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Thursday, 1 June 2023

Crise de bispos em Portugal

Ao longo da última semana foram nomeados dois bispos auxiliares para o Porto. São nomeações muito importantes, porque embora o Porto estivesse com dois bispos auxiliares, D. Pio Alves, já tinha ultrapassado há muito a idade de resignação, que foi finalmente aceite.

Para além disso, D. Manuel Linda, o actual bispo do Porto, está numa situação bastante fragilizada pela forma como tem estado a lidar com a questão dos abusos na sua diocese. Recorde-se que na lista que a Comissão Independente fez chegar à diocese do Porto constavam os nomes de sete padres no activo. Três foram provisoriamente afastados de funções enquanto decorre a investigação prévia, mas os outros quatro não, embora os seus processos também tenham sido entregues a Roma. Esta diferença de tratamento nunca foi explicada e, tanto quanto eu consegui apurar não parece ter havido grande critério. D. Manuel Linda tem 67 anos, ou seja, está a oito anos da idade de resignação. Caso esteja para ficar no Porto até ao final, precisa de ajuda e apoio para poder cumprir as suas funções. Deus queira que os novos bispos auxiliares, Joaquim Dionísio e Roberto Mariz, possam dar esse apoio.

Mas as nomeações para o Porto eram apenas duas das muitas que faltavam em Portugal. Vejamos algumas das outras situações.

Setúbal – A longa espera

A situação da Diocese de Setúbal é verdadeiramente lamentável. Há quase um ano e meio que D. José Ornelas deixou a diocese para assumir Leiria-Fátima, e desde então Setúbal está sem timoneiro. É certo que tem um administrador apostólico, mas não é a mesma coisa. Os padres precisam de um bispo como referência e os leigos precisam de um pastor que os reúna e confirme na fé. A sensação entre os católicos – clero e leigos – de Setúbal é de abandono e isso é uma grande pena.

Auxiliares

Setúbal é a única diocese sem bispo diocesano, desde que D. Nuno Almeida passou de auxiliar de Braga para bispo de Bragança, que também estava sem bispo há mais de um ano. Mas essa passagem de D. Nuno Almeida para Bragança deixou Braga sem auxiliar e Lisboa também tem menos um auxiliar do que é normal, desde a morte prematura de D. Daniel.

Resignações à porta

Mas essa é a contagem mais conservadora… Porque realisticamente Lisboa vai precisar ainda de outro auxiliar para substituir D. Joaquim Mendes, que tem já 75 anos e por isso já submeteu o seu pedido de resignação e muito provavelmente precisará de outro para substituir D. Américo Aguiar que dificilmente se manterá como auxiliar muito mais tempo.

E, por fim, há uma série de bispos diocesanos que também estão à beira da idade da resignação, ou então já a ultrapassaram. Para começar, D. Manuel Clemente. O Patriarca de Lisboa faz 75 anos em Julho. Seria normal, noutras circunstâncias, o Papa adiar a aceitação da resignação de um arcebispo até aos 77 anos, ou mesmo mais, mas neste caso D. Manuel nunca escondeu o facto de não estar bem de saúde e de estar muito cansado, e até disse na Missa Crismal deste ano que seria a última vez que celebra enquanto Patriarca, por isso está claramente de saída. É evidente que, em condições normais, não haverá nomeação antes da Jornada Mundial da Juventude, mas o processo já está a andar e por isso não deve tardar vir um novo Patriarca para Lisboa.

(Isso levantará outra questão, que é o facto de D. Manuel Clemente ainda ter mais cinco anos como cardeal eleitor, o que deverá atrasar a elevação a cardeal do seu sucessor, não obstante a existência de uma bula que estipula que o novo Patriarca de Lisboa seja feito cardeal no primeiro consistório depois da sua eleição, o que já foi ignorado no caso de D. Manuel).

Bem vistas as coisas, portanto, Lisboa deverá contar, num futuro relativamente próximo, com um novo Patriarca e de três bispos auxiliares, sendo que a primeira nomeação a ser conhecida deverá ser a do Patriarca, que depois terá uma palavra importante a dizer na escolha dos seus auxiliares.

Temos ainda o caso do bispo de Beja, D. João Marcos, que tem apenas 73 anos, mas está com problemas de saúde e já pediu ao Papa que aceite a sua resignação antecipada.

E D. Manuel Felício, bispo da Guarda, já atingiu os 75 e por isso também já submeteu a sua resignação. E o bispo de Portalegre-Castelo Branco, D. Antonino Dias, faz 75 anos no final deste ano.

Feitas as contas, entre as posições vacantes e as que estão prestes a ficar vacantes, Portugal está a precisar de 9 bispos num futuro imediato, ou dez se incluirmos D. Manuel Quintas, bispo do Algarve, que faz 75 em Agosto de 2024.

Porquê a demora na nomeação de substitutos? Bom, a razão mais evidente é que as nomeações vêm todas de Roma e Roma tem muito com que se preocupar. Como estão estas dioceses vacantes ou a vagar em Portugal, há largas centenas no resto do mundo e todas elas precisam de atenção.

Mas poderá ser mais que isso. Constou-me que em algumas situações os padres abordados para serem nomeados bispos têm recusado. Não sei de casos particulares, portanto não quero generalizar, mas essas recusas podem ter vários fundamentos. É evidente que nalguns casos pode ser por genuína humildade, o padre pode sentir que não é capaz de desempenhar bem esse cargo; pode ser por medo, e basta ver em Portugal a porrada, por assim dizer, que os bispos têm levado nos últimos meses para entender que poucos cobiçam estar nessa posição; e por fim, infelizmente, nalguns casos pode ser porque o candidato aspira a mais do que ser apenas bispos de uma diocese perdida no interior, preferindo uma outra diocese mais movimentada e com outras perspectivas de “carreira”. Se for este último caso, então talvez devamos agradecer as recusas, porque aquilo de que menos precisamos são de pastores que escolhem as suas ovelhas consoante o prestígio que delas podem retirar.

Aos padres que me lêem, caso recebam essa chamada, lembrem-se que a função não é para vocês, é para o resto da Igreja, e sem me querer intrometer no vosso discernimento e nas vossas orações, peço-vos a coragem de dizer que sim e de não deixar os rebanhos sem pastor por demasiado tempo, não vão elas começar a tresmalhar.


