Wednesday, 28 September 2022

A Pobreza da Riqueza

Pe. Paul Scalia

De quem é que devemos ter mais pena nesta parábola de Jesus, do homem rico ou de Lázaro? Naturalmente o nosso coração inclina-se mais para Lázaro, o homem pobre que jazia ao portão, ansioso por migalhas, mas a quem até os cães vinham lamber as feridas (um detalhe que os amantes de cães dos nossos dias podem achar querido, mas que para os judeus na antiguidade não tinha o mesmo encanto). Na verdade, é do homem rico que devemos ter mais compaixão, não só porque é muito pior fazer o mal do que sofrê-lo, mas também por causa daquilo em que o seu pecado o transformou. Assim, somos chamados a reflectir o triste estado do homem rico e o pecado que o conduziu a tal.

Notem bem a descrição curta, mas esclarecedora, do homem rico: “vestia-se de púrpura e de linho finíssimo, e todos os dias banqueteava-se e regalava-se”. Fala-se aqui da sua roupa luxuosa e das ricas comidas, mas não de amigos ou convidados. Mais ninguém é referido. Ele não está a ter festas ou jantares. Nem sequer está a esbanjar a sua fortuna numa vida de promiscuidade, como o filho pródigo. Não, é só ele, mesmo. Há algo de solitário e de isolado na sua riqueza.

O estado lastimável do homem rico é traduzido para a vida eterna. De facto, o seu destino é mais revelador que punitivo. Está isolado e só no inferno porque tinha feito por isso no mundo. Lázaro, por outro lado, está no regaço de Abraão (uma tradução melhor que “junto de”). Está em comunhão com outro. O homem rico está desprovido dessa comunhão por causa da sua avareza (e não apenas como castigo por ela). Viveu e morreu isolado dos outros e por isso entrou no isolamento eterno.

Este isolamento do homem rico não nos é estranho. Quando Ebenezer Scrooge é convidado a dar esmola para ajudar os pobres responde: “quero que me deixem em paz”. A sua afeição pelo dinheiro faz com que despreze não só a generosidade, mas também a companhia. Do mesmo modo Gollum, no “Senhor dos Anéis”, está tão obcecado pelo anel que, fugindo à companhia dos outros, passa anos na profundidade de uma caverna, sozinho com o seu “precious”.

O forreta é miserável porque está isolado pelas suas posses. Quer tudo só para ele, o que o obriga a estar absolutamente só. A sua ligação à riqueza significa que não se pode ligar a outros. As coisas que mais ama são o que o impedem de amar.

A avareza coloca as posses acima das pessoas. Pela sua própria natureza, isola-nos uns dos outros. Habituamo-nos a possuir e a usar, duas coisas que não são compatíveis com relações humanas autênticas. O homem avarento pode ter pessoas que o ajudam a gerir o seu dinheiro, ou a ganhar mais, mas isso só comprova a teoria. Essas pessoas não são amadas, são usadas.

Não existem pecados inteiramente pessoais. Há sempre uma dimensão social no pecado, porque envolve sempre um virar-se para dentro, e por isso para longe dos outros. Como disse São João Paulo II, “o mistério do pecado é formado por esta dupla ferida, que o pecador abre no seu próprio seio e na relação com o próximo. Por isso, pode falar-se de pecado pessoal e social: todo o pecado sob um aspecto é pessoal, e todo o pecado sob um outro aspecto é social, enquanto e porque tem também consequências sociais.” (Reconciliatio et Penitenza).

No caso do homem rico a repercussão social é a sua incapacidade de ver Lázaro. Reparem que nunca se diz na parábola que o homem rico roubou de Lázaro, ou que era de alguma forma a causa da sua pobreza. Não o pontapeava ao entrar ou ao sair de casa. Mas a questão é precisamente essa. Não é que ele não se interesse por Lázaro, o problema é que ele nem dá pela sua existência. Ele não detesta Lázaro, simplesmente não repara nele.

Vemos assim que a avareza produz uma indiferença ao sofrimento do outro. “Ai daqueles que vivem comodamente em Sião”, diz o profeta Amós, (Am. 6, 1 e 4-7). Ele associa esse comodismo à riqueza. Afeta todos os que se encontram “deitados em leitos de marfim, estendidos em sofás, comem os cordeiros do rebanho e os novilhos do estábulo. Deliram ao som da harpa, e, como David, inventam para si instrumentos de música; bebem o vinho em grandes copos, perfumam-se com óleos preciosos”.

O vício da avareza isola o avarento. Mas ao fazê-lo também priva os pobres da atenção de que precisam para a sua subsistência.

Riqueza e isolamento. Estas duas características da nossa cultura estão relacionadas entre si. Quanto mais temos, mais isolados nos tornamos e menos notamos ou nos interessamos pelos outros. Os confinamentos durante a pandemia foram pensados e impostos pelos ricos, a chamada “geração laptop”, que se podia dar ao luxo de se sequestrar e de prosseguir com a sua vida. Existiu uma indiferença cruel aos efeitos que este isolamento teria ao empobrecer ainda mais os pobres. Os sinais que vimos a dizer “estamos todos juntos” eram uma treta.

“Não se pode servir a Deus e a Mamon”, disse Nosso Senhor recentemente no Evangelho. E quatro domingos antes fez um aviso semelhante: “Quem de vós não renuncia a tudo o que possui não pode ser meu discípulo”. Esta ligação à riqueza – por mais pequena que seja – corrói a nossa capacidade de nos preocuparmos com os outros e isola-nos. Tornamo-nos prisioneiros da avareza.

Damos aos pobres porque precisam da nossa ajuda. As suas vidas disso dependem. Mas damos também porque as nossas vidas disso dependem. Quando damos, desprendemo-nos daquilo que nos empobrece e libertamo-nos do que nos isola. Assim tornamo-nos capazes de ver, de conhecer e de amar os outros.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 25 de Setembro de 2022 em The Catholic Thing

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.  

 

Tuesday, 27 September 2022

Comentário na SIC Notícias sobre nomeação de D. José Tolentino

Esta terça-feira estive na SIC Notícias para falar da recente nomeação do cardeal D. José Tolentino para o Dicastério da Cultura e da Educação.

Podem ler aqui o artigo e ver a entrevista. 


Brought to you by SIC Notícias

Monday, 26 September 2022

Hospital de Campanha Ep. 9 - A Crise dos Abusos em Portugal

A Igreja portuguesa tem estado a lidar bem com a crise de abusos sexuais? 

De volta de férias, depois de um verão quente marcado pela revelação de casos de abusos na Igreja portuguesa, quisemos sentar-nos com Pedro Gil, especialista em comunicação de crise, que partilhou uma perspectiva verdadeiramente humana centrada na vítima e na restauração da confiança, e na fé em Deus e na Sua Igreja.

