segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Lágrimas por destruição jihadista e viva os enfermeiros

Estou de volta depois de duas semanas em que o Afeganistão implodiu.

Em Moçambique a ameaça jihadista mantém-se e um padre fala da sua tristeza ao encontrar a igreja de Mocímboa da Praia destruída pelo fogo.

Francisco nomeou o seu mestre de cerimónias, que o serviu durante oito anos depois de já ter feito o mesmo com Bento XVI, bispo de Tortona, em Itália.

Em excertos de uma entrevista que só vai ser divulgada na quarta-feira, o Papa diz que a sua vida foi salva por um enfermeiro durante a operação a que foi sujeito há poucas semanas.

Durante estas semanas tivemos novos artigos do The Catholic Thing publicados. No primeiro, Randall Smith discorre sobre o sentido do (não) Sacrifício de Isaac por Abraão, no segundo Stephen P. White recorda um ferimento que teve quando era pequeno para explicar que a salvação não se consegue pela inversão da dor, morte e corrupção, mas através deles e, por fim, o padre Paul Scalia explica porque razão as palavras de Cristo aos seus discípulos, que ouvimos no domingo da semana passada, são tão duras para eles e para nós.

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Palavras Duras

Pe. Paul Scalia

Muitos dos discípulos de Jesus que o escutavam diziam, “Estas palavras são duras, quem pode escutá-las?”

O que significa dizer que as palavras de Jesus são “difíceis”? Poderia significar que são difíceis de compreender. E como Nosso Senhor estava a falar da Eucaristia – o mistério da Fé – isso até seria aceitável. É demasiado complicado para perceber.

Mas não é isso que significa. A palavra “duras”, aqui, indica algo de ofensivo ou mesmo intragável. É por isso que Nosso Senhor pergunta: “Isto escandaliza-vos?”. Por outras palavras, “Consideram isto ofensivo e intolerável?”. Ele não pergunta se estão confusos, porque nesta altura do discurso sobre o Pão da Vida ele já tinha clarificado os seus ensinamentos muitas vezes. Eles compreendem-no perfeitamente. Simplesmente não estão dispostos a aceitar aquilo que Ele ensina. O obstáculo aqui não é ao nível do intelecto, mas da vontade.

Mais especificamente, eles não estavam dispostos a aceitar o que Ele ensinava porque isso obrigá-los-ia a mudar de vida. Ele estava a convidá-los a submeter os seus pontos de vista mundanos às suas verdades sobrenaturais. “O Espírito é que dá a vida, a carne não serve de nada” (Jo. 6,63). Eles intuíram bem o alcance das suas palavras: Se este ensinamento é verdadeiro, então eles têm de adaptar as suas vidas a ele. E por isso hesitaram. Mesmo depois de testemunhar os seus milagres e sinais, continuavam a não conseguir confiar-se aos seus ensinamentos. “A partir de então, muitos dos discípulos afastaram-se e já não andavam com Ele” (Jo. 6,66).

Estes discípulos entraram na mesma lógica que os seus antepassados no Êxodo. Os israelitas que seguiram Moisés para o deserto acabaram por se fartar de confiar no Senhor e na sua Maná milagrosa. A certa altura disseram: “Daqui não passamos”. Até começaram a ter saudades das panelas de carne no Egipto e a querer regressar à terra da escravatura (Cf. Ex. 16,3 e Num 14,4). Também assim, os discípulos que seguiram Cristo para o deserto procuravam-no porque Ele os tinha alimentado de forma milagrosa e não porque tinha palavras de vida eterna (cf. Jo. 6,68). E assim, aqueles que foram alimentados por Ele e testemunharam os seus milagres, regressam agora às suas antigas vidas.

