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Wednesday, 1 March 2023

Recomendações para a Quaresma

Stephen P. White

Estou cheio de vontade de viver esta Quaresma. Quando era miúdo costumava temer o início da Quaresma. O desconforto e a inconveniência de ter de aguentar o miserável sacrifício a que me propunha nesse ano – deixando de comer doces, de ver televisão, ou algo do género – eram uma seca. Quando fiz cinco ou seis anos a Quarta-feira de Cinzas calhou nos meus anos. Terrível.

À medida que me tornei mais velho fui percebendo como as disciplinas da Quaresma podem ser edificantes e construtivas. Como disse recentemente a um amigo, já cheguei ao ponto em que até anseio a chegada da Quaresma. Trata-se de uma oportunidade calendarizada para um reforço espiritual. Dá-nos aquela injecção extra de disciplina e de estrutura que só fazem bem ao corpo.

Os pequenos confortos podem tornar-se dependências. E a Igreja, na sua sabedoria, chama-nos a fazer penitência e jejum, não apenas como forma de fortalecer a nossa vontade interior, mas para nos ajudar a livrar-nos dessas dependências. O jejum, afinal de contas, não é simplesmente uma questão de “abdicar” ou mesmo de “redimir” os nossos pecados. Trata-se de nos libertar da dependência de amores concorrentes ou desordenados para podermos ser livres de amar como devemos. E essa liberdade transforma o nosso jejum e penitência de mera obrigação em oportunidade para partilhar do sofrimento de Cristo, que é a nossa esperança.

Desta perspectiva, o sofrimento não é apenas uma coisa a aguentar, mas está associado à esperança. O Papa Bento XVI escreveu sobre a ligação entre o sofrimento e a esperança na sua encíclica Spe Salvi, onde incluiu uma reflexão sobre a prática de “oferecer” pequenas dificuldades. Não estava a escrever especificamente sobre a Quaresma, mas aplica-se perfeitamente:

“Fazia parte de uma forma de devoção – talvez menos praticada hoje, mas não vai ainda há muito tempo que era bastante difundida – a ideia de poder ‘oferecer’ as pequenas canseiras da vida quotidiana, que nos ferem com frequência como alfinetadas mais ou menos incómodas, dando-lhes assim um sentido. (…) Deste modo, também as mesmas pequenas moléstias do dia-a-dia poderiam adquirir um sentido e contribuir para a economia do bem, do amor entre os homens. Deveríamos talvez interrogar-nos se verdadeiramente isto não poderia voltar a ser uma perspectiva sensata também para nós.”

A Quaresma é uma oportunidade – quer ansiemos por ela ou não – de reavivar esta prática para nós mesmos. Como é evidente, a penitência é apenas uma parte da nossa prática quaresmal. A esmola desapega-nos do dinheiro, que pode ser uma coisa particularmente pegajosa, no sentido espiritual, e abre-nos à caridade e ao cuidado pelos outros. A oração, tal como a esmola e a penitência, não é apenas uma prática para a Quaresma, mas encontrar tempo e formas adicionais para rezar durante a Quaresma ajuda a fortalecer a nossa devoção ao longo do resto do ano.

No que toca à oração, existem duas práticas quaresmais que tenho achado particularmente benéficas. Ambas têm a ver com a Escritura. E embora nem uma, nem outra, sejam particularmente novas, cada uma fornece formas de rezar e reflectir sobre a Palavra de Deus de formas que a nossa vida do dia-a-dia – pelo menos no meu caso – não permitem. Ambos nos obrigam a abrandar, o que na vida de passo acelerado que vivemos actualmente é só por si uma forma muito necessária de penitência.

A primeira das sugestões é mesmo muito simples: leiam os Evangelhos. Não estou a dizer para lerem uma passagem dos Evangelhos de tempos a tempos, ou sequer que reflictam sobre o Evangelho do dia (embora estas sejam coisas óptimas, como é evidente). A minha sugestão é que se sentem a ler cada um dos Evangelhos de fio a pavio. Se tiverem tempo para isso, tentem ler cada um dos Evangelhos de uma assentada. O Evangelho de Marcos é o mais curto, por isso talvez queiram começar por aí, mas também podem lê-los pela ordem, a começar por Mateus.

A maioria dos católicos confrontam-se com a Escritura na Missa. Mas raramente lemos o Evangelho como um todo. A leitura completa dos Evangelhos é uma forma maravilhosa de nos encontrarmos com elas de novo, e uma forma excelente de reparar em novos detalhes. Ajuda-nos a notar repetições subtis e alusões no texto. Permite-nos apreciar o contexto de várias passagens, o que ajuda a compreender o todo, e não apenas as partes.

Mãos à obra!
A relativa proximidade, no tempo e no espaço, de várias parábolas e eventos costuma perder-se numa leitura mais esporádica. E sentar-se durante uma ou duas horas com o Evangelho dá uma oportunidade para mergulhar na Palavra de Deus de uma forma que raramente nos permitimos. Para mim tem sido muitíssimo útil.

A segunda sugestão de prática quaresmal é esta: copiar as Escrituras. Estou a ser literal. Peguem num papel e numa caneta e copiem as palavras da Escritura à mão. Escrevam com boa caligrafia e com propósito. Usem uma caneta, e não papel, porque isso obriga-nos a ter mais cuidado e evitar erros indeléveis. Os salmos são um bom ponto de partida, na maior parte podem ser concluídos antes de ficar com cãibras na mão.

