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Wednesday, 19 April 2023

O Catolicismo Bizantino e a Luta pela Ucrânia

Robert W. Shaffen

O apoio dos americanos à resistência ucraniana à invasão de 24 de Fevereiro de 2022 parece estar a esmorecer. Embora a Administração de Biden não tenha feito qualquer promessa de envio de soldados americanos para a Ucrânia, muitos comentadores e candidatos políticos supostamente conservadores têm criticado o que consideram ser um compromisso aberto para com a causa ucraniana e o envio continuado de carregamentos de sistemas de armas americanos e munições para o exército ucraniano. Entretanto há factores tácticos, estratégicos e espirituais em jogo, como a existência do Catolicismo Oriental.

Os críticos dão muitas razões para descontinuar o apoio militar americano. Em primeiro lugar, argumentam, a Ucrânia não é uma democracia comparável à dos Estados Unidos. O seu Governo é corrupto, e por isso não merecedor do apoio americano. Em segundo lugar, as contribuições de armas e de munições enfraquecem a capacidade dos Estados Unidos se defenderem em caso de um ataque inimigo. Em terceiro lugar, alguns comentadores, como Sohrab Ahmari, acreditam que o preço do apoio americano será a introdução na Ucrânia do liberalismo ocidental, com a consequente corrupção moral e cultural da sociedade.

Outras personalidades, como Michael Brendan Dougherty, da National Review, temem que a América seja arrastada para o conflito nuclear que conseguiu, com tanto esforço, evitar durante a Guerra Fria do século XX. Outro grupo preocupa-se com o facto de o envio de armas estar a encorajar a China a tomar de assalto o Taiwan e, finalmente, há aqueles que, como J. D. Vance e Matt Walsh, simplesmente acham que os americanos não têm nada que se meter na guerra entre a Rússia e a Ucrânia.

Do lado contrário, os defensores do apoio à Ucrânia invocam a contenção da Rússia, que voltou a revelar a brutalidade pela qual tem sido responsável incontáveis vezes ao longo da história. O compromisso americano para com os direitos humanos exige que o poder dos Estados Unidos seja colocado ao dispor daqueles que resistem a agressões injustas – algo semelhante ao programa Lend-Lease de FDR para um Reino Unido isolado durante a II Guerra Mundial. Desta perspectiva os Estados Unidos devem procurar estar activamente do lado da conduta civilizada.

Mas há outro factor que devemos ter em consideração. É que o combate ucraniano também envolve a segurança da Igreja Católica na Europa de Leste. O destino das Igrejas Católicas de rito latino e oriental dependem do resultado da guerra. Por um lado, se a Ucrânia colapsar completamente, a história sugere que a Rússia voltará a suprimir a Igreja Católica Bizantina, que forma a maioria nas zonas ocidentais da Ucrânia (tendo Lviv como sua “capital”).

A Ucrânia foi originalmente evangelizada por gregos, pelo que os ucranianos adoptaram a teologia e a liturgia do Cristianismo oriental no século X. A queda de Constantinopla para os turcos em 1453 minou a influência e a autoridade do respectivo patriarca, e as subsequentes negociações entre os papas e os ucranianos conduziram à reunificação das igrejas. Os ucranianos mantiveram as suas tradições, mas submeteram-se à autoridade do Papa.

Ratificada a União de Brest-Litovsk, em 1596, passou a existir a Igreja Greco-Católica Ucraniana, ao abrigo do Reino Unido da Polónia e da Lituânia. Desde então os ucranianos formam a maior das igrejas católicas de rito oriental.

Historicamente a Rússia sempre alimentou o ódio ao Catolicismo Bizantino e a sua perseguição. Os russos desprezavam a obediência bizantina a Roma, que associavam ao inimigo Católico Romano Polaco. Os moscovitas consideravam os católicos bizantinos traidores. Quando a Rússia imperial avançou para ocidente e para sul, no século XVIII, as igrejas greco-católicas foram destruídas ou expropriadas e os seus padres enviados para as prisões do Czar, na Sibéria.

Quando Catarina a Grande estendeu as fronteiras imperais da Rússia através da conquista e da repartição, pressionou os católicos bizantinos a submeterem-se à Ortodoxia. Os padres católicos que desafiassem a Czarina eram deportados e substituídos por clero Ortodoxo Russo. O Catolicismo foi forçado à clandestinidade no Império Russo, embora a Igreja tenha sobrevivido e prosperado nos territórios mais pequenos da Ucrânia ocidental que ficaram sob o domínio da Áustria dos Habsburgos, que eram católicos.

Mas o pior estava para vir com o restabelecimento do controlo da martirizada República da Ucrânia por parte da União Soviética, depois do fim da Guerra Civil da Rússia, em 1922. Os bolcheviques perseguiram impiedosamente o Catolicismo Bizantino, levando-o novamente à clandestinidade, e enviaram muitos padres para os gulags. 

Não se pode esperar que seja o antigo agente da KGB, Vladimir Putin, a estender a mão aos católicos bizantinos da Ucrânia. Ele já está a deportar os ucranianos de leste e jamais reconheceria uma religião cujos fiéis aceitam a autoridade do bispo de Roma. O domínio russo da Ucrânia seria catastrófico para o catolicismo bizantino.

Essa ameaça foi sublinhada no início da guerra pelos mais importantes hierarcas da Igreja Greco-Católica da Ucrânia. O Arcebispo Maior Sviatoslav Shevchuk, líder da Igreja, expressou o seu medo pelo futuro da mesma. Fez notar que alguns padres católicos já foram submetidos a torturas e afirmou que concessões territoriais à Rússia enfraqueceriam fatalmente o seu país.

Mais ou menos ao mesmo tempo o Arcebispo Metropolita da Arquieparquia Greco-Católica Ucraniana de Filadélfia afirmou que “esta batalha é, simplesmente, sobre se a Ucrânia aceita ser uma colónia e se os ucranianos aceitam ser submetidos”. Depois de mais um ano de guerra o povo ucraniano – católicos e ortodoxos – já deram uma resposta convincente.

O sucesso militar da Rússia também constitui uma ameaça para a segurança do Catolicismo de rito latino. Uma Ucrânia dominada pela Rússia aumentaria a fronteira entre a Polónia e o seu antigo inimigo. A ameaça à Lituânia também cresceria muito. Uma vez que ambos estes países são aliados formais dos Estados Unidos (ao contrário da Ucrânia) as Forças Armadas americanas estão obrigadas por tratado a socorrê-los em caso de guerra.

A Administração de Biden descartou a possibilidade de uma invasão russa até que esta aconteceu. A equipa de Biden disse que seria uma loucura Putin iniciar uma grande guerra na Europa, como se não houvesse contributos históricos de loucos para aquilo a que Churchill chamou “o longo e lamentável catálogo de crime humano”.

Mas a Rússia invadiu na mesma. Um ataque contra a Polónia ou a Lituânia seria uma loucura ainda maior. Mas alguém se atreve a contar com a racionalidade de Putin?


Robert W. Shaffern é professor de história medieval na Universidade de Scranton. Também lecciona cursos de civilizações antigas e bizantinas, bem como sobre o Renascimento Italiano e a Reforma. É autor de The Penitents’ Treasury: Indulgences in Latin Christendom, 1175-1375.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 13 de Abril de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Friday, 24 February 2023

Vigílias em Lisboa e retransmissores de Moscovo

Por mais que alguns estejam fartos, o grande tema continua a ser o Relatório da Comissão Independente. Ontem houve vigílias em vários pontos do país em que os católicos oraram em silêncio pelas vítimas, pela Igreja e pelos padres. O Patriarca de Lisboa esteve na vigília em Lisboa.

