quarta-feira, 28 de julho de 2021

Comer os Deficientes? Sigam a Ciência!

Nota: Já tivemos algumas experiências desagradáveis com textos desta natureza, por isso deixamos um aviso. O leitor poderá encontrar neste artigo algumas notas de sátira, explicadas pelo conteúdo do último parágrafo. – Os Editores

A mente funciona de forma curiosa: as memórias e as ideias cruzam-se, conduzindo umas às outras. Como neste caso: eu adoro ficção científica, e por isso dei por mim, recentemente, a rever o filme Soylent Green, de 1973, com Charlton Heston e Edward G. Robinson. A história desenrola-se numa distopia marcada por sobrepopulação e desastre ecológico. Com a vida animal e vegetal destruída, as pessoas subsistem à base de bolachas orgânicas, Soylent Encarnado e Soylent Amarelo – manufacturadas pelo gigante transnacional, Soylent Industries.

A vida é dura e difícil. As pessoas são encorajadas a optar pelo suicídio assistido no centro de eutanásia local, em vez de morrerem nas ruas. Caso o façam, antes de serem terminados são recompensados com uma breve imagem da beleza assoladora do planeta antes de ter sido estragado. Mas surgem boas notícias. Um produto novo e melhor, Soylent Green, acaba de ser lançado, mais saboroso e nutritivo que os anteriores. O segredo, conforme descobre o nosso herói, desempenhado por Heston, está na fonte do novo produto: cadáveres humanos.

Naturalmente, o herói fica horrorizado. Mas pensando bem, será que isso faz sentido?

Pensemos por uns momentos. No estado de Washington já estamos a fazer compostagem com cadáveres. Outros estados estão a pensar no mesmo. A revolta contra o consumo daquilo que outrora foram pessoas é claramente uma norma cultural herdada de um passado pré-racional. Para que é que servem as ciências sociais, se não para nos conduzir da escuridão das patologias sentimentais, para a luz de um futuro mais racional? Não é essa a essência das nossas profissões de assistência?

Jonathan Swift compreendia isto. Ele era um homem à frente do seu tempo. No seu ensaio “Uma proposta modesta” (1729), que alguns idiotas insistem em chamar “sátira”, Swift avança, com muito bom-senso, uma solução para o problema da pobreza e sobrepopulação da Irlanda naqueles tempos. Os pais irlandeses deviam vender os seus bebés aos ricos para comer. Parece uma crueldade, mas o que é pior? A garantia de uma vida horrível de pobreza para recém-nascidos – que, de acordo com alguns bem-pensantes modernos nem serão bem “pessoas” ainda – ou melhorar os padrões de vida de toda a gente com um caminho lucrativo e satisfatório para a independência económica? Note-se ainda que este género de pensamento futurista faz sentido do ponto de vista ambiental e implica menos prejuízo para as preciosas espécies animais.

No século passado assistimos a alguns passos no sentido de uma sociedade orientada pela lógica, livre de emoções debilitantes. O Terceiro Reich é justamente odiado pelo seu lamentável registo de agressão e brutalidade, mas se deixarmos de lado por alguns momentos a invasão da Polónia e da Dinamarca, e já agora da Holanda, França, Noruega e Rússia – e o Holocausto, evidentemente – podemos ver um interesse genuíno, embora lamentavelmente estreito, pela ciência, sobretudo a ciências aplicada, por parte do regime.

Como Michael Burleigh demonstrou em “The Racial State” e “Death and Deliverance”, a causa da eutanásia obrigatória para os deficientes, doentes terminais e socialmente incapazes foi promovida não por políticos zelotes e ignorantes, mas pela comunidade médica e científica, numa campanha que data pelo menos desde 1900. Vários cientistas, médicos e intelectuais de outras disciplinas encontraram muito trabalho prático no regime Nacional-Socialista.

Charlton Heston em Soylent Green

Niall Ferguson escreve em “The War of the World” que 15 das 25 personalidades na equipa alemã que foi enviada para a Polónia depois da invasão de 1939 para limpar (a palavra “assassinar” tem uma conotação tão negativa) elementos negativos como judeus, padres e líderes culturais hostis eram homens com doutoramentos de universidades de topo na Alemanha. E é natural que assim seja. Grandes experiências como estas exigiam acções desagradáveis, mas determinadas por parte de pessoas com inteligência, visão e coragem para levar as coisas até à sua conclusão lógica. Tal como disse Lenine, numa circunstância semelhante (embora o comentário deva ser apócrifo): não se pode fazer uma omelete sem partir alguns ovos.

