quarta-feira, 31 de março de 2021

Barrabás: Um Exame de Consciência da Semana Santa

Pe. Paul Scalia

Nas suas respetivas narrativas da Paixão do Senhor, todos os quatro Evangelhos referem o facto de a multidão ter preferido Barrabás a Jesus. A escolha surge no final da tentativa, meia irresoluta, de Pôncio Pilatos de libertar Jesus. É o momento em que a multidão rejeita definitivamente Cristo e abraça o mal. 

A narrativa capta o pecado humano em poucos versos. Primeiro Pilatos coloca diante da multidão “Jesus Barrabás” (Mt. 27,17) – isto é, Jesus, filho do pai” – e depois Jesus o Filho eterno do Pai. A multidão é chamada a escolher o verdadeiro filho do Pai ou a sua contrafação, a verdadeira filiação ou a falsa. A escolha da contrafação e do falso resume o nosso estado pecaminoso.

Nas liturgias de Domingo de Ramos e de Sexta-feira Santa a congregação pede a libertação de Barrabás. Ao desempenhar esse papel no drama, o povo de Deus está também, de certa forma, a fazer uma confissão. Porque na verdade escolhemos Barrabás. Preferimos o falso filho do pai ao filho de Deus. Tal como os israelitas um dia “trocaram a sua glória pela imagem do Touro que come relva” (Salmos 106,20), também nós preferimos uma pseudofiliação em vez da “Glória que em nós será revelada” (Rom. 8,18). Escolhemos ser filhos no espírito de Barrabás e não de Cristo.

Quem é este que escolhemos? Barrabás é descrito alternadamente como um rebelde, um assaltante e um assassino. Estas acusações não são mutuamente exclusivas. Cada uma delas ilumina uma dimensão diferente da nossa pecaminosidade. E seguem-se muito bem uma à outra. Primeiro, como disse C.S. Lewis, “Não somos meramente criaturas imperfeitas que devem ser melhoradas; somos rebeldes que devem depor as armas”. A nossa insistência por autonomia total, de sermos uma lei para nós mesmos – para ser como Deus (Gen. 3,5) – não pode existir na ordem de Deus. É rebelião aberta.

E somos também assaltantes. Tomámos os dons e a glória de Deus para nós mesmos. Tudo o que somos e temos é um dom de Deus a ser oferecido. Mas mantivemos estas coisas como nossas possessões, para nosso propósito e glória. E gabamo-nos delas como se fossem as nossas conquistas.

E tudo isto faz de nós homicidas também. Deus é a condenação e repreensão final e o travão para a nossa rebelião e o nosso roubo. Não podemos continuá-los se ele estiver em cena. Para preservar a nossa autonomia e a nossa glória temos de nos desfazer dele. O mundo moderno não é mais que esta verdade escrita em letras garrafais. Mas cada um de nós vive-a pessoalmente.  

No fundo a escolha entre Jesus Barrabás e Jesus Cristo é uma escolha entre a nossa autopreservação e o dom de nós mesmos. É a escolha fundamental que o Senhor articula repetidamente e à qual regressa pouco antes da sua Paixão. “Quem amar a sua vida perdê-la-á, e quem odiar a sua vida neste mundo preservá-la-á para a vida eterna”. (Jo. 12,25; conferir Mt. 16,25; Lc 17,33).

Barrabás é a imagem do homem que ama a sua vida e procura preservá-la a todo o custo. Rebeldia, furto e homicídio são apenas formas diferentes que arranjou para poder manter o seu pequeno reino seguro. Por outro lado, Nosso Senhor – espancado, flagelado e coroado de espinhos – é o homem que odeia a sua vida neste mundo. Perdeu tudo: poder, possessões, saúde, dignidade, amigos, etc., mas sabe que esta perda não é o final mas o começo, o plantar de uma semente.


Seguimos Barrabás quando abraçámos esta autopreservação desordenada. Podíamos dizer que é orgulho, mas na nossa cultura essa palavra implica tradicionalmente autoafirmação e exige reconhecimento. Embora possa ser ambas essas coisas, na maioria das vezes o nosso orgulho – essa preservação das nossas vidas, do nosso conforto, da nossa reputação acima de tudo – não é altivo e forte, mas incómodo e fraco. É no interesse da autopreservação que os apóstolos fogem e abandonam Nosso Senhor. É para preservar a sua vida que Pedro hesita diante da pergunta da criada e renega Cristo. É para preservar o seu reinado inconsequente que Pilatos entrega Cristo para ser crucificado. 

Este medo desordenado de perder a nossa autonomia, esta ânsia de preservar as nossas vidas, é a fonte de todo o pecado. Reagimos enfurecidos quando sentimos uma ameaça à nossa reputação e ao nosso ego. A nossa gula leva-nos a açambarcar mais e mais coisas, para nos protegermos e assegurar as nossas fronteiras. Deixamo-nos cair na preguiça para evitar Deus e preservar o nosso tempo como nosso. E por aí fora. Cada pecado tem esta característica de autopreservação.

Jesus Cristo é o verdadeiro Filho do Pai. O seu despojamento é o meio da nossa redenção e o padrão para vivermos a nossa filiação. “Vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte, e morte de cruz!” (Fil. 2, 7-8). A conversão contínua do cristão requer esta repetida rejeição de Barrabás e o abraço a Nosso Senhor. A Semana Santa é o tempo certo para aprofundar essa conversão, para nos dedicarmos de novo ao verdadeiro Filho.

“A quem querem que eu liberte, [Jesus] Barrabás, ou Jesus, a quem chamam o Messias?” (Mt. 27,17). No passado temos clamado por Barrabás, para que também nós pudéssemos viver essa falsa filiação. Agora arrependemo-nos e clamamos por Cristo, para que sejamos libertados para seguir o verdadeiro Filho do Pai e o seu caminho de autodoação.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 28 de março de 2021 em The Catholic Thing

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.  



quarta-feira, 24 de março de 2021

O que Cobre uma Multidão de Pecados?

