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Friday, 12 January 2024

Thattil para resolver embróglio malabar e explosão de padres detidos

Bispo Rolando Alvarez, um de 
muitos detidos na Nicarágua

Há duas semanas falei da divisão na Igreja Siro-Malabar, a segunda maior igreja católica oriental, e de como isso era mais uma dificuldade para o Papa Francisco nesta fase difícil do seu pontificado. Ora, o sínodo dessa igreja acaba de eleger um novo líder, que terá a difícil tarefa de tentar sarar divisões. Toda a informação acerca deste assunto, aqui.

Um dos meus trabalhos na fundação Ajuda à Igreja que Sofre é manter uma lista de todos os padres e religiosos que são assassinados, detidos ou raptados ao longo do ano. No início do ano seguinte escrevo um artigo a dar conta dos números. Ora, este ano a grande notícia é uma autêntica explosão em detenções de sacerdotes/religiosos – sendo que só contabilizamos as detenções por motivos de perseguição, e não por delitos comuns. A única boa notícia é uma queda no número de assassinatos e de raptos, embora esta ainda seja uma realidade importante.

A polémica da semana é o facto de alguém ter desenterrado um livro do actual prefeito para o Dicastério da Doutrina da Fé, escrito há décadas, que versa temas de sexualidade, chegando a empregar termos bastante crus. Vou ser sincero: não li o livro, nem está na minha lista de prioridades, mas li, isso sim, uma análise da situação do reputado jornalista John Allen Jr., da Crux, e recomendo que o leiam também, pois tendo a concordar com as suas conclusões.

As escolas católicas pediram ao Presidente da República que vete a lei da audoterminação de género nas escolas. Veremos como é que isso corre.

De Bragança chega uma notícia interessante. A diocese está a receber uma visita de frades franciscanos itinerantes, e por isso o bispo D. Nuno Almeida aproveitou o balanço e vai acompanhá-los, fazendo assim visitas pastorais às localidades. Excelente ideia!

Henrique Leitão, historiador da ciência e comentador, foi nomeado para o Comité Pontifício de Ciências Históricas. É mais um português em lugar de destaque no Vaticano. Parabéns!

E caso tenham estado atentos às notícias, parece que o Ecuador está a mergulhar no caos. Os bispos locais esperam que a violência não tenha a última palavra.

O artigo desta semana do The Catholic Thing é sobre educação, com Randall Smith a tecer algumas observações sobre a mania de se tratar os alunos universitários como a “nata da sociedade”, quando na verdade estão (ainda) muito longe disso. Leiam, que é um artigo divertido e cheio de pontos válidos.

Deixo-vos com dois desafios. Um curso da Escola de Leigos, sobre o Concílio de Niceia e ministrado pelo meu tio Pe. Peter Stilwell, e uma conferência sobre Bento XVI organizada pela fundação Maria Ulrich, e que será dado pela Aura Miguel.

Friday, 28 July 2023

Contagem decrescente e adeus à Madre Marie Bernardette

Já se começam a ver por aí, mas dentro de poucos dias Lisboa será inundada de centenas de milhares de jovens repletos de uma alegria contagiante. Este será, sem comparação possível, o maior evento alguma vez organizado em Portugal. Se vivem em Lisboa, ou tencionam estar por cá durante a JMJ, sugiro que párem uns instantes para pensar no enorme privilégio que é podermos acolher cá esta malta toda.

Já agora, se conhecem pessoas que vêm a Portugal como peregrinos, ou noutra qualidade, não deixem de partilhar com elas o guião que escrevi com dez dicas fundamentais!

Infelizmente nem todos os que querem vão conseguir estar presentes, uma vez que Portugal está a recusar vistos a muitos, sobretudo de países em desenvolvimento, levando-os a perguntar se a JMJ é só para ricos.

Da minha parte, estarei a trabalhar durante a semana da JMJ como comentador, por isso se me virem várias vezes na SIC Notícias, não estranhem nem mudem de canal. Na véspera, dia 31, também vou estar no Contracorrente, da Rádio Observador.

O resto do mundo está já de olhos postos em nós. Esta semana dois dos principais jornais católicos americanos publicaram reportagens sobre Portugal. Tive o privilégio de ser entrevistado para ambos esses artigos. Podem ler aqui o do National Catholic Reporter e aqui o do National Catholic Register.

A delegação portuguesa da fundação Ajuda à Igreja que Sofre vai estar muito activa na JMJ, alertando para a realidade da perseguição aos cristãos em todo o mundo.

Um bom exemplo passa-se o Iraque, onde o Patriarca da Igreja Católica Caldeia, a maior do país, está em guerra aberta com a presidência da República, e anunciou que iria retirar-se de Bagdade, mudando-se para o Curdistão Iraquiano.

Já na Ucrânia há a lamentar a destruição de uma grande catedral ortodoxa em Odessa.

Mudando totalmente de assunto, certamente ouviram que na quarta-feira morreu a cantora Sinéad O’Connor. A irlandesa gostava de usar a sua bela voz para mais do que apenas cantar, não hesitando em partilhar as suas opiniões sobre os mais diversos assuntos, incluindo a religião. Aqui podem ler um apanhado que fiz sobre a sua muito conturbada caminhada religiosa, que incluiu rasgar uma fotografia do Papa João Paulo II, a posterior ordenação na “Igreja Latina Tridentina” e por fim a conversão ao Islão. Tem tanto de fascinante como de trágico, sendo por isso um bom reflexo do resto da sua vida.

O artigo do The Catholic Thing desta semana é do Pe Paul Scalia, que faz uma análise interessantíssima do Evangelho da semana passada, sobre o trigo e o joio. Não deixem de ler.

Obviamente, estarei muito ocupado na próxima semana, por isso não consigo garantir que tenha tempo para enviar o Actualidade Religiosa, mas vou tentar.

