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Wednesday, 17 August 2022

No Centenário da Vocação da Madre Teresa

Ines A. Marzaku

Em muitos países, para além de procissões coloridas, festivais e fogo de artifício para assinalar a solenidade da Assunção de Nossa Senhora – ou Dormição – existe também a antiga tradição de benzer a colheita do verão, e agradecer a Deus a sua abundância. Na Alemanha a bênção das especiarias aponta especificamente para a abundância que Maria produziu e recebeu em Cristo. Como Isaías tinha profetizado: “Um renovo sairá do tronco de Jessé, e um rebento brotará de suas raízes” (Isaías 11,1).

Maria foi a primeira discípula de Jesus, a serva do Senhor (Lucas 1,38), e depois de Maria brotou uma abundância de discípulos – incluindo madre Teresa de Calcutá, que tinha com Nossa Senhora uma ligação muito especial. A sua vocação religiosa, que recebeu neste dia* há precisamente 100 anos, na Solenidade da Assunção, foi um dom especial de Maria e provou ser muito fecundo.

Na tarde de 15 de Agosto de 1922, quando Gonxhe Bojaxhiu (o seu nome civil) estava em oração profunda, ajoelhada diante da imagem de Nossa Senhora com o Menino Jesus, a menina de 12 anos sentiu pela primeira vez que o Senhor a chamava de forma especial. Ela devia ser consagrada a Ele. Foi por isso em Letnicë, perto de Skopje, enquanto rezava ferverosamente no santuário de Nossa Senhora, que começou a caminhada religiosa da futura Santa Madre Teresa.

As famílias católicas de Skopje, em que se incluíam os Bojaxhius, tinham uma devoção especial a Nossa Senhora de Letnicë, no Kosovo. Em Agosto, durante a celebração da Solenidade da Assunção, os Bojaxhius faziam a sua peregrinação anual ao Santuário de Nossa Senhora de Letnicë, uma imponente igreja caiada, num lugarejo entre as montanhas. Os peregrinos caminhavam a pé, em grupos, rezando e cantando pelo caminho.

Segundo a tradição local, a imagem da Virgem Negra de Letnicë, que tem 700 anos, viajou miraculosamente de Skopje (onde nasceu a Madre Teresa), atravessou as montanhas Karadak e chegou à igreja de Letnicë. A lenda diz que a imagem foi encontrada por residentes locais, escondida debaixo de uma grande árvore, e assim foi salva de ser profanada pelos muçulmanos.

Tal era a veneração à Virgem Negra que ninguém – nem mesmo os muçulmanos que governaram o país durante quase 500 anos – podia tocá-la ou retirar as ofertas que as pessoas lhe levavam ao santuário.

Nossa Senhora apareceu três vezes em Letnicë, pedindo aos fiéis que construíssem um santuário. Ortodoxos, muçulmanos, sérvios, croatas, albaneses e ciganos, todos veneraram a Virgem Negra de Letnicë ao longo dos séculos, e o santuário continua a ser uma ponte e um local de união, encontro e diálogo entre pessoas de diferentes etnias e religiões.

A Virgem Negra de Letnicë é a única do género nos Balcãs, embora existam mais de 450 Virgens Negras que são veneradas em igrejas em França, na Croácia, Eslovénia, Áustria, Polónia, Equador, Lituânia e Espanha, entre outros.

A devoção de Gonxhe por Nossa Senhora era profunda. Ainda criança, em Skopje, tornou-se membro da Congregação de Maria, um grupo de jovens da sua paróquia, criada por jesuítas croatas e inspirado na devoção ao Sagrado Coração de Jesus. O grupo encorajava os membros a seguirem o exemplo de Nossa Senhora nas suas vidas. Isso implicava confiança e construção de carácter, firmeza, humildade e oração, fidelidade inquestionável e nunca fugir às dificuldades – seguir nas pegadas de Maria, que se manteve firme junto à Cruz do seu Filho, no Calvário.

Teresa e a sua irmã Aga
Ela voltava-se continuamente para Maria, com grande amor e afecto, como uma criança para a sua mãe. Entrou para a ordem irlandesa das Irmãs de Nossa Senhora do Loreto, ou Irmãs do Loreto, em memória da vila de Loreto, em Itália, para onde, segundo a tradição, a Casa da Sagrada Família, em Nazaré, foi carregada por anjos através do Mediterrâneo, da Palestina para a Dalmácia, e depois através do Mar Adriático para Loreto.

Mais, a Gonxhe tomou como nome religioso Irmã Maria Teresa do Menino Jesus, em honra de Santa Teresa de Lisieux; toda a vida ela foi comprometida com uma intimidade espiritual com Maria, coração voltado para ela, e vida orientada para ela.

O espírito de Maria, e o seu Imaculado Coração, tornar-se-iam o coração e o espírito da Sociedade das Missionárias da Caridade, a ordem fundada por Madre Teresa. Muitos dos que conhecem e admiram a Madre Teresa conhecem já o seu trabalho na Índia, mas na raiz do seu compromisso com os mais pobres dos pobres, e com os moribundos, está a sua relação com Maria, que começou nas periferias dos Balcãs.

O lema de Madre Teresa “Seja só tudo por Jesus, através de Maria”, estava dividido em três sucessivos estados de alma: confiança amorosa, entrega amorosa, ânimo amoroso. Encarava estes três estados espirituais como uma extensão e participação no Espírito de Nossa Senhora. “Ame-a como Ele a amou; sê causa de alegria para ela como Ele foi; fique próximo dela como Ele ficou; partilhe tudo com ela, mesmo a Cruz, como Ele fez quando ela permaneceu junto da Cruz no Calvário”, escreveu Madre Teresa na Regra das Irmãs da Caridade, mais tarde.

Nesta Solenidade da Assunção é justo que honremos a Santíssima Mãe, reconhecendo o seu amor vivificante por Jesus e a forma como cuida hoje de nós. Que a sua intercessão e exemplo de amor fiel continuem a inspirar vocações como a de St. Madre Teresa, da qual Nossa Senhora foi mediadora há um século.

*Artigo publicado inicialmente no dia 15 de Agosto


Ines A. Murzaku é professora de Religião na Universidade de Seton Hall. Tem artigos publicados em vários artigos e livros. O mais recente é Monasticism in Eastern Europe and the Former Soviet Republics. Colaborou com vários órgãos de informação, incluindo a Radio Tirana (Albânia) durante a Guerra Fria; a Rádio Vaticano e a EWTN em Roma durante as revoltas na Europa de Leste dos anos 90, a Voice of America e a Relevant Radio, nos EUA.

(Publicado pela primeira vez na Segunda-feira, 15 de Agosto de 2022 em The Catholic Thing)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

 

Wednesday, 6 October 2021

Sementes Plantadas no Afeganistão

Ines A. Marzaku

Numa altura em que mesmo os líderes militares da desastrosa retirada do Afeganistão admitem o seu fracasso, e de tantas outras coisas terem corrido mal naquele país em perpétuo estado de sítio, é bom recordar que, à sua maneira discreta, a Igreja tem estado a trabalhar e manteve naquele país uma presença significativa. Várias agências católicas têm estado a ajudar os afegãos ao longo dos últimos anos, mas há uma em particular que merece a nossa atenção.

Foi desta forma que o padre barnabita Giovenni Scalese, superior da missio sui iuris no Afeganistão, anunciou o seu regresso a Itália depois da retirada das forças internacionais.

Cheguei esta tarde ao aeroporto de Fiumicino com cinco freiras e catorze crianças deficientes, de quem elas cuidavam em Cabul. Agradecemos ao Senhor o sucesso da operação. Agradeço a todos vocês que ao longo destes dias lhe dirigiram orações incessantes por nós e que, claramente, foram atendidas. Continuem a rezar pelo Afeganistão e pelo seu povo!

