quinta-feira, 29 de abril de 2021

Tiros no Sudão, Chapadas em Famalicão

Desde a falsa freira que diz que amava muito as suas “noviças” mas que admite ter-lhes dado umas chapadas porque eram sujas e porcas ao bispo-eleito de uma diocese no Sudão do Sul que foi baleado por paramilitares que lhe arrombaram a porta. O futuro bispo, Christian Carlassare, foi o autor do “postal de Quarentena” do Sudão do Sul

O Papa Francisco decidiu dar o exemplo na luta contra a corrupção, proibindo os seus colaboradores de aceitar ofertas com valor superior a 40 euros.

Temos ainda a excelente notícia da canonização de Charles de Foucauld e a tristíssima notícia de mais mortes no Mediterrâneo, que o Papa Francisco lamentou publicamente aqui.

Nestas duas semanas publicámos dois excelentes artigos do The Catholic Thing em Português. O desta semana dá a conhecer um judeu ortodoxo que liderou a campanha para incluir a referência á herança cristã da Europa na Constituição Europeia e que nos deu uma leitura fascinante da história da “queda” de Adão e Eva.

E no artigo da semana passada temos o especialista em abusos sexuais na Igreja, Stephen White, a perguntar porque é que não vemos mais bispos a responsabilizarem-se pessoalmente pelas suas falhas em lidar com esta crise.

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Momentos Memoráveis no Jardim

Hadley Arkes
O meu falecido professor Leo Strauss insistia que não há na Bíblia qualquer ensinamento distinto sobre “natureza”, nem direitos que derivam da natureza. Também não conseguia encontrar a presença do “direito natural” nem de um raciocínio moral que permitisse aceder à verdade moral, para além da “revelação”.

Mas o aspecto central do Judaísmo é a aliança entre Deus e Abraão e só existe um tipo de criatura que tem, pela sua própria natureza, a capacidade de pesar o bem a retirar de qualquer contrato, promessa feita ou compromisso, e depois honrar esse compromisso mesmo quando deixa de ser no seu interesse ou da sua vontade.

Quanto ao raciocínio moral do direito natural, a negociação entre Abraão e Deus sobre o destino de Sodoma e Gomorra é um incidente indicativo. “Não deve o Juiz de todo o universo fazer o bem?” Será que Ele destruirá os retos com os maus?

Se todo o nosso entendimento moral derivasse unicamente da revelação, então estaria Abraão a sugerir que Deus não tinha entendido bem as implicações da sua própria revelação? Ou estaria a apelar a um conjunto de princípios ou verdades morais que até Deus respeitaria, e que tinha adoptado para si?

Esse entendimento da Aliança era central para o significado do Judaísmo e do povo judeu. Jesus, na Última Ceia, estabelece uma nova aliança, mas como foi observado por Joseph Weiler, a noção de aliança manteve-se central para cristãos e para judeus – e para a compreensão de Deus.

Uma aliança, ou um contrato, implica a existência de duas ou mais partes com igual capacidade para contratar. Pode haver uma disparidade enorme entre poder e carácter, mas a questão está em saber se os homens, como foram criados por Deus, tinham a capacidade de medir o “bem” que poderiam ganhar com este acordo; sobre se estavam a dar o seu “consentimento” informado; e se poderiam ser responsabilizados por honrar o compromisso, manter a promessa.

O esquema dependia, então, de Deus ter diante de Si aquelas criaturas que tinha criado como “agentes morais”. A sua conduta não seria “determinada” por forças exteriores ao seu controlo. Elas tinham a liberdade de fazer escolhas e de serem responsabilizadas por elas.

Deus “propôs” uma aliança e estava a lidar com seres que tinham a liberdade de a aceitar ou rejeitar. Sem esse dado central, diz Weiler, Deus não teria mais interesse nessa aliança do que teria numa aliança com cães e cavalos, pois não estaria a lidar com Seres Humanos plenos. Ele não interviria para evitar que eles cometessem erros, ou maldades, porque não era o seu desejo criar um mundo de robots.

O mesmo Weiler tinha confrontado os líderes da União Europeia com a necessidade de fazerem as suas próprias e necessárias escolhas acerca de Deus. Nessa altura ele era já o mais competente estudioso de direito internacional e comparado. Nasceu na África do Sul, de uma linha de 500 anos de rabinos; fez os seus estudos em Cambridge e na Haia e no Instituto Universitário Europeu, em Florença. Os seus livros estão traduzidos em várias línguas.