Wednesday, 25 January 2023

Como transformar 4 em 145 - Uma história de fake news

Fala-se muito em “fake news” hoje em dia, e na maior parte das vezes imaginamos notícias propositadamente deturpadas, enganosas ou simplesmente inventadas, para alcançar algum fim malévolo.

Mas na minha experiência a maior parte das “fake news” que existem devem-se a erros básicos, ignorância e falta de rigor jornalístico por parte de quem as escreve.

Hoje tive um exemplo perfeito disso mesmo.

Esta notícia publicada pela Aciprensa Africa, um respeitável órgão católico, explica que em 2022 foram assassinados 39 padres na Nigéria.

Todos sabemos que a Nigéria está a atravessar um período muito difícil em termos de conflitos inter-religiosos e perseguição dos cristãos, mas um dos meus trabalhos para a fundação Ajuda à Igreja que Sofre ao longo de 2022 foi precisamente de ir mantendo uma tabela com todos os casos de membros do clero ou freiras assassinados, raptados ou detidos em contexto de perseguição, ao longo do ano. E para a Nigéria o número total de assassinados que pudemos confirmar foi 4. Ou seja, menos 35 do que a notícia da Aciprensa. Aliás, 35 é bastante mais do que todos os padres católicos assassinados em 2022 no mundo inteiro! Estranho, no mínimo, mesmo que admitamos que tenha havido mais do que 4, e que tenha havido casos que nos passaram despercebidos.

A notícia da Aciprensa indica como fonte um relatório de um respeitado organismo nigeriano, o SB Morgen Intel. Clicando no link, contudo, percebemos que não existe um relatório, mas um infográfico, intitulado “gráfico da semana”, que pretende mostrar a perseguição sofrida por padres católicos na Nigéria em 2022.


Claramente o problema está aqui. O gráfico, como podem ver, fala em 39 “incidentes”, dos quais resultaram 145 vítimas. Repare-se que “casualties” não significa necessariamente mortes, mas vítimas, que podem ser mortos ou feridos.

Contudo, no canto superior direito existe de facto uma tabela mais pequena que diz indicar o número de “mortes por zona geopolítica” e a soma dessas “mortes” dá de facto 39.

Estou a aguardar uma explicação da SBM Intel, mas sinceramente acho que a explicação mais fácil para isto é de que alguém na organização reciclou um gráfico e se esqueceu de trocar a palavra “mortes” por “incidentes”. Um erro básico e até compreensível.

O problema é que, como se não bastasse alguns estarem a fazer eco dos supostos 39 mortos, já apareceram outros órgãos a expandir ainda mais o número. Assim, o Sahara Reporters conseguiu chegar a 145 padres mortos na Nigéria no espaço de um ano. É só 36 vezes o número real!

E obviamente esse número já foi replicado por incontáveis outros órgãos de informação, blogs, e posts nas redes sociais, por pessoas que não estranharam nem foram capazes de ir verificar.

Isto é fake news, como a conferência episcopal nigeriana já veio confirmar. E é assim que um erro, multiplicado várias vezes, acaba por desvalorizar um número que já por si nos devia chocar, que é a morte de quatro padres, em contexto violento, no espaço de apenas um ano, por tentarem ser fiéis à sua vocação.

Wednesday, 28 December 2022

Rezemos por Bento XVI

O Papa Francisco pede-nos que rezemos pelo Papa Bento XVI, que está gravemente doente. O que significa um pedido destes para um homem frágil, de 95 anos? Rezamos pela sua cura, porque nos faz impressão que morra, ou rezamos para que morra em paz? Rezemos para que se faça a vontade de Deus e não a nossa, neste caso e sempre. É um bom princípio.

Em todo o caso, este pedido pode ser lido como um simpático aviso por parte do Vaticano de que Bento XVI está muito próximo da morte. Já haverá certamente jornalistas a marcar viagens para Roma. Da minha parte, antecipo o envio deste mail por um dia, mas prometo que, se o Papa emérito de facto morrer nos próximos dias, estarei em cima do acontecimento para vos trazer as principais notícias e os melhores textos de obituário. Para já, fiquem com este texto que eu escrevi em Fevereiro de 2013, quando ele resignou.

Olhando para a realidade internacional, mais de uma centena de clérigos e freiras foram raptados, mortos ou detidos em contexto de perseguição ao longo de 2022. São números terríveis. Podem conhecê-los melhor aqui, num texto em inglês da minha autoria, ou numa versão portuguesa.

Estão abertas as inscrições para famílias que queiram acolher jovens nas JMJ. Toda a ajuda é pouca! Não fiquem de fora.

O artigo desta semana do The Catholic Thing fala dos dons do Espírito Santo e como se desenvolvem em nós de forma gradual, quase despercebida e discreta. Assim como um bebé divino que nasce no meio do mundo, para a sua salvação.

Se vos interessam questões de justiça económica e financeira, recomendo espreitarem este evento que se vai realizar em Janeiro. Uma abordagem diferente à noção de concertação social!

Actualizei também as mais recentes declarações dos líderes religiosos sobre a Ucrânia, com interessantes textos da Igreja Ortodoxa da Ucrânia, a que está, ou estava, ligada a Moscovo, a pedir liberdade religiosa e o fim do que dizem ser um clima de perseguição movida pelas autoridades. É um tema complexo, podem ler aqui a minha análise, e os textos completos aqui.

E para quem não leu, mas tem interesse, está aqui também a minha análise da polémica envolvendo o Pe Rupnik, que tem deixado muita gente perplexa e chocada.