O padre Scalese estava acompanhado de quatro Missionárias das Caridade, a ordem de Madre Teresa, que estavam no Afeganistão desde 2006, e de uma freira paquistanês, Bhatti Shahnaz, da Congregação de Saint Jeanne-Antide Thouret. A irmã Shahnaz geria um acolhimento para crianças com deficiências mentais que foi fundado pela associação Pro Bambini de Cabul. Infelizmente essas crianças não puderam escapar. O regresso do padre Scalese a Itália marcou o fim da missão de 88 anos dos barnabitas no Afeganistão.

Que resultados teve esta missão? Alguma coisa foi “concretizada”?

Os únicos missionários católicos no país foram forçados a fugir e as perspetivas de que possam regressar são poucas. Mas a Igreja tem enfrentado sempre desafios aparentemente impossíveis desde que apareceu em pleno Império Romano, porém Deus lá vai conseguindo os seus caminhos.

Vale a pena, por isso, olhar para história e ter esperança no futuro. Em 1921 a Itália tornou-se o primeiro país ocidental a reconhecer e a estabelecer relações diplomáticas com o Afeganistão. Os dois estados concordaram abrir embaixadas nos seus respetivos países e os afegãos aceitaram que a embaixada italiana tivesse um capelão católico. O Rei do Afeganistão naquela altura, Amanullah, via com bons olhos a necessidade de dar assistência espiritual aos estrangeiros a residir no país.

Um ano mais tarde fez o pedido ao Governo italiano. Talvez tenha sido a primeira vez que um Rei de um país muçulmano tenha solicitado um capelão católico para atender aos estrangeiros cristãos residentes. Havia apenas duas condições, não poderia haver qualquer proselitismo da população muçulmana e a capela deveria ser construída dentro da embaixada italiana, uma vez que legalmente não se podia construir uma igreja em solo islâmico.

O Governo italiano pediu ajuda ao Papa Pio XI, que afirmou: “Precisamos de um barnabita”. Optou assim pelos Clérigos Regulares de São Paulo, conhecidos como barnabitas, e que incluem padres, religiosas e leigos, sobretudo casais.

A ordem, fundada em 1530 inspira-se em São Paulo. O padre Egidio Caspani foi selecionado para dar início à missão. Outro barnabita, o padre Ernesto Cagnacci, viria a juntar-se-lhe como funcionário da embaixada italiana. A primeira missa católica foi celebrada lá no dia 1 de janeiro de 1933, marcando o início oficial da missão.

O padre Giovanni Scalese, em Cabul


Em 2002 o Papa João Paulo II elevou a missão cristã de Cabul para o estatuto de Missio sui iuris – uma missão independente que fica sob a jurisdição direta da Igreja. Consequentemente a missão e a Igreja passaram a ser presenças oficiais cristãs naquele país muçulmano. A Igreja, como é evidente, não tinha uma comunidade local, nem clero afegão, mas com o passar do tempo a missão e os padres tornaram-se parte da reconstrução do Afeganistão. O padre barnabita Giuseppe Moretti ajudou a fundar, em 2005, a Escola de Paz Tangi-Kalay, que recebe financiamento público e donativos privados.

A missão barnabita no Afeganistão operava com base no modelo da Missão de Paulo em Malta, narrada em Actos, 28, 1-10. Era uma missão de presença, partilha e gratidão. A presença e o serviço de Paulo para com os ilhéus eram cristológicos: Cristo veio para servir e não para ser servido e Paulo estava a imitar o mestre. O testemunho barnabita no Afeganistão era um testemunho de Deus: eram padres católicos que se tinham tornado párocos por excelência de todo Cabul, e antes da recente retirada gozavam já de uma presença de quase um século entre o povo afegão.

Não é o primeiro caso de testemunhos santos de cristãos entre muçulmanos e os resultados poderão um dia surpreender-nos. O beato Charles de Foucauld, por exemplo com a sua mística imitação de Cristo entre os muçulmanos do Norte de África, assemelha-se aos barnabitas no Afeganistão. A vida e a morte de Foucauld foram um testemunho religioso profético. Da mesma forma, os barnabitas e outros missionários cristãos viveram vidas no Afeganistão que foram uma combinação de profecia, presença e diálogo. Estes missionários optaram por viver a vida escondida de Jesus entre os muçulmanos afegãos.

De uma perspetiva meramente humana estes esforços podem parecer coisa pouca. Mas em vez de julgar com o olhar do mundo, seria bom prestar atenção às palavras de São John Henry Newman, que dizia que os verdadeiros profetas e místicos cristãos são aqueles que “vivem de uma forma desprezada pelos restantes, escolhida por Jesus de Nazaré, para formar uma resistência ao poder e a sabedoria do mundo… Aceitam de bom grado tudo o que lhes sucede e tiram o melhor proveito de tudo.”

Os barnabitas não foram para o Afeganistão para converter e evangelizar os muçulmanos locais, pregando abertamente o Evangelho. As condições não o permitiam. Mas de acordo com fontes fiáveis, existe agora um pequeno grupo de afegãos que se converteu do Islão e pratica o Cristianismo em segredo. Tal como noutros países muçulmanos, esses convertidos podem estar escondidos agora, mas talvez o futuro nos surpreenda.

Podemos falar da missão barnabita aos afegãos como uma “missão cumprida?” Não, ou pelo menos não no sentido normal dessas palavras. Mas há esperança para o futuro da missão no Afeganistão? O Afeganistão está atualmente em caos. O testemunho que os barnabitas deixaram no Afeganistão são sementes que poderão levar a um florescimento surpreendente, quando Deus assim quiser, entre as futuras gerações de afegãos.


Ines A. Murzaku é professora de Religião na Universidade de Seton Hall. Tem artigos publicados em vários artigos e livros. O mais recente é Monasticism in Eastern Europe and the Former Soviet Republics. Colaborou com vários órgãos de informação, incluindo a Radio Tirana (Albânia) durante a Guerra Fria; a Rádio Vaticano e a EWTN em Roma durante as revoltas na Europa de Leste dos anos 90, a Voice of America e a Relevant Radio, nos EUA.

(Publicado pela primeira vez no Sábado, 2 de Outubro de 2021 em The Catholic Thing)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 13 January 2021

Martírio “nas Mãos de Deus”

Ines A. Murzaku
Já visitei várias vezes o Vale dos Templos em Akragas – hoje Agrigento, na Sicília. É um dos locais mais arrebatadores da Magna Graecia, que remonta ao Século V antes de Cristo, a era dourada dos gregos na Sicília, antes da chegada dos cartaginenses e dos romanos.

Mas desde 1993 esse vale não tem sido o mesmo para mim. Nesse ano cobri para a Rádio Vaticano a viagem de São João Paulo II, no dia 9 de maio. Todos os presentes ficaram pasmados quando o Papa decidiu improvisar, denunciando enfaticamente a máfia siciliana durante uma homilia diante do Templo da Concórdia.

Foi um discurso histórico: João Paulo II tornou-se o primeiro Papa a pronunciar a palavra máfia. A partir desse discurso a relação ambígua entre La Cosa Nostra e a Igreja tornou-se mais clara (algo que nem sempre tinha sido no Sul de Itália): a máfia e a Igreja estavam em lados opostos. E aqueles que lutam para expor a máfia, incluindo clero e heróis leigos como o juiz Rosario Livatino, são aliados da Igreja, combatendo juntos na mesma trincheira pela justiça:

Deus disse: Não matarás! O homem não pode, nenhum homem, nenhum grupo… a máfia não pode mudar e espezinhar esta mais sagrada lei de Deus!... Este povo, o povo siciliano, ligado à vida, pessoas que amam a vida, que dão a vida, não podem viver para sempre debaixo da pressão de uma civilização contraditória, uma civilização da morte!... Em nome deste Cristo crucificado e ressuscitado, do Cristo que é vida, caminho, verdade e vida. Digo-o aos responsáveis: Convertam-se! Um dia chegará o juízo de Deus!