E sejamos sinceros: O Reich era muito bom a aprender com certas experiências. A remoção da sociedade alemã de mais de 300 mil pessoas consideradas, nos anos 30, como deficientes mentais, doentes sem esperança ou socialmente inúteis começou com uma operação desajeitada e cansativa de injeções individuais. Mas rapidamente se progrediu para campanhas de marketing articuladas e o uso de carrinhas móveis, e por isso mais baratas, para ajudar grupos inteiros a chegar à sua recompensa eterna com a ajuda de monóxido de carbono. Claramente foram aprendidas lições valiosas de organização, método e tecnologia que foram depois aplicadas noutros locais, de forma mais eficiente ainda e em muito maior escala.

Mas estou a divagar. Aqui na América, com excepção dos 60 milhões de abortos e mais algumas bizarrias, temos instintos mais decentes. E temos de falar sobre isso. A decência é, em si mesma, uma questão de consenso cultural, um artefacto ético flexível e – admitimo-lo – há muito que precisamos de actualizar o conceito. A verdade é que a “decência” é muitas vezes usada como mais uma desculpa humanitária para a cobardia, uma falta de vontade, herdada e pré-racional, para fazer o que é audaz, urgente e necessário.

Porque é que haveríamos de seguir o caminho egoísta da compostagem de cadáveres, quando temos milhões de pessoas a passar fome no mundo? Por falar nisso, a nossa indústria de aborto poderia, sozinha, alimentar a maior parte de África com os restos orgânicos. Desde que devidamente embalados, claro. E já agora, porque é que estamos a desperdiçar tanto tempo e recursos nos deficientes mentais e físicos, e nos doentes crónicos? O que é que eles contribuem para o mundo? Estamos diante de uma enorme fonte de alimentos e um grande passo em frente rumo à recuperação económica.

Temos de ver o Soylent Green através de olhos novos e limpos. Temos de seguir a ciência. Cantei comigo, irmãos! Sigamos a ciência.

Devo, contudo, terminar com um reparo. Eu e a minha mulher temos um filho com trissomia 21 e três netos com deficiências que vão do moderado ao grave. Estamos ainda, lamentavelmente, possuídos pelo obscurantismo religioso (Josué 24,15). Por isso, eu e os meus vamos servir os nossos amados – e não como patê. Devo admitir, porém, que não me importava de dar umas dentadas em alguns dos nossos gurus científicos e médicos.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 24 de Julho de 2021)

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Conversa inquieta sobre o motu proprio Traditionis Custodes

Podem assistir aqui à conversa em que participei no programa "Conversa Inquieta", do Ponto SJ, sobre o motu proprio do Papa Francisco, no passado dia 26 de julho de 2021.

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Conversas inquietas sobre ritos antigos

De volta, depois de uma semana de férias, começo por dizer que quem quiser pode assistir a uma “conversa inquieta” promovida pelos jesuítas, esta segunda-feira à noite, sobre o motu proprio do Papa Francisco que restringe o acesso ao rito antigo da missa. Será em modo virtual, no YouTube, a partir das 21h15.

O artigo da semana passada do The Catholic Thing foi sobre o conceito de sinodalidade, que tem sido uma das marcas deste pontificado. O que significa o termo, exactamente? Stephen White dá-nos umas ideias, mas diz que está muito por definir, o que não é necessariamente mau.

Entretanto, nas notícias, destaque para o regresso dos retiros presenciais em Fátima, a partir de Agosto.

E há um novo caminho para Santiago, que começa na Península de Setúbal.

quarta-feira, 21 de julho de 2021

A Sinodalidade é aquilo que fizermos dela

Stephen P. White
“Sinodalidade” – um termo que tem ganho cada vez mais protagonismo neste pontificado – é o neologismo em busca de uma teologia. Isto não significa que o termo não tenha significado teológico, antes, que na medida em que a palavra descreve a “forma” que o Papa imagina para a Igreja no terceiro milénio, é um conceito ainda um pouco desfocado.  

