder viver neste espírito, vendeu literalmente todas as suas posses, tirou um curso de educação musical e mudou-se para uma reserva Navajo, para servir o povo e ensinar nas suas escolas. Tinha ainda em comum com os católicos o facto de ser um devoto de São Francisco.

Foram as suas tendências franciscanas que mais me marcaram. Eram estranhas para a minha mente evangélica na mesma medida em que eram estranhas à minha experiência de vida numa igreja não-denominacional. Fazer-se pobre, abdicar do casamento, imagens de Nossa Senhora nas capas dos álbuns, gosto pelo litúrgico, crença na presença real... Não são propriamente as marcas típicas da teologia evangélica. Mas para mim soavam a verdade. Sem o perceber sequer, estava a começar a aproximar-me de tudo o que me parecesse minimamente católico.
 Admirava o Rich Mullins como um filho admira um pai, pela autenticidade da sua fé. E sentia uma proximidade semelhante à que se sente para com um mentor ou director espiritual. Mas claro que nem nos conhecíamos. Lembro-me vagamente de lhe ter sido apresentado uma vez, quando era criança, quando ele actuou numa igreja, num concerto apoiado pela rádio onde o meu pai trabalhava.

Lembro-me de o ver descalço no palco com a sua guitarra. Queria ser como ele. E ele queria ser como São Francisco. Isto pôs fim a qualquer objecção que eu poderia ter em relação ao culto aos santos ou forma como o Catolicismo encorajava a oração por sua intercessão. A devoção que Rich tinha por São Francisco não retirava nada ao seu Cristianismo. Enchia-o de vigor e de vida. Tornava o seu amor por Cristo mais forte e mais cristão. É esta a lógica da devoção aos santos.

A sua morte tocou-me profundamente. Daquela forma paradoxal que marca tantas verdades do Cristianismo, a morte de Rich deu-lhe ainda mais vida. É o eco da oração de São Francisco: “É morrendo que se nasce para a vida eterna”. À medida que o tempo passava, comecei a sentir uma ligação com ele que era muito mais profunda que o sentimento de perda. Já pensei se isso não será porque ele estava a rezar por mim, como certamente São Francisco intercedia por ele.

No final da sua vida, Mullins estava com um pé dentro da Igreja Católica. Tragicamente, a sua morte aconteceu apenas três dias antes da data em que planeava entrar em comunhão plena.

As tempestades da juventude trazem sempre uma chuva forte de curiosidade e de algum descontentamento. Mas para mim a música de Rich Mullins era como o trovão que se segue aos relâmpagos de verdade que estavam a atingir-me na minha caminhada em direcção à Igreja. Felizmente para os meus pais a minha rebelião adolescente consistiu quase por inteiro da minha conversão ao Catolicismo. Devo ter passado demasiado tempo com a malta errada: nomeadamente São Francisco e o seu irmão mais novo, Rich Mullins.

Saiba mais sobre o musical de Rich Mullins, baseado na vida de São Francisco de Assis.



Patrick C. Beeman é obstetra e ginecologista na região de St. Louis. Quando não está a fazer partos, escreve sobre bioética, música, medicina e cultura.

(Publicado pela primeira vez domingo, 2 de Novembro de 2014 no The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Tuesday, 3 December 2013

Imã roqueiro e exortações à lupa

Keep on rocking in the Mosque world
Da próxima vez que o barrarem à entrada de uma discoteca não se irrite. Lembre-se: Aquele homem pode vir a ser Papa um dia. Não é provável, mas é possível.

Estão em Roma por estes dias os cardeais que formam o G8 que aconselhará o Papa sobre eventuais mudanças na Cúria. As reuniões decorrem até quinta e analisarão os dicastérios.

Conheça aqui a história de um imã roqueiro que está a fazer tremer as estruturas religiosas na Turquia. Não me perguntem porquê… eu ouvi uma das músicas e aquilo é tipo João Pedro Pais em turco…

E D. Manuel Clemente afirmou esta terça-feira que “a lei é igual para todos”, em referência ao padre condenado ontem por abusos sexuais sobre menores, no Fundão.

Já leu a exortação apostólica do Papa? Ainda não? Nem vai ler?! Bom, então pelo menos leia as análises que tenho feito, por temas, no blogue. Já estão publicadas as secções sobre a evangelização, sobre a dignidade humana, sobre a reforma do papado e ainda sobre a liturgia e a inculturação. Ao longo dos próximos dias, publicarei mais algumas reflexões.

