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Wednesday, 8 December 2021

Restaurar a Confiança depois da Crise de Abusos

Stephen P. White
No próximo ano assinala-se o vigésimo aniversário da Carta de Dallas, a resposta institucional mais robusta dos bispos americanos à crise dos abusos sexuais. A Carta apresentou um esquema uniforme de relato e de responsabilização do clero que entretanto se tornou o padrão para lidar com casos de abuso não só nos Estados Unidos, mas em igrejas locais um pouco por todo o mundo.

Na verdade, algumas das reformas que hoje damos por adquiridas – como a participação obrigatória dos casos às autoridades civis e a tolerância zero para abusadores – continuam a estar muito à frente do resto do mundo.

Escusado será dizer que a Carta está longe de ser perfeita. Como ficou patente no caso do McCarrick, a Carta não adiantou nada para lidar com más práticas ou abusos cometidos por bispos. E continuam a existir preocupações legítimas para com padres que, tendo enfrentado alegações que ficaram por provar, ficam num estado de limbo ministerial. No seu mais recente plenário em Baltimore, os bispos discutiram mudanças a fazer à Carta.

De Roma também chegaram reformas importantes – Come una madre amorevole e Vos estis lux mundi, por exemplo – que deram mais gás a esforços para combater os abusos em todo o mundo, sobretudo no que diz respeito a más-práticas dos bispos, e que nos Estados Unidos complementam a Carta.

O que não significa que a crise já esteja no passado. A realidade é que o abuso sexual de menores ou de adultos, praticado por clero, ou por qualquer outra pessoa, nunca vai ser completamente erradicada. Mas podemos ter esperança de que chegue um momento, seja dentro de décadas ou dentro de séculos, em que os abusos na Igreja já não sejam vistos como uma crise global.

Os efeitos desta crise de abusos estarão com a Igreja durante muito tempo. Uma vez perdida, a confiança não é fácil de recuperar. Isto aplica-se, claro, às vítimas individuais, mas também à confiança ferida entre o clero, entre o clero (especialmente bispos) e os seus rebanhos, e entre a Igreja e o mundo.

Tão certo como o mal mais grave dos abusos é sofrido pelas próprias vítimas, as consequências mais duradouras, e talvez as que mais gozo dão ao Inimigo, são as que a credibilidade da Igreja sofre. Mentiras contadas há anos tornam mais difícil a proclamação e a escuta do Evangelho agora; violência cometida em segredo há décadas continuará a ameaçar as almas daqui a uma geração.

É importante, por isso, reconhecer que as reformas jurídicas como a Carta de Dallas e a Vos estis (por mais imperfeitas e tardias) são conquistas reais e necessárias. Mas também é importante reconhecer que, no que toca a abordar a crise na Igreja estas reformas necessárias e contínuas são – e sempre seriam – a parte mais “fácil”.

Então como é que a Igreja lida com a parte difícil? Como é que aborda o défice de confiança que existe entre leigos e clero, sobretudo entre leigos e bispos? Como é que a Igreja ultrapassa as profundas divisões que existem entre os católicos, que a crise dos abusos pode não ter causado, mas que certamente revelou e aprofundou? Como é que a Igreja, que se tornou tão feia aos olhos de tantos, continua a proclamar a mensagem da misericórdia e da salvação?

O ponto de partida
Começamos de novo a partir de Jesus Cristo. Começamos por ir ao encontro de Nosso Senhor nas Escrituras, nos Sacramentos e no nosso próximo. Encontramo-nos com ele na oração. Escutamo-lo. Fazemo-lo não só como indivíduos, mas como membros do Seu Corpo, da Sua Igreja. Escutamos os nossos bispos, os nossos padres e o Santo Padre. Escutamos com humildade e, quando chegar o momento, falamos de forma corajosa, na caridade e na verdade. Competimos uns com os outros na caridade, paciência e louvor.

Fazer o mais difícil significa recusar-nos a deixar para trás aqueles por quem somos responsáveis e aqueles a quem respondemos, aqueles com quem estamos ligados pelo baptismo. Fazer o mais difícil significa escutar e falar mesmo com aquelas pessoas que cremos estejam errados. E fazemos isso não porque confiamos uns nos outros, mas porque confiamos naquele que nos ordena a amar até aos nossos inimigos.

O clero tem de estar disposto a escutar os leigos mesmo quando – especialmente quando – eles dizem as verdades que mais custa ouvir. Os leigos não terão sempre razão. Deus bem sabe que os nossos padres e bispos também estão longe de ser perfeitos. Mas um pai que não escuta os seus filhos não os conhecerá, não compreenderá as suas forças e fraquezas. E as ovelhas que ignoram o pastor rapidamente se perdem.

Nada disto acontece de uma vez só. Requer oração constante, conversão, arrependimento e pedir e dar perdão. É discipulado. É um trabalho duro. Vamos falhar, provavelmente muito. Mas sabemos que o Senhor empresta a sua graça aos nossos humildes esforços, por isso persistimos. Caminhamos juntos, como São Paulo nos exorta, “com toda a humildade e gentileza, com paciência, suportando-nos uns aos outros por amor, esforçando-nos para preservar a unidade do espírito através do elo da paz”.

Convidamos outros a juntarem-se pelo caminho, para descobrir o que encontrámos. Falamos aos outros sobre este Deus que, quando ainda éramos pecadores, nos amou até dar a vida por nós. Todo o azedume, a fúria, a revolta, a gritaria e o desprezo devem ser removidos de dentro de nós, bem como toda a malícia. Esforçamo-nos para sermos bons uns para com os outros, compassivos, para nos perdoarmos como Deus nos perdoou em Cristo.

Este é o caminho em frente para a Igreja na sequência da crise de abusos sexuais do clero, porque este é sempre o caminho em frente para a Igreja. Se parece ser simultaneamente simples e difícil, é porque é. Se vos soa familiar, ainda bem. A maior parte do que acabo de dizer vem diretamente de São Paulo.

Se vos soa ao que o Papa Francisco chama sinodalidade – não um evento, ou um parlamento, ou uma “nova Igreja”, mas a recuperação de um sentido partilhado de missão, radicado na verdade, no nosso baptismo comum e na missão universal de todos os cristãos – é porque é isso mesmo.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 2 de Dezembro de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

 

Friday, 3 September 2021

Tio Ted diz que não sabe de nada

Começou esta sexta-feira o julgamento do ex-cardeal Theodore McCarrick. Aos 91 anos ele declarou-se inocente da acusação de abuso sexual de menores.

