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Thursday, 21 September 2023

D. Américo nomeado bispo de Setúbal


Foi hoje anunciada oficialmente a nomeação de D. Américo Aguiar para bispo de Setúbal. Chegam assim ao fim duas sagas: a de saber para onde iria, afinal de contas, o futuro cardeal, e a da diocese de Setúbal, que está sem pastor há mais de 600 dias.

Podemos pensar num bispo como uma mera figura de proa para um sistema bastante bem montado, e que até pode funcionar sozinho – afinal de contas, Setúbal está há quase dois anos com um administrador apostólico em vez de um bispo e as coisas vão andando – mas isso seria um terrível erro. Ou pelo menos devia ser.

Um bispo faz muita falta a uma diocese, como ponto de referência para os seus fiéis e, sobretudo, como ponto de referência e de concórdia para os seus padres. Faz falta quem determine um rumo; faz falta quem congregue as ovelhas, que de outro modo tendem a dispersar.

Sem ir mais longe, reparemos que Setúbal esteve sem bispo durante todo este tempo em que a Igreja teve de enfrentar a crise dos abusos sexuais, quando mais era preciso haver vozes firmes para conduzir uma Igreja local ferida, magoada, revoltada e com medo. Quando mais era preciso colocar alguma ordem, precisamente nesse assunto, cujo tratamento em Setúbal tem deixado muito a desejar.

Também por todas as razões elencadas acima, não basta uma diocese ter um bispo, tem de ser um bom bispo. Um bispo que não seja apenas um burocrata. Setúbal, depois de tudo o que passou, merece um bispo activo, capaz e comprometido com o seu rebanho.

D. Américo tem potencial para fazer um bom trabalho em Setúbal e para ser essa figura, e assim espero que seja.

É verdade que ele não é a pessoa mais consensual do mundo, mas há boas razões para pensar que as dificuldades que sentiu em Lisboa não se repetirão na sua nova diocese.

D. Américo entrou em Lisboa como o braço direito de D. Manuel Clemente, que trabalhou com ele quando foi bispo do Porto. Ao contrário de D. Manuel, que regressava a uma casa onde era já conhecido e estimado, o então Padre Américo vinha de fora com aura de protegido e com atitude de cão de guarda do pastor (o termo é dele, e não meu). Isso não caiu bem entre muito do clero lisboeta.

Desde cedo começou a coleccionar cargos. Desde presidente do Conselho de Administração da Renascença – uma máquina influente e enorme, mas fragilizada e a precisar de reformas corajosas e urgentes – a homem de ponta para lidar com a crise dos abusos e, mais tarde, arquitecto daquele que foi simplesmente o maior evento que Portugal alguma vez recebeu, e alguma vez receberá.

Entretanto foi nomeado bispo auxiliar de Lisboa. Bispo auxiliar é um cargo complicado, não é carne, nem é peixe. É bispo, certo, mas não é a cabeça da diocese, nem é visto como tal pelo clero. Sei que muitos padres ficaram desagradados com a forma como ele exerceu esse cargo, nomeadamente na relação com o clero, agindo como seu superior – que era, hierarquicamente – o que foi interpretado por alguns como uma usurpação da autoridade do Patriarca.

Agora D. Américo não terá esse problema. É ele o pastor de Setúbal e espera-se mesmo que se comporte como tal. Sobretudo porque Setúbal precisa urgentemente de alguém que ponha ordem na diocese e consiga resolver problemas complicados, incluindo financeiros, que ela enfrenta. D. Américo pode ter muitos defeitos, mas é um homem de acção e que gosta de ter a “mão na massa”, o que aqui será um enorme benefício.

O novo bispo de Setúbal chega “em alta”, tendo sido a face do enorme sucesso que foi a Jornada Mundial da Juventude e entrará oficialmente na diocese já como cardeal, o que não deixa de constituir uma enorme honra para uma diocese que tem menos de 50 anos. 

Todos os caminhos iam dar a Roma…

O que nos leva à segunda questão. Então e Roma?

Durante meses era dado como certo que D. Américo estaria a caminho de um cargo na cúria romana, a pedido específico do Papa Francisco. O que é que terá acontecido? Não sei, mas não se pode excluir que o próprio D. Américo tenha preferido ficar em Portugal, numa diocese onde pode desenvolver uma acção mais directa e no terreno, do que num gabinete no Vaticano. Se assim for é bom sinal, pois revela ausência de carreirismo.

Pode ter contribuído para isso o facto de o futuro cardeal não dominar línguas estrangeiras, nomeadamente o italiano, que é essencial para conseguir trabalhar em Roma.

