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Wednesday, 1 November 2023

O Islão e o Realismo Cristão

Francis X. Maier

Na sua maioria, os ocidentais ficaram chocados com a selvajaria dos recentes ataques do Hamas contra Israel, e o assassinato sistemático de cidadãos israelitas por terroristas do Hamas. Essa maldade foi agravada pela culpabilização de Israel pelo catastrófico bombardeamento de um hospital em Gaza, quando as provas demonstram agora que na verdade as centenas de mortes foram causadas por um projéctil do Hamas. Mas talvez o mais surpreendente de tudo tenha sido ver milhões de pessoas no mundo árabe e em muitas capitais do ocidente a celebrar a violência do grupo terrorista palestiniano.

Desde o Concílio Vaticano II que os católicos, e muitos outros cristãos, têm valorizado o diálogo e a cooperação inter-religiosa, sobretudo com o judaísmo, mas também com o Islão. Os resultados – como eu vi em primeira mão nos anos em que trabalhei na área inter-religiosa de uma diocese – têm sido muitíssimo benéficos. Contudo, vale a pena recordar que enquanto o Cristianismo tem as suas raízes no Judaísmo, a nossa relação com o Islão é um assunto muito diferente. Daí que valha a pena meditar seriamente sobre alguns dos seguintes pensamentos:

Islão e a Palavra de Deus:

Quem conhece o Antigo e o Novo Testamentos e depois lê o Alcorão, pode ver claramente o processo através do qual ele reduz completamente a Revelação Divina [ênfase no original]. É impossível não reparar no afastamento daquilo que Deus disse sobre Si mesmo, primeiro no Antigo Testamento, através dos profetas, e por fim no Novo Testamento, através do seu Filho. No Islão toda a riqueza da autorrevelação de Deus, que constitui a herança do Antigo e do Novo Testamento, é definitivamente posta de lado.

Alguns dos nomes mais belos da linguagem humana são atribuídos a Deus no Alcorão, mas no final de contas Ele é um Deus fora do mundo, um Deus que é apenas majestade, nunca Emmanuel, Deus connosco. O Islão não é uma religião de redenção

Por esta razão, não só a teologia, mas também a antropologia islâmica é muito distante do Cristianismo.

– São João Paulo II, em Atravessar o Limiar da Esperança

Islão e Conflito:

O mundo, tal como o académico Bat Ye’or tão brilhantemente demonstra, divide-se em duas regiões: o dar al-Islam e o dar al-harb; por outras palavras, o “domínio do Islão” e “o domínio da guerra”. O mundo já não se encontra dividido em nações, povos e tribos. Antes, estes encontram-se localizados em bloco no mundo da guerra, onde a guerra é única relação possível com o mundo exterior. A Terra pertence a Allah, e os seus habitantes devem reconhecê-lo; para atingir este objectivo só existe um método: guerra. A guerra, por isso, é claramente uma instituição, não apenas uma instituição acidental ou fortuita, mas uma parte constituinte do pensamento, organização e estruturas deste mundo. A paz com este mundo da guerra não é possível. Como é evidente, por vezes pode ser necessário travá-la; existem circunstâncias em que é melhor não travar guerra. O Alcorão também prevê isto. Mas isso não muda nada: Para o Islão, a guerra permanece uma instituição, pelo que deve ser resumida logo que as circunstâncias o permitam. 

Enfatizei muito as características desta guerra porque hoje em dia se fala tanto da tolerância e do pacifismo fundamental do Islão, que se torna necessário recordar a sua natureza, que é fundamentalmente bélica.

 o já falecido Jacques Ellul, distinto teólogo e crítico social protestante francês, do prefácio que escreveu para The Decline of Eastern Christianity Under Islam: From Jihad to Dhimmitude, de Bat Ye’or

Islão, política e cultura:

As duas religiões que têm uma dimensão “política” não a adquiriram do mesmo modo. O Cristianismo ganhou terreno no mundo antigo contra o poder do Império Romano, que perseguiu os cristãos durante quase três séculos antes de adoptar a religião cristã. Já o Islão, depois de um período breve de provações, triunfou durante a vida do seu fundador. Depois conquistou, pela guerra, o direito a operar em paz, e até mesmo o direito de ditar as condições de sobrevivência para os seguidores das outras religiões “do livro”. Em termos modernos, podemos dizer que o Cristianismo conquistou o Estado através da Sociedade Civil; o Islão, pelo contrário, conquistou a sociedade civil através do Estado [ênfase no original].

Assim, desde o início, o Cristianismo colocou-se à parte do domínio político, e os seus textos fundadores dão testemunho de uma desconfiança dos assuntos políticos… Para o Islão, a separação entre o político e o religioso não tem direito a existir. Chega a ser chocante, pois parece um abandono dos assuntos humanos ao poder do mal, ou a despromoção de Deus para um lugar fora da sua esfera própria. A cidade ideal deve ser aqui na Terra. Em princípio, ela até já existe: é a cidade islâmica. 

– Remi Brague, vencedor do prémio Ratzinger e professor emérito de filosofia medieval e árabe na Sorbonne, em A Lei de Deus

Não obstante a sua relação de herança comum com o Judaísmo e o Cristianismo, remontando a Abraão, e apesar do seu respeito formal por Jesus e por Maria, o Islão tem muito pouco em comum com a fé cristã. O Islão rejeita a Trinidade, a Encarnação e a Redenção. Nega a veracidade dos Evangelhos, e nega as origens e o propósito da Igreja. Na verdade, o Islão reconhece o Judaísmo e o Cristianismo apenas como aberrações na sua própria história sincretista.

Hoje, em estados islâmicos como o Sudão, o Egipto, o Irão, o Paquistão, a Turquia, o Bangladesh e a Indonésia, os cristãos enfrentam desde a marginalização e o assédio até à violência explícita. A razão é simples. Independentemente de todas as forças do Islão, o preconceito antijudaico e anticristão tem um historial longo e frequentemente amargo no Islão, não obstante afirmações em contrário. 

Isto não constitui uma licença para agirmos de igual modo, mas exige, isso sim, que tragamos para os nossos encontros modernos com o Islão – tanto no Médio Oriente como aqui no ocidente – uma abordagem realista e firme, e uma memória histórica correcta. À luz do Evangelho, Maomé não é um verdadeiro profeta e o Alcorão não é a Palavra de Deus. Como Jesus Cristo afirmou, apenas ele é o caminho para o Pai. E no final de contas os muçulmanos não O conhecem. Sem o nosso testemunho activo junto do mundo Islâmico, nunca o conhecerão.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 25 de Outubro de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Thursday, 27 July 2023

A tortuosa caminhada religiosa da Madre Marie Bernadette (AKA Sinéad O’Connor)

A morte de Sinéad O’Connor, ontem, aos 56 anos, tem sido lamentada e muito se tem falado sobre o seu percurso musical. Menos atenção tem merecido a sua muito complexa caminhada religiosa.