Monday, 26 December 2022

O caso do Padre Rupnik e a purificação do templo

O mais recente escândalo que está a abalar o mundo católico é a da acusação de assédio sexual de religiosas por parte do famoso jesuíta e artista Marko Rupnik. Podem ler tudo o que se sabe sobre este caso aqui, mas leiam também a minha reflexão em que explico que embora haja semelhanças importantes entre o abuso de menores e as relações entre adultos, há também algumas diferenças fundamentais. Se isto justifica a forma como o Vaticano lidou com este caso? Não chego tão longe. A Igreja tem avançado muito na forma de lidar com situações de abuso de menores e talvez seja altura de aplicar algumas dessas lições a outras áreas, como esta. Leiam e comentem, ou no blog ou respondendo para mim, caso tenham alguma coisa a acrescentar. Todos somos poucos para contribuir para estas reflexões.

Várias instituições católicas escreveram ao presidente Marcelo Rebelo de Sousa a pedir que ele vete a lei da eutanásia.

O ex-reitor do Santuário de Fátima critica a actual gestão daquele espaço, pedindo uma “purificação do templo”.

Nos últimos dois dias foram raptados mais dois padres na Nigéria. Uma praga sem fim naquele país.

As discussões sobre masculinidade estão na moda. Por um lado, os que insistem que qualquer característica masculina é “tóxica” e do outro os que consideram que um verdadeiro homem deve ser musculado, usar barba, fumar cachimbo e tratar a mulher com condescendência. Onde está o bom-senso? Felizmente ainda existe e o artigo desta semana do The Catholic Thing em português é um bom exemplo disso, com Stephen White a argumentar que se queremos homens que vivem a sua masculinidade de forma saudável não temos de fazer mais do que educá-los para a virtude. Leiam que vale mesmo a pena, e partilhem, sobretudo com homens e jovens pais.

O Mundial acabou, com o troféu a ir para o país do Papa e do jogador com uma tatuagem gigante de Jesus no braço. Fui acompanhando e sublinhando as dimensões religiosas do torneio no Twitter, podem ver aqui, ou aqui, caso não tenham conta no Twitter.

Esta semana, por estarmos em vésperas do Natal, não há Hospital de Campanha, mas se ainda não o fizeram ouçam o mais recente episódio, sobre como amar os mais frágeis da nossa sociedade.

Thursday, 30 June 2022

Uma mão cheia de mártires e a "maneira católica"

Anjo das crianças de rua
Esta foi uma semana triste para os padres católicos no mundo. Dois foram assassinados na Nigéria no mesmo fim-de-semana, e outros dois no México, situação lamentada publicamente pelo Papa. Estamos a falar de dois dos países onde é mais perigoso ser-se sacerdote.

Também no fim-de-semana uma freira italiana foi assassinada no Haiti. Era conhecida como o “anjo das crianças de rua”. Outra freira que foi raptada no Burkina Faso há mais de 70 dias continua desaparecida.

Entretanto o mundo continua a reagir, de diferentes formas e feitios, à notícia da revogação do Roe v. Wade, nos EUA. Algumas pessoas estão a reagir com fúria, prometendo vingança contra todos os que contribuíram para este resultado, incluindo Igrejas católicas e centros de apoio a grávidas em risco. Como se responde a este tipo de ameaça? Randall Smith explica que gostaria de responder “à maneira de Chicago”, prometendo retaliação em dobro por cada acto cometido. Mas claro que não pode ser assim. Há outra maneira, a “maneira católica”, e é muito diferente. Leiam que vale a pena.

Já a semana passada tinha enviado uma série de links para artigos que ajudam a compreender o alcance desta decisão. Um dos links, contudo, estava errado. Por tal peço desculpa. O meu artigo, escrito ainda antes da decisão formal, que explica o que muda, o que não muda e como tudo isto nos pode afectar a nós, na Europa, está aqui.

Se ainda não ouviram, não deixem de escutar o episódio da semana passada do podcast Hospital de Campanha, em que falámos sobre as nomeações de novos cardeais, os 20 anos de independência de Timor Leste e os desenvolvimentos eclesiais na Ucrânia. Para a semana há novo episódio!

Friday, 3 June 2022

Novo Patriarca para a Antiga Igreja do Oriente

A Antiga Igreja do Oriente tinha de escolher o seu novo Patriarca entre seis candidatos.

Calculo que tenham seguido o critério mais lógico para a escolha, optando pela barba mais fixe e mais comprida.

Longa Vida a Mar Yaqoob III Daniel! Que conduza a sua Igreja com sabedoria e ajude a pôr fim ao cisma com a Igreja Assíria do Oriente, contribuindo assim mais um pouco para a unidade total dos cristãos que todos desejamos. 

A Antiga Igreja do Oriente separou-se da Igreja Assíria do Oriente em 1964, numa disputa sobre a forma de escolher o Patriarca. Até então, na IAO a escolha era sempre hereditária, passando do Patriarca para um sobrinho. Infelizmente, a separação reflectiu também divisões internas tribais/familiares. Antes desta eleição falou-se novamente numa tentativa de aproximação e reunificação. Esperemos que isso agora ande para a frente. 

Os seis bispos do sínodo. Mar Yaqoob à
direita, ao centro, com a barba mais fixe.
Estas igrejas servem fiéis sobretudo da região do Iraque, Turquia e Síria e, hoje em dia, uma grande diáspora no Ocidente, nomeadamente na Austrália, Nova Zelândia e Estados Unidos. São igrejas canónicas, isto é, têm ordens e sacramentos válidos, mas por razões históricas não pertenciam a nenhuma comunhão de Igrejas, nem as ortodoxas bizantinas, nem as ortodoxas pré-calcedónias, nem a Católica. Esse facto deixou-as num isolamento fragilizador, que levou a terríveis perseguições e massacres, mais do que as restantes igrejas cristãs na região. São João Paulo II referiu-se à Igreja do Oriente como "Igreja dos Mártires" e isso aplica-se a qualquer destes ramos que entretanto, infelizmente, se separaram entre si. 

