Thursday, 27 May 2021

Louvar o mundo mutilado

Uma conta que sigo no Twitter tem estado a postar imagens com a legenda “Tenta louvar o mundo mutilado”. Não pude deixar de pensar no assunto quando vi as imagens do Papa Francisco a beijar a tatuagem do campo de concentração de uma sobrevivente do holocausto, na quarta-feira.

O mesmo Papa Francisco nomeou esta quinta-feira um sucessor para prefeito da Congregação para o Culto Divino. Arthur Roche sucede ao Cardeal Robert Sarah.

A situação da pandemia na Índia está a atingir níveis assustadores, com uma religiosa a dizer que há cada vez mais órfãos a precisar de famílias.

Na Renascença continuamos a conversar com bispos para saber como é que a pandemia afetou as suas dioceses. Ontem falámos com o bispo de Lamego e hoje com o de Aveiro

Recentemente houve na Alemanha uma sessão organizada de bênção de casais em situação irregular, incluindo homossexuais, contrariando assim, propositadamente, a doutrina da Igreja e uma recente decisão da Congregação para a Doutrina da Fé. A autora do artigo desta semana do The Catholic Thing foi ver o que se passava numa dessas celebrações e faz a descrição, algo deprimente.

E por fim, o meu desafio para enviarem sugestões para nomes de bandas de death metal cristão (género que, incrivelmente, existe mesmo) não foi propriamente um retumbante sucesso, mas ainda chegaram algumas. “Santo Sepulcro”, “Andronikos Rakar” e “Kristos Rules” ficam assim empatados em primeiro lugar.

Wednesday, 26 May 2021

#LoveWins, mas sem Alegria

Michele Malia McAloon
Há duas semanas, numa manhã chuvosa de segunda-feira, caminhei até uma pequena igreja Católica situada num beco na cidade de Mainz, na Alemanha. Mais de 100 igrejas católicas na Alemanha tinham anunciado serviços religiosos para os dias 9 e 10 de Maio, para abençoar casais de namorados, numa campanha publicitada na internet com o lema “love wins” [o amor vence].

Eu queria ver em que consistia esta “cerimónia de bênção” para todos os casais, independentemente da sua orientação sexual. Enquanto advogada de direito canónico que trabalha na área de processos de nulidade e de casamentos, estava interessada em ver que tipo de cerimónia seria esta, para pessoas que ou não estavam para se chatear com um casamento sacramental, ou então não compreendem que nem todas as proclamações de “amor” favorecem o florescimento humano.  

Esta iniciativa, que abrangeu toda a nação alemã, foi organizada por padres, diáconos e voluntários católicos que pensam, erradamente, que têm o direito e o dever de rejeitar a decisão de Março da Congregação para a Doutrina da Fé de que as uniões homossexuais não podem ser abençoadas. O site que promovia as cerimónias anunciava orgulhosamente: “Erguemos as nossas vozes e dizemos: Continuamos a colocar-nos ao lado daqueles que se comprometem numa relação vinculativa, e abençoamos as suas relações”.

Enquanto me instalava nas filas detrás da Igreja, rezei para que ninguém comparecesse. Esperava encontrar uma igreja vazia, e então iria alegremente jantar. Tanto quanto conseguia perceber, muito poucos casais tinham-se registado no site, como se pedia. E, de facto, só lá encontrei três casais – dois casais heterossexuais e um par de homens homossexuais.

No santuário, junto ao altar, estava um sacerdote e uma mulher vestida de diácono. Outro homem com um hábito castanho estava sentado, a tocar guitarra. O altar estava despido, à excepção de algumas velas. Ninguém se preocupou em levantar-se quando o padre entrou, nem em fazer o Sinal da Cruz. O “serviço” abriu com uma série de músicas folclóricas, cantadas pela mulher com a casula.

Toda a charada estava repleta de ironias, mas talvez a maior fosse o facto de estarmos a poucos metros de um famoso órgão pelo qual a pequena igreja, fundada em 1331 pelos antonitas e entregue às clarissas em 1620, é conhecida.

