sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Castração química e a ternura de Deus

Castração química para condenados por crimes sexuais? O bispo do Porto disse ontem que o assunto devia ser discutido.  A questão é mais complexa do que possa parecer à primeira vista… Aqui tento explorar as diferente vertentes.

O Papa Francisco recebeu hoje um grupo de crianças de uma instituição de solidariedade social de Braga.

A Universidade Católica quer apostar em estudantes “com potencial”, ainda que não tenham grandes médias.

Decorrem nestes dias as Jornadas das Comunicações Sociais. Ontem ouviu-se dizer que a “ternura de Deus” faz falta nas redes e hoje o professor Paulo Salgado disse que a Igreja deve usar as redes para mostrar como os católicos são felizes.

Fui avisado por alguns leitores de que o link sobre a legalização do aborto na Austrália seguiu errado, ontem. Podem ler o artigo aqui.


quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Governo chinês de corações na mão

Derrotados na política, vencedores da verdade
A China foi acusada, diante da ONU, de estar a matar pessoas de minorias religiosas pra colher órgãos para transplante. Boatos já havia há muito, mas agora haverá provas.

O Estado de Nova Gales do Sul tornou-se o último dos territórios australianos a legalizar o aborto.

O Patriarca de Lisboa acredita que Portugal tem-se portado “dignamente” no que toca ao acolhimento de migrantes e refugiados.

Conheça a família Martins dos Santos, que partiu em missão para Moçambique, com criançada e tudo!

Outubro está à porta e com ele um novo semestre do Supremo Tribunal dos EUA, que se prepara para ouvir um caso envolvendo alegada discriminação sexual de um homem que se afirma mulher. Leiam o artigo desta semana de Hadley Arkes, no The Catholic Thing, para compreender como este debate afecta-nos a todos, e não é apenas uma questão de respeito por escolhas individuais.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Como Viver na Era do Transgénero?

Hadley Arkes
Estamos a chegar a Outubro, um mês que nos reserva muitos sustos para além do Dia das Bruxas, com o começo dos trabalhos do Supremo Tribunal. Nenhuma outra instituição se aproxima enquanto motor de engenharia cultural.

Em assuntos raciais essa engenharia tem sido em larga medida positiva, mas no que diz respeito à vida humana e à sexualidade – à forma como nos entendemos enquanto pessoas e portadores de direitos – o Supremo tem sido uma máquina de profunda inversão moral.

Um dos casos que vai servir de teste será apresentado ao Tribunal em breve. No segundo dia do novo semestre do Supremo, os juízes vão analisar o caso de Harris Funeral Homes v. Equal Employment Opportunity Commission. A agência funerária no Michigan está nas mãos da mesma família há cinco gerações, mas um tal Anthony Stephens, que foi contratado como director funerário em 2007, acabou por causar alguns distúrbios.

Trata-se de uma posição com responsabilidade importante no acompanhamento de famílias durante os seus momentos de luto. Mas essa situação complicou-se quando Stephens anunciou, em 2013, que estava a experienciar “disforia de género”. Apesar de ser casado (com uma mulher, entenda-se bem), estava convencido de que agora a sua verdadeira identidade era a de uma mulher e que se queria apresentar, ao nível de aparência e vestuário, como tal.

Stephens insistiu que estava a respeitar o código de vestuário da empresa ao usar roupa feminina, mas a questão nem era essa. Foi despedido e, como é evidente, processou a agência por “discriminação” sexual, ao abrigo do artigo VII da Lei de Direitos Civis de 1964. A sua posição foi apoiada por um tribunal distrital federal, que se deixou levar de tal forma pelas suas premissas que insistiu em referir-se a ele no feminino.

O recurso chegou ao Supremo Tribunal e claro que a primeira coisa que os advogados e os juízes vão fazer é considerar a lei ao abrigo da qual foi feita a queixa de discriminação. Será sequer remotamente plausível que, em 1964, quando o Congresso proibiu a discriminação por causa de sexo, alguém presumia que isso iria abranger homens que querem usar as casas de banho ou balneários femininos, independentemente do quanto se sentem mulheres?

É muito mais sensato presumir, como argumentam os advogados que representam Harris, que “a discriminação sexual significa um tratamento diferenciado [e adverso] com base no sexo biológico de alguém, algo fixo e objectivamente determinado pelos cromossomas e a anatomia reprodutiva.”

Tudo bem. Mas quando se começa a questionar o significado das palavras na lei, isso é bem diferente de perguntar: o que significa verdadeiramente a palavra “sexo”, independentemente de como era compreendido pelo legislador em 1964?

O casal Stephens
Não devemos ficar admirados ao ouvir os advogados do lado de Stephens a argumentar que uma compreensão informada pelas mais recentes contribuições da “teoria de género” nos daria uma visão mais abrangente do que significa ser maltratado com base no “sexo”.

É então que se torna necessário ir mais ao fundo da questão. E acontece que, neste caso, isso foi feito, de forma decisiva e muito bonita. Foi dito num “Parecer Académico”, escrito por Michael Hanby, David Crawford e Maggie McCarthy; um parecer que merece ser lido por inteiro, pela forma graciosa como está escrito e pela argumentação convincente.

Segundo os autores, o que está verdadeiramente em causa neste caso é “inerentemente filosófico, ou mesmo metafísico”, pois “diz respeito a verdades sobre a própria natureza das coisas”. Existe uma verdade objetiva sobre o nosso corpo, ou devemos entender o corpo “de acordo com os sentimentos ou escolhas de cada um, e não de forma orgânica ou natural?” Aceitar essa perspectiva seria pôr em causa “a realidade dos homens e das mulheres, sugerindo que aquilo que os torna homens e mulheres são apenas os seus sentimentos sobre si mesmos, ou a construção social desses sentimentos.”

