quarta-feira, 15 de setembro de 2021

De um Céu Limpo e Azul

Sou nova-iorquino por escolha, vivo na região desde 1977. É aqui que espero vir a morrer. E ainda tenho memórias bem vivas do 11 de Setembro de 2001.

Era uma manhã linda. Tinha deixado a minha mulher, Sydny, na estação de Pelham por volta das 8h00 e voltado a casa para levar os meus filhos, de 14 e de 12 anos, para a escola. Depois subi para o meu escritório em casa para trabalhar no meu livro sobre cavalheirismo.

Pouco antes das 9h a Syd ligou do seu escritório na Rockefeller Center e mandou-me ligar a televisão.

Na NBC vi fumo a sair da Torre Norte do World Trade Center (WTC).

Revendo essas imagens hoje, como fiz para escrever esta coluna, em nada diminui o choque. É a mesma coisa quando revemos filmes cujos finais já conhecemos e não deixamos de ficar nervosos. Às 9h ainda ninguém sabia que o primeiro avião não tinha atingido a torre por acidente.

Nestas imagens os pivots da TODAY, no dia 11 de Setembro, não sabem que o fumo e as chamas dessa explosão são do Voo 11 da American Airlines, com origem em Boston. Matt Lauer especula, corretamente, que se os primeiros rumores são verdadeiros, e de facto foi um avião, então não pode ter sido um aparelho pequeno a fazer um buraco tão grande no edifício, casando tantas chamas e fumo.

Ainda assim, a Katie Couric diz que estão a receber informações de que se tratava de uma pequena aeronave de passageiros. Neste momento o oráculo do TODAY diz que são 9h02.

Como disse o bombeiro:

Não reserve um quarto acima do quinto andar

Em qualquer hotel em Nova Iorque.

Eles têm escadotes que chegam mais alto

Mas ninguém os subirá.

Como disse o New York Times:

O Elevador procura sempre

O andar das chamas

E abre automaticamente

E não fecha.

Estes são os avisos de que não se deve esquecer

Se estiver a subir para fora de si mesmo

Se quiser embater no céu*.

É 2021 e estou a tentar manter-me calmo, objetivo e racional – mas só me apetece gritar. Estou a olhar para imagens de há duas décadas e quero gritar. Gritar o quê? Um aviso? Para quem?

Então, precisamente às 9h03h11, o voo da United Airlines 175, também oriundo de Boston, atinge a Torre Sul. Um produtor da NBC questiona-se se não haverá um problema com o controlo de tráfego aéreo. Cerca das 9h05 Matt Lauer diz que os incidentes foram intencionais.

E mais ou menos nesse momento Andy Card, que está com George W. Bush numa sala de aulas na Florida, encosta-se e sussurra ao Presidente, “A América está a ser atacada”.

A próxima coisa que fiz nesse dia foi ligar para o George Marlin, Diretor Executivo da Autoridade Portuária de Nova Iorque e de Nova Jérsia (1995-1997), ou seja, depois do atentado mal-sucedido de 93 na WTC e antes do 11 de Setembro. Encontrei-me com ele uma vez num andar alto na WTC, de onde se podia ver o Rio Hudson. George, que acorda cedo, descreveu-me como às vezes ao nascer o sol iluminava nuvens baixas, pintando-as de dourado, fazendo-as parecer anjos a viajar à velocidade da luz.

Passei muitas vezes

O quinto andar

Subindo a custo

Mas só uma vez

É que subi até lá acima.

Sexagésimo andar:

Pequenas plantas e cisnes a dobrar-se

Para dentro de sepulturas.

Andar duzentos:

Montanhas com a paciência de um gato,

Silêncio calçado com ténis.*

“Estás a ver o que está a acontecer?”, perguntei ao George no 11 de Setembro.

“Não temos uma televisão no escritório”, respondeu, “mas já ouvi. Terroristas?”

“Só pode. Ambos os aviões estavam cheios de combustível, a caminho da costa ocidental.”

“Vai-me mantendo a par, se faz favor.”

Disse-lhe que assim faria.

Então, pouco antes das 10h15, o George ligou de volta.

“O Pentágono e a Pensilvânia também, certo?”

“Sim, e a Torre Sul desmoronou. Caiu diretamente para baixo, sobre si mesmo.”

George suspirou

“Foi isso que os arquitectos me disseram que iria acontecer.”


Algo da minha conversa com o George fez-me querer rezar, mas era complicado. Queria agradecer a Deus o facto de ele ter saído da Autoridade Portuária quatro anos antes, mas entendi que o seu sucessor poderia estar morto (e estava). Ainda assim, rezei. E sabia que não estava sozinho. Imaginei aquilo que certamente era verdade, que através da nação, agora unida, milhões de pessoas se encontravam de joelhos, e não como sinal de rendição.

A Igreja de São Pedro, ali perto, tornou-se por momentos uma morgue, quando o corpo do padre Mychal Judge foi colocado diante do altar. Foi vítima da queda de destroços na Torre Norte depois de ter entrado a correr no edifício para ministrar aos mortos, moribundos e feridos. Foi designado “Vítima 0001”, a primeira pessoa a ser declarada morta no 11 de Setembro.

O escritório da minha mulher foi evacuado porque o Rock Center foi considerado um potencial alvo. Ela tentou ligar-me, mas depois das 10h30 ninguém podia ligar para dentro ou para fora da cidade. Então andou a pé 20 quarteirões até ao apartamento da irmã e depois as duas saíram para ir comer num quiosque local, enquanto ouviam as sirenes infindáveis e começavam a ver pessoas cobertas de pó a subir, em silêncio, vindas da baixa de Manhattan.

As escolas fecharam mais cedo. A ansiedade dominava a nossa pequena vila dos subúrbios porque tantas amigos e familiares trabalhavam na zona financeira de Manhattan, alguns mesmo nas Torres Gémeas.

O meu filho mais velho, Bobby, estava preocupado com a mãe e ligou da escola. Tranquilizei-o. Depois encontrou o seu irmão Jon e vieram a pé para casa. O Jon foi para o quarto ler, mas o Bobby queria ir para o jardim jogar à bola.

Estávamos no Jardim a lançar a bola e a apanhar – as minhas mãos ardiam com a força dos seus passes – quando um caça F-15 passou por cima de nós, a voar muito rente. Se o piloto tivesse baixado a asa e olhado para baixo teria visto a sua cara.

Quem vivia onde eu vivo conhece pessoas que morreram no 11 de Setembro, ou pelo menos os seus familiares. Eu tinha-me divertido à brava no casamento do Tommy Hohlweck, em 1978. A minha amiga Debra Burlingame vivia ao virar da esquina e era irmã do Charles “Chic” Burlingame que pilotava o voo da American 77, que atingiu o Pentágono. Apenas dias antes tinha estado junto à linha do campo com o Pat O’Shea, enquanto víamos os nossos filhos a jogar futebol americano. E em um ou dois encontros locais tinha conhecido o seu irmão Danny, bem como o Monty Hoard. Perdemos nove habitantes de Pelham naquele dia, incluindo o bombeiro Joe Leavy, que estava de folga, mas correu para o Ground Zero e nunca regressou.

