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Thursday, 16 January 2020

Para estar atento em 2020 - Fim da guerra na Síria

Uma das maiores tragédias da última década tem sido a guerra civil na Síria, uma realidade que apenas é agravada pelo facto de, ao que tudo indica, a guerra ter servido para absolutamente nada, para além de enriquecer os traficantes de armas e dar à Rússia ainda mais influência na região. Este ano, acredito, a guerra pode finalmente chegar ao fim.

Quando os protestos da “Primavera Árabe” varreram o Médio Oriente em 2011 assistimos a tudo com um misto de apreensão e esperança. A queda do regime na Tunísia e no Egipto foram boas notícias, embora só o primeiro caso, onde o movimento começou, tenha comprovado ter pernas para andar. No Egipto a democracia levou à vitória da Irmandade Islâmica, uma péssima notícia, sobretudo para a grande comunidade cristã.

Mas quando começaram protestos na Síria eu, pelo menos, não reagi com esperança alguma, só com medo. A Síria era uma realidade muito instável. Um regime férreo, mas secular, onde não existia liberdade mas pelo menos as minorias religiosas estavam a salvo de perseguição e se vivia em paz e segurança. Dominado pela minoria xiita (alauita) o Governo tinha todo o interesse em manter os grupos sunitas fundamentalistas à distância. Não o regime ideal mas, tendo em conta o contexto regional, do melhorzinho que se podia arranjar.

Mal os protestos – e a resposta do Governo – se tornaram violentos temi o pior e o medo só se agravou com o entusiasmado apoio que os países ocidentais começaram a dar a uma oposição que muito previsivelmente se deixou dominar por grupos jihadistas.

Seguiram-se nove anos de terror, com o expoente máximo no Estado Islâmico, até que a Rússia entrou em cena para dar ao regime o apoio necessário para finalmente começar a recuperar o país, cidade a cidade, quilómetro a quilómetro. Os russos bem podem agradecer a Barack Obama por esse brinde que lhes deu ao ameaçar invadir 

No seu auge havia quatro grandes fações na guerra. O regime, que contava com o apoio das minorias religiosas e de muitos sunitas também, sobretudo nos grandes centros urbanos; o Estado Islâmico, uma força niilista que espalhou sofrimento e morte por todo o lado e conseguiu avanços impressionantes em pouco tempo, lançando o terror nas almas das suas vítimas; a dita oposição “moderada”, que de moderada só tem o facto de não ser tão niilista como o Estado Islâmico, porque era igualmente dada a decapitações e ao fundamentalismo islâmico e, no nordeste do país, a região autónoma constituída por curdos, árabes, cristãos siríacos/assírios e outras minorias étnicas e religiosas.

Este último grupo era particularmente interessante. Com um projeto verdadeiramente democrático, que apostava em realçar, proteger e preservar as identidades de cada grupo, promovendo a colaboração, ao contrário do que faz o Governo que tenta impor uma identidade comum. Esta região conseguiu obter o apoio do ocidente na sua luta contra o Estado Islâmico, tendo sido as suas Forças Democráticas da Síria as principais responsáveis por derrotar militarmente o grupo terrorista. Infelizmente, e depois de tudo isto, foram traídos pela decisão de Donald Trump de retirar e viram-se invadidos pela Turquia. Para evitar um genocídio fizeram um acordo com o regime e, assim, o projecto democrático parece agora uma utopia.

Entretanto o regime foi chegando a acordo com os diferentes grupos de rebeldes que, vendo-se em situações impossíveis, optavam por ser retiradas das suas zonas e enviadas para a região de Idlib, junto da fronteira com a Turquia, que sempre as protegeu e apoiou. Até que aos rebeldes já só restava mesmo a região de Idlib.

O último ano tem visto o regime sírio, sempre com o apoio da Rússia, a avançar lentamente sobre Idlib. De vez em quando são anunciados cessar-fogo, mas duram sempre pouco tempo e os militares do regime retomam a sua rotina de bombardeamento.

A situação em Idlib torna-se insustentável. O regime não tem qualquer motivação para negociar, nada a ganhar em adiar a conquista final e sabe que enquanto Moscovo permanecer com ele tem as costas quentes.

Já recomeçaram as ondas de refugiados de Idlib para a Turquia, que com o apoio que tem dado aos rebeldes só tem que se culpar a si mesma pela situação. Quando Idlib for recuperada pelo regime o país pode começar a ser reconstruído. Goste-se ou não de Assad, parece evidente que este é o melhor caminho para o futuro da Síria.