Enquanto consultor para a Convenção para o Futuro da Europa, conquistou os corações de muitos de nós. Weiler, um judeu ortodoxo, liderou a oposição ao movimento para purgar qualquer referência à tradição cristã da Constituição da União Europeia. Esse caminho não augurava nada de bom para judeus ou cristãos – nem ninguém.

Adão e Eva
Em resposta foi-lhe dito que isso minaria o carácter “secular” da União, e a sua “neutralidade” religiosa. Mas o que é que estava a ser minado? Como explicou Weiler, a liberdade de culto prevalecia mesmo em países com Igrejas oficiais (como Inglaterra e Dinamarca).

Foi então que colocou ao Presidente da Convenção esta questão acutilante: Porque é que a posição por defeito devia ser o laicismo? Metade das pessoas na Europa viviam em Estados cujas constituições faziam referência explícita a Deus, por isso porque é que essa não havia de ser a posição por defeito?

Weiler argumentou que a neutralidade era uma posição falsa e impossível. A escolha aqui, disse ele, era binária: “sim a Deus, ou não a Deus. Porque é que a exclusão de Deus seria mais neutra que a sua inclusão? Trata-se do favorecimento de uma mundivisão, o secularismo, acima de outra mundivisão, a religiosidade, mas neste caso é um secularismo disfarçado de neutralidade”.

Num recente encontro, Weiler regressou à sua insistência na centralidade desse “agente moral” que estabelece uma Aliança. Mas se Eva e Adão não tivessem qualquer conhecimento do bem e do mal antes de terem comido da árvore, como é que poderiam ser culpabilizados – e punidos?

Aqui Weiler oferece uma perspetiva muito diferente: Essa mão estendida para a maçã “impele Eva rumo à sua vocação humana plena – para viver e compreender-se enquanto agente moral… Para completar a sua criação à imagem de Deus”.

E dessa perspectiva, aquilo que até agora deve ser visto como a Queda de Adão e Eva pode ser descrito como a sua Ascensão. E a punição deve ser vista a uma luz bem diferente: “A tristeza é necessária para apreciar a alegria… a morte é aquilo que nos permite apreciar a vida” enquanto dom de Deus. Se fossemos programados para nunca fazer coisas más, jamais poderíamos alcançar a grandeza de conhecer e amar o “bem”.

Nas palavras do nosso querido falecido Michael Novak, esta é uma “Igrejas dos pecadores, pelos pecadores e para os pecadores”. Henry James recordou um Domingo em Roma, na Basílica de São Pedro, a ouvir música e a contemplar a cena, e disse que “a imensidão clara do local protegia a conversa e até o mexerico. A imagem não era a de um templo em particular, mas de ser formada pelas próprias paredes de uma fé que não estava para impor pequenos pudores”.


Hadley Arkes é Professor de Jurisprudência em Amherst College e director do Claremont Center for the Jurisprudence of Natural Law, em Washington D.C. O seu mais recente livro é Constitutional Illusions & Anchoring Truths: The Touchstone of the Natural Law.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 20 de Abril de 2021 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 21 de abril de 2021

O Bom Pastor dá a Vida pelas suas Ovelhas

Stephen P. White

No dia 14 de Setembro de 2018 o bispo Robert Morneau, um bispo auxiliar emérito de Green Bay, Wisconsin, publicou uma curta nota na qual admitia que, em 1979, não tinha denunciado um padre às autoridades locais, por ter abusado de um menor. Na altura o bispo acreditava que os seus atos respeitavam a vontade da família do menor, mas como o próprio admite, o facto de não ter reportado os abusos permitiu ao padre reincidir.

O que a carta do bispo Morneau tinha de especial não era só a admissão de ter errado, quase 40 anos depois da ocorrência dos factos, mas sim aquilo que se propunha a fazer à luz desse erro.

“Por esta razão, peço voluntariamente a suspensão de todo o ministério público. Pretendo passar o resto do meu tempo em oração por todas as vítimas e sobreviventes de abuso sexual e praticarei atos corporais de misericórdia, em reparação por aquilo que não fiz”.

O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas.

