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Friday, 26 February 2021

FNO, é agora ou nunca

Hoje é o último dia para se inscrever no Faith’s Night Out. Saiba aqui porque o deve fazer e inscreva-se diretamente no site.

Notícia de perseguição aos cristãos na Nigéria, onde uma igreja foi incendiada por bandidos armados.

A Cáritas está sem mãos a medir para lidar com a crise provocada pela pandemia. Infelizmente a ajuda pode não chegar a todos.

Parabéns ao cardeal D. José Tolentino Mendonça, que venceu o prémio Universidade de Coimbra!

E não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing sobre o “Caminho sinodal” da Alemanha, cujo formato e conteúdo preocupa seriamente o padre Gerald Murray, que assina esta coluna.

Wednesday, 24 February 2021

O Caminho Sinodal Cismático da Alemanha

Pe. Gerald E. Murray
Um esforço que só pode ser classificado como sendo de autodestruição da Igreja Católica na Alemanha – e mais além – está a ser levado a cabo pelos bispos do país, em conjunto com o Comité Central de Católicos Alemães, uma organização de leigos católicos, reconhecida oficialmente pela Igreja local. O vaticanista Sandro Magister chamou a atenção para o escândalo que constitui o chamado Caminho Sinodal, citando as recomendações, que melhor se podem descrever como exigências não-negociáveis, no documento fundacional divulgado recentemente sob o título “Poder e separação de poderes na Igreja – Participação comum e partilha na missão”.

O Caminho Sinodal Alemão (Der Synodale Weg) tem por objetivo subtrair o poder, autoridade e controlo ao Papa e aos bispos e entregá-lo a um laicado radical e clérigos e religiosos aliados. Tal deve acontecer através de uma proposta de um “fórum sinodal também na Igreja universal, uma assembleia da Igreja universal, um novo concílio em que os crentes dentro e fora do ministério ordenado deliberam e decidem em conjunto sobre questões de teologia e cuidados pastorais, bem como sobre a constituição e estrutura da Igreja”.

Nesta assembleia revolucionária os pastores já não seriam guias do rebanho, mas sim mais um bloco eleitoral a par do laicado, presumivelmente mais numeroso, que em todo o caso teriam escolhido os seus bispos uma vez que “a governação deve sempre ser codeterminada pelos governados, pelo que uma proposta importante é de que os decisores eclesiásticos devem também ser eleitos e sujeitos a eleição regular, em que os poderes que lhes são confiados possam ser confirmados ou delegados noutrem”.

De facto, “o objetivo é garantir a partilha de responsabilidade e participação de todos os fiéis tanto nos processos deliberativo como decisório”. Para o alcançar torna-se ainda necessário “reajustar a estrutura constitucional da Igreja para fortalecer os direitos dos fiéis na governação da Igreja”.

Se alguém contrapor que Cristo, o pastor-mor, é que atribui a autoridade aos apóstolos e seus sucessores, isso, ao que parece, é um conceito ultrapassado. “Os fiéis costumam aceitá-los como autoridades cujos juízos e decisões não podem ser questionados, como ‘pastores’ em virtude de uma legitimidade divina, a quem devem obedecer como ‘ovelhas’. Estes modelos foram ultrapassados pelo tempo, e bem, porque não eram teologicamente bem fundamentados”.

Dessa forma, a natureza hierárquica da Igreja é descartada como obsoleta e injustificada.

A autoridade episcopal e papal são rejeitadas de forma clara: “Ninguém tem a competência para decidir por si só sobre o conteúdo da fé e os princípios da moralidade; ninguém tem o direito de interpretar os ensinamentos da fé e da moral com a intenção de exortar os outros a ações que só servem os seus interesses ou correspondem às suas ideias, mas não às convicções dos outros”.

Será que as “convicções” se tornaram agora a norma das crenças e do comportamento cristão? Absolutamente: “A pluralidade de estilos de vida, tradições de piedade e posições teológicas no seio da Igreja não é uma ameaça, mas um bem que aprofunda a unidade viva da Igreja. ‘Não julgues, para não serdes julgado’. Mt. 7,1”.

