Wednesday, 18 May 2022

Aborto e o Genocídio da Comunidade Negra

Randall Smith

Temos assistido a muita discussão, recentemente, em torno da decisão do caso Dobbs, em que o Supremo Tribunal poderá finalmente revogar as fatídicas decisões de Roe v. Wade e Doe v. Bolton. Muitos desses artigos que lamentam as decisões vindouras estão cheias de incivilidade, vitríolo, tentativas de meter medo, non sequiturs absurdos, ou puras mentiras. 

Em 2003, quando o Supremo Tribunal revogou a decisão Bowers v. Hardwick de 1986 – protegendo a actividade homossexual – os liberais não começaram a gritar que o próximo a ser revogado seria Brown v. Board of Education, porque sabiam que isso seria um non sequitur absurdo.

E hoje nenhum liberal progressista acharia aceitável que um grupo conservador estivesse a fornecer as moradas de casa dos juízes minoritários em Dobbs, para que grupos de manifestantes se pudessem juntar às portas das suas casas para os pressionar a mudar de ideias. Não, parece que apenas um dos lados pode fazer agir deste modo.

Para todos aqueles que defendem Roe, tenho apenas uma coisa a dizer: Estão do lado errado da história.

Sempre quis dizer isso. Principalmente, para que as pessoas do outro lado da barricada conheçam a sensação. Na verdade, acredito mesmo que aqueles que argumentam a favor do aborto estão do lado errado da história e que com os avanços dos cuidados neonatais e maiores conhecimentos do desenvolvimento do bebé no útero, o aborto parecerá tão bárbaro dentro de 50 anos, como a escravatura nos parece hoje.

E já agora, se estudarem a história, verão que quando o nosso lado é o que está a usar eufemismos para cobrir aquilo que está a fazer – partir vidros, mentir, ameaçar com violência, acicatar as multidões, o medo e o ressentimento – então na maior parte das vezes é porque estamos de facto do “lado errado da história”.

Mas dizer simplesmente aos nossos opositores que estão do lado errado da história não é um argumento. É o equivalente verbal de uma pancadinha paternalista nas costas. Imagine só que apresenta um argumento sofisticado sobre algo, apenas para ouvir o seu interlocutor gritar: “Isso é só estúpido!” ou “Está enganado!”. Bom, posso até estar enganado, e posso até ser estúpido, mas para o mostrar é preciso fazer um argumento real.

Demasiadas pessoas partem do princípio, hoje em dia, de que não precisam de apresentar argumentos lógicos, e que podem simplesmente assumir que “todas as pessoas boas e sensatas” concordam com elas, porque, bem, “é evidente”. O problema é que quase nunca é evidente e com temas especialmente controversos, como o aborto, não se pode simplesmente partir do princípio que assim é. Quando afirma que “é evidente”, o que está a dizer de facto é que as pessoas que discordam de si são demasiado estúpidas, demasiado burras mesmo, para compreender o “óbvio”.


Por isso eu não vou simplesmente dizer a todos os que discordam de mim sobre o aborto que estão do lado errado da história. Eu acho que sim, eles obviamente acham que não. Porreiro. Temos de avançar e trocar verdadeiros argumentos e verdadeiros dados.

O “impacto desigual” e o preconceito racial são temas populares neste momento. Não passa um dia ou dois sem uma discussão sobre eles na comunicação social. Então falemos deles no contexto do aborto.

Ouvimos dizer muitas vezes que revogar Roe será “desastroso” para a comunidade negra. Mas olhemos para os factos:

  • O aborto é a principal causa de morte para afro-americanos, mais do que todas as outras causas juntas, incluindo HIV, crime violento, acidentes, cancro e doenças cardíacas.
  • As mulheres negras abortam 3,5 vezes mais do que as mulheres brancas; mais de 30% das mulheres negras têm abortos, apesar de constituírem apenas 12,6% da população.
  • Ao longo da sua vida, as mulheres negras têm em média 1,6 mais gravidezes do que as mulheres brancas, mas a probabilidade de terem uma gravidez que acaba com um aborto é cinco vezes superior.
  • Aproximadamente 360 mil bebés negros por nascer são abortados todos os anos. Quase mil por dia.
  • Desde 1973 morreram mais de 16 milhões de bebés negros devido ao aborto.
  • A percentagem de população negra nos Estados Unidos desceu de 12,6% em 2010 para 12,4% em 2020. A população negra nos EUA (actualmente 41 milhões) desceu a pique, ficando agora abaixo da população hispânica (63 milhões), números que seriam radicalmente diferentes caso as 16 milhões de vidas negras importassem o suficiente para que a sociedade as protegesse do aborto, permitindo que se tornassem adultos.

Claro que pode estar a pensar, “Sim, mas as clínicas não abortaram estas crianças negras por serem negras”. Em primeiro lugar, os progressistas nunca permitem esta desculpa quando se fala e qualquer outro caso de “impacto desigual”. Segundo, tem mesmo a certeza?

Sabemos perfeitamente que a eugenista e racista Margaret Sanger, que fundou a Planned Parenthood, deu início ao seu “Negro Project” em 1939, para evitar o crescimento da população negra. E ainda hoje 79% das clínicas da Planned Parenthood encontram-se a curta distância (cerca de 3,5 quilómetros) de centros com grande concentração de populações negras ou hispânicas. Se isso não é prova de “racismo sistémico”, então o termo não tem sentido.

Por isso, todos os que estão a manifestar-se para proteger a indústria abortista, não só estão do lado errado da história, como são racistas.

Vocês? Não pode ser! Vocês são os bons! Dezasseis milhões de bebés negros mortos – por agora – e continuam a ter a certeza absoluta de que as pessoas que estão a tentar pôr fim a este genocídio racial são os maus, os horríveis e que vocês – vocês! – são aqueles que serão vistos pela história como os que verdadeiramente se preocupavam com a comunidade negra.  

Tão certos, de facto, que estão dispostos a silenciar os vossos opositores, juntar multidões para os aterrorizar, mentir repetidamente, vandalizar igrejas, interromper serviços religiosos, profanar sacramentos, destruir centros de apoio que dão às mulheres os recursos para poderem escolher não pôr fim à vida dos seus nascituros, e até subverter o próprio processo democrático, tudo para que algumas mulheres possam matar os seus filhos e filhas por nascer.

Pois bem, isso é só estúpido.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 17 de Maio de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Tuesday, 17 May 2022

War in Ukraine - Words of relevant religious leaders


In this article I will try to collect the statements and words of relevant relgious leaders regarding the current war in Ukraine. Please feel free to submit any statements you cannot find on here in the comments section, with links please. Any highlights in bold are my own, and intended to point out key passages. Over these two months the list has become very long, and unfortunately Blogger does not provide tools to make it more user-friendly. All statements are published in order of date, so a helpful tip can be to click on the link to the hierarch below the one you want to consult, and scroll upward.