Durante todo o processo não houve a menor interação com a congregação. A mesma mulher aproximou-se do altar sem qualquer sinal de reverência exterior pela presença do Senhor no sacrário e fez uma homilia de 15 minutos sobre o amor. Depois dessa homilia, e de mais uma música, o padre fez uma leitura. Mais uma vez, ninguém se preocupou em levantar-se.

Depois, pediu aos casais que se levantassem e lessem algum tipo de declaração de amor um pelo outro. Não houve beijos para selar o acordo, nem qualquer sinal exterior de afeição. Toda a gente se sentou. A mulher cantou mais um bocado e em menos de 30 minutos tudo tinha acabado.

O padre aproximou-se de mim no final e, para dizer a verdade, só me consegui afastar. Não há palavras em inglês ou em alemão que pudessem justificar um tal gesto cismático por parte de qualquer pessoa na Igreja.  

São Bonifácio
Não me preocupei com o jantar, já não tinha apetite. Tudo aquilo tinha sido deprimente e triste. Não houve qualquer sentido de celebração, só o sentido duramente mundano de uma tarefa cumprida, algo mais parecido com o registo de um automóvel na Direção-geral de Viação do que a natureza alegre de um baptismo ou de um casamento.


Não houve trajes nupciais. Os casais estavam vestidos de calças de ganga e camisolas. Tudo se passou sem champagne, bolo, jantar, amigos e família juntos para celebrar o começo de uma comunidade de vida e de amor.

A terra de Martinho Lutero continua sujeita a fortes restrições por causa da Covid-19, por isso não havia restaurantes abertos para celebrar aquilo que tinha acontecido. Será que os casais voltaram para casa e festejaram com um jantar de restos e de Netflix? Terá esta bênção transmitido magicamente a ideia de que um compromisso para a vida toda tem de facto a ver com o trabalho duro e nada romântico de salvação e redenção, enquanto esposos que dão a vida um ao outro com o objetivo de levarem-se um ao outro até ao Céu?

Ou será que tudo não passou de uma farsa politica/ideológica?

Em vez da concessão de graça dada pelo Espírito Santo por via de um verdadeiro sacramento, os casais que alegadamente procuravam a riqueza dos tesouros da Igreja receberam migalhas sacramentais das mãos dos padres que deviam ser os primeiros a saber a diferença entre verdadeira empatia e falsa “compaixão”.

No final de contas, nada saiu de tudo isto para além da manipulação de pessoas para fazer uma espécie de afirmação política sobre casamento homossexual e um manguito adolescente para o Vaticano.

Enquanto regressava ao meu carro, passei por uma estátua de tamanho real de São Bonifácio, bispo e mártir (680-754 AD) que está diante da Catedral de Mainz. Durante a sua vida este santo anglo-saxónico tornou-se conhecido como o Apóstolo do povo germânico, depois de ter derrubado com um machado uma árvore sagrada, adorada pelos pagãos germânicos.

De acordo com a lenda, São Bonifácio usou a madeira da árvore para construir uma igreja dedicada a São Pedro. Quando se tornou arcebispo de Mainz, em 752, recebeu como pálio um pano que tinha sido colocado sobre o túmulo de São Pedro.

São Bonifácio foi martirizado por causa da sua fidelidade aos ensinamentos da Igreja, destemido apesar das muitas ameaças feitas por adoradores de falsos deuses. Quem diria que a sua vida santa seria, depois de séculos de Cristianismo na Alemanha, um comentário irónico sobre aqueles que preferem o cisma à unidade, o individualismo indulgente à comunidade e a destruição social à graça vivificante?

São Bonifácio, rogai pela Alemanha – e por nós.


Michele Malia McAloon é casada há quase 28 anos. É mãe, oficial das Forças Armadas americanas na reserva e advogada de direito canónico. Vive em Wiesbaden, na Alemanha. Pode ouvir o seu podcast “Cross Word” no Spotify, Apple Podcasts e archangelradio.com.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 20 de Maio de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Tuesday, 25 May 2021

Patriarcas e Death Metal Cristão, sem a parte do Death Metal

Morreu esta terça-feira o Patriarca da Cilícia dos Arménios Católicos. Chamava-se Gregório Pedro XX, ou Krikor Bedros XX em arménio. Se andavam à procura de um nome para uma banda de death metal cristã, já sabem. Aliás… Fica o convite para me enviarem as vossas melhores propostas de nome para uma banda de death metal cristão. No próximo Actualidade Religiosa divulgo o vencedor. 