Sunday, 7 April 2013

Projecto "Tudo é Vaidade II" ajuda organização de apoio aos sem-abrigo

Jónatas Pires com alguns dos "fãs" mais especiais
do Tudo é Vaidade II
Transcrição integral da entrevista ao músico Jónatas Pires e a Alfredo Abreu, da Serve the City - Lisboa, a propósito do projecto "Tudo é Vaidade II". Podem ver e ouvir a reportagem aqui.


Qual a história por detrás do disco Tudo é Vaidade?
Divido a autoria das letras com o Kohelet, que escreveu o Ecclesiastes, porque fui basicamente inspirar-me no que ele tinha escrito e essas canções são basicamente um retratamento do Eclesiastes do princípio ao fim.

A ideia nasceu no verão de 2011 quando me pediram que fizesse uma canção para cada dia do acampamento da Juventude Baptista Portuguesa, onde íamos estudar o livro de Eclesiastes. Depois surgiu a ideia de pegar nas músicas e fazer um disco e pareceu-nos bem usar o disco para servir um propósito maior que o deleite auditivo. Tínhamos conhecimento de um projecto social que existe em Rabo de Peixe, na Ilha de São Miguel, que consiste em fornecer senhas de alimentação a crianças que não têm acesso a mais de uma refeição completa por dia.

Todo o percurso foi feito ao longo de alguns meses. O disco saiu, começou a ser vendido directamente às pessoas, e pela internet, e conseguimos enviar cerca de 6500 euros para lá o que resulta em hoje em dia estarem cerca de 52 crianças a serem apoiadas diariamente com refeições pagas e mais algumas ajudas a famílias e crianças fora de Rabo de Peixe.

Essa estrutura que ajuda as crianças em Rabo de Peixe já existia?
Sim, o projecto começou com dois professores colocados em Rabo de Peixe. Depois de perceberem das necessidades gritantes que havia entre os alunos começaram a pagar do próprio bolso as senhas a alguns alunos. Depois foram apelando a amigos e foi-se espalhando, e como foi crescendo foi chegando mais dinheiro e criaram uma estrutura.

Ainda são professores mas continuam a colaborar com pessoas de lá, incluindo os técnicos do Rendimento Social de Inserção, para identificar os casos de maior necessidade. Os apoios são dados directamente às crianças, os cartões da escola são carregados e com isso eles podem comer.

Quando existe uma necessidade mais imediata, por exemplo para uma família que de repente se vê sem nada, sem comida para uma semana, já aconteceu terem de dar uma ajuda directa mais pontual.


Agora surgiu a ideia de fazer um novo disco mas com um enfoque diferente.
Sim. Não nos desligámos do anterior projecto, as pessoas podem continuar a contribuir e a comprar o disco, mas também, desta vez, eu ao experimentar ter ido a um jantar comunitário do Serve The City, senti logo uma vontade muito forte de os poder ajudar da mesma forma, e de escrever canções que tivessem a ver com as pessoas que frequentam esses jantares, e o que elas passam.

Foi sempre com uma perspectiva de poder, através da música e das palavras, as pessoas que atravessam um inverno quase permanente, poderem encontrar pelo menos um cheiro de primavera naquelas canções.

Abordei o Alfredo e eles foram muito generosos na forma como acolheram a ideia.

Alfredo, o que é o projecto Serve the City?
Somos uma organização inspirada por Cristo mas aberta a todos. É uma organização de inspiração cristã mas que congrega pessoas de todas as convicções para servir a cidade. Esta ideia de serviço é também muito ligada a Cristo, que se apresentava como aquele que vinha servir e não para ser servido.

O nosso objectivo é dar alguma coisa da nossa vida para tornar a vida dos outros melhor, e mobilizamos pessoas para projectos de voluntariado. O primeiro grande projecto que tivemos foi este, os jantares comunitários, que inicialmente era destinado exclusivamente a sem-abrigo, mas começámos a descobrir que na comunidade das pessoas que vivem na rua há não só pessoas sem-abrigo, há imigrantes ilegais, toxicodependentes, idosos isolados, muita gente isolada, que vão às carrinhas das diversas organizações buscar algum tipo de alimento.

Foi para eles que criámos este jantar comunitário, que acontece, por enquanto, de quinze em quinze dias e que serve cerca de 250 refeições. O objectivo não é a comida, porque àquela hora em vários lugares de Lisboa há comida disponível para as pessoas da rua. O nosso objectivo é criar um espaço seguro, confortável, onde as pessoas que estão na rua ou que vivem na margem, que se sentem excluídas da sociedade, possam sentar-se à mesa com os nossos voluntários para partilhar uma refeição durante duas horas, o seu percurso de vida, simplesmente partilharem o que lhes vai no coração.