Enquanto católicos, acreditamos que não há pecado tão grave que não possa ser perdoado, mas também que o perdão não apaga as consequências materiais do pecado. E também é verdade, evidentemente, que toda a gente tem direito ao seu bom nome. Não devemos esperar que homens inocentes se comportem como se fossem culpados.

Dito isso, a Igreja teria muito a ganhar se mais bispos tivessem a coragem e a humildade de seguir o exemplo de Morneau, tanto porque baixaria o número de casos de escândalo, mas também porque a oração e a penitência são cruciais para a missão da Igreja.

Nem todas as falhas têm de resultar na suspensão do ministério e adoção de uma vida de oração e penitência. Mas o caso de Morneau ganha relevância precisamente por ser tão incrivelmente raro.

Recordei-me do caso do bispo Morneau esta semana, quando foi anunciado que o Papa Francisco tinha pedido e recebido a renúncia do bispo Michael Hoeppner, de Crookston, Minnesota. A renúncia surge no final de uma investigação de dois anos sobre alegações de que o bispo Hoeppner “interferiu intencionalmente, ou evitou a investigação canónica ou civil de uma alegação de abuso sexual de um menor”.

O Papa retirou o bispo da diocese de Crookston, mas Hoeppner parece determinado a sair à sua maneira. Antes de renunciar, o bispo de 71 anos marcará o fim do seu episcopado em Crookston com uma “Missa de despedida”, que será celebrada na catedral da diocese. Nem o bispo Hoeppner, nem aqueles que o rodeiam, incluindo muitos dos seus colegas bispos, parecem compreender o escândalo que isto representa.

E depois temos o caso do bispo Joseph Binzer, um auxiliar da arquidiocese de Cincinnati e ex-membro da Comissão para a Proteção de Crianças e Jovens da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, que resignou o ano passado depois de ter sido revelado que não tinha denunciado às autoridades diocesanas o caso de um padre acusado de abusos. Binzer nem sequer notificou o seu próprio arcebispo. O padre foi depois mudado para outra paróquia, com uma grande escola, onde voltou a abusar. No início da semana passada o bispo Binzer foi nomeado pároco de duas grandes paróquias no Cincinnati.

Talvez esteja a ser injusto ao referir especificamente os bispos Binzer e Hoeppner. Ambos pediram desculpa pelos seus falhanços e cada caso é diferente, e complexo. Talvez o bispo Binzer venha a ser um excelente pastor que conduz muitas almas até Cristo. Deus queira. Talvez o bispo Hoeppner possa alcançar mais bem com os seus planos para o futuro do que se renunciasse ao ministério público, como o bispo Morneau. Não vou fingir saber.

Bispo Morneau
Mas dado o número de bispos em todo o país que têm um historial, no mínimo inconsistente, neste campo, e dado o número minúsculo dos que optam por se retirar para uma vida tranquila de oração e penitência, não há como não questionar.

Porque será que são tão poucos os nossos bispos por quem passa sequer pela cabeça que a resolução da sua inépcia a lidar com casos de abuso sexual por parte de padres possa envolver a possibilidade da sua própria reabilitação?

Porque será que tantos bispos caídos em desgraça, depois de terem traído e perdido a confiança do seu rebanho, continuam a infligir-nos com a sua presença, abusando da nossa fé e boa vontade, colocando o seu ministério e as suas carreiras acima das necessidades de um rebanho sofredor?

Porque será que não há mais pastores dispostos a retirar-se e a dedicar o resto das suas vidas à oração e penitência, em reparação pelos seus pecados e falhanços – e para o bem dos seus rebanhos?

A Igreja precisa de bispos e estes não são funcionários de Roma permutáveis, a baralhar e distribuir à nossa vontade. Mas devemos mesmo acreditar que é tão importante para a missão da Igreja e para a edificação do Povo de Deus que praticamente todos estes homens continuem a exercer ministério público? Que estes homens são ministros do Evangelho tão insubstituíveis que o perigo de escândalo é compensado pelo valor de os manter no activo? Será que as graças que a Igreja tem a obter através de uma vida humilde de oração e reparação são tão insignificantes em comparação?

Podem parecer apenas perguntas de mais um leigo exasperado. Mas pergunto, não com vontade de criticar os nossos bispos por terem falhas, como todos temos, ou para dar a entender que as suas vidas e ministérios valem menos que palha. Pergunto, antes, para sublinhar aquilo que está em causa.

