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Thursday, 14 September 2023

O Papa e a Ucrânia: uma sucessão de falhas de comunicação e interpretações mal-intencionadas?

Um dos aspectos mais curiosos e inesperados da guerra na Ucrânia é o facto de o Papa Francisco estar a ser visto por muitos como sendo de alguma forma pró-russo, ou pelo menos russófilo.

Porque é que isto tem acontecido, e será justa a sugestão?

Recentemente os bispos da Igreja Greco-Católica Ucraniana estiveram em Roma para o seu sínodo, e encontraram-se com o Papa, tendo o seu líder, o arcebispo-maior Sviatoslav Shevchuk, aproveitado a ocasião para dizer francamente a Francisco que o seu povo está magoado com ele.

O último incidente foi a mensagem por vídeo que o Papa fez aos jovens católicos da Rússia, em que apelou que estes sejam fiéis à herança intelectual e espiritual dos seus antepassados, referindo como exemplos figuras históricas da Rússia como Pedro o Grande e Catarina II. Os ucranianos sentiram-se ofendidos com essas palavras, recordando que esses imperadores cometeram crimes contra vários povos, incluindo os ucranianos. (As palavras polémicas foram ditas de improviso, no final do discurso, e não aparecem no discurso oficial publicado no site do Vaticano.)

Mas este foi apenas mais um caso. Antes tinha havido dois episódios nas vias sacras de Roma, na Sexta-feira Santa, em que o Vaticano pediu a russos e ucranianos para carregarem a cruz juntos. No primeiro caso eram duas mães, uma de cada nação, e no segundo eram duas crianças que tinham perdido os pais na guerra, um de cada lado. Em ambas as situações os ucranianos ficaram lívidos, acusando o Vaticano de estar a equiparar o sofrimento e a condição das vítimas e dos agressores.

Tivemos ainda a ocasião em que o Papa pareceu dar a entender que a Rússia tinha sido provocada pela aproximação da NATO às suas fronteiras.

Sejamos claros, há aqui sérias falhas de comunicação por parte do Vaticano, e mais especificamente do Papa. Referir Pedro e Catarina era desnecessário e o próprio Francisco lamentou-o no final da sua viagem à Mongólia; e depois de no primeiro ano a ideia da Via Sacra ter caído tão mal na Ucrânia – foi a primeira vez em mais de uma década que a televisão católica ucraniana não a transmitiu em directo – é incompreensível que o tenham feito outra vez no ano seguinte. Pior, sei que queriam repetir o gesto na JMJ, mas a organização portuguesa conseguiu evitá-lo.

Mas estamos também perante um problema de interpretação. Há muito de subjectivo na forma como interpretamos palavras, ou até falhas de comunicação. É sempre possível fazê-lo pela pior lente possível, e parece ser isso o que se está a passar aqui.

O Papa Francisco não é militar, nem é apenas o Papa dos ucranianos, apesar de haver mais católicos na Ucrânia do que na Rússia. Ele é o Papa, ponto final, e a sua obrigação é pugnar pela justiça, sim, e pela paz, certamente, mas não pode, em prol disso, sacrificar as relações com toda uma nação, sobretudo uma nação como a Rússia que, por mais que esteja corrompida a sua chefia, tem uma das Igrejas ortodoxas mais importantes do mundo.

Isso significa que sempre que Francisco age neste campo ele está a levar a cabo uma operação de equilibrismo complexa, em várias frentes. É importante que a guerra acabe, mas a guerra deve acabar sem uma paz justa que devolva à Ucrânia todo o seu território e, já agora, as centenas de milhares de crianças que os russos raptaram? E defender explicitamente essa vitória total não é, de certa forma, defener o prolongar da guerra e, por conseguinte, mais mortes? É importante denunciar o agressor nesta guerra, mas como fazê-lo sem virar a Rússia ainda mais contra o ocidente e contra a Igreja Católica do que já está?

O risco do equilibrismo é que inevitavelmente pode-se cair. E Francisco, ou a diplomacia da Santa Sé, já teve umas quedas, mas só cai quem lá está e a Igreja está lá porque quer mesmo, sinceramente, ver alcançada a paz na Ucrânia.

Para muitos ucranianos, contudo, e incluindo os líderes religiosos, tudo o que não seja a defesa incontestada de uma vitória ucraniana a todos os níveis é visto como uma facada nas costas. E isso explica as reacções negativas por parte de muitos ucranianos. Não me entendam mal… Acho que isto é completamente compreensível, e simpatizo. Mas o papel do Papa não é ser cheerleader para a Ucrânia nesta guerra, até porque se o fizer perde qualquer margem de manobra junto da Rússia, e já vimos que o Papa tem conseguido alguns sucessos nesse campo, nomeadamente a nível de trocas de prisioneiros.

Mas parece-me evidente que chegámos ao ponto em que muito ucranianos já perderam a tolerância e por isso interpretam sempre da pior forma possível tudo o que Francisco diz sobre este assunto. Vejamos a tal mensagem que ele proferiu aos jovens católicos russos, recordando que está a falar com pessoas que estão na Rússia, a viver debaixo do regime de Putin. “Desejo-vos, jovens russos, a vocação de serdes artífices da paz no meio de tantos conflitos, no meio de tantas polarizações de todos os lados, que assolam o nosso mundo. Convido-vos a ser semeadores, a lançar sementes de reconciliação, pequenas sementes que, neste inverno de guerra, não brotarão, entretanto, no solo gelado, mas florescerão numa futura primavera.”

Isto são palavras de coragem, é um desafio que embora não referindo especificamente a guerra da Ucrânia, foi claramente compreendida como tal pelos ouvintes. Mas no meio disto, tudo o que ficou para os críticos foi o elogio à herança russa e uma referência, mal pensada é certo, aos imperadores Catarina e Pedro.

Para mim todos estes ataques ao Papa parecem particularmente injustos uma vez que eu tive o trabalho meticuloso e muito desgastante de acompanhar todas as intervenções feitas sobre a guerra na Ucrânia por líderes religiosos significativos. Só o fiz durante o primeiro ano da guerra, mas foi tempo suficiente para perceber que Francisco foi, mas de longe, o líder religioso não-ucraniano que mais falou da Ucrânia. Só o líder da Igreja Greco-Católica da Ucrânia o superou, e isso é porque ele publicava uma mensagem diária para os seus conterrâneos. Francisco falou um total de 126 vezes sobre a Ucrânia em 365 dias.

Mas não foi só falar. O Papa condenou a guerra, tendo sido dos primeiros líderes mundiais a dizer explicitamente que se tratava de uma guerra e não de uma “operação militar”; nunca hesitou em dizer que a Rússia é que era a responsável pela mesma e que a Ucrânia e os ucranianos eram e são as vítimas; rompeu com o protocolo e foi pessoalmente à embaixada da Rússia no Vaticano para pedir justificações aquando da invasão; enviou representantes para os locais de massacres e matanças; recebeu e beijou bandeiras ucranianas, vindas desses mesmos locais de massacres; apelidou os ucranianos de “corajosos”, “atormentados”, “sofredores” e “mártires”; chamou ao Patriarca de Moscovo acólito de Putin… A lista é enorme.

Quem acompanha o que o Papa escreve e diz, e não apenas as polémicas que de vez em quando surgem quando diz a coisa errada, não pode se não concluir que Francisco está firmemente do lado do povo ucraniano e que deseja o melhor para ele. Que os ucranianos, que tanto sofrem, sintam que isso não basta, porque queriam era ver o Papa a lançar anátemas sobre toda a Rússia e a apelar a uma vitória militar, é compreensível, mas que pessoas de fora, e boa parte da imprensa, alinhem nessa imagem distorcida é perfeitamente injusto.

Thursday, 6 April 2023

A Fé na linha da frente na Ucrânia - Reportagens de José Pedro Frazão

O meu bom amigo e colega dos tempos da Renascença tem estado na Ucrânia, onde fez uma série de reportagens sobre a fé vivida na linha da frente. 