Neste artigo vou juntar as palavras e declarações de líderes religiosos relevantes sobre a actual guerra na Ucrânia. Agradeço que submetam quaisquer declarações em falta nos comentários, com links, por favor. Quaisquer destaques nos textos são da minha responsabilidade, com o objectivo de sublinhar pontos chave. Todos os comentários de líderes internacionais serão postados em inglês. Para compreender melhor as dimensões religiosas deste conflito, leiam este artigo. Ao longo destes dois meses esta lista tornou-se muito extensa e infelizmente o Blogger não tem ferramentas que tornem a pesquisa mais fácil. Todas as declarações estão por ordem de data, por isso uma dica útil é, caso queiram ler as mais recentes declarações de um hierarca, clicarem no seguinte e andarem para cima.

Wednesday, 11 May 2022

As repercussões da detenção do Cardeal Zen em Hong Kong

Aqui podem ouvir a minha análise à detenção do cardeal Zen, em Hong Kong, bem como a minha leitura das repercussões que pode ter nas relações entre a Santa Sé e a China.

Tratou-se de uma conversa com Hugo Pinto, jornalista do Observador.


Posts antigos sobre este assunto: 

Hospital de Campanha Ep. 5 - As implicações da (possível) revogação do Roe V. Wade

Uma fuga de informação muito recente sugere que o Supremo Tribunal dos EUA está a deliberar a revogação do famoso caso "Roe vs. Wade" que levou à legalização do aborto a nível federal. 

Neste episódio três católicos juntam-se para perceber exactamento o que isto pode implicar dos dois lados do Atlântico. 

Ao Filipe e à Inês, já habituais aqui no Hospital, junta-se o José Maria Duque, coordenador-geral da Caminhada pela Vida e dirigentge da Federação Portuguesa pela vida.

Este tema também foi abordado pelo Filipe neste texto e é assunto do artigo desta semana do The Catholic Thing. 

Joe e os Outros depois de “Roe”

Stephen P. White

O Presidente Biden conta já com quase cinco décadas a treinar os eufemismos necessários para defender o aborto sem parecer demoníaco. Ainda assim, de vez em quando tropeça. A semana passada, por exemplo, quando assegurou os jornalistas da sua convicção de que “o direito de escolha das mulheres é fundamental”, cometeu o erro de deixar claro que falava da escolha de “abortar uma criança”, o que parece bastante monstruoso. Porque é.

Claro que o contexto para estes comentários era a fuga de um rascunho da opinião maioritária do Juiz Alito no caso Dobbs v. Jackson Women’s Health Organization, que está diante do Supremo Tribunal. Esse rascunho, já confirmado como autêntico pelo Tribunal, anulará a sentença Roe v. Wade, que legalizou o aborto a nível federal, e remeterá as leis do aborto de volta para os estados.

O truque para um político como Biden está em usar termos de que as pessoas gostam, como “direitos”, “liberdade”, “escolha”, enquanto evita os termos que recordam as pessoas de que o que está em causa é a eliminação de uma jovem e inocente vida. Mas mesmo as palavras “simpáticas” começam a perder o seu encanto se forem usadas de forma demasiado desonesta durante muito tempo. As pessoas começam a desconfiar quando aspirações nobres como liberdade e igualdade só podem ser alcançadas a um custo tão grotesco.

É uma loucura acreditar que a igualdade e a liberdade de metade da raça humana assentam necessariamente no direito ilimitado de usar força letal contra crianças inocentes. Contudo, esta é a opinião firme de Nancy Pelosi sobre o assunto. A eliminação de Roe seria uma “abominação”, avisou. “Ao eviscerar a liberdade fundamental das mulheres de gozar de plenos cuidados reprodutivos, os juízes radicais nomeados pelos republicanos preparam-se para infligir sofrimento inimaginável sobre dezenas de milhões de famílias”.

Este grau de histeria é uma boa indicação de como o argumento de Alito destrói por completo a lógica de Roe e de Casey. No meio de todo o clamor e ranger de dentes que ouvimos esta semana, temos assistido a uma ausência notória de críticas sérias aos argumentos jurídicos de Alito por parte da fação pro-Roe. Como já se disse infinitas vezes esta semana, a opinião é ainda um rascunho, e não uma versão final, mas os dados parecem lançados e é difícil não esperar que em breve o Roe v. Wasde seja revogado.

Claro que a revogação de Roe não porá fim ao aborto neste país. Por mais necessária e grandiosa que seria essa vitória, a guerra passaria apenas para outros campos de batalha – principalmente para os estados, mas também para o Congresso. Há muito que se presume que o retorno da questão para o nível estadual produziria um conjunto variado – mas no geral mais moderado – de leis do que aquelas que eram permitidas ao abrigo de Roe. Poderá ser isso mesmo que acontece. Mas não será automático. E não acontecerá sem muito esforço e coragem aos níveis local e estadual.

Norma McCorvey, a "Roe" original
Há muito que os grupos pró-aborto se preparam para o que vem de seguida. Já existem planos para transportar mulheres grávidas de estados com leis mais restritivas para estados com leis mais permissivas – uma espécie de caminho-de-ferro subterrâneo para abortos, à imagem do que existia para ajudar escravos a fugir para o norte. Também se tem falado muito em alargar o acesso postal a drogas abortivas.

Questões como atravessar fronteiras estaduais, ou enviar medicamentos abortivos de um estado para o outro vão certamente garantir que o Governo federal vai continuar a desempenhar um papel importante na restrição (ou promoção) do aborto. Mesmo que o Congresso demonstre não ser capaz, ou não ter vontade, de tomar medidas directas e substanciais, o executivo continuará a ser importante para redigir as regras e os regulamentos em torno do aborto. Não é implausível pensar que sem o Supremo Tribunal para tornar o aborto uma lei federal, ambos os partidos serão tentados a colocar as políticas federais sobre o aborto o mais possível no ramo executivo.

Escusado será dizer que o cenário pós-Roe tornará ainda mais urgente a expansão de programas para ajudar mães e crianças em situações difíceis. A Lei do Batimento Cardíaco no Texas, por exemplo, é famosa por proibir a maioria dos abortos e também pela forma pouco comum de aplicação, dependendo de denúncias remuneradas. Mas o que foi muito menos divulgado foi que essa mesma lei, que praticamente acabou com a indústria abortiva no Texas, também aumentou os subsídios estaduais para mães pobres, expandiu a cobertura social e providenciou 100 milhões de dólares todos os anos para o programa Alternativas ao Aborto.

Os estados que possam restringir o aborto depois da revogação de Roe devem fazê-lo, claro, mas os mesmos estados devem estar preparados para ser o mais generosos possível a confirmar que todas as mães e bebés (e pais) tenham o apoio de que precisam para que dizer sim à vida seja o mais fácil possível. À medida que as políticas sobre o aborto regressam aos estados tornar-se-á ainda mais politicamente imperativo vencer ao nível local e pessoal, tanto nas medidas concretas como na retórica.

