sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

FNO, é agora ou nunca

Hoje é o último dia para se inscrever no Faith’s Night Out. Saiba aqui porque o deve fazer e inscreva-se diretamente no site.

Notícia de perseguição aos cristãos na Nigéria, onde uma igreja foi incendiada por bandidos armados.

A Cáritas está sem mãos a medir para lidar com a crise provocada pela pandemia. Infelizmente a ajuda pode não chegar a todos.

Parabéns ao cardeal D. José Tolentino Mendonça, que venceu o prémio Universidade de Coimbra!

E não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing sobre o “Caminho sinodal” da Alemanha, cujo formato e conteúdo preocupa seriamente o padre Gerald Murray, que assina esta coluna.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

O Caminho Sinodal Cismático da Alemanha

Pe. Gerald E. Murray
Um esforço que só pode ser classificado como sendo de autodestruição da Igreja Católica na Alemanha – e mais além – está a ser levado a cabo pelos bispos do país, em conjunto com o Comité Central de Católicos Alemães, uma organização de leigos católicos, reconhecida oficialmente pela Igreja local. O vaticanista Sandro Magister chamou a atenção para o escândalo que constitui o chamado Caminho Sinodal, citando as recomendações, que melhor se podem descrever como exigências não-negociáveis, no documento fundacional divulgado recentemente sob o título “Poder e separação de poderes na Igreja – Participação comum e partilha na missão”.

O Caminho Sinodal Alemão (Der Synodale Weg) tem por objetivo subtrair o poder, autoridade e controlo ao Papa e aos bispos e entregá-lo a um laicado radical e clérigos e religiosos aliados. Tal deve acontecer através de uma proposta de um “fórum sinodal também na Igreja universal, uma assembleia da Igreja universal, um novo concílio em que os crentes dentro e fora do ministério ordenado deliberam e decidem em conjunto sobre questões de teologia e cuidados pastorais, bem como sobre a constituição e estrutura da Igreja”.

Nesta assembleia revolucionária os pastores já não seriam guias do rebanho, mas sim mais um bloco eleitoral a par do laicado, presumivelmente mais numeroso, que em todo o caso teriam escolhido os seus bispos uma vez que “a governação deve sempre ser codeterminada pelos governados, pelo que uma proposta importante é de que os decisores eclesiásticos devem também ser eleitos e sujeitos a eleição regular, em que os poderes que lhes são confiados possam ser confirmados ou delegados noutrem”.

De facto, “o objetivo é garantir a partilha de responsabilidade e participação de todos os fiéis tanto nos processos deliberativo como decisório”. Para o alcançar torna-se ainda necessário “reajustar a estrutura constitucional da Igreja para fortalecer os direitos dos fiéis na governação da Igreja”.

Se alguém contrapor que Cristo, o pastor-mor, é que atribui a autoridade aos apóstolos e seus sucessores, isso, ao que parece, é um conceito ultrapassado. “Os fiéis costumam aceitá-los como autoridades cujos juízos e decisões não podem ser questionados, como ‘pastores’ em virtude de uma legitimidade divina, a quem devem obedecer como ‘ovelhas’. Estes modelos foram ultrapassados pelo tempo, e bem, porque não eram teologicamente bem fundamentados”.

Dessa forma, a natureza hierárquica da Igreja é descartada como obsoleta e injustificada.

A autoridade episcopal e papal são rejeitadas de forma clara: “Ninguém tem a competência para decidir por si só sobre o conteúdo da fé e os princípios da moralidade; ninguém tem o direito de interpretar os ensinamentos da fé e da moral com a intenção de exortar os outros a ações que só servem os seus interesses ou correspondem às suas ideias, mas não às convicções dos outros”.

Será que as “convicções” se tornaram agora a norma das crenças e do comportamento cristão? Absolutamente: “A pluralidade de estilos de vida, tradições de piedade e posições teológicas no seio da Igreja não é uma ameaça, mas um bem que aprofunda a unidade viva da Igreja. ‘Não julgues, para não serdes julgado’. Mt. 7,1”.