Tudo isto traz à mente aquilo a que se chama “coerência eucarística” – a simples verdade de que aqueles que recebem a Eucaristia devem viver vidas coerentes com Ela. Inexplicavelmente, isto agora tornou-se polémico. De facto, a “coerência Eucarística” é uma fasquia bastante baixa. Afinal de contas, não devemos desejar apenas viver de uma forma coerente com a recepção da Eucaristia. Antes, devemos fazer por ir buscar vida e o sentido das nossas vidas à Eucaristia. Por outras palavras, as nossas vidas deviam ser coerentes com a Eucaristia porque são determinadas por Ela.

Os discípulos em Cafarnaum reconheceram aquilo que lhes estava a ser pedido. Acharam as palavras duras precisamente porque compreenderam que se as aceitassem teriam de viver em coerência com elas. Ao contrário de muitos que hoje recebem a Eucaristia de forma incoerente, aqueles discípulos pelo menos tinham a integridade para reconhecer a sua falta de vontade e simplesmente afastar-se.

Dietrich von Hildebrand escreveu que ser discípulo de Cristo requer “a aptidão para mudar, uma receptividade a Cristo como que da cera”. Embora seja operativa ao longo de toda a vida do cristão, esta disposição aplica-se sobretudo à nossa recepção da Eucaristia. No Diálogo de Santa Catarina de Sena, Nosso Senhor usa esta mesma imagem para descrever a recepção da Comunhão. “Quando esta aparência de pão é consumida, eu deixo uma marca, tal como um selo deixa a sua marca quando pressionado contra cera quente”.

A coerência eucarística requer a vontade – aliás, o desejo – de receber esta marca de Cristo, independentemente da “dureza” dos seus ensinamentos. Assim, devemos estar dispostos a receber aquilo que Ele nos deseja dar. Devemos desejar da Santa Comunhão aquilo que é a sua vontade, e não a nossa. O efeito em nós deve ser aquele que Ele quer, e não o que nós queremos.

Claro que não devemos ser demasiado duros com os discípulos em Cafarnaum. Para eles o ensinamento sobre a Eucaristia era algo extraordinário, sobrenatural e chocantemente novo. Já nós temos dois milénios de ensinamentos e de testemunhos para fortalecer a nossa fé. E mesmo assim continuamos a poder falhar na nossa devoção eucarística. Assim como os seus antepassados no deserto, estes discípulos são para nós um aviso. Não faz sentido tomar nota de (e lamentar) a incoerência eucarística dos outros se não fizermos mais por corrigi-la em nós mesmos.

Voltamos a Hildebrand: “Há muitos católicos religiosos cuja prontidão para mudar é meramente condicional”. Por outras palavras, estamos sempre em perigo de nos tornarmos como os discípulos em Cafarnaum, colocando limites à nossa disponibilidade para mudar, considerando que as suas palavras são demasiado duras e chegando àquele ponto em que dizemos, “Daqui não passamos”. Alguns atingem esse ponto quando enfrentam um ensinamento mais duro da Igreja de Cristo, outros quando sofrem alguma perda, dor ou escândalo. Seja qual for o caso, o resultado é o mesmo: uma dureza que resiste à Sua graça.

Eis, então, uma boa maneira de nos prepararmos para a Santa Comunhão – pedindo uma disposição dócil, como cera, para que a Eucaristia nos beneficie como Ele deseja e nos deixe a sua marca bem estampada.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero. É autor de That Nothing May Be Lost: Reflections on Catholic Doctrine and Devotion e coordenador de Sermons in Times of Crisis: Twelve Homilies to Stir Your Soul.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 22 de Agosto de 2021 em The Catholic Thing

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.  

 



quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Como Novo

Stephen P. White

Quando estava na segunda classe saltei de uma árvore, num bosque ao pé da minha casa. Aterrei de pé, mas o terreno era desigual, por isso apoiem-me com as mãos para não cair. Em vez de encontrar terra, folhas secas ou raízes, a minha mão direita enfiou-se diretamente nos cacos de uma garrafa de cerveja partida. O vidro castanho enterrou-se na carne da palma da minha mão, mesmo abaixo do dedão.