Temos parceiros católicos, a Comunidade Vida e Paz, budistas, o Centro de Apoio ao Sem-Abrigo, protestantes, o Exército de Salvação, a Câmara de Lisboa, a Associação Conversa Amiga, que penso que não tem nenhuma filiação religiosa. Todas estas organizações que já fazem um acompanhamento das pessoas da rua depois vêm sentar-se à mesa com as pessoas que habitualmente servem nos vários lugares da cidade, e aí sim desenvolvem-se relações mais profundas, permitem conversas que vão além do circunstancial. O objectivo não é dar comida às pessoas, é darem-lhes a oportunidade de se sentirem pessoas.

Esta ajuda que poderá vir, se o projecto correr bem, é importante para o vosso projecto…
Sim, porque servimos uma refeição, que tem custos. E não imputamos esses custos aos nossos voluntários, nem às pessoas que vêm da rua. Alguém tem de pagar os jantares, não há jantares grátis. Andamos sempre à procura de patrocinadores, portanto este apoio do projecto do Jónatas permite-nos libertar tempo que gastamos à procura de recursos para aumentar a nossa resposta de acompanhamento das pessoas que estão na rua.

Para isto avançar é preciso atingir um objectivo de financiamento.
[Jónatas] Numa primeira fase de recolha conseguimos juntar os fundos necessários para pagar a gravação do disco e com a ajuda muito generosa da Valentim de Carvalho gravámos lá o álbum, que está agora na fase pós-produção, e o que nos falta é o dinheiro para fazer as cópias físicas do disco, porque acreditamos que a música e os discos ainda é algo que pode ser partilhado de forma física, o que é mais significativo do que simplesmente enviar um ficheiro informático.

Os valores são baixos, porque queremos que seja o mais acessível possível, e mesmo assim possa reverter lucro para os jantares, e neste momento estamos nesta fase. Temos até dia 15 para atingir o nosso alvo. Mas mesmo que cheguemos aos 100%, encorajamos toda a gente a financiar-nos porque temos também outros objectivos.

Estive há dias a tocar alguns temas para alguns utentes da Comunidade Vida e Paz e foi uma experiência fantástica a maneira como as canções encontraram aquelas pessoas, e como elas se encontraram nas canções. Temos um sonho que queremos concretizar de poder oferecer o disco em leitores mp3 a pilhas aos nossos convidados da rua, para que lhes sirva de uma companhia quando eles estiverem em alturas de solidão.

Não se trata apenas de pôr comida nos estômagos das pessoas mas conseguir chegar aos corações a ajudar a transformar vidas e construir uma cidade melhor e mais solidária, especialmente tendo em conta o tempo que vivemos.

Como é que se pode contribuir?
Quem conhece a plataforma PPL.com.pt, o nosso está na lista de projectos. Mas é mais fácil ir a www.tudoevaidade.com e tem lá as informações todas. Vão tendo actualizações regulares, tem as ligações para a página da recolha de fundos e também tem as ligações para o disco anterior, a fase 1 do projecto. Também estamos no Facebook.com/tudoevaidade

Tudo é vaidade vem da abertura de Eclesiastes, o segundo disco também é inspirado em Eclesiastes?
O segundo é mais abrangente. As imagens mais presentes neste segundo disco são de facto o pão, mesas vazias e mesas cheias, e também a questão da solidão, daquele sentimento de, apesar de estarmos rodeados de imensa coisa, incluindo família e emprego, podemos sentir que não temos nada. Apela a uma redescoberta daquilo que é verdadeiramente importante, o “ter e não ter”.

Não tem uma inspiração tão focada como o primeiro disco, mas sendo mais abrangente também houve coisas que fui buscar a Job, outras a Salmos. Job é um livro espectacular, para escrever sobre sofrimento. Há uma música só sobre a parábola do Senhor que dá um grande banquete e todos os convidados recusam. A música diz que “Há uma grande festa, que nunca termina, onde todos cantam e ninguém desafina.” Esse é o espírito dos jantares do Serve the City.

Musicalmente tenho convidados muito especiais. O Samuel Úria, a Celina da Piedade, que tem um disco a solo lindíssimo, ela toca com o Rodrigo Leão também. Uma cantora portuguesa que canta com os Wray Gunn, a Selma Uamusse. E depois muitos amigos meus, pessoas que decidiram abrir o seu coração sem pedir nada em troca e que abrilhantam o CD de uma forma muito especial.