Tudo isto encontra-se num documento cheio de juízos negativos sobre doutrinas católicas “teologicamente mal fundamentadas” e que evoca “estudos” que afirmam que a Igreja tem alienado pessoas através de “estruturas de poder que são vistas como retrógradas ou datadas… especialmente no campo da justiça de género e na avaliação de orientações sexuais ‘queer’, bem como em lidar com falhanços e novos começos (por exemplo casamento depois do divórcio).”

A responsabilização perante a Igreja por ignorar ou negar os ensinamentos do Evangelho passa agora a ser proibida porque, por incrível que pareça, isso “contradiz o Evangelho”: “O facto de haver pessoas na Igreja que temem ser punidas por comportamentos que não ‘encaixam no sistema’ contradiz o Evangelho. A denúncia é um mal que deve ser combatido de forma firme. A comunicação dos crentes tanto dentro como fora da Igreja não deve ser monitorizada nem criticada por detentores de cargos na Igreja”.


De facto, “uma forma de lidar com a complexidade que seja atenciosa e sensível à ambiguidade pode ser vista como um sinal básico de contemporaneidade intelectual – e também abrange a teologia contemporânea. Para a teologia também não existe uma perspetiva central, uma verdade única sobre o mundo religioso, moral e político, e nenhuma forma de pensamento que possa reclamar a autoridade definitiva. Também na Igreja os pontos de vista e estilos de vida diferentes podem competir uns com os outros mesmo nas convicções centrais. Sim, podem ao mesmo tempo reclamar teologicamente a verdade, a correcção, compreensibilidade e honestidade, ainda que se contradigam nas suas afirmações e na sua linguagem”.  

A mesma atitude de “viva e deixe viver” não se aplica, contudo, às decisões postas a votação na assembleia do Caminho Sinodal: “esperamos que as recomendações e as decisões adotadas pela maioria sejam também apoiadas por aqueles que votaram de forma diferente. Esperamos que a implementação das decisões seja examinada de forma rigorosa e transparente por todos. Esperamos que todos ajudem a promover a capacidade de ação da assembleia sinodal”.

Por isso vemos que os ensinamentos constantes e universais da Igreja podem e devem ser alteradas por maioria, permitindo, por exemplo, a ordenação de mulheres para o diaconado, sacerdócio e episcopado. Os participantes do Caminho Sinodal não têm de “apoiar” nem “promover” nada que rejeitem do Depósito da Fé, mas aqueles que votarem contra as inovações destrutivas são instruídos a “apoiar” e “promover” aquilo que rejeitaram, em consciência, como sendo ofensivo para a Fé.

Este mandato coercivo de “obedecer, senão” é revelador da natureza de todo este processo: um esforço calculado de derrubar o catolicismo em nome da conformidade com o espírito da nossa era de descrença, um espírito narcisistamente apostado em pôr as mãos em todo o poder na Igreja para poder redefinir a realidade e reescrever a revelação, promovendo a licença e suprimindo todas as recordações da lei de Deus. Esta subversão clara tem de ser travada já, antes de prejudicar ainda mais a Igreja.

Roma tem de intervir – e rápido.


O padre Gerald E. Murray, J.C.D. é pastor da Holy Family Church, em Nova Iorque, e especializado em direito canónico.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 22 April 2020

Respeito pelo Corpo

Pe. Gerald E. Murray
A Páscoa é a revelação da verdade do dom da vida eterna que Deus nos dá: Cristo ressuscitou e a todos os que estão unidos a Ele numa relação viva de amizade nesta vida, será dada a plenitude dessa união na vida no Céu.

Este dom da vida eterna é dada à pessoa como um todo, corpo e alma. Quem for salvo viverá para sempre com Deus até à segunda vinda de Cristo para julgar os vivos e os mortos. As almas daqueles que morreram na graça de Deus aguardam no Céu ou no Purgatório a ressurreição dos seus corpos. As almas dos condenados também aguardam a ressurreição dos seus corpos, mas no Inferno.