Esta é uma conversa difícil, mas necessária. A crise dos abusos é uma ferida aberta que deve ser exposta ao sol para curar, e não deixada no escuro para infectar. 

Sendo um tema tão importante, gravámos não um, mas dois episódios com o Pedro Gil. O próximo irá para o ar ainda esta semana, se Deus quiser.


Outros recursos sobre este assunto

Thursday, 22 September 2022

Rapto nos Camarões e hipersensibilidade no Reino Unido

Depois da Nigéria, agora os Camarões. Num só ataque foi incendiada uma igreja e raptados cinco padres, uma freira, dois catequistas e uma leiga. Neste caso o conflito nem é religioso, a Igreja vê-se apanhada entre os militantes que querem a independência da zona anglófona e o exército do governo maioritariamente francófono.

A Igreja quer ser parte da solução para o conflito em Moçambique. Recorde-se que há pouco tempo foi atacada uma missão católica e uma freira assassinada.

A Igreja no Paquistão avisa que os próximos tempos podem ser de fome e epidemias, devido às terríveis cheias que assolaram o país. Queixam-se ainda de discriminação aos cristãos na distribuição de ajuda humanitária.

Claro que o grande evento da semana foi o enterro da Rainha Isabel II. Nos dias depois da sua morte houve polémica porque algumas pessoas foram detidas por se manifestarem contra a Monarquia. Neste texto explico porque é que isso é mau, independentemente de concordarmos, mas que é apenas parte de um problema maior, que também afecta a liberdade religiosa.

Há dias saiu mais uma reportagem sobre um caso de abusos, neste caso na Diocese de Braga. O caso já está aqui, onde encontram links para os artigos originais. Aproveito para avisar que a questão dos abusos será tema do próximo episódio do podcast Hospital de Campanha, que deve ser publicado no início da próxima semana. Fiquem atentos, porque vai mesmo valer a pena.

Somos todos idólatras? Até certo ponto sim, considera o autor do mais recente artigo do The Catholic Thing em português. Na verdade, sempre que damos prioridade a nós mesmos do que a Deus estamos a cair na autolatria, argumenta, de forma convincente.

Por fim, foram acrescentadas várias declarações de líderes religiosos sobre a Ucrânia ao artigo no blog. Entre outros, temos o Patriarca Cirilo de Moscovo, que numa altura em que a Rússia anunciou a mobilização de 300 mil homens para servirem de carne para canhão na Ucrânia continua a culpar inimigos imaginários por dividirem o que ainda pensa serem “povos irmãos”. 

Wednesday, 21 September 2022

Idolatria Escondida (com o rabo de fora)

As palavras têm sempre imagens associadas. O que é que vos vem à cabeça quando pensam na palavra “idolatria?” Charlton Heston a despedaçar um bezerro de ouro com os Dez Mandamentos? Russell Crowe a carregar pequenas figuras de barro na prisão do gladiador? Indiana Jones a substituir uma cabeça em ouro por um saco de areia?

Talvez mais umas coisas, caso tenhamos andado na catequese. Ainda assim, o nosso “deus” é o nosso “objecto de suprema preocupação”, segundo o existencialista protestante Paul Tillich. E sabemos que o dinheiro, o prazer, o sucesso, ou o poder podem transformar-se em deuses quando se tornam uma preocupação maior do que qualquer outra coisa nas nossas vidas.

Duvido que muitos de nós admitiríamos ser idolatras. “Nem tanto ao mar, nem tanto à terra”, diríamos. “Não há qualquer mal em procurar estes bens, desde que não abandonemos a crença em Deus.” Justificamos as nossas buscas com a desculpa de que temos Deus à mistura.

Mas será que a crença em Deus nos livra da idolatria? Não será antes uma questão de justiça litúrgica? Afinal quem é que merece o nosso louvor?

A religião é uma virtude porque dá a Deus o que é de Deus. Quando nos perguntam a quem devemos “latria” (a adoração suprema), a resposta justa é de que apenas devemos adorar o não-criado, e nunca a criatura.

Mas há algo mais grave – e talvez mais comum – do que prestar culto a uma imagem (eidolon-latria). Trata-se de adorar-nos a nós mesmos: auto-latria. A autolatria é mais secreta e mais grave do que a idolatria porque o falso deus habita em nós. Somos nós.

Muitas são as personalidades da tradição que atestam isto.

A abadessa beneditina Cécile Bruvère escreveu que “A acreditar no apóstolo, a idolatria não está confinada à adoração de falsos deuses. Podemos erguer em nós mesmos muitos ídolos, e cegamente lhes oferecer sacrifícios” (Vida Espiritual e Oração).

Esta doi. Posso excluir-me presunçosamente da idolatria externa dos terríveis pecadores que me rodeiam, mas devo recordar-me que “em todos os momentos da vida existe uma idolatria interior”, como escreve François Fénelon. “Tudo o que amamos fora, amamos unicamente por nós” (Perfeição Cristã).

Tanto a crença em Deus como o amor por Deus devem manifestar-se como obediência a Deus. É por isso que os autores espirituais referem as palavras de Samuel a Saúl, quando disse: “A rebelião é tão culpável quanto a superstição; a desobediência é como o pecado de idolatria” (I Samuel, 15). Um dos mestres do asceticismo, Giovanni Battista Scaramelli S.J., explica o que Samuel queria dizer: “A razão é que pela desobediência colocamos a nossa opinião e a nossa vontade própria acima da vontade de Deus que nos é revelada pela sagrada obediência”.

A idolatria é semelhante à desobediência uma vez que no caso daquela adoramos um ídolo de madeira ou de pedra em vez do único verdadeiro Deus, o único a quem é devido o culto e nesta desviamo-nos da verdadeira regra para seguir uma enganadora, que é a dos nossos próprios juízos e dos ditames do mundo. A falsa adoração e o falso juízo estão relacionados. A adoração correcta e a rectidão também estão ligadas.

A vontade de Deus deve ser atendida liturgicamente, isto é, com adoração.

Esta idolatria escondida (isto é, a autolatria) pode andar alegremente de mão dada com a religiosidade, porque a vontade própria e o amor-próprio disfarçam-se até dentro de actos religiosos e de virtude. O autólatro até pratica a religião para se satisfazer a si mesmo! Finge amar a Deus, mas nunca ao ponto da abnegação própria.

Fénelon descreve desta forma essa situação: “Fingem amá-lo sob, mas desde que isso não diminua o amor-próprio cego que depois se transforma em idolatria e que, em vez de se referir a Deus como o Fim para o qual fomos criados, procura arrastá-lo ao seu próprio nível, usando-o como algo que ajuda e conforta quando a criatura falha.”

