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Friday, 29 September 2023

Tragédia para cristãos no Iraque e Nossa Senhora do Rugby

Começo com uma tristíssima notícia. Mais de cem pessoas terão morrido num incêndio que deflagrou durante a festa de um casamento, no norte do Iraque. Porque é que esta notícia diz respeito à Actualidade Religiosa? Porque atingiu precisamente a já frágil e sofredora comunidade cristã daquele país, embora a maioria dos órgãos de comunicação social – certamente por ignorância e não por preconceito – não o tenham referido. Aqui explico porque é que este é mais um golpe duro para os cristãos iraquianos.

É já no sábado o consistório que elevará D. Américo Aguiar a cardeal. Em princípio eu estarei na SIC Notícias de manhã para comentar o assunto, e sairá um artigo no Expresso sobre o Colégio dos Cardeais depois desta nova remessa criada por Francisco, fiquem atentos e para a semana envio links. Entretanto, o novo bispo de Setúbal deu uma entrevista em que faz um balanço da JMJ.

Infelizmente, as minhas previsões sobre a tragédia humanitária e limpeza étnica em Nagorno Karabakh estão a realizar-se. Mais de metade da população arménia daquele enclave já se refugiou na Arménia propriamente dita. É o fim de uma cultura milenar, num dos berços e últimos redutos do Cristianismo na região do Cáucaso.

A selecção portuguesa de rugby está a entusiasmar e domingo tem um novo teste de fogo contra uma Austrália aparentemente enfraquecida. O rugby é o tema do meu mais recente artigo no The Pillar. Mas o que é que o rugby tem a ver com religião, perguntam? Pois perguntam muito bem. Talvez Nossa Senhora do Rugby possa esclarecer.

O caso do Pe Rupnik continua a dar que falar e agora tem uma nova dimensão portuguesa. Saibam tudo aqui.

E o Papa esteve em Marselha para uma visita relâmpago, onde falou sobretudo da importância de tratar os migrantes como pessoas plenas de dignidade.  

E não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing em que Stephen White explica porque é que um dos grandes problemas da nossa sociedade é o facto de termos perdido a noção do pecado.

Friday, 22 September 2023

D. Américo em Setúbal e Adeus Nagorno Karabakh

Acaba de ser anunciada oficialmente a nomeação de D. Américo Aguiar para bispo de Setúbal. Aqui encontram a minha análise a esta nomeação, e aqui podem ver o novo brasão do futuro cardeal.

As autoridades de Nagorno Karabakh apresentaram ontem a sua rendição às forças do Azerbaijão que sitiavam o território há meses e que nos últimos dias lançaram ataques em larga escala. Salvam-se assim muitas vidas, que sem dúvida se perderiam se a guerra continuasse, mas a perda em termos de património histórico e cultural é incalculável. Este é um tema que me é caro porque eu já estive em Nagorno Karabakh. Andei pelas trincheiras que agora foram ocupadas, visitei monumentos que agora muito provavelmente serão destruídos, conheci pessoas que estão agora a ver se conseguem fugir. Neste texto tentei retratar um pouco do que se está a passar, explicando, por exemplo, porque é que isto é uma derrota também para a Rússia e até, de certa forma, para o Vaticano.

De Moçambique chega a notícia de mais um massacre de cristãos na província de Cabo Delgado.

E por tudo isto, pela Ucrânia, por Nagorno Karabakh, por Moçambique e tantos outros sítios onde as armas não se calam e o ódio move as pessoas, devemos unir-nos mais uma vez à iniciativa da fundação Ajuda à Igreja que Sofre de pôr um milhão de crianças a rezar o terço, no dia 18 de Outubro. Todos os anos chega-se um pouco mais perto desse número. Desafie os seus filhos, netos e amigos. Toda a informação aqui.

Não percam ainda o artigo desta semana do The Catholic Thing, no qual Francis X. Maier nos desafia a desligar-nos um pouco mais das redes, libertando-nos da dependência da tecnologia que nos rodeia. Tomem o comprimido encarnado.

Thursday, 21 September 2023

D. Américo nomeado bispo de Setúbal


Foi hoje anunciada oficialmente a nomeação de D. Américo Aguiar para bispo de Setúbal. Chegam assim ao fim duas sagas: a de saber para onde iria, afinal de contas, o futuro cardeal, e a da diocese de Setúbal, que está sem pastor há mais de 600 dias.

