quarta-feira, 29 de maio de 2019

Ruanda: Memória, Arrependimento, Reconciliação

Filip Mazurczak
Este ano assinalam-se 25 anos sobre o genocídio do Ruanda, um dos eventos mais horríveis de um dos séculos mais sangrentos da história. Ao longo de uma mera centena de dias os hútus naquela nação mataram até um milhão de tutsis enquanto o mundo se limitava a observar. Tristemente, alguns dos responsáveis eram católicos. Para que a reconciliação continue a avançar no Ruanda, convém reconhecer este facto desconfortável. Não nos devemos esquecer que a fé não foi causa do genocídio, mas serviu de inspiração para muitos actos de humanidade naquele inferno do Ruanda.

Há aqui várias lições a reter.

Em primeiro lugar, proporcionalmente, a aniquilação dos tutsis é comparável com os genocídios mais conhecidos do Século XX: a Shoah e o genocídio arménio. Durante a Segunda Guerra Mundial os nazis alemães assassinaram dois terços dos judeus na Europa; e entre 1915 e 1923 os nacionalistas Jovens Turcos exterminaram três em cada quatro Arménios no Império Otomano. Entre Abril e Julho de 1994 os hútus mataram 70% dos tutsis no Ruanda.

Apesar de terem usado sobretudo armas primitivas, como batões e catanas, os hútus foram mais eficientes que o Terceiro Reich ou o regime Otomano. Estes levaram vários anos a eliminar a maioria dos judeus europeus ou arménios otomanos, mas aos hútus bastaram três meses para matar uma proporção semelhante de tutsis.

Talvez a lição mais preocupante sobre a natureza humana a retirar do inferno do Ruanda seja o facto de não serem necessários meios sofisticados como Zyklon B ou fuzilamentos em massa em locais como Babi Yar para cometer homicídio em larga escala. Para isso bastam corações inflamados de ódio.

Para os católicos o genocídio do Ruanda é especialmente preocupante. De acordo com o censos de 2002, quase três em cada cinco ruandeses identificava-se como católico. E mais, para além de leigos também houve padres envolvidos no caos provocado pelos hútus.

Este facto já foi aproveitado por polémicas anticatólicas. No livro “Deus não é Grande”, do já falecido Christopher Hitchens, o genocídio do Ruanda é apresentado como mais um dos muitos exemplos dos males provocados pela Religião. Mas essa não é a verdade completa.

Tal como noutros casos de vergonhas praticadas por católicos, devemos reconhecer estes factos trágicos e não os minimizar. Em 2017 o Papa Francisco pediu perdão pelo papel dos padres neste genocídio. O Presidente do Ruanda, Paul Kagame, que é um tutsi e católico, chamou a esta declaração um “novo capítulo” no processo de cura.

No Catolicismo o reconhecimento dos nossos próprios pecados, o pedido de perdão e a penitência não só conduzem o pecador de volta a Deus, mas também pode ter consequências públicas. Em 1965, por exemplo, os bispos católicos da Polónia enviaram uma carta aos seus homólogos alemães, perdoando a nação alemã pela brutal ocupação nazi do seu país e pedindo eles próprios perdão. Apenas duas décadas depois de os alemães terem morto seis milhões dos seus concidadãos, muitos polacos acharam absurdo, e até obsceno, que os seus bispos achassem que tinham de pedir perdão por o que quer que seja.

Contudo, os bispos argumentaram que bastava que um polaco tivesse feito mal a um alemão, que isso já mereceria um pedido de perdão. A carta dos bispos lançou as bases para a reconciliação entre polacos e alemães e pouco depois o chanceler da Alemanha ocidental Willy Brandt reconheceu formalmente a fronteira do pós-guerra.

O bispo Célestine
Entre os promotores da carta estava o arcebispo Karol Wojtyła, de Cracóvia, que mais tarde, já na qualidade de Papa São João Paulo II, compreendeu o valor de arrependimento público – não humilhação, mas uma expressão genuína de arrependimento – por males passados.

A honestidade histórica, porém, requer que nos recordemos também de outras coisas. Por exemplo, o genocídio do Ruanda não foi motivado principalmente por paixão religiosa; não foi como os massacres da Guerra dos Trinta Anos. Foi, antes, motivado pelo terrível tribalismo que habita a nossa natureza humana decaída e que desperta em tempos de conflito.

Durante a Segunda Grande Guerra, o regime Ustashe da Croácia assassinou 400 mil pessoas, na maioria sérvios, mas também judeus e ciganos. Os ustashe apelavam ao catolicismo popular para incitar ao ódio aos sérvios ortodoxos; porém, as suas tácticas genocidas contradiziam claramente a mensagem universalista do Evangelho. Tal como a Ustashe, os hútus também apelaram por vezes a sentimentos religiosos por razões de conveniência política. Contudo, os padres que foram cúmplices destes crimes agiram contra a fé católica.

À medida que o Ruanda entrou numa espiral de guerra civil, muitos tutsis católicos também morreram; aos hútus não interessava a denominação, mas a animosidade étnica. E embora alguns padres tenham sido cúmplices do genocídio, outros foram fiéis ao Evangelho, tal como o padre hútu Célestin Hakizimana, agora bispo, que escondeu cerca de 2.000 tutsis em Kigali e subornou as autoridades para não assassinarem os que estavam à sua guarda.

O genocídio do Ruanda também foi oficialmente condenado pela Igreja Católica, ao mais alto nível. O Papa São João Paulo II, que sempre se interessou muito por África, foi o primeiro líder mundial a descrever as matanças como genocídio e condenou-as repetidamente, começando apenas dois dias depois de terem começado. Isto contrasta fortemente com as Nações Unidas e com os estados ocidentais, que tinham a capacidade militar para salvar centenas de milhares de pessoas, mas nada fizeram.