O meu professor Aidan Kavanagh costumava definir a liturgia como “fazer o mundo como o mundo deve ser feito”. O oposto disto é a mundanidade, que trata o mundo e as acções no mundo sem referência a Deus.

A mundanidade é um estado antilitúrgico: é latria mal-direccionada. É auto-adoração, a idolatria mais secreta de todas. Por isso é que Frederick William Faber descreve o homem mundano como aquele que vive como se nunca tivesse de “prestar contas de si mesmo a um poder maior” (Criador e Criatura).

Onde é que pretendo chegar?

A descoberta desta idolatria secreta não traz Deus para a praça pública? Não introduz no espaço secular uma preocupação com o sagrado? O crime da idolatria não é cometido apenas quando escolhemos o templo em que vamos prestar culto, é cometido sempre que a vontade própria se sobrepõe à vontade divina.

A autolatria acontece quando elevamos a nossa própria opinião e vontade acima da vontade de Deus. Em relação a quê? Não apenas nas questões religiosas (embora exista aí muita autolatria também), mas nas coisas do mundo.

Como é que podemos ajuizar de forma recta assuntos como política, normas sociais, sexo, género, família, a vida intrauterina, o estranho, o criminoso e a vítima se colocámos a nossa vontade acima da de Deus? São João Eudes diz que “o orgulho leva o pecador a fazer de si mesmo um ídolo, e a colocar-se no lugar de Deus, uma vez que quando estão em causa a sua satisfação, vontade e desejos, prefere-se a si do que a Deus” (Meditações).

Os nossos interesses, satisfação, vontade e desejos estão sempre em causa. O problema espiritual do orgulho mete-se em tudo, não apenas no contexto religioso. A quem vamos prestar culto? Vamos escolher-nos a nós em vez de a Deus?

Esta é uma questão espiritual, mas é colocada a partir do coração do mundo. Por isso, os assuntos externos e sociais não estão totalmente separados do conflito interno, espiritual. A Igreja tem uma ou duas coisas a dizer sobre este último.

E tem toda a alegria em partilhar a sua experiência e sabedoria com todas as sociedades em que se encontra.


David W. Fagerberg é professor emérito de teologia litúrgica na Universidade de Notre Dame. O seu mais recente livro é Liturgical Dogmatics.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 14 de Setembro de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Monday, 19 September 2022

Casos de abusos sexuais em Portugal

28 de Setembro de 2022 - Um jornal holandês faz notícia de alegações de abuso de menores por parte de D. Ximenes Belo, prémio Nobel da Paz, cometidos em Timor Leste.

27 de Setembro de 2022 - O jornal Observador publica uma notícia sobre um jovem leigo que abusou de crianças em duas escolas onde estava a trabalhar. Uma dessas escolas, pública, afastou o jovem sem, contudo, o denunciar, e incentivando os pais a não o denunciar. Já o Colégio dos Maristas, de Carcavelos, uma escola católica, denunciou imediatamente o jovem quando tomou conhecimento de uma suspeita. O jovem foi julgado e condenado a seis anos de prisão. 

26 de Setembro de 2022 - Os Jesuítas anunciam que nos últimos 70 anos pelo menos 8 membros da ordem religiosa cometeram abusos sexuais. A maioria ocorreu em ambiente escolar, em escolas geridas pelos jesuítas e todos os casos conhecidos foram agora comunicados à comissão independente. Vale a pena ler também esta entrevista com a responsável desta análise.

18 de Setembro de 2022 - O jornal Nascer do Sol indica que a Comissão Independente encaminhou para o Ministério Público uma denúncia relativa ao cónego Fernando Sousa e Silva, ex-pároco de Joane. Nascido em Agosto de 1932, o padre tem actualmente 90 anos. Segundo o jornal já existiram muitas queixas relativas a este sacerdote, mas nunca foram atendidas nem investigadas devidamente pelo anterior arcebispo, D. Jorge Ortiga. Não é claro, pelo artigo, se foi a diocese ou se foi a Comissão Independente que denunciou o caso ao Ministério Público.
O artigo indica ainda que desde que começou a trabalhar, a Comissão Diocesana recebeu cinco denúncias. Destas, uma foi encaminhada para o Ministério Público e quatro estão a ser avaliadas internamente, aguardando decisão final. 
O texto do Nascer do Sol refere ainda outro caso, relativo a um jovem sacerdote ainda no activo, que foi denunciado por uma mulher a D. Jorge Ortiga, sem obter seguimento. Só mais tarde, com D. José Cordeiro é que o Ministério Público foi informado. Não é dada mais informação sobre o caso, nem fica claro quem é que denunciou o caso ao MP. 
A Actualidade Religiosa recebeu um documento público, escrito pelo alegado abusador, em que este afirma a sua total inocência e lamenta a forma como o caso foi tratado ao nível diocesano, dizendo que nunca teve a oportunidade de saber os detalhes da acusação, nem de se defender adequadamente. Confirmou que está suspenso de algumas actividades sacerdotais, incluindo ouvir confissões.

15 de Setembro de 2022 - Em declarações à RTP o Patriarca diz que a Igreja de Lisboa tem feito tudo de acordo com as regras e que sente que tem a confiança do Papa, embora este esteja "completamente à vontade, quer para manter, quer para mudar". 

6 de Agosto de 2022 - A RTP emite uma reportagem que alega que em 2003 D. Manuel Clemente, na altura reitor do Seminário dos Olivais e bispo auxiliar de Lisboa, recebeu um grupo de dirigentes dos escuteiros e um padre que lhe denunciaram casos de abusos sexuais praticados pelo padre Inácio Belo. Na reportagem esse padre e um dos ex-dirigentes, falando sob anonimato, dizem que o agora Patriarca pediu aos 12 dirigentes dos escuteiros que se demitissem "para bem da Igreja".
Em resposta, posterior à emissão da reportagem, o Patriarcado rejeita a versão da RTP e diz que D. Manuel apenas tomou conhecimento do caso do padre Inácio em 2013, quando existiu uma investigação eclesial. O padre Inácio Belo foi entretanto suspenso mas acabou por pedir excusa do sacerdócio.

5 de Agosto de 2022 - O Patriarcado de Lisboa informa, em comunicado, que D. Manuel Clemente foi recebido em audiência pelo Santo Padre, para discutir os recentes acontecimentos. A audiência terá sido pedida por D. Manuel. 