Podemos pensar num bispo como uma mera figura de proa para um sistema bastante bem montado, e que até pode funcionar sozinho – afinal de contas, Setúbal está há quase dois anos com um administrador apostólico em vez de um bispo e as coisas vão andando – mas isso seria um terrível erro. Ou pelo menos devia ser.

Um bispo faz muita falta a uma diocese, como ponto de referência para os seus fiéis e, sobretudo, como ponto de referência e de concórdia para os seus padres. Faz falta quem determine um rumo; faz falta quem congregue as ovelhas, que de outro modo tendem a dispersar.

Sem ir mais longe, reparemos que Setúbal esteve sem bispo durante todo este tempo em que a Igreja teve de enfrentar a crise dos abusos sexuais, quando mais era preciso haver vozes firmes para conduzir uma Igreja local ferida, magoada, revoltada e com medo. Quando mais era preciso colocar alguma ordem, precisamente nesse assunto, cujo tratamento em Setúbal tem deixado muito a desejar.

Também por todas as razões elencadas acima, não basta uma diocese ter um bispo, tem de ser um bom bispo. Um bispo que não seja apenas um burocrata. Setúbal, depois de tudo o que passou, merece um bispo activo, capaz e comprometido com o seu rebanho.

D. Américo tem potencial para fazer um bom trabalho em Setúbal e para ser essa figura, e assim espero que seja.

É verdade que ele não é a pessoa mais consensual do mundo, mas há boas razões para pensar que as dificuldades que sentiu em Lisboa não se repetirão na sua nova diocese.

D. Américo entrou em Lisboa como o braço direito de D. Manuel Clemente, que trabalhou com ele quando foi bispo do Porto. Ao contrário de D. Manuel, que regressava a uma casa onde era já conhecido e estimado, o então Padre Américo vinha de fora com aura de protegido e com atitude de cão de guarda do pastor (o termo é dele, e não meu). Isso não caiu bem entre muito do clero lisboeta.

Desde cedo começou a coleccionar cargos. Desde presidente do Conselho de Administração da Renascença – uma máquina influente e enorme, mas fragilizada e a precisar de reformas corajosas e urgentes – a homem de ponta para lidar com a crise dos abusos e, mais tarde, arquitecto daquele que foi simplesmente o maior evento que Portugal alguma vez recebeu, e alguma vez receberá.

Entretanto foi nomeado bispo auxiliar de Lisboa. Bispo auxiliar é um cargo complicado, não é carne, nem é peixe. É bispo, certo, mas não é a cabeça da diocese, nem é visto como tal pelo clero. Sei que muitos padres ficaram desagradados com a forma como ele exerceu esse cargo, nomeadamente na relação com o clero, agindo como seu superior – que era, hierarquicamente – o que foi interpretado por alguns como uma usurpação da autoridade do Patriarca.

Agora D. Américo não terá esse problema. É ele o pastor de Setúbal e espera-se mesmo que se comporte como tal. Sobretudo porque Setúbal precisa urgentemente de alguém que ponha ordem na diocese e consiga resolver problemas complicados, incluindo financeiros, que ela enfrenta. D. Américo pode ter muitos defeitos, mas é um homem de acção e que gosta de ter a “mão na massa”, o que aqui será um enorme benefício.

O novo bispo de Setúbal chega “em alta”, tendo sido a face do enorme sucesso que foi a Jornada Mundial da Juventude e entrará oficialmente na diocese já como cardeal, o que não deixa de constituir uma enorme honra para uma diocese que tem menos de 50 anos. 

Todos os caminhos iam dar a Roma…

O que nos leva à segunda questão. Então e Roma?

Durante meses era dado como certo que D. Américo estaria a caminho de um cargo na cúria romana, a pedido específico do Papa Francisco. O que é que terá acontecido? Não sei, mas não se pode excluir que o próprio D. Américo tenha preferido ficar em Portugal, numa diocese onde pode desenvolver uma acção mais directa e no terreno, do que num gabinete no Vaticano. Se assim for é bom sinal, pois revela ausência de carreirismo.

Pode ter contribuído para isso o facto de o futuro cardeal não dominar línguas estrangeiras, nomeadamente o italiano, que é essencial para conseguir trabalhar em Roma.