O conceito de pecado privado não existe. As nossas falhas morais – sejam quais forem – têm consequências que vão bem para além da nossa culpa ou inocência pessoal. As minhas falhas morais têm consequências para a minha mulher e filhos, para os meus amigos e por aí fora. Os meus falhanços causam sofrimento nos outros, muitas vezes de forma invisível. O meu pecado fomenta o pecado e limita a virtude, em mim e nos outros. Como o mundo seria melhor se eu fosse santo!

Às vezes conseguimos apenas vislumbrar os filamentos morais que ligam as nossas ações às vidas de quem nos rodeia. Noutras alturas as consequências dos nossos pecados são muito evidentes. Qualquer pai que ouve o seu filho a repetir as suas próprias palavras menos que caridosas conhece o poder do seu próprio mau exemplo. Às vezes pecados que, insensatamente, esperávamos que se mantivessem secretos são expostos à luz para que todos os possam ver, para nosso horror e humilhação.

Estes momentos de reconhecimento podem ser ocasiões para a graça mexer com a consciência – como o canto do galo que levou Pedro a chorar lágrimas de amargura. Mas tais ocasiões, em que somos postos em situações embaraçosas pelas nossas próprias consciências, nem sempre levam a arrependimento e conversão. Pelo menos não no imediato.

No Evangelho de Marcos um homem rico vai ter com Jesus, ansioso por fazer o que for preciso para herdar a vida eterna. De início fica satisfeito por ouvir que já fez tudo o que é necessário, mas a sua alegria transforma-se em desapontamento quando Nosso Senhor lhe pede mais. Todos conhecemos a história:

“Só te falta uma coisa. Vai, vende tudo o que possuis e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu; depois vem, e segue-me.”

Perante essas palavras caiu-lhe o semblante e afastou-se, triste, pois tinha muitos bens.

O homem rico estava tão perto, só lhe faltava uma coisa. Mas não era capaz de abdicar dessa amarra. E Cristo, que “olhando para ele o amou”, deixou-o ir.

Lembrei-me novamente desta passagem esta semana por causa da resposta da Congregação para a Doutrina da Fé (aqui) a uma questão sobre “bênçãos de uniões entre pessoas do mesmo sexo”. A decisão da Congregação para a Doutrina da Fé, apoiada pelo Papa Francisco, é de que as uniões homossexuais não podem ser abençoadas. “[Deus] não abençoa, nem pode abençoar, o pecado”. A resposta causou angústia entre aqueles que esperavam há muito tempo que a Igreja encontrasse uma forma de contornar a Escritura e a Tradição para abraçar as uniões homossexuais.

Que isto tenha vindo do Papa Francisco – o Papa do “Quem sou eu para julgar”, o Papa que deu apoio cauteloso a uniões de facto entre pessoas do mesmo sexo, o Papa em quem tantos tinham colocado as suas esperanças por mudanças radicais de doutrina – tornou esta questão ainda mais difícil de aceitar.

O que me leva de volta à história do homem rico.

Para aqueles que, como eu, vêem a clarificação da CDF como necessária e bem-vinda, a tentação é a de responder à revolta e à dissidência com um “Ainda bem! Se preferem agarrar-se ao que lhes é caro em vez de seguir a verdade, então deixem-nos ir!”

Poderá chegar a isso. Alguns poderão mesmo abandonar, mas isso não seria uma coisa boa. A Igreja é para os pecadores.

Não. Fazer pouco da derrota dos outros, perante verdades difíceis, é sobranceria. Todos precisamos de misericórdia e sabê-lo deve servir para nos tornar humildes.

Não foi por ver alguns a abandonar Cristo e a Sua Igreja que me lembrei da história do homem rico, foi porque é muito fácil ver-me a mim próprio no seu lugar: orgulhoso, satisfeito e indisposto a despojar-me daquilo que me impede de crescer em união com Deus.

O que a Igreja pede aos católicos com atração pelo mesmo sexo pode ser simplesmente e claramente a castidade – mas isso não o torna fácil. Deus oferece a sua misericórdia a todos, mas a sua oferta de misericórdia não nos poupa às escolhas difíceis. De certa forma, a sua maior misericórdia é mesmo essa escolha, ele oferece-nos uma saída, por mais estreita que possa ser, em vez de nos deixar como somos. E embora Ele nos olhe e nos ame, como com o homem rico, deixa ao nosso critério aceitar essa oferta. Ou não.

Só de pensar nisso devemos tremer.

Nas semanas e nos meses que se seguem vai haver muita discussão sobre esta declaração da CDF. Haverá muitas verdades difíceis para defender e argumentos a expor. A questão entrará sem dúvida nos nossos debates políticos: basta pensar no “Equality Act” que está atualmente a ser discutido pelo Congresso. E é natural que continue a gerar mal-estar entre católicos.

Mas se o pecado fomenta o pecado e limita a virtude, então o amor alcança o oposto. Por mais bem-vinda que seja a clareza da resposta da CDF, essa clareza não nos absolve do trabalho de amar aos nossos inimigos, quanto mais os nossos irmãos e irmãs em Cristo.

Deixamos passar essa oportunidade à nossa conta e risco.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 18 de Março de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

sexta-feira, 19 de março de 2021

Ano da Família is GO!

Hoje é dia de São José e arranca o Ano da Família, convocado pelo Papa Francisco. O Papa diz que é preciso defender a família de tudo o que compromete a sua beleza.

Também hoje arranca o ano letivo em Moçambique. Os bispos locais estão preocupados com os milhares de crianças que tiveram de fugir da região de Cabo Delgado e por isso não conseguem ir à escola.

