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Wednesday, 13 December 2023

As raízes jesuítas da guerra contra a Igreja na Nicarágua

Robert W. Shaffern

Desde Agosto que o governo Sandinista declarou guerra à Igreja Católica no pequeno país centro-americano da Nicarágua. Bispos e padres têm sido detidos ou exilados. O Governo congelou as contas bancárias e pensões de padres. A Universidade da América Central (UAC), uma instituição católica, foi confiscada e acusada de servir de centro de treino para terroristas. O regime sandinista tem ignorado as repreensões de figuras da Igreja e de Governos de todo o mundo e parece determinado a erradicar a Igreja Católica do seu território. O presidente sandinista Daniel Ortega quer criar uma Nicarágua onde só cabem as opiniões do Estado.

Para sua grande vergonha, algumas figuras da Igreja Católica da Nicarágua contribuíram significativamente para esta catástrofe, cujas sementes têm estado a germinar desde a conclusão, em 1979, da guerra civil brutal e sangrenta que sacudiu o país durante uma década. Nesse ano os bolcheviques sandinistas expulsaram os últimos membros da dinastia ditadora Somoza do país. Muitos membros do clero católico apoiaram os sandinistas, especialmente membros da ordem jesuíta.

Em vésperas da II Guerra Mundial os jesuítas aumentaram a sua presença na América Central. Em 1937 a Sociedade de Jesus criou a vice-província da América Central, separando-a da região administrativa do México. O Padre Pedro Arrupe Gondra, superior geral da Sociedade de Jesus entre 1965 e 1983, elevou a vice-província a província plena em 1976, quando a guerra civil da Nicarágua estava no seu auge.

Na sua tentativa de aliviar o sofrimento das massas de pobres naquela região, e preocupados em evitar o surgimento de um regime comunista, os jesuítas que trabalharam na América Central durante as décadas de 1940 e 1950 promoveram a formação de partidos e movimentos democratas-cristãos semelhantes aos que foram criados na Europa depois da II Guerra Mundial. Uma grande contribuição para esta missão aconteceu em 1960, quando os jesuítas fundaram a Universidade da América Central. Ironicamente, foi a família Somoza que doou o terreno onde viria a ser construída a única universidade privada da Nicarágua.

Durante os anos 60 e 70, porém, os jesuítas da América Central foram-se aliando cada vez mais à extrema-esquerda, seguindo os passos de figuras oitocentistas como Abbé Sieyès e Talleyrand. Foram arautos e aliados da vitória dos comunistas sandinistas. Aliás, muitos jesuítas chegaram a desempenhar cargos importantes no regime sandinista, incluindo os irmãos Fernando e Ernesto Cardenal, Miguel D’Escoto e Edgar Parrales, que foram todos teólogos da libertação que apoiaram a revolução armada contra o regime Somoza.

Depois de 1979, todos eles ocuparam posições no governo. Fernando Cardenal foi ministro da Educação (que obviamente promovia propaganda do regime), Ernesto Cardenal foi ministro da Cultura (igualmente propagandística), e D’Escoto foi Ministro dos Negócios Estrangeiros.

Por sua parte, Arrupe apelou a uma espécie de ralliement na Nicarágua, parecida com a do Papa Leão XIII, quando este pediu aos católicos franceses, em 1892, para não rejeitarem os governos anticlericais da III República Francesa. Arrupe pediu aos jesuítas e a outros para dar o seu “generoso apoio” aos sandinistas. Porém, Arrupe tinha algumas reservas em relação aos comunistas, e dizia que estes também deviam ser criticados quando necessário.

Infelizmente, um estudo feito pela UAC no final dos anos 90 encontrou pouco para criticar no Governo. Os jesuítas receberam os sandinistas de braços abertos.

João Paulo II de dedo em riste a 
repreeender Ernesto Cardenal
A resposta mais firme a estes jesuítas sandinistas veio do Papa João Paulo II, que os fez ver que segundo o cânone 285 do Direito Canónico, um padre não deve ocupar cargos políticos. Em 1985 os jesuítas expulsaram Fernando Cardenal, sob pressão do Vaticano, mas ainda assim ele manteve-se como Ministro da Educação e continuou a viver numa residência jesuíta em Manágua.

Os jesuítas reabilitaram-no em 1997, depois de ter repetido o noviciado. Tal como um moderno Georges Danton (que virou de apoiante para opositor do Reino de Terror francês), Cardenal acusou o movimento sandinista de corrupção, e renunciou a sua ligação ao mesmo em 1994.

À medida que o tempo foi passando, a brutalidade do regime de Ortega foi-se tornando cada vez mais evidente. Ortega perdeu a eleição de 2001, mas não se retirou da política. Pelo contrário, arregimentou os seus apoiantes e acabou por regressar à presidência. Apenas cinco anos mais tarde, com o apoio de alguns líderes católicos, foi reeleito presidente da Nicarágua. Desta vez, muitos padres foram significativamente menos acolhedores do que tinham sido em 1979, mas Ortega continuou a gozar de algum apoio. O jornal dos estudantes da UAC não o apoiou directamente, mas a linha editorial continuou a revelar simpatia para com os sandinistas.

Contudo, nem todo este apoio católico impressionou Ortega, que manipulou cinicamente os seus aliados na Igreja. Quando alguns líderes católicos manifestaram o seu desagrado com o facto de ele ter uma amante, decidiu casar. Claro que o casamento não foi realizado por arrependimento dele, ou da sua amante, mas apenas para conseguir mais apoio de católicos de esquerda. Estes foram na conversa.

No final dos anos 60 o filósofo italiano Augusto del Noce avisou que o catolicismo progressista estava num beco sem saída, porque na coligação entre os católicos e os esquerdistas o elemento progressista, que rejeita os ensinamentos básicos do catolicismo sobre a pessoa, predominaria. Sob pena de terem de abdicar dos seus objectivos utópicos no campo da política, economia e sociedade, os marxistas não tinham como não perseguir e suprimir a Igreja Católica. O marxismo rejeita totalmente as realidades transcendentais que o Cristianismo entende como sendo o fundamento de tudo o que existe, bem como a esperança última da raça humana.

O guião deste drama infeliz já tinha sido encenado na Revolução Francesa. O pai de todos os movimentos de esquerda da civilização ocidental, o jacobinismo, tentou erradicar o Catolicismo. Os jacobinos Robespierre, Danton, St. Just e outros, enviaram milhares de católicos para a guilhotina entre 1793 e 1794 por considerarem que a sua religião fomentava a superstição, a credulidade e a intolerância. Ser católico era – alegavam – rejeitar o patriotismo. Mais tarde movimentos semelhantes, como o bolchevismo, seguiram o mesmo caminho.

A Igreja na Nigarágua está apenas a colher o que os jesuítas e os teólogos da libertação semearam.