Não somos chamados, todos nós, a morrer para nós mesmos? Não somos chamados a depor as nossas vidas pelo Evangelho? Seria injusto esperar mais dos nossos bispos do que Nosso Senhor pediu de nós, mas certamente não devemos esperar menos.

Um bom pastor não abandona as suas ovelhas; dá a vida por elas. E é precisamente por isso que mais bispos fariam bem em seguir o exemplo do bispo Morneau. Bispos que estejam dispostos a abdicar de tudo – que não tenham medo de dar a vida pelo seu povo – são os bispos que fazem falta à Igreja.

Porque onde o pastor for, o rebanho seguirá.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 15 de Abril de 2021)

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sexta-feira, 16 de abril de 2021

São os santos que fazem avançar o mundo

Aos 90 foi assim, espero
que hoje tenha sido igual!
A CEP lançou ontem o aviso. Há paróquias que estão insolventes.

O Papa emérito Bento XVI faz 94 anos esta sexta-feira. Deus o guarde!

A Opus Dei também assinala 75 anos de presença em Portugal.

Os bispos da América Latina pedem a libertação imediata de padres e freiras raptados no Haiti.

O Papa Francisco divulgou três videomensagens ontem. Aos bispos do Brasil pediu união para vencer a pandemia e os seus efeitos; a um congresso no Reino Unido pediu o fim do “paternalismo politico” que ignora a participação popular e ao congresso sobre Santa Teresa de Ávila disse que são os santos que fazem avançar o mundo.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre a importância da verdadeira ressurreição dos mortos, escrito por Randal Smith.

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Foi Maputo que ameaçou Lisboa, que se mudou para o Brasil

Um tribunal decidiu ontem que o Estado de Ohio pode, sim, proibir abortos por motivo de o bebé ter sido diagnosticado com Trissomia 21.

O ex-bispo de Palma, em Moçambique, admitiu em entrevista que as ameaças de morte de que foi alvo, e que o obrigaram a abandonar o país, partiram do Governo, em Maputo, e não dos terroristas.

Começou ontem o Ramadão. Este ano será novamente diferente, por causa da pandemia. O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa enviou saudações à comunidade.

Na Índia também se vivem dias de festa. O Kumbh Mela é a grande peregrinação dos hindus, mas está a provocar aglomerações de dezenas de milhares de pessoas sem cuidados numa altura em que a pandemia está em alta.

Sete religiosos – dois padres e duas freiras – foram raptados no Haiti e os raptores pedem perto de 900 mil euros de resgate.

Temos hoje novo artigo do The Catholic Thing. Randall Smith diz o seguinte sobre a ressurreição dos mortos. “Uma das maiores tragédias, quando as pessoas perdem a fé na Presença Real de Cristo na Eucaristia, é de que rapidamente perdem a sua esperança na comunhão dos santos – de que mesmo na morte continuamos presentes para os nossos amados e eles connosco. Se Cristo não ressuscitou e está presente para nós, então o mesmo se aplica a todos aqueles que amamos. E isso é algo demasiado triste para contemplar.” A ler! 

A Ressurreição dos Mortos

A imagem mais comum de Jesus é da crucifixão. Algumas mostram-no morto, pendurado, outros, mais icónicos, mostram-no na Cruz, sim, mas ressuscitado, de olhos abertos e braços estendidos, convidando todos a ir ter com Ele. No seu conjunto, estas imagens captam a dupla verdade de que Cristo morreu e ressuscitou. Ambas as afirmações estiveram sempre no cerne do credo cristão.

Se, como proclama São Paulo, “Cristo ressuscitou, e é primícias daqueles que adormeceram” (1 Cor. 15,20), então podemos compreender algo do que nos espera ao olhar atentamente para o que Cristo revelou com a sua morte e ressurreição. Uma coisa que deve ser imediatamente evidente é que a promessa cristã da vida eterna não é a mesma coisa que o objetivo transhumanista da imortalidade. A promessa de que os cristãos jamais morrerão não existe.

No Evangelho de João, pouco depois de Jesus ter lavado os pés dos seus discípulos, ele diz-lhes: “Na casa de meu Pai há muitos aposentos; se não fosse assim, eu vos teria dito. Vou preparar-vos um lugar. E se eu for e vos preparar um lugar, voltarei e levar-vos-ei para junto de mim, para que estejam onde eu estiver. Vocês conhecem o caminho para onde vou” (João 14, 2-4).