O primeiro grande incidente de carácter religioso em que Sinéad O’Connor se envolveu foi em 1992 quando rasgou uma fotografia do Papa João Paulo II durante uma actuação em directo na televisão.

A cantora estava a cantar a música “War” de Bob Marley, no Saturday Night Live e o combinado era que durante a música seguraria numa fotografia de uma criança soldado. Contudo, quando chegou a esse momento mostrou uma fotografia de João Paulo II e rasgou-a em pedaços, enquanto dizia “luta contra o verdadeiro inimigo”.

O’Connor defendeu o seu gesto como uma crítica aos abusos sexuais de crianças no seio da Igreja Católica. Independentemente do que se possa pensar sobre o acto em si, a verdade é que estava alguns anos à frente do seu tempo, pois como se veio a ver o escândalo dos abusos e do seu encobrimento existiam de facto em vários países, incluindo na sua nativa Irlanda, mas ainda não se falava muito do assunto.

O incidente foi recebido com silêncio sepulcral em estúdio, mas levou a fortes críticas nas semanas seguintes, de tal forma que num concerto de tributo a Bob Marley nem conseguiu acabar de cantar, tais foram os apupos da multidão. Foi ainda criticada por Madonna por ter ofendido a Igreja Católica e pelo apresentador do SNL, Joe Pesci, que mostrou a mesma fotografia recomposta e colada por ele e disse que se não fosse o apresentador teria dado à cantora uma chapada.

Foi por isso com alguma estranheza que muitos assistiram à transformação de O’Connor de contestatária do Papa em sacerdotisa de uma Igreja cismática supostamente tradicionalista.

A Igreja em causa era a Igreja Latina Tridentina, conhecida oficialmente como Igreja Ortodoxa Católica e Apostólica da Irlanda (IOCAI), liderada pelo bispo Michael Cox. Cox tinha sido ordenado por Ciarán Broadbery, que por sua vez tinha sido ordenado por Clemente Dominguez, líder da Igreja Católica Palmariana, que por sua vez tinha sido ordenado pelo bispo vietnamita Ngô Đình Thục. De todos estes, Thục era o único que alguma vez tinha sido um bispo católico válido, mas acabou, sem surpresas, por ser excomungado, juntamente com todos os outros bispos que ordenou ilicitamente. A IOCAI apresentava-se como sendo ultraconservadora e celebrava o rito tridentino, mas isso não impediu o seu bispo de convidar Sinéad O’Connor para ser ordenada depois de ela lhe fazer um donativo de 50 mil libras irlandesas. Em abono da verdade, diga-se que o donativo foi retirado depois de ela ter sido acusada de simonia pela Igreja Católica da Irlanda, mas a “ordenação” avançou e Sinéad adoptou o nome “Madre Marie Bernardette”.

Numa entrevista em que falou longamente sobre o assunto explicou que se considerava uma sacerdotisa católica legítima e válida e que poderia levar anos, mas Roma acabaria por aceitá-la como tal. Disse também que nunca mais iria usar outra roupa para além das suas vestes sacerdotais e que iria leiloar toda a sua roupa e maquilhagem, para juntar dinheiro para fundar uma casa em Lourdes onde os “travellers” – uma comunidade ao estilo cigano que vive nas Ilhas Britânicas – poderem ir passar férias. Por fim, disse que estava a pensar seriamente em fazer um voto de celibato, mas que o seu namorado lhe tinha pedido para pensar no assunto durante uns 25 anos. Não faço ideia se o leilão da roupa chegou a acontecer, nem se a casa em Lourdes foi construída, muito menos se o voto de celibato se concretizou, mas tenho sérias dúvidas. O mais espantoso é que toda esta conversa decorreu – pelo menos da parte de Sinéad – com a maior seriedade e convicção.

Não sei ao certo quando é que Sinéad deixou de se considerar sacerdotisa e de exercer como tal, mas sabe-se que em 2018 a sua vida religiosa levou outra volta inesperada quando ela anunciou que se tinha convertido ao Islão, adoptando o nome Shuhada' Sadaqat. Shuhada significa “mártires”, ou mais literalmente “aqueles que dão testemunho” e Sadaqat significa dar esmola.

Na altura O’Connor, AKA Madre Marie Bernardette, AKA Sinéad Sadaqat (e estou a deixar de fora outro nome – Magda Davitt – que tinha adoptado entretanto) justificou a sua decisão de se converter ao Islão como “a conclusão natural da caminhada de qualquer teólogo inteligente”. Numa mensagem particularmente polémica, disse que as pessoas não muçulmanas são nojentas, e que nunca mais queria passar tempo com qualquer uma. Mais tarde pediu desculpa.

Não se goza com os mortos, nem é esse o objectivo deste texto. Antes, pretendo demonstrar não só a fascinante – se conturbada – vivência religiosa da cantora irlandesa, mas também como estas procuras por espiritualidades alternativas tão facilmente acabam por conduzir a uma espiral de loucura e irracionalidade.

Num dos seus muitos comentários sobre religião, Sinéad O’Connor disse: “Penso que Deus salva todos, quer queiram ser salvos ou não. Por isso, quando morremos, iremos todos para casa. Acho que Deus não julga ninguém. Ama a todos por igual”.

Esta frase não podia ser menos ortodoxa, mas pelo meio tem uma verdade. Sim, Deus ama todos por igual. E a verdade é que só Deus sabe o que se passava na mente e na alma claramente perturbadas de Sinéad O’Connor. Esperemos que o seu encontro com Ele tenha sido de facto um regresso a casa e o começo de uma nova vida de paz.

Monday, 26 June 2023

Muçulmanos angariam dinheiro para libertar cristãos

Infelizmente, não é difícil encontrar notícias sobre violência e perseguição inter-religiosa e em muitos casos as comunidades cristãs sofrem às mãos de grupos fundamentalistas islâmicos. 
Mas é precisamente por isso que importa também dar eco de histórias como esta, que acabei de ler, passada na Nigéria. 
No dia 7 de Maio um grupo de dezenas de cristãos de uma igreja baptista foram raptados por bandidos. Os raptos na Nigéria são um fenómeno complexo, uma verdadeira indústria. Os culpados são frequentemente apenas bandidos à procura de resgates, mas noutros casos há um factor religioso em jogo, tratando-se de criminosos muçulmanos que raptam cristãos precisamente para hostilizar a comunidade e tentar levá-los a abandonar a área. Há também questões étnicas em jogo. 
Neste caso, contudo, o que há a assinalar é o facto de os muçulmanos da comunidade de onde foram raptados os cristãos baptistas terem ajudado a angariar dinheiro e até comprado uma motorizada para poder pagar o resgate necessário para libertar os seus vizinhos. 
Num país onde a tensão inter-religiosa há muito que atingiu níveis extremos, esta é uma notícia que nos deve encher de esperança e recordar-nos que pessoas de diferentes religiões têm sempre um património comum, nem que seja o pequeno-enorme aspecto da sua humanidade. 
Há muita tragédia no mundo, muito com que nos preocupar e muito para lamentar. Mas temos também a liberdade de escolher as histórias que decidimos contar e partilhar. Esta merece, sem dúvida!