Mar Yaqoob III Daniel, (Yaqoob vem de Jacob, que em Português pode ser Tiago) torna-se assim o 110º Patriarca  desta Igreja (uma vez que eles contam com os patriarcas anteriores ao cisma). Era até agora o bispo para as comunidades na Austrália e Nova Zelândia.

Para mais informações sobre a importância religiosa da barba e do cabelo, vejam este artigo que escrevi há mais de 10 anos. 


Tuesday, 24 May 2022

Hospital de Campanha Ep. 6 - Zen, e a arte de ser católico na China

Este sexto episódio do Hospital de Campanha vem a lume no Dia Mundial de Oração pela China, e no dia em que o Cardeal Zen, com os seus 90 anos, foi apresentado em tribunal, depois de ter sido detido, há vários dias, em Hong Kong. 

Para tentar compreender melhor a vida dos católicos na China, e como o Estado os encara, falámos com um padre que esteve vários anos naquele país em missão clandestina. Por isso, e para não comprometer os seus contactos por lá, ele pede para não ser identificado. 

Ouçam e partilhem esta conversa interessantíssima que só pecou por curta, e onde falámos ainda do acordo entre Roma e Pequim para a nomeação de bispos.



Thursday, 16 December 2021

João Paulo Beato e turistas discriminados

 

O Papa João Paulo I vai ser beatificado até ao final do ano de 2022.

As diferentes igrejas cristãs da Terra Santa acusam o Estado de Israel de discriminar os turistas cristãos, ao limitar as viagens durante a época do Natal.

O Papa Francisco aprovou a criação de uma nova fundação para promover o diálogo cultural e religioso.

A Conferência Episcopal Portuguesa não vai alterar as medidas contra a Covid-19 recomendadas durante o Natal.

As Igrejas da Europa renovaram ontem o seu apelo à vacinação e alertaram para o perigo da contrainformação.

Numa altura em que está na moda “desconstruir binários”, incluindo coisas básicas como “homem/mulher”, Randall Smith, do The Catholic Thing, sugere que os católicos passem a responder na mesma moeda

Monday, 27 September 2021

Finalmente aconteceu em Portugal: Jovem recusa transfusão de sangue

O pastor evangélico assassinado na Nigéria
O Papa Francisco publicou esta segunda-feira a sua mensagem para a JMJ deste ano. Vale a pena conhecer melhor.

Algum dia havia de acontecer! Um jovem de 16 anos no IPO recusa transfusões de sangue por ser Testemunha de Jeová. Pode fazê-lo? Os tribunais dizem que “nim”.

O cardeal arcebispo de Colónia pediu ao Papa uma “licença” de seis meses, depois de ter sido acusado de ter lidado de forma errada com casos de abusos na sua diocese.

E da Nigéria mais um triste caso de um líder cristão assassinado pela sua fé.

Não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing, sobre algumas das verdades mais básicas – e frequentemente esquecidas – da educação das nossas crianças e jovens.

Friday, 6 August 2021

Fé de Atleta

Neste último post antes de eu vos dar um merecido descanso para as férias, chamada de atenção para iniciativas da Igreja no Quénia e na Indonésia, a sensibilizar a população para a importância das vacinas.

Há dias publiquei uma curta notícia sobre a falta de assistência religiosa presencial nos Jogos Olímpicos. Ontem, no seguimento, publiquei uma reportagem sobre como essa realidade, bem como a falta de adeptos nas bancadas, pode afetar o desempenho dos atletas. Falei, para o efeito, com um psicólogo do desporto e com um padre que é dirigente de um clube de futebol. Vale bem a pena ler.

Hoje é 6 de Agosto, dia de oração pelos cristãos perseguidos. Não nos esqueçamos destes que sofrem na pele por amor a Cristo.

Pode mainda ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, que fala de uma polémica que abalou o mundo dos media católicos nos Estados Unidos, no final de julho. Um novo órgão de comunicação digital publicou uma reportagem baseada na análise de dados de utilizadores de uma aplicação para encontros homossexuais. Conseguiram determinar que um padre, que era secretário-geral da Conferência Episcopal, era um utilizador assíduo dessa aplicação. O trabalho deixou muitas perguntas e inquietações. Quem pagou os dados? Não sabemos. Tratou-se de um ataque dirigido? Não sabemos. Será este o futuro do jornalismo também no meio católico? No artigo desta semana Stephen P. White aborda esta polémica através de algumas perspetivas que, sendo interessantes, são apenas parte de um problema bastante complexo. Não deixa de ser um bom ponto de partida.

Thursday, 1 April 2021

Votos de Santa Páscoa!

Nos últimos dias não tenho conseguido postar, por isso peço desculpa, mas não queria deixar de o fazer antes da Páscoa.

Por falar em Páscoa, este ano os católicos podem participar nas celebrações, mas há várias tradições que continuam confinadas. Pede-se criatividade para as ultrapassar.

As notícias que chegam de Cabo Delgado são cada vez mais preocupantes. Uma religiosa fala de um “filme de terror”.

Nesta Páscoa somos, como sempre, convidados a olhar de forma especial para os que são perseguidos pela sua fé.

Temos dois artigos do The Catholic Thing para vos propor, e que vêm mesmo a propósito para este tempo pascal. O da semana passada, de Stephen White, é dirigida especialmente aos católicos de tendência mais conservadora (como o autor) e contém um importante aviso e o desta semana, do padre Paul Scalia, pergunta se continuamos a escolher Barrabás em vez de Cristo, quando a questão nos é posta.

Monday, 8 March 2021

Papa no Iraque - Conclusão

O Papa voltou esta segunda-feira para Roma, pondo assim fim a uma viagem fantástica ao Iraque.