Uma criança tem um sentido natural de quem é e das pessoas que preenchem a sua vida, dos seus pais e avós. Contudo, agora estamos a codificar uma “antropologia filosófica” que põe em causa todo esse esquema como sendo “artificial e arbitrário, em vez de natural”.

O que Stephens afirma, segundo estes autores, “não é que tem o direito de se vestir como lhe apetece, mas antes que é, na verdade, uma mulher, e que por isso tem o direito a ser tratado como tal”.

Quem olha de fora poderá ser levado ao engano pelo argumento de que tudo o que Stephens quer é viver de acordo com o seu entendimento de si mesmo. Mas isso é uma profunda falsidade, porque o seu processo implica “a afirmação, legalmente imposta, da sua alegada identidade por todos os que trabalham com ele”. Ou seja, toda a gente que trabalha no mesmo espaço que ele terá a obrigação de admitir que aceita o seu direito a alterar a sua personalidade sexual, caso contrário podem ser processados por contribuir para “um ambiente laboral hostil” e assim criar ameaças legais para os seus empregadores.

Estas são as implicações que continuam a surpreender advogados e cidadãos, que ainda não estão habituados ao facto de a lógica do “certo ou errado” ganhar tanta força ao levar com o carimbo da verdade à luz da lei.


Hadley Arkes é Professor de Jurisprudência em Amherst College e director do Claremont Center for the Jurisprudence of Natural Law, em Washington D.C. O seu mais recente livro é Constitutional Illusions & Anchoring Truths: The Touchstone of the Natural Law.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 23 de Maio de 2019 em The Catholic Thing)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Abanar o capacete no Santuário

Ontem, em Fátima, houve um encontro de 130 mil motociclistas que receberam uma bênção especial do Papa Francisco.

Por falar em freiras heroicas, apresento ainda a irmã Júlia Bacelar, que trabalha no campo do tráfico humano e “vai aos sítios onde ninguém quer ir”.

Conheça o padre italiano que cobra o estacionamento no parque da Igreja… Em orações.

Publico hoje no blog um texto muito bonito, que me foi enviado por um leitor anónimo, que vos convido a ler. É uma reflexão de quem passou por dificuldades matrimoniais mas foi ajudado a tempo de evitar cometer um grande erro. Leiam e partilhem, porque pode ajudar outros a tomar a decisão certa.

A propósito, para os interessados, sobretudo quem está ligado ao direito canónico, decorre em Roma um Curso de formação sobre o matrimónio, no Tribunal Apostólico da Rota Romana, entre os dias 26 e 30 de novembro. Mais informações aqui.

A dois

O texto que publico de seguida foi-me enviado por um leitor anónimo, na esperança de que pudesse servir de ajuda e inspiração a quem esteja a passar por dificuldades matrimoniais. 

Deu-me total liberdade para o publicar, ou não, e optei por fazê-lo devido não só à beleza da escrita, mas também à utilidade do assunto. O estado actual do casamento e da família em Portugal - e não só - é de guerra civil. Os feridos e estropeados deste conflito estão por toda a parte. São nossos irmãos, primos, amigos. 

O Papa Francisco pede-nos para sermos hospital de campanha neste mundo. Este texto é uma receita médica. Peço-vos que o leiam com atenção, porque a escrita, sendo bonita, não é óbvia. Partilhem-na com quem pensem que possa precisar, ou apenas nas vossas redes sociais. Pode ser que chegue aos olhos certos, a tempo. 



A montanha, alta, ultrapassa com o seu pico a camada de nuvens que cobre o dia, tornando-o cinzento. O céu azul, que vem depois, é o de um dia que é perfeito porque supera esse cinzento. E porque o superou, não voltará mais à sua sombra.

Para eles, esse azul é meta agora invisível, mas tão real como a montanha que têm vindo a subir, a dois.

Já tinham caminhado o suficiente para se sentirem cansados. O estado de cada um, naquele ponto sinuoso do caminho, montanha acima, era fruto da caminhada dos dois.
A dois. Sem o outro, não era ali que estaria cada um.

Estar agora parada no caminho que era de ambos, era tão estranho como inevitável. Estranho, porque ele não estava ali. Inevitável, por isso mesmo. Como todos os desvios que cada um tinha já visto, também aquele invertia o sentido do cansaço que subia com a montanha. A que vinham a percorrer. A dois.

A voz dele estava já distante, quando o ouviu decidir pela dúvida desse outro caminho. O tal que aliviava a subida para a meta de ambos, descendo fácil e agradável até onde ele não sabia. Não o viu afastar-se... Há quanto tempo teriam largado as mãos? Para ele, o alívio do imediato parecia agora mais forte que o seu desejo de verdade. Turvava esse desejo.

Em nenhum dos caminhos se vê o todo do percurso que está à frente. No deles, ela espera-o, permitindo no seu coração a dor de vê-lo não estar e a paz da certeza da meta dos dois. No dele, coexistem o alívio do que já sabe ser um erro e a resistência à verdade que, no fundo, conhece. A verdade do caminho que percorriam. A dois.

- Tens água na mochila!, ouviu ela.