Na melhor das hipóteses, reestabelecida a paz, poderá haver algumas cedências por parte do regime, nomeadamente para os grupos étnicos e religiosos minoritários, especialmente no nordeste, mas até isso parece difícil agora que perderam os seus maiores aliados.

Milhares de mortes, cidades inteiras destruídas, relações entre comunidades envenenadas, uma geração perdida, tudo por nada. É essa a realidade da Síria. Que venha rapidamente a paz para pôr fim a esta loucura.

Friday, 11 October 2019

Alma gémea do Estado Islâmico, dizem os autores da Primavera da Paz

A invasão do nordeste da Síria continua. A operação “Primavera da Paz” já fez mais de uma centena de mortos e dezenas de milhares de deslocados. A Turquia justifica-se dizendo que os curdos são a alma gémea do Estado Islâmico e um bispo católico avisa que tudo isto pode conduzir a um novo êxodo de cristãos da zona.

Há cada vez mais estrangeiros a fazer os “caminhos de Fátima”. Saiba mais nesta entrevista à presidente do Centro Nacional de Cultura, Maria Calado.


Gosta de literatura fantástica e ficção científica? Pois está a decorrer o Fórum Fantástico, na biblioteca Orlando Ribeiro, em Telheiras, e amanhã estarei lá às 17h15 para falar sobre a religião na Ficção Científica, tendo como mote os 20 anos da estreia do Matrix. (Sim, estamos todos a ficar velhos). Apareçam!

Thursday, 19 October 2017

Fuga Curda e Senhora Velejadora e Madragoas

Pôr-do-sol para os curdos em Kirkuk
Na sequência dos incêndios, a Cáritas Portuguesa abriu uma conta solidária. Saiba aqui como pode contribuir.

O Papa Francisco quis associar-se aos 500 anos da Sé do Funchal.

Ao longo dos últimos dias muito aconteceu no Iraque e na Síria. O Estado Islâmico foi expulso de Raqqa e os curdos estão a ser humilhados em Kirkuk e na Planície de Nínive, onde vivem muitos cristãos. O Patriarca da Igreja Caldeia pede às partes em disputa que protejam a vida acima dos poços de petróleo.

Convido-vos a conhecer o projecto de Ricardo Diniz, o navegador solitário que se prepara para rumar ao Brasil com uma imagem de Nossa Senhora de Fátima.

E aqui podem também ouvir a minha participação na Rádio Amália, em que se falou sobre religião e algo mais, com sugestões musicais pelo meio.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing sobre a importância de haver jornalistas católicos nos grandes órgãos de comunicação social e, caso não o tenham feito já, o da semana passada sobre o perigo apresentado pelas leis que criminalizam o chamado “discurso de ódio”.

Tuesday, 27 June 2017

Árabes consagram em Fátima, ameaçam no Curdistão e perdem nos EUA

Curdos próximos da independência no Iraque
Quem esteve em Fátima no fim-de-semana não pode ter deixado de se surpreender com a quantidade de pessoas que falavam árabe nas ruas. A explicação é fácil. Milhares de libaneses vieram ao santuário consagrar o seu país a Nossa Senhora. A sua protecção, dizem, tem evitado que a guerra da Síria passe a fronteira.

É lançado amanhã o novo livro de José Luís Nunes Martins, colunista da Renascença. Vale a pena ler esta entrevista para aguçar o apetite.

Domingo há ordenações um pouco por todo o país. Em Vila Real são dois os jovens que serão feitos sacerdotes. No dia seguinte estarão já a participar no torneio de futebol para padres…

Nos EUA o Supremo Tribunal deu a Donald Trump uma meia vitória na questão da proibição de entrada de muçulmanos no país.

Esta semana olhamos de perto para o que se passa no Iraque. A cidade de Mossul está prestes a ser libertada das garras do Estado Islâmico mas o futuro pode ainda trazer complicações. A agravar o problema temos o referendo pela independência anunciado pelo Curdistão Iraquiano para Setembro. Poderá estar prestes a nascer um novo Estado?

Não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing sobre a cristofobia e, indirectamente, a islamofobia do político americano Bernie Sanders.

Tuesday, 14 April 2015

Um ano com o Boko Haram, um dia em Sarajevo

Passa hoje precisamente um ano sobre o terrível rapto de perto de 300 raparigas de uma escola na Nigéria. Neste artigo da Renascença, com vídeo, saiba tudo sobre o acto que colocou definitivamente o Boko Haram no mapa.