Nota-se aqui que todo este projecto está muito marcado pela tua fé pessoal. De que maneira alimenta o teu trabalho?
Não só este projecto. Eu tento que toda a minha música, mesmo que não tenha a palavra Cristo, ou Deus, que naquilo que eu crio transpareça a minha cosmovisão. É importante para mim que assim seja, já que vou falar é melhor que tenha alguma coisa a dizer, mas que possa ser algo que leve as pessoas a interpretar aquilo à sua maneira e descodificar aquilo que lá está. Não são músicas sobre o nada, não são um vazio intelectual ou lírico.

Um sem-abrigo de Lisboa
Tentei imaginar muito daquilo porque passam as pessoas que frequentam os jantares. Na Comunidade Vida e Paz, uma música que falava de sepulcros, um senhor que tinha sido coveiro muitos anos e que disse que se identificava com aquilo. Essa é a minha maior felicidade, que as pessoas possam pegar nas canções e sentir que aquilo lhes diz alguma coisa.

Contaste com o apoio dos Pontos Negros?
Claro, eles participam todos. O Silas, o teclista, é quem faz a parte gráfica. Apesar de ser um projecto de âmbito diferente a nossa amizade vai muito para além da música. Aliás, a amizade é algo que é partilhado pelas pessoas que fazem este disco e isso é uma coisa que transparece.

Já chegaste ao ponto em que consegues viver da música?
Já vivi, mas agora não vivo. Estou muito bem como estou. Não é por ter um emprego, de que gosto muito, e dedicar-me a isto não a full-time, que o faço com menos empenho ou dedicação. Quando eu falei com o Alfredo nem estava neste emprego, mas a premissa de nunca tirarmos nada financeiramente deste disco mantém-se e há-de se manter sempre, mesmo que não esteja a ganhar nada. Isto é algo que eu sinto que devo fazer, independentemente daquela que for a minha situação.

Alfredo, o seu trabalho no Serve The City também é voluntário?
Eu sou voluntário, não ganho nada com isto. Temos apenas uma pessoa que é paga porque entre dois jantares há uma enorme quantidade de trabalho a fazer, reuniões a marcar, contactos, follow-up que se faz com pessoas que vêm jantar connosco. Em quase dois anos já envolvemos quase 2500 voluntários, desde gestores de grandes grupos económicos a pessoas desempregadas e até alguns sem-abrigo. Misturamos tudo, o objectivo é mesmo esse, quando uma pessoa entra na sala de jantar não percebe que é o voluntário nem quem é o sem-abrigo.

Friday, 8 February 2013

“A procriação choca porque estás a dizer que o mundo é bom”

Transcrição completa da entrevista simultânea a Tiago Cavaco e a Manuel Fúria. Reportagem aqui.

Como é viver a fé no meio da cultura, nomeadamente da música moderna?
Manuel: Tem vários níveis de vivência. No meu caso, no momento em que decidi que nunca me passaria pela cabeça cantar noutra língua que não a minha, aos 18 anos – porque quando era adolescente havia sempre uma pressão enorme para cantar em inglês – essa decisão foi uma libertação a todos os níveis, porque parecendo uma coisa simples, trocando de língua é uma maneira de seres fiel a ti próprio.

Lembro-me quando comecei os “400 Golpes”, a banda que deu origem aos “Golpes”, que era fundamental para mim poder cantar as coisas que são mais importantes. E na pirâmide de prioridades de um católico, a coisa mais importante é Deus. Da mesma maneira que posso cantar sobre uma rapariga que atravessa a rua e é muito bonita, também tinha de poder cantar sobre as coisas que são mais importantes para mim, como Deus. Por isso viver a fé foi, numa primeira instância, um acto libertador, e de parar de ter vergonha, de assumir isso no meio que vê, pelo menos aqui em Portugal, a fé por olhos tortos, que nos vê como caretas ou como uma beatice, no pior sentido.

Depois há um outro nível que tem mais a ver com a minha própria espiritualidade e com a maneira como estou muito concentrado em mim, no trabalho que faço. Passo os dias a pensar em mim. Esse lado da vaidade é complicado. Ter fé e passar o dia todo a pensar em mim, porque eu sou o meu trabalho. Aquilo que eu faço, por defeito e por necessidade de estar inteiro e ter um ponto de vista sobre o mundo que é só meu, faz-me andar muito à volta de mim próprio e por isso é um desafio enorme deslocar-me de mim e conseguir estar dentro do outro.