O ponto alto da sua viagem foi no domingo. Em Mossul Francisco sublinhou que a fraternidade é mais forte que o fratricídio. Em Qaraqosh falou da necessidade de reconstruir, não apenas casas e igrejas, mas relações, com base no perdão. E por fim, em Erbil, elogiou a Igreja “viva” do Iraque, que vive sem ressentimentos e sem vinganças.

Em Erbil Francisco esteve com o pai de Alan Kurdi, o menino cuja morte no Mediterrâneo chocou o mundo e prometeu que o Iraque ficará para sempre no seu coração.

Podem ler aqui o meu resumo desse terceiro dia, em que Francisco mostrou como a Cruz triunfou no preciso espaço onde há seis anos jihadistas prometiam que chegariam a Roma.

A Renascença falou ainda com Catarina Bettencourt Martins, da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, que fala da necessidade de se apoiar as novas gerações no Iraque.

Finalmente, a caminho de Roma, Francisco falou da importância do diálogo com o Islão, e como sabe que assume riscos ao fazer este caminho.

Friday, 5 March 2021

Papa no Iraque: Dia 1

O Papa chegou hoje ao Iraque, uma viagem que ficará para a história. Francisco foi avisado por todos para não ir, mas fez questão, e hoje percebeu-se porquê.

Hoje houve dois momentos marcantes, o discurso aos políticos, em que Francisco pediu direitos para os cristãos, e o discurso perante os católicos, em que o Papa pediu que o sofrimento e o martírio não sejam sementes de ressentimento e vingança, mas de perdão e reconciliação.

Houve um momento bonito em que Francisco recebeu uma estola, muito simbólica, feita por cristãos que voltaram agora às suas casas depois de terem tido de fugir do Estado Islâmico.

Os cristãos, esses, são cada vez menos, mas os que permanecem querem que o Papa ponha a máquina diplomática a funcionar.

Leiam ainda a entrevista com o ex-embaixador do Iraque em Portugal – não o da polémica dos filhos que espancaram um rapaz em Ponte de Sor, o antecessor – que diz que o futuro do Iraque não pode ficar refém do seu passado.

Amanhã há mais momentos importantes, incluindo um encontro com o líder supremo do islão xiita no Iraque.

Termino com o apelo para lerem o artigo desta semana do The Catholic Thing, com importantes reflexões sobre a Quaresma. É do nosso grande Randall Smith.

Friday, 26 February 2021

FNO, é agora ou nunca

Hoje é o último dia para se inscrever no Faith’s Night Out. Saiba aqui porque o deve fazer e inscreva-se diretamente no site.

Notícia de perseguição aos cristãos na Nigéria, onde uma igreja foi incendiada por bandidos armados.

A Cáritas está sem mãos a medir para lidar com a crise provocada pela pandemia. Infelizmente a ajuda pode não chegar a todos.

Parabéns ao cardeal D. José Tolentino Mendonça, que venceu o prémio Universidade de Coimbra!

E não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing sobre o “Caminho sinodal” da Alemanha, cujo formato e conteúdo preocupa seriamente o padre Gerald Murray, que assina esta coluna.

Wednesday, 16 December 2020

Memória e Gratidão

Francis X. Maier
Charles Péguy terá dito, alegadamente, que o problema dos cristãos é que não acreditam naquilo em que acreditam. É uma frase engraçada. Não faço a menor ideia se o disse de facto, mas não faz mal, porque seja como for, é verdade. Até sofrermos por aquilo em que acreditamos, ou o nosso coração for tocado pelo testemunho de quem sofre, a nossa fé continua por testar, nada mais é que uma aspiração, um conjunto de boas intenções. O que me traz ao meu melhor amigo, Joe.

Pai de oito filhos e ex-fuzileiro, o Joe tem uma personalidade clássica de líder: racional, organizado, motivado pelo desempenho. Passou as últimas décadas da sua carreira como diretor executivo de duas empresas multimilionárias, alicerçado nas capacidades que aprendeu nas Forças Armadas. Durante 13 meses, entre 1967-68, o Joe liderou uma companhia de infantaria de fuzileiros na zona de Dong Há, a sul da Zona Desmilitarizada (DMZ) e encostado à fronteira do Vietname do Norte. A atividade inimiga era intensa e por isso, juntamente com as patrulhas normais, o Joe tinha responsabilidades de ajudar e interagir com a população local. Acontece que muitos destes vietnamitas eram católicos, como ele. E foi assim que conheceu o padre Paul.

O padre Paul vinha, juntamente com muitos dos seus paroquianos, do Norte. Tinham fugido para Sul quando acabou o regime colonial francês e os comunistas tomaram o poder em Hanói. O padre Paul, um homem pequeno e discreto, tinha sido pároco coadjutor até há pouco tempo e foi promovido, como acontece em zonas e guerra, quando os viet cong assassinaram o pároco enquanto ele levava os sacramentos a famílias nas zonas rurais. Enquanto o padre Paul preparava a sua motorizada para dar continuidade a esse trabalho, o Joe sugeriu que, tendo em conta os eventos recentes, essa talvez não fosse a estratégia mais avisada. O padre encolheu os ombros. As pessoas precisam dos sacramentos, disse, e partiu para o mato. Sabe-se lá porquê, mas o padre Paul não foi emboscado nesse dia, nem em qualquer outro.

A paróquia ficava dentro da zona de alcance da artilharia norte-vietnamita na DMZ. E por isso, a meio da missa das 10h, num domingo de manhã, as armas visaram a paróquia e dispararam sobre a igreja, destruindo grande parte do edifício e matando, ou ferindo, dezenas de paroquianos. O Joe partiu do princípio de que isso marcava o fim da paróquia.