Esta triste efeméride serviu também de pretexto para se falar com o Sheikh David Munir, imã da Mesquita Central de Lisboa, o que resultou nesta reportagem, também com vídeo.

Nesta entrevista, que pode ler aqui na íntegra, o imã explica que os muçulmanos portugueses não têm problemas de integração, critica as leituras extremistas do Alcorão, defende os salafitas e fala também da perseguição a que os muçulmanos são sujeitos no mundo.

As forças curdas estão a aproximar-se de Raqqa, a capital de facto do Estado Islâmico na Síria. Isto pode ser sinal de que o Estado Islâmico está em declínio… Veremos. Entretanto na Somália, mais um atentado do al-Shabab fez hoje 10 mortos na capital.

O Papa está a preparar a sua viagem a Sarajevo. À imagem da viagem que fez à Albânia, também de maioria muçulmana, Francisco passará apenas um dia na cidade, mas será um dia em cheio, com nove eventos planeados para apenas 14 horas.

Há muitos anos cruzei-me com um jovem militante da Juventude Socialista que, contra forças muito influentes no seu próprio partido, lutava incansavelmente contra a legalização do aborto em Portugal. Hoje o Claudio Anaia pediu-me para divulgar o seu blog, onde fala desse e de muitos outros assuntos, muitos dos quais ligados também a religião e actualidade social e política, o que faço com muito gosto.

Monday, 2 March 2015

Alguns reféns cristãos libertados e Godspell em Portugal

O drama dos cerca de 200 cristãos raptados na Síria continua, mas ontem houve uma boa notícia, com a libertação de cerca de 20 pessoas. Não é certo se foi pago um resgate ou se a libertação resultou de outro tipo de negociação, mas estão livres, que é o que interessa.

A notícia surgiu um dia depois de os curdos, a principal força armada anti-Estado Islâmico na região, terem dito que estão dispostos a trocar jihadistas presos pelos cristãos, mas não se sabe se isso influenciou a libertação dos 19.

Enquanto isto, o chefe da segurança do Vaticano deu uma rara entrevista na qual admite que o nível de alerta é elevada por causa das ameaças do terrorismo islâmico, mas que o Papa continua a querer manter o seu estilo de pontificado.

Há duas reportagens que não devem perder, sobre o trabalho levado a cabo no terreno por congregações religiosas. Em Coimbra as freiras vão para a rua para ajudar prostitutas e no bairro da Fonte da Prata são as Escravas do Sagrado Coração de Jesus que estão a trabalhar com pessoas em situações de carência. Dois projectos que vale a pena conhecer.

E parabéns à selecção de futsal de padres que conquistou o ouro no campeonato europeu!

Dois avisos para esta semana: Para quem vive ou trabalha na Baixa de Lisboa, vai haver uma sessão de esclarecimento sobre o projecto Escola no Chiado. A ideia é mesmo essa, um projecto educativo cristão no Chiado, numa colaboração entre a paróquia da Encarnação, dos Mártires e a Fundação Maria Ulrich. A reunião é na quarta-feira, às 21h15, no salão paroquial da Igreja da Encarnação.

Também esta semana estreia o “Godspell”. Trata-se de uma nova produção do famoso musical de Broadway que vai a palco com músicas totalmente adaptadas a português. É encenado por Matilde Trocado, que fez também o musical “Wojtyla” e “O Quadro”. Conheço quem tenha ido aos ensaios e ficaram espantados com a qualidade, por isso recomendo vivamente e espero ir ainda esta semana também. Aqui podem ver um vídeo promocional e aqui podem comprar bilhetes. As datas são de 5 a 15 de Março no Tivoli de Quintas e Sextas as 21h30, Sábados às 17h00 e 21h30 e Domingos às 17h00.

Monday, 29 December 2014

As duas escolhas dos yazidis

Yazidis durante o cerco ao monte Sinjar, em Agosto
Espero que todos (pelo menos os cristãos) tenham tido um Santo Natal!

Foi com agrado que vi que os cristãos e demais refugiados no Iraque e na Síria foram recordados este Natal por muita gente, desde clérigos a artistas.