Nesse sentido, mesmo este último disco que fiz agora, que se chama “Manuel Fúria Contempla os Lírios do Campo”, e a minha narrativa musical, também tem a ver com isso, com a ideia de só me conseguir encontrar verdadeiramente na ideia do outro, que sozinho não faz sentido nenhum, como o Tiago escreveu uma vez numa das suas canções: “Quando Adão andava sozinho Deus inventou-lhe o matrimónio, fez-lhe bem a ele e mal ao demónio”.

Há essa preocupação que vem do mais fundo de mim, porque o que eu faço tem a ver com o encontro total de mim mesmo só ser possível na ideia de outro, um outro que é o meu vizinho, o meu bairro, o meu país, o meu Deus.


O estereótipo do músico, liberal anti-religioso, é verdadeiro?
Tiago: Acho que infelizmente sim. Agora ao ouvir o Manuel acho que vou ficar um bocado à sombra do que ele disse, e essa sombra é boa. Porque acho que há muita coisa que de facto aconteceu de maneira parecida, mas outra de maneira diferente, e as diferenças têm a ver com a diferença de experiência entre um protestante e um católico.

Por exemplo, quando comecei a fazer música, quase por inerência, um miúdo evangélico em Portugal que começa a fazer música quase só pode fazer se for falar na fé dele. Tem a ver com o facto de sermos uma minoria numa maioria católica. Depois há um processo quase oposto. Comecei a fazer música com 15, depois na faculdade a coisa ficou mais “soft”, porque o meio não é propriamente propício ao discurso sobre a fé. Depois o tempo foi passando e voltei a um certo núcleo. É verdade que a música que faço hoje é diferente do que fazia há 20 anos, com 15, mas hoje estou mais conciliado com a ideia de que fazer música para mim é sobretudo falar de quem eu sou, e não consigo falar de quem sou sem falar do que creio.

Conheci o Manuel há seis anos e houve muita coisa que nos uniu, musicalmente, mas também a questão da fé…

Manuel: Sim, quando nos conhecemos foi porque eu tinha uma ideia megalómana qualquer, que nunca avançou. Estivemos 10 minutos a falar dessa megalomania e duas horas a falar de fé. 

Tiago: É verdade. Tenho aprendido muito não só com o Manuel mas também com outros, até para suavizar as arestas demasiado agrestes que um evangélico tem em relação à cultura. Porque para mim, e estou a simplificar, pensar em fazer algo cultural é sempre missionário, qualquer oportunidade para dizer alguma coisa, para nós, é muito falar acerca de Deus. No fundo o Manuel pensa da mesma maneira. A nós falta-nos uma certa suavidade e perceber que a cultura não tem de ser vista de forma tão antagónica. Depois vais aprendendo a fazer, às vezes a chatear mais aquele, outras vezes a construir pontes com ele também, e a tentar trabalhar essa possível antipatia que as pessoas podem ter em relação à fé no mundo cultural com algum tipo de graciosidade, acho que isso é possível, e ironia também.

O facto de seres baptista e não católico, facilitou a aceitação no meio musical?
Tiago: Por um lado é mais difícil e por outro, de facto, é mais fácil. Para um miúdo que cresça no meio evangélico, conseguires fazer uma música que não seja de nicho, evangélica, é difícil. Há uma tendência, que vejo com preocupação, que se és um miúdo evangélico só podes ouvir coisas evangélicas. Se ficas por aí, nem tudo é bom, e é difícil fazeres música que não seja ouvida apenas pelas pessoas da tua igreja. Nesse sentido é mais difícil.

Agora, foi-se criando um espaço em que por fazermos música barulhenta, isso foi apelando aos miúdos do liceu que gostavam de música barulhenta, apesar de não se quererem associar às mensagens abertamente cristãs. Mais tarde acaba, ironicamente, por ser fácil. Isso ainda se nota, há pessoas que conseguem ainda assim simpatizar com a Flor Caveira, editora de que faço parte, porque não é católica, e que se irritam com a Amor Fúria [editora do Manuel], porque é católica. Dizem: “bem, não gosto da religião nem de um nem de outro, mas esta pelo menos é minoritária, não me faz lembrar a minha avó”.

Manuel: Sinto que o Tiago e o lugar de onde o Tiago vem é uma coisa muito mais exótica do que o lugar de onde eu venho e nesse sentido tem muito mais graça, mesmo no contexto da música pop, o Tiago surge como uma figura apetecível. Também o Tiago tem uma ponte muito mais clara com a tradição do rock e estou a falar da experiência americana, de cantores e músicos religiosos que falam abertamente disso. Não estou a ver nenhuma experiência proselitista católica, com pinta.