Antes disso D. Manuel Clemente celebrou missa de Quarta-feira de Cinzas e sublinhou que nesta questão dos abusos “não podemos falhar de modo algum”, utilizando ainda os termos “tristeza, vergonha, arrependimento”.

Como é que a Igreja deve receber os dados constantes deste relatório? Que leitura deve fazer de algumas das suas conclusões? O que vem a seguir? Foi sobre isso que conversei com o Octávio Carmo, jornalista da Ecclesia, no episódio da semana passada do podcast Hospital de Campanha. Se este assunto vos interessa – e se não interessa, devia interessar – ouçam esta conversa, mesmo!

Estive também no programa da Agência Ecclesia que foi para o ar na Sexta-feira passada a falar desta questão, desta vez com o Pedro Gil, do gabinete de imprensa da Opus Dei. Podem ver aqui.

A informação constante do relatório já me permitiu actualizar o post em que elenco todos os casos de abusos – ou alegados abusos – que houve em Portugal nas últimas décadas e já sabem que podem sempre consultar a cronologia que mantenho sobre este assunto desde 2012, e que também vai sendo actualizada.

Se acham que eu levo muito na cabeça por escrever sobre a questão dos abusos, então nem imaginem a porrada que às vezes levo pelas minhas posições críticas que assumo em relação à Igreja Ortodoxa Russa e o seu papel na guerra da Ucrânia, nomeadamente do seu Patriarca. Foi por isso com algum espanto que ontem li num artigo de opinião no Observador que há quem me considere “responsável por retransmitir a voz da Igreja Ortodoxa de Moscovo para o mundo católico”. Isto a propósito da minha recente entrevista ao bispo da Igreja Ortodoxa Russa para Portugal e Espanha, que entretanto foi publicada em versão portuguesa no Expresso. Já enviei para o Observador um curto artigo de esclarecimento, que espero poder partilhar convosco para a semana.

Deixo-vos, por fim, com o artigo desta semana do The Catholic Thing, em que John M. Grondelski explica porque é que mandamos celebrar missas pelos defuntos. Um artigo que vem mesm
o a calhar para uma altura em que começamos a caminhada quaresmal.

O que me leva à seguinte questão… Santa Quaresma para todos. Que seja um período de aprofundamento espiritual! Até para a semana, se Deus quiser.

Monday, 6 February 2023

O Papa em África e a rapariga que mete a mexer as moçambicanas

O Papa está actualmente no Congo, e de lá segue para o Sudão do Sul. Tem apelado à paz e ao fim da corrupção, como seria de esperar. Mas que diferença é que a viagem do Papa pode mesmo fazer? Falei sobre este assunto com várias pessoas que conhecem bem o terreno, num artigo publicado no jornal online The Pillar, esta semana. Leiam que vale a pena.

O meu amigo Paulo Aido, da fundação Ajuda à Igreja que Sofre – Portugal, tem muitos e bons contactos em ambos os países e tem feito uma cobertura cerrada desta visita, que podem e devem acompanhar aqui. Também a minha amiga Aura Miguel está no terreno e podem acompanhar o seu trabalho na Renascença, aqui.

Esta quinta-feira, também no The Pillar, publiquei uma entrevista com Petru Pruteanu, o bispo da Igreja Ortodoxa Russa para a Península Ibérica, que vive em Cascais. Quem tem acompanhado o meu trabalho sabe que tenho sido crítico da postura do patriarca de Moscovo, mas a Igreja Ortodoxa Russa é demasiado grande e importante para descartar. Se há esperança para a renovação desta grande e venerável instituição está em homens como o bispo Petru, que dizem a verdade, sem medo das consequências. Esta foi uma entrevista que me deu muito gosto fazer e espero em breve poder partilhar convosco uma versão portuguesa.

O tema do palco da missa final com o Papa na Jornada Mundial da Juventude já passou, mas o compromisso que a Igreja fez de tentar baixar os custos das infraestruturas não foi esquecido. Hoje mesmo decorrem reuniões nesse sentido.

Hoje voltamos a ter Hospital de Campanha. Numa fascinante conversa com a Marta Figueiredo, da Girl Move, falámos da dimensão espiritual do seu trabalho de promoção da dignidade e das oportunidades de vida de mulheres em Moçambique, mas também do papel que as mulheres podem, ou não, desempenhar na Igreja e da postura a adoptar em relação a assuntos como o feminismo.

Estamos na Semana das Escolas Católicas. Oportunidade para ler este elogio aos professores católicos, feito pelo David Bonagura, no The Catholic Thing. Leiam e partilhem com um professor católico que conheçam.

Monday, 24 October 2022

O Homem do Sudário e o que aprendemos com a crise dos abusos

A semana passada prometi novidades sobre a minha viagem a Salamanca, em Espanha. Pois venho cumprir! Estive numa fascinante exposição sobre o Santo Sudário, que apresenta como novidade um modelo hiper-realista do corpo que nele foi sepultado. É uma peça muito impressionante e a boa notícia é que os organizadores esperam trazê-la a Lisboa para as jornadas.

Aqui têm a minha reportagem principal, publicada no jornal online The Pillar (em inglês); aqui outra notícia mais curta, no The Tablet (também em inglês) e aqui a reportagem da RTP, que esteve também na viagem.

Surgiu esta quinta-feira uma notícia que, a ser verdade, é preocupante. A embaixada da Rússia diz que um padre russo em Portugal está a ser alvo de ameaças. Digo preocupante porque esse tipo de comportamento é sempre condenável, ainda que o padre defendesse coisas erradas. Mas neste caso é duplamente preocupante porque o padre em questão é um dos signatários de uma belíssima carta aberta de padres ortodoxos russos contra a guerra, que podem ler aqui.

Temos tido tempos difíceis na Igreja por causa dos abusos. Hoje publiquei no blog um artigo em que resumo três coisas que penso que aprendemos sobre esta questão em Portugal. 1º, que a comissão independente fazia mesmo falta; 2º, que se quebrou o mito de que em Portugal os abusos que existiam eram apenas casos isolados e circunstanciais e, 3º, que para bem de todos os bispos parecem estar a aprender com os erros no que diz respeito à comunicação.

Sobre este assunto volto a chamar a vossa atenção para os últimos três episódios do Hospital de Campanha, e também para este texto sobre os casos de alegados encobrimentos de que foi acusado D. José Ornelas.

O artigo desta semana do The Catholic Thing é para todos os que estão envolvidos de alguma forma na vida académica. Randall Smith explica que “não estamos na universidade para nos servirmos a nós mesmos ou aos nossos egos, mas aos nossos alunos. Nem devemos servir uma ideologia. Servimos a verdade, porque quando servimos a verdade é a Deus, que é a Verdade, que servimos (...) Todos os que procuram sinceramente a verdade têm um lugar na universidade católica”.

Esta semana foi anunciado o preço para participação plena nas jornadas. Claro que surgiram imediatamente notícias a dizer que esse era o preço a pagar para ver o Papa. O meu pai sempre disse que o número de parvos é infinito… Claro que o preço diz respeito a alojamento, alimentação e todos os materiais logísticos. O acesso aos eventos é gratuito, como sempre foi.



Thursday, 15 September 2022

Francisco a ser Papa no Cazaquistão

O Papa está no Cazaquistão. Engane-se quem pensa que esta é apenas mais uma viagem apostólica, é muito mais que isso. Neste texto pretendo falar brevemente da dificuldade de navegar entre o diálogo religioso e o sincretismo, da importância contextual dos apelos do Papa à paz, e à questão da relação com a Igreja Ortodoxa Russa.

Diálogo sem sincretismo

Francisco está na capital do Cazaquistão, uma ex-república da União Soviética gigante que, curiosamente, tem investido muito em promover o diálogo inter-religioso ao longo das últimas décadas.