Foi de imediato ao seu cantil e bebeu, fitando, calada e grata, o pastor que acabava de falar-lhe. Esqueceu-se de estranhar que soubesse do cantil, que continuava cheio e com uma água tão fresca como no início. Estranhou sim, que também ele seguisse por aquele desvio, deixando para trás, sem hesitar, as suas ovelhas. Parada, apercebeu-se de que havia outros desvios. E deixou-se estar.

- Não vou beber a água de um estranho, pensou ele desviando o olhar de quem não podia ser um pastor, por faltar o rebanho. Ignorou o copo que lhe estendia e engoliu a sede que sentia.

- Onde vais?

Não sabia. Mas descia.

Entregando-se só a si, olhos postos nos seus pés, não se apercebeu do próprio desejo de que o estranho ainda ali estivesse.


O seu desvio desce agora mais íngreme; hesita confuso, perante as pedras que se vão soltando. Tropeça sem cair. Uma vez, e outra, e outra. A saudade da verdade aumenta com a distância do caminho que vinham percorrendo. A dois.

No longo instante que durou a queda, estendeu os braços, implorando com o coração aquela ajuda. A do pastor que estaria (?) ainda ali.

- Se calhar já tem pouca água...

- Podes beber. Tens sede e há muita água nesta fonte.

- Onde ia, pastor?

- Vinha pedir-te um favor. Explico-te lá em cima, se quiseres voltar. Leva esta mochila, tem mais água.

Vendo-o iniciar o regresso, ele parou. Rodou a cabeça, e olhou novamente para o desvio que antes o levava não sabia para onde. Repôs os seus olhos no pastor.

- Estou a ir!

- Estou a ir! – Ouviu-o à distância, sem o ver. Ela alegrou-se em silêncio, sabendo que o caminho de regresso que ele tinha decidido, era necessário para que se reencontrassem. Como necessário era o tempo que levaria.

Esperou.

De mão estendida, pedindo-lhe, calado, a dela, completou o regresso à verdade que nunca deixara de desejar, reconhecendo-a. Com o caminho, que reviam agora juntos, viam também, entre as velhas nuvens, algum do azul do céu. Que sempre estivera lá.

- Afinal o que querias de mim, pastor?

- Que me ajudasses a encontrar uma das minhas ovelhas.

Com ele, recomeçaram a caminhar montanha acima.

A dois.

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Papa aponta o exemplo dos mártires

Ontem, já eu tinha enviado o mail diário, surgiu este comunicado do bispo do Porto a destruir o Governo, partidos, políticos e activistas sociais, incluindo feministas, por ninguém ter achado necessário condenar o terrível assassinato da freira Maria Antónia, em São João da Madeira. Vale mesmo a pena ler. Sem papas na língua.

O Vaticano pede julgamento de dois padres num caso de abusos sexuais que remonta a 2012.

Hoje o Papa Francisco recordou o dia do doente com Alzheimer e falou do exemplo dos mártires, que todos os católicos devem estar preparados para seguir.

Farto de polémicas e guerrinhas na Igreja? Então tire cinco minutos do seu dia para ler este artigo do The Catholic Thing e veras imagens. Brad Miner fala de uma exposição em Nova Iorque que abre uma janela para a vida de uma comunidade judaica na Europa medieval.

Casa de Deus

Brad Miner
Se fosse um judeu a viver em Colmar, uma belíssima vila na Alsácia, no nordeste de França, saberia que estava sempre sujeito a ser atacado ou assaltado. Seria um alvo fácil, pois vivia entre os seus correligionários apenas numa zona da vila – principalmente numa única rua, La Rue des Juifs – e por ser devoto da sua fé e das suas práticas, vestia-se de acordo. Não tinha onde se esconder.

Mas podia, isso sim, esconder os seus bens mais valiosos. Foi isso mesmo que fez uma família judaica, criando uma espécie de cofre, um vaso de terracota com todos os seus tesouros, que colocaram num buraco na parede, cobrindo-o com estuque. Contudo, alguma calamidade levou-os a ter de abandonar os tesouros, que só foram descobertos em 1863, precisamente no mesmo sítio, quase 400 anos mais tarde. 

Como se pode ler no catálogo de “O Tesouro de Colmar: Um Legado Judaico Medieval”, a nova exposição no Cloisters, do New York’s Metropolitan Museum, a exposição “recupera a memória da outrora próspera comunidade judaica que foi perseguida como bode expiatória e morta quando a região foi atingida com uma força devastadora pela peste, em 1348-49”.

Quem descobriu o tesouro, que inclui “moedas e loiça de prata e joalharia de ouro e prata, incluindo fivelas elaboradas e quinze anéis de ouro”, deve ter vendido uma parte. O que restou para ser visto e amado pelas gerações futuras está, na maior parte, no Musée de Cluny, em Paris, conhecido também como o Museu Nacional da Idade Média, que posteriormente emprestou vários dos objectos ao MET, para exposição no Cloisters.

No centro da pequena mostra está um grande anel de casamento, adornado com uma réplica imaginada do Templo de Salomão. Era claramente um anel cerimonial, ou seja, nada que se usasse para as lides domésticas, mas criado especificamente para ser usado numa cerimónia de noivado e/ou no casamento propriamente dito. De facto, alguns especulam que o anel passava de geração em geração na mesma família, ou que era usado por várias – se não mesmo todas – as noivas judaicas da aldeia nos seus casamentos.

O anel está inscrito com a expressão perene de parabéns “Mazel tov!”. Na verdade, é uma expressão Ídiche, e não hebraica, embora aqui esteja escrita com caracteres hebraicos. O ídiche surgiu no Século IX na Europa, uma amálgama de hebraico e aramaico misturada com alemão e algumas línguas eslavas. A palavra em si vem de Yidish Taitsh, que significa “judaico alemão”. 