Thursday, 11 May 2023

Quem são os Coptas?

Os coptas são os descendentes dos egípcios antigos e a sua presença no país antecede a invasão árabe do século VII.

O Cristianismo existe no Egipto desde a sua aurora. A tradição atribui a evangelização naquela região ao Evangelista São Marcos, que terá sido bispo de Alexandria.

Desde os primeiros tempos da era cristã Alexandria assumiu uma enorme importância na Igreja Universal. Era um grande centro de educação cristã e só se encontrava atrás de Roma na hierarquia dos primeiros quatro Patriarcados – Roma, Alexandria, Antioquia e Jerusalém.

Foi na região do Egipto que nasceu a tradição do monaquismo, preconizada por Santo Antão. Ainda hoje os mosteiros são uma pedra angular da cultura e espiritualidade cristã copta, incluindo uma iconografia muito rica e distinta. Um exemplo é o ícone de São Minas e Cristo, que foi adoptado pela comunidade ecuménica de Taizé.
A palavra Copta deriva do egípcio Aegiuptos, que significa nada mais nada menos que “egípcio” e desde a invasão árabe passou a designar os habitantes originais do país, que na sua maioria mantiveram o Cristianismo.

Não há estatísticas fiáveis, mas calcula-se que os cristãos coptas representem entre 10% a 20% da população, o que equivale a entre 8 e 16 milhões de fiéis. A esmagadora maioria pertence à Igreja Copta Ortodoxa, liderada pelo Patriarca de Alexandria, Papa Tawadros II eleito em Novembro de 2012. Esta Igreja separou-se da Igreja Universal depois do concílio de Calcedónia, devido a divergências teológicas sobre a natureza de Cristo. Faz parte da comunhão de Igrejas Ortodoxas pré-calcedónias juntamente com a Igreja Arménia Ortodoxa, a Igreja Siríaca Ortodoxa, a Igreja Ortodoxa Etíope e a Igreja Malankara, da Índia. As divergências que levaram à separação já foram sanadas através de declarações conjuntas entre estas igrejas e a Igreja Católica, mas a separação mantém-se. A utilização do título "Papa" pelo líder dos coptas é antiga e nada tem de pretensão ou usurpação da autoridade do Papa da Igreja Católica. 

Existem ainda outras confissões cristãs no Egipto, incluindo algumas igrejas coptas protestantes e uma pequena Igreja Copta Católica, com umas centenas de milhares de fiéis.

Há também uma importante diáspora copta em países ocidentais, tal como a Austrália, Estados Unidos ou Reino Unido. Em Portugal os cristãos coptas, de diferentes confissões, contam-se pelos dedos.

Há longos anos que os coptas se queixam de discriminação política, religiosa e social. A comunidade praticamente não está representada nas forças armadas, na polícia ou no sistema judicial. Desde o regime de Mubarak que é extraordinariamente difícil construir ou sequer restaurar igrejas, enquanto as leis que regem as mesquitas são muito mais permissivas. 

Mesmo assim, muitos coptas temeram as revoltas da Primavera Árabe, que levaram ao derrube de Mubarak, mas milhares de cristãos, sobretudo jovens, estiveram nas ruas a contribuir para a libertação do país. Os medos dos mais cépticos pareceram justificados quando um Governo da Irmandade Muçulmana venceu as primeiras eleições, e a situação começou a deteriorar-se para os cristãos que, sem grandes surpresas, apoiaram na maioria a revolta do general Sisi que levou ao derrube desse governo.

A situação interna melhorou sob a alçada de Sisi, mas a aparente colagem ao homem forte do Egipto tem servido para hostilizar ainda mais os jihadistas que, num dos piores episódios de violência contra os coptas, decapitaram 21 cristãos numa praia na Líbia, em Fevereiro de 2015. Seguiram-se outros atentados contra a comunidade copta dentro do Egipto. Em 2017 morreram perto de 30 cristãos que estavam em peregrinação para um mosteiro no deserto quando foram interceptados por terroristas que abriram fogo sobre os civis desarmados.

Coptas etíopes?
Por vezes os cristãos da Etiópia são apelidados de coptas também. Isto deve-se ao facto de esta Igreja ancestral (a Etiópia é o país cristão independente mais antigo do mundo) ter estado na esfera de influência dos Patriarcas de Alexandria durante muitos séculos.

Eram estes quem nomeava um bispo para reger a Igreja Etíope, ordenar sacerdotes e resolver disputas teológicas e litúrgicas. A Igreja Etíope apenas se tornou independente em 1959, com a nomeação de um Patriarca próprio.

Em bom rigor, porém, o termo copta apenas se aplica correctamente aos cristãos de origem egípcia.

[Texto publicado originalmente a 13 de Outubro de 2011, actualizado no dia 11 de Maio de 2021]

Friday, 17 December 2021

Sugestão de Natal e liberdade de oração restaurada na Alemanha

Começo este mail com uma sugestão de Natal. Há vários anos li, fascinado, o livro “Not in God’s Name” do rabino Jonathan Sacks. Foi com enorme alegria que soube agora que a editora Saída de Emergência publicou o livro em português. Já comprei um exemplar (encomendei da editora, chegou em dois dias) e vou oferecer a pelo menos duas pessoas próximas. “Não em Nome de Deus” é uma resposta à subida da violência religiosa. O rabino, que tristemente já morreu, faz uma análise de episódios de conflito – incluindo conflito fratricida – no Antigo Testamento e mostra como o objetivo dos textos sagrados é mesmo o contrário de incentivar à violência. Termino assegurando que este não é um livro para especialistas ou académicos, sendo acessível para toda a gente.

Passando às notícias do dia, os EUA impuseram sanções à China por causa da perseguição aos muçulmanos uigure.

Boas notícias da Alemanha, onde um tribunal anulou a proibição de se rezar em frente a uma clínica de aborto perto de Frankfurt.

A Renascença entrevistou o presidente da Conferência Episcopal, D. José Ornelas, que falou sobre vários assuntos, incluindo o papel das igrejas na pandemia, a crise dos abusos e ainda os problemas no sistema de nomeação dos bispos.

Tudo isto no dia em que o Papa Francisco completa 85 anos!

Friday, 5 November 2021

A Cultura da Morte não desiste, persiste

Raffaella Petrini, a Franciscana do Francisco
Sem surpresas, o Parlamento voltou a aprovar a lei da eutanásia, agora com umas pequenas alterações que na verdade não mudam coisa nenhuma. As confissões religiosas voltaram a manifestar-se contra e a Associação de Juristas Católicas espera que o Presidente vete o diploma.

Um novo relatório sobre abusos sexuais, desta vez no estado do Nebrasca, nos Estados Unidos. Há, como sempre, histórias arrepiantes e muita coisa para envergonhar a Igreja, mas há também dados positivos como o facto de se comprovar, novamente, que as medidas de prevenção adotadas no ano 2000 resultaram e continuam a resultar.