Os milhares de centros de aconselhamento a mulheres grávidas em dificuldades que existem no país já fazem um trabalho fantástico neste campo. Não há qualquer razão para não coordenar as restrições ao aborto com o aumento de apoio a essas organizações, seguindo a decisão do Texas de disponibilizar recursos diretamente a mulheres que enfrentam gravidezes indesejadas ou difíceis. Não só é a coisa certa a fazer, como revela a falsidade de quem acusa os movimentos pró-vida de deixarem de se preocupar com a dignidade humana a partir do momento em que o bebé nasce.

Uma última coisa para os católicos terem em conta num cenário pós-Roe: Ao longo de décadas o Roe v. Wade definiu o status quo político e jurídico. Ao longo de décadas demasiados católicos revelaram uma deferência exagerada a esse status quo. Quando o Roe desaparecer, se Deus quiser, e se quebrar o impasse jurídico, deixará de ser sustentável a atitude de ficar nas margens e evitar abanar o barco. Quebrar o monopólio judicial da política do aborto significará que os cidadãos comuns, e os legisladores locais e estaduais, passam a ter uma maior responsabilidade na defesa da vida – ou na sua promoção ou destruição. Os católicos, incluindo os nossos bispos e pastores, devem estar preparados para tudo o que isso significa.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na quinta-feira, 5 de Maio de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.  

 

Thursday, 5 May 2022

Ver Deus na Guerra?

 Amanhã estarei em Santarém com o meu bom amigo Pe. Tiago Fonseca para falar numa conferência das Equipas de Jovens de Nossa Senhora. 

O tema é "Ver Deus na Guerra" e promete ser muito interessante! 

A conferência é seguida de jantar e o objectivo é angariar fundos para os jovens poderem participar no Encontro Internacional das EJNS. 

Enquanto ex-responsável internacional deste movimento é sempre uma enorme alegria participar em qualquer evento organizado por eles! Espero que muitos queiram também participar!



Wednesday, 4 May 2022

A Igreja: Corrupta desde Sempre?

Michael Pakaluk

Se a Igreja Católica alguma vez foi corrupta, então foi corrupta desde sempre. Mas como não foi corrupta desde sempre, nunca foi, nem será, corrompida.

Foi isso que me passou pela cabeça recentemente, ao ouvir um podcast sobre Roma antiga. A cidade de Roma – argumentava o autor – pode-se orgulhar de ser a maior da história do mundo: desde a sua população; a extensão geográfica da sua influência; os séculos de primazia; a organização da sociedade; a primazia do direito; a durabilidade das suas construções; e a sua habilidade para integrar o melhor dos seus vizinhos.

Ah, e depois havia o facto de se ter tornado a sede da mais importante religião da história da humanidade…

Estava à espera que, depois desta correcta análise das assinaláveis virtudes de Roma, o autor do podcast elogiasse a sabedoria de São Pedro por ter sedeado a Igreja em Roma. Pareceu-me ser um historiador sério. Certamente veria que a Igreja Católica se tornou tão “importante” porque as suas virtudes espelhavam no campo espiritual as que Roma exibia no secular.

Pelo contrário, ele lamentou a decisão de Pedro, porque “o envolvimento da Igreja com a autoridade romana, depois do édito de Milão, levou rapidamente à sua corrupção”.

Fiquei desiludido por ouvi-lo a repetir esta visão tão familiar, mas não surpreendido, afinal de contas o assunto deste episódio não era a Igreja, talvez ele não tivesse pensado muito no assunto.

Mas os seus comentários demonstravam que ele era um cristão praticante. Mesmo do ponto de vista das Escrituras, dei por mim a pensar se ele alguma vez tinha meditado na Paixão. Porque a “corrupção” começou muito antes do ano 313. Na verdade, esteve presente desde o início, e com o conhecimento e aparente autorização de Nosso Senhor.

Estou a falar, claro, de Judas Iscariote. Olhemos para ele de novo. A fundação da Igreja deu-se com a escolha dos 12 Apóstolos. Judas estava em pé de igualdade com todos eles, à excepção de Pedro. Não o podemos despromover ou excluir retroativamente. Judas era um dos 12, e podemos colocá-lo à mesma altura que qualquer outro, na medida em que o ocupante de um cargo pode substituir qualquer outro com o mesmo cargo.

Uma boa definição de corrupção é o aproveitamento de um cargo de confiança para ganho próprio. Por exemplo, um funcionário que aceita um suborno é, à luz desta definição, corrupto. E por isso Judas era corrupto. Ele aproveitou-se da sua ligação a Jesus, sendo apóstolo, para ganhar 30 moedas de prata.

Sabemos como é que a coisa correu. As autoridades queriam prender, julgar e condenar Jesus em segredo, para que a multidão não se manifestasse. Por isso, Jesus tinha de ser identificado e capturado antes do amanhecer, antes de poder fugir (como acreditavam ser possível). Judas era importante neste processo para o identificar, com um beijo.

Acreditamos que Judas era movido por mais do que apenas avareza. Tendemos a favorecer as ideias especulativas, sem qualquer base nas Escrituras – que, por exemplo, Judas queria provocar uma crise que levaria Jesus a assumir o poder, enquanto Messias; ou que como Caim, Judas estava com ciúmes dos apóstolos que Jesus parecia preferir. E por aí fora.

Porém, o único vício de Judas de que ouvimos falar na Bíblia é o seu amor pelo dinheiro. João diz que Judas se queixou do dinheiro gasto no nardo puro, porque guardava a bolsa comum e dela tirava o que queria (Jo. 12,6). Somos tentados a descartar a ganância como explicação, porque parece demasiado fraca. Trair o Messias por uma pequena soma?

Só que não era assim tão pequena. Se dava para comprar um campo na cidade, serviria para comprar uma quinta no campo. E muitas pessoas fazem coisas inacreditáveis por pequenas quantias de dinheiro. Esaú vendeu a sua primogenitura por um prato de lentilhas (Gen. 25, 29-32). Há quem aposte a aliança. Richard Rich traiu São Tomás Moro “por Gales”. 

São Tomás de Aquino escreve que uma das filhas do vício capital da avareza é a traição. Porquê? Porque a avareza procura possuir por excesso, pela força ou pela fraude, e a fraude, na medida em que afecta outra pessoa, é uma traição – “como no caso de Judas”, diz o santo, “que traiu Cristo por cobiça”. Resistimos a essa simples explicação porque o caso de Judas e de Cristo revela bem a irracionalidade de toda a avareza.

Por isso, a corrupção estava presente desde o início, e a sua consequência foi infinitamente grave.

