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Thursday, 26 October 2023

A voz que mais precisa de se ouvir na Terra Santa é a que tem menos força

O cardeal Pizzaballa e o Patriarca Ortodoxo
Comecei hoje a fazer uma coisa que já tinha feito durante o primeiro ano da guerra da Ucrânia. Assim, a partir desta quinta-feira podem encontrar aqui as declarações relevantes dos principais líderes religiosos da região da Terra Santa, sobre a guerra actualmente em curso.

Este texto serve para fazer uma primeira breve análise ao que já foi dito, agora que estamos perto dos 20 dias de conflito.

Judeus e muçulmanos calados

Procurei, mas sem sucesso, declarações públicas de líderes muçulmanos e judeus. As grandes referências destas duas religiões na Terra Santa são os rabinos-mor sefardita e asquenaze, para os judeus, e o grão-mufti de Jerusalém, para os muçulmanos. Não encontrei rigorosamente nada.

O que é que isto quer dizer? Não me quero antecipar… Pode querer dizer que os judeus e os muçulmanos encaram as suas lideranças religiosas de forma diferente dos cristãos. Enquanto numa situação destas o cristão espera, e bem, que seja o seu bispo a falar, e que o faça claramente, o judaísmo e o islão tendem a ser menos centralizados e por isso poderá não existir essa expectativa. Em vez disso, cada indivíduo estará mais focado no seu imã ou rabino particular, da sua própria comunidade. Espero poder conversar com contactos de ambas as religiões nos próximos dias para confirmar esta ideia.

Mas poderá dar-se o caso também de os líderes judeus e muçulmanos preferirem não falar por agora, por não poderem estar a apelar à serenidade e ao fim das hostilidades – sob pena de serem acusados de traição pelas suas próprias comunidades; nem quererem ser vistos como instigadores se usarem da palavra para incentivar e encorajar apenas os seus.

Cristãos faladores

Já com os cristãos passa-se o contrário. As principais figuras de liderança da comunidade cristã local já falaram, e bastante.

Para além do Patriarca Latino, o Cardeal Pierbattista Pizzaballa, e do líder da Igreja Greco-Ortodoxa, o Patriarca Teófilo III, temos tido declarações do líder da comunidade anglicana local (por sinal o único dos três que é de facto nativo da região) e também bastantes declarações conjuntas dos líderes das Igrejas com presença na Terra Santa.

Isto pode até parecer normal, mas é um dado extraordinário, uma vez que é mais que conhecido que as igrejas cristãs na Terra Santa se dão particularmente mal, chegando a haver frequentemente conflitos entre eles até dentro do Santo Sepulcro, cuja custódia é partilhada por seis confissões diferentes.

Todas estas declarações que têm sido feitas, tanto as individuais como as comuns, têm em comum o facto de apelarem sempre à paz, ao fim das hostilidades e à necessidade de se apostar numa nova abordagem ao problema Israelo-Palestiniano, que permita acabar com o ódio crescente entre os dois povos. Os cristãos falam aqui da perspectiva singular de quem tem fiéis de ambos os lados da barricada. A maioria dos cristãos na Terra Santa são árabes, muitos vivem ainda nos territórios administrados pela Autoridade Palestiniana – mais na Cisjordânia, poucos em Gaza – mas existem também comunidades cristãs não-árabes que vivem em Israel. Assim, apesar de poder haver alguma desconfiança por parte dos israelitas, os líderes cristãos são os que estão mais bem posicionados para falar de forma neutra neste conflito, uma vez que os muçulmanos, que têm também um “rebanho” significativo em território israelita, serão sempre encarados pelos judeus como sendo a voz dos palestinianos.