Mas os cristãos não são os únicos a serem perseguidos no Iraque. Neste tipo de tragédias é difícil comparar sofrimentos, mas a verdade é que os yazidi foram perseguidos com particular dureza. Nesta entrevista Mirza Dinnayi explica porquê. Podem ver a transcrição completa, no inglês original, aqui.

Um jovem muçulmano foi condenado à morte por apostasia, na Mauritânia, expondo a deriva fundamentalista daquele país.

O turco que tentou matar o Papa João Paulo II foi depositar flores no seu túmulo, esta semana, tendo sido deportado logo de seguida…


Não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing, sobre o valordas histórias e testemunhos pessoais na transmissão da fé! Vale bem a pena.

Tuesday, 28 October 2014

Terra, Tecto e Trabalho!

Lutando pelos direitos das mulheres em todo o mundo...
Lembram-se de Narin Afrin? É a mulher que comanda as tropas que defendem Kobani do Estado Islâmico. Pois bem, ela escreveu um artigo de opinião para o New York Times no qual critica a Turquia e afirma que neste momento os curdos combatem pelos direitos das mulheres em todo o mundo.

Porque é que critica a Turquia? Bom, sei lá, talvez por coisas como esta.

O Papa falou hoje a membros do Encontro Mundial dos Movimentos Populares e disse que os direitos à Terra, ao Trabalho e à Habitação são sagrados e que as bem-aventuranças são um “guia revolucionário”. A meio do discurso gracejou que quando fala destas coisas vem sempre alguém dizer que é comunista.

Asia Bibi, a paquistanesa condenada à morte por blasfémia no Paquistão, escreveu uma carta ao Papa, a pedir-lhe as suas orações mas mostrando-se confiante no “plano de Deus” para ela.

Cuba vai ter uma nova Igreja, a primeira em mais de 55 anos.

Os bravos combatentes do Boko Haram voltaram a fazer aquilo que fazem melhor, raptar meninas adolescentes.

E a minha colega Rosário Silva foi à procura dos tesouros da diocese de Évora, que partilha connosco aqui.

Friday, 24 October 2014

Motards v. Estado Islâmico

A outra faceta dos motards
Se pensa que já viu tudo na guerra contra o Estado Islâmico, apresento-lhe os motards do No Surrender e do Median Empire que foram lutar ao lado dos curdos. Pronto, agora já viu tudo… por enquanto.

Enquanto as coisas vão de mal a pior para os cristãos no Iraque e na Síria, no Egipto vão de mal a menos mal, o que já é qualquer coisa.

O Papa emérito Bento XVI “falou” novamente em público. Ou melhor, escreveu um discurso que foi lido por outro, mas que vale a pena conhecer.

Entretanto a Sé de Leiria foi classificada como monumento nacional. Neste momento só falta Beja, por razões burocráticas que, tanto quanto sei, estão em processo de resolução.

Decorre no Minho, por estes dias, o congresso da Associação de Imprensa de Inspiração Cristã. A crise não deixou de afectar estes órgãos de comunicação social, mas há novas possibilidades de financiamento.

Tuesday, 7 October 2014

Os turcos estão na fronteira... mas não avançam

Estaremos à beira de mais uma chacina no Médio Oriente? O Estado Islâmico já conseguiu entrar na cidade de Kobani, cujos habitantes estão a resistir ferozmente. A Turquia, com o segundo maior exército do mundo, está atenta… mas não faz nada.

Também na Síria um padre foi raptado juntamente com outros 20 cristãos de uma aldeia. É mau sinal quando sentimos alívio por saber que os raptores são da Al-Qaeda, e não do Estado Islâmico.

Os casais estão a fazer toda a diferença no sínodo, facilitando as conversas sobre temas importantes.

Decorre no Algarve um encontro de associações de homossexuais católicos, que esperam mais acolhimento por parte da Igreja. Amanhã voltaremos a este tema com uma perspectiva diferente.

A semana passada publiquei uma reportagem com o testemunho de Joaquim Mexia Alves, que viveu nove anos como divorciado e recasado, sem poder comungar, enquanto esperava o resultado de um processo de nulidade. Hoje publico a transcrição completa da entrevista. Leitura obrigatória para quem vive esta situação, directa ou indirectamente.

Friday, 8 August 2014

Agora aguentem-se Estado Islâmico!

Sabes que nunca fui grande fã, mas obrigado!
Não sei se foram as orações, o lobbying, ou simplesmente o impacto dos relatos e das imagens, mas finalmente vemos acção internacional no Iraque.