Tudo isto encontra-se num documento cheio de juízos negativos sobre doutrinas católicas “teologicamente mal fundamentadas” e que evoca “estudos” que afirmam que a Igreja tem alienado pessoas através de “estruturas de poder que são vistas como retrógradas ou datadas… especialmente no campo da justiça de género e na avaliação de orientações sexuais ‘queer’, bem como em lidar com falhanços e novos começos (por exemplo casamento depois do divórcio).”

A responsabilização perante a Igreja por ignorar ou negar os ensinamentos do Evangelho passa agora a ser proibida porque, por incrível que pareça, isso “contradiz o Evangelho”: “O facto de haver pessoas na Igreja que temem ser punidas por comportamentos que não ‘encaixam no sistema’ contradiz o Evangelho. A denúncia é um mal que deve ser combatido de forma firme. A comunicação dos crentes tanto dentro como fora da Igreja não deve ser monitorizada nem criticada por detentores de cargos na Igreja”.


De facto, “uma forma de lidar com a complexidade que seja atenciosa e sensível à ambiguidade pode ser vista como um sinal básico de contemporaneidade intelectual – e também abrange a teologia contemporânea. Para a teologia também não existe uma perspetiva central, uma verdade única sobre o mundo religioso, moral e político, e nenhuma forma de pensamento que possa reclamar a autoridade definitiva. Também na Igreja os pontos de vista e estilos de vida diferentes podem competir uns com os outros mesmo nas convicções centrais. Sim, podem ao mesmo tempo reclamar teologicamente a verdade, a correcção, compreensibilidade e honestidade, ainda que se contradigam nas suas afirmações e na sua linguagem”.  

A mesma atitude de “viva e deixe viver” não se aplica, contudo, às decisões postas a votação na assembleia do Caminho Sinodal: “esperamos que as recomendações e as decisões adotadas pela maioria sejam também apoiadas por aqueles que votaram de forma diferente. Esperamos que a implementação das decisões seja examinada de forma rigorosa e transparente por todos. Esperamos que todos ajudem a promover a capacidade de ação da assembleia sinodal”.

Por isso vemos que os ensinamentos constantes e universais da Igreja podem e devem ser alteradas por maioria, permitindo, por exemplo, a ordenação de mulheres para o diaconado, sacerdócio e episcopado. Os participantes do Caminho Sinodal não têm de “apoiar” nem “promover” nada que rejeitem do Depósito da Fé, mas aqueles que votarem contra as inovações destrutivas são instruídos a “apoiar” e “promover” aquilo que rejeitaram, em consciência, como sendo ofensivo para a Fé.

Este mandato coercivo de “obedecer, senão” é revelador da natureza de todo este processo: um esforço calculado de derrubar o catolicismo em nome da conformidade com o espírito da nossa era de descrença, um espírito narcisistamente apostado em pôr as mãos em todo o poder na Igreja para poder redefinir a realidade e reescrever a revelação, promovendo a licença e suprimindo todas as recordações da lei de Deus. Esta subversão clara tem de ser travada já, antes de prejudicar ainda mais a Igreja.

Roma tem de intervir – e rápido.


O padre Gerald E. Murray, J.C.D. é pastor da Holy Family Church, em Nova Iorque, e especializado em direito canónico.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2021)

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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Já se inscreveram no Faith's Night Out?

Antes de mais, já se inscreveu no Faith’s Night Out? É já no sábado e vai valer muito a pena. Tem toda a informação aqui.

O bispo emérito de Pemba diz que os últimos anos à frente da diocese moçambicana foram “uma cruz”.

O Papa continua apostado em visitar o Iraque. Entre o coronavírus e o terrorismo é um risco, e ele sabe-o perfeitamente.

Teremos missas presenciais até à Páscoa? Os bispos esperam poder emitir orientações nas próximas duas semanas.