Mandou-me algumas destas reportagens há várias semanas, mas foi no auge do caso dos abusos, e por isso não lhes pude ler nem dar a atenção que merecem. Agora publicou mais algumas.

Agora junto-os aqui para poderem ler. Leiam mesmo, nem que seja um por dia, durante estes dias do Tríduo Pascal. E rezem por estas pessoas que estão a viver uma Via Sacra que dura há vários anos, mas com maior intensidade desde Fevereiro do ano passado. 

E que Deus lhes dê a sua paz. 

A última missão do padre Viktor em Bakhmut - O testemunho de um padre católico de rito latino que já esteve preso por forças pró-russas e que é o pároco da cidade que tem acolhido as piores batalhas dos últimos meses no Leste da Ucrânia. 

Conheçam o Serguii, sacristão da Igreja Católica de rito latino em Kherson, que não tem medo das bombas. "Pego no meu terço e vou onde tenho de ir". 

E leiam aqui as palavras de um bispo ucraniano católico que fala da importância de não deixar que o ódio tome conta dos corações dos fiéis.

Aqui podem ler uma entrevista com um conselheiro do Presidente Zelensky, que explica que a Ucrânia conta muito com a "sabedoria" do Papa Francisco neste conflito. 

Zhaporizhzhia tem uma imagem de Nossa Senhora de Fátima e um receio, de tornar-se uma nova Mariupol.

Kharkiv, onde o pão se reparte no intervalo das bombas.

Guerra não se resolve apenas com perdão, e não será fácil para nós nem para os russos. Entrevista com o responsável da Cáritas na Ucrânia

Wednesday, 7 December 2022

O Papa e a Guerra Justa. Volumes de teoria e uma frase de realidade

O Papa tem falado frequentemente de guerra desde que foi eleito. Por exemplo, tem tido a clarividência para dizer – e bem – que estamos a viver uma “Terceira Guerra Mundial às prestações”, apesar de na Europa central e ocidental estarmos no maior período de paz da nossa história.

Tem também insistido na necessidade da paz e apelado ao fim de múltiplos conflitos em todo o mundo, incluindo os que já foram esquecidos pelo resto dos líderes mundiais.

Mas o Papa tem sido também criticado por estar a pôr em causa a tradição cristã da Teoria da Guerra Justa. Na encíclica “Fratelli Tutti”, Francisco diz o seguinte:

Nas últimas décadas, todas as guerras pretenderam ter uma ‘justificação’. O Catecismo da Igreja Católica fala da possibilidade duma legítima defesa por meio da força militar, o que supõe demonstrar a existência de algumas ‘condições rigorosas de legitimidade moral’. Mas cai-se facilmente numa interpretação demasiado larga deste possível direito. Assim, pretende-se indevidamente justificar inclusive ataques ‘preventivos’ ou ações bélicas que dificilmente não acarretem ‘males e desordens mais graves do que o mal a eliminar’. A questão é que, a partir do desenvolvimento das armas nucleares, químicas e biológicas e das enormes e crescentes possibilidades que oferecem as novas tecnologias, conferiu-se à guerra um poder destrutivo incontrolável, que atinge muitos civis inocentes. É verdade que ‘nunca a humanidade teve tanto poder sobre si mesma, e nada garante que o utilizará bem’. Assim, já não podemos pensar na guerra como solução, porque provavelmente os riscos sempre serão superiores à hipotética utilidade que se lhe atribua. Perante esta realidade, hoje é muito difícil sustentar os critérios racionais amadurecidos noutros séculos para falar de uma possível ‘guerra justa’. Nunca mais a guerra!

Segundo a tradição cristã os critérios para que uma guerra seja considerada justa são as seguintes:

  • Deve haver a certeza de uma ameaça duradora e grave por parte da entidade à qual se vai declarar guerra
  • Todos os outros meios para pôr fim ao conflito devem ter sido esgotados
  • Deve existir uma perspectiva séria de sucesso
  • O uso da força armada não deve produzir um mal maior do que aquele que pretende eliminar

A forma mais simples de entender o argumento do Papa Francisco é de que na era das armas nucleares estas condições nunca se cumprem, porque o risco de causar um mal maior do que aquele que se pretende evitar estão sempre presentes.

Francisco tem sido muito criticado por esta posição. Parece-me justa e equilibrada esta apreciação do jesuíta Francisco Sassetti da Mota, numa recensão que aparece nas páginas finais da edição de Novembro da revista Brotéria, a uma obra que reúne textos soltos do Papa sobre a temática da guerra:

É discutível que tudo o que o Papa Francisco afirma seja tecnicamente rigoroso. (…) o enamoramento por uma linguagem radicalmente pacifista é ingénuo, pouco fundado na tradição cristã e em muitos casos perigoso para o inocente oprimido. Mas essa falta de rigor em alguns pontos não pode condenar o que o Papa Francisco tem para dizer de mais fundamental: a violência perturba a ordem desejada por Deus.

Tem-se pensado muito nesta problemática desde que começou a guerra na Ucrânia. Em primeiro lugar, quantos de nós, quando a guerra começou, acreditavam que a Ucrânia tinha sérias perspectivas de sucesso no campo de batalha? Desse ponto de vista, devíamos ter defendido a rendição imediata. Uma das frases mais significativas desta década foi “não preciso de boleia, preciso de munições”, e com isso começou a desenhar-se o fantástico desempenho das forças armadas ucranianas que estão cada vez mais próximas de libertar o seu território todo.  

O Papa tem sido incansável a falar da guerra na Ucrânia, criticando sem margens para dúvidas a invasão russa. Tem sido por vezes criticado por recordar que do lado russo também há sofrimento, por exemplo, ou por apelar a negociações quando os russos não revelam qualquer intenção de devolver à Ucrânia a soberania sobre os territórios ocupados. Mas permaneceu sempre a dúvida. O Papa acredita que os ucranianos devem estar a fazer valer a sua posição pelo uso da força? Dito de forma mais simples: O ucraniano que parte para combater os russos nos territórios ocupados está a fazer bem, ou mal?

Depois de textos suficientes para encher um volume sobre a guerra e a paz, o Papa disse finalmente uma frase que parece dar-nos a resposta que procuramos. Na carta escrita ao povo ucraniano, por ocasião dos nove meses da guerra, Francisco diz: “Penso em vós, jovens, que, para defender corajosamente a vossa pátria, tivestes de pegar em armas em vez dos sonhos que nutríeis para o futuro”.

Reparem na escolha da palavra, nada acidental. “Tivestes”. Não “optastes”, não “quisestes”, mas “tivestes”. E mais, esse pegar em armas não é uma mera fatalidade, é um acto de coragem. 

É numa situação como a guerra da Ucrânia que toda a teoria sobre guerra, paz, justiça e injustiça cai por terra e temos de nos confrontar com a realidade. Uma nação poderosa, liderada por um tirano, invadiu uma terra estrangeira, sob falso pretexto, procurando subjugá-la, eliminar a cultura dos seus habitantes, espalhando terror, tragédia e morte. Perante isto não há teorias bonitas sobre espadas convertidas em arados, não há cálculos frios sobre se a defesa tem probabilidades de sucesso ou não, e daí ser ou não lícita. O que há é uma obrigação moral de defender o inocente, de travar o assassino, de fazer frente à injustiça.

Esteve bem o Papa em reconhecer a força desta realidade e de perceber quando escreve aos ucranianos – que tanto tem apoiado, e por quem tanto tem rezado – que eles precisam tanto de lições de guerra justa como precisam de boleias.


Leia também: 

Declarações de líderes religiosos relevantes sobre a guerra na Ucrânia

E se a Rússia perder esta guerra? O que vem depois da ressaca

A posição de Francisco sobre a Ucrânia, e a posição da Ucrânia sobre Francisco

Todos pela Ucrânia, mas até quando?