Quando Cristo regressar, os corpos de todos os homens, mulheres e crianças que alguma vez viveram serão reunidos às suas almas. Os justos manter-se-ão eternamente unidos a Deus, em corpo e alma, no Céu e os condenados serão eternamente separados, corpo e alma, de Deus, no Inferno.

A doutrina da ressurreição dos corpos no dia do Juízo Final raramente é compreendida ou apreciada pelos crentes. Concentramo-nos sobretudo naquilo que acontece à alma quando morremos. Rezamos pelas almas dos fiéis defuntos, “que descansem em paz”, mas bem poderíamos acrescentar “e que ressuscitem em glória dos seus sepulcros”.

Talvez tenham visto as imagens dos restos mortais das vítimas do coronavírus aqui em Nova Iorque a serem sepultados em massa em Potters Field, na Ilha de Hart, ao largo do Bronx. As filas de caixões, enterrados juntos numa longa vala, são uma imagem marcante de morte, mas também de esperança.

Tratamos dos corpos daqueles que não são reivindicados por ninguém com dignidade e respeito. Esta é uma manifestação social da herança judaico-cristã que trata com reverência os restos mortais da mais alta criação de Deus sobre a terra. O homem, feito do pó da terra, é devolvido à mesma terra no final da sua peregrinação terrena. O seu corpo tornar-se-á pó novamente, mas Cristo ensinou-nos que esta não é a palavra final. Esses corpos são dele, por Ele aguardam, e devem ser sepultados num lugar condigno.

A visão inerente à prática de sepultar os mortos era, até há poucos anos, universalmente apreciada e aceite pelos católicos, reforçada pelo requisito eclesial de sepultar os batizados em terra consagrada, sempre que possível, e pela proibição da cremação, uma prática estranha à fé cristã.

É providencial, por isso, que o livro mais recente de Scott Hahn, “Hope to Die: The ChristianMeaning of Death and the Ressurrection of the Body”, escrito em coautoria com Emily Stimpson Chapman, tenha aparecido durante esta pandemia de coronavírus. Hahn escreve de forma eloquente sobre a realidade da morte e a natureza da vida celeste, e como teremos a bênção de aprender o sentido de tudo quando, e se, atingirmos a Visão Beatífica.

Mas não se trata apenas de uma experiência “espiritual”. “Deus ressuscitará os mortos – não apenas espiritualmente, mas fisicamente. Afinal de contas, se a ressurreição fosse apenas espiritual, então seria indiferente o que fazemos aos corpos depois da morte. Mas havendo uma ressurreição física, os corpos interessam. O que acontece aos corpos interessa. Como sepultamos os corpos interessa”.

Scott Hahn
Durante os meus 35 anos de sacerdócio assisti à rápida disseminação da cremação entre os católicos. Sempre foi uma coisa que me preocupou, mas aceito que São Paulo VI autorizou a prática, anteriormente proibida, em 1963. Como escreve Hahn: “Para a maioria dos cristãos, durante quase dois milénios, era impensável que se optasse por destruir totalmente corpos destinados à glória e já tocados pela graça… Desde os primeiros tempos, os cristãos sepultavam os seus mortos, como Cristo havia sido sepultado”.

O Cristianismo desenvolveu uma cultura em que se visitam as campas dos mortos e os ossos dos santos são venerados como relíquias. Deus, que fez os nossos corpos, nunca nos mandou queimar os restos mortais dos falecidos. Ao enterrar os mortos na terra estamos a confiar o seu corpo a Deus, tal como confiamos a sua alma, que temporariamente o abandonou.