Os cristãos são uma minoria de 25% no país, e católicos são apenas 1%, na grande maioria membros de outros grupos étnicos, desde polacos a coreanos. A história da Igreja no país também é curiosa, uma vez que muitos dos católicos descendem de pessoas que foram deportadas para a região durante as perseguições na União Soviética. No Cazaquistão havia 11 campos de concentração, parte do sistema Gulag.

A relação da Igreja Católica com o diálogo inter-religioso é complexa. Durante séculos a atitude era de que esta é a Igreja fundada por Deus, quem quiser pode entrar, mas não há mais nada para discutir. O Concílio Vaticano II cristalizou uma mudança gradual de posição, tanto ao nível ecuménico como de diálogo inter-religioso, e Roma passou a interessar-se no diálogo. Em 1986 o Papa João Paulo II iniciou os encontros inter-religiosos de Assis, para rezar pela paz. Foi muito criticado por isso, com os seus adversários a dizer que os encontros promoviam o sincretismo e o relativismo, mas ele persistiu, tentando sempre deixar claro que juntar pessoas crentes para suplicar a Deus pela paz é diferente de dizer que essas crenças são todas igualmente válidas, ou que as diferenças não interessam.

Estes encontros no Cazaquistão surgem desse mesmo espírito de Assis. Quem o diz é o bispo de Almaty, no Cazaquistão, que é espanhol e foi entrevistado recentemente pela fundação Ajuda à Igreja que Sofre. Mas os críticos não desarmam e continuam a levantar o fantasma do relativismo.

Francisco está, por isso, em terreno difícil no Cazaquistão, mas no seu discurso ao Congresso de Líderes de Religiões Mundiais e Tradicionais não desiludiu e falou precisamente como Papa que é. Encorajou a colaboração inter-religiosa pela paz, condenou a utilização da religião para justificar a guerra e criticou, usando mesmo esse termo, o sincretismo. Foi um bom discurso, pleno de referências locais, que pode ser lido aqui. Deixo-vos com uma das principais citações:

Queridos irmãos e irmãs, avancemos juntos, para que seja cada vez mais amistoso o caminho das religiões. (…) O Altíssimo liberte-nos das sombras da suspeita e da falsidade; conceda-nos cultivar amizades ensolaradas e fraternas, através do diálogo frequente e da sinceridade luminosa das intenções. E desejo agradecer aqui o esforço do Cazaquistão neste ponto: sempre procura unir, sempre procura incentivar o diálogo, sempre procura construir a amizade. Isto é um exemplo que o Cazaquistão dá a todos nós e devemos segui-lo, apoiá-lo. Não procuremos falsos sincretismos conciliatórios – não servem –, mas guardemos as nossas identidades abertas à coragem da alteridade, ao encontro fraterno. Só assim, por este caminho, nos tempos sombrios que vivemos, poderemos irradiar a luz do nosso Criador.

Falar de paz numa região de guerra

É certo que Francisco fala muito de paz, e que tem falado sobretudo muito da guerra na Ucrânia. Podem ver aqui a extensa lista das declarações sobre o assunto que tem feito nos últimos meses, desde que a Rússia invadiu o país vizinho. Mas é preciso ter em conta o contexto em que o faz agora, no Cazaquistão. Aqui Francisco está ao lado da Rússia, na sua esfera de influência, e as suas palavras têm mais peso.

Mas é preciso ter também em conta que não é apenas a na Ucrânia que soam as armas neste momento. Sem sair da zona da ex-União Soviética, temos tido também problemas nos últimos dias, com tiros e mortos, na fronteira entre o Quirguistão e o Tajiquistão e, com uma gravidade muito maior, temos assistido a uma tentativa de invasão da Arménia por parte do Azerbaijão. Este último caso era previsível, infelizmente, e escrevi sobre ele exatamente quando a guerra na Ucrânia começou. Preferia ter-me enganado. Os problemas entre o Azerbaijão e a Arménia são mais graves ainda na medida em que o primeiro é muçulmano e o segundo cristão. O conflito é territorial, não religioso, mas existe sempre o risco agravado de adquirir também uma dimensão religiosa e espalhar-se, por isso, a países vizinhos. Esperemos que não.

É aqui, nesta região unida por um passado de forte perseguição às religiões e que se debate ainda com um pesado legado comunista, que Francisco vem falar de paz. E em boa hora o faz.

Diálogo com os russos

Uma dimensão muito importante desta visita é a do diálogo com a Igreja Ortodoxa da Rússia. Já escrevi e falei várias vezes sobre o período difícil que a Igreja Russa atravessa, travando uma luta pelo poder no interior da comunhão de Igrejas Ortodoxas e ao mesmo tempo tentando sobreviver a uma relação demasiado estreita com o poder político em Moscovo.

O Patriarca Cirilo, de Moscovo, quis afirmar-se como o grande representante da ortodoxia no mundo, em oposição a Bartolomeu de Constantinopla, mas acabou, pela sua proximidade a Vladimir Putin, por se tornar um pária aos olhos do mundo religiosos. Tenho comentado, nas minhas mais recentes análises às suas declarações, que já nem se percebe se as suas palavras são para ser levadas a sério, se são críticas (muito) dissimuladas ao regime de Putin, ou se simplesmente perdeu toda a noção. Só na última semana lamentou o facto de o mundo estar a sofrer por causa dos ditadores que espalham o conflito e elogiou a Rússia por não cometer crimes de guerra, algo que se deve ao facto de ter um historial de líderes ortodoxos crentes. E não nos esqueçamos da vez em que se regozijou no facto de a Rússia, apesar de ser um país muito poderoso, nunca ter atacado ninguém. E sim, disse-o já depois da invasão da Ucrânia.

O facto é que Cirilo está quase totalmente isolado e ninguém parece disposto a falar com ele, excepto o Papa Francisco. Há até quem considere que Francisco está a ser ingénuo quando diz que quer falar com Cirilo, mas o Papa parece entender que por mais que esteja a atravessar, digamos, um mau momento, a Igreja Russa não deixa de ser uma grande denominação cristã e que não se deve desistir, por isso, desse diálogo. Aliás, no seu discurso à chegada ao Cazaquistão disse: “Precisamos de líderes que, a nível internacional, permitam aos povos compreenderem-se e dialogarem, e gerem um novo ‘espírito de Helsínquia’, a vontade de reforçar o multilateralismo, de construir um mundo mais estável e pacífico pensando nas novas gerações. E, para fazer isto, é preciso compreensão, paciência e diálogo com todos. Repito: com todos.”

Mais uma vez, porém, Cirilo perdeu a oportunidade de se agarrar a esta mão estendida. Se tivesse ido ao Cazaquistão, como estava inicialmente combinado, teria conseguido tornar-se o centro do evento e o seu encontro com o Papa Francisco seria o ponto alto do congresso, em termos mediáticos. Mas temendo ser alvo de críticas, refugiou-se novamente no seu palácio de cristal em Moscovo e tornou ainda mais pertinentes as palavras do Papa que muitos acreditam terem sido ditas com ele em mente.

Se o Criador, a quem dedicamos a existência, deu origem à vida humana, como podemos nós – que nos professamos crentes – consentir que a mesma seja destruída? E como podemos pensar que os homens do nosso tempo – muitos dos quais vivem como se Deus não existisse – estejam motivados para se comprometer num diálogo respeitoso e responsável, se as grandes religiões, que constituem a alma de tantas culturas e tradições, não se empenham ativamente pela paz?

Irmãos e irmãs, purifiquemo-nos, pois, da presunção de nos sentir justos e de não ter nada a aprender dos outros; libertemo-nos das conceções redutoras e ruinosas que ofendem o nome de Deus com rigidezes, extremismos e fundamentalismos, e o profanam por meio do ódio, do fanatismo e do terrorismo, desfigurando inclusive a imagem do homem. (…) Nunca justifiquemos a violência. Não permitamos que o sagrado seja instrumentalizado por aquilo que é profano. O sagrado não seja suporte do poder, e o poder não se valha de suportes de sacralidade! Deus é paz, e sempre conduz à paz, nunca à guerra.