Até os U2, que muitas vezes são apontados como católicos por serem irlandeses, o Bono Vox é anglicano…

Manuel: Isso não fazia a mínima ideia, mas é pena… [risos]

Quando se fala de música evangélica lembro-me sempre de uma imagem da personagem de desenho animado Hank Hill a dizer a um músico evangélico: “Não estás a tornar o Cristianismo mais fixe, só estás a piorar o rock”. Existe uma tentação de fazer música exclusivamente cristã, mas vocês não fazem isso. Não deve ser fácil manter esse equilíbrio de fazer música “mainstream”, mas que também transmite a vossa fé…

Tiago: Acho que é uma certa tentação dualista que pode existir em quem tem fé e quem não tem. Esse dilema também me aparece e posso reagir a ele de melhor ou pior maneira. A ideia de que “isto agora tem de ser muito religioso, isto tem de ser menos religioso”. As coisas que mais me entusiasmam são aquelas onde essa relação aparece de uma maneira tão surpreendente que encontramos o aspecto da fé, mas encontramos um carácter mundano também. Quando faço as minhas músicas há alturas em que sinto a necessidade de ser muito explícito e alturas em que não me parece que faça tanto sentido. Mas aquelas que à posteriori me dá mais prazer fazer são músicas que têm uma certa capacidade de dizer alguma coisa a alguém, independentemente da fé, ao mesmo tempo que a pessoa é capaz de descortinar a fé sem se sentir agredida, mas sim atraída.

O João Bonifácio, do “Público”, fazia esse elogio ao Manuel. Não sendo ele católico, estava a ouvir um católico a falar do sermão da montanha, e apesar de ele não olhar para Jesus como o Manuel olhava, sentia-se atraído pela canção. É um bom exemplo.

Manuel: Quando eu faço canções eu não sou capaz de dizer, agora esta vai ser sobre Deus, ou esta vai ser sobre amor carnal. As coisas acontecem na medida em que tento ser inteiro e quando é suposto falar sobre Deus faço-o sem qualquer problema.

Tiago: Provavelmente contigo nunca aconteceu uma coisa que comigo aconteceu, que é dizer “se fosse hoje não voltava a fazer esta canção”. Já me aconteceu algumas vezes.

Mas por ser demasiado explícito o conteúdo religioso?
Tiago: Sim, dou-te um exemplo que de alguma maneira serviu para eu ser mais conhecido, o "Beijas como uma Freira". Eu acredito em tudo o que a música está a dizer, mas reconheço que tem um efeito de ironia que curiosamente faz muitas vezes as pessoas pensar o contrário do que estou a dizer. Por isso hoje, com as responsabilidades que tenho na Igreja, tentaria atenuar esse lado. Beijas como uma Freira parece uma música contra a freira, mas é o contrário.



Uma coisa é falar da fé, da crença e da prática religiosa. Uma coisa é isso ser aceite, mas há uma série de questões que derivam daí que são mais complicadas… as chamadas questões fracturantes.

Manuel: Tudo o que tem a ver com sexo.

Acabam por se encontrar muitas vezes a discutir isso?

Manuel: Isso aconteceu-me há dias com uma jornalista. Uma entrevista de fundo em que a certa altura surge o tema e ela vai logo parar a esses assuntos com alguma hostilidade, mas a que eu já estou habituado e vejo como uma coisa boa: “Então mas o preservativo? E os homossexuais?...”

A única resposta possível, e mais verdadeira… Eu não me vou pôr a discutir isto com estas pessoas, é como discutir o Benfica com um sportinguista, não faz sentido nenhum. A minha resposta possível e a que dou, e que acho que é corajosa neste contexto tão anti-Igreja em que estamos foi: “Eu estou com a igreja em tudo”. Parecendo simples, é uma resposta que tem muita coisa lá dentro. Não interessa se concordo ou não, se tenho dúvidas ou não, interessa é a fidelidade, a fé que ultrapassa as minhas dúvidas pessoais e a minha discordância ou não, isso não interessa para nada. Também tem a ver com a questão do mistério. As pessoas querem ver as coisas como elas são mas as coisas não aparecem como elas são, e assim é que tem piada.

Tiago, lembro-me que uma vez, numa altura de mais um conflito israelo-árabe, em que meteste uma foto de uma t-shirt do exército israelita. Esse então é um tema que levanta muitas paixões, de certeza que já te meteu em situações complicadas.
Tiago: Das poucas vezes que recebi “hate mail” foi pela questão de Israel. Hoje tento ser mais cuidadoso. Como pregador, há um lado óbvio de sermos capazes de andar uma segunda milha por pessoas que não merecem, aliás eu sou uma pessoa que não merece que andem uma segunda milha comigo, mas a graça de Deus na minha vida tem sido isso. No passado tinha mais prazer em picar as pessoas. Falas de Israel, então, e metes mais de metade do país zangado contigo.