Sempre quis fazer um retiro com o cardeal D. José Tolentino? Agora é a sua oportunidade. Saiba tudo aqui.

As Igrejas cristãs da Europa apelam aos países da União Europeia para serem generosos no acolhimento aos refugiados que chegam do Afeganistão.

Por falar em Afeganistão, não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, em que a autora, uma ex-militar, fala da atitude cristã a ter perante a derrota.


Saturday, 31 July 2021

Testemunhas condenados na Rússia e padres com cheiro a ovelha fumada

Lembram-se dos casos dos bebés Charlie Gard e Alfie Evans, que morreram depois de tribunais britânicos terem ordenado que as máquinas de suporte de vida fossem desligadas? Pois,agora temos mais um caso. Os pais de Alta Fixsler querem retirá-la do pais, mas os médicos e os juízes não o permitem e dizem que o melhor para a menina é morrer.

Três testemunhas de Jeová na Rússia foram condenados a penas de seis anos de prisão, ou mais. É mais um caso de perseguição religiosa, contra aquela comunidade religiosa em particular, naquele país.

O Papa já disse várias vezes que gosta que os seus pastores cheirem a ovelhas. Ricardo Fonseca, de Pinhel, é um bom exemplo. Cheira às suas ovelhas, e por vezes a fumo… Saiba porquê.

O ex-Cardeal McCarrick, que já foi expulso do estado clerical, vai ser agora acusado formalmente de abuso sexual de um adolescente, num tribunal americano.

Não deixem de ler o artigo satírico mas pertinente desta semana do The Catholic Thing, em que Francis X. Maier pergunta porque não aproveitamos os deficientes para resolver o problema da fome no mundo, entre outros.

E caso queiram ouvir a minha intervenção no “Conversa Inquieta” desta semana, sobre o motu proprio do Papa Francisco que limita o recurso ao rito antigo, é só clicar aqui.

Thursday, 12 November 2020

Mais surpresa, mais McCarrick

Os bispos voltaram a afirmar que foram apanhados de surpresa pelo anúncio do recolher obrigatório e que vão discutir mais o assunto durante a reunião plenária da Conferência Episcopal.

O tema da pandemia está, por isso, na ordem dos trabalhos dos bispos, mas na abertura da reunião, quarta-feira, D. José Ornelas voltou a falar do tema da Eutanásia.

O Papa Francisco disse esta quarta-feira que a Igreja vai continuar a lutar pela erradicação dos abusos sexuais. Disse-o um dia depois de ter sido publicado o relatório McCarrick, que visa saber como é que um predador sexual como ele chegou a cardeal e arcebispo de Washington, gozando de enorme influência.

Esse relatório, que já referimos ontem, deixa o Papa João Paulo II bastante mal visto. Para quem, como eu, cresceu a amar aquele pastor, são revelações difíceis de engolir. Como conciliar estes seus erros com o facto de ter sido declarado santo? Em primeiro lugar, compreendendo que existe uma diferença entre o erro e a corrupção. Escrevo sobre isso, evocando outra figura sobre quem surgiram entretanto revelações tristes, Jean Vanier, neste artigo que vos convido a ler

E o relatório McCarrick é ainda o tema do artigo desta semana do The Catholic Thing. Normalmente publicamos um artigo que tenha sido publicado no site original na semana anterior, mas esta semana, pela primeira vez, publicamos nós em primeira mão, o artigo que só sairá mais tarde na edição americana. É a vossa oportunidade de se anteciparem aos leitores anglófilos! Não a percam.

Wednesday, 11 November 2020

Houve Erros

Stephen P. White
Para aqueles que acham que o clericalismo não desempenhou um papel muito importante na crise de abusos na Igreja Católica, o Relatório McCarrick, publicado esta semana, deve chegar para mudarem de ideias. O relatório revela uma cultura clerical insular e burocratizada que serviu as ambições de um homem como Theodore McCarrick, que soube manipular e tirar partido do sistema muito mais do que a Igreja e o Evangelho. E certamente muito melhor do que serviu as muitas vítimas do comportamento predador de McCarrick.

Quem esperava o desmascarar de uma grande conspiração também vai ficar desiludido. A banalidade das falhas institucionais a este nível não é nem emocionante nem satisfatória, mas sempre foi a explicação mais provável e plausível. E continua a ser. O relatório tem limitações, claro, e deixa muitas perguntas por responder. Mas também apresenta um relato detalhado e incriminador de falhanços institucionais que decorreram ao longo de décadas e vários pontificados.

O que se segue são apenas algumas breves reflexões que me ocorreram depois de ler o relatório inteiro:

Os imites do relatório

O relatório depende em larga medida em dois tipos de fonte: registos de arquivo e entrevistas com pessoas relevantes. O resultado é um olhar público, sem precedentes, para a correspondência entre prelados tanto nos Estados Unidos como em Roma, bem como um relato das alegações contra McCarrick tal como foram recebidos antes de 2017.

Podemos aprender muito desta correspondência oficial e dos arquivos; o que não podemos aprender são o tipo de detalhes e de informação que jamais entrariam na correspondência oficial e nos arquivos.

No que diz respeito às entrevistas, muitos dos agentes principais, sobretudo os envolvidos no início da carreira de McCarrick, já morreram. Outras entrevistas dizem respeito a eventos que já aconteceram há décadas. E a fiabilidade das entrevistas depende não só da memória dos entrevistados, mas também da sua honestidade e candor.

Um relatório deste género apresenta necessariamente um retrato incompleto. É importante reconhecer estes limites tanto para evitar a falsa impressão de que se trata de um relato totalmente abrangente da matéria, como para evitar a falsa impressão de que as suas falhas são prova de um embuste.

Quem soube o quê e quando?

Uma série de bispos, tanto nos Estados Unidos como em Roma, estavam claramente cientes dos boatos sobre McCarrick em meados dos anos 90. Alguns sabiam até de um pequeno número de alegações específicas sobre McCarrick, mas não as acharam credíveis. E foi isso que dissram a Roma. Nenhum dos prelados referidos no relatório – mesmo os que, como o cardeal O’Connor, recomendaram que McCarrick não tivesse mais promoções – estava disposto a indicar de forma firme que achava McCarrick culpado. Se algum deles teve dúvidas sérias sobre a sua inocência, ninguém o disse.