A Conferência Episcopal Portuguesa organiza no sábado um encontro sobre a proteção de menores na Igreja, com a presença do padre especialista Hans Zollner. Recordo que vou mantendo no blogue uma cronologia rigorosa sobre casos de abuso na Igreja em Portugal, e outros desenvolvimentos ligados ao assunto.

A série de entrevistas com bispos portugueses, sobre os efeitos da pandemia, continua e hoje podem ler o D. João Marcos, de Beja, que diz que se passa fome no Alentejo.

A Igreja Católica tem sido uma voz firme na defesa da liberdade na Birmânia. O resultado fez-se sentir nos últimos dias, com a explosão de uma bomba numa igreja, que matou 4 pessoas.

Os frescos descobertos na Igreja do Espírito Santo, em Évora, vão ficar visíveis. É o resultado de um longo processo de restauro daquela Igreja. Aqui podem ver imagens.

Não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing, que compara a atitude dos bispos que se recusaram a criticar a escravatura nos EUA com a dos que hoje preferem não criticar abertamente os políticos que defendem e promovem o aborto. O tema é complexo e o artigo contribui para o seu aprofundamento.

Friday, 21 May 2021

Eu Templeton, Tu Jane

A partir das 00h, de Portugal continental, a paz regressou à Terra Santa. Durante quanto tempo? Não sabemos. Ontem estive no programa da Ecclesia, na RTP, para falar sobre a complexidade do conflito entre Israel e a Palestina, do papel da religião e das possíveis resoluções. Podem ver aqui.

A ambientalista Jane Goodall é a vencedora deste ano do prestigiado Prémio Templeton, que é atribuído a que trabalha na área da conciliação entre ciência e fé.

Ao longo dos últimos dias a Renascença tem estado a falar com os diferentes bispos de Portugal sobre os efeitos da pandemia no país. Podem ler aqui as reportagens já publicadas.

Conheça a história de Ricardo, que hoje completou uma promessa de ir a pé de Lagos até Fátima, depois de ter recuperado de uma leucemia.

O Papa falou ontem com jovens de vários países que beneficiam do programa de incentivo à integração através do desporto e do futebol e recordou que na bola, como na vida, se esquecemos a gratuidade perdemos o jogo.

Como devem saber tem havido um grande debate entre os bispos dos EUA sobre se o presidente Joe Biden deve poder comungar ou não, sendo um católico que defende aberta e ostensivamente o aborto. O nosso querido Randall Smith faz um paralelo neste artigo com os bispos americanos que teimavam em não condenar abertamente a escravatura. 

O Filipe resolve o problema do Médio Oriente... Quase.

Ontem estive no programa da Agência Ecclesia para falar sobre a crise no Médio Oriente, as raízes do conflito entre Israel e a Palestina, o papel da religião em tudo isto e possíveis soluções de paz.


Wednesday, 19 May 2021

Papas, Bispos, Escravatura – e Nós

Randall Smith

Há um velho ditado que diz que quem se esquece da história está condenado a repeti-la. Por outras palavras, podemos e devemos aprender as lições da história. Mas a experiência da atualidade pode ajudar a iluminar de forma inesperada coisas que sempre nos confundiram sobre o passado.

Pensemos, por exemplo, na história das condenações papais da escravatura racial, a começar pela bula Sicut Dudum, de 1435, do Papa Eugénio IV. Depois veio a bula Sublimis Deus do Papa Paulo III, em 1537, em que ele caracterizou a escravatura como sendo elaborada pelos correligionários do inimigo da raça humana, isto é, Satanás. E, finalmente, temos a condenação da escravatura do Papa Gregório XVI em 1839 no In Supremo, onde escreveu que “Numerosos pontífices romanos de venerando memória, nossos antecessores, como imperiosa obra de seu ministério, nunca deixaram de repreender com firmeza tal comportamento, contrário à salvação espiritual de quem o cumpre e ultrajante para o nome cristão”.