Já Shakespeare dizia que o diabo pode citar as escrituras em seu favor. Alguns dos assassinos em massa hútus de 1994 não citaram propriamente as escrituras, mas apelaram ao tribalismo feroz, mascarado de catolicismo cultural. Mas o facto de que houve pessoas da Igreja entre os autores do genocídio permanece um grande escândalo. O testemunho dos Papas recentes, bem como do bispo Célestin Hakizimana mostram, contudo, que mesmo depois destes escândalos históricos, a substância não adulterada da fé também pode desempenhar um papel fundamental em curar as feridas de sociedades problemáticas e em restaurar a solidariedade humana.


Filip Mazurczak contribui regularmente para o  Katolicki Miesięcznik “LIST”. Os seus textos já apareceram também no First ThingsThe European Conservative e Tygodnik Powszechny.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 22 de Maio de 2019 em The Catholic Thing)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



terça-feira, 28 de maio de 2019

Em Roma sê Romeno

Foram hoje divulgadas cartas privadas do cardeal McCarrick que lançam novas luzes sobre todo este escândalo, comprovando que o seu sucessor Donald Wuerl estaria por dentro das suspeitas de abusos e das restrições que lhe foram impostas pelo Vaticano.

O Papa Francisco visita a Roménia nos próximos dias. Hoje temos uma interessantíssima entrevista com Felix Lungu, da Ajuda à Igreja que Sofre, que explica a realidade da Igreja naquele país. Vale mesmo a pena ler.

Conheça aqui o Kelves e saiba o que acontece quando a solidariedade mobiliza toda uma comunidade escolar!

Chamo ainda a vossa atenção para uma conferência em Cascais subordinado ao tema: “A tradição ainda é o que era?”. O cartaz vai em anexo. Acontece no dia 30 de maio, às 21h30 e o orador é o padre jesuíta João Goulão.


segunda-feira, 27 de maio de 2019

Papa defende fetos, futebol e refugiados

Mais um ataque a um Igreja no Burkina Faso. Desta vez morreram quatro pessoas.

O Papa Francisco quer proteger o futebol da ditadura do dinheiro e hoje alertou para o perigo da indiferença, na sua mensagem para a Jornada Mundial dos Refugiados e dos Migrantes.

Durante o fim-de-semana o mesmo Francisco pediu aos médicos que ajudem a combater o aborto. A propósito deste tema, causou alguma polémica nas redes sociais um artigo de opinião de Henrique Raposo, defendendo a legalidade do aborto em casos de violação e incesto. Respondi-lhe hoje, de forma amigável, com este texto que vos convido a ler.

Alabama, Henrique Raposo e Legítima Defesa

Qual dos dois foi concebido por violação?
Causou alguma polémica um artigo de opinião publicado na Renascença por Henrique Raposo na passada semana, sobre a lei que recentemente proibiu o aborto, quase por completo, no Estado do Alabama, nos Estados Unidos.

Argumenta o Henrique que embora seja contra o aborto e a sua legalização, acha indispensável que haja exceções para casos de violação e de incesto, invocando para isto a noção de legítima defesa.

Gosto de ler os artigos do Henrique e penso que não estou só em admirar a forma honesta como ele tem descrito a caminhada religiosa e ideológica que tem feito ao longo dos últimos anos. Mas neste caso penso que comete alguns erros básicos de raciocínio, que devem ser confrontados.

Para começar, a analogia é muito fraca. Permitir o aborto por “legítima defesa” apenas faria sentido se considerássemos que o feto gerado é um agressor. Sem dúvida que existe um agressor em todos os casos de violação, e na maior parte dos casos de incesto, mas não é o bebé.

A questão do aborto é fraturante, e as discussões sobre ele tendem a tornar-se conversas de surdos. Mas na verdade o assunto é muito mais simples do que muitas vezes pensamos. O nascituro ou é um ser humano com dignidade e direitos, ou não é. Se acreditamos que é – e parece-me que o Henrique assim pensa – então basta pensarmos se o que propomos faria sentido se ele já fosse nascido. O Henrique aceitaria que uma mãe matasse, ou mandasse matar o seu filho recém-nascido, ou de dois anos, por ser parecido com o pai, violador? Claro que não.

Se, pelo contrário, acreditamos que o feto não é merecedor de qualquer direito e não tem dignidade humana, então é descartável.

A discussão centra-se então na ideia de quando é que o feto se torna um ser humano, com todos os direitos e dignidade inerentes. Sobre isso compreendo que existam posições diferentes, embora o defensor do aborto encontra-se na situação difícil de mostrar então precisamente quando é que se dá essa transformação mística. Por mais que não o queiram admitir, a embriologia e a lógica estão solidamente do lado dos pró-vida neste aspeto.

Logo, o aborto ou é uma coisa aceitável – nem se devia falar em mal-menor – ou não é. Qualquer posição intermédia, como dizer que é aceitável em casos em que o feto é deficiente, mas não quando é saudável; ou que é aceitável em casos de violação, mas não quando o bebé é desejado pode satisfazer a nossa vontade de não ofender sensibilidades, mas não têm ponta por onde se pegue em termos lógicos.

Neste sentido, a lei do Alabama é perfeitamente compreensível e os argumentos de Henrique Raposo não convencem quem pensa que a vida intrauterina tem tanto valor às 10 semanas como às 40, ou como aos quatro anos ou aos 18, seja quem for o progenitor, seja qual for a condição em que foi gerado. Não se trata de falta de sensibilidade pelo drama vivido pela mulher que, certamente, merece toda a nossa compaixão e ajuda. Posso, até, dizer que compreendo que uma mulher nessa situação aborte, ou queira abortar, sem ter de ceder que do ponto de vista racional não o devia fazer nem a sociedade tem a obrigação de a ajudar nesse propósito.