Começando em Outubro, o Sínodo dos Bispos vai concentrar-se nestas questões na próxima assembleia sob o tema: “Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão”. O Papa Francisco está convencido de que a sinodalidade descreve a forma que a Igreja deve assmir no terceiro milénio. Mas ainda não é muito claro precisamente o que é que o Santo Padre quer dizer quando fala de sinodalidade e de uma Igreja sinodal.

Para começar, sabemos algo do que o Papa Francisco não quer dizer com sinodalidade. Ele não está a falar simplesmente da sinodalidade das Igrejas Orientais. Parece ter em mente algo mais do que o Sínodo dos Bispos, que se tem reunido para aconselhar os Papas ao longo dos anos desde o Concílio Vaticano II. Não encara uma Igreja sinodal como uma democracia, nem um sínodo como um plebiscito ou parlamento. O que ele quer dizer é “uma Igreja a caminhar em conjunto”, uma definição suficientemente vaga para justificar todas as clarificações feitas até agora.

 Comissão Teológica Internacional (CTI) estudou o tema da “sinodalidade na vida da Igrea” durante vários anos, o que resultou num relatório de 2018. Esse relatório obteve um parecer favorável do Papa Francisco e dá-nos uma visão mais robusta do que a sinodalidade significa, ou pode significar, para a Igreja Latina. E também, até certo ponto, o que não significa nem pode significar.

A sinodalidade, dizem-nos, não descreve um evento, mas um processo: “O modus vivendi et operandi específico da Igreja, do Povo de Deus, que revela e dá substância ao seu ser enquanto comunhão quando todos os seus membros caminham em conjunto, se reúnem em assembleia e tomam parte activa na sua missão evangelizadora”. O Povo de Deus, em união com os bispos, e com, e sob o Papa, discerne a vontade do Espírito Santo para o trabalho de discipulado missionário da Igreja.

Ainda assim, a ambiguidade da terminologia de sinodalidade – já para não falar da conflitualidade de recentes encontros do Sínodo dos Bispos e a situação complicada a desenrolar-se com o “Caminho Sinodal” da Igreja Alemã – colocam-nos perante uma série de problemas teológicos e práticos. Existem, certamente, razões para cepticismo sobre a forma como alguns possam representar erradamente a sinodalidade, numa tentativa de desconstruir doutrinal, minar a tradição e ameaçar a comunhão eclesial. Estas são preocupações legítimas.

Mas se a sinodalidade é uma caixa por ora vazia, não existem razões para não a preencher com coisas boas. Não há razão para que a ênfase do Papa Francisco na sinodalidade não seja uma ocasião para redescobrir, ou olhar de novo, para a constituição doutrinal do Concílio Vaticano Segundo sobre a Igreja, Lumen Gentium. Nas palavras da CTI: “Embora a sinodalidade não seja referida explicitamente como termo ou como conceito nos ensinamentos do Vaticano II, é justo dizer que a sinodalidade está no cerne do trabalho de renovação que o Concílio estava a encorajar”.  

De facto, o potencial de uma Igreja sinodal é exatamente uma Igreja que incorpora mais inteiramente o seu carácter e a sua missão de forma mais plena, através de todos os seus membros: recorrendo à Escritura e à Tradição, para que o carácter da Igreja se possa manifestar mais autenticamente e a missão universal da Igreja se possa cumprir de forma mais eficaz.

Neste sentido, uma Igreja verdadeiramente sinodal não implica um “recomeçar de novo”, nem a divisão da autoridade eclesial, de uma forma que apela melhor às sensibilidades modernas. Nem se trata de uma questão de mudar o formato da Igreja para se adaptar ao espírito dos tempos, com sínodos locais e regionais a determinar as suas próprias verdades, removendo aquilo de que não gostam, ou a acrescentar, de acordo com as modas locais.


Uma sinodalidade genuína levará a sério a universalidade da missão baptismal: cada fiem, sem excepção, deve comprometer-se inteiramente com a missão da Igreja, na medida em que as formas particulares de cumprimento dessa missão dependem dos dons, talentos, carismas, posição e ocupação de cada um.

Já podemos encontrar exemplos de uma sinodalidade saudável, construtiva e fiel aqui nos Estados Unidos. Pelas minhas contas, pelo menos dez dioceses e arquidioceses americanas já anunciaram, começaram ou completaram sínodos locais nos últimos anos. Bridgeport, Burlington, Dallas, Detroit, Milwaukee, Springfield, San Diego, Sacramento, St. Paul e Minneapolis, e Washington. Os resultados variam, mas no geral têm sido positivos.