Apertei o pulso com força para diminuir a hemorragia. Temia que se corresse sangrasse mais, por isso regressei a casa a andar. Lembro-me de ter tido cuidado para não sujar com sangue a minha roupa. O meu pai, que era médico, olhou para a minha mão e comentou: “Parece que isso vai ter de levar uns pontos”.

Foi aí que me descontrolei e larguei a chorar.

Nunca tinha precisado de pontos. E de certa forma orgulhava-me disso. Já me tinha magoado antes, claro. Arranhões, nódoas negras, estiramentos. Mas era sempre o género de coisa que, com tempo, passava. Até aí, sarar significava sempre que as coisas se restauravam ao ponto em que estavam antes. Como novo.

Mas este corte na minha mão era diferente. Não iria desaparecer com o tempo. As coisas jamais seriam como tinham sido antes. Nunca seria “como novo”. Ainda tenho uma cicatriz rasgada, de cerca de um centímetro e meio, na minha palma direita. Foi esta realização, esta compreensão imediata da corruptibilidade irreversível do meu próprio corpo, que me incomodou tanto. Na altura não o saberia explicar dessa forma, mas foi um despertar bastante forte para um miúdo de oito anos.

Escusado será dizer que agora que me aproximo da meia-idade, recordo-me de muitos outros momentos envolvendo ferimentos e perdas muito mais graves que aquele corte na minha mão e alguns pontos.

Talvez seja só eu, mas estes dias em que vivemos parecem revelar cada vez mais sinais da corrupção que nos rodeia. Talvez seja da pandemia. Talvez seja do facto dos Chicago Cubs estarem a vender todos os meus jogadores preferidos. Talvez seja a nossa vida política, interminavelmente cansativa. Talvez a loucura de uma cultura cada vez mais divorciada da realidade. Talvez os escândalos e as falhas da Igreja nas últimas décadas. Talvez seja tudo isso junto.

Talvez estas sejam todas, de uma forma ou de outra, a mesma coisa. Afinal de contas, “as raposas têm tocas e as aves do céu têm os seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”.


O meu objetivo aqui não é de lamentar a condição humana, por miserável que seja. Fica sempre mal um cristão queixar-se do tempo em que vive. Cheira sempre a ingratidão e a ingratidão carrega sempre o odor do orgulho – como se fossemos demasiado bons para o mundo que encontrámos, ou demasiado importantes para ter de aturar a fragilidade da nossa própria natureza humana.

Fica mal a um cristão pensar assim precisamente porque este tipo de pensamento ignora o mistério central da fé cristã: Deus amou de tal forma o mundo – um mundo aparentemente indigno de amor – que enviou o seu único Filho, que tomou sobre si a nossa frágil humanidade, sofreu a morte e ressuscitou. Em Cristo encontramos a resolução perfeita e o cumprimento de toda a indeterminabilidade da existência humana. Como disse o Papa João Paulo II, Cristo é “a resposta existencialmente adequada para o desejo de bondade, verdade e vida que existe em todo o coração humano”.

Não estamos aqui perante uma mera abstração. Jesus conheceu a fome e a sede, a tentação e o sofrimento, a humilhação e a perda. Chorou pelo seu amigo Lázaro. Mas o seu plano para a salvação não passava por desfazer qualquer uma destas coisas. Alguns esperavam que ele restaurasse o reino e devolvesse Israel ao seu antigo poder e glória, mas Ele tinha outra coisa em mente. Quando ressuscitou, na manhã da Páscoa, as coisas não eram, certamente, como antes, nem sequer como tinham sido no início.