Friday, 21 April 2023

A Igreja não pode voltar atrás neste caminho

Os bispos portugueses voltaram esta quinta-feira a pedir perdão pelos abusos na Igreja, com D. José Ornelas a dizer que “a nossa Igreja não pode voltar atrás neste caminho”.

Não voltar atrás significa contribuir activamente para construir um novo paradigma para lidar com estas questões, o que por sua vez implica haver sistemas transparentes em que todos podem confiar, nomeadamente as vítimas. Paradoxalmente, quem mais pode fazer nesse sentido agora são as próprias vítimas, dando os seus testemunhos para que as Comissões Diocesanas possam fazer o seu trabalho. Neste texto apelo a essas vítimas para fazer mais um sacrifício, para bem de toda a Igreja e sobretudo da prevenção. Mesmo que não seja vítima, leia e partilhe, nunca se sabe quem do seu círculo social precisa de ouvir esta mensagem.

Ainda no tópico dos abusos, a Opus Dei publicou um comunicado em que dá conta de cinco casos de abusos envolvendo de alguma forma a prelatura, apurados pela Comissão Independente. Já foram acrescentados, com os detalhes conhecidos, aqui.

Reunidos em Fátima para o plenário da Conferência Episcopal, os bispos portugueses reelegeram D. José Ornelas para presidente da organização, apostando assim na continuidade. O bispo de Leiria-Fátima terá muito trabalho pela frente, rezemos para que tudo lhe corra bem.

Num mundo onde existe tanta violência inter-religiosa, é sempre bom ouvir bons exemplos. Este chega-nos da República Centro-Africana. Outro exemplo bonito, mas de missão, vem do Brasil. Leiam a história deste missionário que mais do que uma vez ia perdendo a vida para tentar levar o Evangelho ao coração da Amazónia.

Faltam quase 100 dias para a Jornada Mundial da Juventude. Se ainda não se inscreveu como voluntário, mas gostava, saiba que abriram bolsas de 750 euros pagas pela Fundação Santander, destinadas a jovens a partir dos 18 anos.

Já poucos falam da Guerra na Ucrânia, mas é urgente não perder de vista a importância deste conflito a muitos níveis. Um desses níveis é a sobrevivência da Igreja Católica de rito bizantino na Europa de Leste. Leia o artigo desta semana do The Catholic Thing para perceber porquê.

Thursday, 9 March 2023

A solução? Fechem a CEP e a Comissão numa sala para conversar

É verdadeiramente triste o que está a acontecer. Depois de um ano em que a Comissão Independente esteve a trabalhar e todos os sinais que chegaram foram sempre de cordialidade e excelentes relações com o episcopado, de um momento para o outro tudo descambou.

Correm versões aparentemente contraditórias, acusações de mentira, lamentos, e nada disto contribui para a dignificação dos bispos, ou dos membros da Comissão Independente, e certamente nada contribui para melhorar a confiança na Igreja enquanto instituição ou a situação das vítimas de abusos que de facto ocorreram.

No centro desta questão está a famosa lista dos 100 padres. A lista foi entregue aos bispos, cada diocese recebeu os nomes que a si diziam respeito.

Seguiu-se a confusão que já se sabe, com D. José Ornelas a protagonizar uma conferência de imprensa em que conseguiu a proeza de dizer quase tudo ao contrário do que devia ter feito e a dar uma ideia inicial de que os bispos estavam a arrastar os pés e não queriam afastar preventivamente os padres na lista.

A situação foi agravada pela resposta de D. Manuel Clemente, no domingo seguinte, quando lhe perguntaram sobre a suspensão preventiva, adensando a confusão e reforçando a ideia de que os bispos iam meter a lista na gaveta. Já expliquei que claramente não era isso que ele queria dizer, embora continue sem perceber porque é que o Patriarcado não esclarece o assunto.

Passaram-se entretanto pelo menos cinco dias em que apenas uma diocese mostrou alguma transparência sobre a lista, com o bispo do Funchal a esclarecer que recebeu quatro nomes, um dos quais não é conhecido na diocese e outros três já não exercem qualquer cargo.

Depois temos a própria questão dos nomes. Os bispos dizem que só receberam nomes “em seco”, sem qualquer contexto. A Comissão diz que não, que os bispos têm a informação de que precisam. Nesta aparente contradição, parece-me que ambas as possibilidades podem ser verdade. Nalguns casos, certamente as dioceses já têm informação sobre os nomes, mas noutros muito claramente não têm. Tomando o caso do Funchal, como é que a diocese pode ter acesso a mais informação sobre um padre que ou não existe, ou está mal identificado?

O primeiro problema esteve na forma como os bispos reagiram à recepção dos nomes. Estavam à espera de mais dados, mas em vez de dizerem claramente que tudo iriam fazer para obter a informação necessária e averiguar cada caso, enfatizaram as dificuldades processuais. Aos poucos começamos agora a ver alguma luz no fundo do túnel, com cada vez mais dioceses a publicar comunicados e a esclarecer exactamente o que é que a sua lista contém e o que têm feito.

Mas à medida que esses dados são revelados, a imagem da própria comissão também fica afectada, sabendo que uma grande percentagem dos nomes correspondem a padres que já morreram, que não são conhecidos ou que já não exercem e por isso estão fora da alçada da Igreja. Há ainda casos de padres que já têm processos a decorrer ou que já tiveram e foram concluídos. Só uma pequena minoria, por enquanto é que são casos novos e que podem ser afastados preventivamente.

Aqui encontram toda a informação sobre o que se vai sabendo da lista, sistematizada.

O que nos leva a fazer uma pergunta evidente. Para a Comissão Independente qual é exactamente o critério que foi usado para “activo”? Não há nenhuma forma de justificar a inclusão de um padre morto numa lista de abusadores activos. Um ou dois casos, por lapso, ainda se compreende, ou poderia ter acontecido um padre morrer desde que a lista foi elaborada, mas todos os padres que até agora se sabe que já morreram estão mortos há vários anos, incluindo num caso há 60 anos. O que é que esses nomes estão lá a fazer?

Mas mesmo em relação aos vivos, o que é que é suposto um bispo fazer em relação a um homem que já passou ao estado laical, não estando por isso sujeito a qualquer supervisão eclesial ou processo canónico e se calhar nem vive em Portugal? Obviamente não pode fazer nada.

E depois temos os casos – pelo menos um já confirmado – de padres que não podem, nem devem ser suspensos, uma vez que já foram investigados por estas alegações e concluiu-se que não existe matéria para os acusar, ou então foram acusados e ilibados, ou mesmo, como poderá acontecer, que foram acusados e condenados a outras penas que não a remoção do estado clerical. A excepção será se emergirem novas informações que permitam reabrir os processos, mas caso não existam, nada mais haverá a fazer.