Dimensões religiosas da Crise na Ucrânia

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Thursday, 15 September 2022

Francisco a ser Papa no Cazaquistão

O Papa está no Cazaquistão. Engane-se quem pensa que esta é apenas mais uma viagem apostólica, é muito mais que isso. Neste texto pretendo falar brevemente da dificuldade de navegar entre o diálogo religioso e o sincretismo, da importância contextual dos apelos do Papa à paz, e à questão da relação com a Igreja Ortodoxa Russa.

Diálogo sem sincretismo

Francisco está na capital do Cazaquistão, uma ex-república da União Soviética gigante que, curiosamente, tem investido muito em promover o diálogo inter-religioso ao longo das últimas décadas.

Os cristãos são uma minoria de 25% no país, e católicos são apenas 1%, na grande maioria membros de outros grupos étnicos, desde polacos a coreanos. A história da Igreja no país também é curiosa, uma vez que muitos dos católicos descendem de pessoas que foram deportadas para a região durante as perseguições na União Soviética. No Cazaquistão havia 11 campos de concentração, parte do sistema Gulag.

A relação da Igreja Católica com o diálogo inter-religioso é complexa. Durante séculos a atitude era de que esta é a Igreja fundada por Deus, quem quiser pode entrar, mas não há mais nada para discutir. O Concílio Vaticano II cristalizou uma mudança gradual de posição, tanto ao nível ecuménico como de diálogo inter-religioso, e Roma passou a interessar-se no diálogo. Em 1986 o Papa João Paulo II iniciou os encontros inter-religiosos de Assis, para rezar pela paz. Foi muito criticado por isso, com os seus adversários a dizer que os encontros promoviam o sincretismo e o relativismo, mas ele persistiu, tentando sempre deixar claro que juntar pessoas crentes para suplicar a Deus pela paz é diferente de dizer que essas crenças são todas igualmente válidas, ou que as diferenças não interessam.

Estes encontros no Cazaquistão surgem desse mesmo espírito de Assis. Quem o diz é o bispo de Almaty, no Cazaquistão, que é espanhol e foi entrevistado recentemente pela fundação Ajuda à Igreja que Sofre. Mas os críticos não desarmam e continuam a levantar o fantasma do relativismo.

Francisco está, por isso, em terreno difícil no Cazaquistão, mas no seu discurso ao Congresso de Líderes de Religiões Mundiais e Tradicionais não desiludiu e falou precisamente como Papa que é. Encorajou a colaboração inter-religiosa pela paz, condenou a utilização da religião para justificar a guerra e criticou, usando mesmo esse termo, o sincretismo. Foi um bom discurso, pleno de referências locais, que pode ser lido aqui. Deixo-vos com uma das principais citações:

Queridos irmãos e irmãs, avancemos juntos, para que seja cada vez mais amistoso o caminho das religiões. (…) O Altíssimo liberte-nos das sombras da suspeita e da falsidade; conceda-nos cultivar amizades ensolaradas e fraternas, através do diálogo frequente e da sinceridade luminosa das intenções. E desejo agradecer aqui o esforço do Cazaquistão neste ponto: sempre procura unir, sempre procura incentivar o diálogo, sempre procura construir a amizade. Isto é um exemplo que o Cazaquistão dá a todos nós e devemos segui-lo, apoiá-lo. Não procuremos falsos sincretismos conciliatórios – não servem –, mas guardemos as nossas identidades abertas à coragem da alteridade, ao encontro fraterno. Só assim, por este caminho, nos tempos sombrios que vivemos, poderemos irradiar a luz do nosso Criador.

Falar de paz numa região de guerra

É certo que Francisco fala muito de paz, e que tem falado sobretudo muito da guerra na Ucrânia. Podem ver aqui a extensa lista das declarações sobre o assunto que tem feito nos últimos meses, desde que a Rússia invadiu o país vizinho. Mas é preciso ter em conta o contexto em que o faz agora, no Cazaquistão. Aqui Francisco está ao lado da Rússia, na sua esfera de influência, e as suas palavras têm mais peso.

Mas é preciso ter também em conta que não é apenas a na Ucrânia que soam as armas neste momento. Sem sair da zona da ex-União Soviética, temos tido também problemas nos últimos dias, com tiros e mortos, na fronteira entre o Quirguistão e o Tajiquistão e, com uma gravidade muito maior, temos assistido a uma tentativa de invasão da Arménia por parte do Azerbaijão. Este último caso era previsível, infelizmente, e escrevi sobre ele exatamente quando a guerra na Ucrânia começou. Preferia ter-me enganado. Os problemas entre o Azerbaijão e a Arménia são mais graves ainda na medida em que o primeiro é muçulmano e o segundo cristão. O conflito é territorial, não religioso, mas existe sempre o risco agravado de adquirir também uma dimensão religiosa e espalhar-se, por isso, a países vizinhos. Esperemos que não.

É aqui, nesta região unida por um passado de forte perseguição às religiões e que se debate ainda com um pesado legado comunista, que Francisco vem falar de paz. E em boa hora o faz.

Diálogo com os russos

Uma dimensão muito importante desta visita é a do diálogo com a Igreja Ortodoxa da Rússia. Já escrevi e falei várias vezes sobre o período difícil que a Igreja Russa atravessa, travando uma luta pelo poder no interior da comunhão de Igrejas Ortodoxas e ao mesmo tempo tentando sobreviver a uma relação demasiado estreita com o poder político em Moscovo.

O Patriarca Cirilo, de Moscovo, quis afirmar-se como o grande representante da ortodoxia no mundo, em oposição a Bartolomeu de Constantinopla, mas acabou, pela sua proximidade a Vladimir Putin, por se tornar um pária aos olhos do mundo religiosos. Tenho comentado, nas minhas mais recentes análises às suas declarações, que já nem se percebe se as suas palavras são para ser levadas a sério, se são críticas (muito) dissimuladas ao regime de Putin, ou se simplesmente perdeu toda a noção. Só na última semana lamentou o facto de o mundo estar a sofrer por causa dos ditadores que espalham o conflito e elogiou a Rússia por não cometer crimes de guerra, algo que se deve ao facto de ter um historial de líderes ortodoxos crentes. E não nos esqueçamos da vez em que se regozijou no facto de a Rússia, apesar de ser um país muito poderoso, nunca ter atacado ninguém. E sim, disse-o já depois da invasão da Ucrânia.

O facto é que Cirilo está quase totalmente isolado e ninguém parece disposto a falar com ele, excepto o Papa Francisco. Há até quem considere que Francisco está a ser ingénuo quando diz que quer falar com Cirilo, mas o Papa parece entender que por mais que esteja a atravessar, digamos, um mau momento, a Igreja Russa não deixa de ser uma grande denominação cristã e que não se deve desistir, por isso, desse diálogo. Aliás, no seu discurso à chegada ao Cazaquistão disse: “Precisamos de líderes que, a nível internacional, permitam aos povos compreenderem-se e dialogarem, e gerem um novo ‘espírito de Helsínquia’, a vontade de reforçar o multilateralismo, de construir um mundo mais estável e pacífico pensando nas novas gerações. E, para fazer isto, é preciso compreensão, paciência e diálogo com todos. Repito: com todos.”

Mais uma vez, porém, Cirilo perdeu a oportunidade de se agarrar a esta mão estendida. Se tivesse ido ao Cazaquistão, como estava inicialmente combinado, teria conseguido tornar-se o centro do evento e o seu encontro com o Papa Francisco seria o ponto alto do congresso, em termos mediáticos. Mas temendo ser alvo de críticas, refugiou-se novamente no seu palácio de cristal em Moscovo e tornou ainda mais pertinentes as palavras do Papa que muitos acreditam terem sido ditas com ele em mente.