Mais uma vez, belas palavras. Haja quem as oiça e as ponha em prática!

Thursday, 23 June 2022

Hospital de Campanha - Episódio 7: Novidades cardinalícias

O Papa Francisco nomeou uma série de novos cardeais, que vão ser elevados ao cargo no próximo mês de Agosto. Neste episódio analisamos essas nomeações e o que significam à luz do pontificado de Francisco. 
Nesta lista não consta nenhum português, mas há muito de interesse para Portugal nos nomeados!

Um dos novos cardeais vem de Timor Leste, é o primeiro deste país. Este facto serve de ponto de partida para falar um pouco sobre os 20 anos da independência do mais novo país lusófono do mundo. 

Por fim, alguns minutos para falar das novidades sobre as Igrejas ortodoxas na Ucrânia e na Rússia, onde se registaram mudanças importantes nas últimas semanas. 


Tuesday, 7 June 2022

Nº2 do Patriarcado de Moscovo despromovido

Surgiu hoje uma notícia muito inesperada na Igreja Ortodoxa Russa. 

O Metropolita Hilário, que era diretor do Departamenteo de Relações Externas do Patriarcado de Moscovo, foi removido desse cargo e nomeado responsável da diocese da Igreja Ortodoxa Russa na Hungria. 

Para terem ideia do grau desta despromoção, Hilário era, na qualidade de director de Relações Externas, uma espécie de Ministro dos Negócios Estrangeiros do Patriarcado de Moscovo e tornou-se assim uma das figuras mais conhecidas da Igreja Russa. Viajava com frequência e era muitas vezes sobre ele que recaía a responsabilidade de defender as posições e a influência da Igreja Russa, algo que continuou a fazer durante esta guerra. 

Já enquanto bispo da Igreja na Hungria, terá a seu cargo um total de 11 paróquias e oito padres. Seria mais ou menos o equivalente ao Papa mudar o cardeal Parolin para uma diocese no sudeste asiático.

É certo que a Hungria é um país importante para a Rússia, mas na qualidade de diretor das relações externas Hilário tinha tanta ou mais capacidade de visitar e cultivar as relações diplomáticas com o regime húngaro do que terá sendo, na prática, um bispo de uma diocese negligenciável. 

O que conduziu a esta decisão? Aqui há algumas pistas. Este artigo indica que recentemente Hilário parecia estar a tentar distanciar-se de Cirilo. Durante uma visita a Chipre, para participar num encontro do Concelho Mundial das Igrejas, ele teve um encontro pessoal com o líder da Igreja Cipriota Ortodoxa, o que é assinalável porque essa é uma das igrejas que reconheceu a autocefalia da Igreja Ortodoxa da Ucrânia, levando à quebra de comunhão entre ela e a Igreja Russa. Aos olhos de Cirilo, portanto, a Igreja Cipriota é "inimiga" e pelos vistos ele não gostou do encontro. 

Mais tarde, em comentários feitos à imprensa russa, Hilário mostrou esperanças de se poder chegar a um entendimento com as Igrejas com as quais existe uma quebra eucarística, dizendo mesmo que não devem ser consideradas inimigas. 

Tudo isto foi feito na sequência da tentativa da Igreja Ortodoxa da Ucrânia, que continua formalmente ligada a Moscovo, se separar da influência de Cirilo. É possível que Hilário tenha entendido, como eu refiro aqui, que esse pássaro já voou... A Rússia perdeu toda a influência que podia ainda exercer sobre a Igreja Ortodoxa na Ucrânia, e por isso não vale a pena continuar a alimentar uma cisão intra-ortodoxa por causa de uma Igreja que já não quer nada com Moscovo de qualquer maneira. 

Mais interessante é o facto de Hilário ter liderado a delegação russa presente no tal encontro inter-ortodoxo do Conselho Mundial das Igrejas e de não se ter oposto a que essa organização, no seu documento final, manifestasse uma forte condenação da invasão da Ucrânia (ver ponto 24). A declaração foi aprovada por unanimidade, o que significa que Hilário votou a favor.

Tanta coisa em tão poucos dias não passou despercebida a Cirilo, que percebendo que já não tinha em Hilário um aliado fiel, o despachou. 

Resta ver agora se Hilário, cuja inteligência e sagacidade são notórias, conseguirá salvar a sua reputação aos olhos do resto do mundo, ou se esta já está demasiado danificada por anos de seguidismo ao regime de Putin.

[Actualizado]

Monday, 30 May 2022

Igrejas ortodoxas na Ucrânia - Em que ficamos?

Metropolita Onofre
Vamos lá então tentar perceber o que se está a passar nas igrejas na Ucrânia.

A Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscovo (vamos manter este termo, para simplificar), fez um Concílio "surpresa" em que disse que não concorda com a posição do Patriarca de Moscovo sobre a guerra, e que mudou os seus estatutos para reflectir a sua independência e autonomia.

Isto é uma ruptura total com Moscovo? Parece, mas nem tudo o que parece é. Pode não ser, de facto... Faltou usar o termo autocefalia, o que não é por acaso.

Por outro lado, na sua primeira celebração depois deste concílio, o metropolita dessa Igreja, Onofre, deixou de comemorar apenas o Patriarca de Moscovo e passou a comemorar e referir todos os líderes de Igrejas Ortodoxas autocéfalas. Ora, isso é algo reservado a líderes de igrejas autocéfalas, por isso parece que na prática ele quer impor-se como tal. Já lá vamos…

Entretanto, nas outras resoluções do Concílio a Igreja leal a Moscovo bateu na Igreja Ortodoxa da Ucrânia autocéfala e no Patriarcado de Constantinopla, chegando a sugerir que a acção desta última ao reconhecer a autocefalia da Igreja liderada pelo Metropolita Epifânio é a razão da guerra. Interessantemente, na tal celebração Onofre não comemorou os líderes das Igrejas que reconheceram explicitamente a autocefalia da Igreja liderada por Epifânio, seguindo assim a linha de Moscovo.

Mas nas mesmas resoluções, depois de bater forte e feio nessa Igreja e de dizer que ele nem é verdadeiramente uma igreja, Onofre estende uma mão para diálogo.

O que é que ele pretende? Não é claro, mas parece que está a tentar vencer em todos os tabuleiros. Quer agradar aos ucranianos rompendo com Moscovo, mas quer manter-se líder de uma Igreja autocéfala em território ucraniano, apesar de já lá existir uma, reconhecida por Constantinopla. O problema para Onofre é que tudo indica que vai ficar isolado. O Governo ucraniano já tem uma Igreja autocéfala com a qual colabora, não tem qualquer interesse em promover outra, sobretudo uma manchada por ligação próxima a Moscovo; os países ortodoxos que reconheceram a Igreja liderada por Epifânio certamente não vão dar qualquer crédito a uma estrutura paralela e as que não reconheceram, por lealdade a Moscovo, não têm por isso qualquer razão para reconhecer a de Onofre como autocéfala.

E Moscovo? Moscovo claro que não aceita. Aliás, a resposta de Moscovo, que convocou um Sínodo de emergência para analisar a questão, é hilariante e pode ser resumida da seguinte forma.

1)   
 
Não se passou nada na Ucrânia, a Igreja apenas reafirmou o status quo, que é de independência subjugada a Moscovo.

2)     Compreendemos que a Igreja Ortodoxa da Ucrânia do Patriarcado de Moscovo tenha feito o que fez (que na verdade não foi nada… ver o 1º ponto), porque está sobre enorme pressão de nazis, cismáticos e os media internacionais. Têm por isso a nossa solidariedade e compreensão pelo que fizeram, que não foi nada.