A nossa Salvação não é uma restauração, o inverter da corrupção, da fraqueza ou da mortalidade. O nosso destino não passa por retornar à forma como as coisas foram em tempos, antes de serem sujeitadas à corrupção. Antes, a nossa redenção passa precisamente através da corrupção, através do sofrimento, mesmo através da morte, para aquilo que está além. E este mundo, esta vida, simultaneamente quebrada e preciosa, é a nossa hipótese de aceitar uma parte daquilo que Ele tem para nos oferecer:

Deus está com os homens, com os quais ele viverá. Eles serão os seus povos; o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus. Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou.

Se, pela misericórdia de Deus, algum dia tiver a bênção de habitar na presença do Senhor, não sei se a minha palma direita ainda manterá a cicatriz. Não sei que outras marcas no meu corpo ou na minha alma me acompanharão na próxima vida. Mas sei uma coisa. Se ali estiver, será pela graça daquele que ainda carrega as marcas da sua própria crucificação.

E é esse quem declara: “Eis que eu renovo todas as coisas”.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 12 de Agosto de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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quarta-feira, 11 de agosto de 2021

O Sacrifício de Abraão

Randall Smith

Os críticos modernos da Bíblia têm dificuldade em aceitar a longa tradição na Igreja de crença em múltiplos sentidos “espirituais” de um texto. Isto não significa que a Escritura pode significar o que quer que nós queiramos. Os vários sentidos “espirituais” – alegórico, moral e anagógico – devem ter bases literais firmes. Mas as lições que aprendemos dos sentidos “espirituais”, especialmente aqueles que compreendemos à luz da vida, morte e ressurreição de Cristo transcendem aquilo que podia ter sido conhecido pelos autores originais.

Enquanto Criador, Deus pode “escrever” na história da humanidade através de eventos humanos. Ele pode transmitir o que quer dizer através de coisas, e não apenas de palavras. Por isso, Deus pode prefigurar o sacrifício de Cristo na Cruz através da sua ordem para que Abraão sacrifique o seu filho Isaac. Reconhecemos, em retrospetiva, que aquilo que Deus não estava disposto a pedir a Abraão – o sacrifício do seu próprio filho – era algo que Ele próprio faria por nós. É por isso que a passagem do “sacrifício” de Isaac (Génesis 22,1-18) faz parte das leituras da liturgia da Vigília Pascal.

O que o autor humano tinha em mente quando incluiu a história nas Escrituras é difícil de saber. Mas numa altura em que o sacrifício humano aos deuses era comum, este autor, inspirado pelo Espírito Santo, provavelmente queria clarificar que Deus não queria este tipo de sacrifício humano. O que Deus deseja é uma conversão interior de coração, não um sacrifício exterior, numa espécie de negócio, em que nós sacrificamos algo nosso para que Deus nos dê o que nós queremos. Não podemos comprar a vontade de Deus sacrificando um touro ou um bode.

De igual forma, se formos tentados a transformar a nossa ida à missa e observâncias religiosas num negócio com Deus – Eu faço X, ou sacrifico Y para que Deus me premeie com Z – então devemos considerar-nos abrangidos pela revolta de Cristo ao ver o templo do seu pai transformado num mercado. Não podemos comprar a vontade de Deus, sobretudo porque tudo o que temos foi-nos dado por Ele. Esta é outra das lições que devemos aprender com a história de Abraão e Isaac. A disponibilidade de Abraão para sacrificar o seu filho demonstra que ele compreende que tudo o que possui, no final de contas, pertence a Deus.

Mas também nos diz algo sobre a fé nas promessas de Deus, embora talvez não seja a lição que alguns comentadores pensem ter encontrado nessa passagem. No Século XVI Martinho Lutero elogiou Abraão pela sua obediência acrítica a Deus – pela “fé cega” demonstrada pela sua recusa de questionar se era certo matar Isaac. No final do Século XVIII, Immanuel Kant defendeu a perspetiva contrária, argumentando que Abraão deveria ter compreendido que uma ordem tão claramente imoral não poderia ter vindo de Deus. Para Lutero, a autoridade divina sobrepõe-se a qualquer posição racional ou moral, enquanto para Kant nada se sobrepõe à lei moral. Este é um debate que continua nos nossos dias.