Só com base nesta afirmação podemos bem imaginar que Jesus está a dizer que vai para um lugar e que mais tarde mostrará aos apóstolos como é que lá se chega. Tomé, sem compreender, diz: “Senhor, nós não sabemos para onde vais, como podemos saber o caminho?” (Jo. 14,5). Mas Tomé não captou o sentido subtil das palavras de Jesus. Ele é “o caminho”. Por isso quando diz, “vocês conhecem o caminho”, o que quer dizer é “vocês conhecem-me, e Eu sou o caminho”. De facto, é precisamente isso que ele diz a Tomé: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. (João 14,5)

Perto do final do conto humorístico de Mark Twain “Os Diários de Adão e Eva”, Adão, que inicialmente tinha resistido a Eva, esta nova criatura que está a invadir o seu espaço, chora sobre a sua campa, tendo compreendido que “onde ela estava, aí estava o Éden”. O “Diário” de Twain é uma comédia romântica, e não uma obra de teologia complexa, mas levanta questões importantes: O paraíso é um lugar, ou uma pessoa? Enquanto cristãos não somos também chamados a reconhecer que o Paraíso não é apenas um lugar, mas sim a união a uma Pessoa (ou Pessoas) – Cristo, que envia o Espírito Santo para “implementar a caridade em todo o mundo no meu coração” e nos introduz numa união com o Pai?

Na Última Ceia Cristo diz aos seus discípulos que Ele deve partir, mas que depois enviará o Espírito Santo para os ajudar e guiar. E, eventualmente, Ele “parte” mesmo. Mas depois da sua morte na cruz faz uma pausa antes de regressar ao Pai (por assim dizer) e passa mais algum tempo com os discípulos.

Porquê? Não lhes tinha dito já tudo o que precisavam de saber? Não lhes mostrou “o Caminho?” Têm a prova da sua ressurreição dos mortos no túmulo vazio.

Talvez fossem necessárias uma ou duas aparições do ressuscitado para convencer os apóstolos de que ainda vive. Mas Ele permanece com eles durante 40 dias e aparece várias vezes. Porquê?


Se, como São Paulo afirma, Cristo é as “primícias” daquilo que os fiéis defuntos vão poder gozar na ressurreição geral, o que é que as suas aparências nos revelam sobre a vida ressuscitada?

Sugiro duas coisas.

Primeiro, a sua morta não o desligou, como se poderia pensar, do Pai; pelo contrário, Ele partilha inteiramente a glória do Pai, que é revelada mais plenamente agora que Ele ressuscitou dos mortos. Mas, em segundo lugar, a pessoa diante deles ainda é o Jesus que conheciam e amavam. Dizemos às vezes que a presença de Cristo entre os onze na sala onde estavam escondidos, era uma presença glorificada, mas isso não significa que Ele estava menos presente para eles do que durante a sua vida. Ainda podiam sentar-se, conversar e comer com Ele.

O que nos é prometido, então, pelo Cristo ressuscitado, que é as “primícias” daquilo que também nós vamos gozar, é de que poderemos, depois da morte, obter a união plena com Deus e partilhar da comunhão eterna de amor partilhada entre o Pai, Filho e Espírito Santo. E porém, nesta união com o Deus Trino, não nos vamos perder como um pingo de água no oceano.

Aquilo que muitos temem na morte, seja a deles ou a dos outros, é a perda da ligação com as pessoas que amam. Se pensamos que ir para o Céu é como ir para Cleveland (só que melhor), então ficamos tristes porque eles, ou nós, “vamos embora”, ainda que esperemos que seja para “um sítio melhor”. Mas se o Céu é uma união com o Pai em Cristo através do Espírito, e se Cristo vive e está em cada um de nós, então também nós nos mantemos em comunhão com os nossos entes queridos – mais intimamente e plenamente, até – no Corpo de Cristo e na comunhão dos santos.

Uma das maiores tragédias, quando as pessoas perdem a fé na Presença Real de Cristo na Eucaristia, é de que rapidamente perdem a sua esperança na comunhão dos santos – de que mesmo na morte continuamos presentes para os nossos amados e eles connosco. Se Cristo não ressuscitou e está presente para nós, então o mesmo se aplica a todos aqueles que amamos. E isso é algo demasiado triste para contemplar.