4 de Agosto de 2022 - O jornal Expresso publica a notícia de que um padre de Lisboa entregou à Comissão Independente informação sobre 12 padres que seriam suspeitos de cometer abusos sexuais sobre menores. O artigo refere três casos em específico. Pelo menos dois desses casos já seriam de conhecimento público e terão inclusivamente sido investigados pelo Patriarcado e pelas autoridades. O caso do "Pe. Nuno" foi, inclusivamente noticiado pelo próprio Expresso em Fevereiro de 2013 (ver abaixo). O padre foi entretanto identificado pelo Correio da Manhã a 25 de Fevereiro do mesmo ano (ver abaixo). O caso do "padre Inácio" também foi referido pelo mesmo jornal Expresso em 2012 e 2013, como o padre que foi enviado para "descansar" para o Algarve. O padre entretanto pediu dispensa do sacerdócio, já não estando por isso sob alçada do Patriarcado, mas na altura o caso terá sido comunicado às autoridades e a Roma. 
Por fim, o Expresso refere o caso de um padre que já morreu, mas que na altura não foi denunciado porque a família, em vez de denunciar o caso, tentou extorquir o padre. 
A própria situação do padre que coligiu a informação já tinha sido notícia no Expresso há uma década.
O artigo do Expresso pode ser lido aqui, mas é conteúdo pago. 

1 de Agosto de 2022 - A Actualidade Religiosa apura que o caso envolvendo um padre no Algarve, noticiada em Novembro de 2021, foi arquivado. Depois de investigado, o caso foi considerado pouco credível pelas autoridades diocesanas após investigação e quando os dados foram enviados para Roma o Vaticano confirmou a decisão de arquivar o caso. Este facto foi posteriormente alvo de notícia pela Renascença, no dia 9/8/2022.

29 de Julho de 2022 - O Patriarca publica uma carta aberta sobre o caso revelado pelo Observador dias antes. A carta pode ser lida, na íntegra, aqui. Entre outras coisas diz que o segundo caso, referido por Souto Moura na entrevista referida abaixo, foi encaminhada para o Dicastério para a Doutrina da Fé, e que mal esteja resolvido será divulgado. 

29 de Julho de 2022 - O Ministério Público anuncia que tem em curso sete investigações de abusos sexuais no contexto da Igreja Católica, resultantes de 17 denúncias que lhe chegaram através da Comissão Independente. Seis dessas denúncias eram referentes a um mesmo caso, e outros casos tinham também mais que uma denúncia, o que resultou em 10 investigações, três das quais foram já arquivadas ou por prescrição, ou por falta de provas, ou porque o caso já tinha sido julgado, tendo resultado em condenação do suspeito. 

27 de Julho de 2022 - O jornal Observador dá conta do caso de um padre de Lisboa contra quem terá sido feita uma denúncia de abuso sexual de menores, nos anos 90. Na altura pouco terá sido feito, mas o padre terá acabado por ser removido da paróquia e colocado como capelão de um hospital. O Patriarcado confirma que, quando D. Manuel Clemente se tornou Patriarca de Lisboa tomou conhecimento do caso e encontrou-se com a vítima, mas que esta terá pedido para que o caso não fosse divulgado nem denunciado às autoridades. O Patriarcado diz ainda que não tem conhecimento de mais nenhuma queixa feita contra o sacerdote, que entretanto está hospitalizado e gravemente doente. Mais recentemente terá sido feita uma denúncia sobre este caso à Comissão Independente, mas a Comissão Diocesana não recebeu qualquer denúncia, o que significa que não é este o caso referido na entrevista dada por Souto Moura no dia 15 de julho (ver abaixo).  

15 de Julho de 2022 - Numa entrevista concedida à Renascença, o juiz Souto Moura, da Comissão Diocesana de Lisboa, fala sobre o trabalho da comissão e da coordenação entre os diferentes órgãos diocesanos que existem. Refere ainda que desde Maio houve dois casos em Lisboa. Um dos casos será o de 7 de Julho. Desconhece-se qual será o segundo. 

12 de Julho de 2022 - A Arquidiocese de Évora anuncia a suspensão de um padre, acusado de não ter feito o suficiente para evitar a reincidência de abusos por parte de um leigo na paróquia de Samora Correia. 

7 de Julho de 2022 - O Patriarcado de Lisboa anuncia a suspensão de um padre por alegadamente ter enviado mensagens "obscenas" a jovens de um colégio do qual era assistente espiritual. Os jovens em questão terão entre 17 e 18 anos, segundo a investigação do site 7Margens. O padre em questão foi identificado como Duarte Andrade e Sousa.

30 de Junho de 2022 - Num balanço dos seis meses da Comissão Independente, esta diz que validou 338 testemunhos e excluiu 29, sendo que 57% das vítimas são homens e 40% são mulheres. 17 casos foram enviados para o Ministério Público, referentes a abusadores possivelmente ainda no activo.

10 de Maio de 2022 - D. José Ornelas volta a pedir perdão pelos casos de abusos e exprime "gratidão pela coragem" revelada pelos que denunciaram casos envolvendo a Igreja Católica. Isto, dias depois de a Comissão independente revelar que já tem registo de 326 casos

14 de Abril de 2022 - Na missa crismal D. Manuel Clemente pede perdão pelos abusos cometidos na Igreja e diz que quer corrigir erros e prevenir futuros casos. 

12 de Abril de 2022 -  Em conferência de imprensa a comissão independente revela que recebeu, até agora, 290 denúncias de casos, tendo enviado 16 para o Ministério Público. As denúncias vêm de todo o país, envolvem mais homens que mulheres e pessoas de idades entre os 13 e os 88. Os abusos denunciados são de vários tipos também. 

17 de Março de 2022 - O padre de Viseu acuasdo de ter aliciado sexualmente um menor de 14 anos é acusado formalmente pela justiça e sujeito a apresentações quinzenais e proibição de contacto com menores de 18 anos.

8 de Fevereiro de 2022 - Os bispos portugueses dizem que estão disponíveis para abrir os arquivos das dioceses à comissão de investigação dos abusos em Portugal.

26 de Janeiro de 2022 - A Comissão diocesana de Lisboa informa que notificou as autoridades de uma denúncia de abusos sexuais que terá ocorrido há mais de 30 anos, em Lisboa, mas que diz respeito a um padre que entretanto foi incardinado na diocese de Vila Real. O padre, já identificado como Manuel Machado, foi suspenso de todas as suas funções enquanto o caso é investigado pela diocese. Segundo o jornal Correio da Manhã os alegados abusos terão acontecido quando o padre era pároco de Colares, em Sintra.

15 de Janeiro de 2022 - A Comissão Independente anuncia que já validou 102 denúncias.

11 de Janeiro de 2022 - A Comissão Independente anuncia que só no primeiro dia recebeu 50 denúncias de alegados casos de abusos.

10 de Janeiro de 2022 - A Comissão Independente deu uma conferência de imprensa em que explicou a sua metodologia e prazos, etc.,

2 de Dezembro de 2021 - Em declarações à Renascença, Pedro Strecht anuncia que o relatório final será entregue até ao final de 2022. Mais tarde, em conferência de imprensa, faz um apelo para que vítimas contactem a comissão, independentemente do tempo que já passou desde os casos. Por fim, no mesmo dia a Renascença publica uma entrevista ao diretor-adjunto da PJ, que diz não ter qualquer indício de que a Igreja esteja a esconder casos.