Por fim – e ainda não foi revelado nenhum caso, mas é natural que exista – pode haver nomes nas listas de padres que já estão afastados do exercício do sacerdócio precisamente porque já estão sob investigação.

Olhando para os números de que já dispomos, a proporção de padres afastados cautelarmente é menor do que 18%, pelo que numa lista que contém pouco mais de cem nomes, talvez possamos contar com uma vintena de casos de novos afastamentos cautelares – claro que isto vale o que vale. Por outro lado, a continuar a este ritmo, cerca de 40% dos padres na lista já terão morrido, o que me parece chocante e revela um trabalho mal feito pela Comissão Independente neste campo.

Qual é a conclusão que podemos tirar daqui? É que os bispos e a Comissão Independente têm de voltar a falar. Os bispos têm de parar de se escudar no facto de só terem listas de nomes a seco, e fazer como pelo menos duas dioceses já fizeram, contactando a Comissão e pedindo mais dados. Não me parece complicado. E a Comissão tem de parar de insistir que os bispos já têm todos os dados quando muito claramente não têm e a própria Comissão mostrou não conseguir fazer uma lista em condições.

Fechem-se numa sala, conversem o tempo que for preciso e no final dêem uma conferência de imprensa conjunta em que explicam como é que as dioceses e a comissão vão ultrapassar as dificuldades que surgiram com esta lista.

Nem é uma questão de salvarem a própria face. Há 500 pessoas que estão a olhar para isto e esperam ver as suas histórias e as suas denúncias valorizadas. Mas há muitas outras, só Deus sabe quantas, que ainda não encontraram a coragem de denunciar as suas situações e que estão a ver se tudo isto vale a pena, ou se é uma futilidade. Essas pessoas merecem que vocês se orientem e que lhes dêem a esperança de que as suas histórias e experiências podem ser valorizadas. Por elas, por favor, façam esse esforço.

Monday, 6 March 2023

Honestidade e inteligência exige-se (a bispos e a jornalistas)

Comecemos por reconhecer um facto inescapável. A conferência de imprensa de sexta-feira foi um desastre. Mas não foi um desastre em termos de conteúdo, tanto quanto um desastre em termos de forma.

Começou com a leitura de um comunicado cheio de frases corridas, quando o que se pedia era uma nota mais sucinta e por pontos, do estilo: “Estas são as medidas que vamos implementar para abordar e resolver este problema.”

Depois veio D. José Ornelas, de quem tenho boa impressão enquanto homem e pastor, mas que falou de forma confusa e pegou em todas as perguntas exactamente ao contrário daquilo que se exigia.

Questionado sobre o que fará com as listas dos nomes de padres alegadamente abusadores, o bispo disse algo do género: “Vai ser muito difícil, em alguns casos só temos nomes, sem factos, e não podemos suspender as pessoas assim, porque toda a gente tem direito à presunção de inocência, mas claro que vamos investigar”.

A resposta que se exigia seria algo assim: “Que ninguém tenha dúvidas de que os bispos irão fazer tudo o que estiver ao seu alcance para identificar e investigar rigorosamente todos os nomes nesta lista. Tal como está previsto no direito canónico, e como tem sido prática nas dioceses há muitos meses, em todos os casos em que a acusação seja considerada minimamente credível, o padre em questão será imediatamente suspenso preventivamente para que possa decorrer o devido processo canónico.

Dito isto, lamentamos que em muitos casos o nosso trabalho seja dificultado pelo facto de termos recebido da Comissão Independente unicamente uma lista de nomes, sem qualquer enquadramento, alegações ou factos que o acompanhem. Contudo, reafirmo que tudo faremos para investigar com o rigor possível os nomes em causa e convidamos as vítimas, tanto as que já falaram com a comissão, como as que ainda não o fizeram, a contactarem as respectivas dioceses para colaborar com essas investigações, fornecendo os detalhes possíveis, para ajudar nessa investigação e para que assim se possa fazer justiça”.

Estas respostas dizem essencialmente a mesma coisa, mas uma mostra vontade de chegar à verdade e outra dá primazia aos obstáculos e às dificuldades.

Porque vamos ser francos, esses obstáculos existem. Como tive oportunidade já de dizer em quase todos os comentários que tenho feito sobre este assunto na televisão e na rádio, não há muito para inventar aqui por parte dos bispos. Eles só têm de colocar em prática as normas que já existem e que têm sido implementadas noutros países com grande sucesso. No caso de haver uma acusação esta é analisada; no caso de ser uma acusação credível o padre é imediatamente suspenso de forma preventiva e impedido de ter qualquer contacto com crianças ou pessoas vulneráveis enquanto se investiga para ver se há matéria para se fazer um julgamento ou não. Caso haja, o padre é julgado (hoje em dia com bastante celeridade), caso contrário, o processo é arquivado. Simples.

Agora, esses indícios e essa matéria têm de existir. Não basta um nome escrito numa folha de papel. Pelo que pergunto, não será possível a comissão fornecer mais dados sem comprometer o anonimato das vítimas? O relatório está recheado de detalhes de abusos que são claramente credíveis. Descrevem o espaço em que o alegado abuso aconteceu, o ambiente, a época ou mesmo o ano. Essa informação não pode, pelo menos nalguns casos, acompanhar o nome? Parece-me estranho que isso não seja possível, ainda que nalguns casos possa existir o risco de isso levar à identificação da vítima por parte de quem conhece as situações.

O problema, para além da forma da comunicação pelos bispos, é que nas semanas que se passaram desde a publicação do relatório criou-se uma expectativa desmedida sobre o que iria acontecer aos padres nomeados na lista. Eu avisei contra isso várias vezes, incluindo na conversa com o Octávio Carmo, no podcast Hospital de Campanha. Nunca iria acontecer os nomes serem simplesmente transpostos para a base de dados das dioceses e riscados da lista. Há processos a seguir, sob risco de transformarmos a justiça numa caça às bruxas.

Isto é uma coisa tão evidente, que me espanta muitos jornalistas terem embarcado na narrativa de “afinal a Igreja não vai suspender os padres suspeitos”, quando ninguém disse isso. O que se disse foi que essa suspensão não pode ser automática e sem bases, tem de existir alguma informação para além da simples existência do nome numa lista.