A prática de copiar as Escrituras à mão obriga-nos a concentrar-nos em cada uma das palavras. Obriga-nos a desacelerar, o que é especialmente importante em passagens familiares que podem facilmente passar despercebidas. Reparará que nalgumas partes as palavras não são exactamente como se lembrava, ou o que esperava. Reparará, ainda, em mudanças subtis de escolha de palavras, tom e sentido.

O melhor é que, como está a escrever as palavras e não apenas a lê-las em silêncio ou a ouvi-las a serem lidas alto, é mais fácil fixá-las. Não é por acaso que se costumava ensinar a memorização, em parte, pela escrita repetitiva. Escrever as palavras da Escritura é uma forma muito bonita de a aprender de maneira mais íntima.

Com o começo desta Quaresma, já tenho comigo a minha Bíblia e a minha caneta preferida, pronta a usar. Sei muito bem que o entusiasmo costuma ser forte ao início, mas que depois pode escassear. Ainda assim, estou determinado. Sim, estou com vontade de iniciar esta Quaresma. Tal como acontece todos os anos, é exactamente aquilo de que preciso.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Tuesday, 21 February 2023

Vigília de Oração a propósito dos Abusos Sexuais na Igreja

A divulgação do relatório da comissão independente sobre os abusos sexuais contra menores na Igreja não pode deixar nenhum católico indiferente.

À vergonha que colectivamente sentimos, junta-se a necessidade de, enquanto membros da Igreja, manifestar às vítimas e seus familiares o nosso pedido de perdão, pela passividade e omissão de vigilância, cuidado, atenção e acolhimento em que incorremos.

Independentemente de todas as iniciativas futuras que se impõem, em vários níveis, queremos desde já manifestar sentidamente esse pedido de perdão com uma iniciativa que se pretende simples, mas verdadeira, e que, com muita propriedade, desejamos que marque o início da Quaresma que se aproxima.

Pretendemos assinalar a nossa comum responsabilidade, enquanto leigos, pelos caminhos da Igreja.

Sublinhar a emergência e a exigência com que esperamos as respostas das estruturas e responsáveis da Igreja em Portugal.

Demonstrar-lhes a nossa solidariedade para que saibam (e sintam) que não estão sozinhos no caminho das transformações corajosas que são necessárias.

Queremos afirmar o nosso compromisso em não deixar que o silêncio volte a imperar.

Assim, convidamos os católicos portugueses, leigos, religiosos e ministros ordenados, a juntarem-se em vigília de oração silenciosa em frente à principal igreja da sua cidade ou vila, na próxima Quarta-feira de Cinzas, dia 22-2-2023, das 21 horas às 22 horas.

Sugere-se que tragam uma vela acesa.

Não haverá discursos.

Em Lisboa, essa vigília ocorrerá em frente ao Mosteiro dos Jerónimos

No Porto, junto à Torre dos Clérigos

Em Braga, na Igreja dos Congregados

Em Coimbra, na Sé Nova

Em Fátima, na Igreja Paroquial

Em Oeiras, em frente à Igreja Matriz

Em Santarém, em frente à Igreja do Seminário

Em Évora, em frente à Igreja de Santo Antão, praça do Giraldo

Em Beja, junto ao monumento do Largo do Carmo

Em Ponta Delgada, no Santuário da Esperança

No Funchal, em frente à Igreja do Colégio

Em Palmela, na Igreja de São Pedro (das 19h-21h)

Convidamos todos os grupos da Igreja em Portugal, de qualquer natureza, a associarem-se e a divulgar esta iniciativa.

Um grupo de católicos,

Ana Rita Bessa

José Miguel Cardoso da Costa

André Folque

Mafalda Folque

Diogo Alarcão

Margarida Neto

Diogo Caldeira Pinto

Margarida Olazabal Cabral

Francisco Costa Macedo

Miguel Toscano Rico

João Pedro Tavares

Paulo Câmara

João Pereira Bastos

Sofia Galvão

Joaquim Pedro Cardoso da Costa

Teresa Olazabal Cabral 

Wednesday, 8 February 2023

Pedir coisas a Deus

Randall Smith

Uma antiga aluna minha mandou-me uma mensagem a perguntar: “Pedimos coisas a Deus que queremos que aconteçam, mas também nos queremos submeter à sua vontade. Como é que conciliamos as duas coisas?”

Escrevi de volta: “Deus é esperto nisso”.

Não foi a resposta mais teologicamente sofisticada, claro, mas em minha defesa, sou péssimo a escrever mensagens. Nunca consigo acertar nas letras certas quando estou a tentar pressionar as teclas pequenas. Por isso achei que, por mensagem, era o melhor que conseguiria fazer.

Eu prefiro conversas cara-a-cara. Quando as pessoas me fazem este tipo de pergunta, normalmente é porque mais alguma coisa se passa. A resposta mais correcta é: “Essa é uma boa pergunta, mas antes de passarmos para ela, o que é que queres mesmo saber?”. C.S. Lewis sugeriu certa vez que as crises de fé se devem mais frequentemente a falta de sono do que a objecções racionais sérias. Precisamente, acontece que a minha aluna estava a sofrer de amigdalite.