Se isso se deveu à vontade excessiva de acreditar na inocência de um amigo, uma recusa em levar a sério a insinuação de que um irmão no episcopado pudesse cometer tais actos, ou algo mais grave, é impossível saber com base no relatório.

O que é claro é que simplesmente não existiu vontade de levar a cabo o tipo de investigação que poderia de facto descobrir a verdade. O risco de escândalo era demasiado grande e a deferência para com um colega bispo era demasiado forte. As tentativas de investigação que de facto aconteceram normalmente envolverem bispos a telefonar ou a escrever a outros bispos para perguntar o que sabiam sobre estes rumores envolvendo o seu amigo comum, McCarrick. Só quando surgiram as alegações de que McCarrick tinha abusado de um menor é que o cardeal Dolan ordenou uma investigação, envolvendo investigadores leigos, em 2017.

McCarrick era um mestre do engano

McCarrick era um mentiroso nojento. A forma como tentou tirar partido de alegações anónimas e rumores realça a sua capacidade de manipulação. Insistiu que estes ataques partiam dos seus inimigos, tanto à direita como à esquerda. Como prova de transparência, encaminhou as acusações anónimas feitas contra ele para o FBI e informou o concelho presbiteral. Até admitiu a alguns bispos, incluindo em Roma, que tinha sido imprudente ao partilhar a cama com seminaristas na casa de praia, mas que não tinha passado disso.

E enquanto tudo isto acontecia McCarrick continuava a tornar-se indispensável: entrando nas boas graças dos outros bispos, da conferência episcopal, do núncio, da Curia Romana e fazendo parte de incontáveis direções e caridades, fazendo dezenas de viagens internacionais em nome da Igreja e construindo relações próximas com amigos ricos e bem colocados politicamente.

O que os Papas sabiam

Antes da nomeação de McCarrick para Washington DC, em 2000, Roma pediu a quatro bispos que tinham servido com McCarrick para comentarem se ele era apto a ser promovido, sobretudo dados os boatos persistentes em torno do seu comportamento. De acordo com o relatório: “Três dos quatro bispos americanos forneceram à Santa Sé informação incompleta e errada sobre o contudo sexual de McCarrick com jovens adultos. Parece provável que esta informação errada tenha tido impacto sobre as conclusões a tirar pelos conselheiros de João Paulo II e, por consequência, pelo próprio João Paulo II.”

McCarrick e João Paulo II

O Papa Bento XVI sai do relatório essencialmente como ineficiente – sem vontade de impor sanções concretas a McCarrick e ou sem vontade, ou incapaz, de fazer cumprir as “indicações” informais que o convidavam a manter um perfil discreto.

O Papa Francisco parece ter dado pouca atenção a McCarrick antes de 2017. As limitações que Bento XVI tinha imposto eram, de acordo com Viganò, “letra morta” antes de Francisco ter sido sequer eleito. As ordens de Roma para que o então núncio investigasse mais a fundo as alegações contra McCarrick em 2012 nunca foram cumpridas. Depois de ter sido eleito, Francisco não mostrou interesse em examinar a forma como os seus antecessores tinham lidado com o americano.

Perguntas sem resposta

O relatório levanta uma série de outras perguntas: Porque é que a CDF não foi consultada, como era protocolo, antes de ter sido aprovada a nomeação de McCarrick para Washington? Quem é que passou a McCarrick o conteúdo da carta confidencial escrita pelo cardeal O’Connor, recomendando que ele não fosse promovido de Newark para outra diocese? Haverá repercussões para altos prelados – penso especificamente nos cardeais Wuerl e Farrell – cujas afirmações de que não tinham qualquer conhecimento sobre os rumores em torno de McCarrick em 2018 são diretamente contraditas pelo relatório?

Mas a grande pergunta que persiste é esta: Que garantias temos de que este relatório não está manchado pela mesma cultura de clericalismo que descreve com tanto detalhe? E essa e uma questão que é tão difícil responder como é de evitar.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 12 de Novembro de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

O João e o Jean, reflexões de um pecador sobre a santidade

No dia 7 de maio de 2019 publiquei uma mensagem no Twitter sobre a morte de Jean Vanier que terminava com as palavras “Santo subito!”. Foram anos de enorme admiração por um homem que dedicou a vida à promoção da dignidade dos mais vulneráveis e descartados da nossa sociedade. Como podia não ser santo?

Menos de um ano mais tarde olhei estupefacto para o telemóvel, durante a festa de anos de um sobrinho, a ler a notícia de que Vanier tinha estado envolvido em relações com mulheres adultas de quem supostamente seria diretor espiritual, e que essas relações foram fruto do abuso e manipulação dessa sua posição, sendo muito prejudiciais para as vítimas. Deixo os detalhes para quem quiser ir aprofundar, mas digo apenas que não há qualquer indício de que tenha abusado das pessoas com deficiência que dedicou a vida a servir.

Como é que era possível ser a mesma pessoa?

Hoje aconteceu uma coisa parecida. João Paulo II foi o Papa da minha juventude, ainda hoje fico emocionado quando vejo aquelas montagens com momentos do seu pontificado ou ouço a sua voz. Era como um avô para mim e culminou os seus dias na terra dando o mais magnífico testemunho já visto por parte de uma figura pública de que a velhice e a doença não diminuem a nossa dignidade.

Mas com a publicação do relatório sobre o cardeal McCarrick, aguardado há dois anos, ficámos a saber que João Paulo II tinha sido avisado repetidamente sobre os rumores em torno do ex-cardeal, de que tinha evitado nomeá-lo para duas dioceses antes de finalmente o nomear para Washington. Para isto terá pesado a relação pessoal de amizade entre os dois.

A questão não é assim tão simples, mas no fundo entre acusações que, na altura, não eram mais do que isso mesmo, acusações sem provas, e uma experiência pessoal de proximidade, João Paulo II cometeu dos piores erros do seu pontificado, promovendo e elevando um homem que, segundo a informação disponível agora, era profundamente doente e corrupto, para além de ser mentiroso, tendo jurado em mais do que uma ocasião que era virgem e que jamais tinha tido relações com quem quer que seja.

A situação é parecida, digo, mas não é igual. Por um lado, João Paulo II já foi declarado santo. Concluir agora que afinal não era põe em causa todo o processo de canonização da Igreja. Mas não creio que isso seja necessário.

A grande diferença entre os dois casos é uma que o mundo moderno e descristianizado já não consegue distinguir. É a diferença entre o erro e a corrupção.