Um arcebispo disse-me que a decisão de convocar um sínodo arquidiocesano foi a mais importante e melhor decisão pastoral que alguma vez tomou enquanto bispo. O sínodo local deu uma possibilidade para a sua Igreja local enfrentar desafios consideráveis, enquanto permitiu recentrar os esforços e os recursos no desafio mais importante e, sobretudo, mais fundamental de todos, “libertar o Evangelho”.

Até que ponto este tipo de sinodalidade que tem dado frutos ao nível local pode ser adaptado à escala global, ainda está por determinar. O processo sinodal que começa em Outubro terá uma primeira fase diocesana, seguida um ano mais tarde por uma fase continental e, finalmente, uma fase universal em 2023. Até que ponto é que uma Igreja de mais ou menos mil milhões de almas, espalhadas pelo mundo, pode discernir ou “caminhar em conjunto” através de um programa necessariamente tão impessoal não é nada evidente.

As preocupações com os obstáculos e possíveis abusos de sinodalidade devem ser reconhecidas, mas seria um erro terrível simplesmente descartar esta promessa de sinodalidade à primeira vista. Se a revigoração da missão evangelizadora da Igreja não for razão suficiente para os católicos se aplicarem ao máximo neste sínodo, então talvez esta outra os convença. A recusa ou a incapacidade dos fiéis de se comprometerem com o processo sinodal significa que só as vozes mais cínicas ou ideológicas é que serão ouvidas.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 15 de Julho de 2021)

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sexta-feira, 16 de julho de 2021

Missas católicas limitadas e cemitérios judaicos abandonados

O Papa Francisco publicou esta sexta-feira um motu proprio em que limita o recurso ao rito antigo da missa. É um tema sempre polémico. Infelizmente, temo que o Papa tenha toda a razão na decisão que tomou, e aqui explico porquê.

O novo bispo de Pemba vê com bons olhos uma intervenção militar internacional para travar a onda de terrorismo, mas avisa que esta deve ser feita dentro da lei.

Na quinta-feira o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem decidiu que os Estados Europeus podem proibir os seus cidadãos de usar símbolos religiosos no local de trabalho, mas pedem bom senso.

Cerca de metade dos cemitérios judaicos na Europa estão em estado de negligência, segundo uma organização da União Europeia encarregue de identificar e proteger estes espaços.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, que nos traz uma visão católica do debate sobre racismo nos Estados Unidos.

Infelizmente o Papa tem razão. E quem perde somos nós

O Papa Francisco mandou publicar esta sexta-feira um documento que limita drasticamente o acesso dos fiéis ao chamado rito antigo.

Infelizmente, compreendo perfeitamente porque é que o fez.

Antes de prosseguir, deixem-me dizer que embora eu não frequente com regularidade o rito antigo, já o fiz diversas vezes e fi-lo mesmo antes do Summorum Pontificum, mais do que uma vez. Conheço de perto várias pessoas para quem esta é a forma principal de missa.

Nada me choca no rito antigo e direi mesmo que uma das coisas que choca muitos, o facto de o padre estar virado para o altar durante grande parte da liturgia, eu gostava de ver aplicado ao rito novo também, pelo menos para algumas partes da celebração.

Não encontrarão aqui qualquer crítica ao rito que animou e alimentou os nossos avós e bisavós durante mais de um milénio.

Mas o rito não tem vida, é uma fórmula, um conjunto de instruções e rúbricas. No fundo, no fundo, quando não está a ser celebrado, o rito é um conjunto de palavras em folhas de papel. O problema não é o rito, portanto, é o que se faz com ele.

Tal como qualquer outro ritual, texto ou símbolo, a liturgia pode ser abusada e instrumentalizada. Acontece o mesmo com bandeiras. A bandeira dos confederados, nos EUA, não é apenas um pedaço de pano. Foi amada por muitos que morreram por ela e eram bons homens, mas hoje ganhou outro sentido, ao tornar-se o símbolo de saudosistas de sistemas racistas no sul dos Estados Unidos. A culpa não é de todos, mas de alguns. É fácil estragar um símbolo.