Ontem estive no programa da Agência Ecclesia, na RTP2, para falar sobre a inconstitucionalidade da lei da eutanásia. Podem ver aqui.

Um relatório independente encomendado pela arquidiocese de Colónia concluiu que mais de 300 jovens foram sexualmente abusados por membros de clero naquela região da Alemanha.

Os bispos portugueses descartam a possibilidade de os políticos terem de declarar a sua pertença a organizações ou movimentos religiosos, dizendo que isso viola a liberdade religiosa.

Para o artigo desta semana do The Catholic Thing regressamos ao nosso querido Randall Smith, que pergunta como reagiria se vivesse na Terra Santa nos tempos de Jesus. As conclusões não são muito reconfortantes, e obrigam-nos a pensar também.

Por fim, um desafio. Na segunda-feira, a partir das 21h30, estarei com a minha querida colega e amiga Aura Miguel a falar sobre a recente viagem do Papa Francisco ao Iraque, num evento do Meeting do movimento Comunhão e Libertação, que este ano decorre online. Apareçam!

quarta-feira, 17 de março de 2021

Sepulcros Caiados

Às vezes penso se, caso estivesse vivo na altura em que Jesus pregava, teria estado entre a pequena minoria de pessoas que o aceitaram a Ele e à sua mensagem. Ou se, pelo contrário, teria sido um dos muitos que não, reagindo antes com medo, revolta e indignação moralista.

Teria sido um daqueles que, embora sem o rejeitar explicitamente, dizia a si mesmo “este homem é especial e importante, e enquanto eu puder continuar a agir como antes, sentindo-me especial e importante, então óptimo. Se as coisas se tornarem difíceis e esse sentimento desaparecer, então que se lixe (ou, neste caso, que se crucifique)”?

É difícil imaginar que teria sido suficientemente bom para fazer parte do pequeníssimo grupo, composto essencialmente por uma mão cheia de mulheres no início, que disse “Este é o meu Senhor muito amado, o Senhor da minha vida, e onde Ele for eu irei, mesmo até à Cruz”. É mais provável que eu fosse daqueles que aceitou alguns dos seus ensinamentos mais simpáticos, rejeitando as coisas difíceis – um daqueles que disse aos seus amigos: “até gosto de algumas das coisas que Jesus diz, mas Ele vai longe de mais. A maneira como ele diz as coisas, às vezes, não é… suficientemente intelectual. Não tem cuidado, não é prudente. Vai-nos meter em sarilhos”.

Como académico, penso se teria sido um daqueles escribas de segunda ou terceira categoria, que liam obedientemente os livros prescritos (em grego ou em hebraico), participando nos rituais prescritos (tanto romanos como judaicos) e debatendo os assuntos culturais e políticos da forma do costume (partido dos fariseus, partido dos saduceus, partido dos zelotas, oficial romano). Teria permitido que Cristo me mudasse? Ou teria sido um dos que achou Cristo e a sua mensagem um bocadinho perturbadores?

Suspeito que teria sido um daqueles que ia cumprir devidamente as obrigações litúrgicas, mas que estava vazio por dentro; que preferia crucificar o Salvador ungido do que deixar-se transformar por Ele. Temo que seria um daqueles “sepulcros caiados” de que Cristo fala, que são belos por fora, mas por dentro estão cheios dos ossos dos mortos.

Estaria Cristo a falar de pessoas como eu quando disse: “Tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens, por isso alargam as filactérias e alongam as orlas dos seus mantos. Gostam de ocupar o primeiro lugar nos banquetes e os primeiros assentos nas sinagogas. Gostam das saudações nas praças públicas e de serem chamados ‘mestres’ pelos homens”. Preocupa-me, porque Cristo ainda vive, ainda está a tentar transformar as nossas vidas. E por isso pergunto-me se sou assim tão diferente dos “maus” da Bíblia.

Questiono-me sobre tudo isto porque quando se é convertido, como eu, repara-se em certas coisas. Repara-se que outros católicos – mesmo os “conservadores” piedosos – que se vestem bem e vão à missa, ouvem, semana após semana, as leituras de Amós, Oseias e Isaías sobre como viver vidas retas e da importância de cuidar das viúvas e dos órfãos e escutam os avisos de Cristo no Novo Testamento sobre o homem rico e Lázaro e depois, quando chega Segunda-feira, mentem e enganam nos seus trabalhos, tal como todos os outros.

Encontramos instituições católicas que se orgulham dos seus santuários a Nossa Senhora ou à Madre Teresa, ou dos seus bancos alimentares ou centros de justiça social mas que tratam os seus próprios empregados como lixo descartável.

Os católicos são muitas vezes como aquela criança a quem dizemos, duas ou três vezes, para não comer antes do jantar. A criança acena que sim e depois mete a mão no boião das bolachas. Vezes e vezes sem conta ouvimos São Paulo a exortar os cristãos: “Façam tudo sem queixas nem discussões para que vocês não tenham nenhuma falha ou mancha. Sejam filhos de Deus, vivendo sem nenhuma culpa no meio de pessoas más, que não querem saber de Deus. No meio delas vocês devem brilhar como as estrelas no céu”.

Ouvimo-lo a avisar todos aqueles que “não estão ocupados com o trabalho”, mas que se tornaram “coscuvilheiros”. Vezes sem conta ouvimos Cristo a dizer “todo aquele que se irar contra o seu irmão será submetido a julgamento. Quem chamar imbecil a seu irmão será submetido ao Sinédrio, e quem lhe chamar louco será submetido à geena de fogo.”

E apesar disso encontramos milhares de comentários enfurecidos nas redes sociais, sem caridade, de pessoas que se justificam dizendo que estão a praticar a “Verdadeira caridade católica”, como se os escribas e os fariseus estivessem a ser caridosos com Jesus e com o povo judeus quando pregaram Cristo na cruz.