Assim, podemos ver que logo no dia 7 de Outubro o Patriarca Latino já estava a condenar a incursão do Hamas que matou mais de mil pessoas inocentes em Israel, mas também a reacção das Forças Armadas de Israel. Esta condenação dupla tornou-se mais explícita no dia 24 de Outubro, quando ele afirmou numa carta para a diocese:

“A minha consciência e o dever moral obrigam-me a dizer claramente que aquilo que aconteceu no dia 7 de Outubro no sul de Israel não é de forma alguma aceitável, e que só pode ser condenado. Não existem razões para tamanha atrocidade. Sim, temos o dever de o afirmar e de o denunciar. O uso da violência é incompatível com o Evangelho e não conduz à paz. A vida de todas as pessoas tem igual dignidade diante de Deus, que criou a todos à sua imagem.

Contudo, a mesma consciência, com grande peso no coração, leva-me a declarar com igual clareza hoje que este novo ciclo de violência trouxe mais de cinco mil mortes a Gaza, incluindo muitas mulheres e crianças, dezenas de milhares de feridos, bairros inteiros arrasados, falta de medicina, falta de água e de necessidades básicas para mais de duas milhões de pessoas. Estas são tragédias que não se podem compreender e que temos a obrigação de denunciar e condenar sem reservas. Os bombardeamentos contínuos que se têm feito sentir em Gaza há dias apenas causarão mais morte e destruição, e levarão a mais ódio e ressentimento. Não vão resolver quaisquer problemas, antes criam novos. Chegou a hora de travar esta guerra, esta violência sem sentido.”

Também logo no dia 8 de Outubro os líderes das igrejas locais condenavam qualquer acto de violência contra pessoas inocentes, tendo o cuidado de não referir nenhuma das partes em particular, deixando claro que defendem a vida das pessoas de ambos os lados da fronteira.

O “caso” do hospital

O dia 17 de Outubro colocou à prova os líderes cristãos, tendo sido o dia em que se deu a explosão no hospital anglicano de Gaza. Como se lembram, as primeiras notícias apontavam para um bombardeamento aéreo de Israel, mas mais tarde veio-se a comprovar que afinal a explosão terá sido causada por um míssil errante disparado de dentro de Gaza.

Se a declaração conjunta dos líderes das igrejas utilizou uma linguagem bastante neutra, dizendo apenas que o hospital tinha sido “profanado” por “forças militares”, o comunicado da Igreja Anglicana, a quem o hospital pertence, chegou a condenar explicitamente Israel. Se é verdade que o arcebispo Hosam Naoum nunca chegou a emendar publicamente a mão, o próprio arcebispo de Cantuária, Justin Welby, fê-lo durante uma visita a Jerusalém.

Já em relação ao ataque à Igreja Greco-Ortodoxa em Gaza, os líderes das igrejas condenam abertamente Israel, que não negou ser o autor do ataque, que diz ter ocorrido por engano, quando tentava atingir um posto de comando do Hamas localizado nas proximidades. Morreram 18 cristãos nesse ataque.

A voz que precisa de se fazer ouvir

Lendo as declarações dos líderes cristãos, não podemos deixar de notar que no geral estamos perante apelos equilibrados e sensatos à paz e ao abandono do ódio. Eles não se limitam a pedir que se baixem as armas, regressando à situação anterior, pedem antes que se encontrem novos caminhos e abordagens que permitam a Israel viver em segurança e aos palestinianos ter perspectivas de futuro e de desenvolvimento também, evitando assim que novas gerações cresçam com um ódio tão profundo pelos seus vizinhos como aquele que permitiu as atrocidades de dia 7.

Não deixa de ser irónico e triste que a voz que mais precisa de ser ouvida na Terra Santa neste momento seja a voz menos expressiva, uma vez que os cristãos são uma pequeníssima minoria em todo o território, e hoje praticamente inexistente em Gaza.

Statements by religious leaders in the Holy Land, regarding the 2023 war between Israel and Hamas

In this post I will try to collect signficant statements by local religious leaders regarding the current ongoing war between the Israeli military and Hamas, in Gaza. 

Despite an initial search, I have not found public written statements by Jewish or Muslim leaders. I searched specifically for statements by the two chief rabbis of Israel, and by the Grand Mufti of Jerusalem, but to no avail. If I find them later, I will add them. 