30 de Novembro de 2021 - A CEP anuncia que a Comissão Independente para o Estudo dos Abusos de Menores na Igreja será chefiada pelo Psiquiatra de Crianças e Adolescentes Pedro Strecht.

25 de Novembro de 2021 - A Diocese do Algarve informa, em comunicado, que está a investigar um alegado caso de abuso passado há mais de 30 anos e revelado por um homem num programa de televisão. O padre em causa, que não é identificado, não é suspenso durante a investigação.

10 de Novembro de 2021 - A CEP disponibiliza publicamente os contactos das 21 comissões diocesanas de proteção de menores. 

8 de Novembro de 2021 - Os bispos portugueses, reunidos em assembleia plenária, comprometem-se a criar uma comissão nacional que coordene os trabalhos das 21 comissões diocesanas de proteção de menores. Nesse mesmo dia um grupo de 241 católicos portugueses, com figuras das mais diversas tendências, escreve uma carta aberta aos bispos a pedir que apoiem a criação de uma investigação independente ao fenómeno dos abusos em Portugal. 

21 de Outubro de 2021 - O jornal Público informa que quando confrontado sobre o teor das mensagens que enviou ao jovem de 14 anos, Luís Miguel da Costa terá dito que tudo não passou de uma brincadeira. É dito ainda que o seu computador foi apreendido pelo Ministério Público, onde foram encontradas imagens de pornografia infantil. Nos dias seguintes surgiram mais detalhes gráficos sobre o conteúdo das mensagens. 

13 de Outubro de 2021 - Sai a notícia de um que um padre de Viseu terá enviado mensagens de teor sexual a um menor de idade. O padre, de 46 anos, está a ser investigado e a diocese e a Comissão de Proteção de Menores e Adultos Vulneráveis estão a acompanhar o caso e a colaborar, tendo revelado que ainda existe mais um caso com processo em aberto. Pouco depois de ter saído a notícia o sacerdote foi identificado na imprensa como Luís Miguel da Costa e surgiram detalhes sobre o caso. Alegadamente o padre terá abordado o jovem na casa de banho durante um evento numa quinta de enoturismo, em Viseu, onde tentou apalpá-lo e beijá-lo. Depois é que mandou mensagens explícitas.

12 de Outubro de 2021 - Na sequência do escândalo causado pelo relatório Sauvé, em França, a Conferência Episcopal Portuguesa disse que se vai criar um grupo para coordenar a questão dos abusos a nível nacional, composto por representantes dos grupos de cada diocese. Todas as dioceses já têm uma comissão.

25 de Maio de 2021 - A CEP anuncia a realização de um encontro sobre a proteção de menores, em Fátima, para o dia 29 de Maio, com a presença do especialista pe. Hans Zollner SJ.


19 de Maio de 2020 - A arquidiocese de Braga publica um comunicado em que informa que a comissão de proteção recebeu duas denúncias, ambas de casos passados há mais de 30 anos e por isso juridica e canonicamente prescritas. Num caso o padre em causa já morreu, no outro não. No caso do padre vivo, é dito que se aparecerem novos casos o processo será reaberto, mas nada é dito sobre a credibilidade ou não das acusações. Este caso voltou a ser notícia no jornal Nascer do Sol, edição de dia 18 de Setembro de 2022, que indica tratar-se do Cónego Fernando Sousa e Silva.

23 de Janeiro de 2020 - Arquivado o caso que envolvia o pároco de Cacilhas. O Ministério Público diz que não houve indícios que apontassem para a prática do crime, nem para a constituição do padre como arguido.

14 de Janeiro de 2020 - A Conferência Episcopal Portuguesa diz que está em processo a transformação das "directrizes" para a proteção de menores em "normas".

2 de Agosto de 2019 - A Renascença dá a notícia de um caso sob investigação em Bragança, um dia depois de ter sido inaugurada a comissão para a protação de menores da diocese. A investigação em causa é da Igreja e já seguiu para Roma, não se sabe se a vítima chegou a fazer denúncia às autoridades civis.

2 de Maio de 2019 - Reunidos em Conferência Episcopal, os bispos portugueses decidem por unanimidade criar estruturas de proteção de menores nas suas dioceses.

20 de Abril de 2019 - D. Manuel Linda, bispo do Porto, diz que não é necessário criar uma comissão de protecção de menores na sua diocese.

12 de Abril de 2019 - O Patriarcado de Lisboa anuncia a criação de uma Comissão de Protecção de Menores, chefiada por D. Américo Aguiar e que conta com a presença de especialistas em psicologia, direito e investigação policial.

11 de Abril de 2019 - Uma mãe acusa o padre responsável pelo Centro Paroquial de Cacilhas, diocese de Setúbal, de ter abusado do seu filho de seis anos na casa de banho da creche. O menino foi sujeito a exames médicos que não indiciaram abuso. O padre remeteu qualquer comentário para a diocese e o Centro Paroquial emitiu um comunicado a dizer que está a colaborar com as autoridades, mas que o padre nem esteve na creche naquele dia. Segundo a imprensa, a mãe mostrou fotografias de vários homens - funcionários e o padre - que costumam frequentar a creche, e depois de ter identificado um primeiro homem, o filho identificou o padre. A diocese disse estar empenhada em apurar a verdade. No dia 30 e maio a PJ concluiu que a suspeita era infundada, não se tendo verificado qualquer crime.

1 de Março de 2019 - O "Observador" publica uma reportagem sobre o padre Heitor Antunes, de Vila Real mas à data a servir uma paróquia no Canadá, que em 2002 terá iniciado uma relação amorosa com uma menina de 14 anos e com quem, mais tarde, viria a ter uma filha. Um dia depois da publicação original, a 28 de fevereiro, a diocese de Vila Real confirmou que foi aberta uma investigação. Mais tarde, a 15 de Março, é anunciado que o padre foi suspenso e mandado regressar a Portugal pelo bispo de Vila Real. Em finais de fevereiro de 2021 o padre Heitor Antunes vê aceite o seu pedido de dispensa do estado clerical pelo Papa Francisco. A investigação canónica prossegue.

25 de Fevereiro de 2019 - O arcebispo de Évora, D. Francisco Senra Coelho, promete "transparência e colaboração" no que diz respeito a casos de abusos.

24 de Fevereiro de 2019 - D. Manuel Clemente, acabado de sair da cimeira sobre abusos sexuais no Vaticano, diz que haverá reforço de pessoal nas dioceses para lidar com estes casos.