Penso que enquanto sociedade temos, por isso, o direito a pedir honestidade e inteligência aos jornalistas que tratam estes assuntos e aos comentadores. As noções de presunção de primazia do direito e do processo jurídico são basilares numa sociedade que se quer justa e todos ficamos a ganhar quando isso é respeitado.

Dito isto, também é justo pedir honestidade e inteligência aos bispos, sendo que aqui a palavra honestidade pode ser substituída por transparência. Já que estoiraram magnificamente a oportunidade de esclarecer as pessoas e marcar a vossa posição na conferência de imprensa, tomem medidas rápidas para mostrar aos portugueses que estão comprometidos com a justiça e com a verdade.

Há três dias que receberam as ditas listas. Bastaram horas para que a diocese do Funchal publicasse um comunicado em que diz muito claramente que a lista que recebeu contém quatro nomes, um dos quais é desconhecido e que nenhum dos outros exerce funções na Igreja actualmente.

Porque razão as restantes dioceses não publicaram já comunicados neste sentido? Neste momento há uma boa parte dos portugueses que pensa que os bispos meteram a lista na gaveta e que a tencionam ignorar. Mostrem que isso não é assim. Publiquem os dados que têm – não é preciso publicar nomes ainda – e periodicamente vão dando conta dos progressos. Quando uma acusação for considerada credível e o padre for suspenso preventivamente, conforme está estabelecido, publiquem um comunicado a informar quem foi e porquê, como tem acontecido recentemente em várias dioceses com casos de suspeita de abusos, incluindo alguns em que o suspeito acabou por ser ilibado ou viu o caso arquivado. Depois, deixem o processo seguir o seu curso e publicitem o seu resultado, seja qual for.

E por amor de Deus, contratem alguém que vos ajude na comunicação. Seja a nível diocesano – sei que alguns já o fizeram – seja a nível da CEP. Eu sei que custa dinheiro, mas é nestas alturas que se percebe que é dinheiro bem gasto.

O resto do país pode não ter esta noção, mas eu tenho acompanhado isto há muitos anos e tenho visto claramente uma evolução na forma como a Igreja em Portugal lida com alegações e casos de abusos. Sei que há muito trabalho feito e muito terreno ganho. Não deixem que, pelo menos na opinião pública, tudo isso seja deitado a perder por causa de uma conferência de imprensa que correu mal.  

Monday, 24 October 2022

O Homem do Sudário e o que aprendemos com a crise dos abusos

A semana passada prometi novidades sobre a minha viagem a Salamanca, em Espanha. Pois venho cumprir! Estive numa fascinante exposição sobre o Santo Sudário, que apresenta como novidade um modelo hiper-realista do corpo que nele foi sepultado. É uma peça muito impressionante e a boa notícia é que os organizadores esperam trazê-la a Lisboa para as jornadas.

Aqui têm a minha reportagem principal, publicada no jornal online The Pillar (em inglês); aqui outra notícia mais curta, no The Tablet (também em inglês) e aqui a reportagem da RTP, que esteve também na viagem.

Surgiu esta quinta-feira uma notícia que, a ser verdade, é preocupante. A embaixada da Rússia diz que um padre russo em Portugal está a ser alvo de ameaças. Digo preocupante porque esse tipo de comportamento é sempre condenável, ainda que o padre defendesse coisas erradas. Mas neste caso é duplamente preocupante porque o padre em questão é um dos signatários de uma belíssima carta aberta de padres ortodoxos russos contra a guerra, que podem ler aqui.

Temos tido tempos difíceis na Igreja por causa dos abusos. Hoje publiquei no blog um artigo em que resumo três coisas que penso que aprendemos sobre esta questão em Portugal. 1º, que a comissão independente fazia mesmo falta; 2º, que se quebrou o mito de que em Portugal os abusos que existiam eram apenas casos isolados e circunstanciais e, 3º, que para bem de todos os bispos parecem estar a aprender com os erros no que diz respeito à comunicação.

Sobre este assunto volto a chamar a vossa atenção para os últimos três episódios do Hospital de Campanha, e também para este texto sobre os casos de alegados encobrimentos de que foi acusado D. José Ornelas.

O artigo desta semana do The Catholic Thing é para todos os que estão envolvidos de alguma forma na vida académica. Randall Smith explica que “não estamos na universidade para nos servirmos a nós mesmos ou aos nossos egos, mas aos nossos alunos. Nem devemos servir uma ideologia. Servimos a verdade, porque quando servimos a verdade é a Deus, que é a Verdade, que servimos (...) Todos os que procuram sinceramente a verdade têm um lugar na universidade católica”.

Esta semana foi anunciado o preço para participação plena nas jornadas. Claro que surgiram imediatamente notícias a dizer que esse era o preço a pagar para ver o Papa. O meu pai sempre disse que o número de parvos é infinito… Claro que o preço diz respeito a alojamento, alimentação e todos os materiais logísticos. O acesso aos eventos é gratuito, como sempre foi.



Monday, 17 October 2022

Uma Igreja de abusadores, mas também de santos

Escrevo com atraso porque estive em Salamanca. Em breve espero poder explicar-vos porquê.

Desde que publicámos a primeira e a segunda parte da conversa com Pedro Gil, sobre os abusos em Portugal, vieram a público mais alguns casos que devem ser falados, incluindo um com o pároco de Massamá. Por isso, neste mais recente episódio do Hospital de Campanha, falamos sobre os casos que envolvem D. Ximenes Belo e D. José Ornelas. O que se sabe, quem sabe e desde quando, o que se diz, mas provavelmente não é verdade… Tudo discutido. Vale a pena ouvir!

No mesmo dia em que gravámos esta conversa saiu uma grande reportagem com mais alguns dados relativos ao caso envolvendo D. José Ornelas, que continuam a deixar grandes dúvidas, como revelo neste texto.

Esta semana a Comissão Independente deu uma conferência de imprensa em que expôs os mais recentes dados da sua investigação. Na cronologia tenho os dados principais, que infelizmente ficaram ensombrados pela polémica dos comentários de Marcelo Rebelo de Sousa.

Sempre que estiverem em baixo com as notícias dos abusos, lembrem-se que a Igreja também é constituída por homens e mulheres como esta freira que cuida sozinha de 150 crianças numa das favelas mais perigosas do Haiti, e estes padres da Ucrânia que ficam na linha da frente, apesar dos perigos.