Hahn recorda-nos de uma coisa que muitos tendem a esquecer, ou nunca souberam. “A Igreja não aprova a cremação; permite-a. Não permite que se espalhem as cinzas ou que sejam guardadas em casa; proíbe-o. Considera que a sepultura é a forma mais digna de cuidar dos corpos dos mortos até que regressam no dia do Juízo Final e encoraja-nos a seguir essa recomendação.”

Porquê esta renitência em relação à cremação? Hahn analisa o significado da cremação, por oposição ao enterro, independentemente das intenções subjetivas de quem a pede: “A cremação diz coisas sobre o corpo que são diretamente contrárias ao que a Igreja professa. Ensina que o corpo é descartável. Ensina que o corpo não é uma parte integral da pessoa e ensina que o corpo não tem valor depois de a alma partir, que já deu tudo o que tinha a dar e que mais nada lhe espera. Nem ressurreição, nem transformação nem glorificação”.

Claro que a maioria dos católicos que manda cremar os seus familiares não o faz por negar a ressurreição do corpo no Juízo Final. Mas a forma como tratamos os nossos mortos devia refletir a nossa esperança na ressurreição da carne. É evidente que Deus também ressuscitará as cinzas daqueles que foram cremados, unindo-as às suas almas. Não podemos mudar ou frustrar os planos de Deus para a humanidade. Mas temos de perguntar porque haveríamos de obliterar pelo fogo os corpos de mortos que foram santificados no baptismo?

A cremação é, na sua essência, um costume pagão. Os cristãos devem evitá-la e honrar a Deus, honrando, através de um enterro reverente, os restos mortais dos filhos de Deus que partiram antes de nós, na expectativa daquele grande reencontro da humanidade, corpos e almas unidos de novo, no Juízo Final.


O padre Gerald E. Murray, J.C.D. é pastor da Holy Family Church, em Nova Iorque, e especializado em direito canónico.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 19 de Abril de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 30 May 2018

Aprender com as Lições do Chile

Pe. Gerald E. Murray
A notícia surpreendente de que todos os bispos do Chile tinham apresentado a sua resignação ao Papa Francisco é um desenvolvimento impressionante. Quando o Papa Francisco visitou o Chile e o Peru, em Janeiro, eu estava a comentar em directo para a televisão da Diocese de Brooklyn e discutimos longamente a forte repreensão do Papa às pessoas que acusavam o bispo Juan Barros de ter permitido o abuso sexual de menores por parte do seu amigo e mentor, o padre Fernando Karadima.

Cinco meses mais tarde, depois de uma reunião de três dias em Roma com o Papa Francisco, a Conferência Episcopal do Chile concluiu, por inteiro, que a sua partida colectiva seria do agrado do Papa e lhe daria maior liberdade para restaurar a confiança dos católicos chilenos, nomeando novos bispos em todo o país. Como é que a coisa chegou a este ponto?

Na conferência de imprensa em que anunciou a resignação em massa, o bispo Fernando Reyes, secretário-geral da Conferência Episcopal Chilena, disse:

Neste contexto de diálogo e discernimento, foram apresentadas várias sugestões sobre como lidar com esta grande crise e desenvolveu-se a ideia de que para estar mais em linha com a vontade do Santo Padre seria apropriado declarar a nossa disponibilidade absoluta para colocar as nossas responsabilidades pastorais nas mãos do Papa. Desta forma pudemos ter um gesto colegial de solidariedade e assumir a responsabilidade – não sem pesar – pelos actos graves que ocorreram, para que o Santo Padre possa decidir livremente como quer proceder em relação a nós.

Ao que parece, os bispos chilenos pensam que o Papa queria as suas resignações. Em Janeiro este desenvolvimento seria impensável. O que é que se passou? A explosão da fúria das vítimas de abusos sexuais e dos católicos comuns, combinada com uma cobertura persistente do conflito por parte dos media.

O Papa tomou a peito as reacções fortes aos seus comentários. Mandou dois investigadores externos para o Chile para recolher provas e dar-lhe conta do que descobriam. Depois chamou a hierarquia chilena a Roma.