20 de Fevereiro de 2019 - Na véspera do começo da cimeira sobre abusos sexuais, no Vaticano, um especialista entrevistado pela Renascença diz que as diretrizes em vigor em Portugal são "do melhor que há"

13 de Fevereiro de 2019 - O porta-voz da CEP, o padre Manuel Barbosa, diz em conferência de imprensa que desde 2001 os tribunais eclesiásticos analisaram cerca de uma dezena de casos e que, destes, menos de metade avançaram, por falta de fundamentos.

1 de Setembro de 2018 - A imprensa madeirense, seguida da continente, noticia a suspensão pela diocese do Funchal de um padre que terá sido acusado de abuso sexual de um menor. O padre, Anastácio Alves, é referido, mas não há mais detalhes do caso neste artigo, embora se diga que um processo civil relativo a suspeita de abusos em 2005 terá sido arquivado. Este caso foi reciclado, com muitos detalhes, pelo jornal online O Observador, no dia 11 de Fevereiro de 2019, o primeiro de uma série de reportagens sobre abusos na Igreja. Em Novembro de 2019 o padre, cujo paradeiro ainda é desconhecido, enviou uma carta à dioese a pedir a dispensa das suas funções sacerdotais.

2 de Janeiro de 2017 - O Correio da Manhã divulga a condenação em primeira instâcia a 20 meses de pena suspensa de um padre da diocese de Vila Real, por abusos sexuais. O sacerdote, que se encontra suspenso pela diocese, enviava fotografias explícitas a menores através das redes sociais. No dia 13 de fevereiro o Observador publica uma grande reportagem sobre este caso, identificando o sacerdote como Pedro Ribeiro e dizendo que a Igreja o remeteu durante quatro anos para um mosteiro, onde não pode exercer o sacerdócio.

9 de Outubro de 2015 - O jornal i publica uma reportagem com mais dados sobre o processo do padre Abel Maia.

24 de Julho de 2015 - No dia 23 de Julho à noite o Ministério Público divulgou o arquivamento do processo envolvendo o padre Abel Maia, da arquidiocese de Braga, que tinha sido suspeito de abusos sobre menores e adolescentes. No dia 24 de Julho a arquidiocese emitiu uma nota dizendo que o sacerdote continuaria afastado do trabalho pastoral, a seu pedido, para recuperar dos efeitos de ter estado envolvido neste caso.

23 de Julho de 2015 - A polícia judiciária anunciou, no dia 17 de Julho, que ia investigar suspeitas de abusos na diocese de Coimbra. Foi a própria diocese que revelou as suspeitas de abusos, depois de terem sido publicadas alegações anónimas online. Segundo as alegações, os abusos teriam começado há dois anos. A acusação anónima identifica o alegado autor dos abusos, mas tendo em conta a impossibilidade de avaliar a credibilidade da fonte, a Actualidade Religiosa opta por não divulgar esse nome. Em Setembro de 2022 a Actualidade Religiosa soube que ao fim de um ano de a diocese ter pedido a quem tivesse informação que se chegasse à frente não surgiram quaisquer denúncias credíveis e que a investigação policial também não revelou qualquer crime.

14 de Abril de 2015 - Chegou à Actualidade Religiosa a informação de que o padre de Setúbal que tinha sido investigado por alegados abusos foi entretanto ilibado das acusações pelo tribunal diocesano, sentença confirmada por Roma.

25 de Março de 2015 - O Padre António Júlio Santos, ex-pároco da Golegã, foi condenado em primeira instância pelo tribunal de Santarém a 14 meses de prisão, com pena suspensa, por dois crimes de abuso sexual de menores.

27 de Novembro de 2014 - O padre Abel Maia, dehoniano ao serviço da Arquidiocese de Braga, é suspenso de toda a actividade sacerdotal depois de ter surgido uma denúncia de abusos sobre menores. Abel Maia é o padre que tinha sido referido pelo padre Roberto de Sousa, ex-pároco de Canelas, no Porto, numa carta ao bispo D. António Francisco dos Santos, semanas antes. Nessa carta, Roberto de Sousa ameaçava divulgar um caso de abusos de que tinha conhecimento, caso o bispo insistisse em mudá-lo de paróquia. O bispo respondeu publicamente à carta, dizendo que tinha revelado o conteúdo às autoridades, para lidarem com o alegado caso de abusos. O padre Abel Maia nega todas as acusações.

13 de Novembro de 2014 - O Correio da Manhã faz manchete com a história de um dirigente dos escuteiros que foi preso por alegados abusos a crianças e posse de material pornográfico. Na sua notícia o jornal acusa o CNE de ter encoberto o caso e não ter avisado os pais. No mesmo dia o CNE emite um comunicado e explica à Renascença de viva voz, que colaborou com as autoridades e não avisou os pais porque a Judiciária proibiu "peremptoriamente". Também neste dia, à tarde, o Patriarca de Lisboa e presidente da CEP manifesta total confiança na direcção do CNE. O dirigente em causa suicidou-se na cadeia em finais de Outubro.

3 de Julho de 2014 - O Ministério Público anuncia que deduziu acusação contra um padre da Ordem Hospitaleira de São João de Deus e um leigo, ambos funcionários de uma instituição de saúde mental, de "abuso sexual de pessoa internada e de abuso sexual de pessoa incapaz de resistência".

1 de Abril de 2014 - O Diário de Notícias da Madeira informa que o reitor do seminário do Funchal, Cónego Carlos Nunes, está a ser investigado por alegados abusos sexuais. A diocese reage, prometendo total colaboração com a investigação mas lamentando a forma como a notícia veio a público.

5 de Dezembro de 2013 - A Diocese de Santarém emite um comunicado em que confirma que o padre António Júlio Ferreira dos Santos está "liberto dos seus encargos" enquanto se procede a uma avaliação preliminar para averiguar o fundamentos de uma suspeita de abusos sobre uma menina de 12 anos. A Polícia Judiciária apenas toma conhecimento do caso através da imprensa. Um jurista contactado pela Renascença considera que a diocese não tinha obrigação de informar as autoridades antes de fazer a sua avaliação preliminar. O padre foi condenado, posteriormente (ver acima) a 14 meses de prisão, com pena suspensa, por abuso de dois menores. Este caso foi alvo de uma grande reportagem por parte do Observador, publicado no dia 12 de fevereiro de 2019.

2 de Dezembro de 2013 - O padre Luís Mendes, ex-vice reitor do seminário menor da Guarda, no Fundão, é considerado culpado de 19 crimes de abusos sexuais sobre menores e condenado a 10 anos de pena efectiva, bem como a indemnizações que variam entre os mil e os dois mil euros. Este caso foi desenvolvido numa longa reportagem do "Observador", que inclui mais detalhes.

19 de Setembro de 2013 - Começa o julgamento do sacerdote da Guarda acusado de abusar sexualmente de alunos do seminário menor.