Mudando de assunto, convido-vos a ler o meu mais recente artigo na revista dos missionários Combonianos World Mission, sobre como o Papa Francisco está a mudar o Colégio dos Cardeais, e as consequências das suas nomeações.

Conhecem aquela expressão atribuída a São Francisco: “Prega sempre, usa palavras se necessário”? O autor desta semana do The Catholic Thing em português argumenta que se calhar devíamos usar palavras mais vezes, sob perigo de estarmos a criar uma geração de analfabetos funcionais no que ao Cristianismo diz respeito. É um artigo certeiro e ao mesmo tempo divertido. Leiam e partilhem!

Termino com dois desafios. No dia 18 de Outubro realiza-se o evento “Um Milhão de Crianças Rezam o Terço”, promovido pela fundação AIS. Saiba mais, incluindo como se pode envolver. E no dia 22 realiza-se a já tradicional Caminhada Pela Vida. A participação de todos é importante, nem que seja para dar ânimo e alento a quem está mais directamente envolvido em tentar evitar o avanço da cultura da morte. Mais informações no Facebook e no Instagram.

Friday, 14 October 2022

Hospital de Campanha - Episódio 11: Os casos de D. José Ornelas e D. Ximenes Belo

Já depois dos dois episódios gravados com o Pedro Gil, em que falámos da questão dos abusos na Igreja portuguesa mais de forma geral, surgiram dois casos envolvendo altas figuras da Igreja: D. Ximenes Belo, Nobel da Paz, acusado de abusos sexuais de menores, e D. José Ornelas, bispo de Leiria-Fátima e presidente da CEP, acusado de encobrimento.

Neste episódio olhamos mais atentamente para esses dois casos, analisando-os com base na informação de que dispomos, vendo o que é verosímel, o que não é, e o que a Igreja poderia ter feito melhor na forma como lidou com eles. 

É de assinalar que voltamos nesta conversa a contar com Duarte Castro, o nosso "expert" residente em assuntos envolvendo Timor. 

Na mesma noite em que conversámos sobre estes assuntos a TVI emitiu uma longa reportagem sobre um dos dois casos alegadamente envolvendo D. José Ornelas, comentei algumas dessas revelações aqui.

Foi uma boa conversa, que vale a pena ouvir. Prometemos que as próximas serão sobre temas um bocado mais alegres!





Mais sobre este assunto dos abusos na Igreja

Conversa com Pedro Gil no Hospital de Campanha - Parte 1

Conversa com Pedro Gil no Hospital de Campanha - Parte 2

Cronologia de casos de abusos na Igreja em Portugal

Contributos para uma reflexão sobre casos de abusos na Igreja


Tuesday, 11 October 2022

Abusos na Igreja. O caso de Abel Maia e de Roberto Sousa

Padre Abel Maia

Recentemente o presidente da CEP, D. José Ornelas, foi acusado de dois casos diferentes de encobrimento de abusos sexuais. Primeiro, foi em relação a alegados casos que teriam decorrido em Moçambique. O assunto foi tema durante alguns dias até que o jornal SOL publicou uma reportagem em que as alegadas vítimas admitem que foram pagas para dizer que tinham sido abusadas, e que põe seriamente em causa a credibilidade do denunciante.

O outro caso envolve alegados abusos cometidos pelo padre Abel Maia, ex-dehoniano, agora ao serviço da arquidiocese de Braga.

Na noite de segunda-feira o programa “Exclusivo” da TVI, passou uma longa reportagem, composta na sua maior parte por declarações do padre Roberto Sousa, em que este acusa D. José Ornelas e outros superiores dehonianos de terem encoberto este caso.

Vale a pena olhar mais de perto para os dados de que dispomos neste momento.

O caso surgiu em 2014 quando o padre Roberto Sousa escreveu uma carta ao bispo do Porto ameaçando revelar situações de impropério sexual, incluindo um caso de abusos, se fosse retirado da sua paróquia de Canelas. O bispo na altura era D. António Francisco dos Santos, que, entretanto, já morreu. O bispo não hesitou e entregou a carta ao Ministério Público, para que o alegado caso de abusos fosse investigado.

Este dizia respeito ao padre Abel Maia. Segundo a imprensa da época, um homem dizia que em 2003 o esse padre lhe tinha tocado na zona dos órgãos genitais, por cima das calças. Na altura dos factos a alegada vítima teria 20 anos. Esta informação consta de um artigo do jornal i, de 2015. Desde a altura em que o caso foi mais falado, até há dias, nunca se tinha alegado mais nada sobre o padre Abel.

O caso foi investigado pelo Ministério Público e arquivado por falta de testemunhas – a vítima negou os factos quando foi chamado a depor –, por falta de indícios e por prescrição.

O padre Abel Maia processou então o padre Roberto Sousa por difamação, mas este não chegou a ser julgado porque os dois chegaram a um acordo, em que o padre Roberto se comprometeu a publicar um pedido de desculpas públicas pelo que tinha dito sobre o padre Abel. Esse pedido de desculpas nunca foi publicado.

Esta situação ressurgiu agora, com D. José Ornelas a ser acusado de encobrimento. Num esclarecimento prestado pela Arquidiocese soube-se que afinal tinha havido um importante desenvolvimento. Os dehonianos fizeram um relatório, enviaram-no para Roma e o Vaticano decidiu, com base nesse relatório, aplicar uma pena canónica de cinco anos ao padre Abel, pena que já foi cumprida.

Antes de passar às revelações feitas no programa de ontem, vejamos já um dado importante. Apesar de na altura ter sido noticiado como um caso de abuso de menores, a verdade é que todos os indícios apontavam para um caso de assédio entre duas pessoas maiores de idade. Em lado algum se dizia que a vítima era menor de idade na altura dos alegados factos.

Na reportagem de ontem o padre Roberto Sousa falou longamente sobre o caso. Vou analisar em alguns pontos o que foi dito.

Padre Roberto Sousa
1 – Na entrevista ele diz que só agora é que soube que tinha havido uma pena canónica imposta ao padre Abel, que se houve pena canónica é porque houve culpa, e que essa pena não foi cumprida. Ele assume que a pena seria suspensão total do ministério.

Há vários problemas aqui. Se ele não sabia que havia uma pena, é porque não conhece o processo, e se não conhece o processo não sabe qual foi a culpa apontada ao padre Abel, nem qual a pena imposta. Dizer que a pena era de suspensão total do ministério é adivinhação. A informação que eu obtive é de que a pena não era de suspensão, mas de não ter contacto com menores e que esta foi “escrupulosamente cumprida”.