João Paulo II cometeu um erro. Foi ingénuo, talvez. Preferiu dar crédito a um homem que não o merecia, e a Igreja pagou por isso. Mas foi isso mesmo, um erro. Não tenho a menor dúvida de que se tivesse sido confrontado com provas concretas não teria promovido o americano como promoveu. Aliás, o facto de ter hesitado em duas ocasiões anteriores parece comprová-lo. Também não chego ao ponto de dizer que teria agido como se espera hoje que um bispo ou o Papa aja nessa situação, aplicando a tolerância zero. Provavelmente teria pedido ao cardeal para se retirar da vida pública, ir para um convento levar uma vida de oração e penitência… Enfim, era assim que se fazia naqueles tempos – erradamente – pensando que o escândalo para os fiéis era pior do que saber a verdade.

Já Jean Vanier, para minha grande tristeza, mostrou ser um homem corrupto. Um homem que aproveita uma posição de superioridade, manipulando uma pessoa frágil para satisfazer as suas vontades, ainda por cima travestindo isso com roupagens pseudo-espirituais, é um homem doente e corrupto. O erro e o pecado já não são fruto de uma fraqueza momentânea, são o fruto natural de um estado de alma em que a pessoa se deixou cair. E isso faz toda a diferença.  

O que é que isso nos diz sobre as muitas e inegáveis boas acções de Vanier? Da obra de uma vida? Nada que nos deva surpreender. Mostra, antes, da forma mais crua e triste, o paradoxo da humanidade decaída. As boas obras de Vanier permanecem boas e se Deus quiser continuarão a dar muitos frutos.

Ao pensar novamente no seu caso hoje, não pude deixar de me lembrar da parábola, tão difícil de entender, do administrador prudente e da conclusão que Cristo nos deixa:

“Então, o senhor elogiou aquele administrador da injustiça, pois agiu com sabedoria. Porquanto os filhos deste mundo são mais sagazes entre si, na conquista dos seus interesses, do que os filhos da luz em meio à sua própria geração. Portanto, Eu vos recomendo: Usai as riquezas deste mundo ímpio para ajudar ao próximo e ganhai amigos, para que, quando aquelas chegarem ao fim, esses amigos vos recebam com alegria nas moradas eternas”

Jean Vanier era um pecador, um homem pelos vistos incapaz de se desprender do pecado que o agarrava. Mas durante a sua vida ganhou muitos amigos, aquelas pessoas com deficiência cuja dignidade promoveu, de quem se fez verdadeiramente próximo. Será que ele vai para Céu, apesar dos abusos que cometeu? Não sei. Espero que sim. Sei que terá uma multidão de amigos a torcer por isso e a interceder por ele.

Tuesday, 10 November 2020

Relatório McCarrick: Dores que saram

Demorou, mas chegou. O relatório sobre o caso do ex-cardeal McCarrick foi publicado esta terça-feira. Inclui a informação que se pedia: Como é que aquele homem conseguiu chegar onde chegou, apesar de serem conhecidos já boatos sobre o seu comportamento e abusos? Nem todos ficam bem na fotografia e é leitura que dói. Dói mas sara!

Há uma década que não existiam tantas restrições à liberdade religiosa no mundo. A conclusão é da Pew Research Forum e diz respeito a dados coligidos até 2018. Portugal sai-se bem no estudo.

O presidente da Conferência Episcopal de Itália está gravemente doente com Covid-19 e em Portugal já morreram alguns padres da doença que continua a dar cabo do nosso juízo. Com as novas restrições, os habitantes dos concelhos com recolher obrigatório estão sem saber como ir à missa ao domingo, enquanto as dioceses procuram soluções.

De Angola chega a notícia da morte do arcebispo de Malanje, de doença súbita, aos 74 anos, enquanto em Portugal temos o nosso D. António Marto hospitalizado, mas aparentemente estável.

Wednesday, 12 August 2020

Aguardando o Relatório McCarrick

Stephen P. White
O Cardeal Dolan, de Nova Iorque, deu uma conferência online para o clero na terça-feira e disse que, segundo as suas fontes, o relatório McCarrick deverá sair ainda este mês. Disse ainda que não sabe o que o relatório contém. Esta última afirmação é credível, quanto à primeira, esperemos para ver.

Faz dois anos desde que o Vaticano anunciou que iria preparar um relatório sobre o caso de Theodore McCarrick. Sobre a divulgação do relatório, o cardeal Parolin disse que esta “depende do Papa. O trabalho que foi feito está feito, mas a palavra final cabe ao Papa… Acho que sairá em breve, mas não vos posso dizer precisamente quando”. Isto foi no início de Fevereiro.

Já passou o segundo aniversário da resignação de McCarrick do Colégio dos Cardeais. Desde então a Conferência Episcopal americana votou duas vezes contra a ideia de pedir publicamente ao Papa que publique o relatório completo de imediato.

Para quase todos – incluindo muitos bispos individuais, se não em conjunto – a publicação do relatório é um passo necessário e evidente para garantir a transparência. Idealmente essa transparência conduziria à responsabilização. Prestar contas aos fiéis pela confiança que lhes foi roubada deveria parecer uma mera questão de justiça.

Mais do que isso, a publicação do relatório McCarrick é um passo necessário rumo ao tipo de reconciliação de que a nossa Igreja, tão dividida e marcada, precisa tão urgentemente. Se os nossos pastores querem recuperar a confiança que foi desbaratada, então têm de estar dispostos a dizer quais as falhas que querem ver perdoadas. Os pedidos de perdão e reconciliação da hierarquia soam a falso enquanto esta continuar a esconder dos seus membros a verdadeira dimensão daquilo que os nossos líderes fizeram ou não fizeram.

Não é por acaso que os católicos são obrigados a confessar pecados graves em número e espécie antes de poderem receber a absolvição. E não que Deus seja forreta com o seu perdão, mas porque o penitente que não esteja disposto a revelar de forma sincera os seus pecados ao Senhor, um penitente que não esteja verdadeiramente contrito, não está pronto a ser perdoado.

Como é que prelados, sejam eles bispos, cardeais ou Papas, que não sejam capazes de revelar de forma sincera os males que foram cometidos – e o mal que foi feito aos fiéis – podem esperar perdão e reconciliação? Não é que os fiéis sejam forretas com a misericórdia, mas porque a recusa em ser honesto é um sinal claro de falta de contrição.