1 de Junho de 2013 - O Expresso noticia que existe um padre em Setúbal que está a ser investigado por alegadamente ter abusado de cinco rapazes, em 2008. O processo diocesano deste caso declarou o sacerdote inocente das acusações, o tribunal da Santa Sé confirmou essa decisão.

19 de Maio de 2013 - O Patriarca-eleito de Lisboa, D. Manuel Clemente, reafirma que é preciso "andar para a frente" com investigações de abusos sexuais na Igreja, mas recorda que por vezes os agressores já foram vítimas e que se trata sempre de pessoas, pelo que os casos não se podem resolver rapidamente.

22 de Abril de 2013 - Arquivado o processo aberto pelo Ministério Público por causa das denúncias de Catalina Pestana. MP alega prescrição dos factos e falta de queixa por parte de alegadas vítimas.

25 de Fevereiro de 2013 - O Correio da Manhã identifica o padre suspeito de abusos que terá sido enviado para França como Nuno Fraga Aurélio. Em declarações ao jornal este diz-se inocente e lamenta que alguém lhe esteja a tentar "estragar a vida".

20 de Fevereiro de 2013 – A Revista Visão anuncia que a sua manchete de dia 21 de Fevereiro vai ser sobre insinuações de assédio sexual, de natureza homossexual, praticados por D. Carlos Azevedo ao longo de vários anos. Nada indica que se trate de abusos sobre menores de idade. Questionado sobre o assunto, D. Nuno Brás diz que "A Igreja é feita de pecadores". A Conferência Episcopal Portuguesa lança um comunicado em que afirma que "não devemos fazer julgamentos apressados", mas não tenta negar as acusações. Questionado pelo Público, D. Carlos nega todas as acusações.

02 de Fevereiro de 2013  – O Expresso revela o caso de um padre do Patriarcado de Lisboa, suspeito de vários casos de abusos, que primeiro foi mudado de paróquia e depois enviado para "descansar" no Algarve. Recupera ainda o caso do padre de Cruz Quebrada dizendo que este se encontra no activo, em França.

03 de Janeiro de 2013 – Padre Manuel Morujão rejeita as insinuações da Rede de Cuidadores de que a Igreja terá ignorado algumas denúncias de abusos sexuais, garante que a Igreja tem levado este caso muito a sério e que quer "toda a verdade" sobre este assunto.

2 de Janeiro de 2013 – Rede de Cuidadores acusa Igreja de "meter a cabeça na areia" no que diz respeito a denúncias de abusos sexuais contra menores cometidos por membros do clero. Contudo o comunicado não fala em qualquer caso concreto.

22 de Dezembro de 2012 – O jornal Expresso revela o caso de uma família de Cruz Quebrada que diz ter denunciado um sacerdote por ter tentado abusar do seu filho na década de 90. Segundo o jornal, o caso é um dos denunciados por Catalina Pestana e o padre ainda está no activo.



O comunicado da PGR é um pouco confuso ao dizer que vai ser também instaurado um inquérito com base nas acusações de Catalina Pestana, mas não deixa claro se o inquérito à Ordem Hospitaleira teve por base as afirmações dela ou não.

19 de Dezembro de 2012 – Catalina Pestana é ouvida pela Procuradoria Geral da República por causa das declarações que fez a denunciar crimes de abusos sexuais na diocese de Lisboa




11 de Dezembro de 2012 – O padre Manuel Morujão, porta-voz da CEP, afirma que a Igreja quer ajudar a acabar com os crimes de pedofilia. Elogia ainda a forma como a diocese da Guarda está a lidar com o caso do seminário menor do Fundão e afirma que não recebeu qualquer denúncia nem de Catalina Pestana, nem de ninguém

8 de Dezembro de 2012 – Catalina Pestana afirma que sabe de cinco casos de pedofilia na diocese de Lisboa e afirma que teve uma reunião com o Patriarca, com o porta-voz da Conferência Episcopal e com D. Jorge Ortiga, na altura presidente da CEP, em que denunciou os casos. Diz ainda que nada foi feito em relação a isso. O Patriarca e o padre Manuel Morujão negam ter estado presentes na dita reunião




21 de Novembro de 2011- O Ministério público decide arquivar o inquérito ao alegado caso de abusos sexuais praticados numa casa de saúde da Ordem Hospitaleira, nos Açores.

8 de Setembro de 2010 – O Público noticia um alegado caso de abusos sexuais praticado numa casa de saúde da Ordem Hospitaleira, nos Açores

Setembro de 2010 – São enviados, para vários destinatários, e-mails a denunciar casos de abusos sexuais em casas da saúde da Ordem Hospitaleira de São João de Deus. É aberto um inquérito pela Procuradoria Geral da República.

29 de Março de 2010 – Um cónego no Porto é acusado de pedofilia. O Caso recebe muita atenção mediática mas acaba por não ser levado a sério quando se descobre que o queixoso não merece grande credibilidade e estaria a agir por vingança pessoal.




Conceitos

Apesar de se falar genericamente de crimes de pedofilia, na verdade há vários conceitos à mistura.

Nalguns casos existe de facto pedofilia, isto é, o abuso sexual de uma criança pré-pubescente.

Quando, no entanto, os abusos são praticados sobre menores que já passaram a puberdade, o nome clínico é efebofilia. Não deixa, contudo de ser crime, independentemente da vontade do menor, desde que de idade inferior aos 16 anos.

A confirmar-se a prática de abusos sexuais no âmbito das casas de saúde da Ordem Hospitaleira, então pode não se tratar sequer de abusos sobre menores. Contudo, o abuso sexual de deficientes mentais é também um crime e, aos olhos da Igreja, é tratado segundo as mesmas orientações previstas para os casos de abusos sobre menores.

Cronologia iniciada a 28 de Dezembro de 2012, actualizada no dia 22 de Setembro de 2022

Detidos por protestar no Reino Unido? O problema não é de agora

Tem levantado alguma polémica o facto de várias pessoas terem sido detidas, ao longo da última semana e meia, por se manifestarem de uma forma ou de outra durante as cerimónias fúnebres da Rainha Isabel II.

Alguns foram detidos depois de gritar ofensas em locais públicos, outros por segurar em cartazes com palavras de ordem contra a Monarquia. Eventualmente os poucos antimonárquicos que optaram por se manifestar fizeram-no em silêncio e ostentando folhas em branco.

Podemos ter as mais variadas opiniões sobre isto. Quer se seja monárquico ou não – e eu sou – podemos achar que é de muito mau gosto aproveitar um momento de profundo pesar e luto nacional para dar voz a essas opiniões em público. Mas também podemos achar que o mau gosto não é necessariamente crime, e que mesmo essa liberdade de expressão deve ser protegida.