Mas talvez não seja nada disto que a história tem para nos ensinar. Uma leitura “moral” clássica do texto talvez fosse algo como isto: Não há alturas em que temos mesmo a certeza de que conhecemos a vontade de Deus, quando nos parece evidente que estamos a cumprir os seus desígnios, e depois acontece algo mau? Não conseguimos o emprego que pensávamos ser perfeito para nós, ou perdemos a relação que tínhamos a certeza que Deus queria para nós. Morre um dos nossos pais. Uma pandemia atinge o mundo. “Como é que isto pode ser parte da providência de Deus?”, perguntamos. Encontramos corrupção e abusos na Igreja. “Como é que isto faz parte da promessa de Deus?”

Da mesma forma, Isaac é claramente a promessa que Deus tinha feito a Abraão. Então como é que pode parecer razoável sacrificá-lo? Talvez as palavras de Job sejam as mais adequadas: “O Senhor deu; o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor”. Não somos donos, somos administradores. A qualquer momento o dono da vinha poder voltar para pedir a colheita, ou para exigir os talentos que nos confiou, com juros. Pensamos, “porquê agora?” Perguntamos, como Kant, “a história não faria mais sentido se…?” Mas a história não é nossa. A história é de Deus. E não é irrazoável pensar que Ele a compreende melhor do que nós.

É claro, através dos Evangelhos, que Jesus não é o Messias que as pessoas esperavam. Mesmo o grande São Pedro disse a Deus feito homem (sem perceber a irracionalidade de Dizer ao Deus de Toda a Criação o que devia fazer): “Não podes ir para Jerusalém sacrificar-te na Cruz. Isso não faria sentido. Tens de ir de grande vitória em grande vitória, como eu as entendo”. Mas não era isso que Deus tinha em mente.  

Será irracional pensar que pode haver uma sabedoria maior a trabalhar no mundo do que a nossa? Ou seria irracional partir do princípio que isso não é possível?

Continuaríamos a ter de lidar com a questão de saber se o possuidor de tal sabedoria era benevolente. Mas se eu viesse a reconhecer que este Deus Criador amou de tal forma a humanidade que estava disposto a sacrificar o seu único filho por nós, então a minha disponibilidade para alinhar a minha vontade com a dele não seria uma questão de “fé cega” e obediência inquestionável. Seria o resultado de uma compreensão não desprovida de racionalidade do grande poder e sabedoria de Deus, por um lado, e uma resposta inteiramente sensata ao amor que Deus revelou através da sua disponibilidade para sacrificar o seu Filho, por outro.

Não precisamos de compreender os propósitos de Deus para acreditar que Ele os tem. Na verdade, é precisamente quando as nossas expectativas do que Ele tinha em mente chocam mais diretamente com aquilo que nos acontece que devemos recordar que Ele é Deus. E nós não.


 

Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 11 de Agosto de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Fé de Atleta

Neste último post antes de eu vos dar um merecido descanso para as férias, chamada de atenção para iniciativas da Igreja no Quénia e na Indonésia, a sensibilizar a população para a importância das vacinas.

Há dias publiquei uma curta notícia sobre a falta de assistência religiosa presencial nos Jogos Olímpicos. Ontem, no seguimento, publiquei uma reportagem sobre como essa realidade, bem como a falta de adeptos nas bancadas, pode afetar o desempenho dos atletas. Falei, para o efeito, com um psicólogo do desporto e com um padre que é dirigente de um clube de futebol. Vale bem a pena ler.

Hoje é 6 de Agosto, dia de oração pelos cristãos perseguidos. Não nos esqueçamos destes que sofrem na pele por amor a Cristo.