Poucos sabem que este apelo de São João Paulo foi feito depois de uma reunião privada com os pais do juiz assassinado Rosario Livatino, que será beatificado em breve. Mas o pontífice foi mais longe, descrevendo o juiz de 38 anos morto pela Stidda (a Estrela), um grupo criminoso do Sul de Itália, como: “um mártir da justiça e indirectamente da fé”.

Quando Livatino foi assassinado quase ninguém conhecia este jovem juiz talentoso e exemplar, que trabalhava nas periferias de Itália. O seu trabalho estava ligado à apreensão e confisco de propriedade de origem ilícita adquirida pela mafia siciliana. Fazia-o em total respeito pelos direitos dos acusados, com grande profissionalismo e com resultados concretos. E, também, por compromisso com a sua Fé Católica.

Em 2019 o Papa Francisco reflectiu sobre o que o juiz Livatino tinha escrito acerca da relação entre Fé, Direito e Caridade:

“Decidir é escolher [...]; e escolher é uma das coisas mais difíceis que o homem é chamado a fazer. [...] E é precisamente nesta escolha para decidir, decidir para ordenar, que o magistrado crente pode encontrar uma relação com Deus. Uma relação direta, porque fazer justiça é realização de si mesmo, é oração, é dedicação a Deus. Uma relação indireta, através do amor pela pessoa julgada. [...] E esta tarefa será tanto mais leve quanto mais o magistrado sentir humildemente as suas próprias fraquezas, quanto mais ele se reapresentar à sociedade disposto e inclinado a compreender o homem que está na sua frente e a julgá-lo sem a atitude de um super-homem, mas com contrição construtiva.”

A luta da Igreja contra a Máfia continuaria durante o pontificado de Bento XVI e do Papa Francisco que, em 2014, declarou que “aqueles que na sua vida percorrem este caminho do mal, como são os mafiosos, não estão em comunhão com Deus: estão excomungados!”. Em 2020 Francisco promulgou os “decretos sobre o martírio do Servo de Deus Rosario Angelo Livatino, leigo.” O caminho está por isso aberto para a beatificação do Juiz Livatino, que será o primeiro caso de um juiz-mártir morto pela mafia a ser declarado beato.

Teologicamente, o martírio do Juiz Livatino é um martírio indireto de fé. É mais um exemplo daquilo a que João Paulo II chamou os “novos mártires”, outro modelo de martírio que surgiu durante o Século XX, quando muitos morreram em condições de ataque ideológico ou de violência social em larga escala, ainda que muitas vezes a relação com a fé fosse indireta.

Desde o Século IV que a Igreja reconhece dois caminhos tradicionais para a canonização: a via martyrii (o caminho do martírio) e a via virtutum (o caminho das virtudes). Em 2017, baseando-se na referência de João Paulo II a “um mártir da justiça e indirectamente da fé”, o Papa Francisco introduziu um terceiro caminho para a canonização com um Motu Proprio que especifica que “A oferta da vida é um novo caso no processo de beatificação e canonização, que se diferencia do caso sobre o martírio e sobre a heroicidade das virtudes.”

Existem cinco critérios para avaliar uma “oferta de vida”:

a) oferta livre e voluntária da vida e aceitação heroica propter caritatem de uma morte certa e a curto prazo;

b) nexo entre a oferta da vida e a morte prematura;

c) exercício, pelo menos em grau ordinário, das virtudes cristãs antes da oferta da vida e, depois, até à morte;

d) existência da fama de santidade e de sinais, pelo menos depois da morte;

e) necessidade do milagre para a beatificação, ocorrido depois da morte do Servo de Deus e por sua intercessão.

Aquele jovem e bravo juiz siciliano ofereceu a sua vida, preenchendo abundantemente os cinco critérios: ofereceu a sua vida pela sua vocação de ser um juiz exemplar, combatendo um mal público – a máfia – sabendo que isso poderia conduzir a uma morta iminente; sendo um juiz cristão que aplicava as virtudes cristãs ao exercício do direito; demonstrando como juiz que a Fé e o Direito ou o Evangelho e o Código Civil podem coexistir se forem conduzidos pela virtude teológica da caridade; sendo um juiz que colocou a sua vida e vocação para combater a máfia Sub Tutela Dei (nas mãos de Deus), para usar a expressão que Livatino usava frequentemente no seu diário.


Ines A. Murzaku é professora de Religião na Universidade de Seton Hall. Tem artigos publicados em vários artigos e livros. O mais recente é Monasticism in Eastern Europe and the Former Soviet Republics. Colaborou com vários órgãos de informação, incluindo a Radio Tirana (Albânia) durante a Guerra Fria; a Rádio Vaticano e a EWTN em Roma durante as revoltas na Europa de Leste dos anos 90, a Voice of America e a Relevant Radio, nos EUA.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 8 de Janeiro de 2020 em The Catholic Thing)

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Wednesday, 28 October 2020

Fogo Sagrado: Renovação depois da Destruição

Ines A. Murzaku

Recebi recentemente uma mensagem de uma ex-aluna, que agora é professora num liceu católico e que escrevia, alarmada: “Dr. Murzaku – espero que esteja bem. Ouviu falar do vandalismo na Igreja de Santa Ágata, na Sicília? É terrível.” Ela tinha viajado comigo numa visita de estudo à Sicília e estava muito aflita com a notícia.

A Igreja de St. Ágata, em Caltanissetta, na Sicília, foi sujeita a um grande ataque – assalto e profanação, a Eucaristia lançada ao chão, relíquias destruídas, o vidro da Nossa Senhora da Dormição quebrado e um dos seus braços partidos e a destruição de objetos sagrados. O que a minha aluna não sabia era que este mais recente ato de vandalismo e profanação aconteceu apenas um mês depois de um ataque à mesma igreja.

Mas aqui mais perto de casa as coisas não são melhores. Há poucas semanas soube-se que o padre Travis Clark, pároco da paróquia de São Pedro e São Paulo, em Pearl River, no Louisiana, tinha cometido um ato de profanação e sacrilégio no altar da igreja, tendo relações com duas prostitutas. O ato foi filmado por alguém que viu e informou a polícia.

O arcebispo Gregory Aymond, de Nova Orleãs, não perdeu tempo e reagiu com força. O padre foi removido permanentemente do ministério e “nunca mais servirá na Igreja Católica”. Numa mensagem de vídeo publicado pela Arquidiocese, o arcebispo Aymond condenou o ato de profanação do altar, dizendo:

“A sua profanação do altar e da igreja foi demoníaca e estou enfurecido pelas suas ações. Quando soubemos dos detalhes removemos o altar e queimámo-lo. Irei consagrar um altar novo.”

As medidas do arcebispo são para proteger a sacralidade do altar porque, na Igreja Católica, um altar não é um ornamento, uma decoração ou uma peça de mobília. Pelo contrário, segundo Catecismo da Igreja Católica:

O altar da Nova Aliança é a cruz do Senhor, de onde dimanam os sacramentos do mistério pascal. Sobre o altar, que é o centro da igreja, é tornado presente o sacrifício da Cruz sob os sinais sacramentais. Ele é também a mesa do Senhor, para a qual o povo de Deus é convidado. Em certas liturgias orientais, o altar é, ainda, o símbolo do túmulo (Cristo morreu verdadeiramente e verdadeiramente ressuscitou).