Robert W. Shaffern é professor de história medieval na Universidade de Scranton. Também lecciona cursos de civilizações antigas e bizantinas, bem como sobre o Renascimento Italiano e a Reforma. É autor de The Penitents’ Treasury: Indulgences in Latin Christendom, 1175-1375.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na sexta-feira, 8 de Dezembro de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 19 July 2023

Se Deus está Connosco

Stephen P. White
Cracóvia, Polónia – Escrevo estas linhas enquanto os participantes do Seminário Tertio Millennio sobre a Sociedade Livre acabam de assistir a uma palestra sobre bioética. Os alunos vêm de nove países diferentes, para estudar a doutrina social da Igreja durante três semanas, aqui na Polónia. Ainda hoje visitarão o lugar a que João Paulo II chamou “Gólgota do mundo moderno”.

Mais de um milhão de homens, mulheres e crianças, na sua maioria judeus, foram assassinados no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. Foi lá que São Maximiliano Kolbe se ofereceu para tomar o lugar de um homem condenado, dando a sua própria vida pela de um outro prisioneiro. Foi lá também que a filósofa e freira carmelita, Irmã Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein), foi gaseada e cremada em Agosto de 1942.

O inconcebível massacre de Auschwitz terminou finalmente quando o Exército Vermelho chegou, no início de 1945. A ideologia do terror Nazi foi vencida, só para ser substituída pela outra ideologia totalitária do Século XX.

Por aqui, a Segunda Guerra Mundial é recordada por vezes como a guerra que a Polónia perdeu duas vezes: primeiro em Setembro de 1939, quando o país foi invadido a partir do ocidente pelas forças do Terceiro Reich, e do oriente, pelo exército soviético; e depois da Guerra quando a Polónia, como grande parte da Europa central e de leste, foi abandonada pelos aliados ocidentais, para ficar debaixo do domínio comunista durante mais de quatro décadas.

Tem sido para mim um privilégio passar várias semanas a leccionar na Polónia todos os verões. Ao longo dos últimos 18 anos os alunos foram mudando, tal como mudaram as grandes preocupações e os assuntos mais urgentes da actualidade. Quando o seminário foi fundado, em 1992, (muito antes do meu tempo) o objectivo principal era formar os futuros líderes das “novas democracias” que estavam a emergir depois de meio século de domínio comunista, para que a doutrina social da Igreja e a sua visão e entendimento da pessoa humana, da solidariedade, subsidiariedade e bem comum pudessem contribuir para a construção do futuro pós-comunista.

A liberdade, quando desligada das verdades sobre o homem, torna-se invariavelmente autodestrutiva. Nem as mais elegantemente escritas constituições democráticas, nem a mais eficiente das economias produtivas pode alterar este facto humano.

Como disse João Paulo II em Centesimus annus: “Na sociedade onde a sua organização reduz arbitrariamente ou até suprime a esfera em que a liberdade legitimamente se exerce, o resultado é que a vida social progressivamente se desorganiza e definha.”

O Papa polaco ofereceu um aviso semelhante aos que viriam a ver na licença o remédio para a opressão comunista. “Uma liberdade que por si própria recusasse vincular-se à verdade, degeneraria em arbítrio e acabaria por submeter-se às paixões mais vis, e por se autodestruir.” Quando uma nação, seja por força ou por escolha, vive segundo a mentira por tempo suficiente, as consequências vão para além da doença económica e da disfunção política. Os hábitos mudam. As culturas também.

Edith Stein
Depois de quase meio século de comunismo, o tipo de hábitos – as virtudes – sobre as quais assentam o autogoverno tinham atrofiado. Os cidadãos precisaram de aprender (ou reaprender) aquilo que outrora tinham sido simples verdades: que a confiança e a verdade não são fragilidades políticas, mas virtudes sociais necessárias. Isto leva tempo. Pode levar gerações.

O mesmo se aplica ao Ocidente, onde os hábitos de licença e excesso se tornaram comuns, ou quase a norma. Consumismo, individualismo, relativismo: estes vícios dissolvem as estruturas da solidariedade que devem dotar a sociedade de vitalidade e força. O resultado vê-se nas formas de profunda alienação social, preocupantemente parecidas com a alienação produzida pelo comunismo. A nossa relativa riqueza e poder tecnológico só pioram as coisas, tornando-nos complacentes.

Grande parte do Ocidente está inoculada contra o Evangelho. É como se as nossas sociedades não fossem apenas indiferentes, mas imunes à Boa Nova. Os “anticorpos” culturais do Ocidente pós-cristão tornam a missão de evangelizar ainda mais difícil. Tudo isto levanta diversas questões: os nossos esforços para humanizar e construir uma sociedade mais justa podem superar a tendência da nossa política, economia e tecnologia para desumanizar e corromper? Podemos construir de dentro uma cultura saudável, mais rapidamente do que é erodida de fora?

Estas questões tornam-se ainda mais perturbadoras quando se considera que as instituições que sempre serviram de obstáculo às piores formas de corrupção cultural – a família e a Igreja – estão, em muitos lugares, em crise. Hoje enfrentamos estes desafios, por assim dizer, de mãos atadas atrás das costas. A esperança pode ser difícil de conseguir.

O meu colega George Weigel alertou para aquilo que apelida de “tirania do possível”, a ideia de que por piores que sejam os tempos em que nos encontramos, por mais escuro que o futuro possa parecer, as coisas não poderiam ser diferentes daquilo que são. A história da Polónia também tem umas lições para nos dar a este respeito.

Foi há apenas uma geração que a força sufocante e aparentemente inquebrável do comunismo nesta parte do mundo terminou de forma abrupta e inesperada, com os eventos de 1989 e depois. E hoje os mártires de Auschwitz são venerados como símbolos de esperança e bondade, mesmo no meio do mal mais inexplicável. A história deste lugar está cheia de recordações de que a salvação não está nas promessas vãs das ideologias, nem nos poderosos deste mundo, mas naquele que se sujeitou à morte e que chama cada um de nós para O seguir até ao Calvário.

Na próxima semana o grupo vai visitar um local muito diferente de Auschwitz: o Santuário da Divina Misericórdia, onde os restos mortais de Santa Faustina Kowalska descansam debaixo da imagem que emergiu da obscuridade para ser venerada por todo o mundo. A misericórdia de Deus limita o mal do mundo. A sua luz brilha na escuridão – uma luz que as trevas não compreendem. Ele conquistou até a morte.

Si deus nobiscum quis contranos?


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 13 de Julho de 2023)

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Monday, 28 June 2021

A bandeira arco-íris na vitrine do merceeiro

Vaclav Havel escreveu um livro chamado “O Poder dos Sem-Poder”, sobre a relação dos cidadãos dos países comunistas da Europa central e de leste com o Estado. Nesse livro utilizou o exemplo do merceeiro que coloca um cartaz na vitrine da sua mercearia que diz “Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos”.

A conclusão de Havel é que o merceeiro não tem qualquer interesse na união dos trabalhadores, nem está comprometido com essa ideia, mas sente – correctamente – que tem de colocar o cartaz, sob pena de ser mal visto, e devidamente punido, pelas forças que dominam a sociedade. Resumindo, a colocação do cartaz é um esforço necessário para que de resto seja deixado em paz por um sistema totalitário.

Já essas forças que dominam a sociedade, que neste caso são comunistas, também não têm qualquer interesse no conteúdo nem na mensagem do cartaz, para além do facto de a sua colocação na vitrine da mercearia simbolizar a submissão do merceeiro à ideologia dominante.