Infelizmente um certo sector de tradicionalistas radicais estragou o rito antigo. Estragou-o para todos nós que amamos a sua beleza, sem o transformar num instrumento ideológico. Porque é isso que os radicais de ideologias fazem. Estragam coisas.

O rito antigo foi liberalizado como um gesto de justiça para muitos e como um gesto de reconciliação para alguns que se encontram nas margens, ou mesmo fora da Igreja. O resultado, a nível global, não foi o desejável. As divisões acentuaram-se, muitos dos que estavam dentro ficaram cada vez mais fora e os que estavam fora não entraram. 

Eu deixei de me sentir confortável nas celebrações do rito antigo quando me apercebi que se tinham tornado, em larga medida, locais de disseminação de ódio ao Papa Francisco e a muitos dos nossos bispos, onde se falava de uma igreja de iluminados e uma igreja de hereges ignorantes. Gosto de tradições e de solenidade, mas não o suficiente para me sujeitar a isso.

E foram estes que estragaram o rito antigo para o resto da Igreja. Vão fazer agora aquilo que fazem tão bem, vitimizar-se e lamentar-se de mais uma agressão por parte da Igreja Maçónica Globalista da Nova Ordem Mundial.

Pelo meio ficam – e escolho estas palavras com cuidado – vidas destroçadas, famílias divididas pela influência daquilo que se tornou em muitos casos uma verdadeira seita.

Não são todos, como é evidente. Alguns, talvez muitos, apenas lá iam por amor a uma tradição que não deixa de ser nossa só porque nascemos depois de ter sido reformada. São esses que ficam a perder. Neles me incluo. É pena.

quinta-feira, 15 de julho de 2021

Taliban imparáveis no Afeganistão

O Papa Francisco já saiu do hospital. Antes disso ainda teve tempo para visitar a unidade de oncologia pediátrica.

Os bispos de Cuba querem o fim dos confrontos no país e também da “imobilidade” do Governo, que enfrenta contestações.

A fome voltou a Alepo, na Síria, levando a fundação AIS a criar uma nova campanha de angariação de fundos para ajudar.

E a situação no Afeganistão vai de mal a pior. O avanço dos Talibans faz lembrar o avanço do Estado Islâmico no Iraque, em 2013. Uma situação dramática.

A questão da raça está mais viva que nunca nos EUA, e noutras partes do mundo. Para alguns a questão apaixona, para outros irrita. No artigo desta semana do The Catholic Thing um teólogo aborda a questão de uma perspetiva católica contemporânea. Vale muito a pena ler.

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Raça, Aliança e Perdão

James F. Keating

Sessenta anos depois do movimento dos direitos civis e uma década depois da eleição triunfante do primeiro Presidente afro-americano, a questão racial regressou com uma urgência premente. Há intelectuais católicos que se riem da ideia de que o destino da nação americana deve ser do menor interesse para os fiéis. Alguns poderão mesmo deliciar-se em apontar o facto de que os aspectos mais tóxicos desta nossa “prestação de contas racial” são um acrescento previsível da fundação liberal da América.

Lidaremos com esse argumento noutra altura. Por agora o caminho mais prudente é reconhecer que a Igreja Universal existe dentro de nações, e que por isso as “alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias” (Gaudium et Spes, 1) de cada país devem ser partilhadas pelos seus cidadãos católicos. Os pensadores católicos têm, por isso, a obrigação de examinar esta questão de forma honesta e de procurar as formas como a sabedoria da nossa tradição pode sarar e elevar a causa da reconciliação racial.

Estas são águas turbulentas; só um tolo é que se lança nelas sem um plano para navegar as suas correntes fortes. Existe um esboço para este plano em “Race and Covenant: Recovering the Religious Root for American Reconciliation” (editado por Gerald R. McDermott). Esta coleção apresenta uma seleção de académicos reconhecidos e que focam a questão de como é que os Estados Unidos poderão cumprir melhor a promessa de aliança contida na Declaração de Independência, que considera uma verdade evidente que “todos os homens são criados iguais, que são dotados do seu Criador com certos Direitos inalienáveis, entre os quais a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade”.