Quando vamos à missa estamos apenas em modo automático, para depois viver vidas contrárias ao Evangelho? E se sim, como é que saberíamos? Estamos, como tantos nos dias de Jesus, a cegar-nos e a bloquear os nossos ouvidos para a verdade? Talvez precisemos de uma lista de controlo quaresmal.

Fiz comentários zangados e presunçosos nas redes sociais? Convenci-me de que eram totalmente justificados?

Confundi o “individualismo atomista” (ninguém manda em mim) com a verdadeira liberdade?

Alimentei a política hiperpartidária zelota, ou fiz os possíveis para lidar com ela com calma medida e caridosa?

Fui à missa, fiz gestos piedosos para com Maria e os santos e depois lidei com os meus assuntos seculares como se nada fosse?

Apelido-me de “católico” e depois parto do princípio de que isso não me deve levar a fazer qualquer sacrifício em termos de dinheiro, status e conforto para defender a Igreja e ajudá-la a concretizar as suas obras corporais de misericórdia?

Por fim, questiono-me sobre se a maioria de nós reconheceria Cristo se Ele voltasse? Ou veríamos uma grande multidão revoltada a tentar pregá-lo a uma Cruz em nome da “piedade religiosa”, ou simplesmente porque demasiadas pessoas o achavam uma ameaça à nação?

Como dizia, às vezes questiono-me. E não é reconfortante.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 10 de Março de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.


terça-feira, 16 de março de 2021

Inconstitucionalidade eutanasial

O Tribunal Constitucional decidiu que a lei da eutanásia viola a Constituição.

Os bispos e outras organizações católicas saudaram a decisão, embora sublinhando – ao contrário do acórdão – que a eutanásia é sempre um grave mal que viola o direito à vida.

Houve muita discussão sobre a decisão do tribunal, tendo em conta que a sentença diz que a eutanásia, propriamente dita, não viola o direito à vida. Assim, esta pode parecer uma vitória fugaz, mas sugiro que leiam com atenção esta entrevista a Jorge Silva Pereira, da Faculdade de Direito da Universidade Católica, que ajuda a pôr as coisas em perspetiva.

Hoje é o dia em que os portugueses são chamados a rezar pelas vítimas da pandemia. É uma iniciativa europeia e Portugal ficou com o dia 16.

Fantástica descoberta arqueológica em Israel!

Os Estados Unidos poderão ter em breve o seu primeiro juiz federal de religião muçulmana.

Não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing, sobre as semelhanças entre a Quaresma e a jardinagem.

quinta-feira, 11 de março de 2021

Quanto vale a vida? Pouco. E a liberdade? Um dólar

Marcado pela destruição que viu no Iraque, o Papa Francisco perguntou ontem quem é que vende armas aos terroristas?

A imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima vai à Arménia, Geórgia e Azerbaijão, outra zona de conflito.

O Supremo Tribunal dos EUA deu razão a um jovem que processou a sua antiga universidade por violação da sua liberdade religiosa e de expressão. A indemnização que o jovem pediu tem o incrível valor de 1 dólar. Uma questão de princípio, portanto.

Quanto vale a vida em África? Pouco ou nada, diz o bispo que este ano escreveu a Via Sacra para a fundação Ajuda à Igreja que Sofre.

O Vaticano pede ajuda aos cristãos da Terra Santa, pois sem ela a comunidade pode desaparecer.

O artigo desta semana do The Catholic Thing em português é excelente para a Quaresma! O que é que os esforços quaresmais têm a ver com a jardinagem? E qual a importância dos jardins na Bíblia e na história da salvação? Não deixem de ler o artigo de Stephen White e partilhem sobretudo com quem gosta de jardinagem. 

quarta-feira, 10 de março de 2021

O Animal Jardineiro

Stephen P. White
A Quaresma é um tempo de preparação. As nossas observâncias quaresmais de oração, penitência e esmola ajudam-nos a limpar o afeiçoamento que desenvolvemos por vícios, que de outra forma inibiriam o nosso crescimento espiritual. O trabalho da Quaresma prepara-nos, corpo e alma, para as alegrias da Páscoa e a celebração de nova vida na Ressurreição.

No final do inverno e início da primavera, o trabalho de cuidar de um jardim é semelhante aos esforços da Quaresma. As coisas velhas, mortas ou doentes, precisam de ser cortadas e retiradas dos canteiros para abrir espaço para novo crescimento – crescimento que ainda não vejo mas que sei (espero?) se manifestará em breve. E depois há as ervas daninhas, que por manha demoníaca continuam a propagar-se e a crescer enquanto o resto do jardim faz o seu descanso invernal. Estas devem ser arrancadas pela raiz.

Na Virgínia do Norte, onde eu vivo, começam-se a ver já os primeiros indícios da primavera. Alguns narcisos e túlipas começam a emergir da terra encharcada. As primeiras flores de açafrão e amarilidáceas começam a florescer. A relva está molhada e enlameada, especialmente nos locais onde as crianças estiveram a brincar. As rosas precisam de ser podadas e a terra pesada da horta tem de ser revirada. Na maior parte o jardim parece morto e até um bocado descuidado. Quando chegar a primavera já vai estar tudo diferente, um festival de vida e de cor.

Os paralelos entre o trabalho de um jardineiro e um penitente na Quaresma, ou entre as flores da primavera e a alegria da Páscoa, não são difíceis de ver. Mas a analogia entre a jardinagem e a vida espiritual vale a pena ser contemplada de forma mais profunda também. Ao longo de toda a história da salvação, frequentemente nos momentos mais críticos, encontramos um jardim.