O Papa visitou durante o fim-de-semana uma sobrevivente do Holocausto. Mais do que uma conversa, marca a evolução incrível das relações entre a Igreja e o Judaísmo nas últimas décadas.

Não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing, sobre a sinodalidade, um aspecto crucial da organização eclesial.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

FNO voltou e mensagens de Quaresma

Começo com excelentes notícias! O Faith’s Night Out está de volta, apesar da pandemia. Este ano vai ser integralmente online, mas vai valer tanto a pena como sempre. Entre os oradores têm o bispo D. Rui Valério, o médico e deputado Ricardo Baptista Leite e a maestrina Joana Carneiro. Está tudo explicado aqui. Inscrições aqui.

Começou a Quaresma. Os bispos, como sempre, publicaram as suas respetivas mensagens e divulgaram os – destinos das renúncias quaresmais. Tudo aqui, com links para notícias sobre cada diocese portuguesa.

Aqui podem ler sobre a mensagem do Papa para esta época que antecede a Páscoa.

Realiza-se no sábado um interessante webinar sobre “A Contemplação na Justiça Social”. É no sábado, tem duração de duas horas e podem encontrar toda a informação aqui.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing. Russell Shaw fala sobre sinodalidade, as suas vantagens e os seus perigos e como tudo isto interessa para o futuro próximo da Igreja Católica.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Acerca da “Sinodalidade”

Russell Shaw
O Sínodo dos Bispos reunirá no próximo mês de outubro no Vaticano para discutir como deve ser uma Igreja sinodal. É verdade que um sínodo sobre sínodos pode parecer, à primeira vista, uma coisa dolorosamente aborrecida, mas os bispos estarão a discutir um assunto com enormes implicações para o futuro do Catolicismo.

Por isso, antes de avançarmos demasiado longe pelo caminho que tem sido promovido recentemente pelos líderes da Igreja na Alemanha, faríamos bem em questionar se a sinodalidade é, como o Papa acredita, aquilo de que a Igreja mais precisa neste momento, ou se a emenda será pior que o soneto. Por agora, pelo menos, a resposta mais sincera é: depende.

A palavra “sínodo” vem de dois termos gregos: “sun” (com) e “hodos” (caminho). Uma igreja sinodal é aquela que se conduz de forma participativa, com base na apreciação da sua própria natureza enquanto comunhão de crentes. A Comissão Teológica Internacional diz que a sinodalidade remonta ao chamado Concílio de Jerusalém, descrito nos Actos dos Apóstolos, em que os “apóstolos e anciãos” da igreja de Jerusalém discutiu o que se devia fazer em relação aos convertidos gentios.

Nos séculos que, entretanto, passaram, houve vários sínodos regionais e diocesanos. Os sínodos são importantes na eclesiologia do Cristianismo Oriental e o Concílio de Trento decretou que se realizassem sínodos diocesanos anualmente e sínodos provinciais de três em três anos para implementar os seus decretos. Pouco depois de ser eleito, o Papa João XXIII anunciou que os seus três grandes projetos seriam um concílio ecuménico, a revisão do Código de Direito Canónico e um sínodo para a Diocese de Roma.

Todavia, o modelo operacional para a Igreja nos tempos modernos não tem sido a sinodalidade, mas sim a centralização da autoridade: no Papa para a Igreja Universal, nos bispos diocesanos para as Igrejas locais. No que diz respeito ao papado a palavra definitiva está contida na Constituição dogmática “Pastor Aeternus”, sobre a primazia papal e a infalibilidade, que declara que a jurisdição do Papa é universal, ordinária e imediata. Contudo, até a “Paspr Aerternus” admite que a primazia papal está “longe de ser um impedimento” ao exercício pelos bispos da autoridade que lhes compete. 

O Concílio Vaticano II repetiu o ensinamento do Vaticano I sobre a primazia papal, mas também sublinhou que a autoridade dos bispos não lhes é delegada pelo Bispo de Roma, mas vem directamente de Cristo. O Concílio também enuncia o princípio da colegialidade episcopal.