Para além disso, o Cânone 1239 §1 do Código de Direito Canónico, especifica que um altar deve ser reservado unicamente à adoração de Deus, excluindo qualquer outro uso profano ou sacrílego. Aplicando ainda o Cânone 1212, uma vez que o acto de sexo em grupo teve lugar em cima do altar, este foi violado por actos gravemente injuriosos e escandalosos para os fiéis.

As violações foram tão graves e contrárias à sacralidade do local (Cânone 1211) que o altar da Igreja de São Pedro e São Paulo perdeu a sua dedicação e bênção e deixou de poder ser usada para as funções sagradas. A exclusão absoluta e perda da dedicação explicam as ações do arcebispo, nomeadamente a remoção do altar antigo, a sua purificação pelo fogo e a dedicação de um altar novo – cumprindo assim o rito penitencial da restauração.

Obviamente a profanação é o contrário da santidade. O profeta Ezequiel usou palavras duras para avisar os seus ouvintes da natureza radical do sacrilégio cometido quando se profanavam os santuários.

Por isso, juro pela minha vida, palavra do Soberano, o Senhor, que, por terdes contaminado meu santuário com vossas imagens detestáveis e com vossas práticas repugnantes, eu retirarei a minha bênção. Não olharei com piedade para vós e não vos pouparei.

Ezequiel descrevia as consequências devastadoras para todos os envolvidos no ato de profanação: Deus iria vingar-se porque o santo tinha sido profanado e violado.

A destruição de Sodoma

O fogo simboliza destruição e juízo, mas é também uma manifestação de Deus e um sinal de renovação. O Senhor fez chover enxofre sobre Sodoma e Gomorra, fogo enviado dos céus pelo Senhor. Deus consumiu os ídolos pelo fogo: “Tomou o bezerro que eles tinham feito e destruiu-o no fogo; depois de moê-lo até virar pó, espalhou-o na água e fez com que os israelitas a bebessem”.

Mas a destruição e o juízo pelo fogo têm também um elemento construtivo. O fogo é a manifestação de Deus e um meio para a renovação do homem.

Quando João Baptista falava aos impenitentes avisou-os que aquele que vinha depois dele baptizaria de forma diferente: com o Espírito Santo e com o fogo. Este novo baptismo traria a salvação, o fogo destruiria o pecado e daria nova vida.

O “baptismo pelo fogo” é simultaneamente destrutivo e construtivo; é um fogo que consome o pecado e o mal e conduz a nova e regenerada vida que floresce.

O arcebispo Aymond reafirmou esta verdade quando queimou o altar profanado. E depois encontrou-se com os seus irmãos no sacerdócio e convidou-os a renovar as suas promessas. Vai depois celebrar uma missa de reparação.

Quanto à Igreja de Santa Ágara, em Caltanissetta, Sicília, os polícias detiveram dois indivíduos que crêem ser os autores do acto de vandalismo. Têm chovido donativos para reparar os danos e restaurar o altar.

O mal e a profanação da santidade sempre os teremos connosco. E com o aumento das correntes pós-cristãs e anticristãs na nossa cultura estes ultrajes tornar-se-ão mais frequentes e flagrantes. (Duas igrejas foram incendiadas no Chile há dias durante protestos políticos e vários locais católicos nos Estados Unidos têm sido atacados). Mas como se vê por este caso do altar que foi rapidamente purgado e restaurado, a Igreja continua pronta a renovar – precisamente porque é o verdadeiro e vivo Corpo de Cristo.


Ines A. Murzaku é professora de Religião na Universidade de Seton Hall. Tem artigos publicados em vários artigos e livros. O mais recente é Monasticism in Eastern Europe and the Former Soviet Republics. Colaborou com vários órgãos de informação, incluindo a Radio Tirana (Albânia) durante a Guerra Fria; a Rádio Vaticano e a EWTN em Roma durante as revoltas na Europa de Leste dos anos 90, a Voice of America e a Relevant Radio, nos EUA.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 22 de Outubro de 2020 em The Catholic Thing)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 15 July 2020

De Museu a Mesquita. A Importância da Hagia Sophia

Ines A. Marzaku

Hoje está na moda anular a história. Começou nos Estados Unidos, mas já se espalhou para Itália, Espanha, Inglaterra, Bélgica e, mais recentemente, a Turquia. Algumas das principais técnicas incluem o derrube e a profanação de monumentos e estátuas que funcionam como museus exteriores, contando a história das pessoas que fizeram História. Pode-se conhecer a história de uma cidade explorando as estátuas e os monumentos nos parques e áreas comuns.

O Presidente da Turquia, Tayyip Erdogan, juntou-se agora ao grupo quando declarou a sua intenção de converter a majestosa basílica cristã de Hagia Sophia (Igreja da Santa Sabedoria) – atualmente um museu nacional e um dos locais mais visitados na Turquia – numa mesquita. E o Conselho de Estado, o mais alto órgão administrativo da Turquia, concordou que o pode fazer.

Qual é a história da Hagia Sophia?

Distingue-se pela sua beleza indiscritível, sendo de tamanho e de harmonia de medidas excelentes, sem excesso nem deficiência; sendo mais magnífica que os edifícios normais, e muito mais elegante que aqueles que não são de tão justas proporções. A Igreja é singularmente repleta de luz e de sol; pode-se declarar que o espaço não é iluminado de fora, pelo sol, mas que os raios são produzidos no seu interior, tal é a abundância de luz que entra nesta igreja.

Assim escreveu Procópio de Cesareia (circa 500-565 A.D.), um importante historiador bizantino de Constantinopla (hoje Istambul), na descrição que fez da Hagia Sophia no seu livro "De Aedificiis" (Sobre Edifícios), que foi escrito por volta de 554. Nessa obra atribui ao Imperador Justiniano, entre outros, a responsabilidade por tão magnífico feito.

A Igreja de Justiniano tornou-se um ícone de Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente. O imperador ficou tão satisfeito com o resultado que durante a cerimónia de dedicação, em Dezembro de 537, exclamou: “Oh Salomão, eu superei-te!”, comparando a sua igreja ao Templo de Salomão, em Jerusalém.

Durante 900 anos a Hagia Sophia esteve no centro do Império Bizantino. Era a sede do Patriarca Ecuménico de Constantinopla, o lugar onde se realizavam os concílios ecuménicos, onde os imperadores eram coroados e se faziam vigílias nocturnas e majestosas procissões até à queda de Constantinopla para os Otomanos, a 29 de Maio de 1453.

Andando a cavalo pelas ruas da cidade conquistada, o Sultão Mehmet II “desmontou às portas da igreja e baixou-se para pegar numa mão cheia de terra, que polvilhou por cima do turbante, como acto de humildade diante de Deus”. O sultão converteu a Igreja de Hagia Sophia na Grande Mesquita de Aya Sofya, como permaneceu até 1934, quando um decreto do primeiro presidente da República da Turquia, Mustafa Kemal Atatürk, transformou o edifício num museu.

Em 1985 a UNESCO declarou-a Património Mundial.

Porque é que é importante que a Hagia Sophia continue a ser um museu?

Interessa para a história e interessa às pessoas, tanto cristãos como muçulmanos. É importante preservar a memória e os museus e as estátuas são formas comprovadas de preservar a cultura e a religião – no que merece ser preservado, recordado, valorizado e transmitido a futuras gerações.

O museu comprovou ser uma excelente forma de recordar tanto a Igreja de Hagia Sophia como o Mesquita de Aya Sofya. Serviu não só como registo de uma história multissecular, mas como transmissor de conhecimento dos impérios romano e bizantino para a República Turca de Atatürk. Este edifício magnífico, e outrora religioso, é uma recordação visível e tangível de impérios e religiões do mundo Mediterrânico, numa belíssima síntese.