A primeira habitação natural do homem é um jardim, O Jardim: “O Senhor Deus plantou um jardim no Eden, a oriente, e colocou lá o homem que tinha formado”. Vale a pena reparar que um jardim não é um espaço silvestre, incorrupto pela mão do homem, mas um espaço que está ordenado e cuidado. É o próprio Deus que planta. O Paraíso – a etimologia sugere um jardim murado – é um local de ordem e de harmonia entre Deus e o homem, homem e Criação, sobre a qual nos foi dado o domínio.

O nosso castigo pelo pecado é a perda do Paraíso, e da relação ordenada que existia no Jardim. Pelo pecado tornámo-nos distantes do nosso Criador e a nossa relação com a criação passou a ser marcada pelo esforço e o desejo de poder. Caim tornou-se um trabalhador da terra mas a sua oferta não agradou a Deus. O homem colabora com a natureza para conseguir sustento – qualquer agricultor sabe que a sua colheita depende da terra, das sementes e do tempo. Depois da Queda, essa colaboração mantém-se, mas está marcada pela aflição e pela necessidade. Uma quinta, tal como a selva, pode ser bela e boa, mas não é um jardim.

Os jardins reaparecem ao longo das Escrituras. No Cântico dos Cânticos, por exemplo, o jardim é um lugar de intimidade entre o amante e a amada, e, deforma alegórica, entre Deus e o seu povo esponsal, Israel. Mais uma vez, o jardim é um local onde a relação correcta entre Deus e o homem se reflecte na ordem e na beleza das redondezas.


Nos Evangelhos, o pecado e a desobediência de Adão, que nos custaram o Jardim de Eden, foi desfeito pela obediência de Cristo à vontade do Pai no Jardim do Getsémani. Cristo não foi expulso do Gétsemani, foi levado à força. E quando o seu trabalho de redenção se cumpre, São João diz-nos onde depositaram o seu corpo crucificado: “No lugar em que ele foi crucificado havia um jardim, e no jardim um sepulcro novo, em que ninguém ainda fora depositado.”

Por isso, quando Cristo, o Novo Adão, ressuscita na Páscoa, fá-lo da terra de um jardim. Naquela manhã gloriosa, Maria Madalena veio ao sepulcro onde encontrou o Cristo ressuscitado. Mas de início ela não reconhece Jesus, confunde-o com o jardineiro. Todos formos feitos para um jardim; fomos redimidos num Jardim pelo Divino Jardineiro.

No meio disto tudo, o jardim é mais do que uma alegoria para a harmonia com o nosso Criador e a sua criação. Jardinar é, ou pode ser, um empreendimento moral. Um jardineiro precisa de conhecer diferentes plantas, os solos, o sol e o vento, a chuva e o tempo. Se ele quiser ordenar o seu jardim para que seja mais belo tem de usar esse conhecimento para trabalhar com a natureza e não contra ela.

Cada jardim é uma escola de teleologia: a semente brota, não porque o jardineiro o fez brotar, mas porque é isso que as sementes fazem! A flor floresce para produzir fruto e o fruto para a semente! Esta é uma lição elementar, mas uma que, nos nossos dias, é positivamente subversiva: A natureza tem propósitos! Todos os jardineiros sabem-no, não como um princípio abstracto, mas como um simples facto.

Não consigo pensar num antídoto mais poderoso para a nossa era tecnocrata e utilitária do que aprender a trabalhar com a natureza e não contra ela. Não somos, como pretendia Descartes, “senhores e donos da natureza”. Recordemos a definição de Cícero da virtude: “A virtude é um hábito da mente, consistente com a natureza, a moderação e a razão”. Por todas estas razões, a jardinagem é uma excelente escola para adquirir estes hábitos.

Podemos dizer muita coisa sobre o animal humano – que é racional, político, social, e por aí fora. Talvez lhe devemos acrescentar mais uma: O homem é o “animal jardineiro”. Veremos se pega. Eu estarei a ponderar estas coisas muito depois de a Quaresma dar lugar à Páscoa.

Entretanto, no meu jardim está sol (por enquanto) ar fresco e ervas para arrancar.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 4 de Março de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

 

segunda-feira, 8 de março de 2021

Papa no Iraque - Conclusão

O Papa voltou esta segunda-feira para Roma, pondo assim fim a uma viagem fantástica ao Iraque.

O ponto alto da sua viagem foi no domingo. Em Mossul Francisco sublinhou que a fraternidade é mais forte que o fratricídio. Em Qaraqosh falou da necessidade de reconstruir, não apenas casas e igrejas, mas relações, com base no perdão. E por fim, em Erbil, elogiou a Igreja “viva” do Iraque, que vive sem ressentimentos e sem vinganças.

Em Erbil Francisco esteve com o pai de Alan Kurdi, o menino cuja morte no Mediterrâneo chocou o mundo e prometeu que o Iraque ficará para sempre no seu coração.

Podem ler aqui o meu resumo desse terceiro dia, em que Francisco mostrou como a Cruz triunfou no preciso espaço onde há seis anos jihadistas prometiam que chegariam a Roma.

A Renascença falou ainda com Catarina Bettencourt Martins, da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, que fala da necessidade de se apoiar as novas gerações no Iraque.

Finalmente, a caminho de Roma, Francisco falou da importância do diálogo com o Islão, e como sabe que assume riscos ao fazer este caminho.

sábado, 6 de março de 2021

Papa no Iraque - Dia 2

Já terminou o programa oficial do Papa deste sábado, no Iraque.

Francisco começou o seu dia com uma viagem até Najaf, a terceira cidade mais santa do Islão xiita, para um encontro privado com o líder supremo dos xiitas naquele país. Foi um momento histórico.

De seguida, o Papa foi até Ur, terra natal de Abraão, onde se encontrou com representantes de religiões abraâmicas, sendo notória a ausência de qualquer representante judeu. Finalmente, Francisco regressou a Bagdad para celebrar missa com os católicos de rito caldeu. Foi a primeira vez que um Papa celebrou missa no Iraque e a primeira vez que um Papa celebrou nesse rito de tradição siríaca. A homilia do Papa foi voltada para dentro, uma exaltação daquilo que os inimigos do Cristianismo no Iraque mais tentam explorar: a sua fraqueza e pequenez.