O Vaticano II não fala nem de sínodos nem, propriamente, de sinodalidade. Mas a Comissão Teológica Internacional (num documento sobre sinodalidade publicado em 2018) conclui que o Concílio preparou o terreno ao apresentar a Igreja enquanto Povo de Deus e encorajou a sinodalidade com o seu decreto sobre bispos, indicando aos ordinários o estabelecimento de senados ou conselhos de padres e recomendando a criação de conselhos pastorais com membros leigos.

Quando o Concílio se aproximava do fim, o Papa São Paulo VI anunciou a criação de um Sínodo dos Bispos permanente para a Igreja universal, mas até agora essas assembleias têm tido resultados mistos. No seu livro “Things Worth Dying For”, a publicar em breve, o arcebispo Charles Chaput lamenta que “em vez de serem ocasiões para trocas sinceras de ideias”, as duas assembleias sinodais em que participou, em 2015 e 2018, sofreram de “manipulações… exercícios de poder em vez de esforços para chegar a uma posição honestamente comum”.

Escrevendo o ano passado, o cardeal Gerhard Muller, antigo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, levantou uma questão que o sínodo do próximo ano deve sublinhar. A sinodalidade, escreveu, pode ser de dois tipos: a sinodalidade dos bispos enquanto mestres e pastores e a sinodalidade da comunidade cristã, que pode ajudar os decisores, mas não deve infringir a sua autoridade.

O que nos leva à experiência de sindalidade na Alemanha, que ameaça tornar-se (se é que ainda não é) uma sinodalidade descarrilada.

As igrejas cristãs na Alemanha têm perdido milhares de membros todos os anos, há anos. Só em 2019 a população católica caiu em cerca de 273 mil pessoas. Com este pano de fundo, os bispos têm estado a seguir um projeto de “reforma” em conjunto com um grupo de leigos chamado o Caminho Sinodal que tem como enfoque questões como o celibato sacerdotal, a moral sexual, questões LGBTQ+ e o papel das mulheres.

Numa entrevista feita o ano passado a uma revista católica alemã, o bispo Georg Batzing, de Limburg, presidente da Conferência Episcopal alemã, reconheceu as críticas feitas “a nós alemães e à nossa forma de fazer as coisas”, mas insistiu que ele e os colegas tinham de estar na linha da frente para procurar formas de “prevenir que a distância entre o Evangelho e a respetiva cultura se torne ainda maior”.

É evidente que este é o tipo de pensamento que tem acompanhado e, pode-se argumentar, acelerado, a queda precipitosa do protestantismo liberal durante anos.

Na melhor das hipóteses, por isso, o modelo sinodal é aquilo a que um autor chama “andar a todo o vapor”. A Comissão Teológica Internacional diz que é “o modus vivendi et operandi específico da Igreja” enquanto comunidade de fiéis cujos membros “caminham juntos, reúnem-se em assembleia e tomam parte ativa na missão evangelizadora”. Mas a comissão também lança um aviso: “O perigo de cisma está sempre à espreita, e não deve ser ignorado”.

Então a sinodalidade é um remédio ou uma ameaça? Na verdade, pode não ser nem uma coisa nem outra, depende de quem está envolvido no processo, como compreendem o seu papel e se demonstram muito ou pouco respeito pela tradição católica.

Se vamos agora pelo caminho sinodal, que seja com esperança cautelosa e cautela esperançosa.


Russell Shaw é autor de Papal Primacy in the Third Millennium (2000). O seu mais recente livro é American Church: The Remarkable Rise, Meteoric Fall, and Uncertain Future of Catholicism in America (2013).

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 10 fevereiro de 2021)

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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

D. Luiz Fernando transferido de Moçambique por ameaças?

O Papa transferiu esta quinta-feira o bispo de Pemba, em Moçambique, para oBrasil. A notícia foi inesperada e causa alguma estranheza. Consegui falar com D. Luiz esta tarde, que confirmou que a decisão pode ter sido tomada a pensar na sua integridade física, pois tem estado a receber ameaças em Moçambique.