Por isso regozijemos na Boa Nova. Cristo ressuscitou, o amor não foi derrotado, as portas da morte foram escancaradas e os santos correm ao nosso encontro em alegria.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 7 de Abril de 2021)

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quinta-feira, 8 de abril de 2021

Monge detido por caridade na Turquia

Um monge na Turquia foi condenado a mais de dois anos de prisão por aquilo que considera ter sido apenas um acto de caridade cristã.

Está a formar-se uma comunidade de católicos chineses em Lisboa. Saiba mais aqui.

O Papa lamenta que exista ainda um fosso entre ricos e pobres no que diz respeito à saúde e diz que as leis do mercado não podem sobrepor-se à lei do amor e à saúde.

As cheias da semana passada em Timor-Leste causaram grande devastação e muitas vítimas. O Papa rezou pela situação e os salesianos, no terreno, ajudaram como puderam.

O que representa a bandeira arco-íris? Amor? Tolerância? Direitos? O autor do artigo do The Catholic Thing desta semana, Anthony Esolen, argumenta que representa toda a revolução sexual e que por isso mesmo deve ser arreada. Um artigo a ler aqui.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Arrear a Bandeira

Recentemente o Vaticano recusou permitir que clérigos católicos abençoem uniões entre pessoas do mesmo sexo, evitando um cisma imediato e mundial. Ninguém deve ficar surpreendido; aliviado, talvez, mas não surpreendido. O que o Vaticano fez foi negar-se a reverter toda a antropologia bíblica no que diz respeito aos sexos, já para não falar de uma visão coerente da criação – da ordem formal impressa com a sabedoria de Deus.

Mas o mundo continua.

Passadas poucas horas já tinha ouvido os críticos da Turner Classic Movies a defender os filmes antigos, apesar de estes por vezes estarem manchados por racismo-sexismo-homofobia-transfobia. Os críticos falavam como se não fosse possível qualquer pessoa decente contestar a sabedoria moral assente que toma todas estas coisas por iguais, a serem tratadas com a mesma reprovação.

Depois ouvi falar de dois rapazes de um liceu que foram escolhidos para representar dois amantes homossexuais numa peça de teatro. E de outro jovem, noutra escola, que teve de cantar uma música ordinária sobre ter uma erecção quando olha para outra rapariga da sua sala.

Os trios amorosos estão nas notícias a toda a hora. Duvido que haja uma única escola pública no país que não tenha hasteado a bandeira arco-íris, aqui, ali, em todo o lado, nos cadernos, nos planos de aula, em material de leitura e nas lapelas dos professores.

A maldade, disse Edmund Burke, é demasiado inteligente para aparecer sempre da mesma forma. As nossas paixões – orgulho, inveja, fúria, luxúria e avareza – mantêm-se iguais, mas mudam conforme as modas. É por isso que o homem ataca tão frequentemente formas que em larga medida já passaram. Burke chamava-lhe enforcar a carcaça.

E sabemos que as novas formas não atraem apenas monstros. Não duvido que tenha havido muitas pessoas simpáticas que hastearam a suástica nas suas casas embora não odiassem verdadeiramente os judeus, mas estavam satisfeitos por irem na corrente com os novos e revolucionários líderes de opinião bem-pensantes, construtores de autoestradas e restauradores da Alemanha.

Não duvido que na Rússia estalinista houvesse muitas pessoas simpáticas que hasteavam a foice e o martelo nas suas casas embora não odiassem verdadeiramente os ucranianos ou os ortodoxos recalcitrantes, mas estavam contentes por irem na corrente da novidade, e por aí fora. O desejo de obter emprego, de manter o emprego ou de merecer a aprovação dos líderes de opinião bem-pensantes pode ser muito tentador e não requer grande grau de coragem face ao mal.

Eu não estou a dizer que a bandeira arco-íris é igual à suástica ou à foice e martelo. Claro que não. Não estou a dizer que é igualmente má: quando estamos a lidar com males fundamentais a questão não tem qualquer sentido. Adorar a Baal era tão mau como adorar Moloch? Enquanto nós discutimos o estilo de luxúria ou de ódio, os princípios em si, tanto Baal como Moloch, apreciam um cognac espiritual flamejante e brindam. E Baal também matou os seus milhões.