Com esta visita o Papa cumpre uma promessa e um sonho de João Paulo II. Leiam a opinião da Aura Miguel.

Leiam aqui o meu resumo deste segundo dia. Amanhã há mais!

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, mesmo a calhar para a Quaresma!

sexta-feira, 5 de março de 2021

Papa no Iraque: Dia 1

O Papa chegou hoje ao Iraque, uma viagem que ficará para a história. Francisco foi avisado por todos para não ir, mas fez questão, e hoje percebeu-se porquê.

Hoje houve dois momentos marcantes, o discurso aos políticos, em que Francisco pediu direitos para os cristãos, e o discurso perante os católicos, em que o Papa pediu que o sofrimento e o martírio não sejam sementes de ressentimento e vingança, mas de perdão e reconciliação.

Houve um momento bonito em que Francisco recebeu uma estola, muito simbólica, feita por cristãos que voltaram agora às suas casas depois de terem tido de fugir do Estado Islâmico.

Os cristãos, esses, são cada vez menos, mas os que permanecem querem que o Papa ponha a máquina diplomática a funcionar.

Leiam ainda a entrevista com o ex-embaixador do Iraque em Portugal – não o da polémica dos filhos que espancaram um rapaz em Ponte de Sor, o antecessor – que diz que o futuro do Iraque não pode ficar refém do seu passado.

Amanhã há mais momentos importantes, incluindo um encontro com o líder supremo do islão xiita no Iraque.

Termino com o apelo para lerem o artigo desta semana do The Catholic Thing, com importantes reflexões sobre a Quaresma. É do nosso grande Randall Smith.

“The future of Iraq should not be buried by the conflicts of the past”

This is a full transcript, in the original English, of my interview with ambassador Hussain Sinjari, former representative of Iraq in Portugal and founder and president of Tolerancy International. The published interview, in Portuguese, can be read here


How important is this visit for Iraq and for the Iraqi state?

As everyone else, I do believe that this is a highly important visit. The Pope comes to Iraq after the first papal visit was cancelled for many and difficult reasons [in 2000] and now the Iraqis from different religious backgrounds are all waiting with great hope for this visit.

We do need not only the blessings from the Pope, but also to strengthen the moderate voices in Iraq. In fact, not only in Iraq but in the Middle East at large. We hope also that the visit will encourage the young Christians to stay home rather than to immigrate to Europe and to other places. 

This is a visit of hope and we do appreciate the Pope, at his old age, making this effort to come all the way to Iraq in these difficult times. 

Many people advised against the Pope's visit, for safety reasons and also because of the pandemic...

Probably for other reasons as well. Many people believe that the past will decide about our future and this visit shows that our future shouldn't be buried by the past and the conflicts of the past. This is the most important thing. We shouldn't allow our past to decide our future and to bury it in the sands of the Middle East. 

 The coexistence among faiths and the different religious and ethnic backgrounds in Iraq and beyond, in the Middle East, is very important for building a future for everyone to have a place in it. Myself, as founder and president of Tolerancy International (tolerancy.org), I have great hope that this will bear fruit, good fruit, and to plant seeds, this Spring, in the soil of the Middle East for brotherhood, fraternity and equality and human rights for individuals and communities.

 Do you have any doubts about the Government's ability to keep the Pope safe during this trip?

No! Everybody is concerned about this, including the two governments, in Baghdad, and the regional government in Erbil, in Kurdistan. I have seen myself that there are guards along the streets and everybody is making sure that the Pope returns to the Vatican safely, and in good shape. 

 One of the highlights of this visit will be the Pope's visit with Ayatollah Ali al-Sistani. How important is this religious leader in Iraq? 

For the Shiites he is very important, he is the supreme religious leader and grand ayatollah among the Shiites, not only in Iraq but beyond as well, but also Ayatollah Sistani is important for other Iraqis because until now he has shown himself as a guardian of peaceful coexistence among different minorities and people from different backgrounds in Iraq and for peaceful solutions whenever there is a conflict or a problem, as well as being a moderate voice. 

The meeting with between these two great religious men is important to establish peace among people and understanding, and tolerance and building tolerance, the thing we most need in the Middle East.

There was a serious conflict between Baghdad and Erbil a few years ago. Have things been resolved?

The problem between Baghdad and Erbil is not resolved completely. We still have serious problems between the KRG and the Government in Baghdad. The issues of oil and gas, budgets and state employees are all very important issues for the living standards of the people, and are still not solved completely. There are still serious problems. 

But somehow, if this is what you mean, there is a better military and security coordination between the Kurdish forces and the federal forces of Baghdad. Any understanding will help, and we hope this Papal visit will also help to find common ground between Baghdad and the regional government.

 



quinta-feira, 4 de março de 2021

“We hope the Pope puts his diplomatic machine to work 100%”

This is a full transcript, in the original English, of my interview with Metin Rhawi, from Suroyo TV and the European Syriac Union, regarding the importance of Pope Francis’ visit to Iraq. Excerpts of this interview were used here and here.

How important is this visit for the Christians in Iraq?

The Christians in Iraq, we have good knowledge about what they are thinking, and regarding this visit many people find it important, of course, because they belong to the Catholic Church, they are Chaldeans or Syriac Catholics, and that gives them a possibility to see their supreme leader in faith. But at the same time there are also clear voices from the same community who have reservations. 