A ideia principal do livro é de que, nas palavras de Frederick Douglass, “as nações, não menos que os indivíduos, são sujeitas ao Governo moral do universo e que (…) a transgressão persistente das leis deste governo Divino trarão certamente tristeza, vergonha, sofrimento e morte nacionais”. Lincoln enquadrou o seu pedido de um jejum nacional com a questão de saber se as devastações da guerra não seriam “um castigo, infligido sobre nós, pelos nossos pecados presunçosos, para o fim necessário da nossa reforma nacional enquanto Povo inteiro?”

Claro que existem raízes sólidas para a noção de que Deus trata com as nações, pese embora estas gozem de uma história ambígua de recepção. O patriotismo divinamente sancionado tem uma má reputação que é bem merecida. O corretivo oferecido nestas páginas é de ver a aliança da América com Deus à luz do seu fracasso em cumprir as suas próprias promessas no que diz respeito aos afro-americanos. A regeneração nacional requer um período de exílio, não só na forma de agitação nacional, mas também pela realização dolorosa de que a divisão entre brancos e negros continua a existir.

Longe de um patriotismo reflexivo, os autores enfatizam o mal moral da escravatura e as devastações causadas pela longa recusa da nação em encarar o problema racial. Se o leitor quiser algo que trate este pecado original dos Estados Unidos como algo do passado, ficará desiludido com o “Race and Covenant”. Tal como o peregrino Dante aprendeu que o purgatório só começa quando se aceita a justiça da punição, estes autores rejeitam qualquer resolução do problema racial que não seja acompanhada da dinâmica do pecado e da regeneração pela graça.

Depois de uma introdução útil feita pelo editor, o livro divide-se em temas: a aliança nacional na história, os problemas actuais e estratégias para restauração. As contribuições são fortes e de interesse para um público católico. Como exemplo, destaco aqui três dos capítulos.

O primeiro diz respeito a Martin Luther King Jr., a última figura pública a falar de raça num quadro de aliança nacional americana. O autor é James M. Patterson, um historiador na Universidade Ave Maria e estudioso da relação entre fé e política. 


Abordando King enquanto pensador cristão, Patterson argumenta que ele procurou navegar entre as utopias do Evangelho Social e o realismo de Reinhold Niebuhr. Esta “via media” implicaria que a reconciliação racial necessitaria do poder coercivo do Estado, mas que só ficaria completa com uma mudança, uma conversão, no coração de todos os americanos. Os brancos deviam arrepender-se do seu racismo e os negros deveriam estar dispostos a aceitar esse arrependimento tal como Cristo tinha aceitado o seu. Patterson mostra-nos um King que veio a admitir a sua própria necessidade de perdão, vendo-se um pouco como um Moisés, cujas infidelidades matrimoniais o impediam de entrar na Terra Prometida que pregava.

Se Patterson sublinha o optimismo cristão de King, outro autor, Joshua Mitchell, traça o quadro do pensamento dos iluminados contemporâneos da questão racial. Também eles usam categorias de culpa e de inocência, mas desligadas da convicção de que Deus já lidou com a culpa universal através do sacrifício do seu Filho inocente.

Assim as categorias de pecador e inocente, oprimido e opressor não são possíveis para todos os seres humanos, antes são associados às pessoas com base na sua raça. Os brancos são culpados porque são brancos; os negros são inocentes por serem negros. Não existe a possibilidade da reconciliação através do perdão, só arrependimento perpétuo por parte de um grupo. Mitchell contrasta este beco nacional com uma teoria de competência liberal, em que os cidadãos dependem uns dos outros, através de divisões raciais, para construir um mundo em conjunto.

Concluo este texto com esta passagem emocionante do capítulo de Derryck Green, que é em si um convite a ler a obra completa:

Os negros têm sido sistematicamente alvejados, atacados, feridos e magoados. A escravatura e a segregação não foram exclusivas da América, mas foram um mal. Trata-se de pecados contra a aliança nacional e esses pecados têm sido obstáculos enormes à paz e à unidade que a maioria dos negros e dos brancos procuram. O chauvinismo racial branco que persiste, embora juridicamente prescrito, continua a orientar demasiados corações e demasiadas mentes. Algum do ressentimento e da revolta negra é por isso compreensível, mas outra parte não. Mas isso não importa. Jesus foi claro em dizer que os seus seguidores têm a obrigação de inverter o ciclo habitual de revolta, antipatia e hostilidade recíprocas. Enquanto seus discípulos, os cristãos negros devem iniciar o processo de reconciliação, e isso começa com o perdão.