Pode mainda ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, que fala de uma polémica que abalou o mundo dos media católicos nos Estados Unidos, no final de julho. Um novo órgão de comunicação digital publicou uma reportagem baseada na análise de dados de utilizadores de uma aplicação para encontros homossexuais. Conseguiram determinar que um padre, que era secretário-geral da Conferência Episcopal, era um utilizador assíduo dessa aplicação. O trabalho deixou muitas perguntas e inquietações. Quem pagou os dados? Não sabemos. Tratou-se de um ataque dirigido? Não sabemos. Será este o futuro do jornalismo também no meio católico? No artigo desta semana Stephen P. White aborda esta polémica através de algumas perspetivas que, sendo interessantes, são apenas parte de um problema bastante complexo. Não deixa de ser um bom ponto de partida.

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

O Que é Feito nas Trevas Será Trazido para a Luz

Stephen P. White

Na segunda-feira dia 24 de julho o secretário-geral da Conferência Episcopal dos Estados Unidos (USCCB), monsenhor Jeffrey Burrill, demitiu-se antes da publicação de alegações de que usava frequentemente uma aplicação de engate gay chamado Grindr.

A reportagem que levou a essa demissão surgiu no “The Pillar”, um órgão de comunicação novo, gerido pelo JD Flynn e o Ed Condon. (Advertência: São ambos meus amigos e recentemente escrevi um curto artigo de análise para o “The Pillar”). Quase de imediato o interesse por esta história ultrapassou o meio do jornalismo católico e os repórteres do costume. A história ganhou mais pernas que um polvo.

Existia o problema evidente de um padre num cargo de importância a viver uma vida dupla, em violação das suas promessas de ordenação. Mais, embora não exista qualquer indicação de que o conduto de Burrill envolvesse menores, a aplicação Grindr é conhecida por colocar menores em risco de exploração precisamente porque permite que os utilizadores se mantenham anónimos.

É significativo ainda que, uma vez que o “The Pillar” usou dados de rastreio de telemóvel comprados – mas sem revelar nem a fonte desses dados nem como ficou na posse dos mesmos – a história despertou uma série de polémicas sobre a segurança dos dados e sobre a perspetiva ética de usar estes dados numa reportagem.

Desde a reportagem de segunda-feira, o The Pillar publicou mais duas histórias baseadas no mesmo tipo de dados. Uma a dar conta do uso de aplicações de encontros e de engates em várias casas paroquiais na arquidiocese de Newark, e outra sobre as ameaças de segurança para a Santa Sé por causa do uso dessas aplicações de engate no Vaticano.

Resumindo, o trabalho jornalístico do “The Pillar” irritou muita gente. Desde a Secretaria de Estado do Vaticano à USCCB, passando por gurus de segurança de dados, supostos guardiões da classe jornalística e as vozes do costume das redes sociais católicas que clamam “homofobia” cada vez que se sugere que possa valer a pena falar do problema que é a existência de um vício contranatura entre clérigos.

Nem toda a gente está irritada com o “The Pillar”, como é evidente. A maioria dos católicos “normais” com quem tenho falado acha que o “The Pillar” prestou um serviço à Igreja. E isso indica outra coisa que merece a nossa atenção.

Olhemos para a cronologia dos eventos, como relatado pelo “The Pillar”, que nos dá alguma noção de como os responsáveis da Igreja têm respondido a tudo isto.

Jeffrey Burrill


• Algures durante a semana de 11 a 17 de julho, “O The Pillar abordou responsáveis da USCCB… propondo apresentar aos líderes da Conferência Episcopal informação sobre más práticas de funcionários, durante uma reunião off the record antes de esta ser publicada, permitindo assim à USCCB tempo suficiente para formular a sua resposta”. A reunião foi agendada para dia 19 de julho.

• 17 julho: “O The Pillar reuniu durante mais de 90 minutos com os cardeais Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano e Paolo Ruffini, prefeito do dicastério do Vaticano para as comunicações, para apresentar os seus dados… Concluída a reunião, Ruffini pediu ao ‘The Pillar’ que submetesse questões, que apresentaria ao Parolin para que ele respondesse, e solicitou uma semana para a formulação das respostas, a que o ‘The Pillar’ acedeu”.