Embora não tenha sido o último, o Nobel da Literatura Isaac Bashevis Singer é certamente o mais famoso autor (e por ventura um dos últimos) a escrever exclusivamente em ídiche, e disse o seguinte:

As pessoas perguntam-me porque é que escrevo numa língua moribunda. Eu gosto de escrever contos de fantasmas e nada fica melhor a um fantasma do que uma língua moribunda. Quanto mais morta a língua, mais vivo o fantasma. Os fantasmas adoram o ídiche e, tanto quanto sei, todos a falam.

É um comentário que se aplica charmosa mas tristemente bem ao que se vê na exposição de Colmar. Claro que o museu – como todos os museus – está recheado de “fantasmas”. Mesmo o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque contém sobretudo artistas que já foram desta para melhor. (Depois de uma longa restauração, o MoMA está prestes a reabrir em Outubro).

No Cloisters, porém, os fantasmas parece-me mais dolorosamente presentes, uma vez que esta exposição me parece emblemática da história do antissemitismo: estamos perante obras de grandes artesãos, membros de uma grande cultura, que devido à sua coragem e sabedoria têm sido usados ao longo dos séculos como bodes expiatórios pelos cobardes e os tolos.

Juntamente com os tesouros de Colmar há outros dois itens da coleção permanente do Cloisters: uma Tanakh (ou Bíblia hebraica) e uma Haggadah com 700 anos, ambas originárias de Espanha. A Haggadah, para quem não sabe, é o texto lido na refeição pascal, recordando o início do Êxodo.

Como explica a curadora Barbara Drake:

A sobrevivência da Bíblia hebraica é quase milagrosa… Os nomes e datas inseridas nas suas páginas sugerem que saiu de Espanha até 1492, quando a população judaica foi expulsa. Juntamente com os seus sucessivos donos a Bíblia viajou para oriente pelo Mediterrâneo, aterrando depois na Grécia, mais tarde no Egipto e voltando novamente para a Europa continental. Actualmente é uma de apenas três Bíblias hebraicas iluminadas de Castilha do Século XIV.

É para nós uma especial honra que a Bíblia acabe a sua viagem no Cloisters, onde transformará a nossa apresentação – e a compreensão dos nossos visitantes – sobre a iluminação de manuscritos medievais. Todos os outros livros que temos no Cloisters foram criados para uso cristão (três deles foram feitos em Paris no espaço de 90 anos). Este manuscrito desperta-nos para a comunidade judaica, que foi uma parte vibrante da cultura medieval de Espanha.

Pode parecer forçado, mas a exposição Colmar deixa-me ainda mais entusiasmado com a viagem a Israel que estou a planear com a minha mulher, onde anseio ver o local que Deus escolheu para a sua Encarnação e a pátria de um povo sofredor que conseguiu ultrapassar o sofrimento causado pela perseguição a que foi sujeito.

Devo acrescentar que o Cloisters, um dos meus locais favoritos, é um museu que nos transporta para um mundo em que o catolicismo definia todos os aspetos da vida, para bem e – como esta pequena mostra de artefactos judaicos nos recorda – por vezes para pior.

OTesouro de Colmar” está em exposição até ao dia 12 de janeiro de 2020.


(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 16 de Setembro de 2019 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

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terça-feira, 17 de setembro de 2019

Entre o cisma e São Tomé

Enquanto uns cismam, ela vai ajudar os outros
Caminhamos para um cisma na Igreja Católica? Há quem acredite nessa ameaça. A questão esteve em debate na Renascença esta tarde. Veja e ouça aqui.

O Cardeal Pell, condenado em duas instâncias por abuso de menores num processo muito polémico, recorreu ao Supremo Tribunal da Austrália.

Conheça a Mariana Costa, mais uma aventureira que parte em missão com os Leigos para o Desenvolvimento.

Mal chegou de África e o Papa Francisco já está a preparar nova viagem, desta vez para o Japão e Tailândia.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Caminhando com D. Francisco, rezando por Antónia Guerra

RIP Antónia Guerra
O Papa Francisco apelou esta quinta-feira a um “pacto educativo” e convocou um encontro para Roma em 2020 com esse objetivo, aberto a todos os que estão envolvidos nesta área.

O Papa reza pelo diálogo e insiste que “o caminho do cisma não é cristão”.

Surgiu esta semana uma notícia trágica sobre a morte de uma freira, brutalmente assassinada em condições terríveis. A Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal condenou o assassinato.


Conheça aqui o livro “Caminhando com D. António Francisco dos Santos”, do meu querido amigo Bernardo Corrêa d’Almeida. Por falar no saudoso bispo, o prémio com o seu nome foi entregue à APAV.

Estamos em tempo de campanha e, se repararem, nenhum dos partidos parece muito interessado em falar de eutanásia, um assunto que depois de anunciados os resultados será certamente apresentado como “fundamental” e “civilizacional” pelos do costume. Nada como ir vendo como é que a lei funciona na prática, nos países onde é legal,como faz este artigo do The Catholic Thing. Leiam e partilhem.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Suicídio Assistido: Uma História de Duas Narrativas

Richard Doerflinger
Apresento-vos uma narrativa recentemente promovida a nível nacional, a começar por Seattle, pela Associated Press.