Mais, a corrupção parece ter-se estendido para além de Judas, pelo menos potencialmente e virtualmente, no sentido de que cada um dos apóstolos, quando ouviram o Senhor dizer que um deles o iria trair, pensou se não seria ele o traidor (Jo. 13, 21-30).

Se naquele tempo houvesse jornais o facto mais evidente a relatar sobre os apóstolos, a melhor coscuvilhice, seria de que eles eram corruptos e tinham traído o seu mestre.

Mas pensemos agora no seguinte.

1. Esta corrupção estava presente com o tranquilo conhecimento prévio e “vontade permissiva” do Senhor. “Não fui eu que os escolhi, os Doze? Todavia, um de vocês é um diabo!” (Jo. 6, 70).

2. De forma alguma o “cargo” Apostólico de Judas foi afetado pela sua corrupção. Matias foi selecionado para o preencher. (Actos 1, 24-25)

3. A pregação de Judas e os seus baptismos mantiveram-se válidos. Nada teve de ser refeito ou desfeito.

4. Jesus chega mesmo a garantir a “limpeza” de todos os Doze, excepto na medida em que alguém peca pessoalmente. “Quem já se banhou precisa apenas lavar os pés; todo o seu corpo está limpo. Vocês estão limpos, mas nem todos” (Jo. 13, 10).

A Igreja fundada por Cristo era “corrupta” desde o início, da mesma forma que sempre seria corrupta (incluindo agora), em pessoas particulares, desviadas pelo demónio. Mas enquanto Igreja, nas suas instituições, cargos, poderes, sacramentos e orientação divina – enquanto Corpo de Cristo – era santa da mesma forma que permanece santa.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 27 de Abril de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



Tuesday, 3 May 2022

EUA prestes a proibir o aborto? Sim, talvez e não

Samuel Alito, juiz do Supremo Tribunal

Talvez já tenham ouvido dizer que o Supremo Tribunal dos Estados Unidos está prestes a publicar uma decisão que poderá anular a famosa sentença do caso “Roe v. Wade” que legalizou o aborto nos Estados Unidos, a nível federal.

Neste artigo vou tentar explicar o que se passa e quais poderão ser as implicações. Para quem não me conhece, esclareço que sou convictamente pró-vida, isto é, defendo que o aborto é sempre a pior solução para o problema de uma gravidez indesejada.

Esta decisão é definitiva?

De todo… Aliás, neste momento, nem decisão é, é apenas um rascunho de uma possível decisão da maioria dos juízes do Supremo Tribunal, em relação a um caso que envolve a tentativa de um Estado de restringir o aborto para além dos limites actualmente admitidos nos Estados Unidos. Limites esses que radicam na decisão Roe V. Wade.

O rascunho da decisão, com mais de 90 páginas, foi divulgado à imprensa, o que por si é uma coisa extraordinariamente rara. É verdadeiro? Tudo indica que sim, mas isso não garante que venha a ser aceite.

Quando os juízes deliberam sobre um caso, fazem uma primeira votação. Com base nessa votação um dos juízes é nomeado para escrever a opinião da maioria. Outros podem escrever opiniões diferentes, ou mesmo dissensões.

Quando essa opinião é finalmente conhecida, no seu estado final, os juízes votam novamente e aí pode haver alterações. Isto é, um juiz pode mudar de opinião no final, por não concordar com o texto em causa, ou pode então simplesmente manter o seu voto e escrever outra opinião.

Neste momento, ao que tudo indica, haverá uma maioria de pelo menos 5 para 4, sendo que um dos juízes conservadores, John Roberts, não terá alinhado na anulação por inteiro de Roe. Para a decisão final se inverter seria necessário que um desses quatro juízes mude a intenção de votos. Isso parece pouco provável, mas não se pode descartar a possibilidade.

O que está em causa? Roe v. Wade

O caso de Roe v. Wade remonta a 1973. Norma McCorvey (Jane Roe) processou o Estado porque queria fazer um aborto, mas o estado em que vivia, Texas, não o permitia salvo em caso de necessidade para salvar a vida da mulher. O caso chegou ao Supremo Tribunal, que decidiu, por maioria de 7 contra 2, que esse direito lhe estava consagrado na Constituição.

A verdade é que a Constituição americana nunca menciona o aborto, mas os juízes conseguiram descortinar o tal direito ao aborto no “direito à privacidade”, que de facto existe. Argumentaram que o “direito à privacidade” de Norma McCorvey impede o Estado de se intrometer entre ela e o seu médico, e de a impedir de fazer um aborto se assim o entendesse. A decisão restringiu esse direito, contudo, à evolução da gravidez. Durante o primeiro trimestre o Governo – seja federal, seja estatal – não pode restringir de todo o aborto; no segundo trimestre pode apenas exigir certos requisitos de saúde e no terceiro o aborto pode ser proibido, desde que as leis incluam excepções nos casos em que a vida da mãe está em perigo.

O aborto era ilegal antes de 1973?

Não, não era. Antes de 1973 a questão cabia aos estados. Havia estados onde o aborto era legal. A diferença é que a decisão do Roe v. Wade forçou todos os estados a reconhecer um direito constitucional ao aborto.


E agora, vai passar a ser ilegal em todo o país?

Não. A anulação de Roe v. Wade, por si, não criminaliza o aborto. Segundo a decisão revelada pela imprensa – que ainda não é oficial – o Supremo Tribunal não considera que o aborto viola o direito constitucional à vida, simplesmente rejeita que exista na constituição um direito ao aborto.

O que vai acontecer agora, ou a partir do momento em que a decisão se torna lei, é que a questão voltará aos estados.

Há pelo menos 18 estados que têm leis que estão suspensas, por causa do Roe v. Wade, mas que no caso de este ser anulado entram em vigor e que proíbem completamente o aborto, outros têm leis que proíbem o aborto em quase todas as circunstâncias, excepto em caso de malformação, perigo para a vida da mãe, ou incesto. No total, é natural que pelo menos 22 estados passem a restringir totalmente ou pelo menos em larga medida o aborto legal.

Então como ficamos? O Supremo vai proibir o aborto ou não?

Sim, não e talvez. Todos os três.

Sim, na medida em que, a confirmar-se esta sentença, o aborto passará a ser ilegal em vários estados.

Não, na medida em que o aborto continuará a ser legal em vários estados, aliás, na maioria, e o tribunal não obriga ninguém a proibir o aborto.

Talvez, na medida em que neste momento nem sabemos se a decisão é verídica e se, caso seja, será idêntica à decisão final.

E quando é que sabemos?

As decisões do Supremo Tribunal nestes casos mais fracturantes costumam ser divulgados em Junho. Antes disso vamos ter de continuar todos a especular.

Mas caso se confirme, a luta dos pró-vida acabou, correcto?

Não! Ou melhor, esperemos sinceramente que não.