A Rádio Vaticano faz 90 anos esta sexta-feira. Tudo começou com a voz de Marconi e atualmente até se faz ouvir nas prisões dos jihadistas.

Um município na Alemanha proibiu um grupo pró-vida de fazer uma vigília de oração silenciosa perto de um centro de aconselhamento para o aborto. É, infelizmente, uma tendência crescente.

Quinta-feira foi o dia mundial do Doente. A conferência episcopal mandou celebrar uma missa em Fátima e D. António Marto recordou que “uma sociedade é tanto mais humana quanto melhor cuida dos seus membros mais frágeis”.

O artigo desta semana do The Catholic Thing em português é de Stephen P. White e fala de misericórdia. «Jesus repreendeu os fariseus não por eles terem identificado (corretamente) o pecado de adultério da mulher, mas porque não conseguiam conceber que o verdadeiro remédio para o seu pecado não era o juízo à luz da lei, mas a misericórdia de Deus. A ordem de Jesus para a mulher apanhada em adultério foi: “Vai e não tornes a pecar”. O seu pecado não é ignorado nem tolerado, como muitos hoje tendem a fazer; é reconhecido e perdoado.»

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Misericórdia sim, mas por quê?

Stephen P. White
A proclamação do Evangelho é alcançada através do testemunho pessoal. Nós que conhecemos o Senhor Ressuscitado, que experimentámos a misericórdia de Deus, que conhecemos a liberdade que vem de viver na verdade, proclamamos ao mundo essa mesma Boa Nova através das nossas palavras e dos nossos gestos.

Excepto quando não o fazemos.

Quando pecamos, proclamamos algo completamente diferente. Não proclamamos a Boa Nova quando proclamamos através das palavras e dos gestos aquilo que não é verdade. Proclamamos um anti-Evangelho, um falso Evangelho de indiferença e conforto, de domínio e licença, egoísmo e prazer, orgulho e juízo. Proclamamos um evangelho falso de autossuficiência e de poder. Felizmente, Deus nunca se cansa de perdoar. A porta da misericórdia está sempre aberta para nós.

Se forem como eu é fácil olhar à volta para esta nação, para este mundo, para esta Igreja e ver exemplos destes falsos evangelhos. É fácil pensar noutros católicos – alguns dos quais nos mais altos cargos de influência civil e religiosa – que proclamam essas mentiras e de católicos que auxiliam e protegem a proclamação dessas falsidades, como se a misericórdia implicasse a negação da verdade.

E ainda, se forem como eu, é substancialmente mais difícil – e muito mais perturbador – ver estes pecados na sua própria vida. O pecado cega-nos para o pecado. O pecado, como costuma dizer um bom amigo, “estupidifica-nos”.

E então é fácil tornarmo-nos como os fariseus do Capítulo 8 do Evangelho de João que apresentaram a Jesus uma mulher surpreendida em adultério. Estamos ansiosos para apresentar os pecados dos outros para condenação, mas não vemos os nossos, a nossa própria necessidade de misericórdia.

Há uns anos o Papa Francisco refletiu sobre esta passagem numa homilia:

Penso que também nós somos as pessoas que, por um lado, querem escutar Jesus, mas por outro lado, por vezes, gostamos de encontrar um pau com o qual podemos bater nos outros, condená-los. E Jesus tem para nós esta mensagem: misericórdia. Penso – e digo-o com humildade – que esta é a mensagem mais poderosa do Senhor: misericórdia.

A misericórdia está no cerne do Evangelho. É, de certa forma, a Boa Nova que recebemos e que temos de proclamar. Mas surge uma questão: Misericórdia de quê? Do sofrimento e da morte? De sentimentos de culpa e de vergonha? De uma consciência perturbada? A resposta para todas estas questões é “sim”, mas precisamente na medida em que a misericórdia de Deus é uma misericórdia pelo pecado e pelo erro. 