Em Maio um homem chamado Robert Fuller, de 75 anos e doente com cancro, foi sujeito a uma overdose letal de drogas, ao abrigo da lei de “Morte com Dignidade” do Estado de Washington e planeou até ao último detalhe o seu suicídio, com a ajuda de adeptos do suicídio, da organização “End of Life Washington”. Organizou o seu enterro na paróquia católica de St. Therese, que frequentava; teve uma festa de despedida no seu apartamento em Seattle; casou com o seu parceiro de alguns anos e, mais tarde nesse mesmo dia, diante de testemunhas, tomou as drogas e morreu. Tinha convidado um jornalista e um fotógrafo da AP para o acompanhar durante todo o processo porque “queria mostrar às pessoas do país como é que estas leis funcionam”.

Algo parecido (normalmente sem as festividades nem a presença mediática orquestrada) já aconteceu no meu Estado de Washington cerca de 1.200 vezes desde que o suicídio medicamente assistido foi legalizado, em 2008.

A AP acrescenta isto: No domingo antes do seu suicídio de 10 de maio, Fuller foi pela última vez à missa e alegadamente recebeu uma bênção para aquilo que estava prestes a fazer (fotografada pela AP) do padre local, o jesuíta Quentin Dupont, acompanhado de crianças com alvas brancas que faziam a Primeira Comunhão. Em defesa desta narrativa, alguns já apontaram para um post na página do Facebook de Fuller em que ele escreveu: “O meu pastor/padrinho deu-me a sua bênção. E é jesuíta!!!”

A verdade é que Fuller publicou esse post em Março, por isso não poderia estar a referir-se â bênção de Fuller no dia 5 de Maio. O pároco, Pe. Maurice Mamba, não é jesuíta. Poderemos nunca saber quem era esse jesuíta, ou se existe sequer.

Afinal de contas, ao que se soube, o padre Dupont mal conhecia Fuller e não fazia a menor ideia que ele planeava suicidar-se. Descendo o corredor no final da missa foi confrontado por um homem que pedia uma bênção porque estava a morrer. O padre Dupont liderou as crianças numa oração, pedindo força e coragem neste tempo difícil. Viu alguém a tirar uma fotografia, mas não sabia que era um repórter e nunca assinou qualquer documento a autorizar a sua publicação. Parece muito um esquema, pensado por Fuller (ou pelos ativistas que o ajudaram) para colocar a Igreja numa posição embaraçosa e minar o seu testemunho contra o movimento do suicídio assistido.

Quando o padre soube dos planos de Fuller visitou-o e tentou dissuadi-lo – e quando isso não funcionou consultou a diocese para saber se devia aceitar fazer o seu enterro. A decisão foi de avançar e fornecer cuidados pastorais aos enlutados mas com o cuidado de ser claro que isso não constituía uma concordância com a forma como ele pôs fim à vida.

O que é que podemos aprender com isto?

Em primeiro lugar, alguns paroquianos (sobretudo os seus amigos de longa data que cantavam com ele no coro) sabiam dos seus planos e aceitaram-nos, ao ponto de frequentarem aquela festa final. Isso é errado e um grave escândalo. Contudo, alguns católicos têm dificuldade em acreditar que os padres não estavam a par das intenções de Fuller. Como paroquiano da diocese de Seattle, permitam-me discordar.

A falta de padres por estes lados é severa. O meu próprio pároco cuida de quatro paróquias e uma missão e durante boa parte deste ano não teve um vigário. Faz um trabalho magnífico em circunstâncias difíceis, com a ajuda de padres reformados ou que estejam de visita e administradores leigos.

O padre Dupont, que é aluno a tempo inteiro na Universidade de Washington, estava em St. Therese só para celebrar missa, como já tinha feito antes (bem como noutra paróquia, apesar do trabalho académico). O pároco, padre Maurice, cuida de duas paróquias sozinho e naquela manhã estava a celebrar missa na outra igreja, onde reside.
Se não gosta do facto de que os nossos padres mal têm tempo para celebrar os sacramentos, quanto mais conhecer os detalhes de vida dos paroquianos, concordo plenamente. Juntem-se a mim, por favor, a rezar por mais sacerdotes.

Em segundo lugar, alguém poderia ter feito alguma coisa para impedir os planos de Fuller? Não me parece. Aparentemente, durante a maior parte da sua vida mostrou estar “meio apaixonado com a morte fácil”. A AP explica que aos oito anos, quando vivia em New Hampshire, a sua querida avó afogou-se no Rio Merrimack. Com isto aprendeu que “se a vida se tornar dolorosa, vai-se até ao Merrimack”.

Em 1975 tentou suicidar-se depois de ter dito à sua mulher que era homossexual e o seu casamento ter acabado. Mais tarde ajudou a cuidar de amigos com HIV, administrou uma dose letal de drogas a um deles e levou uma vida sexual que “se aproximava do suicida” – aparentemente a tentar contrair a doença porque “todos os meus amigos estavam a morrer”. Ainda antes de ser diagnosticado com cancro fazia parte do Hemlock Society e revelou grande interesse na lei de Washington quando uma mulher no seu prédio o usou para se matar.

Porque é que esta obsessão de longa data pelo suicídio não surgiu durante as suas avaliações psicológicas, ao abrigo da lei de Washington? Porque 96% dos doentes que obtêm as drogas letais nunca chegam a ser avaliadas. Tal como outras “salvaguardas” que a lei prevê contra abusos, esta não passa de uma anedota.

Em terceiro lugar a Associated Press violou todas as orientações da Organização Mundial de Saúde e de organizações para a prevenção de suicídios, que estipulam que não se noticiem casos de suicídio, para evitar que outras pessoas deprimidas e vulneráveis se matem. A reportagem da AP fornece detalhes sobre o método utilizado, apresenta o suicídio como uma solução e romantiza toda a questão (a manchete era “A Festa de uma Vida”). Se mais pessoas se matarem por causa desta publicidade mal disfarçada, então a AP tem sangue nas mãos. 