Eu fui membro do New York Athletic Club até 2011. Na entrada há três memoriais com os nomes dos mortos: Primeira Guerra Mundial, Segunda Guerra Mundial e 11 de Setembro de 2001.

Hoje foi declarado o fim da longa guerra que se seguiu ao 11 de Setembro. Rezo para que assim seja. Temo que não.

Andar quinhentos:

Mensagens e cartas de há séculos,

Pássaros para beber,

Uma cozinha de nuvens.

Andar seis mil:

As estrelas,

Esqueletos a arder,

Os seus braços a cantar.

E uma chave,

Uma chave muito grande,

Que abre algo –

Uma porta útil –

Algures –

Ali em cima.*

*Este poema profético “Subindo para o Céu num Elevador”, escrito por Anne Sexton, foi escrito em 1975. A minha mulher publica-o todos os 11 de Setembro na sua página de Facebook.


Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

(Publicado pela primeira vez no sábado, 11 de Setembro de 2021 em The Catholic Thing)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de TheCatholic Thing.

Ajudar os cristãos na Terra Santa e Papa de regresso a Roma

Antes de vos dar as notícias do dia, queria fazer-vos um pedido. Se já rezam e pensam nos cristãos que vivem em situações de maior dificuldade e sempre quiseram dar uma ajuda mais prática, então cliquem aqui, leiam com atenção, e não percam esta oportunidade de ajudar os cristãos que vivem na Terra Santa e estão desesperados com a falta de turistas que costumam ser o seu sustento.

Olhando agora para a atualidade noticiosa, o Papa Francisco terminou a sua viagem à Eslováquia, hoje, que foi marcada por apelos à integração e à inclusão. A fé, disse, não deve ser reduzida a um açúcar que adoça a vida, nem a cruz deve ser um símbolo político ou de estatuto social.

Os ciganos, que foram visitados pelo Papa, ficaram surpreendidos com a atenção que lhes foi destinada.

E, por fim, a vossa atenção para esta história bonita de uma cruz que foi oferecida ao Papa por um bispo chileno, feita com madeira recuperada de uma igreja que foi vandalizada e incendiada em outubro de 2020.

No voo de regresso a Roma Francisco falou de vários assuntos, incluindo o ceticismo para com as vacinas Covid, o encontro que teve com Viktor Orbán e a questão polémica da comunhão para políticos pró-aborto.

O artigo do The Catholic Thing desta quarta-feira ainda está por publicar, mas lá estará até ao final do dia.

Ajudar os nossos irmãos na Terra Santa

 Recebi há dias um pedido de ajuda, que partilho convosco.

Como sabemos, os cristãos na Terra Santa são cada vez menos e passam muitas dificuldades. Muitos dos que vivem em Belém dependem da indústria do turismo, que por causa da pandemia tem estado parada. 

Todos os anos costumava vir a Portugal o Nicolas, católico de Belém, que trazia peças esculpidas em madeira de oliveiras da Terra Santa, para vender. É uma importante fonte de rendimento que, infelizmente, secou por causa da Covid. 

Já em desespero, ele e outros vendedores juntaram-se para vender as peças, a preço quase de custo, com possibilidade de envio por correio. De uma perspetiva comercial, quase que não vale a pena, para nós, uma vez que pagamos mais pelo envio do que pelas peças, mas não são os cristãos chamados a olhar a realidade por outra perspetiva?

Estes cristãos precisam da nossa ajuda. Aqui podem ver em detalhe as peças (cliquem para aumentar as fotos) e em baixo está a lista com os preços. As encomendas podem ser feitas diretamente ao Nicolas por whattsapp, para o número +972 52-457-6851.

Ele poderá depois dar melhor ideia de valores de envio, mas pelo que me disse uma encomenda de 20 quilos fica a cerca de 100 euros e uma de 2 kilos a cerca de 20 euros. Os pagamentos podem ser feitos por transferência para uma conta que eles mantêm em Portugal, evitando taxas. Por que não juntar uma família, ou uma paróquia, para fazer encomendas maiores e ter peças para vender ou distribuir pelo Natal?

Falamos muito em ajudar os cristãos perseguidos e que passam dificuldades. Rezamos por eles. Esta é uma forma prática e ao alcance de todos de ajudar pessoas em concreto. Não a desperdicemos!











segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Papa na Eslováquia e o último judeu de Cabul

O Papa Francisco está novamente de viagem. Esteve ontem em Budapeste, uma visita algo tensa, devido às muitas discordâncias que existem entre Francisco e o regime de Viktor Orbán, nomeadamente no que diz respeito aos refugiados. O Papa pediu aos húngaros mais abertura aos estrangeiros e advertiu também contra o antissemitismo na Europa.

Esta segunda-feira Francisco já viajou para a Eslováquia onde fez um primeiro apelo para que não se esbanjem os fundos de recuperação da União Europeia, por causa da pandemia, e depois, em discurso aos bispos, padres e religiosos, disse que é preciso criar “novos alfabetos” para evangelizar a Europa.

O último judeu de Cabul deixou finalmente o Afeganistão. Resistiu aos soviéticos, à guerra e aos taliban.1, mas os taliban versão Estado Islâmico convenceram-no finalmente a sair.

Se conhece o trabalho, pensamento e obra de Jordan Peterson, então não deixe de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing em português. Se não conhece leia na mesma e depois vá conhecer.

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Jordan Peterson e a Busca por uma Vida com Sentido

Christopher Kaczor
O trabalho de Jordan Peterson tem provocado reacções fortes de defensores da ortodoxia woke, mas também reconsideração da sabedoria contida nas histórias da Bíblia por parte de ateus, agnósticos e pessoas que não se identificam com qualquer religião. No nosso livro Jordan Peterson, God, and Christianity: The Search for a Meaningful LifeMatthew Petrusek e eu procuramos mostrar que o método de Peterson de leitura das Escrituras pode ser encontrada mais cedo – e de forma mais rica – em figuras como Agostinho, Gregório Magno e São Tomás de Aquino. Mais, argumentamos que as trajectórias de muitas das linhas de raciocínio de Peterson completam-se no Catolicismo. “O Catolicismo é o expoente máximo da sanidade”, disse Jordan Peterson recentemente num podcast, e nós concordamos.

O Peterson traz consigo influências de psicologia jungiana, literatura russa, teoria evolucionista e as tragédias totalitárias do Século XX, para iluminar os textos bíblicos. Este método ecoa Santo Agostinho, que ensinou em De doctrina christiana que toda a sabedoria secular pode ser usada para interpretar a Escritura, porque todas as verdades, estejam onde estiverem, têm as suas raízes em Deus. Sem o saber, Peterson está a re-apresentar os ensinamentos de São Gregório Magno de que o Antigo Testamento se revela no Novo Testamento, isto é, que o Novo Testamento ilumina o Antigo. Tal como Aquino, Peterson vê a Bíblia como tendo uma riqueza de sentido profunda, que vai muito para além daquilo que qualquer intérprete consegue alcançar só por si.