Jesus repreendeu os fariseus não por eles terem identificado (corretamente) o pecado de adultério da mulher, mas porque não conseguiam conceber que o verdadeiro remédio para o seu pecado não era o juízo à luz da lei, mas a misericórdia de Deus. A ordem de Jesus para a mulher apanhada em adultério foi: “Vai e não tornes a pecar”. O seu pecado não é ignorado nem tolerado, como muitos hoje tendem a fazer; é reconhecido e perdoado.


Já os fariseus merecem um tratamento mais duro, não porque Jesus é forreta na sua misericórdia, mas precisamente porque não conseguem ver a verdade do seu próprio pecado. Nem o Senhor é indulgente para com a sua cegueira. Ele exibe os seus pecados diante deles, tal como o profeta Natã fez com David, para que possam ver a dolorosa verdade e arrepender-se. Ao contrário de David, que se arrependeu, os fariseus não se deixaram mover.

Vós tendes por pai ao diabo e quereis satisfazer os desejos de vosso pai; ele foi homicida desde o princípio e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele; quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira.

Mas porque vos digo a verdade, não me credes (Jo. 8,44-45)

Vemos então que as palavras duras de Jesus para os fariseus e para a multidão são palavras de misericórdia. São uma oferta de verdadeira liberdade: “Se permanecerem na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. E depois, “em verdade, em verdade vos digo, todo aquele que comete pecado é escravo do pecado”.

Que misericórdia é essa que promove em nós a cegueira para com os nossos próprios pecados? Que misericórdia nos deixa escravos do pecado? Que é da misericórdia sem verdade?

Infelizmente, vemos a resposta a estas perguntas quase todos os dias.

Pode-se dizer que o diálogo de Jesus com os fariseus é uma forma de acompanhamento, um modelo para o “diálogo” com um certo tipo de interlocutor: como um Bom Pastor acompanha os poderosos, os obstinados e os presunçosos. E qual foi o resultado deste modelo de acompanhamento e de diálogo? “Pegaram em pedras para lhe lançar”.

Os fariseus acabaram por conseguir mandar matar Jesus, acusando-o falsamente de estar a perturbar a ordem pública. Nas palavras da multidão para Pilatos: “Se o libertardes, não és amigo de César. Todo o que se faz Rei está contra César”.

Mas falar daquela forma com os fariseus teve outro efeito, por mais que Jesus soubesse do preço a pagar.

Quando levantardes o Filho do Homem, então, conhecereis quem eu sou e que nada faço por mim mesmo; mas falo como o Pai me ensinou. E aquele que me enviou está comigo; o Pai não me tem deixado só, porque eu faço sempre o que lhe agrada.

Dizendo ele essas coisas, muitos creram nele. (João 8, 28-30)

As palavras dirigidas por Jesus aos fariseus não eram só para eles, mas para todos os que estavam a ver e a escutar: na altura e hoje. Ele veio para “dar testemunho da verdade”, sabendo que isso lhe custaria a vida, para que outros acreditassem.

A proclamação do Evangelho é alcançada através do testemunho pessoal. Quem tem ouvidos, que oiça.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing no Domingo, 7 de Fevereiro de 2021)

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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Contra o tráfico de pessoas, pela liberdade de expressão

Hoje é dia de Santa Josefina Bakhita e dia mundial contra o tráfico humano. O Papa assinalou a data participando num evento da rede Talitha Kum e pediu “uma economia sem tráfico de pessoas”.

O bispo do Porto escreveu uma carta aos doentes em que sublinha que não há pessoas importantes e outras descartáveis.

Francisco mantém a sua intenção de visitar o Iraque no início de março, apesar da pandemia. A viagem terá uma série de encontros importantes, incluindo com o Ali Sistani, o líder xiita do Iraque, com os líderes curdos e com refugiados. Isto, claro, sem esquecer os líderes cristãos da região.