3)      As decisões que foram tomadas pela Igreja Ortodoxa da Ucrânia, que já afirmámos serem apenas a reafirmação do status quo, têm de ser analisadas por nós, apesar de não se ter passado nada.

4)      Ainda que, hipoteticamente, se tivesse passado alguma coisa (que não se passou) é indiferente, porque quem decide o estatuto da Igreja Ortodoxa da Ucrânia somos nós e agora temos mais que fazer, muito obrigado.

É mais ou menos isso, como explico em maior detalhe aqui.

Resumindo, a Igreja Ortodoxa da Ucrânia do Patriarcado de Moscovo está a tentar desesperadamente manter-se à tona de água. Moscovo vai fingindo que não, mas já perdeu toda a influência que tinha na Ucrânia. Nessa perspectiva, esta guerra inventada por Putin e apoiada por Cirilo, resultou na liquidação de um dos maiores instrumentos de influência que a Rússia de facto tinha no país. Isso não vai voltar atrás.

E finalmente, a Igreja autocéfala fica agora numa posição mais confortável para as negociações com a Igreja de Onofre. Epifânio já disse, na homilia de ontem, que está disposto a sentar-se à mesa com Onofre e os seus representantes, para tentar sanar as divisões, mas só o disse depois de ter mandado uma série de “galhardetes” à Igreja ligada a Moscovo.

Lendo e analisando tudo isto, há uma coisa que salta perfeitamente à vista. Falta muito Cristo aqui neste "cristianismo".

Quanto ao futuro, é ir vendo. Muita coisa ainda irá acontecer.

Entretanto não se esqueçam que todas estas declarações, e muitas outras, estão agrupadas aqui.

Thursday, 28 April 2022

Vias Sacras, polémicas e obsessões: Hospital de Campanha - Episódio 4

Neste episódio o Duarte, a Inês e eu falamos sobre a Via Sacra de Sexta-feira Santa em Roma, analisando algumas das meditações que este ano se centraram em diferentes tipos de vida familiar, com partilhas extraordinárias.

Mas a Via Sacra foi também alvo de alguma polémica, com os católicos ucranianos a manifestar o seu desagrado pela ideia de juntar uma família ucraniana e outra russa na 13ª Estação. Afinal de contas do que se queixam os ucranianos em relação a Roma e ao Papa Francisco? Têm razões para isso? Falámos bastante sobre o tema.

Por fim, olhámos para a obsessão do Governo e de certos partidos com a legalização da Eutanásia em Portugal.


Ouçam, partilhem, comentem connosco! Nós estamos muito contentes com este projecto e o feedback que temos tido até agora tem sido bastante positivo. 

Podem ouvir no Spotify ou no Google.

Tuesday, 12 April 2022

Conferência "Para um Ecumenismo da Paz"

 No passado dia 30 de Março tive a honra de participar na conferência "Para um Ecumenismo da Paz", organizado pela Capela do Rato, em Lisboa. Foi online, e a gravação pode ser vista aqui.

Thursday, 31 March 2022

Hospital de Campanha - Episódio 2

Chegou o novo episódio do Hospital de Campanha.

Este episódio conta com a ajuda do nosso amigo Octávio Carmo, jornalista e vaticanista da Agência Ecclesia. Já o Duarte não pôde estar, mas volta em breve!

Juntos discutimos a importância da Guerra na Ucrânia para as relações ecuménicas entre a Igreja Católica e os Ortodoxos, a consagração da Rússia e da Ucrânia a Nossa Senhora de Fátima e, por fim, a reforma da Cúria Romana, um assunto para o qual a presença do Octávio foi fundamental. 

Podem ouvir no Spotify ou no Google.

Wednesday, 30 March 2022

A Teologia e os Conflitos Humanos

O Cardeal Manning – que foi contemporâneo e seguidor do Cardeal Newman – disse certa vez que “todo o conflito humano é, no final de contas, teológico”. (Podíamos mesmo dizer que tudo o que é humano envolve necessariamente a teologia, mas esse é um assunto complexo para tratar noutro dia). Na actual guerra da Rússia contra a Ucrânia, porém, a teologia não é sequer uma consideração distante, está mesmo à superfície. Mesmo que a guerra chegue a um final aparentemente tolerável, as divisões teológicas permanecerão connosco muito tempo.

Isto porque não é apenas Vladimir Putin que tem falado numa “Guerra Santa” na Ucrânia, mas também líderes religiosos como o Patriarca Cirilo de Moscovo. Putin tem estado a usar cinicamente os ortodoxos como cobertura moral para as suas ambições. Mas também já intuiu que para “tornar a Rússia grande outra vez” a Ortodoxia Russa – que carrega em si muitos dos elementos mais profundos da Santa Mãe Rússia e da sua projecção secular, “o mundo russo” – é uma parte fundamental do plano político.

Já os líderes da Igreja Ortodoxa Russa não têm a mesma desculpa política.

Na verdade, o que estamos a ver agora não é apenas corrupção política entre os líderes religiosos comprometidos, mas uma profunda divisão espiritual que estava de certa forma disfarçada por profissões de fraternidade cristã. Até existem cristãos no Ocidente que, traumatizados pela nossa decadência e “wokeismo” se deixaram convencer de que a Rússia de Putin – com a sua repressão em larga escala, assassinato de dissidentes (incluindo no estrangeiro) e maior taxa de aborto no mundo – é de alguma forma um salvador religioso.

Vários Papas no passado recente fizeram grandes esforços para pôr fim ao cisma entre Roma e a Ortodoxia – e na maior parte das vezes têm sido rechaçados. Antes de a guerra ter começado o Papa Francisco estava a procurar um segundo encontro com o Patriarca Cirilo. O primeiro aconteceu em 2016, no aeroporto de Havana. O local não foi boa ideia, mas pelo menos ambos os líderes exprimiram um “profundo desejo” por unidade. E o Papa disse mais tarde que “falámos como irmãos”.

Esse espírito fraternal não perdurou. Durante a sua videoconferência, no início deste mês, Francisco parece ter criticado abertamente Cirilo por afirmar que esta “operação militar especial” é uma “guerra santa”. Francisco foi ainda mais longe quando, na sexta-feira passada, consagrou a Rússia, a Ucrânia e todo o mundo a Nossa Senhora de Fátima. Cirilo e Putin sabem que Nossa Senhora pediu essa consagração para que os erros da Rússia não se espalhassem pelo mundo, e para que a Rússia se converta. Parabéns a Francisco por ter feito ambas estas coisas, por mais objecções que tenha tido que enfrentar.

Infelizmente, Francisco também contradisse toda a tradição cristã durante o seu encontro com Cirilo, quando disse que todas as guerras são injustas. Na semana passada acrescentou, durante uma conversa com um grupo de organizações de mulheres, que “fiquei envergonhado quando li que um grupo de estados se comprometeu a gastar dois por cento do PIB na aquisição de armamento, em resposta ao que se está a passar agora. É loucura”, disse, lamentando “a velha lógica de poder que continua a dominar a chamada geopolítica”.

É verdade que sim, e assim continuará a ser enquanto os seres humanos decaídos continuarem a existir no planeta. E é por isso que algumas potências – histórica e moralmente imperfeitas – devem, por vezes, impedir que os mais impiedosos de entre nós dominem o mundo.

Quando as nações decidem aumentar os seus orçamentos de defesa, à luz de ameaças que enfrentam, não se trata de “loucura”. Diante de uma Rússia agressiva, os líderes políticos estão apenas a ser responsáveis quando decidem robustecer a defesa nacional. A decisão peca é por tardia.