Não que isso retire qualquer valor à sua pergunta. A verdade é que me perguntam frequentemente a mesma coisa, e as pessoas têm-se debatido com esta questão, ou uma variação da mesma, há séculos. Platão, por exemplo, acreditava que a oração era irracional. Se Deus, ou os deuses, são “pura bondade” então farão o que for bom, independentemente daquilo que lhes pedirmos. Por isso pedir é supérfluo. Os cristãos têm um problema semelhante. Se aquilo que Deus deseja para nós é sempre bom, então porque rezamos a pedir coisas? Se forem boas, e Deus as deseja para nós, então fará com que as recebamos. Se não forem boas, não dará. Então para quê pedir?

A minha aluna escreveu de volta: “Mas se sou inteiramente submissa a Deus, não devia estar a pedir coisas, pois não?”

“Deus é esperto nisso” não tinha resultado, pelos vistos, e conhecendo esta jovem determinada e entusiasta sabia que dizer “tem paciência e espera até podermos falar outra vez” também não a iria satisfazer. Por isso, e ainda com pouca vontade de mandar uma mensagem longa, escrevi: “Jesus disse que devíamos pedir por aquilo de que precisamos. Se calhar devíamos escutá-lo, porque é capaz de saber do que fala, sendo Deus”.

Novamente, nada de teologia sofisticada ou apologética inspirada, mas não é assim tão diferente daquilo que Deus diz a Pedro na Transfiguração: “Eis o meu filho muito amado… Escutai-o!”

A minha aluna admitiu que ainda estava confusa, por isso insisti. “Então, de um lado estás tu, a pensar se deverias, ou não, pedir por aquilo de que precisas, e do outro está Deus feito homem, que em muitos lugares nas Escrituras nos diz que devemos continuar a bater à porta, para pedir aquilo de que precisamos. Em quem é que depositas a tua confiança?”

Depois de uma curta pausa, ela escreveu: “Então é suposto eu ser totalmente submissa à sua vontade e também pedir por coisas – ou seja, não viver de forma passiva?” Eis a beleza do Espírito Santo quando somos professores. É precisamente quando estamos a ser demasiado preguiçosos para fazer um bom trabalho, ou simplesmente não sabemos o que dizer, que o Paráclito intervém e ajuda os alunos a compreenderem as coisas por eles.

Por alguma razão, Deus quere que nos submetamos à sua vontade, mas que continuemos a pedir coisas, e não “viver de forma passiva”. Ele quere que colaboremos com a sua graça. Não está simplesmente a mexer os cordelinhos, como um marionetista. Ele não age sem nós. O seu objectivo é transformar-nos. E para que isso aconteça é preciso colaborarmos com Ele e cumprirmos a nossa parte.

Isto talvez seja mais fácil de compreender quando estamos a lidar com outros. Quando  descobri que a minha aluna estava doente, escrevi: “Então, usando a mesma lógica, eu não devia rezar para que recuperes? Também é estúpido pedir coisas para outros de que precisem?”

Abraão pede por Sodoma e Gomorra
“Bem visto”, escreveu de volta. “Mas rezar por outros parece muito diferente de rezar por nós mesmos”. Bom, sim, pode parecer diferente, mas será? O novo mandamento é amarmos o nosso próximo como a nós mesmos. Se não encontramos razões para rezar por nós, então quanto tempo passará até deixarmos de encontrar razões para rezar pelos outros?

Parece que Deus quer que compreendamos que estamos nisto juntos. Lembro-me da forma como o Pe. James Schall costumava dizer, quando se despedia: “Reza por mim, que eu rezo por ti!” Deus sabe do que os nossos amigos e entes queridos precisam antes de o pedirmos, mas continuamos a rezar por eles.

Pensem em Abraão, que “regateou” com Deus sobre Sodoma e Gomorra, levando-o a baixar a fasquia de cinquenta homens bons para dez. O que podemos dizer para além de que Deus parece gostar de pessoas assim? Pessoas que acreditam nele o suficiente para o tratar como uma pessoa e não como uma ideia filosófica; pessoas com coragem para defender causas importantes e lutar por elas; pessoas que têm mesmo fé de que Ele é capaz de fazer as coisas que lhe pedimos.

Quando não pedimos é porque estamos a submeter-nos à sua vontade, ou porque, bem lá no fundo, temos medo de que Deus seja de tal forma transcendente que Ele não intervém, ou não pode intervir, no funcionamento do mundo, tal como um relojoeiro que não pode intervir na mecânica do seu relógio. Essa é uma perspectiva razoável, mas não podemos aceitar isso e ao mesmo tempo aceitar a realidade da encarnação. O Deus das Escrituras não é especialmente tímido quando toca a intervir na história humana.

Sem dúvida que existem bons argumentos para a oração de petição que envolvem uma compreensão mais sofisticada da providência divina. Mas no final de contas a maioria de nós provavelmente acabará por alinhar com “Jesus disse-te para bateres à porta, e Ele deve saber do que fala”. Pedimos coisas a Deus quando queremos que aconteçam, mas também quando nos queremos submeter à sua vontade. Como é que se concilia estas duas coisas?

Que mais posso dizer? Deus é esperto nisso. Ele lá arranja maneira.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 24 de Janeiro de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.




Wednesday, 9 March 2022

Todos pela Ucrânia, mas até quando?

Randall Smith

O mundo está horrorizado pelo ataque não provocado da Rússia à Ucrânia e ao seu povo. Não tenho nada de especialmente novo ou sábio para acrescentar sobre a Rússia, a Ucrânia ou a guerra. Por isso, se me permitem, prefiro dizer umas palavras sobre a nossa reacção à crise.