Neste Quadro, Peterson oferece-nos interpretações marcantes de Adão e Eva, Caim e Abel, a Torre de Babel e o chamamento de Abraão. Para Peterson, estas histórias não são simplesmente sobre figuras antigas num mundo esquecido, mas sobre realidades humanas que continuam a ser tão relevantes hoje como no dia em que primeiro foram escritas.

Um dos pontos mais fortes do pensamento de Peterson é a forma como confronta diretamente o problema da dor, para o qual certamente contribui o terrível sofrimento que ele e a sua família têm suportado. Em 12 Regras para a Vida ele escreve que “A verdade é o antídoto para o sofrimento”. Em Beyond Order diz que o antídoto para o sofrimento é um bem que seja “o maior objectivo possível”. Noutro lado escreve “Não podemos viver sem alguma ligação ao divino – e a beleza é divina – porque sem ela a vida é demasiado curta, demasiado triste e demasiado trágica”. Podemos resumir Peterson dizendo que o antídoto para o sofrimento é a verdade articulada de forma corajosa, o bem do objectivo mais altivo e a experiência da beleza.

Na tradição católica, é Deus que é a verdade, o bom e o belo. Ecoando o pensamento de Diotima, no Simpósio, de Platão, Agostinho ensina que Deus é “a suprema beleza”. Nas suas Confissões, o bispo africano lamenta: “Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei!”.

Tomás de Aquino argumenta que Deus é o maior objectivo possível, o summum bonum, o bem perfeito que é procurado por aqueles que buscam a felicidade. Ao contrário dos conceitos dualistas sobre a realidade última, tal como “a força” da Guerra das Estrelas, que tem um lado claro e um lado escuro, Tomás afirma que Deus não é composto de forma alguma, e por isso não pode ser em parte bom e em parte mau. Tomás de Aquino afirma ainda que Deus é o maior dos bens, o bem perfeito, bem sem qualquer toque de mal.

E o que dizer da verdade? Aquino define a verdade como a correspondência entre a mente e a realidade. Em contraste, Peterson, inspirado por figuras como William James, tem uma compreensão pragmática da verdade como “o útil”. Isso já nos ajuda, de alguma forma, mas Peterson – pelo menos por enquanto – e outros de tradição junguiana, buscam os benefícios do bem sem o radicar no único lugar em que pode ser verdadeiramente radicado. 

Na Summa contra Gentiles, Aquino fornece mais razões para se crer que a mente de Deus e a realidade de Deus não só correspondem um ao outro como são de facto idênticos. A Mente Divina é a Essência de Deus, e a Essência de Deus é a Mente Divina. Mais, Deus é a Verdade Primordial porque Deus é Causa Primeira de todas as realidades físicas e psicológicas que conhecemos quando compreendemos a verdade. Se o antídoto para o sofrimento é a verdade, o bem e a beleza, então Deus é o antídoto para o sofrimento.

O aforismo de que “A Verdade é o antídoto para o sofrimento” está ligado ainda de outra forma à tradição católica. Jesus disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, se não por mim” (João 14,6). Este caminho de Jesus não é apenas uma noção intelectual da verdade. Esta realidade, explorada de forma tão hábil pelo padre David Vincent Meconi no seu maravilhoso livro Christ Alive in Me: Living as a Member of the Mystical Body tem diferentes nomes, como divinização, teósis e deificação. O cristão afirma que somos convidados não só a tornar-nos alunos aplicados de um professor perceptivo, mas filhos adoptivos na Família Divina do Pai, Filho e Espírito Santo.

Se existe um antídoto parcial para o sofrimento nesta vida, encontra-se em união com Cristo que (segundo São Tomás de Aquino) experimentou o maior sofrimento possível e ofereceu a maior consolação possível. Isto não acontece apenas através do conhecimento dos ensinamentos de Jesus, mas através da partilha da vida que Jesus nos ofereceu como dom.

Mas, de facto, não existe antídoto perfeito para o sofrimento, pelo menos não nesta vida. Aqui em baixo haverá sempre dor, tanto físico como psicológico. Na verdade, os maiores santos, aqueles que viveram Cristo de forma mais plena, sofreram frequentemente, e muito. Mas o seu sofrimento tinha um sentido, porque as suas vidas tinham um propósito: amar a Deus e ao próximo. O amor é um bálsamo, mas não é um antídoto perfeito para as inevitáveis dificuldades da vida terrena. O sofrimento de Cristo apenas encontrou um antídoto perfeito quando ele morreu e ressuscitou dos mortos, e com o nosso sofrimento será igual. Se esta ressurreição é apenas um sonho piedoso, ou uma esperança fundada, é outra questão que surge nas explorações provocatórias de Peterson.


Christopher Kaczor é professor de Filosofia na Universidade de Loyola Marymount e co-autor, com Matthew Petrusek, de Jordan Peterson, God, and Christianity: The Search for a Meaningful Life.

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 7 de Setembro de 2021 em The Catholic Thing

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.  

 



quarta-feira, 1 de setembro de 2021

O essencial da entrevista do Papa à Cadena COPE

A “silly season” costuma terminar com o final de Agosto, e parece que assim foi. O espanhola Cadena COPE divulgou esta quarta-feira uma longa entrevista ao Papa Francisco, cheia de coisas interessantes, como o facto de assumir que tem medo dos “demónios bem-educados”.

O Papa começa por falar da luta contra a corrupção e de como foi necessário, para tal, reformar o sistema judicial. Expressa ainda o desejo, sem se comprometer, de que o cardeal Becciu, actualmente ser julgado, seja inocente.

Francisco não foge a temas como os abusos sexuais na Igreja, mas pergunta por que razão os estados não fazem mais para combater a pornografia infantil dentro das suas fronteiras, afirmando que não acredita que seja por falta de conhecimento.

O diálogo com a China também foi falado, com Francisco a defender que este deve continuar, mas a aceitar que existam dúvidas e críticas legítimas ao que foi alcançado até agora.

E por fim o Papa deixa um recado aos próprios espanhóis, apelando a que se reconciliem com a história do século passado, dizendo ainda que a Europa tem de escolher entre aperfeiçoar-se ou desintegrar-se.

Noutras latitudes, os EUA deduziram acusação contra um padre americano em Timor-Leste por abusos sexuais. Richard Daschbach já está a ser julgado em Timor e foi laicizado pela Igreja. Mas conta naquele país com importantes aliados.

E o tema do artigo do The Catholic Thing em português é, hoje, a aparente derrota dos EUA e aliados no Afeganistão. A ex-militar Michele Maria McAloon explica qual deve ser a atitude cristã peranteesta realidade.