• 18 julho: “O ‘The Pillar’ foi informado de que a reunião com altos quadros da USCCB, marcada para segunda-feira, 19 de julho, tinha sido cancelada. Em vez disso foi pedido ao ‘The Pillar’ que submetesse perguntas por escrito e, ainda, que o prazo fosse estendido até terça-feira 20 de julho, a que a publicação acedeu”.

• 19 julho: A “Catholic News Agency (antiga entidade patronal de Flynn e de Condon) “publicou uma notícia sobre possíveis futuras reportagens na imprensa baseadas no uso de dados de sinal de aplicações”.

• 20 julho: Quadros da USCCB ofereceram-se para reunir pessoalmente com o “The Pillar”: “A caminho dessa reunião, o ‘The Pillar’ tomou conhecimento, através da imprensa, da demissão do secretário-geral da USCCB, monsenhor Jeffrey Burrill, devido a ‘notícias pendentes alegando possível comportamento impróprio”.

Tudo somado dá nisto: A análise de dados de aplicações móveis feita pelo “The Pillar” revelou umas coisas muito desagradáveis. Em vez de publicar a informação, o “The Pillar” notificou as autoridades eclesiais relevantes, dando-lhes uma oportunidade razoável para formular uma resposta construtiva, e estendendo o prazo inicial quando isso lhes foi solicitado.

A USCCB ou a Secretaria de Estado (ou ambas) claramente não gostaram do que o “The Pillar” tinha para lhes dizer. A resposta foi empatar, espalhar partes da história a outros órgãos de comunicação mais amigáveis e depois fechar-se em copas. Deixarei aos diretores de comunicação e jornalistas a discussão sobre se esta estratégia é brilhante ou rasca. 

O que é evidente é que esta manobra tinha por objetivo punir e intimidar. A estratégia não passava por impedir que a história fosse publicada – claramente houve fuga de informação para outros órgãos e Burrill demitiu-se antes de o “The Pillar” ter publicado uma só linha – mas sim por infligir o máximo de danos a dois jornalistas católicos que tiveram a audácia de informar os líderes católicos sobre algo que eles não queriam ouvir.

É evidente que existem questões legítimas a colocar em relação à utilização de dados de aplicações por parte do “The Pillar”. Mas quando os líderes eclesiais tratam automaticamente jornalistas como Flynn e Condon – que claramente não estão nas margens – como párias simplesmente por terem revelado verdades inconvenientes sobre pecados clericais, há consequências não intencionais.

Perante as mudanças radicais no panorama dos media católicos, os bispos – e as suas equipas de comunicação, muitas vezes lideradas por leigos – terão de tomar umas decisões estratégicas. Querem uma imprensa católica “domesticada”? Uns media católicos em quem ninguém confia, com as notícias mais difíceis sobre a Igreja a terem de ser dadas por órgãos seculares (ou por procuradores públicos) com um conhecimento limitado de uma Igreja pela qual nada sentem?

E depois existe o espetro de uma franja de meios de comunicação católicos cada vez mais venenosa, que cresce na medida inversa à da credibilidade e transparência dos bispos, sobretudo no que diz respeito a questões de más práticas sexuais e de abusos por parte do clero. Bispos que lamentam o crescimento dessa franja e a sua influência sobre os seus rebanhos fariam bem em lembrar-se do que a alimenta.

A restauração da credibilidade episcopal vai exigir um grau de responsabilização e transparência que poderão ser dolorosos e, por vezes, até humilhantes. E nesse sentido jornalistas católicos independentes como Flynn e Condon não são o inimigo da Igreja, pelo contrário, são alguns dos seus mais importantes aliados.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 29 de Julho de 2021)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing


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