Até certo ponto é compreensível que Roma se preocupe que o relatório McCarrick seja tão disruptivo e prejudicial para a Igreja dos Estados Unidos que seja melhor esconder a verdade do mundo, ou pelo menos aguardar até que as consequências possam ser mais facilmente mitigadas. Nalguns casos de más notícias isto pode até ser sensato. Mas no caso McCarrick o silêncio da Igreja e a falta de transparência são preocupantemente semelhantes à cultura de encobrimento que nos trouxe até este ponto.

Quanto mais tempo se atrasar o relatório McCarrick, mais a ferida aberta entre o rebanho e os pastores irá deteriorar-se.

E acontece que esta desconfiança é prejudicial tanto para os fiéis como para a

Theodore McCarrick

 Igreja no seu todo. Prejudica também todos aqueles cujos nomes foram manchados pela proximidade a McCarrick – homens que, se estiverem inocentes de qualquer mal, merecem ser ilibados aos olhos do público.

Depois de o arcebispo Viganó ter publicado o seu “testemunho” bombástico há dois anos o cardeal DiNardo, então presidente da Conferência Episcopal, emitiu uma resposta 

ponderada e séria: “As questões levantadas merecem respostas conclusivas e baseadas nas provas. Sem essas respostas, homens inocentes podem ser manchados por falsas acusações e os culpados ficam livres para repetir os pecados do passado”.

A desconfiança e a divisão que se têm multiplicado na Igreja nos anos mais recentes (e claro que nem tudo tem a ver com McCarrick) pioraram nestes últimos tempos, sobretudo nos Estados Unidos. Penso que isto é claro para todos. A necessidade de reconciliação é urgente e evidente. A publicação do relatório McCarrick, só por si, não vai resolver as divisões da Igreja, mas o adiamento da sua divulgação é um obstáculo cada vez maior a essa cura.

Muitos católicos perguntam se o relatório, quando for finalmente publicado, será uma manobra de diversão ou um relato completo e honesto. A longa demora pode bem indicar que o relato vai ser honesto, mas o atraso é também um obstáculo à reconciliação porque nos recorda constantemente da cultura institucional de impunidade clerical que durante décadas marcou a forma como se lidou com os casos de abusos na Igreja.

Nem toda a transparência, honestidade e responsabilização do mundo podem sarar as feridas dentro da Igreja. O tipo de reconciliação de que a Igreja precisa requer o perdão daqueles que foram prejudicados. Para a maioria dos católicos, mesmo os que não são vítimas de abusos sexuais, esta é uma proposta exigente.

Estamos preparados para responder à honestidade – caso ela surja – com misericórdia? Estamos preparados para acolher as verdades duras com humildade em vez de espírito vingativo? Em vez de olhar para o outro lado ou desculpabilizar os pecados e os crimes?

Estamos preparados para acolher bem aquilo que tantos de nós exigimos há tanto tempo? Estamos preparados para a honestidade? Estamos preparados para confiar? Estamos preparados para perdoar? Estas são as questões que devemos estar a colocar-nos e cujas respostas devemos estar a preparar, enquanto esperamos.

 

Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 6 de Agosto de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 6 May 2020

Dar Crédito a Quem Merece

Stephen P. White
Como praticamente toda a gente passei as últimas semanas quase exclusivamente em casa, fora uma ou outra saída para ir às compras. Quando o tempo permite, saio o escritório que montei na cave e vou para a rua. Tem sido um confinamento abençoado. Tenho um jardim e uma família saudável com quem o partilhar. Ainda assim, naqueles dias chuvosos em que as crianças dão connosco em doidos, fazendo a casa parecer ainda mais pequena do que é, sinto-me como um dos refugiados nas cenas iniciais de “Casablanca”, esperando… esperando… esperando.

Mas não é só à conta da pandemia que esperamos nestes dias. O lançamento do prometido relatório sobre o ex-cardeal McCarrick está “iminente” – nos vários sentidos da palavra – há pelo menos cinco semanas. Havia boatos de que estava prestes a ser lançado o mês passado, mas a pandemia parece ter posto fim a isso.

Alguns interpretaram o adiamento de forma cínica, Roma a usar a pandemia como desculpa para empatar um relatório que preferia não ter de publicar. Pelo menos é esse o argumento. Por outro lado, publicar o relatório numa altura em que todo o mundo está a entrar em estagnação social e económica, com as atenções da imprensa focadas noutro lado, poderia ser interpretado como sendo tão cínico como empatar. Seja qual for a razão de Roma – cínica, de boa fé ou outra – esperamos.

A espera paciente (ou impaciente, como parece ser o caso) tem sido parte desta crise eclesial há décadas. É interessante, como exercício espiritual, refletir sobre a tensão entre o zelo por reforma genuína, por um lado, e a paciência para com o ritmo frustrante de renovação, por outro. A Igreja sofreu danos graves às mãos daqueles que estavam impacientes com a reforma, mas também veio muito mal por causa dos fiéis que foram demasiado tímidos, complacentes ou deferenciais.

Tenho pensado muito, recentemente, sobre esta tensão entre a acção e a paciência – e as bênçãos e os perigos de ambos. Tem vindo à minha mente três grupos de pessoas e organizações em particular, cujas acções têm sido muito prejudiciais para a Igreja, quando vistas em isolamento. Mas as acções desses mesmos grupos têm sido, a longo prazo, uma força importante a impelir a Igreja na direcção certa. Estou a pensar na imprensa, nos advogados e nos grupos de defesa de vítimas de abusos.

Quem não se lembra da importância do papel desempenhado pela imprensa (sobretudo a imprensa escrita) na revelação dos abusos – e do respectivo encobrimento – nos Estados Unidos, em especial em Boston. O filme “Spotlight” venceu o Oscar para melhor filme em 2016 e mostra a tenacidade dos repórteres de investigação do “Boston Globe”, que finalmente deram voz às vítimas de abusos sexuais praticados por membros do clero.

Mas 30 anos antes, quando Jason Berry estava a escrever artigos a expor os comportamentos predatórios do Pe. Gilbert Gauthe para um jornal local em Baton Rouge, Louisiana, já não era tão evidente para o público em geral que era o jornalista que estava a dizer a verdade, quanto mais que era um herói.

Ex-cardeal McCarrick
Os media enganam-se em relação a muitas coisas da Igreja Católica. Alguns jornalistas simplesmente têm preconceitos contra ela. Alguns são influenciados por uma agenda, ou odeiam a Igreja. Outros odeiam o conceito do celibato, ou a defesa dos nascituros, ou a sua “homofobia” e “misoginia”. Todas as desculpas habituais se aplicam. Mas não há como negar que a cobertura agressiva, tenaz e por vezes (sim) até feroz ajudou a forçar a Igreja a abordar problemas profundos que frequentemente preferia ignorar ou negar.