Uma Resposta Cristã à Derrota

Michele Malia McAloon

Retirada ou derrota? Os guerreiros do teclado e os livros de história debaterão esta questão durante décadas. Para a maioria dos americanos a ver o desastre no Afeganistão, esta é apenas uma questão de orgulho nacional, e não um assunto existencial que lhes afecta directamente as vidas. Infelizmente, para a pequena minoria de americanos que opta por combater, põe-se agora a questão de saber se vinte anos de combate contínuo valeram o preço que lhes foi cobrado a eles, às suas famílias e à nação.

Para a maioria dos americanos, a realidade das guerras no Afeganistão e no Iraque foi um fardo suportado por outros. Políticos sem qualquer conhecimento militar e sem filhos a servir nas forças armadas decidiram depressa, talvez irresponsavelmente, por uma intervenção militar. Ao mesmo tempo não houve qualquer apelo à juventude para pegar em armas. Desde o início de ambas estas guerras houve uma atitude generalizada de que esta era a guerra de outros. Certamente não era uma questão de responsabilidade pessoal, nem para os membros da própria família.

Não houve apelos a mobilização popular para plantar comida ou comprar obrigações de guerra, nem de fazer o mais pequeno dos sacrifícios para reconhecer, muito menos contribuir para o esforço de guerra. Em vez disso a política "woke" e as compras é que estiveram na ordem do dia. Palavras de agradecimento pelo serviço dos veteranos soaram a pouco enquanto as candidaturas à universidade, bolsas desportivas e preparação para os exames evitaram que a maioria dos pais considerassem sequer o serviço militar como opção para os seus filhos.

1

Desde 2001 quase três milhões de militares serviram nos teatros de guerra que se seguiram ao 11 de Setembro, no Afeganistão e no Iraque. Tristemente, mais de 7.000 militares americanos, a que se acrescentaram agora mais 13, perderam as vidas ao longo de duas décadas da guerra contra o terrorismo. Muitos dos nossos aliados europeus também sofreram baixas pesadas. Mais trágico ainda é o número de soldados que se suicidaram depois de regressar a casa. As feridas psicológicas do stress pós-traumático provaram ser mais mortíferas que o combate em si. Quatro vezes mais veteranos de guerra, mais de 30,177 pessoas, suicidaram-se do que aqueles que morreram em batalha.

Esta guerra foi uma questão familiar. Muitos militares serviram várias missões, passando mais tempo fora do que em casa ao longo das últimas duas décadas. O ciclo de missão, regresso a casa e preparação para a próxima missão nunca acabou. O custo íntimo foi suportado por familiares, esposos, pais, filhos e amigos que tiveram de lidar com a ausência e – frequentemente – tiveram de se adaptar às mudanças naqueles que regressavam do campo de batalha.

Desde o início desta retirada brutal e caótica do Afeganistão, esposos de soldados têm estado a postar fotografias de cerimónias de boas-vindas em que participaram ao longo de vários anos, para os seus familiares. Fotos de duas, três ou quatro cerimónias, com as crianças a envelhecer, são um testemunho do verdadeiro custo pessoal suportado por famílias militares durante esta guerra.

2

Os relatos de que os afegãos não estavam dispostos a combater são simplesmente falsos. Os soldados afegãos morreram a uma taxa de 27 vezes mais que os americanos e seus aliados. Ao longo dos últimos 10 dias os oficiais americanos têm estado a responder a chamadas e mensagens dos seus parceiros e intérpretes afegãos, pedindo ajuda. Velhas feridas reabriram agora que muitos não têm a capacidade para prestar o auxílio de que os seus leais colegas precisam para poderem escapar aos Taliban.

A guerra e o conflito são tão antigos como a humanidade; a derrota idem. Mas derrota e derrotado não são a mesma coisa. O Antigo e Novo Testamentos, bem como as vidas dos santos, estão cheios de exemplos de perda e renovação. Moisés encontrou esperança nos 40 anos de travessia do deserto, sem o prémio de entrada na Terra Prometida. São Paulo encontrou a sua vitória final na cadeia. Ele sabia que a verdadeira vitória vem apenas na celebração da esperança, na paciência nas tribulações e na constância da oração (Romanos 12,12). Santos e pecadores, ao longo dos anos escolheram erguer-se da derrota transformando um passado doloroso num futuro de esperança através da fé e do serviço a algo maior que si mesmos.

Ironicamente, a nossa renovação enquanto nação, igreja ou comunidade de crentes poderá nascer do exemplo de serviço que está a ser dado, mesmo agora, à sombra das suas dificuldades e perda, pela nossa comunidade militar. Militares e suas famílias, pessoas sem grandes meios financeiros ou materiais, que foram os mais afetados pelas guerras americanas no Afeganistão e no Iraque continuam a servir, sacrificar e perguntar que mais podem fazer para ajudar.

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Com os refugiados afegãos a começar a ser realojados em centros de detenção financiados pelos EUA, na Alemanha, uma legião de famílias de militares e de veteranos estão a oferecer-se como tradutores e voluntários. Tenho-os visto ao longo dos últimos dias, na Base Aérea de Ramstein, a dar uma resposta que só consigo descrever como arrepiante.

O simples gesto de um familiar de militar a comprar fraldas para um bebé afegão cujo pai até poderá ter contribuído para a violência dirigida contra os seus entes queridos representa um momento definidor para a nossa nação. O serviço e o sacrifício acrescidos, em vez do recuo para o ressentimento, tornaram-se uma fonte de cura. O serviço e a dádiva são um mero reflexo para aqueles que optaram por servir. Os americanos devem reflectir profundamente sobre este humilde exemplo.

Para os cristãos a derrota está sempre ao virar da esquina. A vida cristã é um combate contra o pecado, a tentação e o desespero. A nossa verdadeira força vem dos mandamentos tão simples, mas tão difíceis de pôr em prática, de amar a Deus e ao próximo. Um futuro menos violento poderá estar a ser gerado nos corações de homens e mulheres dispostos a ordenar as suas vidas segundo os mandamentos de Deus.

Numa sexta-feira, há vários séculos, numa colina deserta no Médio Oriente chamada Calvário, a derrota e a morte pareceram absolutos. Três dias mais tarde, quando o sol nasceu iluminou um sepulcro vazio – a mais profunda vitória na história da humanidade. A derrota só pode ser temperada pelo amor e no conhecimento de que a sua vitória é a nossa, agora e para sempre.

São Miguel Arcanjo, Defendei-nos no combate.

Fotos:

1. Elementos das Forças Especiais americanas a cavalo no Afeganistão, em Outubro de 2001. (Foto: FA Americanas).

2. Os caixões de Hunter Lopez, Rylee McCollum, David Lee Espinoza, Kareem Nikoui, Jared Schmitz, Daegan Page, Taylor Hoover, Humberto Sanchez, Johanny Rosario, Dylan Merola, Nicole Gee, Max Soviak e Ryan Knauss, os soldados mortos no recente atentado em Cabul. Dover Air Force, Delaware, 29 Agosto de 2021. (Foto: U.S. Marine Corps).