We know the situation of our people, the Christians in Iraq. We are out in the diaspora, we have lost everything, it is about existing or not in their homeland. Since Daesh no rights have been acknowledged. We are happy that they are talking a bit more about the Yazidis now, and also remembering that there were Christians who suffered very much, and so they are also mentioned, but we have lost properties, our land, our cities, our villages, our rights and there has also been a very bad influence in the civil society, with people thinking that they do not actually need the Christians, they are not part of the system, part of the culture, and also some voices from Muslim leaders asking why the Pope should come to Iraque, since he is an infidel. 

Of course, Al-Khadimi and Barham Salih have expressed their gratitude and they are happy he is coming, they are doing their best and trying to show a good face, but both sides exist, in general, among the society, and also among the Christians. Some are very happy, but others are raising issues. We have been victims of genocide for over 100 years. The last big genocide was in 1915, prior to that, 1895 and then Daesh 2014. Nobody demanded acknowledgement or liability for what happened then and now. Rights do not exist. Nobody talks about the possibility of educating our children in our language, the right to be Christian and if we want to produce and consume alcohol it should not be a problem, but instead we see bombing of the stores that sell alcohol in Baghdad. So there are many rights that have been left out and it seems to those people that the Pope should ask about this situation before coming here and making sure that the rights should be acknowledged and given to the Christians, the Assyrians/Chaldeans/Syriacs, because it gives some kind of legitimacy to the Baghdad regime, as if they had been successful in dealing with this sort of thing. But obviously the Pope will be having diplomatic discussions with them, I believe. 

But of course we know the Vatican has always had a very pragmatic approach to diplomacy, and have in fact been able to achieve successes and rights precisely through dialogue with regimes that are not always friendly, such as China.

Obviously, the Pope’s administration is very powerful and he is in a position that he can, indirectly, influence some foreign ministries. Obviously, the countries that are Catholic, and proud of it, listen to the Pope when he has something to say, we know that! That is why we, as the European Syriac Union have not expressed reservations about this visit. We think it is good, it is very important that he visit our homeland, because some of our people belong to his church, they are faithful to his church, and to him, and he should be asking about their rights. We hope that he will do that, we understand also that he is not a leader of a country who has an army to invade, or to impose sanctions, but we know that he has the capacity, when he wants to, to draw a line in the sand that should not be crossed. We hope that is his intention, because we see a lot of concern from the Pope and the cardinals and bishops around him have expressed this, that Christianity should not vanish from the Middle East, from Iraq. They are trying to do their best, but their strongest weapon is prayer... But we know that he has diplomacy and we believe that he will use it, of course. 

I am trying to show you the full picture. There are people on the ground with both opinions. I know that in Baghdedi and Bartella for three months a choir has been practicing singing hymns in Italian and in Latin, as well as in Arabic and Syriac, to show that they are proud to be Assyrian/Syriac/Chaldean, they have their own language, but they belong to Iraq at the moment, they are Iraqi and they are also Catholics. 

Disunity has always been a problem for Christians in the Middle East. Following the persecution by the Islamic State, has the situation improved?

If you look internally, when it comes to Christianity, the persecution woke us up from this strange dream that we are different empires living on the ground. In fact we are hospitalised on the ground, we are close to dying on the ground, but still the church leaders are not trying to find us a common line on the ground for Iraq. The Patriarchs and leaders of the different churches should cooperate much more. They are all Christian, but they have the same roots, they are the same people, there is no doubt that they are the same community, but they are divided in different "isms", when it comes to faith some are Catholics, some are Orthodox. They should have done much more.

Watching the political leaders, I can see that they are trying, but the ones who have more power, with seats in Parliament, consider that they are big enough to decline any interest that does not benefit them directly, they are not thinking as a community, but rather as parties. We are still divided, unfortunately, in that sense. It is tough to say that, it hurts, but it is the reality.

There are many reasons for the Pope not to visit at the moment. A recent bombing in Baghdad, the pandemic… The Pope has personally insisted on going. In your opinion is he being foolish, brave, or both?

We have seen in the news that even the previous Pope has expressed his fear and called upon Pope Francis to be careful and maybe not visit because of the security, and the Pandemic. I think that the Pope is not stupid, he is not foolish. He is doing a very good thing to show that he is with his people and that he has interests in Iraq because of the people and because the societies in the Middle East are based on faith and religion and he is a leader that mush show that he is close to his people. And he is doing that and we should really give him credit for that.

We hope he will get home safe and secure, and I think that will be arranged, I am not worried that something might happen to him. His faithful love him, and they won't get too close because of Covid. I think all this will be respected, and he knows how much this means to his people, because even if some say he should not visit before rights are guaranteed, there is a part of the community that is really insisting, and rightly so, that he is showing courage and showing that he is with them, that he knows that they exist there and that nobody should be able to force them out. So much so that he is even willing to visit them himself. It is an act of being with his people, and that is good, and we should give him credit. 

But of course, above all, we really hope he will run his diplomacy machine to work 100%, because it is a very critical situation, in Iraq and in the Middle East in general. 

In Iraq there are about 300 thousand Christians from different churches, of the Chaldean/Assyrian/Syriac people today. So, from being about 4 million 20 years ago, maybe more, to 1.8 million in 2003, or 1.5, according to the figures, now people say 200 thousand, others say 300 thousand, so we can see that it is like 10% left. We are not far away, in time, it could be in our lifetimes... This is frightening, and we need to be awake and I think the Pope is acting on that. 

quarta-feira, 3 de março de 2021

Quaresma no Deserto

Randall Smith
Enquanto suportava o frio gélido e a escuridão em Houston, na semana passada, sem eletricidade e sem água, ocorreram-me duas coisas. A primeira foi como na nossa era de abstração da realidade as pessoas sentem-se perfeitamente qualificadas para falar de “energia verde” apesar de não terem qualquer ideia de como funciona uma rede eléctrica complexa. Mas a segunda foi esta: “Bom, esta é uma forma interessante de começar a Quaresma”.