Ele refere explicitamente documentos escritos por Clemente I, Pio II, Paulo II, Bento XIV, Urbano VIII e Pio VII e termina com esta firme condenação:

Por essa razão nós, querendo fazer desaparecer o mencionado crime de todos os territórios cristãos (…) seguindo as pegadas de nossos predecessores, com a nossa apostólica autoridade, admoestamos e esconjuramos energicamente no Senhor todos os fiéis cristãos de qualquer condição que, doravante, ninguém ouse fazer violência, desapropriar de seus bens ou reduzir seja quem for à condição de escravo, ou prestar ajuda ou favorecer àqueles que cometem tal delito ou querem exercitar o indigno comércio por meio do qual os negros são reduzidos a escravos - como se não fossem seres humanos, mas pura e simplesmente animais, sem nenhuma distinção, contra todos os direitos de justiça e humanidade -, são comprados, vendidos e constrangidos a trabalhos duríssimos.

Após o que conclui, com este aviso:

Proibimos e vetamos com a mesma autoridade a qualquer eclesiástico ou leigo defender como lícito o tráfico dos negros, qualquer seja o escopo ou pretexto, e de presumir ensinar outro modo, pública e privadamente, contra aquilo que com a presente carta apostólica expressamos.

O que nos obriga a pensar: Porque é que a escravatura não acabou entre os donos de escravos católicos no Sul dos Estados Unidos? Como é que as condenações papais podiam ser tão constantes e os efeitos tão inexistentes? Uma das respostas está na reação de certos bispos e membros de ordens religiosas.

Os Jesuítas, por exemplo, detinham escravos e venderam-nos a um latifundiário do Sul em 1838 para pagar as dívidas da Universidade de Georgetown. (O nome do padre que fez o negócio ornava a parede do Holy Cross College até 2020).

O bispo John England, de Charleston, na Carolina do Sul, escreveu cartas detalhadas a John Forsythe, secretário de Estado do Presidente Martin Van Buren, explicando que ele e a maioria dos bispos americanos interpretavam o In Supremo como condenando o negócio da escravatura, e não a escravatura em si.

A atitude que prevalecia entre os bispos, segundo o autor Joel Panzer, parece ter sido esta: “Muitos aspetos da escravatura eram maus”, porém, “alterar a lei seria, em termos práticos, um grande mal”. (Para um bom resumo, vejam o livro The Popes and Slavery, de Joel Panzer). Clérigos como o bispo England fizeram tudo o que estava ao seu alcance para dissociar os católicos dos abolicionistas, que consideravam “fanáticos”.  

Bispo John England

A bula do Papa Gregório a condenar a escravatura foi discutida pelos bispos no Concílio de Baltimore, em 1840. A interpretação do bispo England dominou e ele informou o secretário de Estado que:


Todos [os seus colegas bispos] consideram que a bula se refere ao “negócio dos escravos” e não à “escravatura doméstica”. Creio, senhor, que podemos considerar isto como prova bastante conclusiva da perspetiva da Igreja Católica Romana deste documento.

O que é que os bispos que interpretaram o documento desta forma pensavam que se estava a passar nos mercados de escravos no Sul? Não era negócio de escravos? Como é que não reconheciam que estavam a ofuscar a condenação clara da escravatura por parte da Igreja com distinções semânticas parvas e a ignorar os horrores evidentes que se passavam diante dos seus olhos?

Porquê esta atitude dos bispos? Eis uma das razões, segundo o próprio bispo England: “Se este documento condenasse a nossa escravatura doméstica como uma prática ilegítima e por isso imoral, os bispos não a poderiam aceitar sem se obrigarem à recusa dos sacramentos a todos os que possuíssem escravos, a não ser que os libertassem”.

Que sugestão impensável! Bispos a ter de dizer a pessoas comprometidas com um ato imoral que estavam envolvidos num ato imoral! Afinal de contas, as pessoas dependiam do acesso à escravatura. Dizer-lhes que deviam parar de se envolver num mal moral seria tão… impopular. E o sensus fidelium?

Tenho pensado longamente sobre este período da história. Como é que os bispos se podiam convencer de que estavam a ser fiéis à sua missão, aos ensinamentos de tantos papas e aos seus deveres morais diante de Deus? Como é que católicos podem, em boa consciência, e sabendo que um ato já foi condenado pela Igreja comos sendo um mal moral grave, continuar a envolver-se nele? Como é que isso acontece?