James F. Keating é director do Programa de Humanidades de Providence College e professor associado de Teologia na mesma faculdade. É editor do livro Restoring Ancient Beauty: The Revival of Thomistic Theology, a publicar em breve.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 10 de Julho de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



segunda-feira, 12 de julho de 2021

Papa operado e catolicós vítima de Covid

Morreu esta segunda-feira mais um líder de uma igreja cristã, por complicações associadas à Covid-19. Basílio Mar Thoma Paulo II, Catolicós do Oriente e Metropolita Malankara é o segundo patriarca a morrer de Covid, depois do líder da Igreja Ortodoxa da Sérvia.

Durante a minha semana de férias o Papa foi sujeito a uma cirurgia. Felizmente, tudo parece ter corrido bem e ainda hoje se soube que está a recuperar bem, embora fique internado mais uns dias.

As dioceses de Coimbra e do Porto querem recordar a grande figura que foi o padre Américo.

A entrevista conjunta entre RR e Ecclesia desta semana foi à presidente dos Estudantes de Teologia de Lisboa da UCP, que fala sobre a disciplina de Religião e Moral. Vale a pena ler.

Não deixem ainda de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing, em que Randall Smith fala de como a oposição ao aborto e à cultura de morte devia ser algo que transpõe as divisões políticas.

quarta-feira, 7 de julho de 2021

Desde o seio materno sois meu protector

Randall Smith

A recente solenidade de São João Baptista apresentou-nos com várias leituras especialmente interessantes. Uma das opções começava com este texto de Jeremias 1,5:

“Antes que no seio fosses formado, eu já te conhecia;

antes de teu nascimento, eu já te havia consagrado,

e te havia designado profeta das nações.”

O salmo responsorial era uma seleção de versos do Salmo 70, que contém as seguintes linhas:

R. Desde o seio materno sois meu protector

Sede para mim um refúgio seguro,

a fortaleza da minha salvação.

Vós sois a minha defesa e o meu refúgio

meu Deus, salvai-me do pecador.

R. Desde o seio materno sois meu protector

Sois Vós, Senhor, a minha esperança,

a minha confiança desde a juventude.

Desde o nascimento Vós me sustentais,

desde o seio materno sois o meu protector.

A outra opção para o dia continha uma leitura de Isaías 49, que inclui estas duas passagens:

"O Senhor chamou-me desde meu nascimento; ainda no seio de minha mãe, ele pronunciou meu nome." (Isaías 49,1)

“Meu direito estava nas mãos do Senhor, e no meu Deus estava depositada a minha recompensa. 5.E agora o Senhor fala, ele, que me formou desde meu nascimento para ser seu servo” (Is 49, 4-5)

O salmo responsorial que acompanha essa leitura vem do salmo 138 e contém estas palavras populares: “Sede bendito por me haverdes feito de modo tão maravilhoso”. O sermão que ouvi naquele dia partiu dessas mesmas palavras. Estou sempre grato por qualquer homilia em que as leituras do dia são referidas, mas ainda estou por ouvir alguém comentar as seguintes palavras nesse mesmo salmo:

R.  Sede bendito por me haverdes feito de modo tão maravilhoso

Fostes vós que plasmastes as entranhas de meu corpo,

vós me tecestes no seio de minha mãe.

Sede bendito por me haverdes feito de modo tão maravilhoso

Ambas estas escolhas de leituras fazem sentido enquanto percursoras do Evangelho do dia, que recorda a história da atribuição do nome a João. Quando Isabel anunciou que a criança no seu seio se chamaria João os membros da família reclamaram, dizendo que mais ninguém na família tinha esse nome. Quando recorreram a Zacarias, que tinha ficado mudo durante o seu serviço no Templo, ele escreveu: “O seu nome é João” e soltou-se-lhe a língua.

Que dizer de tudo isto? Bom, uma das conclusões mais óbvias a retirar é que os seres humanos são “conhecidos por Deus” desde o seio materno. Ou, para usar termos mais modernos, que os fetos são pessoas desejadas por Deus.