Desde cedo na sua carreira política, o Presidente turco Recep Tayyip Erdogan lamentou a conversão por Atatürk da Mesquita de Aya Sofya num museu. Em vez disso ele prefere anular mais de nove séculos de história cristã, para grande consternação do Patriarca Ecuménico de Constantinopla, Bartolomeu I, do Patriarca russo Cirilo e do Papa Francisco.

Para Bartolomeu I, a Hagia Sophia é um lugar sagrado em que o Oriente e o Ocidente se abraçaram. A anulação desta memória causará uma profunda divisão entre estes dois mundos. Mantendo o seu estatuto de museu, o local continuaria a servir como um exemplo de solidariedade e de compreensão mútua entre o Cristianismo e o Islão.

O Patriarca Cirilo da Rússia considera que a conversão da Hagia Sophia de museu em mesquita é uma ameaça ao Cristianismo. Numa recente entrevista à Interfax, o Metropolita Hilário, responsável pelas Relações Externas do Patriarcado de Moscovo, expressou o seu desapontamento com a atitude de Erdogan, dizendo: “A Hagia Sophia é património mundial. Não é por acaso que as notícias da mudança do seu estatuto abalaram o mundo inteiro, especialmente o mundo cristão. A Igreja é dedicada a Cristo, Sophia, a Sabedoria de Deus, é um dos nomes de Cristo.”

Ainda este fim-de-semana o Papa Francisco, que tem feito um grande esforço para cultivar boas relações com os muçulmanos, falou com uma franqueza incaracterística: “Penso em Istanbul. Penso na Hagia Sophia. Estou muito consternado”.

A história não pode ser destruída, cancelada ou alterada. Até alguns turcos têm-se queixado dos esforços do Presidente para tentar criar uma história única e falsa.

Para os católicos a história tem um sentido transcendente, uma mensagem a transmitir e uma lição a aprender – e o historiador é chamado a discernir as raízes desse sentido. A história não é linear nem ideológica – ou, pior ainda, para ser usada com motivos políticos – mas reclama continuamente nova reflexão e análise, para que o passado seja revisitado e os erros não sejam repetidos.

O grande filósofo romano Marco Túlio Cícero escreveu em “De Oratore” que Historia magistral vitae est (A História é mestre da vida). A história, os seus monumentos e museus não devem ser destruídos ou anulados, especialmente num esforço para dominar o presente. Eles têm o direito a falar connosco – e a serem ouvidos.

No que diz respeito à Hagia Sophia, o tempo dirá como esta moda de anular a história resultará para a Turquia. Por enquanto parece que a chamada para a oração voltará a ressoar no dia 27 de julho, na mais magnífica estrutura da Igreja Oriental.


Ines A. Murzaku é professora de Religião na Universidade de Seton Hall. Tem artigos publicados em vários artigos e livros. O mais recente é Monasticism in Eastern Europe and the Former Soviet Republics. Colaborou com vários órgãos de informação, incluindo a Radio Tirana (Albânia) durante a Guerra Fria; a Rádio Vaticano e a EWTN em Roma durante as revoltas na Europa de Leste dos anos 90, a Voice of America e a Relevant Radio, nos EUA.

(Publicado pela primeira vez na Segunda-feira, 13 de Julho de 2020 em The Catholic Thing)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 27 May 2020

Barrigas de Aluguer: Um Problema de Dignidade

Ines A. Marzaku
Façam-me o favor de ver este vídeo perturbador. Um coro de recém-nascidos inocentes chora enquanto esperam ser entregues aos seus destinatários. Como é que podemos permanecer em silêncio perante imagens como estas? Estes são bebés sem identidade, a quem foi negada a experiência da voz, cheiro e braços abertos das suas mães, ou sequer a possibilidade de se voltarem para elas quando estiverem com fome.

Qualquer pessoa decente achará tudo isto muito preocupante. Mas a BioTexCom, uma empresa líder no campo dos tratamentos para a infertilidade e reprodução humana na Ucrânia, divulgou as imagens para garantir aos seus clientes que o produto, isto é, os bebés, está em boas mãos e chegará ao destino final logo que as fronteiras, fechadas por causa do Covid-19, sejam reabertas.

À data em que o vídeo foi lançado no YouTube havia 46 bebés à espera de serem entregues. Desde então o número de crianças aumentou para 51 – portanto a “produção” mantém-se. Os bebés nascem de barrigas de aluguer numa clínica reprodutiva atualmente localizada no Hotel Venezia, em Kiev.

Entre os serviços oferecidos pela BioTexCom aos seus clientes encontra-se um grande banco de dadores de óvulos e de barrigas de aluguer. Eis o que o centro promete:

Todos os dias examinamos até 200 candidatas que querem doar os seus óvulos, mas apenas 20% correspondem aos nossos requisitos relativos à saúde física e psicológica, idade, ter pelo menos uma criança saudável e, claro, boa aparência. A nossa base de doadoras tem uma vantagem enorme – você tem a oportunidade de escolher a dadora sozinho. Para isso, fornecemo-lo com fotografias, entrevista vídeo e fotografias em 3D através das quais pode ver a dadora de diferentes perspetivas. Temos a maior base de dadoras do mundo, o que nos permite começar o programa logo depois de assinar o contrato, sem perder tempo em busca de alguém.

Desde a queda da Cortina de Ferro, a Ucrânia tornou-se destino para pessoas da Europa Ocidental e dos Estados Unidos, em busca de barrigas de aluguer. Casais ou solteiros da Alemanha, França, Espanha, Itália, Israel, Reino Unido, América e outros países viajam para a Ucrânia para “encomendar” o bebé perfeito.

Estranhamente, até tem bastante lógica. As mulheres do ocidente industrializado fizeram da reprodução um “outsourcing”; têm capacidade económica para sustentar bebés, mas não desejam, ou não podem, gerá-los. Para isso viram-se para a Ucrânnia e para outros países pobres do Leste Europeu, para mulheres com úteros fortes para carregar bebés e dá-los à luz.

O vazio legal criado pela queda do Comunismo permitiu a legalização das barrigas de aluguer na Rússia e na Ucrânia, e as agências e escritórios de advogados transformaram-no num negócio lucrativo.

Segundo um estudo da  União Europeia sobre as barrigas de aluguer nos Estados membros, os pais adotivos pagam na ordem dos 30 mil euros para “encomendar” um bebé a um escritório de advogados ucraniano.

A Igreja Católica não aceita bem estes insultos à dignidade humana. O arcebispo-maior Sviatoslav Schevchuk, de Kyiv-Halych, líder da Igreja Greco-Católica da Ucrânia e o arcebispo Mieczyslaw Mokrzycki de Lviv, presidente da Conferência Episcopal de bispos de rito latino, pediram ao Governo ucraniano para pôr fim ao “crime duplo de aluguer de ventres”, que se tornou uma praga na Ucrânia.

É uma grave violação da dignidade humana tratar pessoas como bens que podem ser encomendados, produzidos e vendidos. O apelo dos bispos vai ao cerne da questão: o duplo crime das barrigas de aluguer viola os direitos das crianças e a dignidade das mulheres que, por vários motivos – mas sobretudo dificuldades financeiras – se vêem na obrigação de vender os seus corpos e a sua maternidade.

A gestação de substituição é uma ofensa contra as mulheres; como se pode “alugar” o corpo de outro ser humano? E como é que esse pagamento nos torna pais ou mães? A maternidade não é uma mercadoria e não deve ter um preço. A ligação entre mãe e filho é forjada na altura da conceção e ninguém tem o direito de o quebrar.

O Papa Francisco falou de forma clara (AmorisLaetitia, 54) contra a exploração de mulheres pobres e do terceiro mundo. “A história carrega os vestígios dos excessos das culturas patriarcais, onde a mulher era considerada um ser de segunda classe, mas recordemos também o ‘aluguer de ventres’ ou ‘a instrumentalização e comercialização do corpo feminino na cultura mediática contemporânea’”.