Da mesma forma, como é que soldados católicos podiam escutar o mandamento “Não matarás”, meses a fio, ler a condenação do nazismo no Mit Brennender Sorge, ir à missa todos os domingos, rezar o terço regularmente e depois voltar para trabalhar com o resto dos guardas em Auschwitz? Não faz sentido nenhum.

Até que lemos os argumentos enrolados de alguns bispos sobre porque é que seria impensável “recusar os sacramentos” a líderes políticos que fizeram tudo o que está ao seu alcance para apoiar o assassinato de milhões de crianças por nascer. E é então que percebermos, foi isso que se passou com a escravatura. Agora compreendo.

Claro que os nossos bispos não se vêem a si mesmos dessa forma – como maus infiéis. Obviamente o John England também não se via dessa forma – nessa altura. Agora, certamente, já vê a verdade.


 Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 15 de Abril de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.


Wednesday, 12 May 2021

Especial pré-apocalíptico de liberdade religiosa

Há caos na Terra Santa, uma praga de dimensões pandémicas e o Sporting é campeão, por isso parece-me mais que evidente que o apocalipse está à porta. Uma boa razão para mais um apanhado de Actualidade Religiosa…

Hoje prestamos especial atenção a questões de liberdade religiosa. Temos o caso do capelão de uma escola inglesa que foi denunciado a uma unidade de antiterrorismo por dizer aos seus alunos que podiam questionar a ideologia do género.

Temos ainda o caso da deputada e ex-ministra finlandesa que vai ser julgada por ter questionado o facto da sua igreja ter patrocinado uma marcha gay.

E na Suíça um tribunal deu razão a um médico que se queixou da suspensão do culto público, decretando que viola a liberdade religiosa dos cidadãos.

Liberdade Religiosa é coisa que escasseia na Índia e as ONG e especialistas esperam que a União Europeia pressione o primeiro-ministro Modi sobre o assunto.

Por falar em União Europeia, foi finalmente nomeado o novo enviado especial para a liberdade religiosa fora da UE. É um cipriota (na foto) e os bispos europeus já saudaram a escolha.

No programa Aura Miguel Convida da semana passada ficámos a conhecer Luís de Sousa Coutinho, um aristocrata que se apaixonou por Cristo e se tornou eremita, inspirado pelo (em breve) santo Charles Foucauld.

Por fim, temos dois novos artigos do The Catholic Thing no blog. No primeiro podem ler o testemunho comovente de uma mulher que foi levar a comunhão a um lar de idosos a pessoas que não comungavam há mais de um ano e no segundo ficam a conhecer H. H. Weiler, um académico judeu que tem uma teoria interessantíssima sobre o julgamento de Jesus.

O Julgamento de Jesus

Joseph R. Wood

O Professor Joseph H. H. Weiler, da New York University Law School é um homem pouco comum. Nascido na África do Sul, serviu nas forças armadas de Israel e foi educado na Europa antes de rumar para os Estados Unidos. É especialista tanto em comércio como em direito constitucional e defendeu, com sucesso, o direito do Estado italiano de exibir o Crucifixo nas salas de aula diante do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.

Quando visitei o seu gabinete, há uns anos, os meus olhos foram atraídos imediatamente por uma fotografia da sua família a ser recebida pelo Papa (agora Santo) João Paulo II. Não era propriamente típico para um judeu devoto. Mas não é preciso mais do que dois dedos de conversa com ele para ver o espírito generoso e o grande coração que João Paulo II teria admirado. A palavra que melhor o descreve é o iídiche mensch.

Weiler estudou com atenção o Novo Testamento e, em particular, o julgamento de Jesus. Durante vários anos leccionou um curso sobre essa matéria na NYU Law School que atraía alunos judeus, católicos e protestantes.

Em 2010 proferiu o prestigiada Conferência Erasmus sobre o julgamento e resumiu o seu argumento num ensaio publicado na First Things. O ensaio conclui com esta questão séria: “Não será então possível que, neste julgamento duplo, de Jesus e dos Judeus, todos estavam a seguir o caminho de Deus?”