Desafio ao Supremo Tribunal
Já outra questão é a oportunidade política da lei do Alabama. Aqui devemos compreender que esta lei é um balão de ensaio. Vai inevitavelmente chegar ao Supremo Tribunal, criando assim a oportunidade de os juízes, agora com maioria conservadora, reverterem o famoso “Roe v. Wade” que na prática legalizou o aborto nos Estados Unidos a nível federal, podendo levar à proibição do aborto em muitos outros Estados americanos. A lei só entrará em efeito depois de passar esse obstáculo, e não é de todo certo que passe.

O problema é que estes tiros podem sair pela culatra. Já estamos a ver vários Estados a liberalizar as suas leis ao ponto do absurdo e esta semana a Câmara dos Representantes voltou a rejeitar, pela 49ª vez, uma lei que obrigaria um médico a fazer tudo para salvar a vida de um bebé que nasça vivo após uma tentativa de aborto.

Tendo em conta o estado de divisão que existe atualmente entre republicanos e democratas sobre esta questão, o tempo dirá se esta lei do Alabama faz mais bem do que mal.

Filipe d'Avillez

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Europa sem passado é Europa sem futuro

A Associação dos Juristas Católicos encoraja os eleitores a votar no domingo, mas deixa também recados aos partidos e críticas a uma Europa que, caso se esqueça de onde vem, não saberá para onde vai.


A reitora da Universidade Católica Portuguesa foi homenageada nos Estados Unidos e pede mais mulheres em posições de liderança.

O artigo desta semana do The Catholic Thing é muito belo, e fala de grande beleza. Randall Smith reflecte sobre como ter visto uma mulher a embalar o seu bebé na missa despertou nele pensamentos sobreos mistérios do amor divino e da encarnação. Leiam, mesmo!

A Beleza de uma Mãe na Missa

Randall Smith
Já vi as Montanhas Amarelas na China, e são muito belas. Já olhei através do Vale de Jackson Hole, Wyoming, ao cair da noite, para os picos nevados dos Grand Tetons, e são muito belos. Mas poucas coisas no mundo são tão belas como uma mãe a embalar suavemente o seu bebé durante a missa.

A beleza é uma coisa surpreendente. Aparece de forma inesperada. Olhamos e de repente somos atingidos por esta beleza inexplicável, algo inefável mas real, como quando se dobra uma curva nas montanhas e se dá com uma vista inesperada.

Tive essa experiência há dias na missa. Umas filas à frente uma mãe estava a embalar o seu filho de dois anos, para a frente e para trás, enquanto cantava baixinho o Agnus Dei. Cantava aquelas palavras e olhava-o nos olhos, como se estivesse a cantar para ele e para Deus ao mesmo tempo. No meio do que pode ser, mesmo na melhor das missas, a azáfama da liturgia – que oração? Que livro? De pé, sentados ou ajoelhados? – ali estava paz: uma mãe e o seu filho “um ponto fixo num mundo em movimento”.

Não me entendam mal; tenho perfeita noção de que este tipo de paz divina não é o estado mais comum quando os pais estão a lidar com os seus filhos pequenos. Não devemos pintar uma imagem demasiado romântica da mãe e do filho, como fazem algumas pinturas barrocas de Maria e do menino Jesus. Também não quero criticar em demasia essas pinturas, embora tende a preferir as representações mais antigas, é só que não quero dar uma imagem falsa do tipo de caos que a parentalidade costuma envolver.

Mas é precisamente por isso, ao que me parece, que achamos esses momentos de paz e calma partilhados entre mãe e filho tão confortantes e tão belos. No ponto fixo de um mundo em movimento, aí está o amor. O amor pode ser expressado de uma variedade potencialmente infinita de formas, mas quando o vemos, palpavelmente presente e inegável, são momentos de pura beleza que merecem ser saboreados.

Quando disse que há poucas coisas na vida tão belas como uma mãe a embalar suavemente o seu filho na missa, não queria estar a fazer uma comparação enviesada. Não é um concurso. Todas estas coisas belas foram criadas pelo amor. Mas entre as muitas coisas belas que encontramos no mundo se nos dermos ao trabalho de procurar – montanhas, praias, oceanos – só os seres humanos é que conseguem olhar de volta com amor para a face do seu Criador.

O que não nos deve deixar de encher de espanto em relação à parentalidade é que enquanto seres humanos é-nos permitido participar como cocriadores com Deus de uma forma especial. Outros animais procriam, mas quantos têm o privilégio de o fazer livremente, e não apenas como ato meramente instintivo ou impulso primário, mas de compreensão e amor?

Não é raro sentirmos o coração a amolecer quando vemos imagens de mães e seus filhos, mesmo quando se trata de outras espécies, seja uma cadela a amamentar as suas crias ou uma égua a encorajar o potro recém-nascido a dar os primeiros passos. É o milagre da vida nova.  
Mas as crianças humanas têm o privilégio de ir mais além. Podem olhar de volta para as suas mães com amor. E desta forma se preparam para olhar com amor para a face de Deus. Não os criamos para cantar como pássaros, mas para cantar com amor a Deus. Daí a beleza em ver uma mãe a cantar suavemente orações enquanto olha para os olhos do seu filho durante a missa.

O parto implica dor, tal como é um desafio constante criar filhos no meio do nosso mundo caótico em que o mal, seja interno ou externo, está constantemente à espreita. Mas quando todo esse barulho se acalma, o que vemos é um vislumbre do amor primordial que criou o universo e continua a mantê-lo intacto através das gerações.

Eu ensino os meus alunos sobre a Trindade e a comunhão eterna de amor partilhada entre Pai, Filho e Espírito Santo. O que eu faço é falar sobre a Trindade. Mas para a conhecer vão ter de a experimentar. E por isso a maior parte deles só perceberá do que fala a Igreja quando se unirem a outra pessoa naquela doação completa de si a que chamamos casamento, e através dessa união produzirem um terceiro, que é uma encarnação do seu dom mútuo de amor.