Sobre o mesmo tópico, o Papa mandou uma carta à Igreja francesa, ainda a recuperar do escândalo do seu próprio relatório (sobre o qual escrevi aqui), a dizer que está solidário como eles para carregarem juntos o fardo da vergonha. E em Portugal os bispos prometem continuar a acompanhar o assunto.

A Grécia juntou-se aos países que proíbe a matança ritual de animais para consumo, deixando assim as comunidades islâmicas e judaicas sem outra opção que não importar carne kosher e halal e com um forte sentimento de não serem bem-vindos…

Conheça aqui a mulher que ocupa um alto cargo no Vaticano. É franciscana e cientista política.

Costuma rezar pelos padres que acompanharam a sua família? Não deixe de o fazer, porque é bem possível que mais ninguém o faça. Tudo explicado no artigo desta semana do The Catholic Thing.

Wednesday, 6 October 2021

Sementes Plantadas no Afeganistão

Ines A. Marzaku

Numa altura em que mesmo os líderes militares da desastrosa retirada do Afeganistão admitem o seu fracasso, e de tantas outras coisas terem corrido mal naquele país em perpétuo estado de sítio, é bom recordar que, à sua maneira discreta, a Igreja tem estado a trabalhar e manteve naquele país uma presença significativa. Várias agências católicas têm estado a ajudar os afegãos ao longo dos últimos anos, mas há uma em particular que merece a nossa atenção.

Foi desta forma que o padre barnabita Giovenni Scalese, superior da missio sui iuris no Afeganistão, anunciou o seu regresso a Itália depois da retirada das forças internacionais.

Cheguei esta tarde ao aeroporto de Fiumicino com cinco freiras e catorze crianças deficientes, de quem elas cuidavam em Cabul. Agradecemos ao Senhor o sucesso da operação. Agradeço a todos vocês que ao longo destes dias lhe dirigiram orações incessantes por nós e que, claramente, foram atendidas. Continuem a rezar pelo Afeganistão e pelo seu povo!

O padre Scalese estava acompanhado de quatro Missionárias das Caridade, a ordem de Madre Teresa, que estavam no Afeganistão desde 2006, e de uma freira paquistanês, Bhatti Shahnaz, da Congregação de Saint Jeanne-Antide Thouret. A irmã Shahnaz geria um acolhimento para crianças com deficiências mentais que foi fundado pela associação Pro Bambini de Cabul. Infelizmente essas crianças não puderam escapar. O regresso do padre Scalese a Itália marcou o fim da missão de 88 anos dos barnabitas no Afeganistão.

Que resultados teve esta missão? Alguma coisa foi “concretizada”?

Os únicos missionários católicos no país foram forçados a fugir e as perspetivas de que possam regressar são poucas. Mas a Igreja tem enfrentado sempre desafios aparentemente impossíveis desde que apareceu em pleno Império Romano, porém Deus lá vai conseguindo os seus caminhos.

Vale a pena, por isso, olhar para história e ter esperança no futuro. Em 1921 a Itália tornou-se o primeiro país ocidental a reconhecer e a estabelecer relações diplomáticas com o Afeganistão. Os dois estados concordaram abrir embaixadas nos seus respetivos países e os afegãos aceitaram que a embaixada italiana tivesse um capelão católico. O Rei do Afeganistão naquela altura, Amanullah, via com bons olhos a necessidade de dar assistência espiritual aos estrangeiros a residir no país.

Um ano mais tarde fez o pedido ao Governo italiano. Talvez tenha sido a primeira vez que um Rei de um país muçulmano tenha solicitado um capelão católico para atender aos estrangeiros cristãos residentes. Havia apenas duas condições, não poderia haver qualquer proselitismo da população muçulmana e a capela deveria ser construída dentro da embaixada italiana, uma vez que legalmente não se podia construir uma igreja em solo islâmico.

O Governo italiano pediu ajuda ao Papa Pio XI, que afirmou: “Precisamos de um barnabita”. Optou assim pelos Clérigos Regulares de São Paulo, conhecidos como barnabitas, e que incluem padres, religiosas e leigos, sobretudo casais.

A ordem, fundada em 1530 inspira-se em São Paulo. O padre Egidio Caspani foi selecionado para dar início à missão. Outro barnabita, o padre Ernesto Cagnacci, viria a juntar-se-lhe como funcionário da embaixada italiana. A primeira missa católica foi celebrada lá no dia 1 de janeiro de 1933, marcando o início oficial da missão.

O padre Giovanni Scalese, em Cabul


Em 2002 o Papa João Paulo II elevou a missão cristã de Cabul para o estatuto de Missio sui iuris – uma missão independente que fica sob a jurisdição direta da Igreja. Consequentemente a missão e a Igreja passaram a ser presenças oficiais cristãs naquele país muçulmano. A Igreja, como é evidente, não tinha uma comunidade local, nem clero afegão, mas com o passar do tempo a missão e os padres tornaram-se parte da reconstrução do Afeganistão. O padre barnabita Giuseppe Moretti ajudou a fundar, em 2005, a Escola de Paz Tangi-Kalay, que recebe financiamento público e donativos privados.

A missão barnabita no Afeganistão operava com base no modelo da Missão de Paulo em Malta, narrada em Actos, 28, 1-10. Era uma missão de presença, partilha e gratidão. A presença e o serviço de Paulo para com os ilhéus eram cristológicos: Cristo veio para servir e não para ser servido e Paulo estava a imitar o mestre. O testemunho barnabita no Afeganistão era um testemunho de Deus: eram padres católicos que se tinham tornado párocos por excelência de todo Cabul, e antes da recente retirada gozavam já de uma presença de quase um século entre o povo afegão.

Não é o primeiro caso de testemunhos santos de cristãos entre muçulmanos e os resultados poderão um dia surpreender-nos. O beato Charles de Foucauld, por exemplo com a sua mística imitação de Cristo entre os muçulmanos do Norte de África, assemelha-se aos barnabitas no Afeganistão. A vida e a morte de Foucauld foram um testemunho religioso profético. Da mesma forma, os barnabitas e outros missionários cristãos viveram vidas no Afeganistão que foram uma combinação de profecia, presença e diálogo. Estes missionários optaram por viver a vida escondida de Jesus entre os muçulmanos afegãos.

De uma perspetiva meramente humana estes esforços podem parecer coisa pouca. Mas em vez de julgar com o olhar do mundo, seria bom prestar atenção às palavras de São John Henry Newman, que dizia que os verdadeiros profetas e místicos cristãos são aqueles que “vivem de uma forma desprezada pelos restantes, escolhida por Jesus de Nazaré, para formar uma resistência ao poder e a sabedoria do mundo… Aceitam de bom grado tudo o que lhes sucede e tiram o melhor proveito de tudo.”