As pessoas querem “tudo” mas há limites. Deus colocou esses limites para nosso benefício. Há coisas que são extra commercium, não podem ser compradas. As crianças são dons com a sua própria dignidade, não são bens que temos o direito a comprar no mercado livre.

A Igreja Católica tem sido consistente ao ensinar que a vida humana é sagrada porque, desde o momento da concepção, envolve a acção criadora de Deus e permanece para sempre numa relação especial com o Criador, que é o seu fim último. Ninguém deve finger-se de Deus, produzindo seres humanos em centros reprodutivos, explorando mulheres fragilizadas. Em 1987, São João Paulo II aprovou a Instrução sobre o respeito àvida humana nascente e a dignidade da procriação que aborda especificamente a questão da gestação de substituição:

A maternidade substitutiva representa uma falta objetiva contra as obrigações do amor materno, da fidelidade conjugal e da maternidade responsável; ofende a dignidade e o direito do filho a ser concebido, levado no seio, posto no mundo e educado pelos próprios pais; em prejuízo da família, instaura uma divisão entre os elementos físicos, psíquicos e morais que a constituem.

A Santa Madre Teresa, que passou toda a sua vida numa missão de serviço aos mais pobres de entre os pobres, poderá oferecer uma solução para as barrigas de aluguer, como fez para o aborto: “Vou-vos contar uma coisa muito bonita. Estamos a combater o aborto com a adopção – cuidado da mãe e tratando da adopção para o seu bebé. Assim salvámos milhares de vidas.” Talvez possamos fazer o mesmo para combater a desordem da gestação de substituição redescobrindo a adopção.


Ines A. Murzaku é professora de Religião na Universidade de Seton Hall. Tem artigos publicados em vários artigos e livros. O mais recente é Monasticism in Eastern Europe and the Former Soviet Republics. Colaborou com vários órgãos de informação, incluindo a Radio Tirana (Albânia) durante a Guerra Fria; a Rádio Vaticano e a EWTN em Roma durante as revoltas na Europa de Leste dos anos 90, a Voice of America e a Relevant Radio, nos EUA.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 21 de Maio de 2020 em The Catholic Thing)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 28 June 2017

Novos cardeais e o temor a Deus

Cinco cardeais e dois papas


Esta manhã o Papa falou sobre o martírio, dizendo acima disso está a caridade e que repugna aos cristãos ouvir chamar mártires aos bombistas suicidas.

Hoje temos novo artigo do The Catholic Thing. Por falar em bombistas suicidas, Ines A. Murzaku escreve sobre a diferença entre o medo que nos paralisa e o natural temor a Deus. Quem teme a Deus mais nada tema, explica. É convincente e encorajador. Leiam e partilhem.

Temor a Deus, Fé e Encontro

Ines A. Murzaku
Será difícil esquecer os meses de Maio e de Junho de 2017. Matanças temíveis e atentados suicidas em Manchester (22 de Maio), Egipto (26 de Maio) e no Afeganistão (31 de Maio), onde várias vidas inocentes foram interrompidas. Junho começou com mais atentados em Londres (3 de Junho) e Melbourne (6 de Junho). E estes foram apenas os principais, vários incidentes mais pequenos ocorreram no mesmo período em todo o mundo.

Como é que as pessoas estão a lidar com a dor e a perda? O poeta Tony Walsh leu do seu poema “This is the Place” diante de uma multidão em Manchester: “Diante de um desafio, erguemo-nos sempre”. O bispo Angaelos, da Igreja Copta Ortodoxa do Reino Unido lamentou os mártires coptas, mas perdoou os carrascos com a seguinte afirmação:

“São amados por mim e por milhões como eu, não pelo que fazem, mas pelo que são capazes na qualidade de maravilhosas criaturas de Deus, que nos criou com uma humanidade partilhada. São amados por mim e por milhões como eu porque eu, e nós, acreditamos na transformação.”

Estas expressões públicas de determinação e perdão cristão são bem-vindas numa cultura que parece ter esquecido tanto uma como outro. Mas as bombas e a carnificina deixaram muitas pessoas em todo o mundo com mais medo do que nunca de eventos com multidões, voos, aeroportos e centros de cidade.

Alguns estão a exibir sinais daquilo a que os psicólogos chamam fadiga de compaixão, impotência ou simplesmente desligar perante os horrores que são demasiado grandes e demasiado frequentes. O medo de ataques terroristas surge com frequência nas minhas discussões com alunos. Como é que se lida com o medo? É sequer possível ultrapassar o medo? Ou nas palavras do Papa Francisco: O que é preciso para travar a espiral do medo?

Ao contrário do que muitas pessoas pensam, a coragem não é o contrário do medo. Aristóteles ensinou que é correcto e humano sentir medo de certas coisas, mas é necessária a medida certa de medo, porque “o homem que foge de tudo e teme tudo e não faz frente a nada torna-se cobarde, e o homem que não teme nada mas parte ao encontro de qualquer perigo torna-se imprudente” (Ética a Nicómaco II). Sentir medo perante o perigo é simplesmente uma reacção humana, mas não devemos deixar que o medo nos paralise ou impeça de viver.

A resposta cristã perante este dilema é um paradoxo – ultrapassar o medo como um outro tipo de medo – o temor a Deus. As escrituras e os padres da Igreja são claros a este respeito: se temer Deus jamais terá medo da mesma forma, porque no final de contas nada há a temer. “E eu, quando o vi, caí a seus pés como morto; e ele pôs sobre mim a sua destra, dizendo-me: Não temas; Eu sou o primeiro e o último” (Apocalipse 1,17)

São João Clímaco (579-649) escreveu: “Quem se tiver tornado escravo do Senhor teme apenas o seu Mestre. Mas quem não teme a Deus teme frequentemente a sua própria sombra. O temor é filho da descrença” (Degrau 21).

Santo Efrém da Síria, (306-373), conhecido como mestre da contrição, faz o mesmo argumento sobre o temor a Deus. “Quem teme a Deus eleva-se acima de todas as formas de temor. Ele tornou-se um desconhecido para a todo o medo deste mundo e colocou-o longe de si, e nenhuma espécie de tremor se aproxima dele”.

São João Clímaco
O medo descrito nestes exemplos é um temor saudável ou reverente a Deus, que em última análise está ligada à fé. O temor cristão de Deus não pode ser separado da fé. É uma espécie de medo saudável que que torna firme a fé em Deus. Para os cristãos é um temor que conduz para lá do medo, morte e intimidação normais. É uma fé que transforma as circunstâncias impossíveis em esperança. E é uma fé que fortalece os crentes quando enfrentam o mal, incluindo o terrorismo.

Dietrich Bonhoeffer, o famoso pastor luterano que foi martirizado pelos Nazis, sabia a quem se voltar em tempos de medo e de incerteza. Pregou sobre o medo e como o ultrapassar em 1933, o ano em que Hitler assumiu o poder: “Voltem os olhos para Cristo quando sentirem medo, mantenham-no diante dos olhos, chamem por ele e orem a ele, creiam que ele está convosco agora, a ajudar-vos. Então o medo empalidecerá e esvanecer-se-á, e a vossa fé no nosso Salvador forte e vivo, Jesus Cristo, vos libertará”.

A fé firme permite confiar em Deus. Vejam os mártires coptas que foram massacrados por terroristas no dia 26 de Maio de 2017, mortos porque se recusaram a negar Cristo. Estes corajosos mártires aceitaram mortes terríveis, por causa da fé.