O que espero, sinceramente, é que D. Américo não esteja a prazo em Setúbal. Não digo que tenha de lá ficar a cumprir o mandato até aos 75 anos, mas pelo menos tempo suficiente para traçar um plano de acção e o concretizar, tempo para lançar raízes e deixar trabalho feito. A passagem relâmpago de D. José Ornelas não deixou especiais saudades aos setubalenses e a última coisa de que precisam é de um bispo que dê ares de estar simplesmente a pousar antes de partir para voos mais altos.

D. Américo é novo, só faz 50 anos em Dezembro. Tem mais que tempo, ainda, para fazer um bom trabalho na sua nova diocese. E o facto de ser cardeal significa que certamente terá também cargos em Roma que o obriguem a viajar e a pôr a render os talentos que Francisco reconheceu nele.

Friday, 21 July 2023

De Tuvalu a Lisboa são duas semanas de distância

Faltam duas semanas para a JMJ, certo? Bom, para alguns peregrinos não. Já há malta a caminho de Portugal, nomeadamente malta que vem de longe. Conheçam aqui alguns dos grupos que já estão a calcar terreno, incluindo os representantes de Tuvalu e Vanuatu!

Sabemos que o Patriarca tem o sonho de trazer representantes de todo o mundo a Portugal para a JMJ, mas será possível? Há países onde as dificuldades ultrapassam a distância e o dinheiro. Os sírios e os libaneses, por exemplo, estão mergulhados em profundas crises e Portugal hesita em dar-lhes vistos, com medo de que depois não queiram regressar. A fundação AIS está por isso a financiar encontros nos países deles para estarem em comunhão com os jovens que cá vão estar.

O futuro cardeal D. Américo Aguiar esteve durante a semana passada na Ucrânia, para levar um pouco do espírito da JMJ a quem, por causa da guerra, não pode vir a Portugal. O bispo explicou ainda que não haverá nenhum momento simbólico para tentar juntar peregrinos russos e ucranianos durante o evento cá, evitando assim o que poderia ser mais um incidente diplomático.

Ainda no tópico da JMJ, na semana passada fiz um post em que D. Américo explicava a sua frase polémica sobre não querer converter jovens na JMJ a Cristo. Acompanhei essa explicação do meu próprio comentário, em que apontava o facto de alguns grupos terem divulgado a sua frase inicial, interpretando-o da pior forma possível. Pedi que deixássemos de o fazer, para evitar a polarização na Igreja. Acontece é que também referi que esses grupos eram na maioria conservadores e tradicionalistas, pelo que algumas pessoas acusaram-me a mim de estar a contribuir para a mesma polarização que lamentava. Terão razão? Pensei no assunto ao longo destes dias, e fiz esta reflexão.

Há novidades no que diz respeito aos abusos em Portugal, com o arquivamento de mais alguns casos e informações novas relativas a um dos padres de Lisboa que está provisoriamente afastado do ministério. Mais tarde, provavelmente depois da JMJ, vou voltar a aprofundar este assunto e fazer um ponto de situação, mas por enquanto podem acompanhar as novidades na cronologia.

O artigo desta semana do The Catholic Thing é de Stephen P. White, que fala de como 50 anos de Comunismo deturparam a cultura e os hábitos na Europa de Leste, mas pergunta no Ocidente estamos muito melhor. Vale a pena ler, como sempre.

Friday, 14 July 2023

Portugal na Pole Position com Américo Aguiar

Esta semana começou com uma notícia estrondosa, logo seguida de uma pequena polémica. Ambas ainda dão que falar.

A notícia estrondosa e surpreendente foi a de que D. Américo Aguiar vai ser elevado a Cardeal pelo Papa Francisco no próximo consistório. Escrevi um artigo no blog para tentar decifrar a notícia e as suas implicações, e depois fui convidado pelo Expresso para fazer uma versão um pouco mais elaborada e completa para publicar no site desse jornal. O artigo no Expresso está aqui, mas é só para assinantes. Em todo o caso, o essencial do texto está no blog.

Entretanto surgiu a polémica. Numa entrevista à RTP, dias antes de se saber da nomeação, D. Américo disse, a propósito da JMJ, “não queremos converter os jovens a Cristo”. A frase tornou-se viral, sobretudo em certos meios das redes sociais, mas também no estrangeiro.