Os barnabitas não foram para o Afeganistão para converter e evangelizar os muçulmanos locais, pregando abertamente o Evangelho. As condições não o permitiam. Mas de acordo com fontes fiáveis, existe agora um pequeno grupo de afegãos que se converteu do Islão e pratica o Cristianismo em segredo. Tal como noutros países muçulmanos, esses convertidos podem estar escondidos agora, mas talvez o futuro nos surpreenda.

Podemos falar da missão barnabita aos afegãos como uma “missão cumprida?” Não, ou pelo menos não no sentido normal dessas palavras. Mas há esperança para o futuro da missão no Afeganistão? O Afeganistão está atualmente em caos. O testemunho que os barnabitas deixaram no Afeganistão são sementes que poderão levar a um florescimento surpreendente, quando Deus assim quiser, entre as futuras gerações de afegãos.


Ines A. Murzaku é professora de Religião na Universidade de Seton Hall. Tem artigos publicados em vários artigos e livros. O mais recente é Monasticism in Eastern Europe and the Former Soviet Republics. Colaborou com vários órgãos de informação, incluindo a Radio Tirana (Albânia) durante a Guerra Fria; a Rádio Vaticano e a EWTN em Roma durante as revoltas na Europa de Leste dos anos 90, a Voice of America e a Relevant Radio, nos EUA.

(Publicado pela primeira vez no Sábado, 2 de Outubro de 2021 em The Catholic Thing)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Friday, 21 May 2021

O Filipe resolve o problema do Médio Oriente... Quase.

Ontem estive no programa da Agência Ecclesia para falar sobre a crise no Médio Oriente, as raízes do conflito entre Israel e a Palestina, o papel da religião em tudo isto e possíveis soluções de paz.


Monday, 8 March 2021

Papa no Iraque - Conclusão

O Papa voltou esta segunda-feira para Roma, pondo assim fim a uma viagem fantástica ao Iraque.

O ponto alto da sua viagem foi no domingo. Em Mossul Francisco sublinhou que a fraternidade é mais forte que o fratricídio. Em Qaraqosh falou da necessidade de reconstruir, não apenas casas e igrejas, mas relações, com base no perdão. E por fim, em Erbil, elogiou a Igreja “viva” do Iraque, que vive sem ressentimentos e sem vinganças.

Em Erbil Francisco esteve com o pai de Alan Kurdi, o menino cuja morte no Mediterrâneo chocou o mundo e prometeu que o Iraque ficará para sempre no seu coração.

Podem ler aqui o meu resumo desse terceiro dia, em que Francisco mostrou como a Cruz triunfou no preciso espaço onde há seis anos jihadistas prometiam que chegariam a Roma.

A Renascença falou ainda com Catarina Bettencourt Martins, da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, que fala da necessidade de se apoiar as novas gerações no Iraque.

Finalmente, a caminho de Roma, Francisco falou da importância do diálogo com o Islão, e como sabe que assume riscos ao fazer este caminho.

Friday, 30 October 2020

Desespero em Cabo Delgado, choque em Nice

Temos mais um trágico atentado em Nice a lamentar, desta vez vitimou três pessoas que se encontravam numa igreja. O Papa manifestou a sua solidariedade e a conferência episcopal portuguesa também condenou o atentado.

Lembrem-se que aa vontade de responder a isto com atitudes de exclusão, de culpabilização coletiva e recorrendo a um “Cristianismo armado” é exatamente o que os terroristas pretendem. Não que a resposta do bispo do Porto seja, a meu ver, muito melhor.

Quem também está a sofrer às mãos de terroristas é a população de Cabo Delgado, em Moçambique. O bispo local pede ajuda há muito tempo, agora está a atingir o desespero.

Estamos em fase de restrições à circulação. Medida adequada ou ilegal? Um ataque à liberdade religiosa? As opiniões divergem.

E por falar em ataques em igrejas e ataques à Igreja, leiam o artigo desta semana do The Catholic Thing em que Ines A. Murzaku explica porque estes tempos difíceis não nos devem levar ao desespero.

Friday, 17 July 2020

O problema não é a mesquita, é mesmo Erdogan

Num mundo perfeito a Hagia Sophia seria ainda uma das maiores igrejas da Cristandade, localizada numa cidade chamada Constantinopla, ainda de maioria cristã.

Mas nós não vivemos num mundo ideal e, obviamente, há muitos muçulmanos e turcos que discordam radicalmente da minha visão de como seria esse mundo.

Ao contrário do que se poderia pensar lendo algumas das críticas que têm surgido, a Hagia Sophia não foi repentinamente transformada de igreja em mesquita pelo atual Presidente da Turquia, agora em julho de 2020, mas sim pelo Sultão Mehmet, em 1453, quando as suas forças conseguiram ocupar a cidade.

Durante quase 500 anos a antiga catedral funcionou como mesquita.

Só em 1933 é que o pai da ocidentalização da Turquia, Ataturk, transformou a mesquita em museu. Foi esse decreto que foi agora considerado inválido pelo mais alto tribunal turco, que assim consumou a transformação do museu novamente em mesquita. Mais do que um atentado ao Cristianismo, foi um atentado ao secularismo da Turquia. Mais um.

Tendo em conta que a hipótese ideal de a Hagia Sophia voltar a ser uma igreja não é viável, o que é que é melhor? Ser uma mesquita ou ser um museu? A Igreja Católica reconhece que os muçulmanos adoram o verdadeiro Deus. Isto é muito diferente de dizer que o Islão possui a verdade da revelação, mas não deixa de ser significativo. Tendo isso em conta, é melhor que continuem a ressoar louvores ao verdadeiro Deus – ainda que entendido de forma incompleta, sem a sua dimensão trinitária – ou que seja um espaço secularizado?

Honestamente, não sei para que lado virar. Mas isso também não é o mais importante. O que eu quero explicar com este texto é que o problema de Erdogan ter transformado a Hagia Sophia numa mesquita não é a mesquita, é mesmo Erdogan. Ou melhor, é o projeto de islamização da sociedade que Erdogan tem em marcha na Turquia.

Depois de anos a baterem à porta da União Europeia os turcos finalmente perceberam que Bruxelas nunca os ia deixar entrar. Então Erdogan virou-se para o Oriente e vai, aos poucos, tentando ressuscitar o cadáver do Império Otomano.

E se a transformação de um museu numa mesquita pode ferir o nosso orgulho, e fragilizar o Patriarca de Constantinopla – razão pela qual a Rússia, sempre tão ciosa dos direitos dos cristãos perseguidos, agora considera que isto é um assunto interno de Ancara – são as outras medidas de Erdogan que verdadeiramente ameaçam os cristãos.

A atuação da Turquia na Síria é inqualificável. Apoiando os mesmos grupos jihadistas que andaram a decapitar cristãos e tantos outros e atacando frontalmente os grupos curdos no nordeste da Síria, aliados dos cristãos, que construíram o que há de mais próximo de uma democracia naquela região. No interior da Turquia o clima continua a tornar-se cada vez mais hostil para os cristãos que permanecem no país, tanto para os membros das comunidades históricas – arménios, siríacos, gregos – como para os poucos turcos que se convertem a confissões evangélicas, com grande sacrifício pessoal.