Ainda assim, a questão não desaparece completamente. Será que o temor a Deus e a fé em Deus chegam para ultrapassar o medo de um atentado? A resposta não é simples. Os terroristas não se limitam a matar os inocentes. Eles atacam o espírito, para intimidar, para cansar, desencorajar e deixar as pessoas inseguras. Os terroristas querem destruir almas e, fundamentalmente, os valores e as esperanças.

E vale a pena fazer aqui uma distinção. Uma pessoa que teme Alá, uma pessoa de fé que reza de forma sincera, que jejua e respeita a tradição islâmica, é um muçulmano. Uma pessoa que encara a sua tradição religiosa como um empreendimento político cujo fim é a purificação de outras tradições – que considera corruptas e corruptoras – é um islamita que não tem qualquer pudor em matar até outros muçulmanos.

Tenho noção do quão difícil vai ser o diálogo que temos de empreender. É difícil saber sequer quando estamos a falar com um muçulmano e quando estamos a lidar com um islamita. É bom que cultivemos uma desconfiança saudável – talvez até um certo nível de medo – quando assistimos a tanta conversa ingénua sobre “diálogo”.

Mas também aqui devemos ultrapassar o medo. Assumir o risco de dialogar com o muçulmano, o fiel muçulmano fiel a Deus, que sofre e é também ele vítima dos terroristas, é uma parte necessária tanto da autodefesa como do esforço para “travar a espiral do medo”. E esse processo de conquistar o medo poderá também ajudar a combater o terrorismo.


(Publicado pela primeira vez no Sábado, 24 de Junho de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 7 September 2016

No Encalço de Santos: Madre Teresa e João Paulo II

Ines A. Murzaku
Santa Teresa de Calcutá e São João Paulo II tinham uma relação especial, uma amizade que foi confirmada para a eternidade pela canonização desta no passado dia 4 de Setembro. Lembram-se da imagem de São João Paulo II a beijar a cabeça daquela pequena mulher enquanto ela segurava na mão dele? Para o Papa polaco, nas palavras de George Weigel, a Madre Teresa era uma “pessoa-mensagem” para o Século XX.

Madre Teresa e São João Paulo II, o homem e a mulher do Século, juntos fizeram e mudaram a história. Eram peregrinos da paz, indivíduos profundamente apaixonados por Deus e pelo próximo, defensores dos pobres e dos marginalizados, promotores da liberdade e da dignidade humanas. Para além disso, o que São João Paulo II testemunhou na Madre Teresa foi aquilo a que chamou o mistério da mulher e as grandes obras de Deus em, e através de, a mulher.

A Madre Teresa e São João Paulo II acreditavam nos mesmos princípios de apostolado:
Abriram os braços da Igreja às pessoas e trouxeram para a fé um sentido de família e de pertença. A sua amizade era tão profunda e gentil que monsenhor Francesco Follo, Observador Permanente da Santa Sé na UNESCO, que trabalhou de perto com as Missionárias da Caridade em Itália e em França, escreveu no seu livro sobre João Paulo II que madre Teresa representava “a dimensão feminina de João Paulo II”.

Madre Teresa e Karol Wojtyla, então Cardeal Arcebispo de Cracóvia, conheceram-se pela primeira vez em Fevereiro de 1973, no 40º Congresso Eucarístico Mundial, em Melbourne, cujo tema era o mandamento novo de Jesus: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Foi a primeira vez que Wojtyla esteve exposto ao Novo Mundo.

No seu diário pessoal, o futuro Papa mencionou ter conhecido Madre Teresa. Ela, na verdade, sentia-se em casa em Melbourne, as Missionárias da Caridade tinham inaugurado a sua primeira casa na Austrália em 1970, lidando com outras formas de pobreza, diferentes das que encontravam na Índia, incluindo alcoolismo, toxicodependência e as necessidades espirituais dos idosos. Ela acreditava que os homens e as mulheres alcoólicos da Austrália deviam ter mais do que abrigo e comida, que precisavam de ser amados e reabilitados para se poderem reintegrar na sociedade.

Em 1976 os dois encontraram-se novamente em Filadélfia, noutro Congresso Eucarístico, desta vez subordinado ao tema Jesus, o Pão da Vida. Por estranho que nos possa parecer, nem um nem outro era ainda muito conhecido no mundo católico. Mas os seus discursos tiveram muito impacto. Madre Teresa falou da fome física e do amor pelas coisas pequenas e o Cardeal, que conhecia em primeira mão os regimes totalitários, fez um apelo em nome daqueles a quem era negada a liberdade e que sofriam por detrás da Cortina de Ferro. Fome de pão e fome de liberdade – bem como a luta contra o sofrimento humano – estavam a contribuir para consolidar uma amizade duradoura e uma causa comum.

Os encontros em Melbourne e em Filadélfia com Madre Teresa e com o seu trabalho missionário devem ter tido um impacto profundo no Papa. Em 1986, durante uma visita de dez dias à Índia, ele rezou em Nirmal Hriday – Casa dos Puros de Coração, gerido pelas Irmãs da Caridade em Calcutá. Nessa casa, fundada em 1950 por Madre Teresa, dava-se assistência e tratava-se o sofrimento dos doentes, pobres e moribundos. O Papa, liderado por Madre Teresa, parou junto a cada um dos 86 doentes, alimentando à colher os doentes e moribundos. No fim da visita disse que “Nirmal Hriday é um local de esperança, uma casa assente na coragem e na fé, onde reina o amor”.

Ironicamente, foi numa casa localizada nos terrenos de um antigo templo hindu dedicado à deusa Kali que o Papa encontrou o mistério do sofrimento e do amor humano. Na verdade, o sofrimento e o amor humano são universais, transcendem nações, religiões, afectam ricos e pobres. A visita histórica de São João Paulo II à Índia e o seu encontro com Madre Teresa estão imortalizados em duas estátuas de tamanho real do Papa e da missionária no Santuário Nacional de São Tomé, Apóstolo da Índia.

O Papa ficou de tal forma emocionado pela pobreza e pelo sofrimento humanos que testemunhou na Índia que em 1988, durante o Ano Mariano, foi inaugurada a casa Dom de Maria, próxima da imponente colunata da Basílica de São Pedro. Madre Teresa deu-lhe esse nome na esperança de que “seja sempre possível experimentar, aqui, o amor da Virgem Santa”. A casa distribui comida e roupa a centenas de pobres em Roma e fornece abrigo e assistência médica a mulheres em situações de perigo.

São João Paulo II visitou a Albânia em 1993. Era a primeira vez que um Papa estava no país. No seu discurso aos albaneses, uma nação maioritariamente muçulmana e que tinha vivido debaixo do comunismo, o Papa falou sobre a liberdade, conquistada recentemente depois de décadas de perseguição severa e de martírio. Entre os albaneses que estavam lá para receber o Papa estava a Madre Teresa.

Ela tinha visitado a Albânia em 1989, quando ainda estava sob jugo comunista, por motivos “privados” – para rezar nas campas da sua mãe Drane e da sua irmã Age Bojaxhiu, que estavam sepultadas em Tirana, a capital da Albânia. Apesar dos esforços diplomáticos de mais alto nível, o Governo comunista negou a entrada à Madre Teresa durante quase vinte anos. Se a sua visita de 1989 foi um indicador dos primeiros sinais de abertura e da queda do último bastião do Comunismo na Europa de Leste, a visita de São João Paulo II em 1993 foi uma celebração da liberdade naquele que tinha sido o primeiro “estado ateu” do mundo.

No seu discurso ao povo albanês o Papa expressou gratidão à Madre Teresa e à sua missão universal para alimentar os famintos do mundo: “Mesmo nos tempos do isolamento total da Albânia, foi esta humilde religiosa, esta humilde servidora dos mais pobres dos pobres, que levou pelo mundo o nome do vosso país. Na Madre Teresa a Albânia foi sempre estimada… Hoje, agradeço-vos em nome da Igreja Universal, agradeço-vos, queridos albaneses, por esta filha da vossa terra e do vosso povo”.