Ora, eu consegui falar com D. Américo e pedi-lhe um esclarecimento sobre essa frase. Podem encontrar aqui o seu esclarecimento e o meu comentário. Uns ficaram satisfeitos com a explicação, outros não. A vida é mesmo assim. Mas leiam e decidam por vocês.

A conversa que tive com D. Américo serviu também para complementar um perfil que escrevi sobre ele para o The Pillar, em inglês, que podem encontrar aqui.

Também no The Pillar publiquei, na semana passada, um artigo sobre Goa. O governador daquele estado tem dito que chegou a altura de apagar os traços portugueses da região. Como disse um historiador de ascendência goesa com quem falei, isso implicaria demolir toda a cidade velha, e deportar uma boa parte da população. Naturalmente os goeses de ascendência portuguesa estão nervosos. Leiam, que vale bem a pena conhecer esta história.

Também este mês foi publicado um artigo meu sobre a questão dos abusos sexuais na Igreja em Portugal, nomeadamente sobre o trabalho da Comissão Independente, e tudo o que se lhe seguiu. Está na Brotéria, que não tem edição online, mas se tiverem oportunidade de comprar a revista de Julho leiam-no também.

Por fim, esta semana o artigo do The Catholic Thing é diferente do habitual. Brad Miner faz a recensão de um filme que acaba de estrear e que fala do terrível mundo do tráfico de crianças para escravatura sexual. Não é uma leitura propriamente agradável, mas são realidades que devemos conhecer, nem que seja para rezar, muito, pelas vítimas.

Wednesday, 12 July 2023

"Há quatro anos que falamos de Cristo Vivo. Se não querem ouvir, não ouçam"


Ontem tive a oportunidade de fazer uma curta entrevista a D. Américo Aguiar, e pude perguntar-lhe directamente sobre a polémica frase que disse em entrevista à RTP, há dias, quando referiu que "Não queremos converter os jovens a Cristo". 

Transcrevo primeiro a sua resposta, na íntegra, e depois farei os meus próprios comentários.

A Jornada Mundial da Juventude é um convite para todos, desde sempre. Os Papas convidam os jovens do mundo inteiro a encontrarem-se uns com os outros, a encontrarem-se com o Papa e a viverem uma experiência de Deus. Um encontro com Cristo Vivo. É isso que queremos que aconteça, e é isso que eu sublinho. 

E que cada um regressando à sua realidade, ao seu país, à sua vida, à sua circunstância, tenha um desejo maior de conversão, de ser melhor pessoa, tomar decisões na sua vida; na área vocacional; na sua família; no seu trabalho; nos seus projectos; marcados com a experiência de terem encontrado estes jovens que querem dar testemunho de Cristo Vivo. 

Não entendo a jornada como uma oportunidade ou um evento de proselitismo proactivo para converter tudo e todos os que porventura venham ao encontro da Jornada, nem é essa a leitura que alguma vez foi feita por ninguém. 

Eu compreendo que o isolamento da frase da entrevista, como está, pode gerar perplexidade e erro de leitura. Mas a JMJ é repetidamente um convite dos Santos Padres a todos, uma oportunidade de nos conhecermos todos, de olharmos para aquilo que é a diversidade como uma riqueza, de nos conhecermos, a alegria de dar testemunho de Cristo Vivo. 

Temos dito isto há quatro anos, até à exaustão. Dar testemunho de Cristo Vivo, um encontro com Cristo Vivo, Cristo Vivo, Cristo Vivo. Se não querem ouvir, não ouçam. 

Agora o meu comentário. A frase foi infeliz, sim. Mas é preciso uma certa má vontade para a interpretar da pior maneira possível, como aconteceu, sobretudo por parte de alas mais conservadoras ou tradicionalistas. 

Claramente, o que D. Américo quer dizer é que os participantes na JMJ não estão lá com um espírito proselitista, estilo Testemunhas de Jeová, e que todos se devem sentir bem-vindos, pois não se trata de um encontro de católicos para católicos, mas para todos. Naturalmente, um participante na JMJ que não seja católico, ou sequer cristão, sentir-se-á interpelado e fascinado pelo espírito do encontro e procurará saber a razão dessa alegria. Essa busca poderá conduzí-lo a Cristo, mas isso não será uma imposição. 