Há vários anos houve um terramoto terrível no Haiti. Todos os dias, quando eu ia à missa, o padre rezava durante a oração dos fiéis pelas pessoas do Haiti. Várias semanas mais tarde, porém, quando o Haiti deixou de figurar na primeira página do “New York Times”, já não estávamos a rezar “pelo povo do Haiti”. Lembro-me de dizer a mim próprio: “Não me parece que esteja tudo bem agora no Haiti. De facto, acho que as coisas estão bastante terríveis”. Então porque é que deixámos de falar do povo do Haiti?

Há muitas razões pelas quais não é boa ideia basear as orações na missa no que encontramos nas manchetes do dia, uma das quais é a natureza efémera e transitória do ciclo noticioso moderno.

Esta é uma razão pela qual eu prefiro a prática dos ritos orientais de percorrer uma longa lista de orações intercessórias por uma série de coisas: agricultores, líderes políticos, operários, famílias, desempregados, prisioneiros, perseguidos, e por aí fora, em todas as celebrações – orações que não estão dependentes do ciclo noticioso.

Neste momento muitos de nós estamos a rezar pela Ucrânia e pelo povo ucraniano. E é assim que devia ser. Mas temo que a situação na Ucrânia não melhore tão depressa. O cenário mais provável, temo, é que Putin consiga sujeitar a Ucrânia à sua tirania. Se isso acontecer os jornalistas serão expulsos do país e as imagens grotescas que agora estamos a ver deixarão de surgir – tal como nunca aparecem da China ou do Irão. As notícias sobre a Ucrânia desaparecerão das primeiras páginas do “New York Times” e de outros dos principais jornais. Então ainda veremos alguém a rezar pela Ucrânia? Ou será que as orações cessam quando a Ucrânia deixar de ser “notícia”?

Neste momento as nossas emoções estão ao rubro. Mas este combate não vai acabar tão depressa para o povo ucraniano. Mesmo que eles saiam desta invasão com a sua soberania intacta, a reconstrução levará décadas. As pessoas gritam: “Ucrânia, estamos convosco!”. Ainda bem. Mas por quanto tempo? Duas semanas? Enquanto nos souber bem? A nossa tendência para a superficialidade deve-nos fazer pensar.

Conheço um professor universitário que tinha um póster na porta do seu gabinete com a famosa fotografia do chinês que, durante os protestos de Tiananmen, em 1989, se posicionou diante de uma coluna de carros de combate – ficou conhecido como o “Tank Man”. Lembro-me que na altura as pessoas diziam que tudo iria ser diferente, que o Governo comunista chinês seria obrigado a mudar, que tinha os dias contados, tal como dizem agora sobre Putin e os russos. 

Mas não foi isso que aconteceu na China. O mais provável é que o “Tank Man” tenha sido executado dias depois dessa famosa fotografia, e sabemos que milhares de outros alunos foram massacrados em Tiananmen. E anos mais tarde, quando o tal professor foi visitado no seu gabinete por um aluno chinês, este perguntou. “Porque é que tem essa fotografia na porta? Sabe que isso nunca aconteceu, certo? É só uma peça de propaganda ocidental.”

"Tank men" na Ucrânia. Qual será o seu futuro?
Até as lutas mais nobres podem ser esmagadas. Acontece a toda a hora. Por isso costumo achar que ou acreditamos que esses actos voluntários de heroísmo altruísta vivem para sempre na Glória eterna de Deus, ou o mais provável é entrar em desespero. As pessoas que esperam justiça perfeita nesta vida tendem a desiludir-se.

Devemos, por isso, ser brutalmente honestos. É possível que Putin conquiste a Ucrânia e a sujeite á sua tirania; que sobreviva às sanções que o Ocidente impõe ao seu governo; que tome nota dos russos que se opõem a ele e os destrua agora que se revelaram, deixando-o numa posição mais forte que nunca. E é perfeitamente possível que dentro de uma ou duas décadas muito poucas pessoas se recordem das terríveis atrocidades cometidas pela Rússia na Ucrânia. Quantos jovens hoje sabem que a Rússia enviou carros blindados para a Checoslováquia em 1968 para esmagar as manifestações contra o Governo comunista durante a chamada “Primavera de Praga”?

Então, se a ideia é estarmos “com a Ucrânia” – e espero que seja – é bom que estejamos prontos a estar “com a Ucrânia” a longo prazo. Porque por mais que queiramos que este espetáculo de terror acabe dentro de uma semana, o mais natural é que isso não aconteça. E nem todas as lutas contra o mal têm o final feliz dos filmes da Marvel. Às vezes os maus vencem, e não dá para voltar atrás no tempo e tentar outra vez. Os mortos permanecem mortos, e temos de viver com isso.

Continuaremos a rezar pelos ucranianos e a fazer sacrifícios para ajudar quando já não estiverem nas manchetes, quando os media tiverem passado para outro pseudo-evento pensado para excitar os espetadores e aumentar as audiências? Espero que sim. Caso contrário, dentro de 10 anos os jovens estarão a perguntar: “Então, está a dizer que a Rússia invadiu a Ucrânia? Pensei que tinha feito sempre parte da Rússia”. E os universitários russos dir-lhes-ão: “E fez. O boato de que não fez é apenas propaganda ocidental”.