Claro que poderão já ter visto esta doação altruísta dos esposos um pelo outro e a um filho durante as suas vidas. Talvez até entendam a sua própria existência desta forma, vendo a sua vida como uma encarnação do amor mútuo dos seus pais, embora esta experiência se tenha vindo a tornar cada vez mais rara na nossa sociedade.

“O sacramento do matrimónio é mais largo que a família”, diz o grande teólogo ortodoxo Alexander Schmemann. “É o sacramento do amor divino, o mistério todo abrangente do próprio ser, e é por isso que diz respeito a toda a Igreja e – através da Igreja – a todo o mundo.” O pecado da humanidade não está apenas em ter desobedecido a Deus, mas no facto de já não ver “toda a sua vida como dependente do mundo inteiro, como um sacramento de comunhão com Deus”. Assim, a verdadeira tragédia humana, diz Schmemann, está em viver “uma vida não-eucarística num mundo não-eucarístico”.

A maternidade faz-nos lembrar a Encarnação e o facto de a nossa origem ser uma encarnação do amor de Deus, destinado a viver uma vida sacramental e eucarística num mundo sacramental e eucarístico. Devemos dar graças a Deus pelas mães. Deus poderia ter-nos gerado a partir de um casulo. Seria mais fácil para as mulheres, mas pior para o mundo.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 15 de Maio de 2019)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org


The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 21 de maio de 2019

A liberdade dos escravos

Por esta hora deve estar a terminar a conferência de Rémi Brague, na Universidade Católica. Tive o privilégio de o entrevistar ontem. Pode ler aqui a entrevista, em que nos explica porque é que a liberdade que tanto prezamos no ocidente é a dos escravos.

Também hoje temos uma conversa com o cardeal Tagle, que presidiu às celebrações de Fátima agora em Maio. O cardeal é uma figura em ascensão na Igreja, vale a pena conhecê-lo melhor.

O diretor do Serviço Jesuíta dos Refugiados, André Costa Jorge, diz que os partidos têm um dever cívico de dizer o que pensam sobre a questão das migrações. PS e PSD ainda não o fizeram.

O Vaticano quer “soluções eficazes” para o caso de Vincent Lambert, o doente que está no centro de uma batalha judicial que lhe pode custar a vida.


quarta-feira, 15 de maio de 2019

Acidente nos Açores e falta de verbas em Paris

Um acidente nos Açores causou a morte a dois fiéis numa procissão, na noite de ontem.

O Papa Francisco deu “boleia” a oito crianças refugiadas esta quarta-feira, em Roma.

Apesar de muitas promessas, até agora a Catedral de Notre Dame apenas recebeu 13,5 milhões de euros para a reconstrução.

Sabe quantos conventos existem em Lisboa? Então clique aqui.

O artigo desta quarta-feira do The Catholic Thing é sobre doação de órgãos. Há um debate entre médicos e especialistas em bioética sobre a questão da morte cerebral enquanto critério para a definição da morte. Neste artigo E. Christian Brugger explica os pormenores desta questão tão interessante.

Doação de Órgãos e Morte Cerebral

E. Christian Brugger
Nota: Recebemos de um leitor a seguinte pergunta, que nos pareceu merecer uma resposta cuidadosa por parte de um especialista em bioética.

Pergunta: A minha amiga enfermeira diz que os órgãos principais não podem ser doados a não ser que o dador esteja vivo, logo administra-se anestesia na altura em que são retirados. Se isto for correto, então o ato de recolher os órgãos provocaria a morte do dador, certo? Isto não é uma forma de eutanásia? Eu disse-lhe que a Igreja jamais aprovaria isto. Contudo, sempre ouvi dizer que a Igreja não só aprova como elogia a doação de órgãos. Podem esclarecer este assunto?

Se por órgãos principais a sua amiga quer dizer órgãos vitais, então o que ela diz é ambíguo. Os órgãos vitais são aqueles de que precisamos para permanecer vivos (como coração, um par de rins, um par de pulmões, fígado e cólon). A regra nos Estados Unidos, e na maioria dos outros países do mundo é o “dead donor rule” (DDR). Isto significa, ou pelo menos devia significar, que os órgãos vitais apenas podem ser recolhidos de dadores já mortos. Embora a oposição ao DDR tenha estado a crescer há mais de uma década (ver 123,4), a regra continua a prevalecer de forma universal na medicina de transplante.

O ensino moral católico sobre doação de órgãos também afirma o DDR (ver o Catecismo da Igreja Católica, #2296, 2301; Os parágrafos 15, 86 do Evangelium Vitae de João Paulo II e Ethical and Religious Directives for Health Care Services, 6thEd., 2018, nos. 29, 30, 62-64).

Ensina ainda que, como você diz, e bem, a doação de órgãos pode ser uma coisa boa. De facto, João Paulo II ensinou que, quando feito de forma eticamente aceitável, é um exemplo de “heroísmo do dia-a-dia”.

Logo, para melhor compreender a posição da Igreja é importante perceber bem o que significa “forma eticamente aceitável”.

Uma vez que a doação de órgãos vitais levaria alguém a sacrificar ou a prejudicar seriamente as funções corporais necessárias para a vida ou para uma saúde estável – isto é, põe em causa aquilo a que a teologia moral se refere como integridade funcional – não seria moralmente lícito, uma vez que ao escolhê-lo estaríamos a violar o dever que temos de cuidar da nossa própria vida corporal.

Mas também seria errado se prevíssemos que a doação de um órgão não-vital nos poderia levar a falhar em relação a um dever pré-existente. Por exemplo, se temos ao nosso cuidado uma criança deficiente e a doação de um órgão (como um único pulmão, por exemplo) tornaria essa tarefa mais difícil ou mesmo impossível, então não devemos doar o órgão a não ser que tenhamos a certeza moral de que a criança possa ser cuidada por outros. O contrário seria injusto para a criança.