Apresentou aos bispos as provas recolhidas pelos seus investigadores numa carta (mais tarde mostrada à imprensa) dada aos bispos chilenos quando chegaram a Roma. Os claros erros citados pelo Papa batem certo com experiências semelhantes noutros países: destruição de provas; transferência de padres acusados, sem preocupação pelos menores que passariam a estar sob a sua influência, tácticas de adiamento e investigações superficiais ou inexistentes das queixas recebidas, bem como pressão sobre os que desenvolveram as investigações aos alegados crimes; e a colocação por parte de bispos e de superiores religiosos de padres suspeitos de serem homossexuais activos em seminários e noviciados.

Não admira que os investigadores tenham encontrado este padrão, já tão familiar, no Chile. Os relatos a Roma por parte da hierarquia chilena, nesta matéria, incorriam em deficiências graves ou eram mesmo enganosas.

A lição aqui é clara: Se a Santa Sé quer extirpar o abuso sexual de menores por parte de membros do clero, e pôr fim aos encobrimentos por parte de clero e bispos em lugares de topo, então deve usar os mesmos meios que usou aqui noutros lugares. Investigadores nomeados pelo Vaticano, sem ligações à igreja local, devem ser enviados para recolher dados quando surgem queixas de abusos sexuais e encobrimentos.

O sistema actual de deixar a vigilância e os relatos à hierarquia local provou ser completamente desadequado no caso chileno. A eficiência das provisões canónicas que governam as situações de acusação de abuso sexual de menores por parte de padres assenta numa colaboração plena e vigorosa da hierarquia local. Se isso não acontecer, a justiça não pode ser feita. Mas essa colaboração muitas vezes não existe.

A triste realidade é que a exposição do crime de abuso sexual de menores e as tentativas em larga escala de bispos e de superiores de ordens religiosas para esconder os factos do público não resultou de acções iniciadas pela Igreja, mas sim pela polícia, tribunais e os media em vários países.

No caso do Chile as vítimas de abusos sexuais só receberam uma audição justa em Roma depois de insistirem na verdade das suas afirmações, após rejeição episcopal e papal. O Papa Francisco decidiu olhar novamente para o assunto e o que descobriu foi que não lhe tinha sido contada a história completa.

Também devia aproveitar para rever os registos de vários departamentos da cúria romana que estiveram envolvidos na supervisão da situação do Chile ao longo dos últimos 30 anos. A Congregação para a Doutrina da Fé considerou o padre Karadima culpado de abuso de menores em 2011. Foi proibido de exercer o ministério sacerdotal e ordenado a viver uma vida de oração e penitência. Consta que ainda reclama a inocência. O que foi feito foi suficiente?

Ao não removê-lo do sacerdócio e reduzi-lo ao estado laical, a gravidade dos seus crimes não foi suficientemente reconhecida. Tal como no caso do padre Marcial Maciel, que também não foi despido do sacerdócio, não obstante os seus múltiplos e graves crimes, uma vida de oração e de penitência torna-se o equivalente funcional de uma reforma antecipada e não retira ao predador sexual o estado de vida que lhe permitiu ter tão fácil acesso às suas vítimas.

A remoção do sacerdócio é uma reprimenda inconfundível pela grave ofensa que deu a Cristo e aos seus mais pequeninos, e comunica de forma clara para todo o mundo que a Igreja considera que ele perdeu o direito a exercer o ofício do sacerdócio de que tanto abusou.

A acção tomada por Roma na situação do Chile era necessária e purgativa. A missão da Igreja é promover o Evangelho. Isso inclui fazer tudo o que for possível para proteger os inocentes e punir os culpados. Não se trata de vingança, mas de justiça.

Agora chegou a altura de lançar o mesmo olhar para outros países onde permanecem questões semelhantes sobre a forma como se lidou com acusações de abusos sexuais e encobrimentos.