Mas um ou dois dias mais tarde o padre Paul apareceu no bunker do Joe. Enquanto oficial para as relações com civis, ele tinha acesso a materiais de construção e o padre Paul pediu-lhe ajuda para reconstruir a igreja. O Joe deu-lhe a ver que uma vez que o local da igreja já tinha sido atingido de forma certeira pela artilharia inimiga, as mesmas armas podiam facilmente atingi-la outra vez, sempre que o inimigo assim quisesse. Mais uma vez, o padre encolheu os ombros. As pessoas precisam da missa, comentou. Por isso, algumas semanas mais tarde, enquanto convidado de honra, o Joe ajoelhou-se devotamente na primeira fila para uma liturgia de ação de graças. A música e os cânticos eram belíssimos e altos – tão altos, admite agora o Joe, que teriam abafado o som de artilharia caso o inimigo optasse por disparar naquele instante.

O padre Paul e o Joe tornaram-se bons amigos e ajudavam-se na medida do possível. Mas as missões de combate acabam e por isso, depois de 13 meses, o Joe voltou para casa para a sua mulher, Gail. Começaram uma família e uma nova vida. De tempos a tempos, com o passar dos anos, o Joe pensou no padre e noutros amigos que tinha conhecido no Vietname. Alguns tinham sobrevivido, outros não. Alguns regressaram com cicatrizes permanentes, outros não regressaram de todo. O que o Joe soube dos padres como o Paul foi que a maioria tinha acabado em valas comuns, mortos nas represálias depois da queda de Saigão.

O bispo Paul Nguyen Thanh Hoan

Passaram-se os anos, a vida continuou, as memórias tornaram-se mais escassas. Até que um dia, quase quatro décadas depois de ter saído do Vietname, o Joe recebeu um email de um amigo que tinha servido com ele. Pesquisando na internet, com o seu fraco vietnamita, tinha encontrado um artigo sobre o enterro de um “padre Paul” na província de Binh Thuân, do que tinha em tempos sido o Vietname do Sul. Parecia o padre que o Joe tinha conhecido, mas não era. Era o funeral de outro sacerdote, celebrado pelo agora bispo Paul Nguyen Thanh Hoan, pastor da diocese de Phan Thiêt.

O padre Paul, o jovem e discreto sacerdote que amava o seu povo, que se recusava a ser intimidado, que não se preocupava com a sua própria vida e que conseguia extrair sangue de uma pedra, tinha conseguido sobreviver à guerra e ao pós-guerra e tinha retomado o seu ministério. Nos anos que se tinham passado entretanto fundou uma comunidade de religiosas, um orfanato, uma leprosaria e um santuário mariano popular – tudo apesar da constante opressão e interferência do regime. O Joe entrou de novo em contacto com o “padre Paul” e visitou-o no Vietname e até à morte do bispo, em 2014, ele e a Gail apoiaram-no com dinheiro e contactos para o ajudar com a sua obra.

E tudo isto é uma história bonita, mas não é por isso que a conto. O ponto é este: O padre Paul acreditava naquilo em que acreditava. Provou-o com a sua vivência. E ao vivê-lo, tocou o coração dos outros.

O meu amigo Joe tem setentas e muitos agora e é um homem de carácter, de profunda fé e agora também de uma emoção intensa e inesperada, que é difícil de descrever. A idade leva-nos a recordar. Alguns homens são assombrados pelas suas memórias. Outros são conduzidos por elas por um rio de gratidão que se torna maior e mais profundo todos os dias, na medida em que se recordam do amor, da coragem e da fé que receberam de outros. Essa gratidão é o último dom da vida, uma antevisão da eternidade. Numa altura não muito diferente da nossa Dietrich Bonhoeffer terá dito que a gratidão é a o começo da alegria. Também é uma frase bonita. Se o disse, de facto, não sei. Mas não interessa. Não deixa de ser verdade.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 9 de Dezembro de 2020)

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Friday, 30 October 2020

Desespero em Cabo Delgado, choque em Nice

Temos mais um trágico atentado em Nice a lamentar, desta vez vitimou três pessoas que se encontravam numa igreja. O Papa manifestou a sua solidariedade e a conferência episcopal portuguesa também condenou o atentado.

Lembrem-se que aa vontade de responder a isto com atitudes de exclusão, de culpabilização coletiva e recorrendo a um “Cristianismo armado” é exatamente o que os terroristas pretendem. Não que a resposta do bispo do Porto seja, a meu ver, muito melhor.

Quem também está a sofrer às mãos de terroristas é a população de Cabo Delgado, em Moçambique. O bispo local pede ajuda há muito tempo, agora está a atingir o desespero.

Estamos em fase de restrições à circulação. Medida adequada ou ilegal? Um ataque à liberdade religiosa? As opiniões divergem.

E por falar em ataques em igrejas e ataques à Igreja, leiam o artigo desta semana do The Catholic Thing em que Ines A. Murzaku explica porque estes tempos difíceis não nos devem levar ao desespero.

Wednesday, 28 October 2020

Fogo Sagrado: Renovação depois da Destruição

Ines A. Murzaku

Recebi recentemente uma mensagem de uma ex-aluna, que agora é professora num liceu católico e que escrevia, alarmada: “Dr. Murzaku – espero que esteja bem. Ouviu falar do vandalismo na Igreja de Santa Ágata, na Sicília? É terrível.” Ela tinha viajado comigo numa visita de estudo à Sicília e estava muito aflita com a notícia.

A Igreja de St. Ágata, em Caltanissetta, na Sicília, foi sujeita a um grande ataque – assalto e profanação, a Eucaristia lançada ao chão, relíquias destruídas, o vidro da Nossa Senhora da Dormição quebrado e um dos seus braços partidos e a destruição de objetos sagrados. O que a minha aluna não sabia era que este mais recente ato de vandalismo e profanação aconteceu apenas um mês depois de um ataque à mesma igreja.