Também seria moralmente condenável a doação de órgãos para transplante que envolvam o estabelecimento ou a transmissão de identidade pessoal (por exemplo, ovários, testículos ou cérebro); tal como é a doação por motivos moralmente triviais (por exemplo, a minha namorada sempre quis ter um olho azul, e eu tenho dois); por fim, a doação é inaceitável sem o consentimento livre do dador ou de um seu representante, ou caso existam formas acessíveis e menos prejudiciais (como o uso de órgãos bovinos) ou se a doação é motivada por recompensa económica. Em todas estas situações seria errado optar por doar órgãos.

No que diz respeito a dadores mortos, à partida qualquer órgão, incluindo órgãos que outrora eram vitais, pode ser recolhido, desde que se cumpram três condições: 1) se certifique que o dador está morto; isto deve ser feito por clínicos competentes, de acordo com critérios científicos responsáveis e aceites. Para evitar qualquer conflito de interesse, os médicos que determinam a morte não devem integrar as equipas de transplantes correspondentes. 2) o dador, ou um seu representante, devem dar o seu consentimento livre; e 3) a intenção por detrás da recolha dos órgãos deve ser boa (por exemplo, não se deve ter por objectivo o transplante de órgãos envolvidos na transmissão de identidade pessoal).

A questão da morte cerebral
Disse atrás que a doação de órgãos nos Estados Unidos é governada pelo DDR, e que quase todos concordam com este princípio.

Mas os comentários da sua amiga levantam uma questão importante no debate bioético, que está actualmente a ser debatido seriamente por especialistas cristãos.

A questão passa por determinar se indivíduos em morte cerebral, ventilados artificialmente, estão de facto mortos. Será que a morte neurológica é uma definição adequada da morte humana?

Para que os órgãos possam ser transplantados precisam de ser mantidos até ao momento em que são removidos. Logo, os corpos em morte cerebral são mantidos ligados a máquinas de respiração mecânica (ventiladores) que garantem que o sangue oxigenado chegue aos órgãos até que a equipa de transplante esteja pronta.

Durante anos ninguém questionou seriamente se corpos em morte cerebral podiam ser seres humanos vivos, partiam do princípio que sem o cérebro a funcionar, o corpo não conseguia sobreviver.

Mas em 2001 o chefe de neurologia do Centro Médico de UCLA, Alan Shewmon, um católico devoto, publicou investigação alarmante sobre corpos em morte cerebral ventilados. Ele demonstrou, de forma conclusiva, que há casos em que estes corpos são capazes de respirar (sem o auxílio de ventilação), mas de assimilar nutrição, sarar feridas, combater infeções responder ao stress, manter a homeostasia, crescer de forma proporcional e até gerar nascituros. Por outras palavras, comportavam-se tal como outros corpos humanos. 

Se aceitarmos a antropologia cristã mais básica, onde existe um corpo humano vivo, existe uma pessoa, por mais incapacitada que possa estar.

A investigação de Shewmon levou-o a concluir – e com ele vários notáveis cientistas e filósofos, incluindo católicos como Josef Seifart e Nicanor Austriaco – que alguns corpos em morte cerebral são seres humanos vivos que, erradamente dados como falecidos, são de facto mortos quando os seus órgãos são recolhidos para transplante. 

Com base nisto a minha conclusão é de que as provas levantam pelo menos sérias dúvidas e de que, perante tais dúvidas, temos obrigação moral de os tratar como se estivessem vivos, a não ser que as dúvidas sejam dissipadas.

Em breve realiza-se em Roma uma conferência patrocinada pela Academia João Paulo II para a Vida Humana e Família, precisamente sobre esta questão e Shewmon será um dos oradores.

Há centros e especialistas em bioética importantes nos Estados Unidos que discordam das conclusões de Shewmon. Infelizmente, contudo, alguns deles insistem que os que levantam dúvidas sérias sobre os critérios neurológicos são maus católicos. Baseiam-se no facto de João Paulo II ter dito, num discurso no ano 2000 que: “a cessação total irreversível de toda a actividade encefálica, se for aplicado de maneira escrupulosa, não parece contrastar os elementos essenciais duma sólida antropologia.”

Mas se, à luz de novas provas empíricas, questionamos um juízo provisório de um Papa, sobretudo quando esse juízo foi feito numa esfera – como é a medicina – sobre a qual ele não tem qualquer autoridade divinamente mandatada, isso não é certamente um ato de infidelidade.


E. Christian Brugger é professor de Teologia Moral no Seminário Regional de St. Vincent, na Flórida, onde vive com a sua mulher e cinco filhos. Foi reitor da Escola de Filosofia e Teologia da Universidade de Notre Dame Austrália, em Sidnei e é consultor teológico para a comissão de doutrina da Conferência Episcopal dos Estados Unidos. É autor do livro “TheIndissolubility of Marriage and the Council of Trent”.

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 7 de Maio de 2019 em The Catholic Thing)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com oconsentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 14 de maio de 2019

Bochechas sagradas e cardeais que dão luz

O Papa Francisco quer uma nova economia. Por isso, para não ficar apenas pelas palavras, convidou meio milhar de jovens para discutir o assunto.

Ontem houve uma sessão de homenagem à Aura Miguel, que recentemente completou 100 viagens com os Papas, desde 1987. Sabiam que a bochecha dela é praticamente uma relíquia do Papa João Paulo II? Saibam mais aqui.