Depois temos os advogados. Alguns já ganharam centenas de milhões de dólares a processar a Igreja Católica. E como Peter Steinfels mostrou (a meu ver convincentemente) no verão passado na revista “Commonweal”, os procuradores também estão prontos a usar a crise como uma ferramenta política ou a espicaçar o ressentimento contra a Igreja Católica. Não é óbvio que seja justo levar dioceses à bancarrota por crimes cometidos por padres mortos há anos e encobertos por bispos mortos há anos. Mas haverá dúvidas de que o medo de uma calamidade financeira ainda maior tem motivado uma geração (ou mais) de bispos que pareciam preocupar-se mais com o seu legado institucional – o património – do que sobre a salvação das almas (e dos corpos) dos fiéis?

E depois temos os grupos de defesa das vítimas – Bishop Accountability, Spirit FireSNAP – a lista é longa. Algumas destas pessoas têm sido um espinho no lado dos bispos há décadas e décadas. Alguns têm sido fonte de graça e de cura. A maioria têm sido ambos. Também aqui, como no resto da Igreja, encontramos um misto: santos e malucos, activistas e hereges, sobreviventes e zelotas e pessoas que simplesmente querem ajudar ou dar a mão. Muitos destes grupos têm sido a única fonte de solidariedade para pessoas que foram abusadas, dispensadas e descartadas.

Mas o meu ponto não passa simplesmente por mostrar que todos temos bem e mal dentro de nós. Isso seria banal na melhor das hipóteses, maniqueísta na pior. Antes, o objectivo é mostrar que se vamos levar a sério a verdade de que tudo concorre para o bem de quem ama a Deus, então temos duas coisas por garantido: devemos ser muito, muito gratos… e incrivelmente humildes.

Mesmo enquanto esperamos.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 30 de Abril de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 4 March 2020

Vini, Covidi, Vinci

Covid-9
Numa altura em que só se fala do Covid-19 folgamos todos em saber que não é disso que sofre o Papa Francisco. O Santo Padre já não estava com grande voz quando fez uma magnífica homilia na Quarta-feira de Cinzas, e entretanto ficou pior, tendo de faltar ao retiro da cúria romana. Em princípio não é nada de grave.


O Igreja Católica tem apenas dois dias de jejum obrigatório, a Quarta-feira de Cinzas e Sexta-feira Santa. Mas o que é verdadeiramente o Jejum? Helen Freeh explicou no artigo da semana passada do The Catholic Thing.

No texto desta semana, Stephen P. White fala sobre o esforço que se tem feito para expurgar qualquer referência ao antigo cardeal McCarrick da catedral de Washington, e porque é que isso não é boa ideia.

Não Devemos Branquear o Legado de McCarrick

Stephen P. White
Há uma tradição, que ainda é observada nalguns lugares, segundo a qual o chapéu cerimonial de um cardeal – o galero encarnado – é pendurado do tecto da catedral quando ele morre. Ali fica, pendurado pelo seu cordel eclesiástico, até que sucumbe à corrupção do tempo e cai. Essa última desintegração do galero é entendido como um sinal – numa mostra de humor católico – que a alma do defunto saiu finalmente do purgatório.

Tendo sido despido do seu cargo de cardeal e laicizado, o galero de Theodore McCarrick não será pendurado com o dos seus antecessores na catedral de St. Matthew, em Washington. Mais, as suas armas foram removidas da parede da catedral, onde tinham estado entre as dos seus antecessores e sucessores.

Quem visitar hoje a Catedral de St. Matthew não encontrará qualquer referência a Theodore McCarrick enquanto Arcebispo de Washington.

Há muitas razões pelas quais podemos querer apagar o legado de McCarrick da catedral. Certamente aqueles que foram traídos por ele – as suas vítimas, os seus amigos, os padres, o seu rebanho – não gostariam de ver o seu nome e as suas armas expostas publicamente, sobretudo, como era o caso, tão perto do sacrário.

Tal memorial ao McCarrick poderia tornar ainda mais difícil a alguns ultrapassar a revolta e a confusão dos últimos anos, rumo à cura e à restauração da confiança. É por isso, segundo nos dizem, que o actual arcebispo de Washington, Wilton Gregory, ordenou pessoalmente que a placa de McCarrick fosse retirada.

Com o devido respeito pelo arcebispo Gregory, porém, julgo que se tratou de um erro.

A remoção do nome e das armas de McCarrick da catedral poderá tornar as coisas menos dolorosas para nós no curto prazo, mas duvido que melhorem o que quer que seja a longo prazo. Nem para nós, nem para ele, nem para os fiéis que virão muito depois de todos nós termos partido.

Em primeiro lugar temos o simples facto de que Theodore McCarrick foi, na verdade, arcebispo de Washington. Foi nomeado para o cargo no ano 2000 pelo Papa João Paulo II e manteve-se até à reforma em 2006. Toda a vergonha com que cobriu esse mandato, o mal que fez à arquidiocese, não será desfeito por ignorarmos essa realidade e as questões difíceis que levanta.

O escândalo do pecado é uma preocupação legítima e a obsessão lasciva com o pecado – sobretudo o pecado sexual – é moralmente perigosa. A tentativa de nos protegermos da dor e do escândalo do pecado – nosso ou dos outros – transforma-se, com demasiada facilidade, num exercício de autoilusão. Por demasiadas vezes a tentação de proteger os fiéis da realidade dos pecados do clero tornou uma situação má ainda pior.

Ninguém pode dizer, com seriedade, que nas últimas décadas a Igreja Católica americana tem sido demasiado transparente em relação às fraquezas dos seus padres e (sobretudo) dos seus bispos. Uma cultura eclesiástica que tentou branquear as falhas da Igreja acabou, sem dúvida, por tornar a crise dos abusos ainda pior. Haverá maior prova disso do que a carreira do próprio Theodore McCarrick?

Alguns poderão argumentar que apagar o nome de McCarrick da catedral é um castigo justo. Talvez a dor de ver o seu legado destruído desta forma seja uma certa forma de justiça, e talvez até lhe faça algum bem, espiritualmente. Talvez.