Estava a ler um maravilhoso pequeno livro do meu amigo Chris Dorn, chamado “Following Jesus on the Way:Biblical Meditations on Lenten Themes”, à luz da vela, apesar da escuridão e do frio, e lembrei-me de que a Quaresma é frequentemente comparada ao deserto, tanto o deserto que o povo judeu atravessou durante quarenta anos antes de poderem entrar na Terra Prometida e o deserto para onde Jesus foi durante quarenta dias e quarenta noites de oração e jejum.

Como diz, e bem, o padre Dorn, o deserto é ao mesmo tempo um lugar de purificação e de tentação. Na verdade é pouco provável alguém conseguir atingir a purificação sem a tentação, ainda que seja apenas a tentação de não se purificar.

O deserto também tem os seus demónios. Nunca me apetece comer carne mais do que nas sextas-feiras da Quaresma, tal como nunca tenho mais fome do que entre aquelas refeições ligeiras de Quarta-feira de Cinzas. Cristo venceu as suas tentações no deserto, escolhendo o caminho da Cruz acima das tentações do dinheiro, poder e prazer e também nós o devemos fazer.

“Os sinais dos tempos” sugerem que os Cristãos possam ter de passar um bom bocado “no deserto”. Só Deus sabe. Sabemos que nunca é fácil deixar para trás as “panelas de carne do Egipto”. Mas na verdade só isso nos dá liberdade.

A questão que a Quaresma nos obriga a enfrentar é esta: Estamos prontos? Estamos prontos para quarenta anos no deserto? Sessenta anos de exílio na Babilónia? Estamos prontos a abraçar o caminho da Cruz?

Muitos católicos partem do princípio que podem continuar a ser católicos devotos e manter o estatuto cultural e a riqueza de que gozam outros americanos. Mas será que é assim? Será? A Quaresma convida-nos a perguntar-nos a nós mesmos o que é que estamos dispostos a sacrificar para viver o chamamento do Evangelho. Um bom emprego? Uma casa num bom bairro? O carro e a roupa que condizem com a classe social com a qual gosto de me identificar? O meu estatuto social entre os meus vizinhos?

Pede-se aos católicos que “abdiquem” de coisas durante a Quaresma – alguma carne, talvez doces ou aquela colher de natas no café. São boas observâncias pessoais. Mas temos ainda outras obrigações públicas. “Dar esmola” é uma expressão dessa obrigação, mas há outras.

Ouçamos o que diz o profeta Isaías:

Como se fossem uma nação

que faz o que é direito

e que não abandonou

os mandamentos do seu Deus.

Pedem-me decisões justas

e parecem desejosos

de que Deus se aproxime deles.

“Por que jejuamos”, dizem,

“e não o viste?

Por que nos humilhamos,

e não reparaste?”

Esta é a queixa de Israel. Será a nossa? Eis a resposta do Senhor.

No dia do vosso jejum

fazem o que é do vosso agrado

e exploram os seus empregados.

O vosso jejum termina em discussão e rixa

e em brigas de socos brutais.

Vocês não podem jejuar como fazem hoje

e esperar que a vossa voz seja ouvida no alto.

Será esse o jejum que escolhi,

que apenas um dia o homem se humilhe,

incline a cabeça como o junco

e se deite sobre pano de saco e cinzas?

É isso que vocês chamam jejum,

um dia aceitável ao Senhor?

O jejum que desejo não é este:

soltar as correntes da injustiça,

desatar as cordas do jugo,

pôr em liberdade os oprimidos

e romper todo jugo?

Não é partilhar sua comida

com o faminto,

abrigar o pobre desamparado,

vestir o nu que encontram,

e não recusar ajuda ao próximo?

Aí sim, a vossa luz irromperá

como a alvorada,

e prontamente surgirá a vossa cura.

Então do que estamos dispostos a abdicar nesta Quaresma? Que esmola estamos preparados para dar?

Estamos dispostos a abdicar do nosso individualismo atomizado que nos impede de pensar que devemos algo mais aos outros do que a civilidade mais básica?

Estamos dispostos a abdicar da “liberdade de todos os constrangimentos” que nos permite fazer tudo aquilo que queremos, independentemente das necessidades dos outros, livres de obrigações para com eles?

Estamos dispostos a abdicar do nosso partidarismo hipercrítico? Da nossa revolta e da nossa amargura para com toda a gente que não vê as coisas como nós vemos e não pensa da mesma forma que nós?

Estamos dispostos a abdicar dos prazeres de indignação presunçosa sobre as falhas dos outros e preocupar-nos mais com a trave no nosso olho em vez do cisco no olho do outro?

Estamos dispostos a desistir de trabalhar em primeiro lugar por nós mesmos e pelos nossos objetivos, e de trabalhar ao invés com e pelos outros, atendendo às suas necessidades, esperanças e desejos, tanto quanto os nossos?

Estamos dispostos a deixar-nos das desculpas engenhosas que fazemos para nós mesmos para nos permitirmos violar sejam quais forem as normas que decidimos que não queremos, enquanto mantemos em vigor aquelas que obrigam aos outros?

Que artifícios próprios estamos dispostos a deixar para trás para abraçar as virtudes da caridade e da dádiva altruísta de nós mesmos aos outros?

Faço estas perguntas porque tudo indica que estamos prestes a entrar num longo período no deserto. Quanto tempo, não sei. Mas já ouço muito queixume. Demasiado dele vem de mim. Por isso talvez valha a pena lembrarmo-nos, agora que começamos esta caminhada para o deserto, que não existe outro caminho do que aquele da Cruz. E que a liberdade da Terra Prometida não é para aqueles que sonham com as panelas de carne no Egipto, nem os dons do Reino Deus são para aqueles que gostam do sentimento de poder que acompanha a indignação presunçosa.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

 

Partilhar