Francisco parece pensar que a única resposta cristã permissível perante uma ameaça é o “diálogo” e não a dissuasão. Pode-se entender o seu horror pela guerra sem aceitar essa premissa. O diálogo não nos trouxe sequer o entendimento religioso com Cirilo. Estou certo de que Putin adoraria ver diálogo, diálogo infindável – nas igrejas, na NATO, na política americana – enquanto ele continua a atacar uma nação atrás da outra.

Os ucranianos têm uma opinião diferente. É por isso que continuam de pé, e a Rússia teve de se contentar com ambições menores na Ucrânia.

A queda da União Soviética abriu algumas possibilidades – tanto para as Igrejas como para a Rússia. A Igreja Ortodoxa da Rússia – a maior das ortodoxas – foi perseguida e comprometida pelo comunismo. Na sua colaboração – ou possivelmente mesmo trabalho activo – com a KGB, Cirilo desempenhou um papel vergonhoso nessa pérfida aliança.

Agora voltou a comprometer-se, alienando a maioria dos ortodoxos na Ucrânia enquanto abençoa os massacres de Putin. Nestas circunstâncias é difícil imaginar como é que Moscovo continuará a ser parte de qualquer diálogo ecuménico no futuro, ou sequer como é que a Igreja Ortodoxa Russa permanecerá intacta.

O Grande Cisma de 1054 entre a Igreja Ocidental e os Ortodoxos já foi há quase um milénio, e é tanto mais doloroso porque – independentemente das questões como o Filioque – deveu-se sobretudo a questões de jurisdição e de administração. A Igreja Católica não reconhece apenas como válidas as ordens e os sacramentos ortodoxos, mas também as ricas tradições litúrgicas e espirituais do Oriente, que devem ser integradas numa Igreja global e universal.

O próprio Cristo rezou por uma unidade eclesial semelhante à que ele tinha com o Pai. Os cristãos não têm tido muito jeito nesse campo importante mas desafiante. (João: 17,21)

Na sua encíclica de 1995 Ut Unum Sint (Que sejam um só), o Papa São João Paulo II falou de um verdadeiro ecumenismo – não a coisa sentimentalista e mole que vemos frequentemente nas discussões ecuménicas no ocidente – enraizado na realidade histórica e substância espiritual do Oriente e do Ocidente:

a Igreja deve respirar com os seus dois pulmões! No primeiro milénio da história do cristianismo, essa frase referia-se sobretudo ao binómio Bizâncio-Roma; desde o baptismo da Rus' para a frente, ela vê alargarem-se os seus confins: a evangelização estendeu-se a um âmbito muito mais vasto, a ponto de abraçar praticamente a Igreja inteira. Se se considera ainda que esse acontecimento salvífico, verificado ao longo das margens do Dniepre, remonta a uma época em que a Igreja no Oriente e no Ocidente não estava dividida, compreende-se claramente como a perspectiva a seguir para a plena comunhão, seja aquela da unidade na legítima diversidade.

Também o Papa Francisco tem falado de unidade sem uniformidade. O seu desafio, de agora em diante, será pôr isso em prática dentro da Igreja Ocidental. A janela para o Oriente está, por ora, fechada.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 28 de Março de 2022)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Saturday, 26 March 2022

Entrevista à Agência Ecclesia, no programa Fé dos Homens

Ontem, dia 25 de Março, passou uma entrevista que dei ao programa da Agência Ecclesia, na RTP2, na rubrica "A Fé dos Homens". No final da conversa sobre a Ucrânia e a Rússia, e sobre a consagração, ainda comentei o Evangelho de domingo.

Friday, 18 March 2022

A imagem de Nossa Senhora em Lviv

Aqui podem ver a minha participação ontem na CNN Portugal para falar da visita da imagem peregrina de Fátima a Lviv. Começa em 1'15 minutos do vídeo, 21h13, se se guiarem pela hora da emissão. 

Nos minutos antes da minha participação há uma interessante reportagem feita no local, que também devem ver.

Friday, 18 February 2022

Dimensões religiosas da crise na Ucrânia

A situação de tensão que se vive neste momento na Ucrânia, com a ameaça de uma invasão russa, não é um conflito religioso. Isso deve ficar bem claro à partida. Mas tal não significa que não haja dimensões religiosas para este problema. E há. Neste artigo vou tentar abordar algumas delas.

 1.      Choque de civilizações, mais ou menos

Depois de décadas de Guerra Fria o mundo convenceu-se de que a religião tinha deixado de desempenhar um papel importante nas relações internacionais. O mundo enganou-se. A destruição das Torres Gémeas foi apenas o mais alto soar de um alarme que já se fazia ouvir desde os anos 80, quando os movimentos árabes se começaram a transformar de marxistas em islamitas.

Muitos passaram então a adoptar a visão catastrofista do choque de civilizações, antevendo como inevitável um conflito entre o mundo cristão e o mundo muçulmano. É verdade que em muitas partes do mundo esse conflito existe, basta ver a situação em muitos países do centro de África, onde o norte muçulmano encontra o sul cristão.

Mas convém não esquecer que alguns dos piores conflitos da história foram travados entre “irmãos de fé”. E isso não nos deve surpreender, porque tanto a história macro como a história das famílias mostra bem que as discussões mais severas, mais duradouras e muitas vezes mais sangrentas – seja metaforicamente, seja literalmente – são entre irmãos. Isto acontece nas famílias e acontece nos países. Olhemos para a Guerra Civil de Espanha, que se passou aqui tão perto, mas também para a nossa própria história.

Não deixa de ser curioso, por isso, e trágico, que a maior ameaça à paz mundial neste momento se passe no Leste da Europa, opondo dois países que partilham um historial de Cristianismo intimamente ligado. Foi a Kiev que chegou a fé em Jesus que depois seguiu para Moscovo e se espalhou por toda aquela região. O conflito na Ucrânia pode ter, por isso, algumas dimensões religiosas, que iremos ver com mais detalhe, mas não pode ser descrito como um choque entre duas civilizações religiosamente diferentes.

Contudo, o problema pode ser visto de outro prisma, da civilização não no seu aspecto religioso, mas cultural. Uma significativa parte da Ucrânia, temendo a influência de Moscovo, quer voltar-se para o Ocidente, abraçando as suas instituições e estilo de vida. Nesse sentido, ainda que passado a leste, entre dois países de leste, o conflito pode ser visto como representando o choque entre oriente e ocidente.

 2.      A religião neste conflito

Disse no primeiro ponto que a Ucrânia e a Rússia partilham uma história de Cristianismo. É verdade, mas a coisa não é assim tão simples.

De facto, o Cristianismo bizantino entra naquela parte do mundo através do Grão Príncipe Vladimir, de Kiev, que manda baptizar todo o seu povo e envia missionários para leste. Em breve grande parte da actual Rússia abraçou o Cristianismo.

Mais tarde, porém, Moscovo tornava-se o centro do Cristianismo de leste que, depois do grande cisma de 1054 viria a tornar-se o mundo ortodoxo.

Com o cisma, Constantinopla assumiu-se como a “nova Roma”, uma vez que a verdadeira Roma teria caído em heresia, segundo a sua visão. Mas quando Constantinopla cai nas mãos dos muçulmanos, tornando-se Istambul, começa a circular por Moscovo a ideia de que a “terceira Roma” devia ser ali, na capital de um grande império que era o garante da Ortodoxia cristã no mundo.

É assim que Moscovo continua a encarar-se não apenas como mais um Patriarcado inter pares no mundo Ortodoxo, mas como a principal Igreja. O problema para os Russos que partilham desta visão é que embora a cidade tenha caído, o Patriarcado de Constantinopla manteve-se e o verdadeiro primus inter pares ortodoxo continua a residir ali, apesar de ter na cidade pouco mais do que cinco mil fiéis, comparados com os 200 milhões de Moscovo.