Mas aqui mais perto de casa as coisas não são melhores. Há poucas semanas soube-se que o padre Travis Clark, pároco da paróquia de São Pedro e São Paulo, em Pearl River, no Louisiana, tinha cometido um ato de profanação e sacrilégio no altar da igreja, tendo relações com duas prostitutas. O ato foi filmado por alguém que viu e informou a polícia.

O arcebispo Gregory Aymond, de Nova Orleãs, não perdeu tempo e reagiu com força. O padre foi removido permanentemente do ministério e “nunca mais servirá na Igreja Católica”. Numa mensagem de vídeo publicado pela Arquidiocese, o arcebispo Aymond condenou o ato de profanação do altar, dizendo:

“A sua profanação do altar e da igreja foi demoníaca e estou enfurecido pelas suas ações. Quando soubemos dos detalhes removemos o altar e queimámo-lo. Irei consagrar um altar novo.”

As medidas do arcebispo são para proteger a sacralidade do altar porque, na Igreja Católica, um altar não é um ornamento, uma decoração ou uma peça de mobília. Pelo contrário, segundo Catecismo da Igreja Católica:

O altar da Nova Aliança é a cruz do Senhor, de onde dimanam os sacramentos do mistério pascal. Sobre o altar, que é o centro da igreja, é tornado presente o sacrifício da Cruz sob os sinais sacramentais. Ele é também a mesa do Senhor, para a qual o povo de Deus é convidado. Em certas liturgias orientais, o altar é, ainda, o símbolo do túmulo (Cristo morreu verdadeiramente e verdadeiramente ressuscitou).

Para além disso, o Cânone 1239 §1 do Código de Direito Canónico, especifica que um altar deve ser reservado unicamente à adoração de Deus, excluindo qualquer outro uso profano ou sacrílego. Aplicando ainda o Cânone 1212, uma vez que o acto de sexo em grupo teve lugar em cima do altar, este foi violado por actos gravemente injuriosos e escandalosos para os fiéis.

As violações foram tão graves e contrárias à sacralidade do local (Cânone 1211) que o altar da Igreja de São Pedro e São Paulo perdeu a sua dedicação e bênção e deixou de poder ser usada para as funções sagradas. A exclusão absoluta e perda da dedicação explicam as ações do arcebispo, nomeadamente a remoção do altar antigo, a sua purificação pelo fogo e a dedicação de um altar novo – cumprindo assim o rito penitencial da restauração.

Obviamente a profanação é o contrário da santidade. O profeta Ezequiel usou palavras duras para avisar os seus ouvintes da natureza radical do sacrilégio cometido quando se profanavam os santuários.

Por isso, juro pela minha vida, palavra do Soberano, o Senhor, que, por terdes contaminado meu santuário com vossas imagens detestáveis e com vossas práticas repugnantes, eu retirarei a minha bênção. Não olharei com piedade para vós e não vos pouparei.

Ezequiel descrevia as consequências devastadoras para todos os envolvidos no ato de profanação: Deus iria vingar-se porque o santo tinha sido profanado e violado.

A destruição de Sodoma

O fogo simboliza destruição e juízo, mas é também uma manifestação de Deus e um sinal de renovação. O Senhor fez chover enxofre sobre Sodoma e Gomorra, fogo enviado dos céus pelo Senhor. Deus consumiu os ídolos pelo fogo: “Tomou o bezerro que eles tinham feito e destruiu-o no fogo; depois de moê-lo até virar pó, espalhou-o na água e fez com que os israelitas a bebessem”.

Mas a destruição e o juízo pelo fogo têm também um elemento construtivo. O fogo é a manifestação de Deus e um meio para a renovação do homem.

Quando João Baptista falava aos impenitentes avisou-os que aquele que vinha depois dele baptizaria de forma diferente: com o Espírito Santo e com o fogo. Este novo baptismo traria a salvação, o fogo destruiria o pecado e daria nova vida.

O “baptismo pelo fogo” é simultaneamente destrutivo e construtivo; é um fogo que consome o pecado e o mal e conduz a nova e regenerada vida que floresce.

O arcebispo Aymond reafirmou esta verdade quando queimou o altar profanado. E depois encontrou-se com os seus irmãos no sacerdócio e convidou-os a renovar as suas promessas. Vai depois celebrar uma missa de reparação.

Quanto à Igreja de Santa Ágara, em Caltanissetta, Sicília, os polícias detiveram dois indivíduos que crêem ser os autores do acto de vandalismo. Têm chovido donativos para reparar os danos e restaurar o altar.

O mal e a profanação da santidade sempre os teremos connosco. E com o aumento das correntes pós-cristãs e anticristãs na nossa cultura estes ultrajes tornar-se-ão mais frequentes e flagrantes. (Duas igrejas foram incendiadas no Chile há dias durante protestos políticos e vários locais católicos nos Estados Unidos têm sido atacados). Mas como se vê por este caso do altar que foi rapidamente purgado e restaurado, a Igreja continua pronta a renovar – precisamente porque é o verdadeiro e vivo Corpo de Cristo.


Ines A. Murzaku é professora de Religião na Universidade de Seton Hall. Tem artigos publicados em vários artigos e livros. O mais recente é Monasticism in Eastern Europe and the Former Soviet Republics. Colaborou com vários órgãos de informação, incluindo a Radio Tirana (Albânia) durante a Guerra Fria; a Rádio Vaticano e a EWTN em Roma durante as revoltas na Europa de Leste dos anos 90, a Voice of America e a Relevant Radio, nos EUA.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 22 de Outubro de 2020 em The Catholic Thing)

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Monday, 3 February 2020

Absolutismos

Michael Nnadi, assassinado na Nigéria
Uma absoluta vergonha o que se passou esta segunda-feira no Paquistão, onde um tribunal decretou que o casamento de uma rapariga raptada, forçada a converter-se ao Islão e forçada a casar-se com um muçulmano é válido. Qual foi o critério? Pasme-se, não foi a lei nacional, mas sim a Sharia.