Mas também há algum valor em reconhecer os limites da justiça que podemos fazer. A justiça de Deus não vem apenas nesta vida, mas na plenitude dos tempos. Se nos esquecermos disto o impulso para tentar à força obter toda a justiça no espaço das nossas curtas vidas, e à nossa maneira, torna-se incomportável. Enganamo-nos se pensamos que tudo deve – ou pode – ser corrigido à medida das nossas expectativas.  

O que leva a outra razão pela qual me preocupa a decisão de apagar a ligação entre McCarrick e a catedral: o próprio Theodore McCarrick.

A velha tradição de a queda do galero significar que a alma de um prelado saiu do purgatório tem uma fundação séria. Os nossos pastores precisam das nossas orações, mesmo depois da morte. Não rezamos pelos nossos mortos porque temos a certeza da sua bondade, mas precisamente porque não temos. As lembranças do nosso pecado e da nossa fraqueza – e sobretudo do pecado e da fraqueza dos nossos pastores – são importantes porque nos recordam da necessidade de rezar fervorosamente pela salvação das almas.

Ao contrário daqueles homens cujos chapéus encarnados estão pendurados nas catedrais pelo mundo, Theodore McCarrick ainda está vivo. Quem somos nós para dizer que não existe esperança para a sua salvação? E se existe, então não devemos rezar por ele?

O Evangelho instrui-nos: “Ama o teu inimigo e reza por quem te persegue”. Parece um mandamento fácil de obedecer, no abstracto, mas eu, pelo menos, acho muito complicado fazê-lo com convicção quando estamos a falar de um homem como Theodore McCarrick. Rezar pelas suas vítimas? Claro. Pelo seu sucessor? Evidente. Pelo seu antigo rebanho? Sem dúvida. Mas pelo próprio “Uncle Ted”?

Mas algo me diz que eram precisamente de “casos difíceis” como este que o Senhor estava a pensar.

Quer queiramos, quer não, Theodore McCarrick continua a ser nosso irmão. Une-nos o nosso baptismo, em Cristo. Não é por ignorar as suas feridas, nem esquecendo-nos de como elas surgiram, que tornamos o Corpo de Cristo mais perfeito.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

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Tuesday, 31 December 2019

Uma Igreja em Mudança

Stephen P. White
Às vezes as grandes mudanças na Igreja acontecem de uma assentada e de forma evidente, como aconteceu com certas reformas do Concílio Vaticano II. Outras mudanças – mesmo algumas monumentais – acontecem de forma muito mais lenta e podem ser difíceis de percepcionar na altura. Às vezes é evidente que estamos perante o fim de um estado de coisas, mas há incerteza quanto ao que vem a seguir. São tempos de apreensão e de esperança.

O episcopado está a mudar. A ênfase do Papa Francisco na sinodalidade e na colegialidade fazem parte deste processo. A reformulação do colégio dos cardeais para incluir bispos das periferias também. Mas talvez a mudança mais significativa seja mais subtil: as expectativas dos leigos em relação aos seus bispos estão a mudar também. A deferência dos leigos para com o clero – sobretudo os bispos – está em baixa. A confiança esbateu-se.

Claro que o principal factor são os escândalos dos últimos 18 meses. É difícil imaginar um bispo católico a gozar do tipo de prestígio nacional e adoração de que gozava o ex-cardeal Theodore McCarrick no auge da sua popularidade, muito antes de se tornarem públicas as suas depravações. Hoje em dia é tão provável os católicos americanos olharem os seus prelados com cepticismo ou até suspeita do que com admiração.

Se acrescentarmos a isto os efeitos da polarização do nosso sistema político e da sociedade, a agressividade das redes sociais, as polémicas internas da Igreja (algumas sérias, outras verdadeiramente patetas) e todos os outros factores promotores de cinismo em que estamos a marinar. O resultado, pelo menos a curto prazo, é que os bispos são menos exaltados (o que é provavelmente uma coisa boa) e estão mais distantes dos seus rebanhos (o que é claramente mau).

Se a imagem que os leigos têm dos seus bispos está a mudar, também parece verdade que os nossos padres estão a ficar com uma imagem diferente, talvez pior, desse cargo eclesiástico.

Recentemente o cardeal Marc Ouellet disse a um órgão de informação espanhol que quase um terço de todos os homens escolhidos pelo Papa para serem bispos recusam a nomeação. De acordo com Ouellet, que é prefeito da Congregação para os Bispos desde 2010, o nível de recusas triplicou desde há uma década.

O facto de haver mais homens a recusar nomeações não é propriamente surpreendente para a maioria dos especialistas. Há já algum tempo que se especula sobre esta tendência. Na verdade, não é a primeira vez que o cardeal Ouellet menciona que a taxa de recusas tem aumentado, embora seja a primeira vez que lhe atribui um número. Vale a pena verificar que a tendência é anterior a esta última vaga de casos de abusos.

Quanto às razões de quem recusa, Ouellet oferece apenas uma consideração generalista. “Pode ser porque não se sentem capazes, por falta de fé, porque têm alguma dificuldade nas suas vidas e preferem não causar mal à Igreja”. Provavelmente nunca teremos uma explicação mais completa de quem verdadeiramente sabe. Ainda assim temos de pensar: a Igreja está a perder bons candidatos ou a ser poupada aos maus?

Um padre que aceita uma nomeação episcopal no actual ambiente eclesiástico está no fundo a aceitar submeter-se a um escrutínio público intenso e por vezes hostil. Devido aos grandes desafios de se ser bispo hoje em dia, quem aceita ansiosamente este dever deve ser especialmente humilde e generoso ou então invulgarmente ambicioso e carreirista.

Muitos dos nossos bispos encontram-se numa posição quase impossível. Espera-se que sejam pastorais e pessoais – com o cheiro das ovelhas e tudo o mais – enquanto passam uma quantidade enorme do seu tempo e energia a tratar de exigências burocráticas e administrativas. Hoje em dia, convém não esquecer, esses deveres podem incluir o trabalho ingrato de conduzir uma diocese através de um processo de falência, fechar dezenas de paróquias ou lidar com processos judiciais.

Não finjo saber qual será o efeito a longo prazo de tudo isto. Mas parece-me certo que à medida que mudam as expectativas em relação aos nossos pastores é necessário que se alterem também as que temos em relação aos rebanhos. Entregar toda a responsabilidade pela saúde e vitalidade (ou o seu oposto) aos nossos bispos é uma forma de clericalismo invertido. Coloca exigências impossíveis de cumprir nos ombros dos pastores enquanto nós – os leigos, a vasta maioria dos católicos – ficamos convenientemente isentos da responsabilidade da nossa própria missão baptismal.