Se esta resposta de D. Américo não satisfaz os mais cépticos, então sugiro que se recordem de que se o futuro cardeal está onde está, é porque foi "apadrinhado" por D. Manuel Clemente. E se o Patriarca de Lisboa tem os seus defeitos, como temos todos, a falta de ortodoxia e de espiritualidade não está entre eles. 

A ideia de que D. Manuel Clemente teria escolhido a dedo o actual D. Américo para ser seu braço direito primeiro no Porto e depois em Lisboa, e que tenha conseguido que ele fosse nomeado bispo auxiliar no Patriarcado sem ter a certeza de que ele é um homem de Deus e um fiel filho da Igreja, é absurda. 

Todos sabemos que a Igreja está polarizada, como está a sociedade. Podemos alimentar isso, ou podemos agir como irmãos e dar ao outro o benefício da dúvida em situações que podem dar aso a incompreensões. Julgo que essa é uma obrigação que temos enquanto cristãos e pessoas civilizadas. 

Leia também: Decifrando a nomeação de D. Américo a Cardeal

Monday, 10 July 2023

Decifrando a elevação de D. Américo a Cardeal

[Uma versão mais extensa e detalhada deste artigo foi publicada entretanto no Expresso]

Os jornalistas adoram dizer que já sabiam que as coisas iam acontecer, fortalecendo assim as suas credenciais de especialistas em certas matérias. Pois, da minha parte, posso dizer que fui apanhado totalmente na curva pela escolha de D. Américo Aguiar para cardeal.

Contudo, consumada a decisão do Papa, podemos tentar analisar e contextualizar.

Lisboa ou Roma?

Ao ouvir o anúncio, muitas pessoas assumiram que com este gesto o Papa está já a dar um sinal de quem vai suceder a D. Manuel Clemente como Patriarca de Lisboa. Aliás, faria mais que sentido. D. Américo é o “delfim” de D. Manuel. O actual Patriarca fez questão de o trazer do Porto, onde já tinham trabalhado juntos e onde D. Américo se tornou o seu braço direito; conseguiu que ele fosse nomeado bispo auxiliar de Lisboa e durante muito tempo pareceu um dado assente que D. Américo seria o sucessor designado.

Contudo, e com base nas informações que tenho até ao momento, esse cenário de D. Américo ser o próximo Patriarca de Lisboa está posto de parte. Tanto quanto sei, o seu nome nem consta da actual terna – a lista de três hipóteses elaborada pelo Dicastério para os Bispos, com o precioso auxílio da nunciatura – que vai ser apresentada ao Papa para ele escolher. Não que isso tenha impedido o Papa, no passado, de fazer as suas próprias escolhas… Contudo, neste caso, parece-me claro que D. Américo não será o próximo Patriarca.

Sendo assim, também é muito pouco provável que Francisco tenha criado D. Américo cardeal para o enviar para outra diocese em Portugal. (O Porto faria algum sentido, sendo a sua diocese de origem, e nos piores momentos da crise dos abusos em Portugal ainda me ocorreu que D. Manuel Linda fosse retirado de lá, mas, entretanto, recebeu novos auxiliares, pelo que deve estar para continuar por lá.) De resto, não vejo o Papa a enviar D. Américo para Setúbal, ou para a Guarda, nem a permanecer em Lisboa como auxiliar depois da saída de D. Manuel, pelo que presumo que a sua próxima paragem seja Roma. A confirmar-se o sucesso da JMJ, faria sentido ele ficar mais permanentemente ligado à organização destes eventos, ou outros do género. Tenho ouvido dizer que Francisco quer imprimir às JMJ um estilo diferente, mais ecuménico, e D. Américo pode ser o homem que pretende para executar isso.

Mas mesmo a decisão de arranjar um cargo para ele em Roma não explica a nomeação cardinalícia, pois uma das marcas do pontificado de Francisco é precisamente que já não existem postos que obrigam à nomeação cardinalícia. Daí que se há uma coisa de que podemos ter a certeza é de que esta decisão do Papa Francisco é um sinal de estima pessoal e um voto de confiança em D. Américo.