É um sistema, conclui Havel, que depende da mentira e se perpetua na mentira. “Têm de viver dentro de uma mentira. Não precisam de aceitar a mentira. Basta que tenham aceitado a sua vida com ela e no seio dela.”

Como não pensar neste exemplo ao ver a onda de instituições a atropelar-se durante este mês de junho para colocar à martelada a bandeira arco-íris em toda a sua estratégia de comunicação? Desde a Câmara Municipal de Lisboa a clubes de futebol, bancos, marcas de carro e de cerveja, todos sentem a necessidade de se juntar à turba.

Mas alguém acredita que a Volkswagen e a Heineken estão mesmo preocupados com aquilo que representa a bandeira arco-íris? (se é que é possível haver acordo sobre o significado da bandeira…). Claro que não. Eles estão é preocupados com as consequências de não colocar aquele símbolo, pois ele tornou-se a bandeira oficial de um movimento social que persegue de forma impiedosa os seus inimigos e não aceita qualquer desvio da nova ortodoxia.

É evidente que isto não é apenas um problema desta causa e desta bandeira. Pode acontecer com qualquer causa que assume contornos de ideologia. Facilmente imaginamos uma aldeia rural e conservadora em que um indivíduo ateu empedernido se sente obrigado a ir à missa na Páscoa para não ser mal-visto pelos seus vizinhos. E isso também é grave.

Neste caso da bandeira arco-íris a prova da total insinceridade destas manifestações de apoio “à causa” está em todo o lado. Veja-se o caso recente do FC Barcelona, que mudou a sua imagem de perfil nas redes sociais, incorporando a bandeira arco-íris, em todas as contas menos na árabe, porque lá a coisa tende a não ser tão bem aceite. E acham que o TikTok está mesmo tão empenhado como dá a entender pela publicidade nos estádios do Euro 2020? Acham que eles fazem essa mesma publicidade na China, onde a empresa está sedeada? (Um leitor, a quem agradeço, partilhou entretanto este link que mostra que esta prática é aliás generalizada)

Vaclav Havel
Tal como o cartaz do merceeiro de Havel, o significado actual da bandeira arco-íris já não tem nada a ver com o seu significado original. O que é que significa exactamente a bandeira num anúncio da Heineken? Que os homossexuais, transsexuais e intersexuais também gostam de beber cerveja? Havia dúvidas? Que também podem beber cerveja? Estavam vedados? O que é que significa precisamente ser uma cerveja “inclusiva”? Ou será que tem a ver com as políticas internas da empresa? A Booking vai passar a tratar melhor os seus funcionários que não correspondem ao padrão social em termos de orientação sexual? Não o faziam já? Ou seja, esta ostentação da bandeira arco-íris muda alguma coisa, de facto, no terreno, no mundo, nas empresas, na sociedade? Então para que é que serve?

E porque é que me preocupa isto? Eu sou o primeiro a assinar por baixo se me perguntam se todos devem ser tratados com igualdade e respeito, independentemente da sua orientação sexual. Assino por baixo porque isso é um requisito básico dos direitos humanos, em que acredito, e de uma visão cristã da humanidade, que procuro ter sempre.

Mas o que se está a passar nada tem a ver com a dignidade inerente e indelével de todos os seres humanos, é meramente uma questão de imposição ideológica que assume contornos claramente totalitários. Ninguém quer saber em que é que você acredita, desde que exteriormente se comporte conforme a ortodoxia. Ninguém quer saber o que faz em prol dos homossexuais, desde que um dia por ano a sua foto de perfil nas redes sociais adopte as cores do arco-íris. Isto é a cultura da mentira e é uma das grandes marcas do totalitarismo. Porque o totalitarismo não precisa de ser apoiado por uma estrutura política ditatorial nem precisa de gulags e de campos de concentração para manifestar a sua intolerância.

Wednesday, 16 December 2020

Memória e Gratidão

Francis X. Maier
Charles Péguy terá dito, alegadamente, que o problema dos cristãos é que não acreditam naquilo em que acreditam. É uma frase engraçada. Não faço a menor ideia se o disse de facto, mas não faz mal, porque seja como for, é verdade. Até sofrermos por aquilo em que acreditamos, ou o nosso coração for tocado pelo testemunho de quem sofre, a nossa fé continua por testar, nada mais é que uma aspiração, um conjunto de boas intenções. O que me traz ao meu melhor amigo, Joe.

Pai de oito filhos e ex-fuzileiro, o Joe tem uma personalidade clássica de líder: racional, organizado, motivado pelo desempenho. Passou as últimas décadas da sua carreira como diretor executivo de duas empresas multimilionárias, alicerçado nas capacidades que aprendeu nas Forças Armadas. Durante 13 meses, entre 1967-68, o Joe liderou uma companhia de infantaria de fuzileiros na zona de Dong Há, a sul da Zona Desmilitarizada (DMZ) e encostado à fronteira do Vietname do Norte. A atividade inimiga era intensa e por isso, juntamente com as patrulhas normais, o Joe tinha responsabilidades de ajudar e interagir com a população local. Acontece que muitos destes vietnamitas eram católicos, como ele. E foi assim que conheceu o padre Paul.

O padre Paul vinha, juntamente com muitos dos seus paroquianos, do Norte. Tinham fugido para Sul quando acabou o regime colonial francês e os comunistas tomaram o poder em Hanói. O padre Paul, um homem pequeno e discreto, tinha sido pároco coadjutor até há pouco tempo e foi promovido, como acontece em zonas e guerra, quando os viet cong assassinaram o pároco enquanto ele levava os sacramentos a famílias nas zonas rurais. Enquanto o padre Paul preparava a sua motorizada para dar continuidade a esse trabalho, o Joe sugeriu que, tendo em conta os eventos recentes, essa talvez não fosse a estratégia mais avisada. O padre encolheu os ombros. As pessoas precisam dos sacramentos, disse, e partiu para o mato. Sabe-se lá porquê, mas o padre Paul não foi emboscado nesse dia, nem em qualquer outro.

A paróquia ficava dentro da zona de alcance da artilharia norte-vietnamita na DMZ. E por isso, a meio da missa das 10h, num domingo de manhã, as armas visaram a paróquia e dispararam sobre a igreja, destruindo grande parte do edifício e matando, ou ferindo, dezenas de paroquianos. O Joe partiu do princípio de que isso marcava o fim da paróquia.

Mas um ou dois dias mais tarde o padre Paul apareceu no bunker do Joe. Enquanto oficial para as relações com civis, ele tinha acesso a materiais de construção e o padre Paul pediu-lhe ajuda para reconstruir a igreja. O Joe deu-lhe a ver que uma vez que o local da igreja já tinha sido atingido de forma certeira pela artilharia inimiga, as mesmas armas podiam facilmente atingi-la outra vez, sempre que o inimigo assim quisesse. Mais uma vez, o padre encolheu os ombros. As pessoas precisam da missa, comentou. Por isso, algumas semanas mais tarde, enquanto convidado de honra, o Joe ajoelhou-se devotamente na primeira fila para uma liturgia de ação de graças. A música e os cânticos eram belíssimos e altos – tão altos, admite agora o Joe, que teriam abafado o som de artilharia caso o inimigo optasse por disparar naquele instante.