2. A alegada vítima não quis gravar, mas segundo a reportagem ele terá dito que afinal mentiu quando foi depor, e que as alegações são mesmo verdade. A própria reportagem, porém, diz que estes abusos terão começado “no início dos anos 2000”, e que a vítima tem agora 40 anos, o que faz dele maior de idade na altura dos alegados factos.

A única pessoa que disse publicamente, até agora, que esta vítima foi também abusada quando era menor de idade foi o padre Roberto, ontem, na reportagem.

Contudo, convém lembrar que, entretanto, houve uma investigação do Ministério Público, e houve um processo canónico. Em nenhuma altura se falou de abuso de menores. Se, no processo canónico, se tivesse concluído que tinha havido abuso de menores, então a pena aplicada pelo Vaticano jamais seria de cinco anos, pois a política é de tolerância zero e na altura em que a pena foi aplicada – depois de 2015 – o Vaticano estava a suspender padres em todo o mundo às centenas, não existindo qualquer razão credível para abrirem uma excepção para este caso particular.

Pode ser verdade que tudo começou quando a vítima tinha 14 anos, como alega o padre Roberto? Isso leva-nos ao terceiro ponto.

3. É o padre Roberto digno de confiança? Ora aí está a questão fulcral. É que estamos a falar de um homem que agora acusa os outros de encobrir, mas em 2014 isto só se tornou público porque ele escreveu uma carta ao bispo do Porto a ameaçar divulgar o caso se o bispo o mudasse de paróquia. Ou seja, está-nos a ser pedido que condenemos na praça pública um homem por abuso de menor, e outros por encobrimento, com base na palavra de um chantagista.

O padre Roberto teve várias oportunidades para fazer uma denúncia completa destes alegados factos às autoridades competentes, mas nunca o fez, e vem agora acusar os outros de encobrir? Quando ainda por cima os outros – neste caso D. José Ornelas e outros responsáveis dehonianos – de facto agiram logo em 2003, afastando o padre Abel do local para evitar que ele tivesse mais contacto com a alegada vítima – uma vez que D. José Ornelas diz que percebeu, independentemente dos avanços e recuos no testemunho, que existia ali uma relação de dependência emocional – e mais tarde abrindo um processo e elaborando um relatório, que foi enviado para Roma, de onde saiu uma pena canónica.

O padre Roberto teve uma frase curiosa na sua entrevista de ontem. Foi-lhe perguntado porque é que não tinha uma paróquia actualmente, e respondeu que aceitar uma paróquia seria aceitar um preço pelo seu silêncio. O problema é que nós bem sabemos que o preço do silêncio dele foi ele que estabeleceu, numa carta escrita a D. António Francisco dos Santos, e era precisamente uma paróquia.

Resumindo, temos dois cenários:

Primeiro: É tudo verdade, o padre Abel Maia abusou de um rapaz, e mais tarde adulto, durante vários anos. O caso era conhecido dos superiores dos dehonianos, mas foi encoberto até ao ponto em que já não o podiam esconder mais e fizeram um relatório que foi enviado para Roma, mas no qual esconderam o facto de se tratar de um caso de abuso de menores, dizendo ser apenas um caso de assédio de um adulto, na esperança de que o padre Abel, que entretanto deixou de ser dehoniano e passou a ser diocesano, não fosse afastado do sacerdócio, mas obtivesse uma pena mais leve. Este cenário depende, por enquanto, unicamente da integridade de um padre reconhecidamente chantagista e conflituoso.

Segundo: Isto tudo não passa de uma vingança de um padre que tem um passado problemático a vários níveis, que recusou mudar de paróquia quando o bispo o ordenou, que tentou chantagear o bispo no seguimento da sua insistência, que escapou a um julgamento por difamação prometendo publicar um pedido de desculpas num jornal de grande tiragem que depois nunca foi publicado e que hoje em dia celebra missa para os seus fiéis seguidores num armazém em Canelas, porque está sem nomeação.

Há uma expressão em inglês muito curiosa, que não tem equivalente em português, mas que acredito aplicar-se ao padre Roberto: I trust him as far as I can throw him.


Mais sobre este assunto dos abusos na Igreja

Conversa com Pedro Gil no Hospital de Campanha - Parte 1

Conversa com Pedro Gil no Hospital de Campanha - Parte 2

Cronologia de casos de abusos na Igreja em Portugal

Contributos para uma reflexão sobre casos de abusos na Igreja


Friday, 7 October 2022

Bélgica condenada por eutanásia e sanções para Ximenes

Há sondagens que indicam que há cada vez mais católicos a duvidar da presença real na Eucaristia? Neste artigo do The Catholic Thing, Randall Smith argumenta que o problema está a montante. Conseguimos acreditar num Deus que nos ama pessoalmente? Que se interessa por nós? Tudo segue daí.

A semana passada já tinha falado da situação de D. Ximenes Belo, que tanto quanto sei continua desaparecido. Entretanto soubemos que o Vaticano impôs-lhe sanções. Têm aqui a notícia em português, aqui o meu artigo para o The Tablet, em inglês.

O que é interessante as apenas em 2019, o que deixa por explicar tudo o que se passou nos 17 anos anteriores. Este é um dos assuntos que, se Deus quiser, será discutido no próximo episódio do Hospital de Campanha. Será o terceiro episódio seguido sobre a questão dos abusos, o que é um sinal dos tempos. Se ainda não ouviu os dois episódios de conversa com Pedro Gil sobre os abusos em Portugal, faça-o aqui e aqui.

Este e outros casos, incluindo as recentes alegações contra D. José Ornelas, continuam a ser reunidas aqui.

Temos notícias boas do Líbano, onde a fundação Ajuda à Igreja que Sofre ajudou uma escola técnica a resistir à crise e a continuar a servir a população, mas más notícias de Moçambique, onde o bispo de Nacala contou, à mesma instituição, como terroristas degolaram três cristãos e mataram outras oito pessoas nas últimas semanas.

Ontem surgiu uma notícia que infelizmente, não teve eco em Portugal. O Tribunal Europeu dos Direitos do Homem condenou a Bélgica num caso sobre a eutanásia. O Tribunal considerou que a Bélgica violou o direito à vida na forma como lidou com o processo de investigação à morte de uma senhora que sofria de depressão. O processo de eutanásia foi aceite por um médico activista da eutanásia que antes tinha recebido dela um donativo. A família dela nunca foi avisada. Depois de morta, quando se abriu um processo para saber se tinha havido irregularidades, o mesmo médico fez parte da comissão! Tudo inacreditável… Mas o que vale é que por cá nos dizem que vai ser tudo diferente, vai tudo correr bem.