A Madre Teresa, canonizada no domingo passado, e São João Paulo II, eram figuras universais a servir a Igreja universal com uma missão universal. O que os unia e consolidava a sua amizade eram a compaixão pelo sofrimento do mundo e um profundo respeito pela dignidade e liberdade humanas, alimentado de forma particular pelo Catolicismo. Como todos os santos, eles recordam-nos da profunda ligação entre o amor de Deus e o amor pelo homem.


Ines A. Murzaku é uma nova colaboradora do The Catholic Thing. É professora de Religião na Universidade de Seton Hall. Tem artigos publicados em vários artigos e livros. O mais recente é Monasticism in Eastern Europe and the Former Soviet Republics. Colaborou com vários órgãos de informação, incluindo a Radio Tirana (Albânia) durante a Guerra Fria; a Rádio Vaticano e a EWTN em Roma durante as revoltas na Europa de Leste dos anos 90, a Voice of America e a Relevant Radio, nos EUA.

(Publicado pela primeira vez no Sábado, 3 de Setembro de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 20 July 2016

Os Primeiros Anos da Madre Teresa na Periferia

Ines A. Murzaku
A Madre Teresa é conhecida em todo o mundo. Mas são poucos os que sabem da importância dos seus primeiros anos nos Balcãs para a sua vida posterior. O dia 4 de Setembro de 2016, da sua canonização, será também, apropriadamente, o Jubileu dos Trabalhadores e dos Voluntários da Misericórdia. É uma feliz coincidência porque tudo indica que ela se tornará padroeira de todos os que trabalham e sofrem em nome do amor e da misericórdia de Deus.

O sofrimento é um factor inevitável da existência humana. Transcende países e nações, ricos e pobres. O sofrimento humano clama insistentemente para o mundo do amor humano. E de certa forma o homem deve a esse sofrimento o amor desinteressado que vive no seu coração e nos seus actos, como escreveu São João Paulo II na carta apostólica Salvifici Doloris, de 1984.

Madre Teresa vinha daquilo a que o Papa Francisco chama as periferias e partiu de lá para outras periferias, para uma missão que durou a vida inteira. Ela compreendia as periferias porque nasceu numa periferia e familiarizou-se com a realidade e a experiência de vida das pessoas da periferia de Skopje. É nas periferias, como explicou Yves Congar, que as ideias e as iniciativas para os grandes movimentos começam.

Não há muito escrito sobre os seus primeiros anos. Agnes “Gonxhe” Bojaxhiu nasceu em Skopje, actualmente capital da República da Macedónia, no dia 26 de Agosto de 1910. Gonxhe (uma alcunha que significa “botão de rosa”) era filha de pais albaneses, Drane e Nikola Bojaxhiu, de Prizren, no Kosovo. Os católicos albaneses eram uma minoria naquele tempo na Macedónia, onde a maioria eram ortodoxos ou muçulmanos.

Tinha muito orgulho nas suas raízes albanesas: “De sangue e de origem, sou albanesa”, disse à imprensa quando recebeu o Nobel da Paz em 1979. As influências familiares tiveram grande importância para a jovem Agnes. A sua família feliz e próxima, que incluía, para além dos pais, um irmão (Lazer) e uma irmã (Age), deixou marcas indeléveis no carácter da futura santa.

Nikola era um comerciante bem-sucedido, familiarizado com a situação política e com as tendências dos Balcãs e do estrangeiro nos anos entre as duas guerras (ele próprio era nacionalista). A família Bojaxhiu vivia numa casa grande na praça principal de Skopje. Mas ajudavam os doentes, as viúvas e as crianças que lhes apareciam à porta. “Egoísmo e o auto-centrismo são uma doença espiritual”, dizia Nikola. O lema dos Bojaxhius era hospitalidade: A sua casa estava aberta a Deus bem como às visitas e aos necessitados.  

Drane era dona de casa, tinha uma personalidade forte e era inteiramente dedicada aos filhos, ao marido e à sua fé. Depois da morte inesperada do seu marido, sob circunstâncias suspeitas (provavelmente envenenado por razões políticas), Drane trabalhou para sustentar a família. Agnes dizia que a mãe não falava muito, mas agia imenso.

Estas foram as primeiras lições – de amar de forma activa e misericordiosa – que a madre Teresa aprenderia da “sua” Skopje, como se costumava referir à cidade onde nasceu. O Arcebispo de Skopje, Lazer Mjeda, era um amigo próximo da família e influenciou Agnes de muitas formas. O Arcebispo levava e partilhava poesia com a família Bojaxhiu. O seu irmão, o padre Ndre Mjeda, era um poeta albanês proeminente e Agnes ouviu a sua poesia desde muito cedo.

Os jesuítas que passaram pela comunidade também impressionaram muito Agnes com o seu zelo pela missão. Os Bojaxhius peregrinavam anualmente à Nossa Senhora de Letnica, perto de Skopje, no 15 de Agosto. Foi aos 17 anos, durante uma dessas peregrinações, diante de Nossa Senhora, que Agnes recebeu o chamamento para ser missionária.


Skopje, na encruzilhada entre os Balcãs e as civilizações, expôs a futura madre Teresa a pessoas de diferentes religiões, etnias, culturas e línguas.

Quando ela nasceu Skopje fazia parte do Império Otomano. A Albânia, Bósnia, Sérvia etc., que atualmente são Estados independentes, não existiam. Kosovo era uma divisão administrativa de primeiro nível (yilayet) do Império Otomano e Skopje fazia parte da província administrativa de Kosovo.

Agnes tinha apenas dois anos quando começaram as guerras dos Balcãs (1912-1913). As guerras assinalaram o fim do domínio Otomano nos Balcãs e a divisão da região pela Bulgária, Sérvia e Grécia. A divisão causou muitos mortos e grande sofrimento humano, incluindo migrações forçadas, expulsões, limpeza étnica e a deslocação forçada de aldeias, vilas e famílias inteiras.

Mas o pior ainda estava para vir, durante a I Guerra Mundial a Macedónia tornou-se um ponto de discórdia entre a Sérvia e a Bulgária. Agnes testemunhou todo este sofrimento e guerra em primeira mão e muito cedo. Nos dois anos antes de receber o seu chamamento, passou longos períodos em retiro e oração profunda, fazendo perguntas existenciais sobre o sofrimento humano. Foi neste profundo abismo de agonia humana que Agnes testemunhou Jesus, pela primeira vez, no sofrimento humano.

Nessa periferia perturbada ela experimentou o “toque de Deus” que marcaria a sua vocação religiosa e a levou a jurar saciar a sede de Jesus prestando serviço incondicional aos indesejados. Para Agnes, a sede de Jesus deve ser unida ao desejo infinito de Deus por comunhão com aqueles que foram criados para amar a Deus.

Foram a sua Skopje e os valores de família albaneses – o microcosmos dos Balcãs – que prepararam a Madre Teresa para a sua missão na Índia. Foram estes primeiros anos da sua vida naquela periferia que a prepararam para ser uma construtora de pontes entre continentes e povos inteiros.


Ines A. Murzaku é uma nova colaboradora do The Catholic Thing. É professora de Religião na Universidade de Seton Hall. Tem artigos publicados em vários artigos e livros. O mais recente é Monasticism in Eastern Europe and the Former Soviet Republics. Colaborou com vários órgãos de informação, incluindo a Radio Tirana (Albânia) durante a Guerra Fria; a Rádio Vaticano e a EWTN em Roma durante as revoltas na Europa de Leste dos anos 90, a Voice of America e a Relevant Radio, nos EUA.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 13 de Julho de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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