Se o Criador, a quem dedicamos a existência, deu origem à vida humana, como podemos nós – que nos professamos crentes – consentir que a mesma seja destruída? E como podemos pensar que os homens do nosso tempo – muitos dos quais vivem como se Deus não existisse – estejam motivados para se comprometer num diálogo respeitoso e responsável, se as grandes religiões, que constituem a alma de tantas culturas e tradições, não se empenham ativamente pela paz?

Irmãos e irmãs, purifiquemo-nos, pois, da presunção de nos sentir justos e de não ter nada a aprender dos outros; libertemo-nos das conceções redutoras e ruinosas que ofendem o nome de Deus com rigidezes, extremismos e fundamentalismos, e o profanam por meio do ódio, do fanatismo e do terrorismo, desfigurando inclusive a imagem do homem. (…) Nunca justifiquemos a violência. Não permitamos que o sagrado seja instrumentalizado por aquilo que é profano. O sagrado não seja suporte do poder, e o poder não se valha de suportes de sacralidade! Deus é paz, e sempre conduz à paz, nunca à guerra.

Mais uma vez, belas palavras. Haja quem as oiça e as ponha em prática!

Thursday, 26 May 2022

Nossa Senhora de Javelin

Ora aqui está uma coisa que não se vê todos os dias!

O Conselho das Igrejas Ucranianas, uma organização inter-religiosa que representa as religiões seguidas por 95% da população, protestou oficialmente contra a pintura de um mural gigante, em Kiev, de Nossa Senhora com um lança-rockets Javelin.

A imagem, conhecida como Sta. Javelin, tem aparecido aqui e ali nas redes sociais e refere-se à arma que é usada para neutralizar carros de combate (tanques) russos.

Uma exibição pública destas, com patrocínio estatal, parece desadequada, sobretudo quando do outro lado nos queixamos da utilização abusiva da religião para incentivar a guerra, pelo que se compreende totalmente o protesto dos líderes religiosos.

O texto do protesto está aqui, basta descerem até ao dia 23 de Maio.

Thursday, 5 May 2022

Ver Deus na Guerra?

 Amanhã estarei em Santarém com o meu bom amigo Pe. Tiago Fonseca para falar numa conferência das Equipas de Jovens de Nossa Senhora. 

O tema é "Ver Deus na Guerra" e promete ser muito interessante! 

A conferência é seguida de jantar e o objectivo é angariar fundos para os jovens poderem participar no Encontro Internacional das EJNS. 

Enquanto ex-responsável internacional deste movimento é sempre uma enorme alegria participar em qualquer evento organizado por eles! Espero que muitos queiram também participar!



Thursday, 21 April 2022

A posição de Francisco sobre a Ucrânia, e a posição da Ucrânia sobre Francisco

Nos últimos dias têm surgido alguns sinais de desagrado da parte de figuras religiosas ucranianas, nomeadamente da Igreja Católica, em relação ao Papa Francisco e ao Vaticano.

Há duas grandes razões para esse desagrado:

   1. O facto de Francisco continuar a insistir em manter os planos para se encontrar com o Patriarca Cirilo, de Moscovo, apesar de este teimar em manter a ligação a Vladimir Putin, de falar da guerra na Ucrânia como se tratasse de uma guerra santa e benzer as forças armadas que partem para a Ucrânia para matar ucranianos e ocupar o seu país.

2.   O facto de o Vaticano ter planeado colocar duas famílias – uma russa e uma ucraniana – a carregar juntas a cruz na décima terceira estação da Via Sacra na Sexta-feira Santa.

Acresce que alguns lamentam o facto de Francisco nunca ter referido pelo nome Vladimir Putin, nem a Rússia, nas suas condenações da guerra.

Alguns destes protestos são compreensíveis, outros nem tanto. Mas o que não é aceitável é concluir que Francisco tem uma posição dúbia sobre esta guerra, nem sobre quem é culpado pela tragédia que se está a desenrolar na Ucrânia.

Aqui no blog tenho juntado todas as declarações dos principais líderes religiosos relevantes sobre esta guerra, desde o seu início. Pelas minhas contas, para além do líder da Igreja Greco-Católica da Ucrânia, que divulga todos os dias uma mensagem de vídeo sobre a situação, e do líder da Igreja Ortodoxa Autocéfala da Ucrânia, o Papa Francisco é o que mais se tem expressado sobre o conflito. Eu conto 17 pronunciamentos públicos, para além de quatro gestos significativos: a ida em pessoa à embaixada da Rússia na Santa Sé, o telefonema a Zelensky, o telefonema ao líder da Igreja Greco-Católica e a conversa por videoconferência com o Patriarca de Moscovo.

Mas mais importante que a quantidade é mesmo o conteúdo das declarações do Papa.

·       Francisco começou logo por dizer, no dia 6 de Março, que esta é uma guerra, desmentindo assim linha oficial de Moscovo de que se trata de uma “operação militar especial”.

·      Antes, a 27 de Fevereiro, quarto dia da guerra, referiu-se ao “povo sofredor da Ucrânia” e disse estar de “coração partido” com o que se está a passar.

·   No já referido dia 6 anunciou ainda o envio de dois cardeais para a Ucrânia, em sua representação.

·       No dia 13 de Março pediu que se pusesse fim ao “massacre” de Mariupol e referiu a “barbárie” da matança de crianças. Nesse mesmo dia publicou uma oração especial pelo fim da guerra na Ucrânia em que identifica Cristo com os bebés que nascem debaixo de bombas em Kiev e com as crianças que morrem nos braços das suas mães em Kharkiv, pedindo a Deus que “trave a mão de Caim”, que aqui é claramente identificado com a Rússia.

·     No dia 15 de Março classificou o ataque à Ucrânia como um “abuso perverso do poder e dos interesses partidários”.

·     No dia 20 de Março referiu-se à guerra como uma “agressão violenta contra a Ucrânia” e um “massacre sem sentido”, falando de matanças e atrocidades. Disse ainda que a guerra é desumana e foi mais longe, apelidando-a de “sacrilégio”, no que pode ser entendido com uma resposta aos que a consideraram uma guerra santa.

·     No dia 2 de Abril, em Malta, disse: “Mais uma vez alguma potência, tristemente apanhada em reivindicações anacrónicas de interesse nacional, está a provocar e fomentar conflito”. No mesmo discurso classificou a pretensão russa de invadir a Ucrânia de “infantil” e disse que “essa criancice, infelizmente, não desapareceu. Reemergiu com força nas seduções da autocracia, novas formas de imperialismo, agressividade em larga escala”.

·      No dia 3 de Abril, ainda em Malta, falou na “guerra injusta e selvagem” na Ucrânia e mais tarde, nesse mesmo dia, voltou a dizer que esta guerra, em particular, é um “sacrilégio”.

·     No dia 6 de Abril referiu-se ao massacre em Bucha, um massacre que os russos dizem que nunca aconteceu, e exibiu publicamente uma bandeira da Ucrânia vinda precisamente dessa cidade.

·     No dia 10 de Abril referiu-se aos “odiosos massacres e cruéis atrocidades levadas a cabo contra civis indefesos”.

·      No sermão de Domingo de Ramos, também no dia 10 de Abril, disse que na guerra Cristo volta a ser crucificado.

·      No dia 13 de Abril disse que esta guerra “é um ultraje contra Deus, uma traição blasfema da Ceia do Senhor, uma preferência pelo falso Deus deste mundo”.

·      E finalmente, na bênção Urbi et Orbi, no dia 17 de Abril, Domingo de Páscoa, disse guardar no coração as muitas vítimas ucranianas, descrevendo-as em detalhe.

A tudo isto acresce o envio dos dois cardeais à Ucrânia, e tudo o que eles têm dito e feito para expressar o horror perante a tragédia e a solidariedade para com a Ucrânia, com o cardeal Krajewski a dizer que tal como Cristo, a Ucrânia ressuscitará.