O aborto é um mal sempre. Não é menos mal por ser legal, nem por ser ilegal e “escondido”. Não me entendam mal, o reconhecimento formal de que a matança de seres humanos nascituros não é um direito fundamental é uma excelente notícia, da perspectiva de quem acredita que esses seres humanos não são inferiores, em dignidade, que qualquer outro ser humano. Mas isso, só por si, não deve satisfazer quem se diz pró-vida. É preciso continuar a criar condições para que as mulheres não se sintam sequer pressionadas ou tentadas a abortar quando se vêem grávidas de forma inesperada, ou com em circunstâncias difíceis. Essa deve ser sempre a missão principal.

E Portugal no meio de tudo isto?

Evidentemente este é um assunto interno dos Estados Unidos, e nada tem a ver com a realidade portuguesa, excepto no detalhe de que tudo o que se passa nos Estados Unidos acaba por afectar outros países, de uma forma ou de outra. Este passo nos EUA vai fortalecer e encorajar os movimentos pró-vida em diferentes partes do mundo, e em Portugal também. O tempo dirá da magnitude desse efeito.

Thursday, 28 April 2022

Vias Sacras, polémicas e obsessões: Hospital de Campanha - Episódio 4

Neste episódio o Duarte, a Inês e eu falamos sobre a Via Sacra de Sexta-feira Santa em Roma, analisando algumas das meditações que este ano se centraram em diferentes tipos de vida familiar, com partilhas extraordinárias.

Mas a Via Sacra foi também alvo de alguma polémica, com os católicos ucranianos a manifestar o seu desagrado pela ideia de juntar uma família ucraniana e outra russa na 13ª Estação. Afinal de contas do que se queixam os ucranianos em relação a Roma e ao Papa Francisco? Têm razões para isso? Falámos bastante sobre o tema.

Por fim, olhámos para a obsessão do Governo e de certos partidos com a legalização da Eutanásia em Portugal.


Ouçam, partilhem, comentem connosco! Nós estamos muito contentes com este projecto e o feedback que temos tido até agora tem sido bastante positivo. 

Podem ouvir no Spotify ou no Google.

Wednesday, 27 April 2022

A Resposta Alemã

Stephen P. White
A semana passada 70 bispos de vários países escreveram ao bispo Georg Bätzing, presidente da Conferência Episcopal Alemã, para expressar a sua crescente preocupação com o rumo do “Caminho Sinodal” alemão. (Entretanto outros bispos acrescentaram os seus nomes à carta.) Tratou-se da mais recente de uma série de intervenções a pedir aos alemães para pôr o pé no travão. A resposta do bispo Bätzing, publicada três dias mais tarde, não contribuiu muito para apaziguar essas preocupações.

Na verdade, o bispo Bätzing mostrou-se mais preocupado em descartar do que em confrontar as críticas. Disse-se mesmo “espantado” com as preocupações dos seus irmãos bispos em relação ao Caminho Sinodal, o que não deixa de ser estranho, tendo em conta que o mesmo género de preocupações tem sido expressado publicamente por outros, incluindo os bispos nórdicos, os bispos polacos (em mais do que uma ocasião) e até pelo próprio Papa Francisco.

Segundo Bätzing, o Caminho Sinodal “é precisamente orientado não por teorias sociológicas ou ideológicas, mas rumo às fontes centrais de conhecimento da fé: Escritura e Tradição, o Magistério e Teologia, bem como o sentido de fé dos fiéis e os sinais dos tempos, interpretados à luz do Evangelho”.

“Esta orientação básica”, continua o bispo Bätzing, “determina as considerações do Caminho Sinodal numa cuidadosa reflexão teológica. Logo, não é correcto dizer que existe um perigo de cisma a emanar da Igreja Católica na Alemanha”.

Claro que a preocupação manifestada pelas recentes intervenções episcopais não é de que o Caminho Sinodal tenha deixado de “reflectir” sobre a “Escritura e a Tradição, o Magistério e a Teologia”, mas que a visão germânica destas “fontes centrais” diverge de – e é mesmo incompatível com – o resto da Igreja. A confiança cega nas visões divergentes não diminui o perigo de cisma, muito pelo contrário.

É importante compreender o grau em que a crise dos abusos sexuais moldou o Caminho Sinodal alemão. O bispo Bätzing traça uma ligação clara entre a crise de abusos que abalou o seu país nos últimos anos e a necessidade de reformas significativas. “O Caminho Sinodal”, escreve Bätzing, “é a nossa tentativa, na Alemanha, de confrontar as causas sistemáticas da crise dos abusos e do seu encobrimento, que causou um sofrimento incomensurável a tanta gente na Igreja e através da Igreja.” É uma posição compreensível, e claramente partilhada por muitos na Alemanha”.

À luz desta realidade, algumas das reformas a ser consideradas ou propostas pelo Caminho Sinodal fazem sentido. Por exemplo, reformar o processo de nomeação dos bispos, a formação dos seminaristas e como são tratados os casos de abusos praticados por padres. Estes são assuntos evidentes, se bem que complexos, com os quais muitas igrejas se têm debatido, e continuarão a debater-se durante muitos anos. A Igreja nos Estados Unidos tem a Carta de Dallas há já duas décadas e continuamos a lidar com estas mesmas questões.

Por mais complicadas que sejam algumas destas questões, a criação de padrões de responsabilização, a reforma das nomeações episcopais ou a formação dos seminaristas são, de certa forma, a parte mais fácil. Mudar a cultura clericalista que instintivamente protege os seus é muito mais difícil. O abuso de poder não é um problema que se possa eliminar simplesmente passando o poder de um grupo (clero) para outro (leigos), como se os leigos fossem de alguma forma imunes à tentação de abusar da autoridade. Claro que a concepção da Igreja pela perspectiva do “poder” é, em si, um grave erro.

Na sua carta de 2019 à Igreja alemã, o Papa Francisco alertou para uma espécie de pelagianismo que espera “salvar” a Igreja através de reformas estruturais e organizacionais: 

Seguindo este caminho, a Igreja poderia eliminar tensões da sua vida, estar “em ordem e em sintonia”, mas isso significaria apenas que com o passar do tempo a Igreja adormeceria e o coração do nosso povo ficaria amestrado e mirrado até que a força vital e evangélica que o Espírito nos quer conceder se silenciasse. Este seria o grande pecado da mundanidade e do espírito antievangélico mundano. Teríamos uma Igreja boa, bem-organizada e até “modernizada”, mas sem alma e sem a novidade do Evangelho. Viveríamos num cristianismo vaporoso, sem sabor evangélico.

O Papa Francisco tem feito declarações semelhantes no passado a bispos americanos. As reformas organizacionais são importantes, mas a conversão – e mesmo a evangelização – são mais essenciais.