O padre Paul e o Joe tornaram-se bons amigos e ajudavam-se na medida do possível. Mas as missões de combate acabam e por isso, depois de 13 meses, o Joe voltou para casa para a sua mulher, Gail. Começaram uma família e uma nova vida. De tempos a tempos, com o passar dos anos, o Joe pensou no padre e noutros amigos que tinha conhecido no Vietname. Alguns tinham sobrevivido, outros não. Alguns regressaram com cicatrizes permanentes, outros não regressaram de todo. O que o Joe soube dos padres como o Paul foi que a maioria tinha acabado em valas comuns, mortos nas represálias depois da queda de Saigão.

O bispo Paul Nguyen Thanh Hoan

Passaram-se os anos, a vida continuou, as memórias tornaram-se mais escassas. Até que um dia, quase quatro décadas depois de ter saído do Vietname, o Joe recebeu um email de um amigo que tinha servido com ele. Pesquisando na internet, com o seu fraco vietnamita, tinha encontrado um artigo sobre o enterro de um “padre Paul” na província de Binh Thuân, do que tinha em tempos sido o Vietname do Sul. Parecia o padre que o Joe tinha conhecido, mas não era. Era o funeral de outro sacerdote, celebrado pelo agora bispo Paul Nguyen Thanh Hoan, pastor da diocese de Phan Thiêt.

O padre Paul, o jovem e discreto sacerdote que amava o seu povo, que se recusava a ser intimidado, que não se preocupava com a sua própria vida e que conseguia extrair sangue de uma pedra, tinha conseguido sobreviver à guerra e ao pós-guerra e tinha retomado o seu ministério. Nos anos que se tinham passado entretanto fundou uma comunidade de religiosas, um orfanato, uma leprosaria e um santuário mariano popular – tudo apesar da constante opressão e interferência do regime. O Joe entrou de novo em contacto com o “padre Paul” e visitou-o no Vietname e até à morte do bispo, em 2014, ele e a Gail apoiaram-no com dinheiro e contactos para o ajudar com a sua obra.

E tudo isto é uma história bonita, mas não é por isso que a conto. O ponto é este: O padre Paul acreditava naquilo em que acreditava. Provou-o com a sua vivência. E ao vivê-lo, tocou o coração dos outros.

O meu amigo Joe tem setentas e muitos agora e é um homem de carácter, de profunda fé e agora também de uma emoção intensa e inesperada, que é difícil de descrever. A idade leva-nos a recordar. Alguns homens são assombrados pelas suas memórias. Outros são conduzidos por elas por um rio de gratidão que se torna maior e mais profundo todos os dias, na medida em que se recordam do amor, da coragem e da fé que receberam de outros. Essa gratidão é o último dom da vida, uma antevisão da eternidade. Numa altura não muito diferente da nossa Dietrich Bonhoeffer terá dito que a gratidão é a o começo da alegria. Também é uma frase bonita. Se o disse, de facto, não sei. Mas não interessa. Não deixa de ser verdade.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 9 de Dezembro de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Monday, 26 October 2020

Peter Stilwell sobre a Universidade de São José, em Macau e o cristianismo na China

Esta é a transcrição integral da entrevista que fiz ao Pe. Peter Stilwell. A entrevista resultou em dois artigos que podem ser lidos aqui e aqui.

Foi chamado para a Universidade de São José numa missão de "bombeiro", para apagar fogos. Sente que a deixou melhor do que a encontrou?

Acho que no conjunto dos oito anos, e graças ao trabalho de todos os que estão dentro da Universidade, e aos apoios que recebemos dos que estão fora, muitos dos projetos do professor Ruben Cabral que tinham sido desenhados, do novo campus e de ter uma universidade que pudesse ter critérios internacionais, foi possível realizá-los ao longo dos meus dois mandatos. Por isso, sem dúvida que os oito anos foram de crescimento e de estabilização e hoje a universidade é vista com respeito pelas outras universidades locais. 

Quando saiu de Portugal levava uma grande experiência académica, mas sempre em Portugal e na Europa. Foi fácil adaptar-se à realidade asiática?

Macau tinha um sistema de ensino superior muito nos primórdios. A primeira universidade propriamente de Macau, a Universidade de Macau, foi criada em 1992, exatamente 20 anos antes de eu ir para lá. Tinha havido uma outra universidade antes, que era uma universidade particular, mas foi criada por gente de Hong Kong, para Hong Kong, como Universidade da Ásia Oriental porque não puderam criá-la em Hong Kong. Foi essa que foi comprada pelo Governo de Macau e foi desdobrada num politécnico, na Universidade de Macau e numa universidade aberta que mais tarde seria comprada por uma entidade particular e se tornou a Universidade Cidade de Macau. 

Portanto quando eu cheguei a Macau as universidades estavam a pensar reorganizar os seus estatutos, ter uma nova lei do ensino superior que pudesse corresponder às exigências que o ensino superior tem hoje em dia a nível mundial, todo o processo de Bolonha tinha sido introduzido na Europa e depois com impacto mundial no princípio deste milénio, por isso tudo era bastante recente. Eu tinha a vantagem de ter assistido aqui e ter sido responsável na Faculdade de Teologia pela adaptação da Universidade Católica ao sistema de Bolonha, portanto conhecia por dentro as exigências desse sistema e que nos tinha levado a repensar o que era o ensino superior e como se podia desenvolver. 

Portanto eu levava muitas vantagens e coincidiu ser num momento em que a própria região autónoma de Macau estava a desenvolver o seu ensino superior para uma nova etapa.

E a nível da relação com as autoridades chinesas?

Quando pensamos em Macau temos de pensar em duas autoridades. Temos a autoridade regional e depois temos o Governo central que está presente no território com duas grandes entidades, os Negócios Estrangeiros e Segurança, porque isso está a cargo de Beijing e a região autónoma é depois supervisionada por um gabinete de ligação e esse gabinete de ligação tem um setor responsável pela educação e que acompanhou o que nós íamos fazendo. De vez em quando a nossa equipa ia sentar-se à mesa para explicar o que é que estávamos a fazer e eles acompanharam-nos sempre com muita simpatia e muita boa-vontade, dando-nos algumas orientações. Perguntámos como é que viam a Universidade de São José e diziam que a viam como uma entidade que mantinha a ligação com a Europa, enquanto que as outras universidades locais estavam a tender, sobretudo na área do Business, para se articularem com os Estados Unidos e com o Canadá e eles achavam que a ligação com a Europa e a maneira de gerir negócios na Europa era muito importante e que não se perdesse esse ponto de vista. 

Também a ligação aos países lusófonos, achavam que nós tínhamos uma posição privilegiada pela nossa ligação com a Universidade Católica, porque um número significativo dos professores da Universidade de São José é oriundo da Universidade Católica Portuguesa, portanto havia várias possibilidades de nós enriquecermos as ligações com os países lusófonos. E gradualmente ao longo dos oito anos foi-se sentindo que a Universidade de São José era cada vez mais solicitada para fazer coisas que interessavam localmente, mesmo ao Governo central. 