Portanto não, o Papa não se referiu diretamente a Putin, nem invocou o nome da Rússia, mas é preciso uma enorme dose de má vontade para interpretar as suas muitas palavras e gestos desde que esta guerra começou como qualquer coisa que não seja uma duríssima condenação da Rússia e do regime russo, como responsáveis por esta guerra e tudo o que ela espoletou.

Arrumada esta questão, analisemos então as principais queixas dos ucranianos em relação a Francisco.

A insistência do Papa em encontrar-se com Cirilo é de facto complicada de compreender. Cirilo é a figura religiosa que saiu mais desacreditada em todo este conflito. Incapaz de sair debaixo da asa de Vladimir Putin, incapaz de perceber que esta estratégia é um enorme tiro no pé naquilo que ele considera serem os seus principais objectivos estratégicos, nomeadamente manter os ortodoxos ucranianos debaixo da autoridade de Moscovo e, também, de se afirmar como o principal líder na comunhão ortodoxa, remetendo o Patriarca de Constantinopla para segundo lugar, se tanto.

Depois deste terrível fiasco, muito dificilmente Cirilo será levado a sério pelo mundo, incluindo o mundo religioso. Nesse sentido, um encontro com o Papa é tudo o que ele pode desejar para tentar projectar alguma credibilidade. Com tudo o que se tem passado, porque é que o Papa insiste em dar-lhe esta “borla”?

Não posso fingir saber o que se passa na Santa Sé nem no coração do Papa, mas posso especular que o Papa sabe que por mais que Cirilo esteja na lama, neste momento, não deixa de ser o líder da maior Igreja Ortodoxa do mundo, e que o diálogo ecuménico com o mundo ortodoxo nunca irá a lado nenhum sem a Rússia a bordo. Se as outras igrejas ortodoxas estão dispostas a entrar no mesmo barco que Cirilo ou não, é outra questão, interna, mas o Vaticano não pode simplesmente cortar os laços.

Por outro lado, Cirilo sabe que o Papa poderia perfeitamente não fazer isto, sacudir as mãos dele, como muitos fizeram, e por isso é possível que ele se revele agradecido a Francisco pelo gesto de o manter à tona de água, e que isso dê frutos ecuménicos no futuro.

Finalmente, por mais tentador que seja analisar tudo isto pela perspectiva do poder, devemos lembrar-nos que a lógica do Cristianismo não é a do poder e que o Papa sabe isso.

Chegamos assim ao segundo ponto que causou atrito nos últimos dias. A decisão do Vaticano de ter duas famílias, uma russa e outra ucraniana a escrever em conjunto uma das meditações da Via Sacra caiu muito mal na Ucrânia. E não foi só entre ortodoxos, mesmo o Arcebispo-maior Sviatoslav Shevchuk, da Igreja Greco-Católica da Ucrânia, condenou a iniciativa, sugerindo que ela passava a imagem de que o sofrimento dos dois povos era equivalente.

Perante a pressão, o Vaticano cedeu e mudou a meditação, que foi substituída apenas por um apelo à oração silenciosa pela paz, enquanto duas jovens mulheres, uma russa e uma ucraniana, seguravam na cruz.

Mesmo essa versão mais “light” não foi aceite pelos ucranianos, e pela primeira vez em anos os meios de comunicação católicos do país não transmitiram a cerimónia em directo.

Esta reacção dos ucranianos apenas se compreende no contexto da enorme injustiça a que estão a ser sujeitados. Mas compreender não é dar-lhes razão. Pelo contrário, diria que imagens de russos e ucranianos lado-a-lado, a condenar a guerra, são exactamente o que faz falta neste momento. Houvesse mais!

É importante não confundir o regime de Putin com o povo russo e é importante não esquecer que quando esta guerra acabar há dois países enormes e dois povos numerosos e antigos que precisarão de encontrar forma de sarar as feridas e viver em conjunto. Qualquer gesto nesse sentido parece-me ser de louvar em vez de criticar.

Infelizmente estas críticas ucranianas não são novas. Na recente conferência em que participei, organizada pela Capela do Rato, o padre da Igreja Ortodoxa Moldava, que está ligada a Moscovo, disse que tinha tentado ir com padres da Igreja Ortodoxa Russa em Portugal prestar apoio aos refugiados ucranianos que chegaram a Cascais, mas foram impedidos de o fazer por ordem da Embaixada da Ucrânia em Portugal. Convém esclarecer que o padre Petru tem falado abertamente contra a guerra e até – de forma corajosa – contra a liderança da Igreja Ortodoxa Russa, e ainda que os três padres russos em Portugal neste momento são signatários da Carta dos Padres Russos pela Paz, que é dos documentos mais bonitos que já li – do ponto de vista cristão – contra esta guerra. Mantê-los longe de refugiados porque são da “confissão errada” foi uma decisão cruel e injusta.

Esta insistência em ver a realidade de uma perspectiva nacional/étnica é, infelizmente, uma das fraquezas inerentes ao Cristianismo oriental. Mas Roma, por mais que simpatize com a Ucrânia e esteja convencida da razão da sua causa, não pode partilhar dessa visão reduzida.

Thursday, 14 April 2022

Ir à Polónia buscar refugiados. Compaixão, aventureirismo ou loucura?

Todos devemos conhecer pessoas que ao longo das últimas semanas se puseram à estrada para ir buscar refugiados à Polónia, ou outros países na fronteira com a Ucrânia.

Por um lado, esta onda massiva de solidariedade que assolou o nosso país, e outros, é o exemplo acabado do que o Papa Francisco queria dizer quando referiu que a Igreja deve ser um Hospital de Campanha. E é também um acto profundamente evangélico, pois em cada uma daquelas mulheres e crianças perdidas, desesperadas, sem nada, estava Cristo.

Mas quer isso dizer que os métodos estão acima da crítica? Faz sentido ir de carrinha de nove lugares buscar refugiados? E o que dizer da aparente falta de coordenação central dos Governos, e da União Europeia, neste processo todo? E as terríveis histórias de tráfico humano que vamos conhecendo?

Mais que motivo para uma excelente conversa com Inês Tinoco de Faria, que com um grupo de colegas de trabalho montou uma operação de resgate de refugiados que é um exemplo de boa organização, generosidade e sensatez.

É isso que vos oferecemos neste terceiro episódio do Hospital de Campanha. Ouçam, partilhem, comentem! E obrigado pelo vosso apoio.

Caso não tenham ouvido ainda, aqui têm o primeiro e o segundo episódios.

Tuesday, 12 April 2022

Conferência "Para um Ecumenismo da Paz"

 No passado dia 30 de Março tive a honra de participar na conferência "Para um Ecumenismo da Paz", organizado pela Capela do Rato, em Lisboa. Foi online, e a gravação pode ser vista aqui.

Thursday, 24 March 2022

Contagem decrescente até à consagração

Um cartaz anuncia a consagração em ucraniano
Amanhã o Papa Francisco consagra a Rússia e a Ucrânia a Nossa Senhora. A celebração terá lugar às 16h em simultâneo em Fátima e em Roma e será acompanhada por bispos, padres, religiosos e leigos de todo o mundo. Podem ler o texto da consagração aqui.

A celebração será transmitida em vários meios de comunicação. Eu estarei em estúdio na CNN Portugal para ir comentando durante a emissão, a partir das 16h. Antes estarei no programa da Ecclesia, na RTP 2, que é transmitido a partir das 15h06. Ainda amanhã deve sair um artigo meu no site PontoSJ sobre este assunto e, mais em geral, sobre a dimensão religiosa do conflito na Ucrânia. No próximo email incluirei links para tudo isto.

Há dias falei com D. José Ornelas, bispo de Fátima, e com um padre ucraniano em Portugal sobre esta consagração. D. José diz que a consagração não é contra ninguém, mas o padre Ivan Hudz fala da importância da conversão da Rússia e… não só. Podem ler aqui (em inglês).

