Pela mesma lógica não costumo comentar os candidatos ao
cargo, mas escrevo este texto porque André Ventura tem-se tornado um fenómeno
maior do que aquele que representa nestas eleições em particular e porque estou
verdadeiramente preocupado em ver muita gente com quem em princípio me
identifico – católicos ou cristãos, tendencialmente conservadores, preocupados
com questões sociais como o aborto e a eutanásia, etc., – a deixarem-se levar
por um fascínio que não só não compreendo como acho perigoso.
Uma última nota, antes de continuar. Há quem diga que os
críticos do Chega da direita só temem a perda de influência dos seus partidos.
Sobre isso sou insuspeito. Não tenho partido, nunca tive, muito menos exerci
qualquer cargo ou tenho em perspetiva fazê-lo.
1 – A fraude
O André Ventura até pode ser mais ou menos simpático, não
está em causa o gosto pessoal. O problema é que eu não confio em André Ventura.
E não confio em André Ventura porque acho que ele é uma fraude.
É inteligente, sem dúvida; é articulado, sem dúvida; tem
boa presença, sem dúvida e é cativante, evidentemente. Mas tudo isso só torna
mais perigoso o fenómeno, porque a verdade é que eu não acredito por um segundo
que ele concorde com uma fração das coisas que diz para cativar o eleitorado do
Chega.
E isso – um político que prega aquilo em que não
acredita, acicatando rivalidades e divisões para se promover e conquistar
eleitores – é muito grave. Mas o populismo é isso mesmo.
Eu não acredito que Ventura seja contra o casamento
homossexual, que seja contra a eutanásia e que seja contra a legalização do
aborto. Há registos de ele ter defendido quase todas estas coisas, e mais, como
a legalização da prostituição e alguns desses registos são até bem recentes. Um
homem não pode mudar? Pode. O problema é que não vejo qualquer sinal de que
essa mudança seja sincera e não um simples aproveitamento político.
Da mesma forma não acredito por um segundo que Ventura
seja o devoto católico por que se faz passar, deixando-se fotografar ajoelhado
em oração, afirmando sem vergonha na cara que a sua missão está intimamente
ligada à mensagem de Fátima e depois criticando o Papa.
André Ventura é um actor. No teatro e no cinema isso não
é vergonha nenhuma, mas na política faz dele uma fraude.
2 – As políticas
Há políticas que o Chega defende que são discutíveis, mas
há outras que são pura e simplesmente inaceitáveis. A castração química
é uma solução aparentemente fácil para um problema terrível, mas é uma solução
que não tem provas dadas, tem efeitos secundários gravíssimos para a saúde e
por isso jamais pode ser imposto a quem quer que seja.
A prisão perpétua atira pela janela toda a base de
um sistema penal que tem por objetivo reformar o cidadão e não o castigar ad
aeternum e toda a insistência na segurança faz passar uma imagem
completamente falsa de Portugal ser um país inseguro, que não é. Da mesma
forma, nunca, repito nunca, terá o meu apoio quem publicamente apelida pessoas
– sejam quais forem os seus crimes – de monstros, como o Chega faz quando fala
da questão da criminalidade.
Um dos problemas mais graves é mesmo a insistência na
tecla dos ciganos. E o mais irónico é que eu acho que André Ventura foi
mal compreendido quando, ainda candidato pelo PSD a Loures se tornou polémica a
frase dele sobre os ciganos. Na altura ele disse que há um problema com os
ciganos e foi crucificado por isso, mas é inegável que existe em Portugal –
mais nuns sítios do que noutros – um problema com a integração dos ciganos. A
forma como ele foi crucificado por um lado, mas elogiado por muitos, por outro,
terá tido um papel no percurso que veio a seguir?
Agora, o discurso actual de Ventura sobre os ciganos é
inacreditável. Propor leis específicas para membros de uma etnia? Está tudo
maluco? E se reconhecemos que existe um problema com a integração dos ciganos,
digam-me, por favor, como é que resolvemos isso cavando um fosso ainda maior
entre ciganos e não ciganos? Hostilizando-os? Este género de discurso tem o
condão precisamente de piorar as situações que pretende denunciar.
Por fim, o discurso desumanizante sobre os imigrantes
é demoníaco. Sim, é esse o termo. Trata-se de criar um fantasma à volta de
um problema que em Portugal simplesmente não existe e que acicata ódios e
alimenta discursos xenófobos. Um cristão pode, naturalmente, defender a
existência de regras e de limites à imigração, mas não pode, nunca, adoptar o
tipo de discurso que o Chega adopta, sobre este assunto, muito menos o pode
fazer invocando alguma espécie de messianismo fatimista. Mete nojo.
3 – Os apoiantes
Deixem-me clarificar já, para não ser mal-entendido. Se
eu achasse que todos os apoiantes do Chega são idiotas, não estaria a escrever
este texto. O que me preocupa é precisamente ver bons amigos, pessoas próximas,
pessoas com as quais me identifico, a deixarem-se levar por este engodo.
A minha preocupação principal neste ponto é aquela franja
de apoiantes do Chega que são inegavelmente de uma extrema-direita feia, porca
e má e que estão a ganhar relevância e a sentir-se em casa no Chega.
Quando eu participo nas cerimónias do 10 de junho, em
Lisboa, frente ao monumento de homenagem aos mortos nas guerras, sei que estão
sempre lá os skinheads da praxe. Estão num grupinho, sozinhos, fazem a sua
própria festa, mas não é possível olhar à volta e confundir o espírito do
evento com a sua presença marginal. Portanto se eu visse que havia uma extrema-direita
que votava Chega por achar que era o melhor que se arranjava, eu até
compreendia. Mas não é isso que eu vejo. Eu vejo uma extrema-direita que se
sente em casa no Chega e que o partido não se limita a aturar, mas que procura
mesmo seduzir, com o discurso, com os gestos, com a simbologia. E isso… Bom,
isso Chega para mim.
A imagem do apoiante de Ventura a fazer uma saudação
romana durante o comício dele não é um infeliz acidente e a forma como outro se
aproxima dele e o convence a baixar o braço não tem nada de condenação, mas de
cautela e preocupação com a imagem. E este é apenas um caso de pessoas com
claras conotações fascistas (uso o termo de forma pensada, e não como a
esquerda que considera fascista tudo o que não esteja à esquerda do PSD) que
estão felizes e entusiasmados no partido e não se vê nada da parte da estrutura
para os demover ou para contrariar esse entusiasmo.
E por isso pergunto às pessoas de bem – os tais de quem o Ventura diz que quer ser Presidente – é neste barco que querem andar? São estes os vossos companheiros de viagem? Bem sei que a existência de fascistas e neo-nazis no partido não faz de vocês fascistas e neo-nazis mas devia, pelo menos, deixar-vos desconfortáveis. Deixa? É que eu não conseguiria estar ali de consciência tranquila.