A verdade é a primeira baixa na guerra. E com demasiada frequência essa ferida infecta e espalha-se, em vez de sarar. O povo heroico da Ucrânia merece mais do que apenas o mais recente ciclo noticioso. Merece o nosso compromisso a longo prazo, as nossas orações contínuas e a nossa devoção absoluta a viver na verdade em vez de numa enganadora teia de mentiras, ou o conforto fácil de um esquecimento conveniente.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 8 de Março de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Friday, 17 December 2021

Sugestão de Natal e liberdade de oração restaurada na Alemanha

Começo este mail com uma sugestão de Natal. Há vários anos li, fascinado, o livro “Not in God’s Name” do rabino Jonathan Sacks. Foi com enorme alegria que soube agora que a editora Saída de Emergência publicou o livro em português. Já comprei um exemplar (encomendei da editora, chegou em dois dias) e vou oferecer a pelo menos duas pessoas próximas. “Não em Nome de Deus” é uma resposta à subida da violência religiosa. O rabino, que tristemente já morreu, faz uma análise de episódios de conflito – incluindo conflito fratricida – no Antigo Testamento e mostra como o objetivo dos textos sagrados é mesmo o contrário de incentivar à violência. Termino assegurando que este não é um livro para especialistas ou académicos, sendo acessível para toda a gente.

Passando às notícias do dia, os EUA impuseram sanções à China por causa da perseguição aos muçulmanos uigure.

Boas notícias da Alemanha, onde um tribunal anulou a proibição de se rezar em frente a uma clínica de aborto perto de Frankfurt.

A Renascença entrevistou o presidente da Conferência Episcopal, D. José Ornelas, que falou sobre vários assuntos, incluindo o papel das igrejas na pandemia, a crise dos abusos e ainda os problemas no sistema de nomeação dos bispos.

Tudo isto no dia em que o Papa Francisco completa 85 anos!

Wednesday, 13 May 2020

A Beleza e a Simplicidade de Rezar o Terço em Família

Michael Pakaluk
O mês de Maio, escreveu o Papa, numa carta publicadarecentemente na Solenidade de São Marcos, é um tempo “no qual o povo de Deus manifesta de forma particularmente intensa o seu amor e devoção à Virgem Maria. Neste mês, é tradição rezar o Terço em casa, com a família (…) Por isso, pensei propor-vos a todos que volteis a descobrir a beleza de rezar o Terço em casa, no mês de maio (…) há um segredo para bem o fazer: a simplicidade”.

Enquanto pai de oito filhos, sete dos quais ainda em casa, incluindo um que está a aprender a andar, gostaria de partilhar convosco os meus pensamentos sobre o terço em família. Falo a partir da minha própria experiência, claro. Diferentes famílias têm hábitos diferentes. Começo, assim, com umas breves reflexões sobre a beleza do terço e depois partilharei algumas regras básicas, que tenho achado úteis, para o rezar de forma simples.

A beleza do terço está na sua humildade. É humilde porque nos foi dada a papa feita. As palavras do Avé-Maria vêm sobretudo das Escrituras; o Pai-Nosso foi-nos ensinado pelo Senhor. A própria Virgem Maria, os santos e os papas recomendaram que o rezemos diariamente. É impossível rezar o terço com altivez. O intelecto humano mais exaltado e o trabalhador mais simples dos campos estão a fazer a mesma coisa quando rezam esta oração.

O terço tem a beleza da simplicidade. Deus ama a simplicidade, porque a fez simples. A simplicidade é cíclica, como os dias, as semanas e os anos. É repetitiva, como as tarefas do dia-a-dia. Um sinal claro da simplicidade é que temos de nos esforçar para garantir que as rotinas são feitas com amor. O terço tem, por isso, a beleza não de uma grande sinfonia, nem do tecto da Capela Sistina, mas do canto das árvores, do som de um riacho ou de nuvens brancas contra um céu azul até ao horizonte. A beleza do terço em si é igualada pela beleza das virtudes que recebemos quando o recitamos: para além de perseverança, lealdade, autocontrolo, diligência e consideração.

O terço tem a beleza de uma bela “obra”. É uma oração tangível. Sim, é melhor estar a desfiar as contas do que dobrar os dedos. O som da recitação do terço é como uma medida, a que correspondemos. É como um percurso de corrida que se acaba, ou que se completa. Até podemos distrair-nos quando damos a volta, mas é a vontade que se distrai, porque nós continuamos. Podemos, inclusive, estar a lutar contra a rotina quando a rezamos, mas se chegamos ao fim podemos dizer, como São Paulo, que alcançámos a meta. A vida dos cristãos tem demasiadas boas-intenções: um terço completo é uma boa obra, não é algo imaginado ou inutilmente desejado.

O terço chama a si a beleza do Senhor. Porquê? Porque de forma misteriosa, Maria é a melhor lente através da qual podemos contemplar a vida de Cristo. Ela é de forma subjectiva, por assim dizer, aquilo que Ele é de forma objectiva; é o melhor modelo de compaixão, da sua Paixão. O Papa São João Paulo II falou de contemplar Cristo na escola de Maria e o Papa Francisco fez eco desta linguagem na sua carta: “a contemplação do rosto de Cristo, juntamente com o coração de Maria, nossa Mãe, tornar-nos-á ainda mais unidos como família espiritual e ajudar-nos-á a superar esta prova.”