3. Os primeiros evacuados do Afeganistão da Base Aérea de Ramstein, na Alemanha, para os EUA, depois da meia-noite do dia 23 de Agosto de 2021. (Foto: Força Aérea EUA)


Michele Malia McAloon é casada há quase 28 anos. É mãe, oficial das Forças Armadas americanas na reserva e advogada de direito canónico. Vive em Wiesbaden, na Alemanha. Pode ouvir o seu podcast “Cross Word” no Spotify, Apple Podcasts e archangelradio.com.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 31 de Agosto de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Lágrimas por destruição jihadista e viva os enfermeiros

Estou de volta depois de duas semanas em que o Afeganistão implodiu.

Em Moçambique a ameaça jihadista mantém-se e um padre fala da sua tristeza ao encontrar a igreja de Mocímboa da Praia destruída pelo fogo.

Francisco nomeou o seu mestre de cerimónias, que o serviu durante oito anos depois de já ter feito o mesmo com Bento XVI, bispo de Tortona, em Itália.

Em excertos de uma entrevista que só vai ser divulgada na quarta-feira, o Papa diz que a sua vida foi salva por um enfermeiro durante a operação a que foi sujeito há poucas semanas.

Durante estas semanas tivemos novos artigos do The Catholic Thing publicados. No primeiro, Randall Smith discorre sobre o sentido do (não) Sacrifício de Isaac por Abraão, no segundo Stephen P. White recorda um ferimento que teve quando era pequeno para explicar que a salvação não se consegue pela inversão da dor, morte e corrupção, mas através deles e, por fim, o padre Paul Scalia explica porque razão as palavras de Cristo aos seus discípulos, que ouvimos no domingo da semana passada, são tão duras para eles e para nós.

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Palavras Duras

Pe. Paul Scalia

Muitos dos discípulos de Jesus que o escutavam diziam, “Estas palavras são duras, quem pode escutá-las?”

O que significa dizer que as palavras de Jesus são “difíceis”? Poderia significar que são difíceis de compreender. E como Nosso Senhor estava a falar da Eucaristia – o mistério da Fé – isso até seria aceitável. É demasiado complicado para perceber.

Mas não é isso que significa. A palavra “duras”, aqui, indica algo de ofensivo ou mesmo intragável. É por isso que Nosso Senhor pergunta: “Isto escandaliza-vos?”. Por outras palavras, “Consideram isto ofensivo e intolerável?”. Ele não pergunta se estão confusos, porque nesta altura do discurso sobre o Pão da Vida ele já tinha clarificado os seus ensinamentos muitas vezes. Eles compreendem-no perfeitamente. Simplesmente não estão dispostos a aceitar aquilo que Ele ensina. O obstáculo aqui não é ao nível do intelecto, mas da vontade.

Mais especificamente, eles não estavam dispostos a aceitar o que Ele ensinava porque isso obrigá-los-ia a mudar de vida. Ele estava a convidá-los a submeter os seus pontos de vista mundanos às suas verdades sobrenaturais. “O Espírito é que dá a vida, a carne não serve de nada” (Jo. 6,63). Eles intuíram bem o alcance das suas palavras: Se este ensinamento é verdadeiro, então eles têm de adaptar as suas vidas a ele. E por isso hesitaram. Mesmo depois de testemunhar os seus milagres e sinais, continuavam a não conseguir confiar-se aos seus ensinamentos. “A partir de então, muitos dos discípulos afastaram-se e já não andavam com Ele” (Jo. 6,66).

Estes discípulos entraram na mesma lógica que os seus antepassados no Êxodo. Os israelitas que seguiram Moisés para o deserto acabaram por se fartar de confiar no Senhor e na sua Maná milagrosa. A certa altura disseram: “Daqui não passamos”. Até começaram a ter saudades das panelas de carne no Egipto e a querer regressar à terra da escravatura (Cf. Ex. 16,3 e Num 14,4). Também assim, os discípulos que seguiram Cristo para o deserto procuravam-no porque Ele os tinha alimentado de forma milagrosa e não porque tinha palavras de vida eterna (cf. Jo. 6,68). E assim, aqueles que foram alimentados por Ele e testemunharam os seus milagres, regressam agora às suas antigas vidas.

Tudo isto traz à mente aquilo a que se chama “coerência eucarística” – a simples verdade de que aqueles que recebem a Eucaristia devem viver vidas coerentes com Ela. Inexplicavelmente, isto agora tornou-se polémico. De facto, a “coerência Eucarística” é uma fasquia bastante baixa. Afinal de contas, não devemos desejar apenas viver de uma forma coerente com a recepção da Eucaristia. Antes, devemos fazer por ir buscar vida e o sentido das nossas vidas à Eucaristia. Por outras palavras, as nossas vidas deviam ser coerentes com a Eucaristia porque são determinadas por Ela.

Os discípulos em Cafarnaum reconheceram aquilo que lhes estava a ser pedido. Acharam as palavras duras precisamente porque compreenderam que se as aceitassem teriam de viver em coerência com elas. Ao contrário de muitos que hoje recebem a Eucaristia de forma incoerente, aqueles discípulos pelo menos tinham a integridade para reconhecer a sua falta de vontade e simplesmente afastar-se.

Dietrich von Hildebrand escreveu que ser discípulo de Cristo requer “a aptidão para mudar, uma receptividade a Cristo como que da cera”. Embora seja operativa ao longo de toda a vida do cristão, esta disposição aplica-se sobretudo à nossa recepção da Eucaristia. No Diálogo de Santa Catarina de Sena, Nosso Senhor usa esta mesma imagem para descrever a recepção da Comunhão. “Quando esta aparência de pão é consumida, eu deixo uma marca, tal como um selo deixa a sua marca quando pressionado contra cera quente”.

A coerência eucarística requer a vontade – aliás, o desejo – de receber esta marca de Cristo, independentemente da “dureza” dos seus ensinamentos. Assim, devemos estar dispostos a receber aquilo que Ele nos deseja dar. Devemos desejar da Santa Comunhão aquilo que é a sua vontade, e não a nossa. O efeito em nós deve ser aquele que Ele quer, e não o que nós queremos.

Claro que não devemos ser demasiado duros com os discípulos em Cafarnaum. Para eles o ensinamento sobre a Eucaristia era algo extraordinário, sobrenatural e chocantemente novo. Já nós temos dois milénios de ensinamentos e de testemunhos para fortalecer a nossa fé. E mesmo assim continuamos a poder falhar na nossa devoção eucarística. Assim como os seus antepassados no deserto, estes discípulos são para nós um aviso. Não faz sentido tomar nota de (e lamentar) a incoerência eucarística dos outros se não fizermos mais por corrigi-la em nós mesmos.