Uma absoluta tristeza a notícia que nos chega da Nigéria, da morte de um dos quatro seminaristas que foram raptados por bandidos a 8 de janeiro. Os outros três foram todos libertados.

Uma absoluta desgraça o que se passa no norte de Moçambique, onde o bispo de Pemba calcula que já tenham morrido 500 pessoas às mãos de jihadistas.

Domingo foi o dia da vida consagrada. A Aura Miguel entrevistou para o efeito uma monja concepcionista, numa conversa que vale bem a pena ouvir. Da minha parte, convido-vos a ler o artigo que escrevi para o Ponto SJ e que foi publicado no sábado.

Thursday, 16 January 2020

Para estar atento em 2020 - Fim da guerra na Síria

Uma das maiores tragédias da última década tem sido a guerra civil na Síria, uma realidade que apenas é agravada pelo facto de, ao que tudo indica, a guerra ter servido para absolutamente nada, para além de enriquecer os traficantes de armas e dar à Rússia ainda mais influência na região. Este ano, acredito, a guerra pode finalmente chegar ao fim.

Quando os protestos da “Primavera Árabe” varreram o Médio Oriente em 2011 assistimos a tudo com um misto de apreensão e esperança. A queda do regime na Tunísia e no Egipto foram boas notícias, embora só o primeiro caso, onde o movimento começou, tenha comprovado ter pernas para andar. No Egipto a democracia levou à vitória da Irmandade Islâmica, uma péssima notícia, sobretudo para a grande comunidade cristã.

Mas quando começaram protestos na Síria eu, pelo menos, não reagi com esperança alguma, só com medo. A Síria era uma realidade muito instável. Um regime férreo, mas secular, onde não existia liberdade mas pelo menos as minorias religiosas estavam a salvo de perseguição e se vivia em paz e segurança. Dominado pela minoria xiita (alauita) o Governo tinha todo o interesse em manter os grupos sunitas fundamentalistas à distância. Não o regime ideal mas, tendo em conta o contexto regional, do melhorzinho que se podia arranjar.

Mal os protestos – e a resposta do Governo – se tornaram violentos temi o pior e o medo só se agravou com o entusiasmado apoio que os países ocidentais começaram a dar a uma oposição que muito previsivelmente se deixou dominar por grupos jihadistas.

Seguiram-se nove anos de terror, com o expoente máximo no Estado Islâmico, até que a Rússia entrou em cena para dar ao regime o apoio necessário para finalmente começar a recuperar o país, cidade a cidade, quilómetro a quilómetro. Os russos bem podem agradecer a Barack Obama por esse brinde que lhes deu ao ameaçar invadir 

No seu auge havia quatro grandes fações na guerra. O regime, que contava com o apoio das minorias religiosas e de muitos sunitas também, sobretudo nos grandes centros urbanos; o Estado Islâmico, uma força niilista que espalhou sofrimento e morte por todo o lado e conseguiu avanços impressionantes em pouco tempo, lançando o terror nas almas das suas vítimas; a dita oposição “moderada”, que de moderada só tem o facto de não ser tão niilista como o Estado Islâmico, porque era igualmente dada a decapitações e ao fundamentalismo islâmico e, no nordeste do país, a região autónoma constituída por curdos, árabes, cristãos siríacos/assírios e outras minorias étnicas e religiosas.

Este último grupo era particularmente interessante. Com um projeto verdadeiramente democrático, que apostava em realçar, proteger e preservar as identidades de cada grupo, promovendo a colaboração, ao contrário do que faz o Governo que tenta impor uma identidade comum. Esta região conseguiu obter o apoio do ocidente na sua luta contra o Estado Islâmico, tendo sido as suas Forças Democráticas da Síria as principais responsáveis por derrotar militarmente o grupo terrorista. Infelizmente, e depois de tudo isto, foram traídos pela decisão de Donald Trump de retirar e viram-se invadidos pela Turquia. Para evitar um genocídio fizeram um acordo com o regime e, assim, o projecto democrático parece agora uma utopia.

Entretanto o regime foi chegando a acordo com os diferentes grupos de rebeldes que, vendo-se em situações impossíveis, optavam por ser retiradas das suas zonas e enviadas para a região de Idlib, junto da fronteira com a Turquia, que sempre as protegeu e apoiou. Até que aos rebeldes já só restava mesmo a região de Idlib.

O último ano tem visto o regime sírio, sempre com o apoio da Rússia, a avançar lentamente sobre Idlib. De vez em quando são anunciados cessar-fogo, mas duram sempre pouco tempo e os militares do regime retomam a sua rotina de bombardeamento.

A situação em Idlib torna-se insustentável. O regime não tem qualquer motivação para negociar, nada a ganhar em adiar a conquista final e sabe que enquanto Moscovo permanecer com ele tem as costas quentes.

Já recomeçaram as ondas de refugiados de Idlib para a Turquia, que com o apoio que tem dado aos rebeldes só tem que se culpar a si mesma pela situação. Quando Idlib for recuperada pelo regime o país pode começar a ser reconstruído. Goste-se ou não de Assad, parece evidente que este é o melhor caminho para o futuro da Síria.

Na melhor das hipóteses, reestabelecida a paz, poderá haver algumas cedências por parte do regime, nomeadamente para os grupos étnicos e religiosos minoritários, especialmente no nordeste, mas até isso parece difícil agora que perderam os seus maiores aliados.

Milhares de mortes, cidades inteiras destruídas, relações entre comunidades envenenadas, uma geração perdida, tudo por nada. É essa a realidade da Síria. Que venha rapidamente a paz para pôr fim a esta loucura.

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