O que espero, sinceramente, é que D. Américo não esteja a prazo em Setúbal. Não digo que tenha de lá ficar a cumprir o mandato até aos 75 anos, mas pelo menos tempo suficiente para traçar um plano de acção e o concretizar, tempo para lançar raízes e deixar trabalho feito. A passagem relâmpago de D. José Ornelas não deixou especiais saudades aos setubalenses e a última coisa de que precisam é de um bispo que dê ares de estar simplesmente a pousar antes de partir para voos mais altos.

D. Américo é novo, só faz 50 anos em Dezembro. Tem mais que tempo, ainda, para fazer um bom trabalho na sua nova diocese. E o facto de ser cardeal significa que certamente terá também cargos em Roma que o obriguem a viajar e a pôr a render os talentos que Francisco reconheceu nele.

Friday, 15 September 2023

Português dirige "revista do Papa" e Setúbal continua sem bispo

Um dos temas das últimas semanas é o facto de os ucranianos, e mais especificamente os bispos católicos ucranianos, terem-se manifestado desgastados com as palavras e os gestos de Francisco sobre a guerra na Ucrânia. Este é um assunto sensível. Neste texto explico que os ucranianos têm algumas razões de queixa, mas que, bem vistas as coisas, as acusações de que Francisco é de alguma forma russófilo no que diz respeito a esta guerra são profundamente injustas, e não resistem a um escrutínio cuidadoso.

A semana passada dei-vos a feliz notícia da libertação, na Nigéria, de um padre e um seminarista que tinham sido raptados. Hoje, infelizmente, trago-vos a triste notícia da morte de mais um seminarista naquele país (na foto). Na’aman Danlami morreu carbonizado quando a casa paroquial em que estava foi atacada e incendiada. Dois padres que estavam na mesma casa conseguiram escapar com vida. Rezem pela Nigéria, para que o pesadelo termine.

E rezem também pelo Sudão do Sul. O apelo é da missionária portuguesa Beta Almendra.

De Roma chega a notícia de mais uma nomeação de um português para um cargo importante. O jesuíta Nuno Gonçalves, que chegou a ser sugerido como possível Patriarca de Lisboa, é a partir de agora director da revista Civiltà Cattolica. Recordo que a Civiltà Cattolica não é “apenas” uma revista dos jesuítas italianos. Cada edição é revista pessoalmente pelo Papa antes de ser publicada e é onde aparecem sempre publicadas as conversas do Papa com os jesuítas quando viaja. É, por isso, um órgão muito importante para se ir tomando o pulso ao pontificado.

O Papa está solidário com as vítimas dos desastres naturais que ocorreram em Marrocos e na Líbia.

O Bispo de Coimbra anunciou um sínodo para os jovens e o bispo de Angra diz que é preciso lutar contra a religião de sofá e de pijama. Quem não anunciou nada foi o bispo de Setúbal, isto porque Setúbal está sem bispo desde 28 de janeiro de 2022. São 595 dias de efectiva orfandade naquela diocese. É grave. Entretanto ouvi uns “zunzuns” de que a situação poderá ficar resolvida até ao fim do mês. Rezemos que sim!

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing em que o padre Charles Fink, no seu primeiro texto neste site, fala de preconceito, racismo e tolerância cristã, recorrendo às memórias do seu avô e à sua própria experiência como militar na guerra do Vietname.

Wednesday, 28 November 2018

Red wednesday

Já viu as imagens do menino autista e mudo que se tornou a estrela da audiência geral do Papa Francisco, hoje?

O Presidente das Filipinas quer que os cristãos deixem de frequentar as igrejas. Nós gostaríamos que ele deixasse de assassinar toxicodependentes. São escolhas…

Quatro finlandeses foram expulsos da Malásia por distribuir material cristão e nos Camarões um padre foi assassinado por soldados e dois outros raptados no espaço de três dias. Na República Centro-Africana os bispos convidam os fiéis a um dia de oração e luto pelo regresso da violência.

É por esta e por outras que hoje é Red Wednesday, para recordar os cristãos perseguidos. Em Portugal, se viver por perto, pode ver o Cristo Rei, os Jerónimos, os Clérigos e a Basílica dois Congregados iluminados de encarnado.

É possível construir igrejas modernas e bonitas? Sim. Aqui está a prova.

O bispo D. José Ornelas está solidário com os estivadores do Porto de Setúbal.

E hoje é quarta-feira, por isso trago-lhe mais um artigo do The Catholic Thing, com Randall Smith a perguntar se o Antigo Testamento é uma história de progresso ou de contínuos falhanços por parte do povo de Deus. A resposta? “Ambas as duas”.

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