Um dos seus objetivos quando foi para lá era conseguir que alunos da China continental fossem estudar para a Universidade. Não conseguiu. Foi um fracasso?

A Igreja Católica está em Macau há mais de 400 anos a tentar posicionar-se na China de maneira a tornar presente a mensagem do Evangelho e tem, ao longo desses 400 anos, tido avanços e sofrido recuos. E, portanto, não me surpreendeu que fosse uma coisa lenta conseguir a autorização para que os alunos da China viessem estudar para a Universidade de São José. 

Um pouco como o Vaticano, também a China pensa em décadas e séculos mais do que em anos e eu percebia nas entrelinhas que lhes fazia alguma confusão que a Igreja dedicasse tanto esforço à construção e implantação de uma Universidade e que isso não fosse para criar adeptos da Igreja Católica. Um dos altos funcionários do Estado perguntou-nos se obrigávamos os alunos a rezar no início da aulas, se os obrigávamos a ir à missa, se os obrigávamos a estudar catequese e nós explicámos que não, que não perguntávamos a religião das pessoas ao inscreverem-se, nem ao sair da Universidade, que os princípios cristãos eram os que estavam presentes na gestão da vida comum da Universidade e na maneira como geríamos a vida universitária, o que não é difícil, já que as universidades nasceram no seio da Igreja Católica, na Idade Média europeia. Havia esse receio, portanto acho que há um compasso de espera enquanto as autoridades esperam para ver se a Universidade é perigosa. 

Há que acrescentar aqui um elemento que se torna circunstancialmente importante, que é a questão de Hong Kong. Porque certos grupos dos jovens que animaram estas manifestações que tem havido em Hong Kong vieram dos quadros de escolas cristãs – não só católicas – portanto aos olhos das autoridades estão marcados como sendo de proveniência cristã. Não fazem imediatamente confusão, mas andam um bocadinho de pé atrás. 

Mas voltando à questão inicial, porque é que a Igreja investe tanto na educação, se não quer criar mais adeptos? E fomos explicando que é uma das obras de misericórdia, ensinar. Um dos altos funcionários dos Negócios Estrangeiros, perguntei-lhe onde tinha estado antes e disse que tinha estado na Índia, e eu perguntei se tinha visitado a casa da Madre Teresa de Calcutá, e ele disse que sim, que ficou muito sensibilizado com o trabalho delas. E eu disse que ela tinha esse princípio que acolhia pessoas indiferentemente da religião e não as procurava converter à força. E isso é porque a nossa experiência cristã, uma das vertentes da nossa experiência espiritual, é encontrar Deus nessas obras de misericórdia, seja no cuidado pelos pobres, no ensino aos ignorantes, isso faz parte da experiência tipicamente cristã. Não sei se ficou convencido, mas era a minha justificação repetida às autoridades. 

Houve protestos muito graves em Hong Kong, mas Macau também teve leis semelhantes e não houve protestos significativos. Como é que se explica esta diferença?

Quando houve os acordos para Hong Kong e depois Macau voltarem à soberania chinesa, ou à administração chinesa – porque no caso de Macau a soberania chinesa existiu sempre – foi acordado que os negócios estrangeiros e a segurança nacional pertenciam a Beijing, como acontece connosco com os Açores e a Madeira, são regiões autónomas, mas debaixo da soberania nacional. Ficou acordado também que cada uma das regiões iria elaborar a sua lei de segurança nacional. Foi uma concessão por parte de Beijing que fossem os parlamentos locais a decidir sobre uma lei que, claro, levaria o placet de Beijing. Macau avançou e fez a sua lei, que foi aprovada e a lei de Macau mantém tudo dentro de Macau. Se há casos considerados de perigo para a segurança nacional são julgados pelos tribunais de Macau e ficam dentro de Macau. No caso de Hong Kong tem havido esta longa sessão de protestos que remonta já há uns tempos e Hong Kong avançou com uma proposta de lei de segurança que foi chumbada, por assim dizer, nas ruas, pelas manifestações e a recusa da oposição no Parlamento em discutir e votar a lei.

Passados anos, e tendo aumentado os protestos em Hong Kong, o Governo central disse então fazemos nós e aplicaram uma lei de segurança nacional que é pior do que aquela que estava prevista pelas autoridades de Hong Kong, porque estabelece que conforme a gravidade dos crimes, segundo as autoridades locais e as centrais, as pessoas podem eventualmente ser extraditadas de Hong Kong para serem julgadas por um tribunal na China continental. Isso é bem pior – na perspetiva dos manifestantes de Hong Kong – do que aquilo que aconteceu em Macau e do que aquilo que eles chumbaram. 

Universidade de São José

Há uma diferença na forma como macaenses e Hong Kong vivem a relação com o Governo central da China?

Macau é muito pequeno, são 700 mil habitantes. Hong Kong são sete milhões. É quase o tamanho de Portugal, em termos demográficos. Portanto há aí uma diferença substancial. Hong Kong tem o estatuto de um grande centro financeiro mundial que ombreava com Nova Iorque, Londres e os grandes centros mundiais da Finança. Era um lugar onde as empresas que queriam negociar com a China vinham estabelecer as suas bases e, portanto, tinha um estatuto económico e cultural, sentia-se seguro de si próprio. 

Hong Kong também é composto em grande parte – se as minhas informações estão corretas – por gente que se refugiou da invasão dos japoneses, das guerras civis na China, enfim, gente que saiu da China e que eventualmente nunca esteve de acordo com o que aconteceu no final da Guerra Civil. Um pouco como aconteceu em Taiwan.

Já Macau existe há 450 anos, tem uma população luso-asiática, a comunidade macaense, que está lá há gerações, à volta da qual se constituíam mais duas comunidades ou três, uma de chineses vindos para trabalhar ou em fuga, mas que eram menos; filipinos de língua inglesa que vinham trabalhar e com portugueses que vinham agora mais recentemente por causa das crises económicas na Europa e em Portugal que iam lá trabalhar.

No centro está esta comunidade que faz a ponte entre a cultura chinesa e a ocidental há séculos e que conhece e sempre soube gerir estas relações com a China continental ao longo de mudanças de regime, de imperadores, de dinastias, sabendo que às vezes é preciso recuar, outras avançar nestas negociações, é preciso ter calma, não ser confrontacional e isso explica um pouco a diferença. Eu notei, nas pessoas com quem lidava e contactava, que havia algum receio de um "spillover" de Hong Kong para Macau. 

Houve uma ou outra pequena manifestação a certa altura, há uns anos, mas depois as pessoas viram que em Hong Kong aquilo estava a levar a uma situação que ninguém queria para Macau, de instabilidade e insegurança nas ruas, e, portanto, não notei que houvesse grande tentação. 

As autoridades estavam preocupadas com as universidades e perguntavam-nos que medidas é que tínhamos. Nós respondemos que tínhamos as medidas que eram habituais em todo o mundo, que o campus universitário não era espaço para debates politico-partidários, esse género de coisas, mas nunca sentimos que da parte dos nossos alunos houvesse movimentação que notássemos. 

Sei que houve um momento mais difícil com um docente que criticava abertamente o regime de Beijing e por isso foi afastado. Foi criticado por isso. Acha que tomou a decisão certa?