O Papa nomeou uma freira como subsecretária do sínodo dos bispos. Pode parecer uma coisa insignificante, mas a verdade é que nessa qualidade ela tem direito a voto no sínodo, o que nunca se sucedeu com uma mulher.

Termino com um desafio. Realiza-se amanhã uma conferência que promete ser interessante sobre a liberdade de expressão e o discurso de ódio. Eu serei um dos moderadores, o orador é o especialista em direito Miguel Raimundo. Será online, claro, e os dados de acesso à reunião estão na imagem deste post.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Dificuldade e drama em Fátima e fraternidade sinfónica

Dez professores de Direito, incluindo catedráticos e “pais da Constituição” deram a cara para o facto de a lei da eutanásia aprovada no Parlamento ser inconstitucional.

Difícil e dramático” é como o Santuário de Fátima descreve o ano de 2020, que assistiu a um decréscimo grande de receitas devido às medidas Covid.

O Papa participou esta quinta feira no primeiro Dia da Fraternidade e decretou que “ou somos irmãos ou nos destruímos uns aos outros”. A fraternidade, diz ainda o Papa, é sinfónica.

A Igreja Católica de Angola alerta para um “grave massacre” que ocorreu no final de janeiro. As vítimas seriam membros do Movimento do Protectorado Português de Lunda Tchokwe. Eu também desconhecia, mas aqui podem aprender mais.

Certamente já ouviram falar do livro “Quo Vadis”. O artigo desta semana do The Catholic Thing em português parte dessa obra primada literatura para retirar lições para os cristãos de hoje.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Quo Vadis? - Sempre uma boa pergunta

Michael Pakaluk
Por acaso peguei no romance “Quo Vadis” de Henryk Sienkewicz na semana passada quando procurava um livro para ler por divertimento (como estamos todos a precisar desse tipo de leitura por estes dias!)

Claro que não foi mesmo por acaso. Pedi inspiração ao meu anjo da guarda, como costumo fazer, e sabemos que nada acontece por acaso, tudo é guiado pela divina providência. Por isso pensei em escrever algo sobre este livro providencial.

Admito que o escolhi algo contrariado, por várias razões. Já vendeu dezenas de milhões de exemplares, inspirou filmes e os meus filhos tiveram de o ler para a escola. Alguns poderão pensar que estas são todas boas razões para o ler, mas pessoalmente tendo a andar em sentido contrário ao comum e óbvio. Talvez vocês também não se sintam especialmente atraídos a este livro por outras razões.

Mesmo depois de o escolher precisei de mais um bom par de razões para começar a ler. E encontrei-os: “Qualquer livro que não tenhas lido é igual a um livro acabado de publicar” (Samuel Johnson) e “enquanto neto de camponeses de uma aldeia nos arredores de Varsóvia, devias aproveitar todas as oportunidades para aprender mais sobre coisas polacas”.

Sienkewicz foi Nobel da Literatura e autor de uma grande trilogia de romances históricos polacos. Mas o “Quo Vadis”, como devem saber, é sobre Roma nos tempos de Nero. Conta a história da vasta e clandestina conversão ao Cristianismo, pela perspetiva dos pagãos poderosos e decadentes que dominavam a cidade.

Para escrever o livro o autor investigou a fundo a Roma antiga, até ao mais ínfimo detalhe da vida do dia-a-dia. Com um o olhar atento de um autor, conjuga todos estes detalhes na sua narrativa de forma a que ao mesmo tempo que conta uma boa história o livro também constitui uma boa lição histórica sobre Roma. É uma boa recomendação para quem esteja a planear uma peregrinação à cidade eterna, porque enche as ruínas de vida.