Em quarto lugar, qual é a posição da Igreja? O Catecismo da Igreja Católica (parágrafos 2280-83) deixa três coisas claras: O suicídio é um mal grave; nestes casos a responsabilidade pessoal podem ser muito mitigadas por fatores como angústia, medo do sofrimento ou distúrbios psicológicos; e a Igreja não desespera da salvação daqueles que põem fim às suas próprias vidas, mas reza por elas, sabendo que Deus pode conduzir as pessoas ao arrependimento em qualquer momento, de formas que só Ele conhece.

Neste caso as ações do clero parecem estar em linha com a máxima de Santo Agostinho de odiar o pecado mas amar o pecador (ou, melhor, odiar o pecado porque se ama o pecador). Essa máxima, alvo de gozo por parte de secularistas, é difícil de cumprir – sobretudo em assuntos de sexualidade ou da vida. Alguns católicos são tentados a errar, odiando o pecado e o pecador em conjunto, e outros acham que têm de amar e aceitar os dois. Quanto a mim, diria que a manutenção dessas distinções – e desse equilíbrio – é central para a nossa fé católica.


Richard Doerflinger trabalhou durante trinta e seis anos como secretário de atividades pró-vida na Conferência Episcopal dos Estados Unidos. Faz parte do Nicola Center for Ethics and Culture da Universidade de Notre Dame e é professor associado no Charlotte Lozier Institute.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 7 de Setembro de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Norwegian Blues

O Papa está de regresso a Roma, depois de uma viagem a África que demonstrou, segundo Aura Miguel, a “genuína alegria dos africanos”, bem como a sua generosidade.


Agora as atenções começam a centrar-se no Sínodo da Amazónia? Vêm aí padres casados? Seja como for a decisão terá de ser tomada “em unidade”, diz um bispo da região.

Os bispos portugueses apelam à “participação ativa” nas eleições de Outubro.

Duas notícias que não sendo estritamente religiosas, estão ligadas. A Noruega foi condenada por desrespeitar os direitos humanos de uma mulher a quem foi retirado o bebé recém-nascido, mais um caso preocupante num país onde os direitos parentais parecem estar fragilizados… E uma notícia muito triste do Irão, onde uma adepta de futebol foi detida por tentar entrar no estádio para ver a sua equipa. Enfrentando uma pena de até seis meses de prisão, imolou-se pelo fogo à porta do tribunal e morreu ontem.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Crise? Qual crise?

O Papa Francisco termina hoje, de facto, a sua viagem a África, embora só regresse a Roma amanhã. Esta segunda-feira foi passada nas Ilhas Maurícias, onde pediu aos habitantes que sejam fiéis ao seu ADN e acolham os migrantes.

Antes, na homilia da missa que celebrou com 100 mil pessoas, disse que a crise de santidade é mais grave que qualquer crise de vocações.

O fim-de-semana foi dedicado ao Madagáscar, onde Francisco agradeceu à persistência do clero mas advertiu também que “a pobreza não é uma fatalidade”. Criticou ainda a “cultura de parentesco” que dá aso à corrupção. Tudo isto num país que tem um bispo português.

Antes, na sexta-feira, despediu-se de Moçambique, avisando que “Nenhum país tem futuro se o que o une é a vingança e o ódio”.

Fiquem ainda a conhecer o projecto LabOratório.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

O Papa falou do Rei, e o Povo gostou


Francisco começou o dia com uma visita ao Palácio Presidencial, onde discursou juntamente com Filipe Nyusi e elogiou os moçambicanos por não terem deixado que o ódio tivesse a última palavra.

Depois o Papa foi ter com os jovens e, após uma recepção muito animada, recebeu aplausos estrondosos quando falou no… Eusébio da Silva Ferreira.

De ontem, durante a viagem para África, fica a notícia da boca do Papa aos seus críticos, sobretudo os que vêm da América do Norte. As suas críticas são “uma honra” para ele.

Morreu o cardeal Roger Etchegaray, o homem de confiança do Papa João Paulo II que viajou para o Iraque para tentar, em vão, impedir a invasão americana em 2003.


quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Papa a caminho dos três M

O Papa chega esta quarta-feira a Moçambique, para uma viagem que inclui passagens pelo Madagáscar e Ilhas Maurícias.

Antes de partir, Francisco rezou especialmente pelas vítimas do furacão Dorian que afectou as Bahamas e caminha para os Estados Unidos.

A visita do Papa terá acompanhamento constante na Renascença, como é evidente!

A Igreja Portuguesa quer formar professores para lidar com questões da ideologia do género.

Hoje no artigo do The Catholic Thing em português trago-vos um texto de leitura difícil, mas necessária, onde Stephen P. White explica como a crise dos abusos sexuais tem afetado desproporcionalmente pessoas das tais periferias da sociedade que o Papa tem no coração. Leiam e partilhem.

Abusos nas Periferias

Stephen P. White
Os abusos sexuais são uma praga, seja onde for, ou quem envolvam. Mas uma das facetas menos exploradas da crise de abusos sexuais praticados por padres nos Estados Unidos é a forma como as comunidades minoritárias e marginalizadas têm sido particularmente susceptíveis tanto aos abusadores como às más-práticas dos bispos e superiores religiosos que lidaram tão mal com os casos de que tiveram conhecimento.