Highlights in the statements are my own.

Português: Neste post tentarei reunir as declarações dos principais líderes religiosos da região, sobre a actual guerra entre as Forças Armadas de Israel e o Hamas, em Gaza. 

Apesar dos meus esforços, ainda não consegui encontrar declarações públicas de líderes muçulmanos e judeus. Procurei especificamente dos dois Rabinos-mor de Israel e do Grão-Mufti de Jerusalém, mas sem sucesso. Se os encontrar adicioná-los-ei. 

Os realces nos textos - que estão todos em inglês - são da minha responsabilidade.

Friday, 20 October 2023

Coragem e desinformação na Terra Santa, e Papa pode ir ao Dubai

Continuamos todos com os olhos postos no Médio Oriente, onde ainda decorre a guerra entre Israel e o Hamas e se sucedem notícias trágicas. Mas quão fiáveis são essas notícias? Esta semana tivemos um exemplo perfeito dos problemas da comunicação social moderna, com o episódio do Hospital Anglicano, um paradigma da era da desinformação. Leia aqui a minha análise, onde também dedico umas linhas a explicar porque é que os anglicanos, que praticamente não têm presença no terreno na Palestina, continuam a gerir um hospital em Gaza.

No meio de todo este conflito lembrei-me também do momento em que o Papa Francisco entregou ao Patriarca Latino de Jerusalém os símbolos de cardeal, tendo-lhe dito “Força, coragem”. Mal sabiam que daí a pouco mais de uma semana romperia este conflito e que o Patriarca estaria a oferecer-se para ser trocado por reféns israelitas em Gaza. Entretanto o Papa tem estado em contacto telefónico com a paróquia católica em Gaza, dizendo-lhes o mesmo que disse ao Patriarca.

Terça-feira muitos responderam ao apelo dos bispos da Terra Santa para rezar e jejuar pela paz. Agora o Papa convocou nova jornada de oração e jejum pela mesma razão, mas para o dia 27 de Outubro.

Falando do Papa Francisco, esta semana soube-se que ele tinha cancelado uma audiência com organizadores da JMJ Lisboa marcada para 30 de Novembro, por causa de uma “viagem não programada”. Viagens não programadas não são normais para a Santa Sé, onde tudo é sempre meticulosamente planeado. De início, e pela data, ainda avancei a possibilidade de estar em vista uma viagem ao Patriarcado de Constantinopla, na Turquia, mas nesse mesmo dia consegui apurar que o destino pretendido é, afinal, o Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Tanto quanto me apercebi, fui mesmo o primeiro a dar essa notícia a nível mundial, publicada no Expresso e no The Pillar. Leiam para perceber porque é que esta viagem, caso se confirme, é tão importante.

Há notícias boas e más da Nicarágua. O regime libertou 12 padres, permitindo que fossem transportados para Roma. A má notícia é que continua no poder um regime que prende padres às dúzias por razão nenhuma, e também que o bispo Rolando Alvarez continua atrás das grades. Rezemos por ele.

Aqui têm finalmente o link (só para assinantes) para o meu artigo no Expresso sobre o lugar da mulher na Igreja Católica, a propósito do sínodo que decorre em Roma.

Esta manhã, às 10h35, estive na SIC Notícias a falar sobre a variedade religiosa na Terra Santa. Podem meter para trás e ver, e espero poder ter o link para o segmento no blog muito em breve.

Não percam ainda o artigo desta semana do The Catholic Thing, no qual Randall Smith explica que a Igreja Católica nunca ensinou que os governantes políticos devem ser necessariamente católicos, nem que devem obedecer às autoridades eclesiásticas.

Friday, 13 October 2023

O triste e grotesco regresso da Guerra na Terra Santa

O triste regresso à normalidade em Gaza
O tema desta semana é, obviamente, o regresso – em grotesca força – do conflito entre Israel e Palestina. O Papa é apenas um dos muitos líderes que tem apelado à paz, e mais recentemente à libertação de reféns, mas esta não parece estar para breve. Aliás, Israel criticou-o por fazer “falsos paralelismos”. Francisco telefonou também ao pároco da comunidade católica em Gaza, que é muito pequena, mas desenvolve um trabalho social muito importante na região.