Conheçam a história do Cardeal “eletricista” que devolveu a luz a 450 pessoas. Agora o Governo quer que ele pague a conta…

No próximo dia 21 de maio, terça-feira, realiza-se uma conferência na Universidade Católica do Prof. Rémi Brague. É daquelas que não vai querer perder… Basta dizer que é um dos vencedores do Prémio Ratzinger! Junto o cartaz, divulguem e apareçam.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Europa mais coesa tem menos medo

Monsenhor Duarte da Cunha é o entrevistado desta sexta-feira pela Renascença e pela Ecclesia. O tema é a Europa e o seu futuro, em mês de europeias. Só mais coesão social é que pode evitar que a Europa se sinta ameaçada pelas migrações, diz.

Por falar em migrações, o Papa Francisco doou 100 mil euros à Cáritas da Grécia para os apoiar.

Está a caminho de Fátima ou sabe de quem esteja? O Santuário mudou o local de acolhimento de peregrinos.

Vai decorrer um curso no Movimento de Defesa da Vida sobre “Sexualidade e Parentalidade Responsável”. Ainda há vagas. Se tem interesse nestes assuntos, seja pessoalmente, em casal ou por trabalhar na área da saúde, não deixe de se inscrever, porque vai valer a pena.


quinta-feira, 9 de maio de 2019

Asias há muitas, infelizmente

O Papa emitiu hoje um documento com novas orientações e normas – com força de lei canónica – para se lidar com casos de abusos. Os especialistas – até alguns críticos do Papa – parecem concordar que é um documento muito bom. Ainda bem!

Ontem tivemos a fabulosa notícia de que Asia Bibi já se encontra em segurança no Canadá. Foi quase uma década de sofrimento que para ela já acabou. Mas infelizmente o dela é apenas um de muitos casos que existem. Falei com dois paquistaneses cristãos que se encontram na Europa a tentar encontrar soluções para os jovens da sua comunidade poderem sair do país para estudar, porque mesmo nas universidades são vítimas de discriminação.

A Conferência Episcopal quer mais católicos a intervir para ajudar casais a superar as suas crises conjugais e a Cáritas quer tudo a votar nas europeias de dia 26!

Ontem publiquei mais um artigo do The Catholic Thing em português. Matthew Hanley sublinha algumas das contradições inerentes ao movimento que nos quer impor a fantasia de que se possa mudar de sexo e mostra como estamos já numa era em que dizer a verdade pode ser considerado crime.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Transgénero: Quando a verdade se torna punível por lei

Matthew Hanley
E se eu lhe dissesse que não existem bases científicas para definir o género com base em genética, anatomia ou órgãos genitais? Ficaria convencido, ou achava-me louco?

Porém, essa é a opinião expressa na revista “Nature”, encarada há muito tempo como uma publicação científica fiável. Agora, baniram a classificação de macho e fêmea, descrevendo-a como “uma ideia terrível que deve ser eliminada” uma vez que ameaça “desfazer décadas de progresso” da ideia de que o sexo e o género são apenas “construções sociais”. Poder-se-ia pensar que a “Nature” estaria preocupada em criar problemas de credibilidade, mas não têm de se preocupar, pois as mentiras colossais estão na ordem do dia. 

No que diz respeito à “discrepância entre o género e o sexo que consta da certidão de nascimento”, a “Nature” elogia a Academia Americana de Pediatria por aconselhar os médicos a “tratar as pessoas de acordo com o seu género escolhido, independentemente da aparência ou da genética”. Temos aqui os pediatras apostados na apologia do transgénero: sem dúvida uma marca de uma cultura que fez as suas pazes com o desprezo pelas crianças, pela ciência e pela natureza humana.

Entretanto a Associação Americana de Psicologia (APA) emitiu orientações avisando para o perigo de abraçar o conceito de “masculinidade tradicional”. Mas se nos fiarmos na APA, então porque é que as autoridades médicas haviam de encorajar uma mulher a tornar-se homem? Ao que parece a abordagem reinante é de levar as mulheres com perturbações a sujeitar-se a cirurgia de mudança de sexo – um acto de mutilação – para adquirir uma aparência externa pouco convincente, mas também de as encorajar, daí em diante, a desdenhar todos os traços prejudiciais associados com a masculinidade.

Há outra contradição que é frequentemente ignorada: se a transição de um sexo para outro é algo que devemos abraçar com tanto entusiasmo, como um bem a facilitar devido à nossa apreciação iluminada da “fluidez” de género, porque é que existem obstáculos a abordagens legítimas para ajudar pessoas a deixar a homossexualidade?

Embora o fenómeno seja ainda raro, tem havido um crescimento no número de casos de identificação transgénero em anos recentes – às vezes em grupo e aparentemente do nada. Tornar-se transgénero já não convida ao gozo mas até, nalguns casos, é uma forma de aumentar a popularidade entre os pares. Dizê-lo em nada menoriza o verdadeiro sofrimento que alguns adolescentes sentem, de forma aguda, mas que tendem a ultrapassar com o passar do tempo.

O senso comum sugere que o pico de casos de transgénero se deve ao Zeitgeist, contra a qual a classe médica, de forma particular, deve estar atenta. Em vez disso tornou-se cúmplice da sua emergência.

Dizemos a nós mesmos que vivemos num país livre. Ninguém está a “forçar” ninguém a promover a falsidade de que um homem se pode tornar uma mulher, ou vice-versa. Mas só porque não vivemos na China Maoísta, não significa que uma forma da sua Revolução Cultural não tenha vindo aqui parar.

Que o diga Anastasia Lin, que saiu da China aos 13 anos e agora vive no Canadá. Escrevendo recentemente no Wall Street Journal, ela aponta o dedo ao objetivo final das turbas politicamente corretas: “O objectivo não é persuadir ou debater; é humilhar o alvo e intimidar todos os outros. O objectivo final é destruir todo o pensamento independente.”