Um paralelo interessante chega-nos do outro lado do Atlântico, onde o Supremo Tribunal tem apoiado insistentemente as manifestações absolutamente grotescas dos membros da Igreja Baptista de Westboro que gostam de ir manifestar-se nos funerais de militares americanos mortos em combate, argumentando que todas essas mortes são castigo divino por os EUA terem virado as costas a Deus.

Mas voltando ao Reino Unido, há um ponto muito importante neste debate. É que esta hipersensibilidade das autoridades britânicas não é nova. Vejamos mais alguns exemplos*

  • Em 2002 Harry Hamond, de 69 anos, foi atacado por transeuntes, chegando a ser lançado ao chão, quando mostrou um sinal que criticava a conduta homossexual. Quando a polícia chegou ao local decidiu, contudo, deter Hammond. Acabou por ser condenado a uma multa de 300 libras e a pagar as custas do processo. Perdeu o recurso, e morreu antes de sair o resultado de mais um recurso.
  • Em 2008 o pregador Anthony Rollins foi detido por pregar numa rua em Birmingham e por ter dito que os actos homossexuais são moralmente errados. Acabou por ser libertado e indemnizado.
  • Em 2008 um rapaz de 15 anos foi chamado a uma esquadra por ter participado numa manifestação contra a Igreja da Cientologia, e ter ostentado um cartaz a dizer “a Cientologia não é uma religião, é uma seita”. O caso acabou por ser arquivado.
  • Em 2010 Dale McAlpine estava a pregar na rua quando foi abordado por um agente da polícia que se identificou como homossexual. Enquanto os dois conversavam, em privado, o pregador disse que “a Bíblia diz que a homossexualidade é pecado”. Foi detido por outros três polícias fardados e passou sete horas numa cela. Mais tarde ganhou um processo contra a polícia por estes factos.
  • Em 2011 o adepto do Glasgow Rangers Stephen Birrell foi condenado a oito meses de prisão por ter feito comentários ofensivos a adeptos do Celtic, a católicos e ao Papa, numa página do Facebook.
  • Em 2014 o eurodeputado Paul Weston foi detido por citar uma passagem de um livro de Winston Churchill em que este critica o Islão. O caso acabou por ser arquivado.
  • Em 2014 Tony Miano foi detido por criticar publicamente o “pecado sexual”, incluindo o adultério, a promiscuidade e a prática homossexual”. Passou uma noite na esquadra depois de uma mulher ter feito queixa dele. Uma vez que tudo tinha sido gravado, foi possível, porém, provar que as acusações da queixosa eram infundadas e foi libertado.
  • Em 2014 outro pregador de rua, John Craven, foi abordado por dois adolescentes que lhe pediram a opinião sobre a homossexualidade. Ele citou a Bíblia, ressalvando que “Deus odeia o pecado, mas ama o pecador.” Todavia, os rapazes queixaram-se a um polícia, dizendo que tinham-se sentido ofendidos pelas palavras do pregador, que foi então detido durante 19 horas, 15 das quais sem comer e sem poder tomar medicamentos. Mais tarde foi indemnizado.
  • E, por fim, em 2021 aseptuagenária Rosa Lalor foi detida e multada por estar a rezar o terço diante de uma clínica de aborto em Liverpool. Recorreu da multa e ganhou.

É certo que esta questão não se coloca só no Reino Unido, existe em vários outros países, com uma preponderância para o norte da Europa, mas agora é do Reino Unido que estamos a falar.

Aquilo a que temos vindo a assistir é o fruto de uma cultura que começou a interiorizar a ideia de que ferir os sentimentos de outra pessoa deve ser tratado como um crime. O problema é que quando essa caixa de Pandora se abre, as consequências são imprevisíveis. Mais valia, se calhar, voltarmos a perceber que o debate público nem sempre é bonito, e que para nós termos liberdade de expressão, os idiotas que só dizem porcaria quando abrem a boca também a devem ter. Até porque, sei-o bem, para muitos deles o idiota sou eu.

*Todos estes casos são retirados do livro “Censored” de Paul Coleman, com a excepção do último, que é posterior à publicação da obra

Friday, 16 September 2022

Papa no Cazaquistão, entre sincretismos, guerras regionais e amuos

O Papa está no Cazaquistão. Esta é uma viagem importante por uma série de razões. Neste texto de análise falo do equilíbrio difícil que é para um Papa participar num encontro inter-religioso, sem cair em sincretismos e relativismos; da importância de o Papa falar de paz naquela região em específico, e por fim de como esta viagem afecta as relações entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa Russa.

Ainda sobre este assunto, recomendo a entrevista do principal bispo do Cazaquistão, que considera que o encontro em que o Papa participa tem as suas raízes nos encontros de Assis, iniciados pelo Papa João Paulo II.

Quando mandei o mail da semana passada ainda não tinha sido confirmada a morte de Isabel II, de Inglaterra. Hoje partilho convosco os artigos que escrevi para a Rádio Renascença sobre ela, a sua vida e o seu reinado. Estes foram dos últimos trabalhos que fiz para a Renascença antes de sair.

Morreu Isabel II, a Rainha da força tranquila que marcou uma era

Isabel II em números

Isabel II – O “annus horribilis” de 1992

Isabel II – Dez frases que marcaram 70 anos de reinado

Morreu Isabel II. 42 voltas ao mundo e duas visitas a Portugal

Esta quinta-feira termina na Síria uma importante peregrinação que visa recordar os cristãos que morreram durante a infindável guerra civil. Saiba mais sobre o ícone de Nossa Senhora das Dores, Consoladora dos Sírios.

“Quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos”.

Há mandamento mais universalmente ignorado pelos cristãos? No artigo desta semana do The Catholic Thing, Michael Pakaluk ajuda a aplicar esta passagem aos nossos dias, com um piscar de olho às Famílias Numerosas!

E recupero ainda um dos artigos do The Catholic Thing publicado durante as férias, que muito gosto me deu traduzir. Elizabeth A. Mitchell escreve sobre uma das mulheres mais impressionantes do Século XX, a Santa Edite Stein. Leiam que vale bem a pena.

Por fim, continuo a coligir as declarações dos líderes religiosos relevantes sobre a guerra na Ucrânia. Com as coisas a piorar para os russos, as declarações do Patriarca de Moscovo parecem cada vez mais desligadas da realidade. Vejam por vocês mesmos. A análise mais detalhada das suas últimas declarações está aqui e aqui. Sugiro darem também uma vista de olhos à leitura feita pelo líder da Igreja Ortodoxa da Ucrânia à história do martírio de São João Baptista, e aqui podem ler a análise às mais recentes declarações de Sviatoslav Shevchuk, líder da Igreja Greco-Católica da Ucrânia.

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