Hoje tento porque apercebo que por detrás destas questões ditas fracturantes há sempre pessoas. Em relação ao pecado das pessoas, eu que sou pecador consigo perceber que quando temos de falar sobre elas temos de mostrar uma dose extraordinária de graça para perceber que o que o Cristianismo condena, condena porque a razão última é Deus, não pelo prazer de mostrar às pessoas que não estão num certo nível de excelência. Isso obriga-nos a ser firmes naquilo que nos parece que é claro acerca do que é a vontade de Deus ao mesmo tempo de termos uma capacidade de conseguir falar de uma maneira que seja uma porta aberta para o perdão e para a reconciliação.

Isso faz com que hoje seja mais cuidadoso nas provocações e hoje provavelmente não faria isso. Eu tenho essa t-shirt, por acaso nunca a usei, sempre pensei que se um dia quiser ser apedrejado é vir para o Bairro Alto com ela e ter uma morte de mártir do século XXI lisboeta.

Numa das tuas músicas tens uma frase engraçada que mostra o outro aspecto de ser contra corrente. “Constituir família é a suprema rebeldia”. Tu casaste cedo e tens quatro filhos, Manuel, sei que tens casamento marcado para breve. No vosso entender isto é o maior grito de revolta que se pode dar na sociedade moderna, constituir família?
Tiago: Eu acho que sim. Aliás, quero aproveitar até o privilégio de estar na Rádio Renascença para dizer que neste aspecto devo muito bons amigos, irmãos na fé, católicos que me influenciaram bastante nos últimos anos até para sair de um raciocínio demasiado rápido que os protestantes fazem, como se o planeamento familiar fosse uma bem-aventurança que Jesus se esqueceu de mencionar no sermão da montanha. A minha posição não é a da Igreja Católica, não tenho a posição de um documento que admiro muito, que é o “Humanae Vitae”, mas tenho sido muito positivamente influenciado pelo exemplo garboso e exuberante de católicos em relação à procriação, que acho que é um valor bíblico.

Esta é de facto uma das questões centrais. A procriação choca porque estás a fazer uma afirmação de que o mundo é bom e de que a ideia de Deus criar o ser humano continua a ser boa, milhares de anos depois da narração da criação bíblica. Isso é uma coisa que ofende as pessoas. Poderes dizer que criar o mundo não é bom é das maiores acusações que o ateísmo continua a fazer, apesar de se contradizer, porque não tem a coragem de levar essa elaboração até ao fim e assumir que odeia a humanidade. Mas dizer que é bom ter filhos, que é possível ter filhos, nos dias de hoje, mesmo com todas as narrativas que existem de que ter filhos é uma maneira de esgotar planeta, é de facto a real contra cultura.

Manuel Fúria
Manuel, no teu caso que estás agora a planear constituir família, não se dá o caso de teres muitos amigos que simplesmente não se casam… as pessoas ficam admiradas quando dizes que vais casar e fazer as coisas “à antiga”?
Manuel: Ficam. Enerva-me. É complicado quando sentes que estás em sintonia com a verdade e ao estar em sintonia com ela estás contra tudo o que te rodeia.

Por um lado também é bom, uso isso muito a meu favor e é uma provocação se calhar ainda mais forte que a do Tiago, por ser católico. Mas sinto isso, sim, porque é um acto, uma declaração e uma vontade pública de fidelidade, de consistência, de criar mundo no mundo, que é uma coisa que se está a perder de facto e que é olhada com olhos tortos. Vivemos tempos difíceis.

Não sei, mas fico sempre um bocado triste e enervado, mas depois faço umas canções e passa-me.

O Pontifício Conselho da Família reuniu em Roma para discutir as Culturas Juvenis Emergentes. Eles querem perceber melhor como levar a mensagem da Igreja aos jovens. Se vos pedissem a opinião, o que diriam?

Manuel: Em primeiro lugar diria que temos de confiar no espírito antes de tomar acções que podem ser precipitadas. Não sei o que diria, acho que nunca pensei no assunto. Acho que a Igreja tem de ter cuidado na maneira como faz as coisas, porque neste clima anti-Igreja qualquer passo que se dá é sempre muito observado e muito analisado. Se há uma coisa muito bem feita, mas tem uma falha, só fazem parangonas com a falha e não com o que está bem feito. Portanto, prudência e deixem-se levar pelo espírito mais do que outra coisa qualquer.