O padre Gerald E. Murray, J.C.D. é pastor da Holy Family Church, em Nova Iorque, e especializado em direito canónico.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 24 de Maio de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 24 May 2017

Trump, Francisco e a Mantilha de Melania

Nossa Senhora Auxiliadora da China
A notícia do dia é o encontro entre Trump e o Papa Francisco. Falaram sobre muita coisa e trocaram presentes mas claro que o que gerou mais atenção foi a roupa de Melania e de Ivanka Trump. Se não sabe porque é que estavam de preto, aproveite para descobrir.

Hoje é dia de oração pela Igreja na China. O cardeal Joseph Zen reza mas aproveita também para criticar o regime.

Uma capela na Índia dedicada a Nossa Senhora de Fátima foi vandalizada por fanáticos hindus.

Sabia que existe uma Bíblia escrita em verso? Pois é verdade! E é de autoria portuguesa…

O Papa nomeou novos cardeais. Há surpresas não só pelos locais representados, mas também pelo facto de um deles ser bispo auxiliar de uma diocese cujo bispo não é cardeal.

E os terroristas continuam a fazer das suas. Na segunda-feira à noite deu-se o terrível ataque em Manchester, mas nas Filipinas também houve novos confrontos.

Leiam também o artigo desta quarta-feira do The Catholic Thing em que o padre Gerald Murray escreve sobre a importância da verdade e da realidade também nas relações ecuménicas. O tema aqui é a validade das ordens anglicanas, o que pode parecer uma ninharia,mas na realidade tem bastante importância.

A Verdade não é Rígida, é Real

Pe. Gerald E. Murray
A realidade interessa? Ela é a referência necessária e decisiva para descobrir o que é e o que não é, o que é verdade e o que é falso? Ou será a realidade sujeita a revisão com base nas nossas preferências, desejos ou outros factores? São questões como estas que se nos colocam quando vemos comentários como aqueles feitos pelo Cardeal Francesco Coccopalmerio sobre a validade das ordens anglicanas. Segundo Christopher Lamb, do “The Tablet”, Coccopalmerio caracterizou o ensinamento da Igreja sobre as ordens anglicanas da seguinte maneira: “Temos tido, e temos ainda, uma compreensão muito rígida sobre a validade e a invalidade: Isto é válido, aquilo não é. Mas deve-se poder dizer: ‘Isto é válido num certo contexto, aquilo é válido noutro’.”

O Cardeal especula sobre as implicações doutrinais de gestos papais de respeito e de amizade no passado, dizendo: “O que significa o facto de o Papa Paulo VI ter dado um cálice ao Arcebispo de Cantuária? Se era para celebrar a Ceia do Senhor, a Eucaristia, então era para ser feito de forma válida, não?” E continua: “Isto é ainda mais significativo do que a cruz peitoral, porque o cálice não é usado apenas para beber, mas para celebrar a Eucaristia. Com estes gestos a Igreja Católica está já a intuir, a reconhecer uma realidade”.

Estas declarações surgem num novo livro, cujo título não é indicado por Lamb, que inclui o conteúdo de um encontro do Grupo de Conversação de Malines, que teve lugar perto de Roma em Abril deste ano. A Rádio Vaticano cobriu o encontro, tomando nota da participação do Cardeal Coccopalmerio. A reportagem da Rádio Vaticano inclui comentários feitos pelo padre Tony Currer, do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos. Sobre as ordens anglicanas ele diz: “Penso que é verdade que não utilizamos termos como ‘nulas’” pois “claramente não é isso que dizem os gestos, a generosidade e a simpatia que temos visto repetidamente”.

Validade é sinónimo de realidade quando se fala de sacramentos. A Igreja ensina claramente o que é necessário para a celebração válida – isto é, verdadeira e real – dos sacramentos. Ao invocar linguagem pejorativa como “compreensão rígida” sobre validade e invalidade, Coccopalmerio reduz o entendimento da Igreja sobre o que conta como um sacramento válido à expressão de uma atitude psicologicamente doentia, radicada na ignorância e no medo irracional.