Através da sua beleza, o terço distribui graças às famílias. Uma velha máxima da metafísica diz que “tudo o que recebe, recebe à moda do destinatário, e não à moda da coisa recebida”. É terrível pensar na nossa própria capacidade de receber a vida do Senhor – a dureza do nosso coração, a aridez, sonolência e inconsideração. Rezar o terço é pedir para receber o Senhor da forma como Maria o recebeu. Na estranha economia da salvação, em que Deus conta aquilo que é virtual como se fosse de cada um, desejar receber o Senhor como Maria o recebeu é recebê-lo como Maria o recebeu.

Estas são algumas das razões pelas quais o terço é belo. Aproveito agora para partilhar algumas regras para o rezar com simplicidade. Mais uma vez, são só algumas ideias que têm sido úteis para mim.

Hora fixa. Ajuda muito rezar o terço ao mesmo tempo, seja horário (por exemplo às 18h30) seja sequencial (logo a seguir ao jantar).

Comece. Não espere que toda a gente esteja presente para começar. Quem está presente deve apenas sentar-se e começar, à hora combinada, mesmo que seja só o pai. Os outros juntam-se depois.

Adapte as suas expetativas. O nosso mais novo passeia-se pela sala e tenta distrair as pessoas com as suas caretas, enquanto o nosso estudante do secundário, que está a aprender a rezar em latim, pode pedir para rezar uma década nessa língua. Observe o princípio aristotélico do meio relativo a nós.

Acrescente algum mistério ou intimidade. Quando está frio acendemos a lareira e apagamos as luzes; pode-se acender umas velas, ou usar uma imagem de Nossa Senhora, talvez adornada com umas flores.

Ensine algumas coisas básicas sobre o terço, sobretudo o que são os mistérios e porque os contemplamos, com as Avé-Marias a fazer de música de fundo.

Não demore. É possível prolongar o terço com todo o género de orações e meditações. Isso não tem mal nenhum, mas para correr bem, o terço rezado em família deve ser curto, cerca de 15 minutos e não mais de 20.

Em todas as coisas, seja flexível e pragmático. Mantenha a calma, porque o terço é um acto de amor; mantenha o seu sentido de humor e recorde a sábia máxima de Chesterton de que tudo o que vale a pena fazer, vale a pena fazer mal.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 12 de maio de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 21 August 2019

Oração e Ascese

Michael Pakaluk
Se estiver a pensar quantos minutos de exercício é que devia fazer por dia para manter-se saudável, talvez já saiba que a resposta é 30 minutos. Mesmo que não soubesse, não duvidaria que existe uma resposta objectiva, e saberia onde a procurar (por exemplo, através do Ministério da Saúde).

E compreenderia que esse número corresponde a um mínimo. Alguém que precisa de perder peso, ou um atleta em treino, teria de fazer muito mais que isso. Mas compreenderia esta ideia do que, objectivamente, uma pessoa precisa para se manter saudável. Viver bem implica conseguir encaixar pelo menos 30 minutos de actividade vigorosa no seu dia. Todos sentimos e compreendemos isto, de forma implícita.

Mas eu gostaria de colocar a pergunta equivalente em relação à alma. Dizemos que existe uma alma, e que o corpo representa, de várias formas, a alma. Existe a actividade da alma, em como força e saúde. Por isso parece evidente que se possa colocar a pergunta: quantos minutos por dia é que devia exercitar a minha alma para uma boa saúde espiritual? Mas neste campo, embora seja muito mais importante, tendemos a pensar que não existe resposta objectiva e que não saberíamos bem a quem perguntar se precisássemos de uma indicação.

Repare que me estou a referir a tempo que “pomos de parte”. Claro que há esforços físicos que fazem parte do dia-a-dia – ir a pé para o trabalho, levantar sacos de compras, etc., e é bom que a nossa vida inclua estas coisas. Da mesma forma, podem existir actos de “exercício espiritual” nas actividades diárias. Mas eu estou-me a referir a períodos de tempo que são apenas para exercício corporal ou espiritual.

Vejamos a questão desta forma. Pode-se distinguir, em princípio, a oração da ascese. A oração pode ser entendida como uma conversa com o Senhor. A ascese é qualquer actividade que requeira e construa autodisciplina.

Teoricamente, pode haver conversas com o Senhor que não requeiram autodisciplina. Muitas pessoas entendem a oração desta forma. Pensam numa conversa entre dois amigos, como dois homens sentados em cadeirões, a fumar charutos e a beber whisky, tendo uma grande conversa. E então acham que a oração é assim, como se estivessem confortavelmente sentados a ter esse tipo de conversa agradável com Deus.

O Asceta - Pablo Picasso
Também em princípio pode existir ascese de algum tipo sem oração. O filósofo Thomas Reid resolvia problemas de cálculo todas as manhãs, pela disciplina mental, antes de se dedicar a escrever filosofia. O filósofo analítico Roderick Chisholm disse-me um dia que todas as manhãs, antes de começar a trabalhar, estuda um artigo da Summa Teológica, não pelo conteúdo, mas pela disciplina que implica.

Outro exemplo seria Benjamin Franklin, que fazia um autoexame todos os dias, com base numa tabela de virtudes, e há ainda quem resolva problemas de sudoku ou palavras cruzadas, para manter a mente alerta.

Mas embora a oração e a ascese espiritual sejam, em princípio, coisas diferentes, na prática conjugam-se. A oração é uma conversa com o Senhor, de facto. Mas se o Senhor estiver a caminho do deserto? Então não poderá conversar com ele sem se despir de tudo o resto.