O período soviético veio congelar as pretensões da Igreja Russa, que foi sujeitada a uma perseguição impiedosa, mas infelizmente quando esta foi restaurada, em vez de insistir numa saudável separação e distância, a Igreja deixou-se envolver com o Estado e em troca da protecção de que goza corre sempre o risco de ser usada para benefício dos projectos e intenções do Kremlin e do seu homem forte, Vladimir Putin.

Quando a Ucrânia se tornou independente a sua Igreja Ortodoxa continuava sujeita à hierarquia em Moscovo. Mas a tradição na Igreja Ortodoxa é de “uma nação, uma igreja”, e por isso alguns bispos ucranianos começaram a reivindicar a criação da sua própria igreja ortodoxa.

O resultado foi uma confusão. Em 1990 formou-se a Igreja Ortodoxa Autocéfala da Ucrânia e, dois anos mais tarde, a Igreja Ortodoxa da Ucrânia – Patriarcado de Kiev. As duas eram rivais, unidas apenas na sua oposição à Igreja Ortodoxa da Ucrânia – Patriarcado de Moscovo, que era, e é, a Igreja Ortodoxa que se mantém ligada à igreja russa.

Nas bancadas, a observar estas guerras internas e a comer pipocas, estavam os membros da Igreja Greco-Católica da Ucrânia, que é a maior Igreja oriental autónoma em comunhão com o Papa, representando cerca de 10% da população.

A resposta de Moscovo perante a criação das igrejas autónomas russas foi de desprezo. Eram hereges e não reconhecidas canonicamente pelo resto do mundo ortodoxo. O Patriarcado russo continuava a insistir que era a única autoridade legítima ortodoxa na Ucrânia. Mas tudo isso mudou em 2018, quando o Patriarca de Constantinopla concedeu à Igreja Ucraniana o tomos, isto é, o reconhecimento oficial de autocefalia. Inteligentemente, as duas Igrejas ucranianas fundiram-se nesse momento para formar uma única Igreja autocéfala na Ucrânia, que imediatamente teve o reconhecimento e o apoio do Estado, ansioso para se livrar de vez da influência de Moscovo. Claro que isso é mais fácil dizer do que fazer, e houve muitos padres, monges, bispos e comunidades que se mantiveram fiéis a Moscovo, por variadíssimas razões.

Como se pode ver a dimensão religiosa aqui não está na raiz do conflito actual, que tem muito mais a ver com questões económicas (recursos naturais) e geopolíticas (com a Rússia a querer manter e alargar a sua esfera de influência), do que com igrejas, mas não sendo a causa é uma dimensão que complica ainda mais um problema que já de si é difícil de resolver.

3.      O tribalismo no cristianismo oriental

E chegamos assim ao terceiro ponto, que é o perigo sempre presente do tribalismo no Cristianismo oriental.

Os católicos de tradição latina têm uma certa aversão às igrejas nacionais. Mas a história ditou que fosse essa a lógica a imperar no cristianismo oriental. Assim vemos que os ortodoxos não têm uma Igreja, com um líder, mas uma multiplicidade de igrejas nacionais ou étnicas, cada uma com o seu próprio líder. Assim, existe a Igreja Ortodoxa da Grécia, da Roménia, da Bulgária, da Letónia, etc., cada uma com o seu líder, seja Patriarca ou não, e todas em comunhão umas com as outras, reconhecendo no Patriarca de Constantinopla uma primazia de honra, que pouco tem a ver com a primazia do Papa na Igreja Católica.

Esta realidade leva a uma grande riqueza em termos de tradição e liturgia, por exemplo, uma vez que a descentralização promove a variedade. Mas tem também um enorme senão, que é a promoção do tribalismo cristão.

Este tribalismo tem duas grandes vertentes negativas. A primeira é mais estrutural, que é o facto de criar obstáculos à evangelização. Uma Igreja que se identifica com uma nação ou com uma etnia torna-se imediatamente menos atractiva para um convertido do que uma igreja que é universal. O resultado prático é que a Igreja Católica de rito latino, que sempre se viu mais como universalista do que étnica, cresceu de uma forma absolutamente desproporcional, enquanto as igrejas ortodoxas – não obstante alguns casos de sucesso de evangelização – continuam remetidas muito à sua própria realidade étnica ou nacional.

Isto é muito aparente nas Igrejas cristãs de países de maioria muçulmana, como a Igreja copta ou a igreja maronita, melquita, ou siríacas, no Médio Oriente. E assim vemos que quando um árabe muçulmano se quer converter, normalmente acaba por entrar para uma igreja evangélica, ou para a Igreja Católica, uma vez que as locais, apesar de serem originárias daquele espaço geográfico, estão de tal forma identificadas com etnias e tradições culturais próprias, que o convertido se sente sempre como um estrangeiro.

Mas o segundo aspecto negativo é mais conjuntural e imediato no seu perigo, que é a cooptação da Igreja pelo Estado para servir interesses que não são religiosos. É isso que estamos a ver na Ucrânia, onde as Igrejas ucraniana e russa estão a ser arrastadas – ou a correr de livre vontade – para um confronto, quando na verdade este nada tem de religioso. Esta promiscuidade entre estado e religião tende a cobrar às religiões um preço muito mais alto do que as eventuais vantagens a curto prazo que podem retirar. Esse é um erro com o qual ucranianos e russos já deviam ter aprendido ao longo do último século, mas que infelizmente parecem teimar em querer repetir.

 4.      E a Igreja Católica nisto tudo?

Da próxima em Moscovo?

Por estranho que pareça, a Igreja Católica é afectada por esta crise que se passa entre dois países de esmagadora maioria ortodoxa.

A Igreja Greco-Católica da Ucrânia pode representar só 10% da população, mas é a maior comunidade católica no mundo tradicionalmente ortodoxo. Para terem uma ideia, enquanto existem cerca de cinco milhões de católicos na Ucrânia – mais uma significativa diáspora de greco-católicos em várias partes do mundo – o número de católicos na Rússia é de apenas 140 mil.

Estes católicos ucranianos sofreram duramente, mais até do que os seus irmãos ortodoxos, pela sua fidelidade a Roma. Num momento destes, em que se sentem injustiçados, esperam poder contar com o apoio do Papa.

Mas não podemos esquecer que um dos grandes objectivos ecuménicos deste pontificado é de conseguir visitar a Rússia e ter, lá, um encontro com o Patriarca de Moscovo. É algo que o Papa Bento XVI e, sobretudo, João Paulo II já queriam ter feito e não conseguiram. Se a Igreja Católica for vista a manifestar demasiado apoio à Ucrânia ou a censurar a atitude da Rússia, as probabilidades de esta visita acontecerem reduzem-se a zero. Já o contrário, uma visita do Papa ao Patriarca Kiril num contexto de um cerco à Ucrânia e com a Igreja russa firmemente ao lado de Putin, será vista por muitos católicos ucranianos como uma traição.

Até agora o Papa tem feito aquilo que lhe cabe, que é apelar incansavelmente para uma solução pacífica para esta crise. Se de facto começar um conflito armado em maior escala, veremos se isso é suficiente.

Wednesday, 10 July 2019

Califórnia recua do confessionário, Rússia das ogivas

Quantos objectos vê?
A Califórnia retirou da agenda uma proposta de lei que obrigaria os padres a violar o segredo da confissão nalguns casos de abusos sexuais.

As dioceses do interior estão abertas a ajudar os estudantes a conseguir alojamento mais barato.

O diretor da Capela Sistina demitiu-se, no meio de alegações de fraude e irregularidades financeiras.

E do mundo das realidades paralelas, a Igreja Ortodoxa da Rússia está a pensar se devia, ou não, deixar de benzer coisas, tipo… ogivas nucleares e mísseis balísticos

É casado? Agora pense no que representa a sua aliança. Já pensou? A sua resposta foi algo do género: “representa o meu amor e fidelidade pela minha esposa/o meu esposo”?