A questão aqui não tem a ver com a culpa pelos pecados e crimes de padres e de bispos. A questão é que os homens escolhidos para liderar o rebanho nos próximos anos e décadas precisarão – caso se queira que sejam bem-sucedidos – da ajuda e da colaboração de um laicado inteiramente comprometido e dedicado ao trabalho do discipulado. Para isso não é preciso quebrar as distinções entre leigos e clero, ou alterar as divisões de tarefas nas sedes das dioceses para dar preferência ao envolvimento de leigos. Esta última opção poderá ser prudente, ou até mesmo necessária, mas nunca será suficiente para a verdadeira missão da Igreja.

Cada vez estou mais convencido de que a questão para a Igreja nos próximos anos e décadas é esta: Se a vocação dos leigos fosse vivida bem e por inteiro – com os leigos a levar a sério o dom e a responsabilidade do seu baptismo – com que Igreja ficaríamos?

Estou convencido de que uma Igreja assim seria uma Igreja de verdade, fortalecida e confirmada na sua missão. Uma Igreja renovada.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 19 de dezembro de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Wednesday, 11 December 2019

A Cruz por cima da Manjedoura

Stephen P. White
O meu pai era médico e quando eu era novo e pensava no que fazer com a vida perguntei-lhe o que é que gostava mais sobre a medicina. A resposta era tudo o que se podia esperar. Gostava de ajudar as pessoas. Gostava do equilíbrio entre a rotina e o desafio de poder resolver problemas. Tinha o privilégio de poder cuidar da família.

Quando lhe perguntei do que menos gostava esperava que me falasse das urgências a meio da noite, ou da burocratização da medicina. O facto de eu esperar essas respostas diz mais sobre mim do que sobre ele. Na verdade, não disse nada disso. A parte mais difícil do seu trabalho era, disse, saber que todos os seus pacientes iam morrer. E que tudo o que ele poderia esperar fazer – o que todos os médicos podiam esperar – era adiar o inevitável.

Pensei muito nisto quando o meu pai adoeceu com o cancro que acabaria por matá-lo. Foi muito reconfortante saber que o pai sabia o que sabia. A sua carreira médica tinha sido um memento mori de trinta anos. Claro que a inevitabilidade da morte não é razão para a resignação, menos ainda para cinismo ou desespero. E o cinismo e o desespero não eram características dele. Seria muito pobre médico se professasse indiferença para com a saúde por causa da mortalidade humana. O meu pai era um homem de grande e constante alegria.

Ele compreendia que a morte não é o fim da vida; é o caminho para casa. É a nossa possibilidade, para usar a expressão de C.S. Lewis, de ir mais alto e mais fundo. Precisamente porque o meu pai compreendia isto – e porque vivia desta forma, cuidava dos doentes desta forma e enfrentou a própria morte desta forma – tornou mais fácil para nós, por entre as nossas lágrimas, fazermos o mesmo. Esse é o maior dom que um pai pode dar.

Tenho pensado muito no meu pai ultimamente, em parte porque esta é uma época propícia às saudades da família, mas também porque estamos na altura do ano em que a Igreja nos fala sobre a morte e o fim de todas as coisas. E sobre a esperança de que tudo seja recomposto num mundo em que tanto está quebrado.

Mas este trabalho de recompor o que está quebrado pode parecer fútil. Veja-se estes três exemplos.

Algures nos próximos três meses, segundo nos dizem, o Vaticano vai divulgar as conclusões da sua investigação sobre Theodore McCarrick. Essas conclusões poderão, esperamos, explicar como é que foi possível McCarrick subir gradualmente pela hierarquia apesar dos constantes boatos sobre as suas tendências. Mas ainda que venhamos a saber tudo sobre a carreira de McCarrick e sobre quem partilha a culpa, há alguma esperança de que esse conhecimento venha a reparar os males que foram feitos ou reparar os danos que ele e outros causaram?

Advento, tempo de esperança
Na Virgínia Ocidental o bispo Mark Brennan informou o seu antecessor, o bispo Michael Bransfield, que espera que ele se retrate da grande quantidade de crimes e de pecados de que é acusado, restituindo o que deve ser restituído. Ainda que o faça por inteiro (e se não o fizer terá de responder perante o Fisco e Roma) isso apagará o mal todo que causou?

Uma notícia recente da Associated Press calcula que só em Nova Iorque, Nova Jérsia e na Califórnia uma série de processos novos relativos a casos antigos de abusos poderão levar a indemnizações de perto de quatro mil milhões de euros. Mas será que as feridas dos sobreviventes de abusos serão curadas com compensações monetárias para as suas justas queixas contra homens, muitos dos quais já morreram? Será que a Igreja pode pagar o suficiente em indemnizações ou fazer pedidos de desculpa suficientes para restaurar o mal profundo que foi feito aos corpos, almas e à fé daqueles que foram traídos?

Claro que a resposta a todas estas questões é “não”. Todos os nossos esforços de justiça são insuficientes. Todas as nossas tentativas de recompor o que foi quebrado pelo pecado são, no final de contas, desadequados. O melhor que podemos fazer com os nossos esforços – o melhor a que qualquer um de nós pode aspirar – não chega. Isso não significa que esses esforços sejam em vão, mas simplesmente que a nossa esperança não se encontra na nossa capacidade de sarar, reparar, restaurar ou reformar. Tudo isso é necessário, todos os nossos esforços, o nosso zelo e a nossa sabedoria são necessários. Mas temos de ter noção de que não chegam.

O Advento é um tempo de esperança porque acreditamos que aquele recompõe todas as coisas está a caminho. Ele é a nossa esperança. É ele quem cura tudo. Ele é o divino médico. A cura que Ele oferece é alcançada, literalmente, pela morte. Nesse sentido a manjedoura está sempre encimada por uma cruz – não como símbolo de morte iminente, não como espada de Dâmocles, mas como sinal da nossa salvação.

A morte chegará a todos. É o preço dos nossos pecados. Graças ao bebé de Belém, é também a nossa única esperança para a cura. Quando compreendermos isto – e se vivermos desta forma e enfrentarmos desta forma a nossa própria inadequação e estado decaído – ajudaremos outros a fazer o mesmo enquanto caminhamos neste Vale de Lágrimas. E participaremos assim na obra daquele que renova todas as coisas.

Não há melhor presente que esse.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 5 de dezembro de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

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