Ou então imagine que o Senhor está a escalar uma montanha, e que para conversar com Ele é preciso subir também? Talvez já tenha escalado montanhas e saiba exactamente quanta autodisciplina precisa para empreender uma subida íngreme durante quatro ou cinco horas. Mas Nosso Senhor deu-nos precisamente estes exemplos de sair para o deserto para rezar, e de escalar uma montanha para rezar (Lc. 5,16, 6,12). Duvido que o tenha feito se não nos quisesse mostrar algo sobre a natureza da oração.

Bem vistas as coisas, não existem exemplos no Novo Testamento de Jesus a procurar um cadeirão para rezar.

A ideia errada de que se “encontra” tempo para rezar parece ligada à confusão de que a oração é, na prática, separável da ascese – como se a oração simplesmente aparecesse ou ocorresse de forma espontânea. Como se escalar uma montanha fosse apenas algo que surgisse naturalmente na nossa vida do dia-a-dia: “Fui trabalhar, acabei aqueles projetos, e então a ocorreu-me que o melhor a fazer era escalar uma montanha”.

A oração requer ascese – por causa do pecado original, por causa das exigências do discipulado, por causa do poder da Cruz. Também nos podemos espantar com o facto de (embora a oração seja fruto de uma busca de amor, tal como a conversa), a ascese não deixa de ser uma forma eficiente de desenvolver autodisciplina para todas as áreas da vida. Mais até do que práticas de ascese directa (excepto para disciplina intelectual pura – aí mais lhe vale resolver problemas de cálculo).

Voltando, portanto, à questão original: Quanto tempo por dia devia dedicar à oração? Podemos responder que seria o tempo necessário para exercitar a alma.

Afinal, para esta questão parece haver uma resposta objetiva, e autoridades competentes. Olhando para os santos e grandes Papas, vemos que recomendam a missa diária (30 minutos); a oração do terço (15 minutos); a oração do Evangelho do dia e de um livro espiritual (15 minutos) e oração mental diária (pelo menos 15 minutos, mas idealmente uma hora) – o que leva a um total de duas horas. Por isso, ao que parece, para viver uma boa vida cristã devemos encaixar duas horas de oração no nosso dia.

Se viajar para os Estados Unidos poderá surpreender-se com a quantidade de americanos obesos que existem. Mas talvez encontre também uma equipa de atletas universitários a caminho do seu voo. Desconfio que se existissem juízes capazes de ver as nossas almas, como acontece num dos mitos de Platão, eles ficariam espantados ao ver o quão espiritualmente obesos nós parecemos todos.

E os cristãos, que deviam parecer-se mais com aquela equipa de atletas, são iguais a todos os outros.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.
  
(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 20 de Agosto de 2019)

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Wednesday, 31 July 2019

Reza Como uma Criança

Pe. Paul Scalia
“Disse-lhes, ‘Quando rezarem, digam: “Pai…’” Assim arranca a belíssima catequese do Senhor sobre oração (Lc. 11, 1-3). Devemos pensar bem sobre essa primeira palavra: Pai. Dizer Pai significa colocarmo-nos no papel de filhos. Dizê-lo com autenticidade implica conhecer-me como filho de Deus. Por isso a primeiríssima palavra do Senhor sobre oração contém o princípio da filiação divina – o facto de sermos filhos de Deus através do Filho, capazes de chegar ao Pai com Ele, através dele e nele. A oração cristã assenta nesta verdade fundamental. Toda a oração flui da nossa identidade enquanto filhos de Deus. O Pai é simultaneamente a primeira e a última palavra na oração.

Na verdade, a forma directa como se pedem estas instruções ao Senhor já são indicativas da atitude filial necessária para a oração: “Um dos seus discípulos disse-lhe, “Senhor, ensina-nos a rezar’”. O primeiro passo para a oração é compreender, como este discípulo, que não sabemos rezar como convém (Rom. 8,26). A oração não começa com a nossa força e com os nossos conhecimentos, mas com a nossa fraqueza e docilidade.

Esta verdade é dura para os orgulhosos, mas consoladora para todos os que já tentaram rezar e não foram capazes. Para rezar temos de reconhecer que precisamos de ser instruídos. Na verdade, todas as orações começam com “Senhor, ensina-me a rezar”.

Uma componente essencial desta oração filial é a perseverança. Vemos isto no Patriarca Abraão, cuja oração antecipa a dos filhos de Deus. (Cf. Gen. 18, 20-32). Nesta discussão sobre o destino de Sodoma e Gomorra ele parece uma criança a suplicar por mais uns minutos antes de ter de ir para a cama. Com a perseverança de uma criança que já tem em vista um objetivo e não se deixará dissuadir, Abraão está continuamente a regressar ao Senhor com uma nova proposta.

Mas existe uma diferença importante entre a perseverança de Abraão e a nossa. Ele apela à justiça de Deus, que não desbaratará os inocentes com os culpados. Abraão clama: Não deverá o juiz de todo o mundo agir com justiça? Na verdade, devia. Mas nós apelamos mais até à misericórdia de Deus. Pedimos-lhe que sustenha a sua fúria e que nos dê a sua ajuda não porque a merecemos, mas porque precisamos radicalmente dela. A nossa fraqueza reivindica a sua assistência.