Tiago: Faz de conta que eles decidiam que queriam ouvir um baptista… Aquela ilustração de que falavas, de facto coloca muito a tónica e é uma coisa que acontece mais no meio evangélico. No meio evangélico, como é um meio onde as formas não têm a mesma importância, não estão tão bem definidas, todos esses cruzamentos de fronteira entre profano e religioso acontecem de maneira mais fácil. Por isso é que o rock cristão acabou por ser em grande parte um contributo dos evangélicos e protestantes. Às vezes não há nada pior do que tentar actualizar a fé. Há uma frase “Quem quer ser deste tempo já está ultrapassado”. Essa relação é de facto complicada. Quando as coisas “cool” chegam à igreja elas deixam de ser “cool”. Essa é uma tentação que para os católicos aparece menos facilmente. Com os evangélicos às vezes vais a um culto e aquilo é tão despido de forma e de ritual que não consegues distinguir se estás numa igreja ou num café. E isso pode enfraquecer o testemunho de um cristão. O que eu diria é, aprendam com as coisas boas dos evangélicos, mas tenham cuidado, aprendam a distinguir planos.

Não consideram que há o perigo de se estar a diminuir a dimensão mais bela e mística da religião, mas depois os jovens não querem isso também.
Tiago: Há um perigo de infantilizar.

Manuel: Era o que eu dizia quando falava do Espírito.

Tiago: Deixa-me dar um exemplo. Os meus filhos são novos ainda. A minha filha mais velha tem oito anos e em breve vai ser adolescente. Eu sei bem a bênção que foi na minha vida estar numa Igreja onde eu era adolescente e as pessoas tinham paciência para as minhas manias de adolescente de uma maneira que essas manias tinham expressão na própria Igreja.

Eu sei que quando os meus filhos forem adolescentes o que o pai deles faz não é “cool” para eles, quase de certeza. O que vai ser “cool” para eles vão ser coias que eu provavelmente desprezo. Agora, como é que eu vou viver a Igreja com os meus filhos de uma maneira que eles sintam que ela não é um sítio que despreza todas as coisas que os entusiasmam?

Isto não é fácil, ser pai não é fácil e viver estas coisas na adolescência não é fácil. É aí que alguma atenção ao que os jovens querem é importante. Se eu não tivesse tido essa relação tão boa na minha adolescência de dizer que a Igreja é onde me sinto bem e posso fazer as coisas que me apetecem, se calhar não estava aqui. Ao mesmo tempo, em determinadas alturas temos de dizer que esta cultura de adolescência e juventude está a infantilizar toda a gente. Isso vê-se na televisão, a maneira como as pessoas não aceitam que têm 40 e 50 anos e mexem o seu corpo de uma maneira que é uma fuga da idade real que é uma coisa realmente perturbante na nossa sociedade. Mas é uma coisa que não é fácil.

Manuel: Parece-me que estavas com falta de confiança quando falavas da adolescência dos teus filhos, e alguma falta de fé. O meu exemplo e o meu percurso é esse, de uma fé infantil e de uma educação católica e de uma adolescência em que isso é tudo chutado para canto e que só aos 18 anos teve uma conversão adulta séria. Tem de se confiar no Espírito e temos de dar espaço a que Ele aja.
  
Tiago, no teu último álbum tens uma música chamada “Xungaria no Céu”. Para quem não ouve a letra é um título provocatório… do que é que se trata?
Tiago: Continuo a querer não ser deliberadamente provocatório, mas esse tema é o mais abertamente teológico, porque fala do que acho ser o resultado da justificação. Deus torna-nos bons por causa da bondade de Cristo e não por causa da nossa bondade, é isso que acredito.

E é por isso que, surpreendentemente, é possível “xungaria”, pessoas de má qualidade, como eu sou, poderem entrar no Reino do Senhor Jesus. A canção é sobre isso, sobre essa surpresa de às vezes nos sentirmos moralmente superiores aos outros. “Quem deixou entrar xungaria no céu?” E depois perceber que ao deixar entrar, eu entrei também.



Manuel, no teu caso tens uma música no teu mais recente CD sobre Lírios do Campo, do que é que trata?
Manuel: Vem do sermão da montanha e parte dessa referência aos lírios como sinal de indestrutibilidade. Não podem ser despidos, por serem tão fiéis a si próprios, tão simples e tão puros. A canção tem a ver com isso, com a vontade de ser assim e de procurar o lugar onde é possível essa plenitude. É uma espécie de angústia cantada na vontade de ser filho de Deus e de estar à altura das vontades do Pai.

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