Tudo isto acompanhado de um aperto cada vez maior da democracia interna, de que a eleição para a câmara de Istanbul foi apenas um exemplo, com o Governo a mandar repetir o escrutínio depois do seu candidato ter perdido.

Mas é interessante ver o que aconteceu nesse caso. O tiro saiu pela culatra e o candidato da oposição acabou por ver a sua maioria crescer na segunda votação, ao ponto de ter sido impossível a Erdogan interferir mais.

E este contexto é importante. Há dias eu escrevi no Twitter que não tinha acreditado que Erdogan fosse ao ponto de tomar mesmo esta decisão com a Hagia Sophia. Recebi uma resposta de um português que vive e estuda na Turquia a dizer que este é um acto de desespero de quem está a começar a perder o controlo do país e tem de recorrer a malabarismos cada vez mais impressionantes para cativar a sua base.

Será esse o caso? Veremos. Talvez o canto do Muezzin que vai voltar a ouvir-se dos minaretes que os otomanos colocaram à volta da catedral dedicada à Santa Sabedoria sejam mesmo o canto do cisne do aspirante a sultão.   

Wednesday, 15 July 2020

De Museu a Mesquita. A Importância da Hagia Sophia

Ines A. Marzaku

Hoje está na moda anular a história. Começou nos Estados Unidos, mas já se espalhou para Itália, Espanha, Inglaterra, Bélgica e, mais recentemente, a Turquia. Algumas das principais técnicas incluem o derrube e a profanação de monumentos e estátuas que funcionam como museus exteriores, contando a história das pessoas que fizeram História. Pode-se conhecer a história de uma cidade explorando as estátuas e os monumentos nos parques e áreas comuns.

O Presidente da Turquia, Tayyip Erdogan, juntou-se agora ao grupo quando declarou a sua intenção de converter a majestosa basílica cristã de Hagia Sophia (Igreja da Santa Sabedoria) – atualmente um museu nacional e um dos locais mais visitados na Turquia – numa mesquita. E o Conselho de Estado, o mais alto órgão administrativo da Turquia, concordou que o pode fazer.

Qual é a história da Hagia Sophia?

Distingue-se pela sua beleza indiscritível, sendo de tamanho e de harmonia de medidas excelentes, sem excesso nem deficiência; sendo mais magnífica que os edifícios normais, e muito mais elegante que aqueles que não são de tão justas proporções. A Igreja é singularmente repleta de luz e de sol; pode-se declarar que o espaço não é iluminado de fora, pelo sol, mas que os raios são produzidos no seu interior, tal é a abundância de luz que entra nesta igreja.

Assim escreveu Procópio de Cesareia (circa 500-565 A.D.), um importante historiador bizantino de Constantinopla (hoje Istambul), na descrição que fez da Hagia Sophia no seu livro "De Aedificiis" (Sobre Edifícios), que foi escrito por volta de 554. Nessa obra atribui ao Imperador Justiniano, entre outros, a responsabilidade por tão magnífico feito.

A Igreja de Justiniano tornou-se um ícone de Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente. O imperador ficou tão satisfeito com o resultado que durante a cerimónia de dedicação, em Dezembro de 537, exclamou: “Oh Salomão, eu superei-te!”, comparando a sua igreja ao Templo de Salomão, em Jerusalém.

Durante 900 anos a Hagia Sophia esteve no centro do Império Bizantino. Era a sede do Patriarca Ecuménico de Constantinopla, o lugar onde se realizavam os concílios ecuménicos, onde os imperadores eram coroados e se faziam vigílias nocturnas e majestosas procissões até à queda de Constantinopla para os Otomanos, a 29 de Maio de 1453.

Andando a cavalo pelas ruas da cidade conquistada, o Sultão Mehmet II “desmontou às portas da igreja e baixou-se para pegar numa mão cheia de terra, que polvilhou por cima do turbante, como acto de humildade diante de Deus”. O sultão converteu a Igreja de Hagia Sophia na Grande Mesquita de Aya Sofya, como permaneceu até 1934, quando um decreto do primeiro presidente da República da Turquia, Mustafa Kemal Atatürk, transformou o edifício num museu.

Em 1985 a UNESCO declarou-a Património Mundial.

Porque é que é importante que a Hagia Sophia continue a ser um museu?

Interessa para a história e interessa às pessoas, tanto cristãos como muçulmanos. É importante preservar a memória e os museus e as estátuas são formas comprovadas de preservar a cultura e a religião – no que merece ser preservado, recordado, valorizado e transmitido a futuras gerações.

O museu comprovou ser uma excelente forma de recordar tanto a Igreja de Hagia Sophia como o Mesquita de Aya Sofya. Serviu não só como registo de uma história multissecular, mas como transmissor de conhecimento dos impérios romano e bizantino para a República Turca de Atatürk. Este edifício magnífico, e outrora religioso, é uma recordação visível e tangível de impérios e religiões do mundo Mediterrânico, numa belíssima síntese.

Desde cedo na sua carreira política, o Presidente turco Recep Tayyip Erdogan lamentou a conversão por Atatürk da Mesquita de Aya Sofya num museu. Em vez disso ele prefere anular mais de nove séculos de história cristã, para grande consternação do Patriarca Ecuménico de Constantinopla, Bartolomeu I, do Patriarca russo Cirilo e do Papa Francisco.

Para Bartolomeu I, a Hagia Sophia é um lugar sagrado em que o Oriente e o Ocidente se abraçaram. A anulação desta memória causará uma profunda divisão entre estes dois mundos. Mantendo o seu estatuto de museu, o local continuaria a servir como um exemplo de solidariedade e de compreensão mútua entre o Cristianismo e o Islão.

O Patriarca Cirilo da Rússia considera que a conversão da Hagia Sophia de museu em mesquita é uma ameaça ao Cristianismo. Numa recente entrevista à Interfax, o Metropolita Hilário, responsável pelas Relações Externas do Patriarcado de Moscovo, expressou o seu desapontamento com a atitude de Erdogan, dizendo: “A Hagia Sophia é património mundial. Não é por acaso que as notícias da mudança do seu estatuto abalaram o mundo inteiro, especialmente o mundo cristão. A Igreja é dedicada a Cristo, Sophia, a Sabedoria de Deus, é um dos nomes de Cristo.”

Ainda este fim-de-semana o Papa Francisco, que tem feito um grande esforço para cultivar boas relações com os muçulmanos, falou com uma franqueza incaracterística: “Penso em Istanbul. Penso na Hagia Sophia. Estou muito consternado”.

A história não pode ser destruída, cancelada ou alterada. Até alguns turcos têm-se queixado dos esforços do Presidente para tentar criar uma história única e falsa.

Para os católicos a história tem um sentido transcendente, uma mensagem a transmitir e uma lição a aprender – e o historiador é chamado a discernir as raízes desse sentido. A história não é linear nem ideológica – ou, pior ainda, para ser usada com motivos políticos – mas reclama continuamente nova reflexão e análise, para que o passado seja revisitado e os erros não sejam repetidos.