Fui o responsável. Não posso deixar de pensar que agi bem. O processo está em curso, nos tribunais, sei que haverá uma audição agora no dia 17 de novembro. Espero que seja a última e que seja possível ver como uma autoridade independente, como são os tribunais, ajuíza uma decisão sem dúvida difícil na altura.

Durante os seus mandatos celebrou-se o acordo entre o Governo da China e o Vaticano. Como é que recebeu esta notícia?

Foi com surpresa. Eu sabia que as negociações estavam em curso, mas depois na última fase não sabia que tinham chegado ao ponto de assinar o acordo. Depois ninguém o viu, portanto não sabemos exatamente o que lá está escrito. E não foi assinado pelos tops, não foi assinado pelo Papa e pelo Secretário de Estado do Vaticano e um ministro do Governo chinês, foram figuras de segunda linha que terão assinado esse documento. 

Ele terminou em setembro e estão em curso negociações para saber se se prolonga através de um novo acerto [NOTA: O acordo já foi renovado por dois anos]. Abrangia, pelo que conseguíamos perceber, a nomeação dos bispos, que é sempre uma questão delicada, e não se sabe muito bem o procedimento, mas parece que Beijing avança com dois ou três nomes e o Vaticano tem a última escolha. Pode dizer que sim ou que não. E se disser que não haverá outra seleção a seguir. Havia um acordo semelhante com Espanha no tempo de Franco, portanto não é uma coisa que seja estranha à tradição da Igreja. No Século XIX houve entendimentos desse género com vários países. O que faz mais confusão às pessoas é que seja um regime comunista, que se diz aberta e publicamente ateu, a escolher os dirigentes da Igreja Católica. Mas isso faz parte da própria visão que o regime tem de si próprio. 

A China não se entende como um Estado acima dos partidos, mas como um partido acima do Estado. É uma visão diferente. É um pouco o prolongamento da visão que tinham os imperadores, portanto havia toda a administração burocrática, que no Ocidente dizemos que são os mandarins, que eram supostamente um regime meritocrático, ou seja, as pessoas entravam na função pública através dos seus méritos, através de exames públicos. O próprio Matteo Ricci e os jesuítas entraram para a China e entraram em diálogo com as autoridades chinesas através desse processo, fazendo o exame e tornando-se funcionários públicos. Mas acima dessa função pública, semelhante à nossa ideia de Estado, havia o imperador e o imperador não era governado por nenhuma outra lei a não ser o que era considerado o mandato celeste.

Desde que ele, ou ela, contribuísse para que o Povo se desenvolvesse harmonicamente, e havia esta ideia da harmonia com a natureza e com o Céu, então o mandato do Céu ia-se prolongando. E há um pouco essa continuação, um pouco parecido com o absolutismo régio que tínhamos no ocidente, em que os reis consideravam que eram reis por direito divino, que estavam acima dos parlamentos. O partido considera-se sucedâneo disso e enquanto o partido contribuir para que o povo se desenvolva, que viva em harmonia, que possa ganhar projeção mundial – e olhando para os últimos 30 anos da China ela posicionou-se como não se tinha posicionado há mais de mil anos, é a segunda potência mundial em termos económicos, e há muitos chineses que ainda se lembram dos tempos da fome e de comer grilos porque não havia outra carne para comer. 

Portanto este desenvolvimento como que garante que o Partido tem legitimidade para governar, está acima dos tribunais, dos parlamentos, etc., e há essa perspetiva, mesmo em relação às igrejas é o partido que tem a última tutela para dizer o que contribui ou não para o desenvolvimento da sociedade e é isso que faz confusão quando vemos estas negociações. 


Aquilo que se chama a Associação Patriótica tem diversos ramos, tem um ramo para cada uma das religiões reconhecidas na China e aí cabem o Budismo, naturalmente, o Islão e dentro do Cristianismo as autoridades chinesas vêem duas religiões, o Catolicismo e o Protestantismo. E cada uma delas tem os seus responsáveis centrais, uma espécie de tutela do Partido Comunista e supostamente as autoridades dentro de cada uma delas tem de assinar, para ser reconhecido publicamente, um reconhecimento da soberania do Partido. Portanto os bispos têm de fazer isso, é o que se quer dizer quando se diz que é exigido aos bispos tornarem-se membros da Associação Patriótica, ou o padre assinar a dizer que reconhece a autoridade do partido. É uma coisa que causa algum conflito de consciência para os padres que tenham estado fora desse sistema, portanto na chamada Igreja Clandestina, ao entrarem agora para uma China em que as duas comunidades supostamente devem estar a harmonizar-se porque o Vaticano assinou com o Governo chinês, ao saírem da clandestinidade têm de assinar um acordo de reconhecimento do partido. 

Houve muitos críticos em relação ao acordo – o cardeal Zen é um dos exemplos – mas a maior parte dos críticos apontam para o facto de a perseguição aos cristãos estar a aumentar com a atual administração da China. É justo misturar as duas coisas?

Eu não isolaria a Igreja Católica disso. Um dos discursos nos primeiros anos do Xi Jinping foi para os membros do partido. É preciso lembrar que o PCC tem 100 milhões de militantes, portanto é dez vezes o tamanho de Portugal em militantes, e ele fez um discurso muito contundente, falando da questão da corrupção e recordando que o partido é ateu e não se pode ser membro de uma religião e do partido. 

O facto de ele ter identificado essa questão da religião dá-nos a entender que provavelmente havia membros do partido que se sentiam sensibilizados pelo Taoismo, ou pelo Confucionismo e eventualmente por outras religiões. Portanto o apelo ao ateísmo surgiu daquele que é hoje em dia o homem com mais poder na China desde Mao Tsé Tung, que é Xi Jinping e é compreensível que num país da dimensão da China haja quem queira avançar com os seus projetos, com a sua carreira, e se queira mostrar mais papista que o Papa e portanto quando se deitam abaixo igrejas, ou se retiram cruzes, é bem possível que haja gente a ultrapassar o que se faria em Beijing. Em Beijing não se vê isso, não se vêem igrejas a serem fechadas forçosamente, longe disso. 

Portanto é preciso matizar e perceber que talvez não seja a mesma imagem em todo o lado. É evidente que não há amizade para com as religiões, foi implementada uma lei que, segundo me dizem já existia mas que caiu em desuso, que proíbe a entrada nas Igrejas de jovens entre os seis e os 18 anos, portanto eles não se vêem nas igrejas. Isso é supostamente para que os jovens não sejam desencaminhados pelas "falsas doutrinas" das religiões.

A meu ver é uma faca de dois gumes. Atinge as comunidades, eu participei em missas em vários lugares da China e notava-se que havia bebés nos braços das mães e depois havia gente a partir dos 20 e tal anos, mas não havia ninguém de idade intermédia, nem entre os acólitos. 

Isso levou-me a pensar que às vezes o fruto proibido torna-se apetecível e portanto pode ser que isto acabe por sair o tiro pela culatra e os jovens poderão querer saber o que é isso que lhes estava proibido e quem sabe se não vai levar a que haja mais fiéis. 