Como é que isso é possível? Será que ao condenar Jesus e ao pedir aos seus governantes romanos para o crucificar, as autoridades judaicas estavam a fazer a vontade do Deus de Abraão, Isaac e Jacob, e no entendimento da fé cristã, do Deus-homem que morreria e ressuscitaria?

Há aspetos estranhos deste julgamento, na forma como é representado nos Evangelhos. O facto de os líderes judeus terem decidido sequer ter um julgamento é estranho. Sem a comunicação social a melgar, porque é que não teriam escolhido a opção mais simples de fazer Jesus “desaparecer”? Cristo poderia ter escapado à tentativa de assassinato quando passou por entre a multidão enfurecida, mas o concelho judaico poderia não saber isso.

No julgamento chamaram testemunhas, mas elas contradisseram-se. Não conseguiriam ter arranjado um par de testemunhas que, com um pouco de “encorajamento”, concordassem numa acusação? Aparentemente os responsáveis judeus acreditavam que precisavam de ter pelo menos a aparência de um julgamento justo.

E acabou por não ser um testemunho verdadeiro ou falso, mas sim as próprias palavras de Jesus que levaram à sua condenação.

Weiler nota que existe uma “dualidade” nas palavras de Jesus através dos Evangelhos. Ele diz que não veio mudar uma única vírgula na lei, mas para a cumprir. Ao ouvir estas palavras, os chefes dos judeus certamente pensaram no que seria esse “cumprimento”. Seria o próprio Jesus o cumprimento da lei, como chegou a dizer uma vez quando ensinava na sinagoga?

Segundo Weiler, a maioria das afirmações controversas de Jesus estavam dentro dos limites do debate aceitável. Discutir a permissibilidade de colher espigas no Sábado não era uma ofensa capital. Mas afirmar ser o Senhor do Sábado poderá ter ultrapassado esse limite. Os escribas e os doutores da lei teriam ouvido essas palavras e compreendido que Jesus estava a reivindicar para si uma divindade blasfema para qualquer mortal, mas de forma ambígua.

O julgamento tinha por objetivo clarificar essa ambiguidade. Mas Jesus diz pouco no julgamento, não nega nada e deixa o tribunal ainda incerto sobre o seu “estatuto”. As suas palavras são tomadas como uma confirmação da sua apresentação blasfema de si mesmo enquanto Deus.

Weiler encontra em Deuteronómio 13, 1-5 uma explicação possível para o comportamento do tribunal.

H. H. Weiler

Se surgir no vosso meio um profeta ou alguém que faça predições através de sonhos e vos apresentar um sinal ou um prodígio, e o sinal ou o prodígio sobre o qual ele vos falou se cumprir, e ele disser: ‘Vamos seguir outros deuses, deuses que não conheces, e vamos servi-los’, não escutais as palavras desse profeta ou daquele que faz predições por meio de sonhos, pois Jeová, vosso Deus, está a pôr-vos à prova para saber se amam a Jeová, vosso Deus, de todo o vosso coração e de toda a vossa alma. (…) Mas aquele profeta ou aquele que faz predições através de sonhos deve ser morto, (…) Assim, eliminai o mal do vosso meio.

As autoridades judaicas eram responsáveis por tomar decisões que sustentariam, ou deixariam de sustentar, o dever sagrar dos judeus na aliança com Deus. Entenderam que Jesus os estava a colocar em posição de serem eles julgados à luz do mandamento de Deus em Deuteronómio.

Seria Cristo o profeta referido em Deuteronómio 13, pensaram. Os seus milagres eram verdadeiros, tal como previsto naquela passagem, não se tratava de ilusionismo. Sem qualquer conhecimento da Trindade, as suas palavras poderiam ser entendidas como um incitamento aos Judeus para seguirem outro Deus: ele mesmo, que se afirmava como sendo a verdade e a vida e o filho do Homem.

Parece inegável que Cristo disse aos seus discípulos que teria de morrer para cumprir a sua missão salvífica. Os esforços de Pedro para evitar essa morte provocaram uma das mais severas reprimendas de Cristo: “Vá de retro, Satanás”. Cristo também lhes disse que era melhor que ele partisse, para que o Advogado lhes fosse enviado no Pentecostes.