Eu entrevistei em tempos o advogado do filho desta senhora, que processou o estado belga. A versão portuguesa está aqui, a versão integral, em inglês, está aqui. 

Thursday, 24 March 2022

Contagem decrescente até à consagração

Um cartaz anuncia a consagração em ucraniano
Amanhã o Papa Francisco consagra a Rússia e a Ucrânia a Nossa Senhora. A celebração terá lugar às 16h em simultâneo em Fátima e em Roma e será acompanhada por bispos, padres, religiosos e leigos de todo o mundo. Podem ler o texto da consagração aqui.

A celebração será transmitida em vários meios de comunicação. Eu estarei em estúdio na CNN Portugal para ir comentando durante a emissão, a partir das 16h. Antes estarei no programa da Ecclesia, na RTP 2, que é transmitido a partir das 15h06. Ainda amanhã deve sair um artigo meu no site PontoSJ sobre este assunto e, mais em geral, sobre a dimensão religiosa do conflito na Ucrânia. No próximo email incluirei links para tudo isto.

Há dias falei com D. José Ornelas, bispo de Fátima, e com um padre ucraniano em Portugal sobre esta consagração. D. José diz que a consagração não é contra ninguém, mas o padre Ivan Hudz fala da importância da conversão da Rússia e… não só. Podem ler aqui (em inglês).

Entretanto a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima está em Lviv, na Ucrânia, onde permanecerá durante mais algumas semanas. Foi sobre este assunto que estive na CNN a semana passada. Podem ver essa minha intervenção aqui e também foi este o tema de conversa na primeira emissão do novo podcast Hospital de Campanha, que podem ouvir aqui.

No meu blog continuo a recolher declarações dos principais líderes religiosos relevantes para a guerra na Ucrânia. Há material muito interessante!

No artigo desta semana do The Catholic Thing em português, o autor Francis X. Rocca medita sobre a liberdade e coloca uma questão incómoda. Quem é que é verdadeiramente livre? Nós, com as nossas vidinhas confortáveis, sujeitados a pressões comerciais para irmos comprando mais coisas, ou o ucraniano que, despedindo-se da mulher e dos filhos, dá meia volta para lutar pela liberdade? Leiam e tirem as vossas próprias conclusões.

As atenções continuam muito focadas na Ucrânia, naturalmente, mas o Vaticano anunciou uma mega-reforma da Cúria. Saiba mais aqui, nesta entrevista da minha amiga Ângela Roque ao padre Tony Neves.

Friday, 17 December 2021

Sugestão de Natal e liberdade de oração restaurada na Alemanha

Começo este mail com uma sugestão de Natal. Há vários anos li, fascinado, o livro “Not in God’s Name” do rabino Jonathan Sacks. Foi com enorme alegria que soube agora que a editora Saída de Emergência publicou o livro em português. Já comprei um exemplar (encomendei da editora, chegou em dois dias) e vou oferecer a pelo menos duas pessoas próximas. “Não em Nome de Deus” é uma resposta à subida da violência religiosa. O rabino, que tristemente já morreu, faz uma análise de episódios de conflito – incluindo conflito fratricida – no Antigo Testamento e mostra como o objetivo dos textos sagrados é mesmo o contrário de incentivar à violência. Termino assegurando que este não é um livro para especialistas ou académicos, sendo acessível para toda a gente.

Passando às notícias do dia, os EUA impuseram sanções à China por causa da perseguição aos muçulmanos uigure.

Boas notícias da Alemanha, onde um tribunal anulou a proibição de se rezar em frente a uma clínica de aborto perto de Frankfurt.

A Renascença entrevistou o presidente da Conferência Episcopal, D. José Ornelas, que falou sobre vários assuntos, incluindo o papel das igrejas na pandemia, a crise dos abusos e ainda os problemas no sistema de nomeação dos bispos.

Tudo isto no dia em que o Papa Francisco completa 85 anos!

Thursday, 4 November 2021

Higiene democrática e orações sacerdotais

O Parlamento discutiu esta quinta-feira a nova versão da lei da eutanásia, que será votada amanhã. A Federação Portuguesa pela Vida diz que a oposição à lei é uma “questão de higiene democrática” e o presidente da Conferência Episcopal questiona a legitimidade do processo.

Há 20 anos que a eutanásia é legal na Holanda e na Bélgica, mas só agora, segundo este especialista, é que as consequências para os médicos se estão a começar a fazer sentir.

Vale ainda a pena ler a opinião de Henrique Leitão, de José Pedro Ramos Ascensão e de Manuel Fúria sobre o assunto.

Os bispos vão rezar em Fátima pelas vítimas da pandemia.

Os jesuítas abriram um “serviço de escuta” para vítimas de abusos sexuais, num dia em que o Papa apela ao fim do “silêncio cúmplice” por parte da Igreja nesta matéria.

Numa semana em que tanto se falou de morte, pelas boas razões (2 de Novembro) e pelas más (eutanásia), o artigo do The Catholic Thing em português fala da importância de se rezar pelos mortos, sobretudo pelos que não têm descendentes que rezem por eles… Os padres!

Friday, 18 June 2021

Vitória para a Liberdade Religiosa e selos para heróis

A Liberdade Religiosa conseguiu uma vitória contundente esta quinta-feira nos EUA, com o Supremo Tribunal a dar razão, por unanimidade, a uma agência de adopção católica que não aceitava ser forçada a colocar crianças com casais homossexuais.

Na Europa quer-se tentar – novamente – consagrar o aborto como um “direito humano”. Os bispos da União Europeia dizem não!

Por cá foi dia de os CTT emitirem uma coleção de selos que comemoram cinco cidadãos portugueses que ajudaram a salvar judeus durante o holocausto. Conheça aqui as suas histórias.

Depois de dois anos sem muitas das tradições populares que nos caracterizam, poderão estas sobreviver? É o que temem alguns populares, como os devotos de Nossa Senhora do Desterro.

D. José Ornelas diz que a pandemia teve, pelo menos, o efeito positivo de aumentar a sensibilidade para os problemas sociais.

E não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre a noção de se estar, ou não, do “lado certo da história”. Mais vale, diz o autor, estar sempre do lado certo da consciência.