O grande filósofo romano Marco Túlio Cícero escreveu em “De Oratore” que Historia magistral vitae est (A História é mestre da vida). A história, os seus monumentos e museus não devem ser destruídos ou anulados, especialmente num esforço para dominar o presente. Eles têm o direito a falar connosco – e a serem ouvidos.

No que diz respeito à Hagia Sophia, o tempo dirá como esta moda de anular a história resultará para a Turquia. Por enquanto parece que a chamada para a oração voltará a ressoar no dia 27 de julho, na mais magnífica estrutura da Igreja Oriental.


Ines A. Murzaku é professora de Religião na Universidade de Seton Hall. Tem artigos publicados em vários artigos e livros. O mais recente é Monasticism in Eastern Europe and the Former Soviet Republics. Colaborou com vários órgãos de informação, incluindo a Radio Tirana (Albânia) durante a Guerra Fria; a Rádio Vaticano e a EWTN em Roma durante as revoltas na Europa de Leste dos anos 90, a Voice of America e a Relevant Radio, nos EUA.

(Publicado pela primeira vez na Segunda-feira, 13 de Julho de 2020 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 11 March 2020

A Carta da Nova Aliança da Virtude

Kent R. Hill
Em Dezembro de 2019 foi apresentada a Carta da NovaAliança da Virtude em Abu Dhabi. O documento pretende ser uma nova versão da Carta de Medina do Profeta Maomé, do Sétimo Século, que teve por objetivo levar a paz às tribos em guerra.

O objetivo desta nova Carta é de juntar judeus, cristãos, muçulmanos, representantes de outras religiões e outras pessoas de boa-vontade numa declaração comum de que as virtudes são essenciais para viver em paz.

A Carta é o resultado dos esforços do Shaykh Abdallah Bin Bayyah, uma autoridade respeitadíssima de jurisprudência islâmica e fundador e presidente do Fórum para a Promoção da Paz em Sociedades Islâmicas.

A Religious Freedom Institute, uma organização sem fins lucrativos sedeada em Washington DC, com o qual colaboro, desenvolveu um papel na formação do texto final da Carta. Entre as nossas contribuições conta-se uma afirmação dos direitos naturais, definidos como “direitos que antecedem o Estado e que são inerentes a cada ser humano por virtude da sua existência”. Mais, os direitos criados pelos governos “têm mais valor quando aplicados a todos, reflectindo as normas da dignidade e da justiça humana”. A Carta reconhece ainda a importância do Dignitatis Humanae.

Entre outras afirmações louváveis da Carta: “Todas as pessoas, independentemente das suas diversas raças, religiões, línguas e etnias, por virtude da alma divina que lhes foi insuflada, são dotadas de dignidade pelo seu Criador Omnipotente”. Citando o Alcorão: “Não há compulsão na religião” (Sura 2: 256); e, “O Estado tem a responsabilidade de proteger a liberdade religiosa, incluindo a diversidade de religiões, que garante a justiça e a igualdade entre todos os membros da sociedade”.

Na RFI debatemos muito se uma declaração destas nos pode ajudar a alcançar o nosso objectivo para esta e outras regiões, isto é, promover a liberdade religiosa no terreno. Muitos documentos semelhantes, inspirados no Islão, têm aparecido nos últimos anos, incluindo a Mensagem de Amã (2004), Uma Palavra em Comum (2007), a Declaração de Marraquexe (2016) e a Declaração de Fraternidade Humana (2019). Esta última foi assinada pelo Papa Francisco e por Ahmad al-Tayyeb, grande imã de Al-Azhar. Existe algum indício de que estas declarações fizeram alguma diferença nas regiões do mundo de maioria islâmica?

Infelizmente, as provas até agora não são muito encorajadoras. De acordo com a “World Watch List” da Open Doors, de 2019, mais de 80% dos vinte países que mais oprimem as religiões no mundo são de maioria muçulmana, a maioria delas no Médio Oriente. Mais de 70% dos piores cinquenta países no mundo são de maioria muçulmana.

A realidade no terreno que estas estatísticas representam pode levar até o maior defensor da liberdade religiosa a temer que declarações destas são, na melhor das hipóteses, exercícios de retórica, meras boas intenções. Os cínicos dizem que têm mesmo por objectivo enganar os incautos.

Então porque é que investimos tempo e energia com a Carta da Virtude? Foi por duas razões. A primeira é histórica e sugere que declarações não-vinculativas de princípios, quando apresentadas com autoridade e no momento certo, podem contribuir para o bem a longo prazo, mesmo que os seus autores sejam marcados por fraquezas profundas, ou aparentemente ingénuos. Um exemplo é a Declaração de Independência dos Estados Unidos, cuja audaz declaração de verdade religiosa – “todos os homens são criados iguais” – se tornou o motor e o sustento da democracia americana, não obstante a aparente hipocrisia de alguns dos seus arquitectos esclavagistas.

Ou ainda a Declaração Universal dos Direitos do Homem (DUDH), que proclamou de forma não-vinculativa “a dignidade inerente… e os direitos iguais e inalienáveis de todos os membros da família humana”, incluindo o direito à liberdade religiosa para todos, e que foi assinada por nações que não tinham a menor intenção de os proteger, nem na altura, nem agora. Todavia, a DUDH mantém-se hoje como uma afirmação contra a tirania e os seus princípios são repetidos nos acordos não vinculativos de Helsínquia que contribuíram para a queda da União Soviética.  

Em segundo lugar, acreditamos que os esforços actuais para travar a violência religiosa e o terrorismo no Médio Oriente não têm funcionado. A ausência de liberdade religiosa nas nações de maioria muçulmana no Médio Oriente e no Sul da Ásia, está a alimentar uma catástrofe de proporções civilizacionais. O cristianismo está sob ataque nas terras em que nasceu e se desenvolveu. No Iraque poderá simplesmente desaparecer dentro de uma década. A pressão para as minorias não-muçulmanas abandonarem a região está a aumentar, e com ela desaparecerá a força estabilizadora do pluralismo religioso.

No fundo o que se passa é o seguinte: A solução para estes problemas não passa pela força militar americana, nem pelas noções ocidentais de constitucionalismo, assentes em premissas independentes da religião. Ambos estão condenados porque lhes falta credibilidade no contexto muçulmano. A única solução possível encontra-se nas próprias nações de maioria muçulmana e tem de ir beber às suas próprias premissas religiosas. É por isso que decidimos arriscar identificar e apoiar os líderes muçulmanos como Shaykh Bin Bayyah que acreditam que os princípios sagrados da sua fé suportam a liberdade religiosa e a cidadania plena para todos.

Claro que sabemos que os líderes muçulmanos que assinaram a Carta da Nova Aliança da Virtude estão longe de serem perfeitos. Tal como os fundadores dos Estados Unidos e de nós todos, nem sempre agem de acordo com o que professam. Mas acreditamos que compreenderão que é a credibilidade mundial do Islão que está em causa, bem como a possibilidade de convivência em paz, apesar das nossas profundas diferenças.