Por isso, ao condenar Jesus e pedir a sua execução, estariam os líderes dos judeus, sem o saber, a ser agentes da vontade de Deus de que Cristo fosse morto, abrindo assim caminho para a Ressurreição e a vinda do Espírito Santo para todos os povos?

E estariam simultaneamente a cumprir o mandamento imposto por Deuteronómio, na qualidade de povo escolhido na aliança com Deus?

Weiler não afirma que a sua leitura seja uma solução livre de problemas, que resolve todas as questões. Mas é, pelo menos, uma questão passível de debate teológico.

E parece-me ainda que a tese de Weiler, com o seu conhecimento profundo das escrituras, não deve ser mais difícil de aceitar do que a ideia de que com Cristo a morte é vida, ou que uma Virgem pode dar à luz um homem que é Deus. O Deus omnipotente não se contradiz, mas as suas obras são insondáveis.


Joseph Wood é professor no Instiute of World Politics em Washington D.C. e colaborador na Cana Academy.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 7 de maio de 2020 em The Catholic Thing

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

 

Wednesday, 5 May 2021

Não sabemos a Hora

Elizabeth A. Mitchell
No conto macabro de Edgar Allen Poe “A Máscara da Morte Vermelha”, o Príncipe Próspero toma uma decisão surpreendente quando o seu reino é ameaçado por uma praga mortal. Ele tem poder absoluto e, por isso, encerra o seu palácio, fecha os portões e não deixa ninguém entrar nem sair, isolando-se da morte. Simples. Próspero e os seus cortesãos podem divertir-se em segurança, a Morte não consegue entrar. 

Até que entra. A morte chega, qual convidado indesejado nas soirées exclusivas do Príncipe, e todos os foliões, incluindo o próprio Príncipe, perdem a vida, sem se poderem proteger deste intruso.

E nós, com os nossos confinamentos modernos, com os nossos edifícios isolados e listas de pessoas “essenciais” não somos muito diferentes do Príncipe e das suas tolices. Pior, porque ao tentar manter a Morte fora da nossa sociedade, também fechámos as portas à Vida.

Eu tenho o privilégio de poder aceder a um lar perto de onde vivo. É uma instituição bem gerida e sobreviveu a esta crise sem qualquer surto significativo. Um triunfo para os idosos e uma alegria para todos os residentes. Mas como ninguém pode entrar e ninguém pode sair – nem o carteiro, nem amigos e familiares, nem mesmo o padre – também Cristo foi vedado.

Cristo costumava ser recebido todas as semanas e os residentes católicos apreciavam poder ir juntos à missa. Mas durante o confinamento, que foi mais severo nos lares do que em qualquer outra parte do país, o padre já não pôde entrar. Os residentes estavam ainda impedidos de se juntar em pequenos grupos para rezar. Aceitaram a sua nova realidade: Missa só na televisão, sozinhos, nos seus quartos.

Passaram-se meses. A Páscoa chegou e partiu e veio o calor do verão. Passou a primavera, e o Natal, sem visitas de familiares, e os residentes revelaram uma resiliência e uma força de vontade invulgares. Muitos viveram os tempos da Segunda Guerra Mundial, a vacina da poliomielite e outros desafios. Isto, concluíram, era difícil, mas viável.

Depois veio a Semana Santa e algo mudou. Residente após residente comentou o quanto sentia a falta da Eucaristia. Muitos destes católicos da vida inteira, habituados à missa diária, não recebiam a Eucaristia há mais de um ano. Nem uma vez. E não havia esperança de o fazer.

Foi então que se tornou evidente que, uma vez que eu podia entrar no edifício, Cristo poderia usar-me para aceder. Não duvido que Ele queria vir. Ele via estas almas amadas e ansiava poder estar com elas. 

A aprovação pelo nosso diretor-geral – quase um milagre em si mesmo – combinada com a confiança do pároco, levou à determinação de uma data para eu poder levar a Eucaristia aos residentes. À tarde de Sexta-feira Santa. Sexta-feira Santa? O único dia no mundo em que a Missa não é celebrada, em que Cristo está no sepulcro e o mundo aguarda a Ressurreição em silêncio e solidão.