Entretanto a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima está em Lviv, na Ucrânia, onde permanecerá durante mais algumas semanas. Foi sobre este assunto que estive na CNN a semana passada. Podem ver essa minha intervenção aqui e também foi este o tema de conversa na primeira emissão do novo podcast Hospital de Campanha, que podem ouvir aqui.

No meu blog continuo a recolher declarações dos principais líderes religiosos relevantes para a guerra na Ucrânia. Há material muito interessante!

No artigo desta semana do The Catholic Thing em português, o autor Francis X. Rocca medita sobre a liberdade e coloca uma questão incómoda. Quem é que é verdadeiramente livre? Nós, com as nossas vidinhas confortáveis, sujeitados a pressões comerciais para irmos comprando mais coisas, ou o ucraniano que, despedindo-se da mulher e dos filhos, dá meia volta para lutar pela liberdade? Leiam e tirem as vossas próprias conclusões.

As atenções continuam muito focadas na Ucrânia, naturalmente, mas o Vaticano anunciou uma mega-reforma da Cúria. Saiba mais aqui, nesta entrevista da minha amiga Ângela Roque ao padre Tony Neves.

Wednesday, 2 March 2022

E Deus Criou o Mundo - A dimensão religiosa da guerra na Ucrânia

Aqui podem ouvir a edição de terça-feira, dia 1 de Março, do progrema E Deus Criou o Mundo, e aqui a edição do dia 8 de Março, ambas sobre a dimensão religiosa da Guerra na Ucrânia, em que participei juntamente com Isaac Assor, Pedro Gil e Khalid Jamal. Moderação de Henrique Mota. Aqui podem ouvir ainda o terceiro episódio, sobre a religião e a guerra, em geral.

Wednesday, 16 February 2022

Pro Deo et Patria

Francis X. Maier
Para muitas famílias, os ventos de guerra que nos chegam da Ucrânia nestes dias trazem memórias comoventes.

Bill Degnan nasceu no final da Primeira Guerra Mundial, o mais velho de dez irmãos numa família de católicos irlandeses. O seu pai trabalhou nos andaimes de Nova Iorque. Os Degnan viviam pouco acima da linha da pobreza. Winnie, o irmão mais novo do Bill, morreu de difteria na infância. Mas o Bill e o seu outro irmão Joe chegaram a adultos. Depois do ataque ao Pearl Harbour alistaram-se os dois na tropa. Nem hesitaram. Estavam ansiosos para ir. Era a coisa certa a fazer. O Joe serviu como radialista da Marinha num submarino no Pacífico. O Bill entrou para o exército como tripulante de um caça-tanques e esteve envolvido em combates na Europa. Ambos sobreviveram à guerra.

Eram meus tios. Conheci-os quando era criança. Eram bons homens, muito católicos, e eu adorava-os. Cresci à sua sombra, com uma dieta regular de filmes de heróis feitos na ressaca da vitória na guerra. Claridade moral, sacrifício pessoal e um sentido de propósito atravessam uma geração de filmes de combate. Neles eu via o reflexo de homens como o Bill e o Joe.

O cinema de guerra tornou-se mais escuro com a Coreia e o Vietname. No seu cinismo, os filmes tornaram-se uma espécie de imagem invertida dos melodramas que vieram substituir. Foi só com o brilhante “O Resgate do Soldado Ryan” (1998), seguido da soberba minissérie “Band of Brothers” (2001), que o cinema arranjou forma de combinar a necessidade moral de uma guerra justa com o seu terrível custo em termos de sofrimento e violência. O patriotismo, bem entendido, é uma virtude. Mas pode ser acompanhado de uma factura muito alta e muito feia. 

Mais recentemente a HBO produciu “O Pacífico” (2010), uma minissérie que segue os fuzileiros que combateram nas selvas e através das ilhas do Pacífico. É inesquecível. Eu vi tanto o filme de Spielberg como as séries da HBO várias vezes. A guerra na Europa foi terrível e devastadora, mas travou-se nas ruínas de uma cultura ocidental comum. A guerra no Pacífico teve uma ferocidade incessante mais profunda e pura, livre de qualquer sistema de ética ou religião comuns e frequentemente agravada por ódio racial de ambos os lados. A Convenção de Genebra e as suas “regras de combate” foram largamente ignoradas. O resultado disto é que a violência representada em “O Pacífico” é de um realismo que tem tanto de historicamente correcto como de horrendo.

Onde é que eu estou a chegar com isto?

Horácio, o poeta romano, escreveu a famosa frase “Dulce et decorum est pro patria mori” no primeiro século antes de Cristo – uma fase tardia da República Romana, repleta de um intenso orgulho nacional, ambição e expansão territorial. Dois mil anos mais tarde essas mesmas palavras estão gravadas em pedra noutra república – a americana – por cima da entrada do Anfiteatro Memorial do Cemitério Nacional de Arlington, em Washington. A tradução é “É doce e adequado morrer pela pátria” ou, mais precisamente, “pela terra dos seus pais”.

As palavras do poeta perduraram pelos séculos porque, na sua melancólica nobreza, são verdadeiras. Defender as pessoas que amamos, e a nação que é a nossa casa, é uma coisa boa. É uma coisa boa arriscar o conforto e a liberdade e, em última instância, quando assim for necessário, a vida, para proteger os outros e resistir ao mal.

Batalha das Ardenas

É verdade que o patriotismo pode transformar-se de forma tóxica. A nação pode tornar-se uma espécie de ídolo. Como disse Chesterton, a expressão “o meu país, bem ou mal” faz tanto sentido como dizer “a minha mãe, bêbada ou sóbria”. Existem limites morais para a lealdade. Mas os seres humanos são criaturas de lugares e das relações que neles brotam raízes e dão fruto. Essa “pertença” a algo maior do que nós mesmos – o lugar e o povo que nos deram vida, que nos formaram e sustentam – é o que queremos dizer quando falamos em casa, e é por isso que os melhores ideais de uma “pátria” podem, de facto, exigir o nosso serviço.

Os católicos americanos sempre compreenderam isto. Tipicamente, os católicos encheram as fileiras das academias militares de forma desproporcional. O mesmo padrão pode ver-se (como bem notou o académico protestante Stanley Hauerwas) nas agências nacionais de segurança e de informação. A mais alta condecoração militar dos Estados Unidos, a Medalha de Honra, foi entregue a nove capelães ao longo da nossa história. Cinco deles eram padres católicos.

O amor pela pátria levou o Bill e o Joe Degnan a alistarem-se. No final da guerra o Joe regressou do Pacífico, criou uma família e teve uma carreira de sucesso na General Motors. A experiência do Bill foi diferente. Num combate de proximidade, nas Ardenas, o seu veículo antitanque foi atingido directamente. O combustível e as munições detonaram, incinerando a tripulação – todos menos o Bill, que foi lançado 10 metros pela explosão e ficou gravemente ferido.

Com o passar do tempo o Bill recuperou, pelo menos fisicamente. Regressado a casa, casou-se com uma boa mulher e tiveram uma filha linda, a minha prima Mary. O Bill era um bom trabalhador, mas tinha dificuldade em manter um emprego. Tudo lhe corria bem durante alguns anos, mas depois desaparecia para os hospitais de veteranos para aconselhamento e terapia de choque. Acabava sempre por regressar à família, bem e em paz. É assim que eu me lembro dele. Mas não durava. Nunca conseguiu esquecer a explosão, os gritos ou o cheiro. Quando a Mary morreu, ainda adolescente, num acidente de viação, ele nunca mais foi o mesmo.

O Bill Degnan era um bom cristão. Um marido fiel, um pai devoto, de comunhão diária. E depois chegou o dia em que desistiu. Entrou na garagem, fixou uma corda a uma trave e enforcou-se.