Estou ciente de que um argumento bíblico deste género não seria credível para os não-cristãos da nossa sociedade. Tudo bem. Mas e o resto de nós? E os católicos? E os nossos irmãos protestantes? O propósito da Reforma Protestante não era de defender as Escrituras como Palavra inspirada e autoritária de Deus?

O feto humano, Leonardo da Vinci
Vários estudiosos ao longo da história, tanto protestantes como católicos, analisaram as Escrituras com atenção, exaustivamente, procurando descobrir os seus segredos mais profundos na convicção de que as Escrituras contém palavras de verdade e de vida. Haverá algo escondido ou obscuro nas palavras que acabo de citar? Não será antes que a verdade é aqui proclamada como o soar de uma trompeta? Cristo é inteiramente homem e inteiramente Deus desde o momento da sua concepção, ou não é? Se é, então decorre que toda a humanidade também é inteiramente humana desde o momento da sua concepção. E se assim é, então essas vidas não podem ser “interrompidas” sem violar o mandamento “Não matarás”.

Espero que fique claro que não estou a fazer um apelo político. Coloco diante de qualquer leitor cristão esta opção existencial: As Escrituras contém a palavra inspirada de Deus e a verdade, ou não? E se a resposta for sim, estamos verdadeiramente a escutar a palavra de Deus para compreender os seus ensinamentos e cumprir as suas diretivas? Ou estamos a escolher as passagens que encaixam nos nossos preconceitos, evitando aquelas que nos chamam a algo que possamos não gostar? Estaremos nós, como tantos fizeram nos tempos de Cristo, a fechar os nossos ouvidos, as nossas mentes e os nossos corações a uma mensagem que precisamos de escutar?

Porque se o ensinamento constante da Igreja, que há séculos que condena inequivocamente o aborto, pode ser ignorado e se mesmo as palavras das Escrituras se tornaram letra morta para nós, então já não sei mesmo o que é que estamos a fazer em todas estas igrejas “cristãs”. Estamos simplesmente a consolar-nos uns aos outros? A tentar ganhar pontos para merecer o céu? – Ou talvez apenas o clube de golfe local?

Se não nos deixamos mover pela palavra de Deus, e endurecemos os corações contra estes pequenos, podemos realmente apelidar-nos de “Cristãos” em qualquer sentido da palavra? Não somos culpados da “graça barata” de que nos avisou o grande Dietrich Bonhoeffer? Poderia algum dos nossos bem-aventurados antepassados que deu a vida em defesa da fé não ficar enojado pela hipocrisia desta geração, tal como nós sentimos vergonha da hipocrisia dos cristãos alemães que não levantaram a voz contra o assassinato de milhões de judeus?

O massacre de 66 milhões de crianças no ventre desde 1973, cada uma das quais (a fiar-nos nas Escrituras) é “conhecido por Deus” e “feito de modo maravilhoso” é tanto “apenas mais um assunto” como foi o massacre de 6 milhões de judeus. Ninguém quer saber das políticas laborais do Governo alemão em 1937. Tudo o que nos interessa é que os cristãos não fizeram o suficiente para proteger 6 milhões de judeus do genocídio.

Se fechamos os olhos a este massacre que se passa no meio de nós, se não vemos em cada uma destas crianças por nascer uma obra do Criador, podemos realmente enfrentar o Deus que nos fez a nós e a eles? Há mais em causa aqui do que uma guerra política entre republicanos e democratas.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 4 de Julho de 2021)

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sexta-feira, 2 de julho de 2021

Gritos pelo Líbano e Hotel genocídio

Os líderes cristãos do Líbano estiveram juntos ontem em Roma para dar um grito por aquele país em crise. Um momento ecuménico inédito que vale a pena recordar.

Hoje Francisco recebeu o primeiro-ministro do Iraque, meses depois da sua própria histórica visita ao país.

Os símbolos das JMJ vão estar em tour pelo país. Saiba quando é que vão estar na sua diocese.

A cadeia de hotéis Hilton está a ser acusada de cumplicidade no genocídio dos uigures na China.

Continua a dar que falar a questão das crianças indígenas retiradas às famílias no Canadá. Os líderes das comunidades vão a Roma em Dezembro para tentar convencer o Papa Francisco a pedir desculpa pelo papel desempenhado pela Igreja na gestão das escolas.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing. Elizabeth Mitchel encoraja-nosa “lançar as redes” de novo, mesmo quando tudo nos parece perdido.

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