A questão da validade é simples: A Igreja considera que uma ordenação anglicana é uma administração válida do sacramento da Ordem? A resposta é não, tal como foi determinado com a autoridade do Papa Leão XIII na sua encíclica Apostolicae Curae. A ordenação anglicana não transforma um homem num sacerdote católico. Essa determinação é objectiva e feita com base num estudo razoável e cuidadoso da história, da doutrina e da prática tanto da Igreja Católica como da Comunhão Anglicana.

Paulo VI e o arcebispo de Cantuária
Coccapalmerio diz mais: “Quando alguém é ordenado na Igreja Anglicana e se torna pároco numa comunidade não podemos dizer que não se passou nada, que é tudo ‘inválido’.” A opção apresentada nesta afirmação é de que numa ordenação anglicana ou o homem se torna um padre validamente ordenado, ou então nada acontece. Mas há uma terceira possibilidade: A ordenação anglicana transforma alguém num padre anglicano, não num padre católico.

A Igreja ensina que esta ordenação não é uma ordenação católica válida. O homem ordenado numa cerimónia anglicana não recebe o sacramento da Ordem. O sacramento da Ordem não é administrado. (Deixo de parte aqui a questão de anglicanos ordenados por bispos que receberam sagração episcopal das mãos de bispos veterocatólicos ou ortodoxos).

Mas aparentemente Coccopalmerio e Currer resistem a esta verdade. O Cardeal afirma que o cálice que o Papa ofereceu ao Arcebispo de Cantuária significa que o Papa Paulo VI considerava que o Serviço de Comunhão Anglicano era uma celebração válida da Missa porque “era suposto ser feito de forma válida”. Mas o Papa Paulo VI nunca disse aquilo que Coccopalmerio conclui. Um gesto não equivale a um pronunciamento papal.

O padre Currer diz que “nós já não usamos termos como ‘nulo’”. Se por “nós” se refere à Igreja Católica, está enganado. O pronunciamento do Papa Leão XIII não foi rejeitado por qualquer dos seus sucessores. É evidente que o padre Currer e outros não gostarem do facto de as ordens anglicanas terem sido consideradas nulas. Mas esta insatisfação de Currer com o exercício do magistério papal não significa que a Igreja tenha deixado de defender a invalidade das ordens anglicanas.

Coccopalmerio procura dispensar a verdade objectiva do que constitui validade sacramental na Igreja Católica, tornando-a variável de acordo com um “contexto”. Não estamos perante relativismo, puro e simples? O Cardeal não afirma que os critérios para determinar a validade ou a invalidade da administração da Ordem foram mal aplicados por Leão XIII quando este examinou as ordens anglicanas. (Talvez aborde a questão noutro lado). Limita-se a dizer que estes critérios não se devem aplicar porque são rígidos. A conclusão do Papa Leão XIII de que as ordens anglicanas são inválidas é criticada como sendo rígida quando a pessoa não gosta dessa verdade em particular. O que para uns é rigidez, para outros é solidez. A Igreja está a ser teimosa ou firme nesta questão? Diria que ambos. É isso que a verdade exige, independentemente do contexto. Se ela tiver cometido um enorme erro neste ponto, que mais devemos lançar borda fora?

No seu ensaio “O Destronar da Verdade”, Dietrich von Hildebrand escreveu: “O desrespeito pela verdade – quando não se trata de uma tese teorética, mas de uma atitude vivida – claramente destrói toda a moralidade, mesmo a razoabilidade e a vida comunitária. Todas as normas objectivas são dissolvidas por esta atitude de indiferença para com a verdade; como é destruída também a possibilidade de resolver de forma objectiva qualquer discussão ou controvérsia. Também se torna impossível haver paz entre pessoas ou entre nações. A própria base da vida humana real é subvertida”.  

Corremos grande risco ao dispensar a verdade. 


O padre Gerald E. Murray, J.C.D. é pastor da Holy Family Church, em Nova Iorque, e especializado em direito canónico.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 18 de Maio de 2017)

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