Não tenho qualquer intenção de apontar o dedo a indivíduos. Tenho muita simpatia por pessoas que, num tempo de profunda solidão, se agarram a uma relação homossexual como uma última esperança. Mas o arco-íris representa toda a revolução sexual.

Não me refiro aqui ao pecado sexual, que teremos sempre connosco, tal como teremos mentiras, furto, homicídio, blasfémia e traição. A revolução sexual não é uma erva daninha. É uma árvore: plantada deliberadamente, regada e cuidada. Não é um acumular de pecados ou de maus hábitos. É um princípio que dá maus frutos.

O princípio é o da autonomia corporal: que o que os adultos fazem, sexualmente, é da sua conta e de mais ninguém. Junte-se a isto a paixão romântica para adoçar o princípio, junte-se o feminismo para obscurecer a verdade de que os homens são para as mulheres e as mulheres são para os homens, espere umas décadas para que os gostos se mudem e temos uma sequóia completa.


Não foram os homossexuais que plantaram e fertilizaram a árvore, embora tenham feito a sua parte. Mas não interessa agora como é que a árvore cresceu, e como cresceu de tal forma que agora cobre todo o mundo ocidental com a sua sombra. A questão é que a árvore tem de ser abatida.

Repito, não estou a dizer que não haverá pecado sexual. Estou a dizer que o princípio deve ser repudiado: a árvore é o princípio e dá o fruto mau desse princípio.

Temo que alguns católicos possam tolerar a árvore, porque não querem ferir os sentimentos daqueles que se deliciam com o fruto, ou porque, ainda que não tenham gosto por aquela maçã, gostam desta; porque a árvore é generosa e tem muito a oferecer para cada gosto, uma grande variedade de maus frutos.

Talvez os que plantaram a árvore não tenham tido a noção de que chegaria a isto. Talvez pensassem que uma certa cortesia poderia conter o mal: que piscaríamos o olho ao engate do João e da Maria, mas não ao do João e do Martim; aceitaríamos o divórcio apenas nos casos difíceis; aceitaríamos a contracepção, mas não o aborto; aceitaríamos a pseudogamia homossexual, mas não a poligamia; sem pensar que o aço moral mais firme não é suficientemente duro para conter um princípio mau.

E a cortesia, a simpatia, não é aço, é papel.

A árvore tem de vir abaixo.

Pensem, pensem só nas coisas humanas e normais que poderíamos ver, que se poderiam esperar, alcançar, coisas banais: muito amor saudável entre rapazes e raparigas, em vez de um campo minado tanto para os morais como para os imorais; direcção mais segura para jovens cujo caminho para o estado de homem ou de mulher adultos foi dificultado pelo infortúnio ou pelo pecado dos seus antepassados; uma apreciação mais clara e agradecida de cada sexo para o outro; e com tudo isso, pecados e falhanços, ervas daninhas que nascem, como sempre, mas em pequenas manchas, ou individualmente, e não de forma planeada, sem que toda a humidade e nutrição fossem canalizados para alimentar um leviatã vegetal.

É preciso arrear a bandeira.


Anthony Esolen é orador, tradutor e autor. As suas obras incluem: Out of the Ashes: Rebuilding American Culture, Nostalgia: Going Home in a Homeless World e o mais recente The Hundredfold: Songs for the Lord. É professor e autor residente na Magdalen College of the Liberal Arts em Warner, New Hampshire.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 31 de Março de 2021 em The Catholic Thing)

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quinta-feira, 1 de abril de 2021

Votos de Santa Páscoa!

Nos últimos dias não tenho conseguido postar, por isso peço desculpa, mas não queria deixar de o fazer antes da Páscoa.

Por falar em Páscoa, este ano os católicos podem participar nas celebrações, mas há várias tradições que continuam confinadas. Pede-se criatividade para as ultrapassar.

As notícias que chegam de Cabo Delgado são cada vez mais preocupantes. Uma religiosa fala de um “filme de terror”.

Nesta Páscoa somos, como sempre, convidados a olhar de forma especial para os que são perseguidos pela sua fé.

Temos dois artigos do The Catholic Thing para vos propor, e que vêm mesmo a propósito para este tempo pascal. O da semana passada, de Stephen White, é dirigida especialmente aos católicos de tendência mais conservadora (como o autor) e contém um importante aviso e o desta semana, do padre Paul Scalia, pergunta se continuamos a escolher Barrabás em vez de Cristo, quando a questão nos é posta.

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