Os EUA mostraram que é só para isto que vale a pena ser uma superpotência e já começaram a lançar ajuda humanitária para ajudar os yazidis e iniciou também ataques contra o Estado Islâmico.

Washington: Caso tenham dificuldade em reconhecê-los, são os tipos que passam a vida a decapitar pessoas e a tirar fotos a segurar nas cabeças das vítimas, enquanto se riem.

Já agora, para quem sempre quis saber quem são e no que acreditam os yazidis, está aqui a informação toda. Saiba também porque é que os fundamentalistas os consideram satânicos.

Entretanto o primeiro-ministro do Iraque, outro dos responsáveis pela situação, uma vez que nem sequer consegue formar um Governo para fazer frente à ameaça, está sob ainda mais pressão para se demitir, depois de ter ouvido umas bocas fortes da parte do principal líder religioso dos xiitas.

O Papa Francisco, que foi criticado por ontem apenas ter mandado ler um documento em seu nome durante um briefing na Sala de Imprensa da Santa Sé, disse hoje que vai enviar um cardeal italiano para o representar junto dos refugiados. O Papa publicou também um tweet a pedir orações. É dirigido a “todos os homens e mulheres de boa vontade”, mas essas pessoas devem falar todas inglês, porque mais nenhuma das contas do Papa replicou a mensagem, nem sequer em árabe… vá lá malta da comunicação do Vaticano, estão todos de férias?

Se estão, ou não, não sei. Mas eu vou, a partir de agora. Os mails ficam suspensos, mas em caso de alguma notícia de última hora mais urgente, não vos deixarei sem o meu apoio! Não se esqueçam que há ainda o grupo do Facebook e o Twitter que vão sendo alimentados regularmente. 

Monday, 4 August 2014

Edição Epidemia - Ébola & Estado Islâmico

Uma igreja assíria recentemente
ocupada pelo Estado Islâmico
O Papa Francisco disse ontem que as “nossas” necessidades não são mais urgentes que as dos pobres e convidou todos a não desviar o olhar dos necessitados.

Foi ordenado ontem um bispo na Ucrânia. Nada de espantoso, não tivesse ele apenas 37 anos, sendo o mais novo da Igreja Católica neste momento.

O surto de ébola continua a fazer vítimas. Para além das centenas de africanos que têm morrido nos seus países, vários ocidentais, sobretudo funcionários de saúde, têm sido infectados também. Destes, muitos são missionários, leigos ou religiosos. Esta segunda-feira soube-se que um padre espanhol de 75 anos, na Libéria, poderá ser a mais recente vítima.

No sábado houve uma série de manifestações em todo o mundo de solidariedade com os cristãos perseguidos no Iraque. Os manifestantes pedem ainda a criação de uma região autónoma no Iraque para poderem viver em paz. Mais sobre isto amanhã…

Entretanto para quarta-feira dia 6 de Agosto foi decretado um dia de oração pelos cristãos iraquianos. Pode saber mais neste site criado para o efeito.

A situação para os cristãos no Iraque não tem dá ares de estar a melhorar. Pelo contrário, durante o fim-de-semana os terroristas do Estado Islâmico ocuparam mais território no Norte do Iraque, incluindo aldeias e vilas historicamente cristãs e de outras minorias religiosas, que foram obrigadas a fugir. Os soldados curdos, que até agora comandavam estes territórios, prometem regressar em força e destruir o Estado Islâmico “sem piedade” dentro de 72 horas. Parece optimista, mas estou a torcer por vocês amigos…

Monday, 16 July 2012

Uma breve análise da situação na Síria, pelo espectro religioso

Alauítas na Síria em apoio a Assad
A Síria continua emaranhada numa terrível violência, sem solução à vista.

Nas últimas duas semanas houve notícia de duas deserções muito significativas para regime, nomeadamente do embaixador sírio no Iraque e, antes disso, de um importante general aliado de Bashar Al-Assad.

O que é que estas duas figuras têm em comum? São ambos sunitas, como é quase toda a hierarquia da oposição ao regime, bem como a massa dos opositores que nas ruas têm agitado pelo fim do regime de Assad.

Estas notícias apenas confirmam algo que tenho dito desde o início do conflito: não é possível compreender o que se passa na Síria sem ver e compreender o espectro religioso, não só internamente mas também a nível regional.

Antes de mais, um rápido olhar ao país.