Voltamos a Hildebrand: “Há muitos católicos religiosos cuja prontidão para mudar é meramente condicional”. Por outras palavras, estamos sempre em perigo de nos tornarmos como os discípulos em Cafarnaum, colocando limites à nossa disponibilidade para mudar, considerando que as suas palavras são demasiado duras e chegando àquele ponto em que dizemos, “Daqui não passamos”. Alguns atingem esse ponto quando enfrentam um ensinamento mais duro da Igreja de Cristo, outros quando sofrem alguma perda, dor ou escândalo. Seja qual for o caso, o resultado é o mesmo: uma dureza que resiste à Sua graça.

Eis, então, uma boa maneira de nos prepararmos para a Santa Comunhão – pedindo uma disposição dócil, como cera, para que a Eucaristia nos beneficie como Ele deseja e nos deixe a sua marca bem estampada.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero. É autor de That Nothing May Be Lost: Reflections on Catholic Doctrine and Devotion e coordenador de Sermons in Times of Crisis: Twelve Homilies to Stir Your Soul.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 22 de Agosto de 2021 em The Catholic Thing

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.  

 



quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Como Novo

Stephen P. White

Quando estava na segunda classe saltei de uma árvore, num bosque ao pé da minha casa. Aterrei de pé, mas o terreno era desigual, por isso apoiem-me com as mãos para não cair. Em vez de encontrar terra, folhas secas ou raízes, a minha mão direita enfiou-se diretamente nos cacos de uma garrafa de cerveja partida. O vidro castanho enterrou-se na carne da palma da minha mão, mesmo abaixo do dedão.

Apertei o pulso com força para diminuir a hemorragia. Temia que se corresse sangrasse mais, por isso regressei a casa a andar. Lembro-me de ter tido cuidado para não sujar com sangue a minha roupa. O meu pai, que era médico, olhou para a minha mão e comentou: “Parece que isso vai ter de levar uns pontos”.

Foi aí que me descontrolei e larguei a chorar.

Nunca tinha precisado de pontos. E de certa forma orgulhava-me disso. Já me tinha magoado antes, claro. Arranhões, nódoas negras, estiramentos. Mas era sempre o género de coisa que, com tempo, passava. Até aí, sarar significava sempre que as coisas se restauravam ao ponto em que estavam antes. Como novo.

Mas este corte na minha mão era diferente. Não iria desaparecer com o tempo. As coisas jamais seriam como tinham sido antes. Nunca seria “como novo”. Ainda tenho uma cicatriz rasgada, de cerca de um centímetro e meio, na minha palma direita. Foi esta realização, esta compreensão imediata da corruptibilidade irreversível do meu próprio corpo, que me incomodou tanto. Na altura não o saberia explicar dessa forma, mas foi um despertar bastante forte para um miúdo de oito anos.

Escusado será dizer que agora que me aproximo da meia-idade, recordo-me de muitos outros momentos envolvendo ferimentos e perdas muito mais graves que aquele corte na minha mão e alguns pontos.

Talvez seja só eu, mas estes dias em que vivemos parecem revelar cada vez mais sinais da corrupção que nos rodeia. Talvez seja da pandemia. Talvez seja do facto dos Chicago Cubs estarem a vender todos os meus jogadores preferidos. Talvez seja a nossa vida política, interminavelmente cansativa. Talvez a loucura de uma cultura cada vez mais divorciada da realidade. Talvez os escândalos e as falhas da Igreja nas últimas décadas. Talvez seja tudo isso junto.

Talvez estas sejam todas, de uma forma ou de outra, a mesma coisa. Afinal de contas, “as raposas têm tocas e as aves do céu têm os seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”.


O meu objetivo aqui não é de lamentar a condição humana, por miserável que seja. Fica sempre mal um cristão queixar-se do tempo em que vive. Cheira sempre a ingratidão e a ingratidão carrega sempre o odor do orgulho – como se fossemos demasiado bons para o mundo que encontrámos, ou demasiado importantes para ter de aturar a fragilidade da nossa própria natureza humana.

Fica mal a um cristão pensar assim precisamente porque este tipo de pensamento ignora o mistério central da fé cristã: Deus amou de tal forma o mundo – um mundo aparentemente indigno de amor – que enviou o seu único Filho, que tomou sobre si a nossa frágil humanidade, sofreu a morte e ressuscitou. Em Cristo encontramos a resolução perfeita e o cumprimento de toda a indeterminabilidade da existência humana. Como disse o Papa João Paulo II, Cristo é “a resposta existencialmente adequada para o desejo de bondade, verdade e vida que existe em todo o coração humano”.

Não estamos aqui perante uma mera abstração. Jesus conheceu a fome e a sede, a tentação e o sofrimento, a humilhação e a perda. Chorou pelo seu amigo Lázaro. Mas o seu plano para a salvação não passava por desfazer qualquer uma destas coisas. Alguns esperavam que ele restaurasse o reino e devolvesse Israel ao seu antigo poder e glória, mas Ele tinha outra coisa em mente. Quando ressuscitou, na manhã da Páscoa, as coisas não eram, certamente, como antes, nem sequer como tinham sido no início.

A nossa Salvação não é uma restauração, o inverter da corrupção, da fraqueza ou da mortalidade. O nosso destino não passa por retornar à forma como as coisas foram em tempos, antes de serem sujeitadas à corrupção. Antes, a nossa redenção passa precisamente através da corrupção, através do sofrimento, mesmo através da morte, para aquilo que está além. E este mundo, esta vida, simultaneamente quebrada e preciosa, é a nossa hipótese de aceitar uma parte daquilo que Ele tem para nos oferecer:

Deus está com os homens, com os quais ele viverá. Eles serão os seus povos; o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus. Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou.

Se, pela misericórdia de Deus, algum dia tiver a bênção de habitar na presença do Senhor, não sei se a minha palma direita ainda manterá a cicatriz. Não sei que outras marcas no meu corpo ou na minha alma me acompanharão na próxima vida. Mas sei uma coisa. Se ali estiver, será pela graça daquele que ainda carrega as marcas da sua própria crucificação.

E é esse quem declara: “Eis que eu renovo todas as coisas”.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 12 de Agosto de 2021)

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quarta-feira, 11 de agosto de 2021

O Sacrifício de Abraão

Randall Smith

Os críticos modernos da Bíblia têm dificuldade em aceitar a longa tradição na Igreja de crença em múltiplos sentidos “espirituais” de um texto. Isto não significa que a Escritura pode significar o que quer que nós queiramos. Os vários sentidos “espirituais” – alegórico, moral e anagógico – devem ter bases literais firmes. Mas as lições que aprendemos dos sentidos “espirituais”, especialmente aqueles que compreendemos à luz da vida, morte e ressurreição de Cristo transcendem aquilo que podia ter sido conhecido pelos autores originais.