Subida meteórica

No meio disto tudo, convém não esquecer que D. Américo ainda não tem 50 anos e que, ainda por cima, a sua foi uma vocação tardia, tendo sido ordenado padre “apenas” aos 27 anos. Ou seja, em 22 anos ele passou de padre recém-ordenado a Cardeal, e tem agora 30 anos como cardeal eleitor, podendo por isso escolher os próximos Papas. Isto não significa que D. Américo seja “papabile”, parece-me muito prematuro falar de tais hipóteses, mas a confirmar-se a sua ida para Roma, e conhecendo o jeito para política, é de esperar que ele venha a desempenhar um papel importante em futuros conclaves, que serão quase certamente mais que um.  

Uma fartura de Cardeais portugueses

O aumento do número de cardeais portugueses durante o pontificado do Papa Francisco é incrível, sobretudo se tivermos em conta que neste pontificado Francisco tem feito questão de escolher cardeais das zonas mais variadas, em detrimento dos países do “velho mundo” católico.

A partir do momento em que D. Américo for elevado ao cardinalato teremos quatro eleitores, durante pelo menos os próximos quatro anos, mas esse número até pode aumentar. Caso D. Américo vá para Roma, o próximo Patriarca de Lisboa deve, segundo a bula “Inter praecipuas apostolici ministerii”, de Clemente XII, de 1737, ser elevado ao cardinalato logo no primeiro consistório a seguir à sua nomeação. É verdade que o Papa está acima das próprias bulas, e no caso de D. Manuel Clemente a elevação foi feita não no primeiro, mas no segundo consistório, já depois de D. José Policarpo ter morrido.

Aqui entram em conflito diferentes tradições e regras. Por um lado, a tal bula, e por outro o costume de não nomear cardeal um arcebispo (neste caso Patriarca) enquanto o seu antecessor ainda for eleitor. Mas a bula tem mais peso do que os costumes, embora nem uma nem os outros obriguem o Papa a nada.

Por enquanto, podemos contar pelo menos com quatro cardeais eleitores, e dois não eleitores. Ora, vejamos isto à luz da actual realidade de países comparáveis com Portugal:

  • A Irlanda, por exemplo, não tem um novo cardeal desde 2007.
  • A Austrália, há 20 anos.
  • Espanha tem, neste momento 12 cardeais, o dobro de Portugal, e vai ter mais dois, nomeados com D. Américo. Eleitores, tem seis e vai passar para oito, também o dobro. Mas Espanha tem quase cinco vezes mais população que Portugal, portanto em proporção pode-se dizer que Portugal tem mais cardeais do que Espanha.
  • A Áustria e a Bélgica têm uma população comparável com a de Portugal e tem apenas um cardeal cada, que é eleitor.
  • O Brasil tem oito cardeais, seis dos quais eleitores, e tem uma população 21 vezes maior que Portugal.
  • Portugal passa a ter mais dois cardeais que o Canadá, e o mesmo número de eleitores, tendo o Canadá quatro vezes mais pessoas que Portugal.

Enfim, percebem a ideia.

Se juntarmos a isto o facto de Portugal estar prestes a receber a segunda visita do Papa Francisco, quando países como Espanha não receberam nenhum, percebemos que Portugal tem tido um tratamento contracorrente neste pontificado, o que é muito interessante.

Thursday, 1 June 2023

Crise de bispos em Portugal

Ao longo da última semana foram nomeados dois bispos auxiliares para o Porto. São nomeações muito importantes, porque embora o Porto estivesse com dois bispos auxiliares, D. Pio Alves, já tinha ultrapassado há muito a idade de resignação, que foi finalmente aceite.

Para além disso, D. Manuel Linda, o actual bispo do Porto, está numa situação bastante fragilizada pela forma como tem estado a lidar com a questão dos abusos na sua diocese. Recorde-se que na lista que a Comissão Independente fez chegar à diocese do Porto constavam os nomes de sete padres no activo. Três foram provisoriamente afastados de funções enquanto decorre a investigação prévia, mas os outros quatro não, embora os seus processos também tenham sido entregues a Roma. Esta diferença de tratamento nunca foi explicada e, tanto quanto eu consegui apurar não parece ter havido grande critério. D. Manuel Linda tem 67 anos, ou seja, está a oito anos da idade de resignação. Caso esteja para ficar no Porto até ao final, precisa de ajuda e apoio para poder cumprir as suas funções. Deus queira que os novos bispos auxiliares, Joaquim Dionísio e Roberto Mariz, possam dar esse apoio.