É este seu apelo à misericórdia do Pai que Nosso Senhor enfatiza nas suas instruções. Temos confiança na nossa oração ao Pai não porque gozamos de um direito absoluto aos seus dons, mas porque sabemos que somos seus filhos. Por isso é que podemos regressar continuamente a Ele. Pois se nós, que somos maus, somos capazes de mostrar misericórdia, quanto mais o nosso Pai que está nos céus se apressará a ajudar-nos?

Claro que, sabendo do fim terrível que tiveram Sodoma e Gomorra, podemos pensar que o esforço de Abraão foi em vão. De que serviu toda a sua insistência? Aparentemente, nada. E isso chama atenção para outra dimensão da oração verdadeiramente filial: o abandono à vontade do Pai. Um filho descansa na certeza de que a vontade do Pai é supremamente boa. Se uma oração não é atendida é porque o Pai sabe melhor e tem um bem maior em mente.

Jesus reza no horto das Oliveiras
Vemos o próprio Senhor a adotar esta postura quando Ele reza a mais difícil de todas as orações filiais: “Abba, Pai, para ti tudo é possível. Afasta de mim este cálice, mas não seja feita a minha vontade, mas a tua”. (Mc. 14,36).

De certa forma, esse bem maior já está realizado em cada acto de oração. A oração de Abraão não foi desperdiçada porque através dela ele cresceu na sua capacidade de entrar em diálogo com Deus. Sim, devemos apresentar as nossas necessidades terrenas a Deus. Podemos, contudo, tornarmo-nos tão focados na resposta externa às nossas orações – o “remediar” da situação – que deixamos de ver os efeitos internos que a oração tem em nós.

O nosso Pai não quer simplesmente resolver todos os nossos problemas por nós. Ele quer algo mais. Deseja que nos aproximemos dele nas nossas orações, confiando-lhe as nossas preocupações. E se ele resolver, de facto, os nossos problemas, é para que ao experimentar o seu poder e bondade possamos confiar ainda mais nele.

E isto leva-nos àquela última e misteriosa linha na catequese do Senhor: “Quanto mais o vosso Pai que está no Céu dará o Espírito Santo a quem o pedir?” Procuramos e pedimos muitas coisas na nossa oração. Batemos (e às vezes com força) na porta do Céu com vários pedidos. Mas as palavras de Nosso Senhor indicam que o fim último das nossas petições não é esta coisa ou aquela, mas algo maior: o próprio Espírito.

Nosso Senhor responde sempre às nossas orações (dizendo ou sim ou não) como o objetivo de dar ou aumentar o dom do Seu Espírito. A nossa oração pode ser dirigida apenas a esta ou aquela situação, mas Ele quer que seja mais, para nos aproximar mais de Si. Ele deseja não tanto que recebamos o que pensamos precisar aqui e agora, mas que cresçamos em união com Ele.

Quer o compreendamos ou não, a nossa oração é sempre dirigida a este aumentar do Espírito, o Espírito de Filiação, que reza de dentro de nós e nos permite clamar: Abba! Pai!


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 28 de Julho de 2019 em The Catholic Thing)

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Tuesday, 3 December 2013

"A Alegria do Evangelho" por temas

Tendo terminado a minha leitura da exortação apostólica Evangelii Gaudium, ao longo dos próximos dias pretendo destacar e comentar aquilo que mais me chamou a atenção. Não quer dizer que sejam as partes mais importantes, simplesmente são as que eu achei mais interessantes. Uma vez que as secções do texto que lidam mais com questões económicas já foram muito analisadas, não lhes dedicarei muita atenção.

Apresentarei as minhas reflexões por temas, e por isso nem todas as citações virão na ordem em que aparecem no texto.

Tudo o que está em itálico é do texto, o que está a letra normal é da minha autoria.

Antes de passar aos restantes temas, um comentário sobre a oração que aparece perto do princípio do texto.

A Oração

“Senhor, deixei-me enganar, de mil maneiras fugi do vosso amor, mas aqui estou novamente para renovar a minha aliança convosco. Preciso de Vós. Resgatai-me de novo, Senhor; aceitai-me mais uma vez nos vossos braços redentores.” (#3)
Logo no início do documento, o Papa coloca esta oração e sugere que a rezamos diariamente. Não faço ideia se é uma oração criada por ele ou não, mas é lindíssima e uma bela súmula da realidade da nossa vida cristã. Constante queda, marcada pela vontade de sempre melhorar.

Nunca desistir.


Thursday, 20 December 2012

Exemplo a seguir!

Numa altura em que toda a gente se queixa da situação em Portugal, nada como um exemplo de sucesso que ainda por cima apela à oração!

Apresento-vos os livros de Thereza Ameal, autora de dois livros de oração para crianças, editadas pela Paulus.

“As Minhas Primeiras Orações” teve muita saída em Portugal, tanto que foi traduzido para italiano, quando normalmente é o inverso que acontece… Como se isso não bastasse, agora vai ser publicado na Coreia do Sul, um feito magnífico para um empreendimento deste género.

Em baixo podem ver a apresentação dos livros:



A Thereza recebe os meus mails diários e enviou-me esta informação. Não me farto de dizer que é também para isto que criei esta mailing list e, mais tarde, o blogue. Deve funcionar nos dois sentidos. Não prometo falar de tudo o que me pedem, mas se não pedirem é que é mais complicado!

Desde já obrigado à Thereza, tenho todo o gosto em divulgar esta obra interessantíssima!

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