Acima de tudo, pode-se recomendar a cristãos no Ocidente que sentem que existe uma crescente força ideológica pós-cristã que ameaça oprimir-nos e perseguir-nos. Não é que o livro seja grande consolo nesse sentido. Sim, é verdade que Nero se vestiu de mulher para casar com um homem, Pitágoras, numa grande cerimónia pública (algo que Sienkewicz não deixa de referir). Mas por mais que sejam corruptos, os ideólogos da nossa própria Grande Babilónia não são Nero, ainda.

O que quero dizer é que o livro oferece uma imagem dos primeiros cristãos, que faríamos bem em tentar imitar. Permitam-me chamar-vos a atenção para três aspetos.

Em primeiro lugar temos a paixão dos primeiros cristãos. Tornar-se cristão na era de Nero era apaixonar-se completamente por Cristo ao ponto de se identificar com ele e preferir morrer “com ele” a viver fora dos seus mandamentos. Sienkewicz transmite esta paixão de forma criativa, fazendo do romance entre um patrício romano, Vinícius, e uma convertida ao Cristianismo, Lígia, a trama central do romance.

Como é que se transmite como era o amor destes primeiros cristãos por Cristo? Através da história de um homem que daria o mundo inteiro para conseguir uma mulher e tornar o amor desse homem por essa mulher e o seu amor por Cristo a mesma coisa. Precisamos de amar Cristo e uns aos outros, sobretudo os nossos esposos, da mesma forma.

Henryk Sienkewicz

Em segundo lugar está aquilo a que eu chamo a “autossuficiência” da irmandade e da vida cristã para esses primeiros convertidos. Para eles, como Vicinius diz ao seu mentor pagão Patrónio, é como se Roma e Nero nem existissem. Todo o seu pensamento está em Cristo, o seu único Senhor. Descobriram um caminho de vida em Cristo e vivem como Cristo ordena e isso dá-lhes alegria, e basta.

No nosso caso, hoje poderíamos dizer em teoria que “a Igreja é uma sociedade perfeita”, mas como nos queixamos! Falamos como se só pudéssemos ser felizes se os tempos fossem diferentes! Não transmitimos a alegria abundante e a perfeita satisfação de saber que o amor de Cristo já é nosso. (Sim, também devíamos querer melhorar este mundo, mas como forma de partilhar aquilo que já nos foi dado plenamente).

Em terceiro lugar temos a sensação de que a vida cristã implica sempre um reinício. Por isto quero dizer que talvez alguns pensem, de forma inconsciente, que as coisas tendem a piorar ao longo do tempo, porque pensamos em modo de uma transmissão física que vai perdendo aos poucos aspetos do original. Uma fotocópia de uma fotocópia de uma fotocópia, que acaba por perder quase toda a sua informação. Mas parte do milagre do baptismo e da Eucaristia é que a vida de Cristo é transmitida plenamente a cada convertido.

Em “Quo Vadis” vemos que os cristãos romanos têm precisamente a mesma devoção que os discípulos na Terra Santa, a 2.500 milhas de distância. Basta ver a vida de qualquer santo, como por exemplo a Angela Merici, cuja memória celebrámos recentemente – uma jovem humilde chamada a amar o Senhor no Século XV, quase que do nada, numa pequena vila nas margens do Lago Garda. Esta é a vida renovada de um alter Christus.

Lembremo-nos de como São João Paulo II insistia em transmitir à Igreja, na viragem do Milénio, a mensagem: Iesus Christus heri et hodie ipse et in saecula, “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e amanhã” (Heb. 13,8). Estas palavras mantêm-se, agora e para sempre.

“Quo vadis” costuma ser traduzido do Latim como “para onde vais?” Mas o verbo tem o sentido de “apressar”. E a frase enfatiza o destino, mais do que a moção. Estou agitado, distraído, a trabalhar de forma frenética ou a adiar o trabalho? Seja o que for que estou a fazer, qual é o objetivo final de toda a minha atividade? O romance sugere que se eu não estou a deixar tudo o resto de lado para me apressar em direção a Cristo, então estou a afastar-me dele.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 2 de Fevereiro de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.


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