Esperemos apenas que todo o extremismo que vai explodindo ao nosso redor possa ajudar mais pessoas a compreender que o alvo neste caso, tal como com a revolução sexual em termos mais gerais, é o próprio Cristianismo, bem como a sua ordem social e moral. Isto significa, por definição, que é o homem em si que se encontra na mira, algo que muitos dos que adoptaram a pseudorreligião pós-cristã do “humanitarismo” parecem ignorar.

Lin explica que a geração dos seus pais na China “aprendeu a não dar nas vistas e a ter cuidado com o que diziam, mesmo aos amigos mais próximos, com medo de serem acusados de crime de pensamento”, lamentando assim aquilo que começa a acontecer por aqui também. Demasiados de nós, num sem número de profissões, sabem como essas palavras são verdadeiras.

A coação, em qualquer das suas formas, torna-se obrigatória sempre que se tenta impor uma mentira às massas. Os exemplos multiplicam-se diante de nós. Um professor na Arizona State University argumenta, no “American Journal of Bioethics”, que os pais não devem poder impeder os seus filhos de adquirir tratamentos para bloquear a puberdade.

Segundo o pensamento invertido tão típico do nosso tempo, é a negação destes “tratamentos” que constitui abuso infantil, e não o encorajamento das ilusões e a promoção de medidas agressivas que na maior parte das vezes são prejudiciais e, em sentido real, experimentais, uma vez que simplesmente não existe qualquer prova que justifique o seu uso.

Por agora, essa proposta não passa disso mesmo na América. Mas o Supremo Tribunal de British Columbia, no Canadá, decretou no mês passado que o pai de uma menina de 14 anos não pode impedir a sua tentativa quixotesca de se transformar num rapaz. Ela tem um direito antinatural a bloqueadores de puberdade. Mais, o pai foi avisado para ter cuidado com a língua: chamar menina à sua filha, ou usar pronomes femininos em referência a ela seria considerado “violência familiar”, pois a verdade é agora uma ofensa punível por lei.

E, como consequência lógica disso mesmo, desde então ele já foi declarado “culpado” desse “crime”.

À luz desta mostra de poder ameaçadora, não adianta nada apelar à razão. No final de contas estamos perante uma guerra de vontades. Mas uma tomada de posição contra a irracionalidade dos tiranos do género pode funcionar. Veja-se o que aconteceu com os muçulmanos no Reino Unido, que conseguiram retirar um currículo pró-LGBT das escolas dos seus filhos.

O facto de a turba LGBT ter conseguido derrubar todos os outros, mas ter recuado neste contexto, revela que a sua principal motivação é o desmantelar da sensibilidade cristã mais do que qualquer crença inflexível na ideologia do género. Veja-se bem quem venceu esta guerra de vontades.


Se ao menos a fé e a arte da persuasão estivessem mais na moda, talvez mais pessoas vissem que o abandono do Cristianismo e da natureza inata não beneficiam o homem. Pelo contrário, tendem para a ruína, como muitos descobrem depois de se deixarem levar pela maré do transgénero. 

Leia também:


Matthew Hanley é Investigador sénior no Centro Nacional de Bioética Católica e autor, juntamente com Jokin de Irala, de ‘Affirming Love, Avoiding AIDS: What Africa Can Teach the West’, que foi recentemente premiado como melhor livro pelo Catholic Press Association. As opiniões expressas são próprias, e não da NCBC.

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 2 de Maio de 2019 em The Catholic Thing)

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terça-feira, 7 de maio de 2019

Jean Vanier, Santo Subito!

Morreu Jean Vanier. Um dos homens que mais fez para chamar a atenção da dignidade inerente a todos, incluindo os deficientes. Santo subito!

Curiosamente, Vanier morreu no dia em que o Papa esteve na Macedónia, onde prestou homenagem à Santa Madre Teresa de Calcutá, outra mulher que tanto fez para dignificar os pobres.

Aconselho-vos a ler esta entrevista ao presidente da Associação dos Médicos Católicos, Pedro Afonso, que recorda que a fé é perfeitamente conciliável com a boa prática da medicina.

O bispo das Forças Armadas visitou as tropas portuguesas na República Centro-Africana, saiba o que estes lhe disseram, aqui.


segunda-feira, 6 de maio de 2019

A alegria do Perdão e o Deus das surpresas

O Papa Francisco na Bulgária
O Papa Francisco está na Bulgária, onde hoje visitou um campo de refugiados, deu primeira comunhão a um grupo de perto de 250 crianças e participou numa vigília de oração pela paz.

Ontem foi recebido pelo Patriarca da Igreja Ortodoxa local, pedindo que a “alegria do perdão” ajuda os cristãos a alcançar a unidade e celebrou missa, falando do “Deus das surpresas” como alternativa a um regresso ao passado.

O Sri Lanka vai recuperando lentamente dos terríveis ataques de Domingo de Páscoa. As igrejas continuam fechadas enquanto os cristãos rezam pela paz.

Os bispos portugueses decidiram de forma unânime criar estruturas de proteção de menores nas suas dioceses.

No mundo de hoje “censura” é quase um palavrão. Mas a verdade é que a sociedade censura uma variedade de ideias e conceitos que não considera admissíveis. Neste artigo do The Catholic Thing em português, David Warren defende o regresso a um tempo em que ideias como eutanásia e infanticídio não eram sequer discutidos, quanto mais praticados.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Sobre a Censura

David Warren
De vez em quando dizem-me que há coisas que devemos fazer, porque “toda a gente” o faz.

Ainda era novo quando fui exposto a este tipo de argumentação pela primeira vez, bem como ao seu contrário, que há coisas que não devemos fazer porque “ninguém” as faz. Na altura pareceu-me um argumento fraco e fiz uma nota mental para nunca o usar.
Mas na verdade é mais forte do que parece. Se a esmagadora maioria em qualquer sociedade fizesse exactamente como quer o resultado seria a anarquia. Anarquia mesmo, não aquela que nos é vendida por Hollywood. A vida valeria muito pouco e quem quisesse sobreviver até ao final do dia teria de andar fortemente armado.