Esta semana a Associated Press publicou uma reportagem sobre uma família alargada em Greenwood, Mississippi que foi devastada por abusos sexuais na Igreja. Três dos rapazes da família, Joshua e Raphael Love e o seu primo La Jarvis Love, alegam que foram abusados por dois frades franciscanos na Escola São Francisco de Assis nos anos 90.

Certos aspetos destes casos de abuso são por demais familiares: a forma como foram recrutados, as ameaças, o silêncio, a ineficácia da resposta tanto das autoridades da Igreja como, pelo menos de início, das autoridades. Mas alguns dos detalhes dos casos da família Greenwood sobressaem.

Em primeiro lugar, os rapazes de Greenwood são afro-americanos e de uma das zonas mais pobres de um dos estados mais pobres. Os seus alegados abusadores eram ambos missionários franciscanos de outros estados, que tinham vindo para Mississippi para trabalhar numa paróquia missionária, para servir as populações mais desfavorecidas.

Em 2006 a diocese católica local – Jackson – chegou a um acordo judicial com dezanove vítimas de abusos, na maioria brancos, por uma média de 250 mil dólares cada. Mas os franciscanos ofereceram apenas 15 mil dólares a cada um dos Love, e apenas na condição de que assinassem um acordo de confidencialidade.

“Eles sentiam que nos podiam tratar assim porque somos pobres e porque somos pretos”, disse Joshua Love. E compreende-se que tenha sido o caso. Sem advogados, dois dos três rapazes Love aceitaram o acordo.

O terceiro Love, Raphael, não aceitou o acordo. Actualmente está preso por um duplo homicídio cometido quando tinha 16 anos. A sua vida teria sido diferente se não tivesse sido abusado? As duas vítimas abatidas a tiro estariam vivas? O trauma de abusos sexuais na infância tende a destruir vidas e é impossível saber o que poderia ter sido. Mas também não podemos deixar de pensar no assunto.

Quanto aos abusadores, o frei Paul West abandonou os franciscanos em 2002, mas ainda em 2010 estava a dar aulas numa escola católica perto de Appleton, Wisconsin e o frei Donald Lucas morreu em 1999, num aparente suicídio.

Mas os rapazes pobres do Delta do Mississippi não são os únicos que têm razões para se sentirem duplamente traídos – primeiro pelos seus abusadores, e depois pela Igreja, por os tratar tão mal.

Os missionários jesuítas que trabalharam com indígenas no Alasca amontoaram um registo assustador de vítimas ao longo de várias décadas. Os números em si não são tão impressionantes como as que se encontram em cidades com grandes populações católicas, mas dada a escassez da população, as décadas de abusos e o número de padres e voluntários jesuítas envolvidos, a imagem geral é terrível.

A Província Jesuíta de Oregon nega ter usado o Alasca como depósito para padres suspeitos de abusos, mas os números não mentem. Note-se neste parágrafo de um artigo do National Catholic Reporter sobre a bancarrota da Província, em 2009.

Joshua Love, uma das vítimas dos franciscanos no Mississippi
“Durante o período em questão, segundo um advogado no Alasca, houve no máximo 29 padres a servir ao mesmo tempo na diocese. Ao longo desses anos pelo menos 20 jesuítas foram credivelmente acusados e houve alturas, disse, em que oito padres acusados estavam a servir em simultâneo.”

Ou então tenha em conta estes números: A vila de Holy Cross, no Alasca, tem uma população de 200 pessoas. Entre 1930 e 1971 houve dezasseis padres, irmãos e voluntários jesuítas que trabalharam na Missão Holy Cross e que foram alvo de pelo menos uma acusação credível de abuso sexual. Dezasseis abusadores numa vila de cerca de 200 pessoas no espaço de 40 anos!

Talvez a faceta menos explorada da crise de abusos nos Estados Unidos seja a forma como afectou os católicos hispânicos. Tem sido referido que a resposta à crise de abusos tem sido bastante diferente – menos estridente – entre católicos de língua espanhola nos Estados Unidos do que nas partes anglófonas na Igreja. As razões destas diferentes reacções deveriam ser escrutinadas, mesmo que uma significativa minoria dos católicos americanos não fossem latinos.

Sejam quais forem as diferenças, ou as razões por detrás, vale a pena referir que os católicos hispânicos têm sido vítimas tanto de padres abusadores como de prelados à procura de um local para os esconder.

A arquidiocese de Chicago removeu um pároco o ano passado depois de ter sido detido por praticar actos sexuais com outro padre no interior de um carro estacionado. Embora essa história tenha sido muito divulgada, o que é menos conhecido é que o pároco em questão não foi o primeiro a ser removido dessa paróquia – uma missão de língua espanhola no que é de resto um subúrbio de classe média, em larga medida branca. O seu antecessor foi detido por pornografia infantil. O que é que uma missão de língua espanhola na terceira maior diocese do país precisa de fazer para ter um pastor que não seja depravado?

Depois há o caso da arquidiocese de Los Angeles, que sob o cardeal Roger Mahony enviou padres abusadores para paróquias de maioria hispânica, com grandes percentagens de imigrantes ilegais. Como devem calcular, paroquianos pobres que estão no país de forma ilegal têm menos tendência para recorrer às autoridades quando o sacerdote se porta mal.

Não é preciso considerar-se um campeão da justiça social para se sentir enojado com estas histórias.