Por mais que se fale na necessidade de uma reforma sem medos, na sequência da crise de abusos, as propostas mais controversas que nos chegam do Caminho Sinodal alemão não têm qualquer relação evidente com esta crise de abusos. Na verdade, muitas das recomendações que saíram da última sessão do Caminho Sinodal são idênticas ao cardápio de assuntos que os católicos progressistas têm estado a propor há décadas: acabar com o celibato, ordenar mulheres, abandonar os ensinamentos da Igreja sobre a natureza da sexualidade e dos actos humanos (isto é, deixar de parte as proibições “antiquadas” da Igreja sobre a contracepção e os actos homossexuais).

Uma Igreja que perdeu a fé nos seus próprios ensinamentos não pode anunciar o Evangelho de forma credível. E a solução não passa por escolher ensinamentos mais socialmente aceitáveis. A fé na Alemanha não será ressuscitada por uma Igreja que vê nos seus próprios ensinamentos obstáculos a ultrapassar, em vez de uma Boa Nova a proclamar.

E esse é outro ponto que o Papa Francisco levantou com os bispos alemães. “A Igreja começa por se evangelizar a si mesma. Sendo uma comunidade de crentes, uma comunidade de esperança partilhada e vivida, uma comunidade de amor fraterno, precisa de ouvir recorrentemente aquilo em que deve acreditar, as razões para a sua esperança, o novo mandamento do amor”.

Uma Igreja sinodal é uma Igreja que escuta. Ouvimos isto vezes sem conta. Só podemos esperar que a Igreja alemã aprenda a “ouvir recorrentemente aquilo em que deve acreditar”, especialmente numa altura em que o número de bispos a sugerir cautela continua a aumentar.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing no sábado, 23 de Abrilo de 2022)

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Thursday, 21 April 2022

Francisco sobre Ucrânia e Ucrânia sobre Francisco, Aleluia, Aleluia!

É justo pôr em causa a posição de Francisco sobre a guerra na Ucrânia? O facto de ele não se ter referido diretamente à Rússia, nem a Putin, significa que não condena a invasão? Porque é que nos últimos dias ele tem sido criticado por alguns líderes católicos da Ucrânia? E o que é que tudo isto tem a ver com as duas senhoras que seguram na cruz nesta foto?

São questões importantes, que analiso aqui, da forma mais simples possível, e que vos aconselho a ler.

Espero que tenham tido todos uma Santa Páscoa! Não se esqueçam que na Ucrânia ainda estão nas vésperas da Sexta-feira Santa. E não é uma metáfora… Estão mesmo. Em todo o caso, este ano, como é sua tradição, o The Catholic Thing publicou no Domingo de Páscoa um texto de uma grande figura católica. Tinham saudades de ler coisas de João Paulo II? Também eu. Esta sua bênção Urbi et Orbi de Domingo de Páscoa de 2001 é uma beleza.

Se ainda não ouviu o podcast Hospital de Campanha da semana passada, aproveite para o fazer agora. Eu e a Inês Dias da Silva conversámos com uma voluntária que esteve na linha da frente no acolhimento a refugiados na Polónia e falámos das virtudes, mas também das fraquezas, deste esforço colectivo.

Depois de vários dias sem o poder fazer, voltei a juntar uma batelada de textos ao post onde tenho recolhido declarações de líderes religiosos sobre a guerra na Ucrânia. Nomeadamente do Papa Francisco, de Sviatoslav Shevchuk, do metropolita Epifânio e uma interessantíssima entrevista dada pelo grão-mufti da Ucrânia, em que explica porque razão grande parte do mundo árabe está no bolso de Moscovo.

A posição de Francisco sobre a Ucrânia, e a posição da Ucrânia sobre Francisco

Nos últimos dias têm surgido alguns sinais de desagrado da parte de figuras religiosas ucranianas, nomeadamente da Igreja Católica, em relação ao Papa Francisco e ao Vaticano.

Há duas grandes razões para esse desagrado:

   1. O facto de Francisco continuar a insistir em manter os planos para se encontrar com o Patriarca Cirilo, de Moscovo, apesar de este teimar em manter a ligação a Vladimir Putin, de falar da guerra na Ucrânia como se tratasse de uma guerra santa e benzer as forças armadas que partem para a Ucrânia para matar ucranianos e ocupar o seu país.

2.   O facto de o Vaticano ter planeado colocar duas famílias – uma russa e uma ucraniana – a carregar juntas a cruz na décima terceira estação da Via Sacra na Sexta-feira Santa.

Acresce que alguns lamentam o facto de Francisco nunca ter referido pelo nome Vladimir Putin, nem a Rússia, nas suas condenações da guerra.

Alguns destes protestos são compreensíveis, outros nem tanto. Mas o que não é aceitável é concluir que Francisco tem uma posição dúbia sobre esta guerra, nem sobre quem é culpado pela tragédia que se está a desenrolar na Ucrânia.

Aqui no blog tenho juntado todas as declarações dos principais líderes religiosos relevantes sobre esta guerra, desde o seu início. Pelas minhas contas, para além do líder da Igreja Greco-Católica da Ucrânia, que divulga todos os dias uma mensagem de vídeo sobre a situação, e do líder da Igreja Ortodoxa Autocéfala da Ucrânia, o Papa Francisco é o que mais se tem expressado sobre o conflito. Eu conto 17 pronunciamentos públicos, para além de quatro gestos significativos: a ida em pessoa à embaixada da Rússia na Santa Sé, o telefonema a Zelensky, o telefonema ao líder da Igreja Greco-Católica e a conversa por videoconferência com o Patriarca de Moscovo.

Mas mais importante que a quantidade é mesmo o conteúdo das declarações do Papa.

·       Francisco começou logo por dizer, no dia 6 de Março, que esta é uma guerra, desmentindo assim linha oficial de Moscovo de que se trata de uma “operação militar especial”.

·      Antes, a 27 de Fevereiro, quarto dia da guerra, referiu-se ao “povo sofredor da Ucrânia” e disse estar de “coração partido” com o que se está a passar.

·   No já referido dia 6 anunciou ainda o envio de dois cardeais para a Ucrânia, em sua representação.

·       No dia 13 de Março pediu que se pusesse fim ao “massacre” de Mariupol e referiu a “barbárie” da matança de crianças. Nesse mesmo dia publicou uma oração especial pelo fim da guerra na Ucrânia em que identifica Cristo com os bebés que nascem debaixo de bombas em Kiev e com as crianças que morrem nos braços das suas mães em Kharkiv, pedindo a Deus que “trave a mão de Caim”, que aqui é claramente identificado com a Rússia.

·     No dia 15 de Março classificou o ataque à Ucrânia como um “abuso perverso do poder e dos interesses partidários”.

·     No dia 20 de Março referiu-se à guerra como uma “agressão violenta contra a Ucrânia” e um “massacre sem sentido”, falando de matanças e atrocidades. Disse ainda que a guerra é desumana e foi mais longe, apelidando-a de “sacrilégio”, no que pode ser entendido com uma resposta aos que a consideraram uma guerra santa.