Mas as nomeações para o Porto eram apenas duas das muitas que faltavam em Portugal. Vejamos algumas das outras situações.

Setúbal – A longa espera

A situação da Diocese de Setúbal é verdadeiramente lamentável. Há quase um ano e meio que D. José Ornelas deixou a diocese para assumir Leiria-Fátima, e desde então Setúbal está sem timoneiro. É certo que tem um administrador apostólico, mas não é a mesma coisa. Os padres precisam de um bispo como referência e os leigos precisam de um pastor que os reúna e confirme na fé. A sensação entre os católicos – clero e leigos – de Setúbal é de abandono e isso é uma grande pena.

Auxiliares

Setúbal é a única diocese sem bispo diocesano, desde que D. Nuno Almeida passou de auxiliar de Braga para bispo de Bragança, que também estava sem bispo há mais de um ano. Mas essa passagem de D. Nuno Almeida para Bragança deixou Braga sem auxiliar e Lisboa também tem menos um auxiliar do que é normal, desde a morte prematura de D. Daniel.

Resignações à porta

Mas essa é a contagem mais conservadora… Porque realisticamente Lisboa vai precisar ainda de outro auxiliar para substituir D. Joaquim Mendes, que tem já 75 anos e por isso já submeteu o seu pedido de resignação e muito provavelmente precisará de outro para substituir D. Américo Aguiar que dificilmente se manterá como auxiliar muito mais tempo.

E, por fim, há uma série de bispos diocesanos que também estão à beira da idade da resignação, ou então já a ultrapassaram. Para começar, D. Manuel Clemente. O Patriarca de Lisboa faz 75 anos em Julho. Seria normal, noutras circunstâncias, o Papa adiar a aceitação da resignação de um arcebispo até aos 77 anos, ou mesmo mais, mas neste caso D. Manuel nunca escondeu o facto de não estar bem de saúde e de estar muito cansado, e até disse na Missa Crismal deste ano que seria a última vez que celebra enquanto Patriarca, por isso está claramente de saída. É evidente que, em condições normais, não haverá nomeação antes da Jornada Mundial da Juventude, mas o processo já está a andar e por isso não deve tardar vir um novo Patriarca para Lisboa.

(Isso levantará outra questão, que é o facto de D. Manuel Clemente ainda ter mais cinco anos como cardeal eleitor, o que deverá atrasar a elevação a cardeal do seu sucessor, não obstante a existência de uma bula que estipula que o novo Patriarca de Lisboa seja feito cardeal no primeiro consistório depois da sua eleição, o que já foi ignorado no caso de D. Manuel).

Bem vistas as coisas, portanto, Lisboa deverá contar, num futuro relativamente próximo, com um novo Patriarca e de três bispos auxiliares, sendo que a primeira nomeação a ser conhecida deverá ser a do Patriarca, que depois terá uma palavra importante a dizer na escolha dos seus auxiliares.

Temos ainda o caso do bispo de Beja, D. João Marcos, que tem apenas 73 anos, mas está com problemas de saúde e já pediu ao Papa que aceite a sua resignação antecipada.

E D. Manuel Felício, bispo da Guarda, já atingiu os 75 e por isso também já submeteu a sua resignação. E o bispo de Portalegre-Castelo Branco, D. Antonino Dias, faz 75 anos no final deste ano.

Feitas as contas, entre as posições vacantes e as que estão prestes a ficar vacantes, Portugal está a precisar de 9 bispos num futuro imediato, ou dez se incluirmos D. Manuel Quintas, bispo do Algarve, que faz 75 em Agosto de 2024.

Porquê a demora na nomeação de substitutos? Bom, a razão mais evidente é que as nomeações vêm todas de Roma e Roma tem muito com que se preocupar. Como estão estas dioceses vacantes ou a vagar em Portugal, há largas centenas no resto do mundo e todas elas precisam de atenção.