Os abusos sexuais praticados por clero são uma praga, seja onde for e com quem aconteçam. Uma das verdades mais dolorosas de toda esta terrível confusão é que tanto predadores como prelados têm feito questão de concentrar os abusos nas periferias. Aqueles que lá vivem é que têm acarretado com o grosso do problema. O seu sofrimento também clama por justiça.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 29 de Agosto de 2019)

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segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Reentré traz novo núncio e mais cardeais

Novo núncio Ivo Scapolo
Volto depois de umas óptimas férias, e não volto de mãos a abanar! Trago-vos um novo núncio apostólico para começar e, como cereja em cima do bolo, um novo cardeal.

A nomeação de D. Tolentino de Mendonça foi saudada por muitos, desde o actual bispo do Funchal ao Presidente da República, e o próprio diz que quando soube só lhe ocorreu a sentença de Jesus: “Procura o último lugar”.


Mas porque há mais nestas nomeações do que apenas a nossa alegria por ver D. Tolentino no Colégio dos Cardeais, aqui fica a minha análise, com destaque para os temas do diálogo inter-religioso e das migrações, que saem fortalecidas.

Deixo-vos ainda com os dois artigos que publiquei do The Catholic Thing nas passadas duas semanas. A primeira trata da Oração e da Ascese, dois assuntos fundamentais para os católicos, e o outro fala de um interessantíssimo projecto que pretende dar a conhecer o pensamento e a obra de São Tomás de Aquino.

Diálogo inter-religioso e migrações: Temas cardeais para o Papa Francisco

Foi com grande alegria que acolhemos a notícia da elevação de D. José Tolentino Mendonça a cardeal. Já era esperado que assim fosse, mas a confirmação é sempre bem-vinda.

Curiosamente, D. José Tolentino será elevado no dia 5 de outubro, o que até lhe fica bem, uma vez que ele é (tragicamente) republicano.

Como é natural, a nomeação de D. Tolentino centrou as atenções dos portugueses, mas seria uma pena não perceber a relevância de muitas das restantes nomeações, que mostram claramente as prioridades deste Papa e deste pontificado.

Começo pelo diálogo inter-religioso. O Papa Francisco não só nomeou cardeal o espanhol Miguel Ángel Ayuso Guixot, presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso, como também o seu antecessor Michael Louis Fitzgerald, que chefiou o Conselho entre 2002 e 2006.

A nomeação de Fitzgerald é particularmente interessante. Em 2006 Bento XVI retirou-o do Conselho para o Diálogo Inter-religioso e nomeou-o núncio apostólico para o Egipto. Ora, na altura a decisão causou alguma confusão e não foi possível compreender se se tratava de uma despromoção, ou de uma tentativa de aproveitar as grandes qualidades do arcebispo num país que é crucial para as relações entre o Islão e o Cristianismo.  Pouco tempo depois da sua retirada o Papa fez o seu discurso de Ratisbona, que acabaria por danificar gravemente essas relações.

A decisão de o nomear cardeal agora, que já tem 82 anos, pode ser entendida, assim, como uma espécie de reabilitação, ou um tributo tardio a um homem que dedicou a vida a tentar construir pontes com o Islão, coisa que o Papa valoriza.

Para além destes dois especialistas em diálogo inter-religioso, o Papa Francisco também nomeia cardeais os arcebispos de dois países muito importantes para o mundo islâmico, Ignatius Suharyo Hardjoatmodjo, de Jacarta, Indonésia – o maior país muçulmano em termos demográficos. Trata-se apenas do terceiro cardeal da história da Indonésia, sendo que o primeiro já morreu e o segundo, seu antecessor em Jakarta, tem já 84 anos. O outro novo cardeal que vem do mundo islâmico é o arcebispo de Rabat, em Marrocos, Cristóbal López Romero.

Recorde-se que o mesmo Papa Francisco já nomeou cardeais do Burkina Faso (89% islâmica), da República Centro-Africana, onde os últimos anos têm sido marcados por conflitos entre muçulmanos e cristãos, da Malásia (61% muçulmanos, apenas 9% cristãos), Albânia, Mali (95% muçulmanos), Iraque e Paquistão.

É verdade que com estas nomeações o Papa está a respeitar a sua própria vontade expressa de dar importância às periferias, mas olhando para estas nomeações parece também evidente que está, por um lado, a encorajar e valorizar as comunidades cristãs nestes países, frequentemente vítimas de perseguição, mas também a criar uma rede de conselheiros e actores que podem, agora com maior autoridade, levar a cabo o diálogo com o Islão nestes países.

Pe. Michael Czerny
A outra questão é a valorização do problema dos refugiados. O Papa fez aqui uma nomeação curiosa, o padre canadiano Michael Czerny, que é subsecretário da secção para os refugiados do Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral. O prefeito deste dicastério é Peter Turkson, que já é cardeal, mas o secretário, o padre francês Bruno-Marie Duffé, não é, o que cria uma situação peculiar, mas deixa muito, muito clara a intenção do Papa de sublinhar a importância do trabalho desenvolvido por Czerny.

Repare-se que o jesuíta canadiano não é bispo. Ora isto não é inédito, mas normalmente os padres nomeados cardeais são mais velhos, não-eleitores ou muito perto de o serem, e muitos, sobretudo quando são jesuítas, pedem para não ser ordenados bispos. Não se sabe ainda se Czerny, que entretanto foi também nomeado secretário do sínodo dos bispos sobre a Amazónia, irá pedir esta dispensa, mas se o fizer, e se lhe for concedida, haverá o caso raro de um cardeal eleitor que não é bispo. Por exemplo, nos últimos conclaves não houve um único caso de participante que não fosse bispo.

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