·     No dia 2 de Abril, em Malta, disse: “Mais uma vez alguma potência, tristemente apanhada em reivindicações anacrónicas de interesse nacional, está a provocar e fomentar conflito”. No mesmo discurso classificou a pretensão russa de invadir a Ucrânia de “infantil” e disse que “essa criancice, infelizmente, não desapareceu. Reemergiu com força nas seduções da autocracia, novas formas de imperialismo, agressividade em larga escala”.

·      No dia 3 de Abril, ainda em Malta, falou na “guerra injusta e selvagem” na Ucrânia e mais tarde, nesse mesmo dia, voltou a dizer que esta guerra, em particular, é um “sacrilégio”.

·     No dia 6 de Abril referiu-se ao massacre em Bucha, um massacre que os russos dizem que nunca aconteceu, e exibiu publicamente uma bandeira da Ucrânia vinda precisamente dessa cidade.

·     No dia 10 de Abril referiu-se aos “odiosos massacres e cruéis atrocidades levadas a cabo contra civis indefesos”.

·      No sermão de Domingo de Ramos, também no dia 10 de Abril, disse que na guerra Cristo volta a ser crucificado.

·      No dia 13 de Abril disse que esta guerra “é um ultraje contra Deus, uma traição blasfema da Ceia do Senhor, uma preferência pelo falso Deus deste mundo”.

·      E finalmente, na bênção Urbi et Orbi, no dia 17 de Abril, Domingo de Páscoa, disse guardar no coração as muitas vítimas ucranianas, descrevendo-as em detalhe.

A tudo isto acresce o envio dos dois cardeais à Ucrânia, e tudo o que eles têm dito e feito para expressar o horror perante a tragédia e a solidariedade para com a Ucrânia, com o cardeal Krajewski a dizer que tal como Cristo, a Ucrânia ressuscitará.

Portanto não, o Papa não se referiu diretamente a Putin, nem invocou o nome da Rússia, mas é preciso uma enorme dose de má vontade para interpretar as suas muitas palavras e gestos desde que esta guerra começou como qualquer coisa que não seja uma duríssima condenação da Rússia e do regime russo, como responsáveis por esta guerra e tudo o que ela espoletou.

Arrumada esta questão, analisemos então as principais queixas dos ucranianos em relação a Francisco.

A insistência do Papa em encontrar-se com Cirilo é de facto complicada de compreender. Cirilo é a figura religiosa que saiu mais desacreditada em todo este conflito. Incapaz de sair debaixo da asa de Vladimir Putin, incapaz de perceber que esta estratégia é um enorme tiro no pé naquilo que ele considera serem os seus principais objectivos estratégicos, nomeadamente manter os ortodoxos ucranianos debaixo da autoridade de Moscovo e, também, de se afirmar como o principal líder na comunhão ortodoxa, remetendo o Patriarca de Constantinopla para segundo lugar, se tanto.

Depois deste terrível fiasco, muito dificilmente Cirilo será levado a sério pelo mundo, incluindo o mundo religioso. Nesse sentido, um encontro com o Papa é tudo o que ele pode desejar para tentar projectar alguma credibilidade. Com tudo o que se tem passado, porque é que o Papa insiste em dar-lhe esta “borla”?

Não posso fingir saber o que se passa na Santa Sé nem no coração do Papa, mas posso especular que o Papa sabe que por mais que Cirilo esteja na lama, neste momento, não deixa de ser o líder da maior Igreja Ortodoxa do mundo, e que o diálogo ecuménico com o mundo ortodoxo nunca irá a lado nenhum sem a Rússia a bordo. Se as outras igrejas ortodoxas estão dispostas a entrar no mesmo barco que Cirilo ou não, é outra questão, interna, mas o Vaticano não pode simplesmente cortar os laços.

Por outro lado, Cirilo sabe que o Papa poderia perfeitamente não fazer isto, sacudir as mãos dele, como muitos fizeram, e por isso é possível que ele se revele agradecido a Francisco pelo gesto de o manter à tona de água, e que isso dê frutos ecuménicos no futuro.

Finalmente, por mais tentador que seja analisar tudo isto pela perspectiva do poder, devemos lembrar-nos que a lógica do Cristianismo não é a do poder e que o Papa sabe isso.

Chegamos assim ao segundo ponto que causou atrito nos últimos dias. A decisão do Vaticano de ter duas famílias, uma russa e outra ucraniana a escrever em conjunto uma das meditações da Via Sacra caiu muito mal na Ucrânia. E não foi só entre ortodoxos, mesmo o Arcebispo-maior Sviatoslav Shevchuk, da Igreja Greco-Católica da Ucrânia, condenou a iniciativa, sugerindo que ela passava a imagem de que o sofrimento dos dois povos era equivalente.

Perante a pressão, o Vaticano cedeu e mudou a meditação, que foi substituída apenas por um apelo à oração silenciosa pela paz, enquanto duas jovens mulheres, uma russa e uma ucraniana, seguravam na cruz.

Mesmo essa versão mais “light” não foi aceite pelos ucranianos, e pela primeira vez em anos os meios de comunicação católicos do país não transmitiram a cerimónia em directo.

Esta reacção dos ucranianos apenas se compreende no contexto da enorme injustiça a que estão a ser sujeitados. Mas compreender não é dar-lhes razão. Pelo contrário, diria que imagens de russos e ucranianos lado-a-lado, a condenar a guerra, são exactamente o que faz falta neste momento. Houvesse mais!

É importante não confundir o regime de Putin com o povo russo e é importante não esquecer que quando esta guerra acabar há dois países enormes e dois povos numerosos e antigos que precisarão de encontrar forma de sarar as feridas e viver em conjunto. Qualquer gesto nesse sentido parece-me ser de louvar em vez de criticar.

Infelizmente estas críticas ucranianas não são novas. Na recente conferência em que participei, organizada pela Capela do Rato, o padre da Igreja Ortodoxa Moldava, que está ligada a Moscovo, disse que tinha tentado ir com padres da Igreja Ortodoxa Russa em Portugal prestar apoio aos refugiados ucranianos que chegaram a Cascais, mas foram impedidos de o fazer por ordem da Embaixada da Ucrânia em Portugal. Convém esclarecer que o padre Petru tem falado abertamente contra a guerra e até – de forma corajosa – contra a liderança da Igreja Ortodoxa Russa, e ainda que os três padres russos em Portugal neste momento são signatários da Carta dos Padres Russos pela Paz, que é dos documentos mais bonitos que já li – do ponto de vista cristão – contra esta guerra. Mantê-los longe de refugiados porque são da “confissão errada” foi uma decisão cruel e injusta.