Há mais de cinquenta anos que rezo pelo Bill todos os dias. Não me preocupo muito com a sua alma, Deus é demasiado rico em misericórdia para esquecer um homem quebrado por um sofrimento que não criou, nem merecia. Antes de entrarmos numa guerra – qualquer guerra, mesmo uma “boa” guerra – precisamos de pensar muito seriamente sobre o verdadeiro custo humano. E eu não consigo deixar de pensar se o Bill terá combatido e sofrido por uma nação e um povo… que já não somos.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 14 de Fevereiro de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 10 November 2021

O que é um Capelão?

John M. Grondelski
O autor Steven T. Collis acaba de publicar um livro chamado The Immortals, que conta as histórias do padre John Washington, do Rabino Alexander Goode e dos pastores Clark Poling e George Fox. Os “quatro capelães” tornaram-se famosos por se terem sacrificado para salvar homens a bordo do Dorchester, um navio americano que foi torpedeado por um submarino alemão, afundando-se ao largo da Gronelândia em Fevereiro de 1943. Deram espiritualmente, como no caso do Pe. Washington, que absolveu soldados que se lançavam para as águas frigidas do Atlântico do Norte para abandonar o navio, e deram fisicamente, todos eles ofereceram os seus coletes salva-vidas a outros homens e as luvas de Goode permitiram a um homem manter-se agarrado a um bote salva-vidas durante oito horas. Revelaram fé em ação, pelas suas obras acalentaram outros (Tiago, 2,16).

Também nos ocorre o sacerdote inglês a quem recentemente foi negado acesso ao deputado Sir David Arness, enquanto este morria depois de ter sido esfaqueado, no dia 15 de Outubro. O padre acorreu rapidamente ao local – como já foi hábito os padres fazer – para administrar a Extrema Unção, mas foi impedido de aceder à vítima para “evitar contaminar” o local do crime. Claramente era mais importante que o homicida enfrentasse um juiz britânico do que ajudar Arness a enfrentar o juiz eterno. Aconteceu o mesmo a padres nos atentados da Maratona de Boston, em 2013. Na mentalidade actual as vítimas de crimes não precisam de capelães.

O Concílio Vaticano II pede-nos que examinemos os “sinais dos tempos”. Mas estes nem sempre são salutares.

Vivemos numa era de secularismo agressivo. Ao longo dos últimos 70 anos os americanos foram bombardeados com propaganda sobre o “muro de separação” que requer que a vida pública seja despida de todas as influências religiosas. Algo que noutros tempos seria considerado um exercício normal da liberdade religiosa que a Constituição garante – como por exemplo o acesso a um capelão – foi transformado de repente numa espécie de súplica por isenção das normas geralmente aplicáveis.

O secularismo cresceu de forma exponencial durante a COVID. Com os opinadores a colocar todas as questões em termos de sobrevivência física, as necessidades espirituais ganharam contornos de “súplica” por “isenções” das “normais geralmente aplicáveis”. De acordo com esse modelo, numerosos políticos consideram que têm autoridade para limitar o culto religioso e hospitais negaram aos seus doentes moribundos acesso aos cuidados espirituais.

A Igreja também não ajudou. O “hospital de campanha” abandonou o barco e os sacramentos não estavam disponíveis nas igrejas encerradas. A experiência de abandono levou muitos crentes a comparar, de forma desfavorável, a fuga de tantos capelães hoje com os quatro capelães que se aguentaram firmes no navio depois de terem salvo, tanto espiritual como fisicamente, o maior número possível de homens.

Os quatro capelães imortais
À luz destas experiências, a decisão da Universidade de Harvard, em Setembro, de nomear o ateu Greg Epstein chefe de capelães até parece fazer sentido. Os defensores da medida relativizaram a sua importância dizendo que este é um cargo sobretudo cerimonial ou administrativo, uma espécie de “primus inter pares” (um termo teológico cristão), como disse um cronista na Bloomberg. Aparentemente isso significa que o capelão se limita a liderar a oração não-denominacional, dirigida a alguém, na cerimónia de abertura, para além de elaborar o orçamento para o ministério universitário e fazer marcações, para além de garantir que os capelães cumprem os seus horários.

Se é isso que ele faz, então temos aqui outra boa razão para cortar na burocracia e nos custos administrativos do ensino superior. Os outros capelães que rodem entre eles a recitação da “oração genérica” enquanto o trabalho administrativo é feito por um assistente competente. Mas eu duvido que a escolha de Epstein tenha resultado de privilegiar as suas capacidades secretariais acima do seu professado ateísmo.

Epstein foi felicitado pela universidade de Harvard pelo seu livro “Good without God”, que defende “os grandes propósitos, a compaixão e a conectividade” sem qualquer fundamento religioso. O capelão “humanista/agnóstico/ateu” de Harvard foi considerado o “padrinho do movimento humanista”. Harvard tem agora um capelão-mor que é “espiritual mas não religioso!” (sem comentários pela “apropriação cultural” de um termo religioso pelos ateus).

Pode-se ser um “capelão” espiritual mas não religioso num local seguro como Harvard, onde as “vítimas” privilegiadas podem sentir a angústia espiritual ao mesmo tempo que estão seguros de estar numa via rápida para um bom emprego e futuro seguro.  Mas desculpem-me a audácia de notar que os capelães não são conhecidos tradicionalmente por permanecer em locais seguros a beber cacau quente e a fazer festinhas a cachorrinhos enquanto conversam sobre coisas fofas e “espirituais” com pessoas que estão… seguras. Os verdadeiros capelães eram vistos antes em locais inseguros: prédios em chamas, atentados, campos de concentração e navios torpedeados.

Como o bispo Robert Barron bem notou, um “capelão” normalmente dirige o culto. Mas o que é que o humanismo ateu “cultiva” para além do seu próprio umbigo? E como disse Karol Wojtyła, uma vez que Deus não é o inimigo do homem, mas antes o seu complemento, um “humanismo” que nega o destino sobrenatural do homem é ao mesmo tempo incompleto e anti-humano. O encorajamento deste tipo de “humanismo”, designando os seus praticantes como “capelães” é um caso de publicidade enganosa.

Na sequência da Covid-19 as pessoas precisam de capelães a sério, do tipo que outrora conhecíamos. Enquanto estes têm visto os seus serviços restringidos somos presentados com “capelães” que pregam o “evangelho do homem” e, pior, políticos que não são capelães mas gostam de fingir que o são na televisão, pregando a salvação de César enquanto proíbem a de Cristo.

Maximiliano Kolbe morreu capelão. Embora não tivesse sido escolhido para ir para o bunker da fome, ofereceu-se para ir no lugar de outro. Dezasseis dias mais tarde, depois de ter mostrado bem o que é o acompanhamento de um capelão, conduziu a sua última congregação até às portas do Céu.

O autor polaco judeu/católico Roman Brandstaetter fez uma vez a seguinte observação sobre um projeto editorial:

O DISPARATE DE IONESCO

Numa entrevista concedida recentemente à imprensa francesa, Ionesco revelou que pretende escrever uma peça de teatro sobre São Maximiliano kolbe. Disse então ao jornalista: “Estou agora num difícil dilema, a pensar como é que posso escrever sobre este drama de forma que não seja transformada numa peça de propaganda à ideia cristã”.

O escritor romeno-francês completou o texto para a ópera Maximiliano Kolbe em 1987. Ajudou a criar o “Teatro do Absurdo” em França, que basicamente rejeita a ideia de que existe um sentido para a vida. Brandstaetter, que era também um excelente argumentista, capturou o absurdo em Ionesco, pois como é que se escreve uma peça de teatro sobre um padre católico que voluntariamente se oferece para morrer à fome num bunker por amor ao próximo, tentando assegurar que “não seja transformada numa peça de propaganda à ideia cristã?”

Por outro lado, talvez Ionesco estivesse a escrever a descrição de funções para aquilo que o mundo moderno procura num “capelão”.