Wednesday, 6 February 2019

A Transformação do “Pulmão Oriental”

Myroslav Marynovych

Embora quase ninguém no mundo ocidental tenha reparado, houve recentemente um desenvolvimento importante para o Cristianismo global. Durante o Sínodo da Igreja Ortodoxa de Kyiv, no dia 15 de Novembro de 2018, foi criada uma nova Igreja Autocéfala da Ucrânia. A medida foi saudada pela Igreja Greco-Católica da Ucrânia.

Estaremos perante mais um caso de “nacionalismo ucraniano” numa altura em que a Rússia se tem tornado cada vez mais ativa? Ou será este o resultado da rivalidade entre Constantinopla e Moscovo por influência sobre a Ucrânia? E o que é que isto representa para os Ortodoxos e para a Igreja Católica?

Na realidade, estamos perante uma mudança gigantesca na Igreja. O Papa João Paulo II convidou a Europa a respirar com dois “pulmões” – o Ocidental e o Oriental. Normalmente sabemos bem o que é o “pulmão ocidental”, mas o que é o oriental?

Entre os séculos XI e XIV a resposta era inequívoca: O oriente cristão estava organizado em torno de dois centros: a Igreja de Constantinopla (incluindo a Grécia e Atenas) e a sua Igreja “filha”, a Igreja de Kyiv, de onde o Cristianismo se espalhou para outras terras orientais.

Entre os séculos XV e XVIII aconteceu uma “deriva continental” tremenda e Moscovo acabou por substituir Kyiv (Kiev). A partir de então o Oriente Cristão passou a estar centrado em Constantinopla e Moscovo. Muscovy absorveu em si mesmo tanto o território da antiga Rus’ de Kyiv como a Metropoly eclesiástica de Kyiv, tornando-se o Império Russo.

As características distintivas da antiga espiritualidade de Kyiv foram rigorosamente limitadas para se conformarem com os interesses do modelo russo de Cesaropapismo. Livros eclesiais “suspeitos” foram queimados. Figuras dissidentes da Igreja foram reprimidas.

Kyiv passou a estar submetida à “Terceira Roma” (Moscovo) tanto debaixo do Czar como das ditaduras comunistas. Foi só com o colapso da União Soviética que o glaciar estalinista descongelou. O que a propaganda do Kremlin classificava de nacionalismos locais, que alegadamente destruíam a unidade cristã, era a libertação dos povos e das suas comunidades eclesiásticas da influência monopolista do mais poderoso dos nacionalismos, o chauvinismo russo.

Na Ucrânia voltou a nascer a ideia de uma Igreja Ortodoxa autocéfala. O Kremlin, e a Igreja Ortodoxa Russa que lhe era subserviente, responderam de duas formas.

A primeira foi uma descriminação metódica contra os desenvolvimentos eclesiais e políticos na Ucrânia. Nas palavras de um observador ucraniano, a propaganda russa usava terminologia aparentemente retirada do “dicionário ocidental de ‘valores humanitários’, mas na verdade operava com ideias-lobisomem, ideias-parasita e ideias-fantasma” (Andriy Baumeister). O mundo ocidental não deu por esta manipulação e, pelo menos até recentemente, aceitou-a de forma acrítica.

O segundo método consistia em propagar o conceito do “mundo russo” avançado por Cirilo, o Patriarca de Moscovo, que na verdade é uma doutrina imperial quasi-religiosa que proclama a “unidade espiritual” de todos os russófonos e povos ortodoxos. 

Isto tornou-se uma forma de legitimar a guerra da Federação Russa contra a Ucrânia, alegadamente em nome da defesa da população russófona. Agora a propaganda do Kremlin está a preparar o mundo para um possível novo ataque contra a Ucrânia, para “proteger” a população ortodoxa.

Assim, hoje estamos a assistir a uma profunda transformação do “pulmão oriental”. O Patriarcado Ecuménico de Constantinopla pressentiu para onde as coisas estavam encaminhadas e tomou a medida pouco comum de intensificar as suas atividades no mundo ortodoxo. Apesar de o Patriarcado Ecuménico ser apenas um “primeiro entre iguais” – e não o líder solitário da Igreja (como acontece com o Papa no Ocidente) – ele assumiu a responsabilidade pelo destino da Igreja ucraniana, que tinha sido separada de Constantinopla.

Há vários sinais de que o Oriente Eslavo do “pulmão Oriental” é ainda largamente disfuncional. O comunismo foi um profundo trauma do qual os povos das antigas repúblicas soviéticas ainda não recuperaram inteiramente. Em muitos lugares as pessoas perderam a cultura cristã e a compreensão do verdadeiro significado da fé cristã. Por isso, ainda poderemos vir a ter notícias preocupantes – tanto políticas como religiosas – de Kyiv. Mas, apesar de tudo, está em curso uma importante reorganização e as mudanças futuras afetarão o mundo cristão por inteiro.

Metropolita Epifânio, da nova Igreja Ortodoxa da Ucrânia
A influência de Constantinopla poderá acabar por ser extremamente importante. Isto já foi manifestado através da promulgação do Estatuto da recém-constituída Igreja Ucraniana, que alterou substancialmente os procedimentos administrativos, democratizando-os.

Até aqui os cristãos ocidentais têm-se preocupado sobretudo com a preservação do status quo com Moscovo, como se o oriente cristão se resumisse à Igreja Ortodoxa Russa. Aos olhos ocidentais isto parecia ser essencial para a paz cristã e o diálogo ecuménico. A diplomacia do Vaticano tem sido cuidadosa em não intervir nos assuntos internos dos ortodoxos.

Mas a situação atual apresenta um desafio claro para a Igreja Católica. Nas palavras do cardeal Christoph Schönborn, de Viena: “Como é que o Vaticano deve relacionar-se com a nova Igreja Ortodoxa da Ucrânia? Se a reconhecer, isso levará a um conflito com o Patriarcado de Moscovo. Se não a reconhecer, isso conduzirá a um conflito com o Patriarcado Ecuménico.”

As Igrejas Ocidentais têm de compreender que o antigo status quo já não é sustentável. A situação exige uma mudança radical das posições atuais, incluindo a reconsideração dos atuais modelos de ecumenismo.

Os cristãos conscientes não podem continuar a considerar aceitável a linguagem de ultimatos e de exclusões usada pela Rússia. Os crentes ortodoxos da Ucrânia são uma parte legítima da oikumene cristã e estão, atualmente, sob cerco.  

Eles podem tornar-se um catalisador para uma transformação civilizada de todo o espaço pós-soviético, a começar pela Rússia. Os ocidentais devem compreender as novas realidades na Europa Oriental e perceber que a inclusão das Igrejas Ucranianas no diálogo com o mundo pode trazer mais benefícios do que o isolamento continuado.

Depois da queda do comunismo muitos ocidentais esperavam que o mundo eslavo, silenciado durante tanto tempo, ficaria finalmente livre para contribuir corretamente para a cultura cristã e para todo o mundo. Hoje, com a criação de uma Igreja Ortodoxa Ucraniana, pode ser que uma voz importante esteja finalmente a fazer-se escutar.



Myroslav Marynovych é vice-reitor para missão na Universidade Católica da Ucrânia, em Lviv, na Ucrânia, e president do Instituto de Religião e Sociedade da mesma universidade. Foi fundador do Ukraninian Helsinki Group e prisioneiro de consciência entre 1977 e 1987. Presidiu às estruturas da Amnistia Internacional na Ucrânia entre 1991 e 1996 e foi também president do Centro Ucraniano da PEN International.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 2 de Fevereiro de 2019)

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