Esta insistência em ver a realidade de uma perspectiva nacional/étnica é, infelizmente, uma das fraquezas inerentes ao Cristianismo oriental. Mas Roma, por mais que simpatize com a Ucrânia e esteja convencida da razão da sua causa, não pode partilhar dessa visão reduzida.

Wednesday, 20 April 2022

Ressurgiu a Vida do Género Humano

João Paulo II
1. “Na ressurreição de Cristo, ressurgiu a vida do género humano”

Que o anúncio pascal chegue a todos os povos da terra

e toda a pessoa de boa vontade se sinta protagonista

neste dia que o Senhor fez,

dia da sua Páscoa,

no qual a Igreja, com sentimentos de júbilo,

proclama que o Senhor ressuscitou verdadeiramente.

Este grito, saído do coração dos discípulos

no primeiro dia depois do sábado,

atravessou os séculos e agora,

neste preciso momento da história,

volta a alentar as esperanças da humanidade

com a certeza imutável da ressurreição de Cristo

Redentor do homem.

2. “Na ressurreição de Cristo, ressurgiu a vida do género humano”.

O espanto incrédulo dos apóstolos e das mulheres,

que tinham ido ao sepulcro ao nascer do sol,

hoje torna-se experiência comum de todo o Povo de Deus.

Enquanto o novo milénio dá os primeiros passos,

desejamos confiar às jovens gerações

a certeza fundamental da nossa existência:

Cristo ressuscitou e n'Ele ressurge a vida do género humano.

“Cristo ontem, Cristo hoje

Cristo sempre, meu Salvador”.

Volta à memória este cântico de fé,

que tantas vezes, ao longo da recente caminhada jubilar,

repetimos, aclamando Aquele

que é “o Alfa e o Ómega, o Primeiro e o Último,

o Princípio e o Fim” (Ap 22, 13).

A Ele permanece fiel a Igreja peregrina

“entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus” (S. Agostinho).

Levanta o olhar para Ele e não teme.

Caminha fixando o seu rosto,

e repete aos homens do nosso tempo

que Ele, o Ressuscitado,

é “o mesmo ontem, hoje e sempre” (Heb 13, 8).

3. Naquela dramática Sexta-feira da Paixão,

que viu o Filho do Homem

feito “obediente até à morte

e morte de cruz” (Fil 2, 8),

encerrava-se a existência terrena do Redentor.

Já morto, foi Ele depositado à pressa no sepulcro,

ao ocaso do sol. Ocaso singular aquele!

Aquela hora obscurecida pelas trevas ameaçadoras

marcava o fim do “primeiro acto” da obra da criação,

transtornada pelo pecado.

Parecia o êxito da morte, o triunfo do mal.

Mas não, na hora do gélido silêncio do túmulo,

era levado ao seu pleno cumprimento o desígnio salvífico,

tinha início a “nova criação”.

Feito obediente por amor até ao sacrifício extremo,

Jesus Cristo é agora “exaltado” por Deus

que “Lhe deu um nome que está acima de todo o nome” (Fil 2, 9).

Por este nome, retoma esperança toda a existência humana.

Por este nome, o ser humano

é arrebatado ao poder do pecado e da morte

e devolvido à Vida e ao Amor.

4. Neste dia, o céu e a terra cantam

“o nome” inefável e sublime do Crucificado que ressuscitou,

d'Aquele que realizou o prodígio mais desconcertante da história.

Tudo parece como antes, mas na realidade já nada é como antes.

Ele, Vida que não morre, redimiu

e reabriu à esperança toda a existência humana.

“Passou o que era velho,

eis que tudo se fez novo” (2 Cor 5, 17).

Todo projecto e desígnio do ser humano,

desta nobre e frágil criatura,

tem hoje um “nome” novo em Cristo ressuscitado dos mortos,

porque, n'Ele, “ressurgiu a vida do género humano”.

Realiza-se plenamente, nesta nova criação,

a palavra do Génesis: “E Deus disse:

‘Façamos o homem à nossa imagem,

à nossa semelhança’” (Gen 1, 26).

Na Páscoa, Cristo,

novo Adão que Se tornou “espírito vivificante” (1 Cor 15, 45),

resgata o velho Adão da derrota da morte.

5. Homens e mulheres do terceiro milénio,

a todos se destina o dom pascal da luz,

que põe em fuga as trevas do medo e da tristeza;

a todos se destina o dom da paz de Cristo ressuscitado,

que quebra as cadeias da violência e do ódio.

Redescobri hoje, com alegria e admiração,

que o mundo deixou de ser escravo de acontecimentos inelutáveis.

Este nosso mundo pode mudar:

a paz é possível mesmo em lugares onde há demasiado tempo

se combate e morre, como na Terra Santa e Jerusalém;

é possível nos Balcãs, já não condenados

a uma aflitiva incerteza com o risco

de tornar vã qualquer proposta de acordo.


E tu, África, terra martirizada

por conflitos sempre na espreita,

levanta esperançada a cabeça

confiando na força de Cristo ressuscitado.

Graças à ajuda d'Ele, também tu, Ásia,

berço de seculares tradições espirituais,

podes vencer o desafio da tolerância e da solidariedade.

E tu, América Latina, depósito de jovens promessas,

só em Cristo encontrarás capacidade e coragem

para um desenvolvimento respeitador de todo o ser humano.

Vós, homens e mulheres dos vários Continentes,

extraí do seu túmulo, já vazio para sempre,

o vigor necessário para derrotar

as forças do mal e da morte,

e colocar toda a pesquisa e avanço técnico e social

ao serviço dum futuro melhor para todos.

6. “Na ressurreição de Cristo, ressurgiu a vida do género humano”.

Desde que o vosso túmulo, ó Cristo, foi encontrado vazio

e Cefas, os discípulos, as mulheres,

e “mais de quinhentos irmãos” (1 Cor 15, 6)

Vos viram ressuscitado,

começou o tempo em que a criação inteira

canta o vosso nome ”que está acima de todo o nome”

e espera o vosso regresso definitivo, na glória.

Neste tempo, entre a Páscoa

e a chegada do vosso Reino sem fim,

tempo que se assemelha às dores de um parto (cf. Rom 8, 22),

amparai-nos no compromisso de construir um mundo mais humano,

onde as chagas do sofrimento humano se vão cicatrizando,

graças ao bálsamo do vosso Amor que venceu a morte.

Vítima pascal oferecida pela salvação do mundo,

fazei que não desfaleçamos neste nosso compromisso,

mesmo quando o cansaço tornar pesados os nossos passos.

Vós, ó Rei vitorioso, concedei-nos a nós e ao mundo

a salvação eterna!


O Papa João Paulo II nasceu no dia 18 de Maio de 1920 em Wadowice, na Polónia, e foi eleito Papa no dia 16 de Outubro de 1978. Foi declarado Santo pelo Papa Francisco no dia 27 de Abril, 2014

Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 17 de Abril de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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