Encontrei vários jovens nas minas viagens pela China, que não foram muitas, mas encontrei vários que se tinham aproximado do Cristianismo, uma do catolicismo e outra do protestantismo, outro que fez a viagem entre ambos, tornou-se católico mas depois por razões de trabalho deslocou-se para outra zona do país onde só havia comunidades protestantes e portanto ia às comunidades protestantes e depois ficou com problemas de consciência, de que talvez tivesse passado de uma religião para a outra. Mas em termos capilares o que está a surgir é uma inquietação religiosa entre as pessoas, uma procura e as pessoas estão a bater à porta das igrejas. 


Que futuro é que vê para o catolicismo na Ásia?

Como se sabe, excetuando as Filipinas e Timor-Leste, o Catolicismo e o Cristianismo em geral na Ásia é ultraminoritário, não tem nada a ver com a nossa visão na Europa, Estados Unidos, América Latina ou mesmo na África, onde o Cristianismo acaba por ser a religião marcante. Depois no Médio Oriente temos o Islão, na Indonésia temos o Islão e naquelas zonas da Ásia é o budismo ou, no caso da China, os restos de religiosidade popular que renascem. 

Quanto ao futuro da Igreja, e é essa a preocupação do Papa, estou convencido, é de que na China o crescimento do Cristianismo é muito grande. 

Diz-se que no ano 2030 a China ultrapassa o Brasil como maior país cristão do mundo. Apesar de isso continuar a ser uma minoria da população. 

Há um outro fator interessante presente, que as autoridades chinesas eventualmente têm consciência ou não, não sei, mas ao introduzirem o comunismo e o capitalismo na China como grandes fatores para o desenvolvimento económico e a articulação social do país, introduziram dois sistemas que têm raízes judaico-cristãs. e portanto que têmm uma antropologia que é estranha à antropologia confuciona e budista. Portanto está na matriz económica e do desenvolvimento económico e social, um gérmen cristão que faz com que quando as pessoas se inquietam com o sentido das suas vidas as religiões que mais correspondem ao tipo de desenvolvimento em curso são as religiões ou protestante ou católica, e portanto o crescimento dessas religiões dentro da China. 

Essa é a minha impressão neste momento. O que pode acontecer a médio prazo só Deus sabe. 

Falámos de perseguição às igrejas. Enquanto estava em Macau chegavam-lhe ecos daquilo que se passa com a comunidade muçulmana na China, que está a ser muito duramente perseguida? 

Chegavam, a maior parte delas através dos meios de comunicação ocidental. 

Tínhamos acompanhado com alguma preocupação notícias do interior da China de atentados à faca em Beijing e noutros pontos do país, que eram depois atribuídos a gente inquieta da zona de Xinjiang, portanto os uigures e muçulmanos, e agora chega-nos esta notícia de grandes campos de reeducação. Vamos ver o que é que dá. É um sinal do tipo de regime, mas também do medo que o regime tem ao criar esta dinâmica da rota da sede, de retomar a rota da seda, que todos aqueles estados que ficam a ocidente do norte da China, são todos países de maioria muçulmana e portanto há medo de que aquela luta interna que o Islão vive neste momento pelo seu coração, que tem dado origem a vários grupos extremistas, possa vir a ter influência na China, e a estabilidade social é uma coisa fundamental para o Governo. 

A identidade portuguesa de Macau está para ficar?

Acho que sim, no sentido de que estão lá essas famílias luso-asiáticas e com passaporte português, porque na altura da transição foi dada a oportunidade aos macaenses de obterem passaporte português e muitos têm. Muitos não falavam português, mas fizeram o passaporte para o que desse e viesse. E depois descobriram que isso lhes dá acesso à União Europeia, dá acesso aos seus filhos às universidades na Europa, pelo preço dos europeus, e portanto isso, acompanhado da ideia de que o Governo central abençoou a relação com países lusófonos e que tem muita preocupação com isso, porque tem consciência de que a sul do equador a língua mais falada é o português, no Brasil, Angola, Moçambique e o pequeno Timor, levou a que o prestígio de Portugal tem vindo a subir na China. 

Houve um impacto, um reflexo em Macau. O Governo central também disse a Macau que Macau devia ser a plataforma de encontro entre a China e os países lusófonos e quando Macau não tem feito o suficiente nessa área o Governo tem espicaçado e tem substituído pessoas e mostrado que isso não foi simplesmente uma coisa escrita num papel, é um interesse que se desenvolveu. Portanto neste momento estuda-se mais português, fala-se mais português em Macau, na comunidade chinesa, do que no tempo da administração portuguesa. 

O seu sucessor é um diácono galês, mas é da diocese de Southampton. Que conselhos é que lhe deixou?

Ele teve dois ou três anos na Universidade. Por sugestão minha, quando o bispo mostrou interesse em ter esta pessoa como futuro reitor sugeri que ele se adaptasse conhecendo a partir da base o que era a universidade, portanto ele foi diretor da Faculdade de Estudos Religiosos, ou seja, de Teologia, conheceu a Universidade Católica, participou em atividades da Federação Internacional de Universidades Católicas e portanto conhece a universidade por dentro. Eu pude-lhe dar alguns conselhos, mas grande parte daquilo que tinha acontecido na Universidade estava no papel, nos procedimentos instituídos. Ele teve a sorte, por assim dizer, de que para o ajudar agora nas relações com as autoridades chinesas o reitor da Universidade Cidade de Macau, que era a nossa rival, quis vir para vice-reitor dele, portanto eu sinto isso como um elogio ao trabalho feito, porque a Universidade ganhou prestígio suficiente para uma pessoa sair de reitor de uma universidade e querer vir para vice-reitor de outra. Ele é um chinês, com experiência também fora da China, nas altas esferas do ensino superior na China e espero que consiga ajudar a fazer pontes com a China. 

E agora?

Acho que o merecido descanso, para mim, para os alunos e para os colegas. Falaram-me de no próximo ano poder eventualmente dar uma cadeira a nível dos doutoramentos; estou a ajudar a Faculdade de Teologia a constituir o seu Conselho Estratégico e pediram-me para retomar o projeto Cinatti na Universidade. O Patriarca pediu-me para retomar o departamento do diálogo inter-religioso e das relações ecuménicas, e por isso já tenho coisas mais que suficientes, e estou ainda a arrumar a casa! Tenho muita coisa para arrumar. 

Tuesday, 20 October 2020

Líderes pela paz e gérmenes de Cristianismo na China

O Papa Francisco presidiu esta terça-feira a um encontro internacional pela paz, juntamente com outros líderes religiosos mundiais. Francisco disse que o “evangelho do salva-te a ti mesmo” não é o Evangelho da Salvação e responsabilizou os políticos do mundo pela construção da paz.

No final do encontro todos os lideres presentes assinaram uma declaração conjunta pela paz, dizendo que a guerra é um “falhanço da política e da humanidade”.

Hoje olhamos para Macau, de onde regressou recentemente o padre Peter Stilwell, que foi durante oito anos reitor da Universidade de São José. O padre Peter faz uma análise muito interessante sobre o Cristianismo na China, concluindo que o facto de o país ter apostado no comunismo e no capitalismo como motores sociais e económicos facilita a evangelização da população.