Os bispos católicos da Terra Santa já declararam que o dia 17 de Outubro será de oração e jejum pela paz, e sei que várias organizações católicas se vão juntar a esse apelo, por isso encorajo-vos a fazer o mesmo.

No dia seguinte, 18 de Outubro, a fundação Ajuda à Igreja que Sofre já tinha convocado a iniciativa “Um milhão de crianças reza o terço” e a paz na Terra Santa será sem dúvida uma das principais intenções.

Não há nada que se passe na Terra Santa que não tenha uma dimensão religiosa, e há poucos locais do mundo em que a realidade religiosa é tão complexa como lá. Hoje actualizei e republiquei um texto que datava originalmente de 2012 sobre a relação dos cristãos com Israel. É um assunto complicado e muito, muito variado, mas que podem ter interesse em aprofundar numa altura como esta. Aconselho ainda a leitura desta entrevista com um padre, judeu convertido ao catolicismo, que explica porque é que a Igreja Católica tem de agir com cautela quando fala desta guerra, que parece não ter fim.  

O grupo Renascença tem um novo presidente do Conselho de Administração, o cónego Paulo Franco. Como a maioria de vocês saberá, eu trabalhei na Renascença durante mais de uma década e para além de ainda lá ter muitos amigos, continua a ser uma casa pela qual tenho a maior estima. Acredito perfeitamente que a Renascença ainda tem um papel a cumprir na comunicação social em Portugal e que pode ser cada vez mais e melhor aquela instituição que ajuda os portugueses a fazer uma leitura crente e cristã da actualidade. Por isso só desejo o maior sucesso ao Pe. Paulo Franco e a todos os que lá trabalham, sabendo muito bem que o presente e o futuro continuam a não ser nada fáceis.

Enquanto isto, o ex-presidente da Renascença, o agora Cardeal Américo Aguiar, vai presidir às celebrações de Fátima, que começaram na noite de quinta-feira, e onde certamente também se vai rezar muito pela paz.

A semana passada disse que estava para sair um artigo meu no Expresso sobre o papel da mulher na Igreja, a propósito do Sínodo. Foi adiado para esta semana, em princípio, portanto podem procurá-lo a partir de amanhã.

E por falar no papel da mulher na Igreja, o artigo desta semana do The Catholic Thing é talhado para gerar discussão e até alguma polémica. A teóloga Carrie Gress pergunta se é possível um feminismo cristão. Leia a conclusão a que chega.

Monday, 26 October 2020

Covid no Lar e Pizzaballa na Terra Santa

Há um surto de Covid-19 na Casa Sacerdotal de Lisboa, o lar para padres idosos e reformados do Patriarcado de Lisboa. Por enquanto só um padre idoso tem sintomas. Saiba tudo aqui.

O Papa nomeou mais 13 cardeais. Entre eles o primeiro cardeal negro dos EUA, um do Ruanda e um do Brunei, de ascendência chinesa.

Francisco nomeou também o novo Patriarca Latino de Jerusalém. Trata-se do franciscano italiano que já servia como administrador há quatro anos, pelo que não foi uma surpresa total, mas os fiéis e o clero, de vasta maioria árabe, esperavam que fosse novamente um árabe a ser escolhido.

Nos dias em que estive de folga o Parlamento chumbou o referendo à eutanásia. Os bispos não se coibiram de criticar os deputados.  

Depois de ter publicado duas notícias com base numa entrevista ao padre Peter Stilwell, a semana passada, hoje deixo-vos com a transcrição integral da conversa, para quem quiser ler mais a fundo.

Não deixem de ler o artigo do The Catholic Thing dasemana passada, sobre como a candidata a juíza no Supremo Tribunal dos Estados Unidos é “intolerável”, como nós também devíamos ser.

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