Enquanto Criador, Deus pode “escrever” na história da humanidade através de eventos humanos. Ele pode transmitir o que quer dizer através de coisas, e não apenas de palavras. Por isso, Deus pode prefigurar o sacrifício de Cristo na Cruz através da sua ordem para que Abraão sacrifique o seu filho Isaac. Reconhecemos, em retrospetiva, que aquilo que Deus não estava disposto a pedir a Abraão – o sacrifício do seu próprio filho – era algo que Ele próprio faria por nós. É por isso que a passagem do “sacrifício” de Isaac (Génesis 22,1-18) faz parte das leituras da liturgia da Vigília Pascal.

O que o autor humano tinha em mente quando incluiu a história nas Escrituras é difícil de saber. Mas numa altura em que o sacrifício humano aos deuses era comum, este autor, inspirado pelo Espírito Santo, provavelmente queria clarificar que Deus não queria este tipo de sacrifício humano. O que Deus deseja é uma conversão interior de coração, não um sacrifício exterior, numa espécie de negócio, em que nós sacrificamos algo nosso para que Deus nos dê o que nós queremos. Não podemos comprar a vontade de Deus sacrificando um touro ou um bode.

De igual forma, se formos tentados a transformar a nossa ida à missa e observâncias religiosas num negócio com Deus – Eu faço X, ou sacrifico Y para que Deus me premeie com Z – então devemos considerar-nos abrangidos pela revolta de Cristo ao ver o templo do seu pai transformado num mercado. Não podemos comprar a vontade de Deus, sobretudo porque tudo o que temos foi-nos dado por Ele. Esta é outra das lições que devemos aprender com a história de Abraão e Isaac. A disponibilidade de Abraão para sacrificar o seu filho demonstra que ele compreende que tudo o que possui, no final de contas, pertence a Deus.

Mas também nos diz algo sobre a fé nas promessas de Deus, embora talvez não seja a lição que alguns comentadores pensem ter encontrado nessa passagem. No Século XVI Martinho Lutero elogiou Abraão pela sua obediência acrítica a Deus – pela “fé cega” demonstrada pela sua recusa de questionar se era certo matar Isaac. No final do Século XVIII, Immanuel Kant defendeu a perspetiva contrária, argumentando que Abraão deveria ter compreendido que uma ordem tão claramente imoral não poderia ter vindo de Deus. Para Lutero, a autoridade divina sobrepõe-se a qualquer posição racional ou moral, enquanto para Kant nada se sobrepõe à lei moral. Este é um debate que continua nos nossos dias.


Mas talvez não seja nada disto que a história tem para nos ensinar. Uma leitura “moral” clássica do texto talvez fosse algo como isto: Não há alturas em que temos mesmo a certeza de que conhecemos a vontade de Deus, quando nos parece evidente que estamos a cumprir os seus desígnios, e depois acontece algo mau? Não conseguimos o emprego que pensávamos ser perfeito para nós, ou perdemos a relação que tínhamos a certeza que Deus queria para nós. Morre um dos nossos pais. Uma pandemia atinge o mundo. “Como é que isto pode ser parte da providência de Deus?”, perguntamos. Encontramos corrupção e abusos na Igreja. “Como é que isto faz parte da promessa de Deus?”

Da mesma forma, Isaac é claramente a promessa que Deus tinha feito a Abraão. Então como é que pode parecer razoável sacrificá-lo? Talvez as palavras de Job sejam as mais adequadas: “O Senhor deu; o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor”. Não somos donos, somos administradores. A qualquer momento o dono da vinha poder voltar para pedir a colheita, ou para exigir os talentos que nos confiou, com juros. Pensamos, “porquê agora?” Perguntamos, como Kant, “a história não faria mais sentido se…?” Mas a história não é nossa. A história é de Deus. E não é irrazoável pensar que Ele a compreende melhor do que nós.

É claro, através dos Evangelhos, que Jesus não é o Messias que as pessoas esperavam. Mesmo o grande São Pedro disse a Deus feito homem (sem perceber a irracionalidade de Dizer ao Deus de Toda a Criação o que devia fazer): “Não podes ir para Jerusalém sacrificar-te na Cruz. Isso não faria sentido. Tens de ir de grande vitória em grande vitória, como eu as entendo”. Mas não era isso que Deus tinha em mente.  

Será irracional pensar que pode haver uma sabedoria maior a trabalhar no mundo do que a nossa? Ou seria irracional partir do princípio que isso não é possível?

Continuaríamos a ter de lidar com a questão de saber se o possuidor de tal sabedoria era benevolente. Mas se eu viesse a reconhecer que este Deus Criador amou de tal forma a humanidade que estava disposto a sacrificar o seu único filho por nós, então a minha disponibilidade para alinhar a minha vontade com a dele não seria uma questão de “fé cega” e obediência inquestionável. Seria o resultado de uma compreensão não desprovida de racionalidade do grande poder e sabedoria de Deus, por um lado, e uma resposta inteiramente sensata ao amor que Deus revelou através da sua disponibilidade para sacrificar o seu Filho, por outro.

Não precisamos de compreender os propósitos de Deus para acreditar que Ele os tem. Na verdade, é precisamente quando as nossas expectativas do que Ele tinha em mente chocam mais diretamente com aquilo que nos acontece que devemos recordar que Ele é Deus. E nós não.


 

Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 11 de Agosto de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Fé de Atleta

Neste último post antes de eu vos dar um merecido descanso para as férias, chamada de atenção para iniciativas da Igreja no Quénia e na Indonésia, a sensibilizar a população para a importância das vacinas.

Há dias publiquei uma curta notícia sobre a falta de assistência religiosa presencial nos Jogos Olímpicos. Ontem, no seguimento, publiquei uma reportagem sobre como essa realidade, bem como a falta de adeptos nas bancadas, pode afetar o desempenho dos atletas. Falei, para o efeito, com um psicólogo do desporto e com um padre que é dirigente de um clube de futebol. Vale bem a pena ler.

Hoje é 6 de Agosto, dia de oração pelos cristãos perseguidos. Não nos esqueçamos destes que sofrem na pele por amor a Cristo.

Pode mainda ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, que fala de uma polémica que abalou o mundo dos media católicos nos Estados Unidos, no final de julho. Um novo órgão de comunicação digital publicou uma reportagem baseada na análise de dados de utilizadores de uma aplicação para encontros homossexuais. Conseguiram determinar que um padre, que era secretário-geral da Conferência Episcopal, era um utilizador assíduo dessa aplicação. O trabalho deixou muitas perguntas e inquietações. Quem pagou os dados? Não sabemos. Tratou-se de um ataque dirigido? Não sabemos. Será este o futuro do jornalismo também no meio católico? No artigo desta semana Stephen P. White aborda esta polémica através de algumas perspetivas que, sendo interessantes, são apenas parte de um problema bastante complexo. Não deixa de ser um bom ponto de partida.