E claro que sabemos perfeitamente que as declarações não bastam. Se existe alguma esperança de sucesso, então as palavras devem ser destiladas nestas sociedades através de caminhos concretos para poderem chegar aos jovens muçulmanos em todo o mundo. E mais, os imãs e outros líderes religiosos muçulmanos devem abraçar a validade, e até mesmo a necessidade, de apoiar os princípios da Carta.

Para que as palavras da Carta da Nova Aliança da Virtude não acabem por ser apenas retórica estéril, é necessário, no final de contas, que os signatários e seus apoiantes estejam prontos para insistir que as palavras nobres se transformem em nobres actos.


Kent Hill é um dos co-fundadores da Religious Freedom Institute (RFI) e primeiro diretor executivo. Atualmente é o responsável da RFI pela Eurásia, Médio Oriente e Islão. Antes, serviu como vice-presidente sénior da World Vision e administrador assistente da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Intrenacional.


(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 5 de março de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing 

Tuesday, 21 January 2020

Apenas Huma entre muitas

O Papa Francisco mandou uma mensagem para o Fórum Económico Mundial, que decorre em Davos, em que alerta para os perigos de não se colocar o homem no centro das políticas económicas. Vale a pena ler.

Esperança no Paquistão, onde pela primeira vez parece que um tribunal está de facto a fazer alguma coisa num caso de uma rapariga cristã raptada e forçada a converter-se ao Islão. Leiam e vejam o apelo dos seus pais. Rezem, pelo menos, pela Huma Younus.

O Papa Francisco reforçou a condenação ao antissemitismo nos 75 anos da libertação de Auschwitz. Este é um fenómeno que está de regresso e não é só entre a extrema-direita e a esquerda progressista. São cada vez mais católicos a abraçar teorias destas e não pode acontecer, como explicou Francis X. Maier no artigo de há umas semanas do The Catholic Thing.

Quem me segue há mais anos sabe que tenho opiniões fortes sobre a presença de crianças nos funerais a forma como lhes falamos da morte. Hoje ouvi um podcast que alertava para não levar as crianças aos enterros. É uma opinião que considero lamentável e por isso respondi aqui.

Tuesday, 25 June 2019

Dois passos em frente, um para trás, rumo ao precipício

Tirem a vossa política do meu jogo, sff.
O admirável mundo novo vai chegando, entre avanços e recuos. Avanço: Uma juíza inglesa ordenou que uma mulher de 22 anos fizesse um aborto contra a sua vontade. Recuo: O tribunal de recurso anulou a decisão. E é assim, dois passos em frente, um passo atrás. Mas é para a frente que vamos, rumo ao precipício.

Uma sondagem encomendada pela BBC revela que os árabes são cada vez menos religiosos.

Os símbolos da JMJ já começaram a sua longa caminhada até Lisboa, onde chegam a 5 de Abril de 2020.

Está a nascer em Trás-os-Montes uma “aldeia para Deus”. Conheça-a aqui.

A equipa feminina de futebol do Vaticano abandonou o jogo que ia disputar no passado fim-de-semana, na Áustria, quando jogadoras da equipa da casa levantaram as camisolas para revelar mensagens pró-aborto (ver imagem).

Publiquei no blog a transcrição integral da minha conversa com o cristão siríaco Johan Cosar, que treinou uma milícia para combater o Estado Islâmico. Podem ler aqui.


Tuesday, 19 March 2019

Tarrant não é fruto do Cristianismo, é fruto do seu abandono


Por mais que algumas pessoas, incluindo o presidente da Turquia, Erdogan, insistam em dizer o contrário, o terrorista de Christchurch não era cristão.

No seu manifesto ele fala de Cristianismo, mas quando chega ao ponto de se identificar, ou não, como cristão, responde que “isso é complicado, quando souber, digo”, o que deixa bastante a desejar em termos de profissão de fé. Nisto, segue a tendência de outros famosos terroristas raciais. A excepção é Anders Breivik que, no seu manifesto, diz que foi baptizado, mas deixa esta explicação importante: “Se alguém tem uma relação pessoal com Jesus e com Deus, então é um cristão religioso. Eu, e muitos como eu, não temos necessariamente uma relação pessoal com Jesus Cristo e com Deus. Contudo, acreditamos no Cristianismo como uma plataforma cultural, social, identitária e moral. Isso faz de nós cristãos”. Lamento desiludir-te Breivik, mas não, não faz.

A questão preocupante, para mim, é que tanto Breivik, que matou dezenas de pessoas inocentes na Noruega, como Tarrant, que matou 49 pessoas inocentes na Nova Zelândia, alegaram estar a agir em defesa da cultura e da civilização ocidentais.

Sempre achei fascinante como alguém pode alegar defender uma cultura e uma civilização rejeitando precisamente o Cristianismo que é o elemento aglutinador. Tirando o Cristianismo, o que é que um português tem em comum com um finlandês? Ou com um russo? Não é de espantar que fiquemos reduzidos à questão racial, aliás, forçadíssima… Basta colocar lado-a-lado um português típico e um finlandês para se ver as diferenças em termos de tonalidade da pele.

E quando nos agarramos a coisas tão básicas como a cor da pele, tão efémeras como especificidades culturais e tão fluidas como a língua, claro que nos sentimos sempre sob ameaça e vemo-nos forçados a adoptar numa mentalidade de trincheira que vê qualquer pessoa de cor, cultura ou língua diferente como um perigo ou, para usar o termo infeliz de Tarrant, invasor.

O abandono do Cristianismo transforma a cultura europeia numa carcaça. Vemos isso tanto na decadência cultural da Europa relativista que abandonou a sua religião voluntariamente, como na retórica nojenta dos racistas atuais. São fenómenos que se alimentam mutuamente, duas faces da mesma moeda. Uma apostada num lento suicídio, outra em morrer matando.

Eu não sei porque é que Tarrant não se assume como cristão. Só Deus sabe o que se passa naquela cabeça. Mas sei que se ele fosse de facto cristão não conseguiria justificar o seu acto em qualquer manifesto, tal como Breivik só podia mesmo ser um “cristão” sem relação com Deus ou com Jesus para achar que a religião que manda amar os inimigos é compatível com a matança de inocentes.

Mentalidades como a de Tarrant e de Breivik não são fruto do Cristianismo, são fruto do seu abandono e devem servir de alerta para os guerreiros culturais que querem extirpar a fé da nossa civilização. O Cristianismo é um travão ao extremismo cultural, racial e étnico. Não é um travão infalível, como bem sabemos, mas é um travão potente. Livramo-nos dele à nossa conta e risco.

Que Deus acolha na sua misericórdia os mortos e que os cristãos sejam firmes e unânimes na sua condenação destes actos e da mentalidade que lhes está subjacentes. O nosso lugar nunca será ao lado destes homens, mas sempre das suas vítimas, independentemente da sua religião.

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