quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

O Caminho Sinodal Cismático da Alemanha

Pe. Gerald E. Murray
Um esforço que só pode ser classificado como sendo de autodestruição da Igreja Católica na Alemanha – e mais além – está a ser levado a cabo pelos bispos do país, em conjunto com o Comité Central de Católicos Alemães, uma organização de leigos católicos, reconhecida oficialmente pela Igreja local. O vaticanista Sandro Magister chamou a atenção para o escândalo que constitui o chamado Caminho Sinodal, citando as recomendações, que melhor se podem descrever como exigências não-negociáveis, no documento fundacional divulgado recentemente sob o título “Poder e separação de poderes na Igreja – Participação comum e partilha na missão”.

O Caminho Sinodal Alemão (Der Synodale Weg) tem por objetivo subtrair o poder, autoridade e controlo ao Papa e aos bispos e entregá-lo a um laicado radical e clérigos e religiosos aliados. Tal deve acontecer através de uma proposta de um “fórum sinodal também na Igreja universal, uma assembleia da Igreja universal, um novo concílio em que os crentes dentro e fora do ministério ordenado deliberam e decidem em conjunto sobre questões de teologia e cuidados pastorais, bem como sobre a constituição e estrutura da Igreja”.

Nesta assembleia revolucionária os pastores já não seriam guias do rebanho, mas sim mais um bloco eleitoral a par do laicado, presumivelmente mais numeroso, que em todo o caso teriam escolhido os seus bispos uma vez que “a governação deve sempre ser codeterminada pelos governados, pelo que uma proposta importante é de que os decisores eclesiásticos devem também ser eleitos e sujeitos a eleição regular, em que os poderes que lhes são confiados possam ser confirmados ou delegados noutrem”.

De facto, “o objetivo é garantir a partilha de responsabilidade e participação de todos os fiéis tanto nos processos deliberativo como decisório”. Para o alcançar torna-se ainda necessário “reajustar a estrutura constitucional da Igreja para fortalecer os direitos dos fiéis na governação da Igreja”.

Se alguém contrapor que Cristo, o pastor-mor, é que atribui a autoridade aos apóstolos e seus sucessores, isso, ao que parece, é um conceito ultrapassado. “Os fiéis costumam aceitá-los como autoridades cujos juízos e decisões não podem ser questionados, como ‘pastores’ em virtude de uma legitimidade divina, a quem devem obedecer como ‘ovelhas’. Estes modelos foram ultrapassados pelo tempo, e bem, porque não eram teologicamente bem fundamentados”.

Dessa forma, a natureza hierárquica da Igreja é descartada como obsoleta e injustificada.

A autoridade episcopal e papal são rejeitadas de forma clara: “Ninguém tem a competência para decidir por si só sobre o conteúdo da fé e os princípios da moralidade; ninguém tem o direito de interpretar os ensinamentos da fé e da moral com a intenção de exortar os outros a ações que só servem os seus interesses ou correspondem às suas ideias, mas não às convicções dos outros”.

Será que as “convicções” se tornaram agora a norma das crenças e do comportamento cristão? Absolutamente: “A pluralidade de estilos de vida, tradições de piedade e posições teológicas no seio da Igreja não é uma ameaça, mas um bem que aprofunda a unidade viva da Igreja. ‘Não julgues, para não serdes julgado’. Mt. 7,1”.

Tudo isto encontra-se num documento cheio de juízos negativos sobre doutrinas católicas “teologicamente mal fundamentadas” e que evoca “estudos” que afirmam que a Igreja tem alienado pessoas através de “estruturas de poder que são vistas como retrógradas ou datadas… especialmente no campo da justiça de género e na avaliação de orientações sexuais ‘queer’, bem como em lidar com falhanços e novos começos (por exemplo casamento depois do divórcio).”

A responsabilização perante a Igreja por ignorar ou negar os ensinamentos do Evangelho passa agora a ser proibida porque, por incrível que pareça, isso “contradiz o Evangelho”: “O facto de haver pessoas na Igreja que temem ser punidas por comportamentos que não ‘encaixam no sistema’ contradiz o Evangelho. A denúncia é um mal que deve ser combatido de forma firme. A comunicação dos crentes tanto dentro como fora da Igreja não deve ser monitorizada nem criticada por detentores de cargos na Igreja”.


De facto, “uma forma de lidar com a complexidade que seja atenciosa e sensível à ambiguidade pode ser vista como um sinal básico de contemporaneidade intelectual – e também abrange a teologia contemporânea. Para a teologia também não existe uma perspetiva central, uma verdade única sobre o mundo religioso, moral e político, e nenhuma forma de pensamento que possa reclamar a autoridade definitiva. Também na Igreja os pontos de vista e estilos de vida diferentes podem competir uns com os outros mesmo nas convicções centrais. Sim, podem ao mesmo tempo reclamar teologicamente a verdade, a correcção, compreensibilidade e honestidade, ainda que se contradigam nas suas afirmações e na sua linguagem”.  

A mesma atitude de “viva e deixe viver” não se aplica, contudo, às decisões postas a votação na assembleia do Caminho Sinodal: “esperamos que as recomendações e as decisões adotadas pela maioria sejam também apoiadas por aqueles que votaram de forma diferente. Esperamos que a implementação das decisões seja examinada de forma rigorosa e transparente por todos. Esperamos que todos ajudem a promover a capacidade de ação da assembleia sinodal”.

Por isso vemos que os ensinamentos constantes e universais da Igreja podem e devem ser alteradas por maioria, permitindo, por exemplo, a ordenação de mulheres para o diaconado, sacerdócio e episcopado. Os participantes do Caminho Sinodal não têm de “apoiar” nem “promover” nada que rejeitem do Depósito da Fé, mas aqueles que votarem contra as inovações destrutivas são instruídos a “apoiar” e “promover” aquilo que rejeitaram, em consciência, como sendo ofensivo para a Fé.

Este mandato coercivo de “obedecer, senão” é revelador da natureza de todo este processo: um esforço calculado de derrubar o catolicismo em nome da conformidade com o espírito da nossa era de descrença, um espírito narcisistamente apostado em pôr as mãos em todo o poder na Igreja para poder redefinir a realidade e reescrever a revelação, promovendo a licença e suprimindo todas as recordações da lei de Deus. Esta subversão clara tem de ser travada já, antes de prejudicar ainda mais a Igreja.

Roma tem de intervir – e rápido.


O padre Gerald E. Murray, J.C.D. é pastor da Holy Family Church, em Nova Iorque, e especializado em direito canónico.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2021)

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