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

O Que é Feito nas Trevas Será Trazido para a Luz

Stephen P. White

Na segunda-feira dia 24 de julho o secretário-geral da Conferência Episcopal dos Estados Unidos (USCCB), monsenhor Jeffrey Burrill, demitiu-se antes da publicação de alegações de que usava frequentemente uma aplicação de engate gay chamado Grindr.

A reportagem que levou a essa demissão surgiu no “The Pillar”, um órgão de comunicação novo, gerido pelo JD Flynn e o Ed Condon. (Advertência: São ambos meus amigos e recentemente escrevi um curto artigo de análise para o “The Pillar”). Quase de imediato o interesse por esta história ultrapassou o meio do jornalismo católico e os repórteres do costume. A história ganhou mais pernas que um polvo.

Existia o problema evidente de um padre num cargo de importância a viver uma vida dupla, em violação das suas promessas de ordenação. Mais, embora não exista qualquer indicação de que o conduto de Burrill envolvesse menores, a aplicação Grindr é conhecida por colocar menores em risco de exploração precisamente porque permite que os utilizadores se mantenham anónimos.

É significativo ainda que, uma vez que o “The Pillar” usou dados de rastreio de telemóvel comprados – mas sem revelar nem a fonte desses dados nem como ficou na posse dos mesmos – a história despertou uma série de polémicas sobre a segurança dos dados e sobre a perspetiva ética de usar estes dados numa reportagem.

Desde a reportagem de segunda-feira, o The Pillar publicou mais duas histórias baseadas no mesmo tipo de dados. Uma a dar conta do uso de aplicações de encontros e de engates em várias casas paroquiais na arquidiocese de Newark, e outra sobre as ameaças de segurança para a Santa Sé por causa do uso dessas aplicações de engate no Vaticano.

Resumindo, o trabalho jornalístico do “The Pillar” irritou muita gente. Desde a Secretaria de Estado do Vaticano à USCCB, passando por gurus de segurança de dados, supostos guardiões da classe jornalística e as vozes do costume das redes sociais católicas que clamam “homofobia” cada vez que se sugere que possa valer a pena falar do problema que é a existência de um vício contranatura entre clérigos.

Nem toda a gente está irritada com o “The Pillar”, como é evidente. A maioria dos católicos “normais” com quem tenho falado acha que o “The Pillar” prestou um serviço à Igreja. E isso indica outra coisa que merece a nossa atenção.

Olhemos para a cronologia dos eventos, como relatado pelo “The Pillar”, que nos dá alguma noção de como os responsáveis da Igreja têm respondido a tudo isto.

Jeffrey Burrill


• Algures durante a semana de 11 a 17 de julho, “O The Pillar abordou responsáveis da USCCB… propondo apresentar aos líderes da Conferência Episcopal informação sobre más práticas de funcionários, durante uma reunião off the record antes de esta ser publicada, permitindo assim à USCCB tempo suficiente para formular a sua resposta”. A reunião foi agendada para dia 19 de julho.

• 17 julho: “O The Pillar reuniu durante mais de 90 minutos com os cardeais Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano e Paolo Ruffini, prefeito do dicastério do Vaticano para as comunicações, para apresentar os seus dados… Concluída a reunião, Ruffini pediu ao ‘The Pillar’ que submetesse questões, que apresentaria ao Parolin para que ele respondesse, e solicitou uma semana para a formulação das respostas, a que o ‘The Pillar’ acedeu”.

• 18 julho: “O ‘The Pillar’ foi informado de que a reunião com altos quadros da USCCB, marcada para segunda-feira, 19 de julho, tinha sido cancelada. Em vez disso foi pedido ao ‘The Pillar’ que submetesse perguntas por escrito e, ainda, que o prazo fosse estendido até terça-feira 20 de julho, a que a publicação acedeu”.

• 19 julho: A “Catholic News Agency (antiga entidade patronal de Flynn e de Condon) “publicou uma notícia sobre possíveis futuras reportagens na imprensa baseadas no uso de dados de sinal de aplicações”.

• 20 julho: Quadros da USCCB ofereceram-se para reunir pessoalmente com o “The Pillar”: “A caminho dessa reunião, o ‘The Pillar’ tomou conhecimento, através da imprensa, da demissão do secretário-geral da USCCB, monsenhor Jeffrey Burrill, devido a ‘notícias pendentes alegando possível comportamento impróprio”.

Tudo somado dá nisto: A análise de dados de aplicações móveis feita pelo “The Pillar” revelou umas coisas muito desagradáveis. Em vez de publicar a informação, o “The Pillar” notificou as autoridades eclesiais relevantes, dando-lhes uma oportunidade razoável para formular uma resposta construtiva, e estendendo o prazo inicial quando isso lhes foi solicitado.

A USCCB ou a Secretaria de Estado (ou ambas) claramente não gostaram do que o “The Pillar” tinha para lhes dizer. A resposta foi empatar, espalhar partes da história a outros órgãos de comunicação mais amigáveis e depois fechar-se em copas. Deixarei aos diretores de comunicação e jornalistas a discussão sobre se esta estratégia é brilhante ou rasca. 

O que é evidente é que esta manobra tinha por objetivo punir e intimidar. A estratégia não passava por impedir que a história fosse publicada – claramente houve fuga de informação para outros órgãos e Burrill demitiu-se antes de o “The Pillar” ter publicado uma só linha – mas sim por infligir o máximo de danos a dois jornalistas católicos que tiveram a audácia de informar os líderes católicos sobre algo que eles não queriam ouvir.

É evidente que existem questões legítimas a colocar em relação à utilização de dados de aplicações por parte do “The Pillar”. Mas quando os líderes eclesiais tratam automaticamente jornalistas como Flynn e Condon – que claramente não estão nas margens – como párias simplesmente por terem revelado verdades inconvenientes sobre pecados clericais, há consequências não intencionais.

Perante as mudanças radicais no panorama dos media católicos, os bispos – e as suas equipas de comunicação, muitas vezes lideradas por leigos – terão de tomar umas decisões estratégicas. Querem uma imprensa católica “domesticada”? Uns media católicos em quem ninguém confia, com as notícias mais difíceis sobre a Igreja a terem de ser dadas por órgãos seculares (ou por procuradores públicos) com um conhecimento limitado de uma Igreja pela qual nada sentem?

E depois existe o espetro de uma franja de meios de comunicação católicos cada vez mais venenosa, que cresce na medida inversa à da credibilidade e transparência dos bispos, sobretudo no que diz respeito a questões de más práticas sexuais e de abusos por parte do clero. Bispos que lamentam o crescimento dessa franja e a sua influência sobre os seus rebanhos fariam bem em lembrar-se do que a alimenta.

A restauração da credibilidade episcopal vai exigir um grau de responsabilização e transparência que poderão ser dolorosos e, por vezes, até humilhantes. E nesse sentido jornalistas católicos independentes como Flynn e Condon não são o inimigo da Igreja, pelo contrário, são alguns dos seus mais importantes aliados.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 29 de Julho de 2021)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing


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