A Síria é composto por vários grupos éticos e religiosos. A esmagadora maioria da população, cerca de 75%, são muçulmanos sunitas. Os sunitas são o maior grupo islâmico a nível mundial e dominam também a maioria dos países da região árabe.Contudo, na Síria o regime é dominado por outro grupo, os alauítas.

Os alauítas são um ramo do Islão Xiíta. São encarados como heterodoxos tanto por sunitas como por a maioria dos xiítas, mas apesar de tudo são mais próximos destes do que aqueles. Na Síria os alauítas constituem cerca de 10% da população, mas tanto a família Assad como grande parte da estrutura que o cerca, pertencem a este grupo.

Ainda dentro do Islão deve-se falar dos curdos. Em termos religiosos os curdos, que são cerca de 5% da população, são sunitas também, mas isso não significa um alinhamento automático com a oposição. A questão tem grandes aspectos religiosos, mas a identificação religiosa não explica tudo.

Por fim, temos os cristãos. Cerca de 10% da população, há décadas que os cristãos encaram a Síria como um oásis de paz, progresso e estabilidade numa região volátil.


Sendo dominado por outra minoria religiosa, ao regime nunca interessou usar um discurso religioso e por isso o secularismo era ferozmente defendido em nome da unidade nacional. Não havia liberdade de expressão, é certo, nem liberdades políticas, mas havia liberdade de culto e não existiam problemas inter-religiosos.

Os cristãos estão divididos em várias igrejas católicas e ortodoxas, mas no terreno as relações são normalmente próximas. Com o início do conflito os cristãos não aderiram à revolta e alguns dos seus representantes apoiaram clara e publicamente o regime. Com a intensificação das lutas esse apoio foi-se moderando com apelos ao fim da violência, mas é claro que uma boa parte da oposição identifica os cristãos como sendo aliados de Assad e há muita preocupação entre a comunidade cristã de que o fim do regime traga os mesmos problemas que se têm visto no Iraque desde a queda de Saddam.

O facto de os cristãos, por tradição, não terem milícias nem recorrerem à violência torna-os alvos fáceis e, nalgumas aldeias, obriga-os a alianças de ocasião, na maior parte dos casos com os alauítas, que são na esmagadora maioria fiéis ao regime e temem uma verdadeira limpeza étnica no caso de este cair. É de realçar que o ministro da Defesa, nomeado em Agosto de 2011, e por isso uma peça chave no combate à revolta, é cristão.
Assad com o Patriarca Ortodoxo-antioqueno da Síria

O cenário interno é este, e é também isto que ajuda a perceber a reacção dos países vizinhos, a começar pela Turquia. Depois de anos a tentar entrar na União Europeia, sem qualquer sucesso para apresentar, Ancara está a olhar para o que se passa no Médio Oriente e a dar sinais de se querer impor como a grande força da região. Os turcos são, na esmagadora maioria, muçulmanos sunitas e por isso não é de admirar que haja uma natural solidariedade com a oposição, que tem usado terreno turco para se reunir e planear os ataques ao regime.

Outra grande potência da região é a Arábia Saudita, que apesar de ser tudo menos democrática, tem apoiado os esforços da oposição para destronar Assad. A solidariedade saudita não chega, por exemplo, ao Bahrein, onde um regime dominado por sunitas é contestado pela maioria da população, que é xiíta.

É precisamente o contrário do que se passa com o Irão, a grande potência xiíta mundial, que apoia os revoltosos do Bahrein mas tem todo o interesse em manter o regime de Assad em Damasco.

A Síria é assim uma peça fundamental no jogo de influências entre o mundo xiíta, liderado por um Irão prestes a conseguir uma arma nuclear, e o mundo sunita, maioritário.

Ao lado da Síria reina o nervosismo no Líbano, onde cristãos, sunitas e xiítas vivem mais ou menos em iguais proporções. O Líbano é um país minúsculo, que durante anos viveu na órbita de Damasco. Mudanças na Síria seriam muito importantes para o Líbano, principalmente porque um regime sunita dificilmente permitira que o Irão continuasse a fornecer o Hezbollah, o partido xiíta que hoje em dia tem mais força em Beirute e que mais mostra os músculos a Israel.

Quanto a Israel, a outra potência a ter em conta na região, poderá até ver com bons olhos a instalação de um regime que ajude a controlar o Hezbollah, mas por outro lado as relações com Assad estavam relativamente pacificados, e nunca se sabe o que trará um Governo novo ou democraticamente eleito.
Filipe d'Avillez

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