Quantas hóstias quer? Perguntou o pároco. Vinte e cinco, respondi, pensando que chegaria. Mas algo dentro de mim dizia-me que seriam precisas mais, que devia pedir quarenta. Devia ter ouvido.

Cristo e eu chegámos pontualmente às 13h e fomos diretamente para a Sala das Actividades. Tinha sido colocado um aviso apressado no elevador a dizer que os católicos que quisessem receber a Santa Comunhão podiam juntar-se para a distribuição.

Entrei na sala e vi fé, fé pura, e devoção. Homens de fato, mulheres com colares de pérolas e as suas melhores roupas, todos cientes da presença de Cristo. Coloquei a píxide na mesa e começámos a rezar. Enquanto passava de residente para residente, proclamando: “O Corpo de Cristo”, ouvia a resposta habitual: “Amen”, seguida de “Obrigado!”

Durante a Acção de Graças uma senhora na fila da frente inclinou-se para mim sobre a sua bengala e repetiu: “obrigado, obrigado, obrigado por nos trazer Cristo”.

O Senhor não se esqueceu daqueles indivíduos que nem conseguiam descer até à sala de um edifício confinado numa Sexta-Feira Santa tranquila para O receber. Ele viu-os, os mais isolados, sozinhos nos seus quartos, e foi ao seu encontro. Todos eles. Pelo nome.

Tinham-me dado uma lista de todos os católicos registados quando cheguei: quarenta nomes. Comecei a partir as hóstias em dois, dado o número de almas que desejavam Cristo, enquanto caminhava pelos corredores, batendo nas portas que me tinham sido indicadas, perguntando alto: “Gostaria de receber a Eucaristia?”

A resposta? Suspiros. Lágrimas. Alegria. “Agora? Posso receber a Eucaristia agora?”, perguntavam estupefactos.

Um homem caiu de joelhos à entrada do seu quarto quando me abriu a porta para receber a Eucaristia ali, na ombreira. “Senhor, eu não sou digno”.

Outro, que estava sentado sozinho no sofá a ver a bola, sentou-se direito, surpreendido e expectante, e rezámos juntos. “Senhor, que entreis na minha morada”.

Um casal estava sentado junto na sala de estar do seu apartamento. O marido precisou de ajuda para levar a Eucaristia até à boca, porque tinha as mãos paralisadas.

Alguns dos que estavam na lista já não estavam vivos, tinham sido chamados de volta ao Senhor durante o ano que passou.

Outros foram hospitalizados entretanto, por questões de saúde inesperadas. A sua Eucaristia de Sexta-feira Santa acabou por ser um viático. Não sabemos a hora.

Repeti a cada residente: “Cristo sabia que estava aqui. Ele vê-o. Ele queria vir. Arranjou maneira”.

Uma das mulheres limitou-se a chorar, inclinando-se sobre a sua bengala à entrada do quarto. “Obrigado”, murmurou, “não recebia a comunhão há mais de um ano”. Corriam-lhe lágrimas de gratidão pela cara.

Cristo vê-nos. Ele encontra-nos. “Ele nunca vos falhará ou abandonará” (Deuteronómio 31,6). Não há muro no mundo que o consiga excluir. Nenhum poder do Inferno pode superar a sua força. Nenhuma pandemia nos pode separar, se estivermos dispostos a recebê-lo.

Não sabemos nem o dia, nem a hora, mas a sua vinda é certa. A sua Vida triunfa sobre a Morte, porque a vitória já lhe pertence.


(Publicado pela primeira vez no Domingo, 2 de Maio de 2021 em The Catholic Thing)

Elizabeth A. Mitchell, é doutorada em Comunicação Social Institucional pela Universidade Pontifícia da Santa Cruz, em Roma, Itália, onde trabalhou como tradutora para a Sala de Imprensa da Santa Sé e para o L’Osservatore Romano. É decana dos alunos na Trinity Academy, um colégio católico privado no Wisconson. A sua tese “Artist and Image: Artistic Creativity and Personal Formation in the Thought of Edith Stein,” trata o papel da beleza na evangelização pela perspetiva de santa Edith Stein. Mitchell faz ainda parte da direção do Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe em La Crosse, Wisconsin, e é conselheira do Centro Internacional St. Gianna e Pietro Molla para a Família e para a Vida.

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