Thursday, 12 November 2020

Mais surpresa, mais McCarrick

Os bispos voltaram a afirmar que foram apanhados de surpresa pelo anúncio do recolher obrigatório e que vão discutir mais o assunto durante a reunião plenária da Conferência Episcopal.

O tema da pandemia está, por isso, na ordem dos trabalhos dos bispos, mas na abertura da reunião, quarta-feira, D. José Ornelas voltou a falar do tema da Eutanásia.

O Papa Francisco disse esta quarta-feira que a Igreja vai continuar a lutar pela erradicação dos abusos sexuais. Disse-o um dia depois de ter sido publicado o relatório McCarrick, que visa saber como é que um predador sexual como ele chegou a cardeal e arcebispo de Washington, gozando de enorme influência.

Esse relatório, que já referimos ontem, deixa o Papa João Paulo II bastante mal visto. Para quem, como eu, cresceu a amar aquele pastor, são revelações difíceis de engolir. Como conciliar estes seus erros com o facto de ter sido declarado santo? Em primeiro lugar, compreendendo que existe uma diferença entre o erro e a corrupção. Escrevo sobre isso, evocando outra figura sobre quem surgiram entretanto revelações tristes, Jean Vanier, neste artigo que vos convido a ler

E o relatório McCarrick é ainda o tema do artigo desta semana do The Catholic Thing. Normalmente publicamos um artigo que tenha sido publicado no site original na semana anterior, mas esta semana, pela primeira vez, publicamos nós em primeira mão, o artigo que só sairá mais tarde na edição americana. É a vossa oportunidade de se anteciparem aos leitores anglófilos! Não a percam.

Monday, 26 October 2020

Covid no Lar e Pizzaballa na Terra Santa

Há um surto de Covid-19 na Casa Sacerdotal de Lisboa, o lar para padres idosos e reformados do Patriarcado de Lisboa. Por enquanto só um padre idoso tem sintomas. Saiba tudo aqui.

O Papa nomeou mais 13 cardeais. Entre eles o primeiro cardeal negro dos EUA, um do Ruanda e um do Brunei, de ascendência chinesa.

Francisco nomeou também o novo Patriarca Latino de Jerusalém. Trata-se do franciscano italiano que já servia como administrador há quatro anos, pelo que não foi uma surpresa total, mas os fiéis e o clero, de vasta maioria árabe, esperavam que fosse novamente um árabe a ser escolhido.

Nos dias em que estive de folga o Parlamento chumbou o referendo à eutanásia. Os bispos não se coibiram de criticar os deputados.  

Depois de ter publicado duas notícias com base numa entrevista ao padre Peter Stilwell, a semana passada, hoje deixo-vos com a transcrição integral da conversa, para quem quiser ler mais a fundo.

Não deixem de ler o artigo do The Catholic Thing dasemana passada, sobre como a candidata a juíza no Supremo Tribunal dos Estados Unidos é “intolerável”, como nós também devíamos ser.

Tuesday, 13 October 2020

Balanço positivo de Fátima, Trump a descer entre cristãos

O Arcebispo de Braga veio pedir hoje que os cemitérios não estejam fechados nos dias 1 e 2 de novembro – ecoando assim o apelo da CEP – mas pediu também que as autoridades tenham o cuidado de evitar concentrações. As romagens e celebrações na arquidiocese não se irão realizar.

Ontem e hoje foram as primeiras celebrações em Fátima com as regras de contingência da Covid. Houve menos gente no santuário, apenas cerca de seis mil pessoas, mas o balanço feito é positivo.

D. José Ornelas presidiu às celebrações. Ontem criticou os movimentos populistas e hoje juntou a essa lista os egoísmos conflituosos.

D. António Marto também falou ontem, dizendo que em termos de liberdade de culto não pode acontecer no Natal o que aconteceu na Páscoa.

Olhamos agora para os EUA, onde uma sondagem revelada hoje mostra que Trump está a perder apoio entre cristãos brancos, mas continua a ser o seu candidato preferido. Já Joe Biden é o preferido de todos os outros grupos religiosos. Saiba tudo aqui.

Hoje destaque para outro dos artigos do The Catholic Thing que foi publicado nas últimas semanas. O padre Paul Scalia desfaz uma confusão comum, explicando que existe uma grande diferença entre ser pecador – todos somos – e ser hipócrita, coisa a que ninguém deve aspirar. Vale bem a pena ler e partilhar.

Friday, 8 February 2019

Proibido rezar, permitido abortar

Perigosíssimos criminosos
Sabia que em Londres há duas zonas em que é proibido rezar? Os defensores do aborto não olham a meios para fazer avançar a sua agenda…


Mantém-se a situação de crise na Venezuela. Muitos têm estranhado a posição do Vaticano, mas o cardeal Pietro Parolin veio esta sexta-feira defender o que chama “neutralidade positiva”, que tem por objectivo “superar o conflito”.

O bispo de Setúbal foi entrevistado em conjunto pela Renascença e pela Ecclesia. D. José Ornelas falou do “processo de purificação” que a Igreja está a viver por causa dos abusos sexuais e referiu-se ainda à situação do Bairro da Jamaica, que muita tinta tem feito correr ultimamente.


Wednesday, 28 November 2018

Red wednesday

Já viu as imagens do menino autista e mudo que se tornou a estrela da audiência geral do Papa Francisco, hoje?

O Presidente das Filipinas quer que os cristãos deixem de frequentar as igrejas. Nós gostaríamos que ele deixasse de assassinar toxicodependentes. São escolhas…

Quatro finlandeses foram expulsos da Malásia por distribuir material cristão e nos Camarões um padre foi assassinado por soldados e dois outros raptados no espaço de três dias. Na República Centro-Africana os bispos convidam os fiéis a um dia de oração e luto pelo regresso da violência.

É por esta e por outras que hoje é Red Wednesday, para recordar os cristãos perseguidos. Em Portugal, se viver por perto, pode ver o Cristo Rei, os Jerónimos, os Clérigos e a Basílica dois Congregados iluminados de encarnado.

É possível construir igrejas modernas e bonitas? Sim. Aqui está a prova.

O bispo D. José Ornelas está solidário com os estivadores do Porto de Setúbal.

E hoje é quarta-feira, por isso trago-lhe mais um artigo do The Catholic Thing, com Randall Smith a perguntar se o Antigo Testamento é uma história de progresso ou de contínuos falhanços por parte do povo de Deus. A resposta? “Ambas as duas”.

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