Talvez seja por isso que Deus nos fez na maioria conformistas, por isso que o mundo está visivelmente ordenado e o homem seja capaz de discernir, mesmo que vagamente, o bem do mal, o belo do feio, etc.. Deus também nos dotou de liberdade e deu-nos as consequências das nossas escolhas.

O leitor poderá suspeitar que estou a preparar um argumento a favor da censura. Estou mesmo.

Faz parte da natureza de qualquer cultura, sociedade ou civilização (como preferir) introduzir sinais. Se focarmos a vista encontramo-los em todo o lado, mesmo nas estradas. Também temos leis, nem sempre em forma de sinais visíveis, mas disponíveis para inspeção pública. E temos ainda as leis não escritas.

Consideremos a lei “não cometerás homicídio”. Tem sido detalhada, com excepções, e os actos de homicídio podem ser julgados nos nossos tribunais, mas não inventámos propriamente a lei. Foi inscrita nos nossos corações; foi inscrita numa tábua e entregue a Moisés, muito antes de nascermos.

O código criminal existe apenas para aperfeiçoar esta “lei natural”; usamos advogados e legisladores para lhe dar a volta, caso se torne inconveniente. O aborto e a eutanásia, e tudo o que possa vir a seguir, estão agora entre as excpções permitidas.

A liberdade tornou-se a nossa palavra de ordem. Sermos livres das crianças, livres dos avós – sempre no pressuposto de que são indesejados – são agora os novos “bens” que o homem construiu. Sermos livres de outros constrangimentos, como ser homem ou mulher, rico ou pobre ou qualquer outra circunstância acidental do nosso ser, já fazem parte da lista de espera.

É verdade que há alguns “tradicionalistas” como eu que lamentam a destruição da ordem moral e por vezes mesmo os seus apoiantes têm golpes de consciência que precisam de ser suprimidos. Mas no geral a sociedade é “progressista”. Não gostamos de criar ondas.

Antigamente – refiro-me à história antiga, ou seja o tempo da minha infância – alinhávamos com as ideias herdadas e guardávamos os nossos pequenos homicídios para nós mesmos. Hoje colocamo-los no Facebook.

“E porque não?”

Uma família infeliz, ou Suicídio
de Octave Tassaert
Recentemente uma conhecida minha decidiu deixar-se matar. Tinha cancro; as perspetivas não eram boas. O seu caso chocou-me por duas razões em especial. Por um lado, era uma mulher corajosa, que estava a enfrentar a adversidade de forma brilhante. E segundo, ela era aquilo a que chamamos “conservadora” e já tinha sofrido na pele por ter várias opiniões “politicamente incorretas”. Até tinha tendências cristãs.

Mas de repente optou por um plano de fuga e rapidamente encontrou “apoio” entre os seus “amigos” que se tinham reunido à volta da cama de execução com sorrisos de encorajamento. Quando lhe perguntei em privado sobre esta “escolha” de vida e de morte o seu argumento foi, para todos os efeitos, “toda a gente o faz”.

O estigma deixou de existir. Os defensores de se matar os velhos e os doentes, até os jovens e depressivos, conseguiram derrubá-lo. Depois disso, derrubar a lei tornou-se fácil. E quando a lei foi alterada a menorização da vida humana já se tinha tornado um passo importante “em frente” e a maioria da sociedade já estava alinhada.

Em certo sentido “toda a gente o faz”. É conveniente. Claro que nem todos se deixam executar, alguns instintos humanos sobrevivem, mas este “toda a gente” gostaria de ter a “opção” caso se venha a encontrar numa posição de o desejar.

A dor não tem piada alguma. Admito isso. A ideia de que possa ter não só um sentido físico mas também um propósito moral, foi extinta. A ideia de que o suicídio é “auto-homocídio” é hoje vista como ridícula. As antigas leis que o proibiam não podiam ser cumpridas (a pessoa que se mata conseguiu escapar impune, desse ponto de vista). Só se podia punir quem “assistia”.

Muitas coisas que em tempos eram “impensáveis” afinal sempre foram pensáveis. O homicídio é um bom exemplo. O infanticídio é algo que já deve ter ocorrido a muitas mães, em certas fases da maternidade. Mas em vez disso tem-se um ataque de nervos, ou parte-se alguma coisa, ou brinca-se com a situação. Ninguém faria mesmo o que é “impensável”.

Era impensável, basicamente, porque as leis de Deus eram reforçadas pelas leis do Estado e da cultura. Não se ia por aí porque “ninguém vai por aí”. Excepto os que o fazem e em consequência se tornam infames.

Entre as travestias da Direita (deixemos a Esquerda em paz por momentos) está a ideia de que a censura é inimiga da liberdade. Os que se encontram deste lado argumentarão que todos têm direito à sua opinião, excepto os que gritam “Fogo!” numa sala de cinema. Quem discorda com alguma coisa que apresente argumentos, depois votamos.

Devíamos ter aprendido, nesta louca viagem desde os anos sessenta (ou desde o Jardim do Éden, se quisermos recuar até aí), que esta é uma perspetiva ingénua. Há coisas que devem permanecer tão “impensáveis” como sempre foram naqueles tempos opressivamente cristãos em que a dissensão era “censurada”.

A censura não tem nada de mal. A esquerda orgulha-se imenso daquilo que censura: racismo, sexismo, transfobia, seja o que for. Infelizmente, com as suas definições perversas, dão mau nome à censura.

A verdadeira questão não é saber se a censura é boa, é saber o que devemos censurar.


David Warren é o ex-director da revista Idler e é cronista no Ottowa Citizen. Tem uma larga experiência no próximo e extreme oriente. O seu blog pessoal chama-se Essays in Idelness.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 26 de Abril de 2019 em The Catholic Thing)

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