John Grondelski (Ph.D., Fordham) foi reitor da Faculdade de Teologia da Seton Hall University, South Orange, New Jersey.  As opiniões expressas neste texto são apenas suas.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 6 de Novembro de 2021)

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Wednesday, 1 September 2021

Uma Resposta Cristã à Derrota

Michele Malia McAloon

Retirada ou derrota? Os guerreiros do teclado e os livros de história debaterão esta questão durante décadas. Para a maioria dos americanos a ver o desastre no Afeganistão, esta é apenas uma questão de orgulho nacional, e não um assunto existencial que lhes afecta directamente as vidas. Infelizmente, para a pequena minoria de americanos que opta por combater, põe-se agora a questão de saber se vinte anos de combate contínuo valeram o preço que lhes foi cobrado a eles, às suas famílias e à nação.

Para a maioria dos americanos, a realidade das guerras no Afeganistão e no Iraque foi um fardo suportado por outros. Políticos sem qualquer conhecimento militar e sem filhos a servir nas forças armadas decidiram depressa, talvez irresponsavelmente, por uma intervenção militar. Ao mesmo tempo não houve qualquer apelo à juventude para pegar em armas. Desde o início de ambas estas guerras houve uma atitude generalizada de que esta era a guerra de outros. Certamente não era uma questão de responsabilidade pessoal, nem para os membros da própria família.

Não houve apelos a mobilização popular para plantar comida ou comprar obrigações de guerra, nem de fazer o mais pequeno dos sacrifícios para reconhecer, muito menos contribuir para o esforço de guerra. Em vez disso a política "woke" e as compras é que estiveram na ordem do dia. Palavras de agradecimento pelo serviço dos veteranos soaram a pouco enquanto as candidaturas à universidade, bolsas desportivas e preparação para os exames evitaram que a maioria dos pais considerassem sequer o serviço militar como opção para os seus filhos.

1

Desde 2001 quase três milhões de militares serviram nos teatros de guerra que se seguiram ao 11 de Setembro, no Afeganistão e no Iraque. Tristemente, mais de 7.000 militares americanos, a que se acrescentaram agora mais 13, perderam as vidas ao longo de duas décadas da guerra contra o terrorismo. Muitos dos nossos aliados europeus também sofreram baixas pesadas. Mais trágico ainda é o número de soldados que se suicidaram depois de regressar a casa. As feridas psicológicas do stress pós-traumático provaram ser mais mortíferas que o combate em si. Quatro vezes mais veteranos de guerra, mais de 30,177 pessoas, suicidaram-se do que aqueles que morreram em batalha.

Esta guerra foi uma questão familiar. Muitos militares serviram várias missões, passando mais tempo fora do que em casa ao longo das últimas duas décadas. O ciclo de missão, regresso a casa e preparação para a próxima missão nunca acabou. O custo íntimo foi suportado por familiares, esposos, pais, filhos e amigos que tiveram de lidar com a ausência e – frequentemente – tiveram de se adaptar às mudanças naqueles que regressavam do campo de batalha.

Desde o início desta retirada brutal e caótica do Afeganistão, esposos de soldados têm estado a postar fotografias de cerimónias de boas-vindas em que participaram ao longo de vários anos, para os seus familiares. Fotos de duas, três ou quatro cerimónias, com as crianças a envelhecer, são um testemunho do verdadeiro custo pessoal suportado por famílias militares durante esta guerra.

2

Os relatos de que os afegãos não estavam dispostos a combater são simplesmente falsos. Os soldados afegãos morreram a uma taxa de 27 vezes mais que os americanos e seus aliados. Ao longo dos últimos 10 dias os oficiais americanos têm estado a responder a chamadas e mensagens dos seus parceiros e intérpretes afegãos, pedindo ajuda. Velhas feridas reabriram agora que muitos não têm a capacidade para prestar o auxílio de que os seus leais colegas precisam para poderem escapar aos Taliban.

A guerra e o conflito são tão antigos como a humanidade; a derrota idem. Mas derrota e derrotado não são a mesma coisa. O Antigo e Novo Testamentos, bem como as vidas dos santos, estão cheios de exemplos de perda e renovação. Moisés encontrou esperança nos 40 anos de travessia do deserto, sem o prémio de entrada na Terra Prometida. São Paulo encontrou a sua vitória final na cadeia. Ele sabia que a verdadeira vitória vem apenas na celebração da esperança, na paciência nas tribulações e na constância da oração (Romanos 12,12). Santos e pecadores, ao longo dos anos escolheram erguer-se da derrota transformando um passado doloroso num futuro de esperança através da fé e do serviço a algo maior que si mesmos.

Ironicamente, a nossa renovação enquanto nação, igreja ou comunidade de crentes poderá nascer do exemplo de serviço que está a ser dado, mesmo agora, à sombra das suas dificuldades e perda, pela nossa comunidade militar. Militares e suas famílias, pessoas sem grandes meios financeiros ou materiais, que foram os mais afetados pelas guerras americanas no Afeganistão e no Iraque continuam a servir, sacrificar e perguntar que mais podem fazer para ajudar.

3

Com os refugiados afegãos a começar a ser realojados em centros de detenção financiados pelos EUA, na Alemanha, uma legião de famílias de militares e de veteranos estão a oferecer-se como tradutores e voluntários. Tenho-os visto ao longo dos últimos dias, na Base Aérea de Ramstein, a dar uma resposta que só consigo descrever como arrepiante.

O simples gesto de um familiar de militar a comprar fraldas para um bebé afegão cujo pai até poderá ter contribuído para a violência dirigida contra os seus entes queridos representa um momento definidor para a nossa nação. O serviço e o sacrifício acrescidos, em vez do recuo para o ressentimento, tornaram-se uma fonte de cura. O serviço e a dádiva são um mero reflexo para aqueles que optaram por servir. Os americanos devem reflectir profundamente sobre este humilde exemplo.

Para os cristãos a derrota está sempre ao virar da esquina. A vida cristã é um combate contra o pecado, a tentação e o desespero. A nossa verdadeira força vem dos mandamentos tão simples, mas tão difíceis de pôr em prática, de amar a Deus e ao próximo. Um futuro menos violento poderá estar a ser gerado nos corações de homens e mulheres dispostos a ordenar as suas vidas segundo os mandamentos de Deus.

Numa sexta-feira, há vários séculos, numa colina deserta no Médio Oriente chamada Calvário, a derrota e a morte pareceram absolutos. Três dias mais tarde, quando o sol nasceu iluminou um sepulcro vazio – a mais profunda vitória na história da humanidade. A derrota só pode ser temperada pelo amor e no conhecimento de que a sua vitória é a nossa, agora e para sempre.

São Miguel Arcanjo, Defendei-nos no combate.

Fotos:

1. Elementos das Forças Especiais americanas a cavalo no Afeganistão, em Outubro de 2001. (Foto: FA Americanas).

2. Os caixões de Hunter Lopez, Rylee McCollum, David Lee Espinoza, Kareem Nikoui, Jared Schmitz, Daegan Page, Taylor Hoover, Humberto Sanchez, Johanny Rosario, Dylan Merola, Nicole Gee, Max Soviak e Ryan Knauss, os soldados mortos no recente atentado em Cabul. Dover Air Force, Delaware, 29 Agosto de 2021. (Foto: U.S. Marine Corps).

3. Os primeiros evacuados do Afeganistão da Base Aérea de Ramstein, na Alemanha, para os EUA, depois da meia-noite do dia 23 de Agosto de 2021. (Foto: Força Aérea EUA)


Michele Malia McAloon é casada há quase 28 anos. É mãe, oficial das Forças Armadas americanas na reserva e advogada de direito canónico. Vive em Wiesbaden, na Alemanha. Pode ouvir o seu podcast “Cross Word” no Spotify, Apple Podcasts e archangelradio.com.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 31 de Agosto de 2021)

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