Mas poderá ser mais que isso. Constou-me que em algumas situações os padres abordados para serem nomeados bispos têm recusado. Não sei de casos particulares, portanto não quero generalizar, mas essas recusas podem ter vários fundamentos. É evidente que nalguns casos pode ser por genuína humildade, o padre pode sentir que não é capaz de desempenhar bem esse cargo; pode ser por medo, e basta ver em Portugal a porrada, por assim dizer, que os bispos têm levado nos últimos meses para entender que poucos cobiçam estar nessa posição; e por fim, infelizmente, nalguns casos pode ser porque o candidato aspira a mais do que ser apenas bispos de uma diocese perdida no interior, preferindo uma outra diocese mais movimentada e com outras perspectivas de “carreira”. Se for este último caso, então talvez devamos agradecer as recusas, porque aquilo de que menos precisamos são de pastores que escolhem as suas ovelhas consoante o prestígio que delas podem retirar.

Aos padres que me lêem, caso recebam essa chamada, lembrem-se que a função não é para vocês, é para o resto da Igreja, e sem me querer intrometer no vosso discernimento e nas vossas orações, peço-vos a coragem de dizer que sim e de não deixar os rebanhos sem pastor por demasiado tempo, não vão elas começar a tresmalhar.


Wednesday, 29 January 2020

Coronavírus e ecumenismo

Estamos satisfeitos com a educação que damos nas nossas universidades? Nomeadamente na área das artes liberais? São cada vez mais as pessoas que questionam o modelo de ensino. No artigo desta semana do The Catholic Thing em português o professor universitário Randall Smith sugere que toda a gente aprenda um ofício, como por exemplo canalizador ou electricista, ao mesmo tempo que tira o curso.


O Patriarcado de Lisboa recebeu centenas de candidaturas para o concurso de hino e logotipo das JMJ 2022.

No sábado passado viveu-se o final do oitavário de oração pela unidade dos cristãos. Como é que se vive o diálogo ecuménico num país em que os cristãos são apenas 1,2% da população total? Foi esse o tema da minha conversa com Sebastian Shaw, arcebispo de Lahore, no Paquistão.


Tuesday, 2 April 2019

Dois Franciscos e uma exortação

Beata Chiara Badano, um exemplo de santidade
Saiu hoje a exortação apostólica do Papa sobre os jovens. O Papa diz que quer uma Igreja capaz de chorar com os jovens e em que os jovens sejam capazes de ajudar a Igreja a ser mais santa.

Conheça aqui as três verdades que o Papa quer revelar aos jovens – e que no meu entender são o coração deste documento – e aqui pode ver os jovens que o Papa apresenta como exemplos de santidade.

Francisco quer ainda os jovens comprometidos com a pastoral juvenil e pede que estes “não se deixem enganar”. Por fim, pode ler aqui dez citações da exortação.

Tudo isto dias depois de Francisco ter voltado de Marrocos. Aura Miguel acompanhou a viagem e escreveu esta crónica sobre “os dois Franciscos”, que devem ler. No voo de volta para Roma, o Papa voltou a criticar amentalidade dos muros.

Durante o fim-de-semana houve ainda a ordenação episcopal de D. Américo Aguiar e, no final da semana passada, Francisco esclareceu a “grande polémica” de não ter deixado algumas pessoas beijar-lhe o anel…

Friday, 1 March 2019

Américo, o auxiliar

Lisboa tem um novo bispo auxiliar. Por acaso é o meu chefe. O Papa nomeou esta sexta-feira o padre Américo Aguiar para ocupar essa função. O agora D. Américo deixou uma mensagem para Lisboa, dirigida especialmente aos jovens, e outra para o Porto, de onde é natural. Em entrevista à Renascença o novo bispo falou da importância de se monitorizar os media, a bem da democracia.

D. Manuel Clemente elogia as “grandes qualidades” do novo bispo e o presidente Marcelo Rebelo de Sousa acha que ele será um bispo “muito completo”. Até o presidente da Câmara de Lisboa fez questão de saudar a “renovação geracional” que a escolha representa.

Uma das obras mais próximas do coração de D. Américo é a Irmandade da Torre dos Clérigos, cujo restauro ele supervisionou e que muitos dos que comentaram a sua escolha destacaram.

Mudando radicalmente de assunto, os padres portugueses sagraram-se novamente campeões europeus de futsal. A sério malta, já podiam começar a dar oportunidades aos outros…

E já começaram a sair as mensagens de Quaresma! Conheça aqui a do seu bispo, caso já tenha sido divulgada.

Deixo-vos ainda com esta entrevista ao Joaquim Galvão, que quer implementar o dia do Perdão e da Reconciliação, a 1 de Março. Uma excelente iniciativa.


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