Noutra nota, o padre Peter fala da identidade portuguesa de Macau e de como esta não só não está em perigo, como está mais forte desde que o território passou para administração chinesa.

Permitam-me ainda partilhar o Postal de Quarentena de hoje. Não é um assunto religioso, mas é uma iniciativa que me dá imenso gozo fazer. Esta terça-feira recebemos um postal da Suíça, com banda sonora dos The Doors.

Wednesday, 24 June 2020

A Vida num Sistema Pós-Totalitário

Em todo o lado estamos a ver sinais da cultura “woke”, numa sociedade cada vez mais dominada por pessoas brancas que se atropelam umas às outras para mostrar que são mais “woke” que todas as outras e muito menos tolerantes de tudo o que não consideram “woke” e “impuro”. Trata-se do equivalente das tentativas na era vitoriana de mostrar que eram mais “cultos” que os outros, com as suas demonstrações grandiosas de justa indignação contra qualquer tipo de comportamento que lhes parecesse insuficientemente culto.

Nestas circunstâncias, o livro “Regras para Radicais” de Saul Alinsky, tornou-se o manual preferido para o envolvimento político, em vez da Constituição ou dos Fundadores. Mas a obra “O Poder dos Sem Poder”, de Vaclav Havel, devia ser leitura obrigatória para todos os que desejam defender, contra forças aparentemente inultrapassáveis, aquilo que se tornou o movimento contra-cultural mais ameaçador nos Estados Unidos: o Cristianismo.

Havel descreveu a vida na Europa de Leste comunista dos anos 70 como “pós-totalitária”, não porque o sistema não era totalitário, mas porque a forma como esse totalitarismo era exercido na sociedade era radicalmente diferente do totalitarismo de ditadores como Hitler e Mao. O biógrafo John Keane descreveu a definição de Havel de um mundo pós-totalitário da seguinte forma:

“Dentro do sistema cada indivíduo está preso por uma espessa rede dos instrumentos do Governo… legitimados por uma por uma ideologia flexível mas englobante, uma ‘religião secularizada’… torna-se assim necessário ver, segundo Havel, que as relações de poder… podem ser descritas da melhor forma como labirintos de influência, repressão, medo e autocensura que engole toda a gente, deixando-os em silêncio, estultificados e marcados por prejuízos indesejados dos poderosos.”  

O exemplo mais Famoso de Havel é do merceeiro que expõe um cartaz na janela da sua loja a dizer “Trabalhadores do mundo, uni-vos!”. Não o faz porque está particularmente interessado nos trabalhadores do mundo, mas porque não o fazer seria um sinal de desobediência inadmissível à ideologia dominante da sociedade.

Aqueles que lhe impõem essa obediência, recusando tolerar qualquer falha em expor o requerido sinal de submissão, não estão mais preocupados com os “trabalhadores do mundo” do que o merceeiro. Mas denunciá-lo-ão e puni-lo-ão para mostrar que continuam a aderir fielmente à ideologia dominante, ainda que o merceeiro seja precisamente um dos trabalhadores com quem alegam estar preocupados.

O merceeiro teria vergonha de colocar um cartaz a dizer: “Eu, merceeiro XY, vivo aqui e sei o que devo fazer. Comporto-me da forma que é esperada. Podem contar comigo e não têm nada a apontar-me. Sou obediente e, por isso, tenho o direito a ser deixado em paz”. A exposição do esperado “Trabalhadores do mundo, uni-vos”, permite ao merceeiro esconder a sua cobardia atrás de uma fachada de preocupação desinteressada. “Mas a verdade é que os trabalhadores do mundo estão a ser oprimidos”, dirá ele. E isso é incontestável. Mas não é por isso que ele colocou o cartaz. O cartaz é um sinal da sua submissão, não das suas convicções pessoais.

Vaclav Havel
“A ideologia é uma forma ilusória de se relacionar com o mundo”, escreve Havel. “Oferece ao ser humano a ilusão de uma identidade, de dignidade e de moralidade, ao mesmo tempo que torna mais fácil dissociar-se delas. Enquanto repositório de algo supra-pessoal e objetiva, permite às pessoas enganarem as suas consciências e esconder as suas verdadeiras posições e o seu inglório modus vivendi, tanto do mundo como de si mesmos… É um véu atrás do qual os homens podem esconder a sua própria existência decaída, a sua trivialização e a sua adaptação ao status quo. É uma desculpa que todos podem usar, desde o merceeiro, que disfarça o seu medo de perder o emprego com um alegado interesse pela unificação dos proletários do mundo, até ao mais alto funcionário, cujo interesse em permanecer no poder pode ser escondido em frases sobre o serviço às classes operárias.” É um “mundo das aparências”, escreve Havel, “a tentar passar-se por realidade”.

“O sistema pós-totalitário toca todos os aspectos da vida das pessoas, mas fá-lo com luvas ideológicas. É por isso que a vida nesse sistema está de tal forma permeada por hipocrisia e mentira: ao governo por burocracia chama-se governo popular… a total degradação do indivíduo é apresentada como a sua máxima libertação; à privação de informação chama-se disponibilização; ao uso do poder para manipular chama-se o controlo popular do poder e o uso arbitrário do poder é descrito como a observação do código legal; chama-se desenvolvimento cultural à repressão da cultura; a expansão de influência imperial é apresentada como apoio pelos oprimidos; a falta de liberdade de expressão torna-se a mais elevada forma de liberdade; as eleições fraudulentas tornam-se a mais alta forma de democracia; a proibição do pensamento independente torna-se a mais científica das mundivisões.”

Havel argumentou que a restauração de uma sociedade livre apenas podia ser alcançada pela recusa de dar crédito a slogans vazios e a rituais sem sentido – ao recusar tornar-se parte da mentira que oprime os outros sem dar liberdade a ninguém. Havel descreveu isto como “vivendo na verdade”. E esse, afirmou, é o poder mais importante que ainda resta aos sem-poder.

Contudo, a “verdade” só por si raramente chega. A “verdade” deve ser defendida através da coragem e da disponibilidade para servir os outros e sacrificar-se. É quase certo que o merceeiro perderá a sua loja caso se recuse a exibir o cartaz. E depois? Alguém virá defendê-lo? Apoiá-lo e talvez contratá-lo? Ou ficarão em silêncio para que não lhes seja lançado também o olhar duro da suspeita?

Aqueles que proclamam a “verdade aos poderosos” devem ter a credibilidade que vem de servir os outros na verdade. Quando as pessoas não podem negar que o merceeiro se preocupa com os trabalhadores, torna-se mais difícil tirar-lhe a mercearia. Não deixarão de o fazer. Mas quando o fizerem isso revelará o sistema por aquilo que é: um frágil véu de mentiras. A escolha é nossa: Cuidar dos outros na verdade, ou colocar cartazes da vossa submissão às narrativas que oprimem sem libertar.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 17 de Junho de 2020)

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Wednesday, 12 December 2018

Recordando – e aprendendo com – Solzhenitsyn

Douglas Kries
Hoje [ontem, terça-feira 11 de Dezembro] assinala-se o centenário do nascimento de Aleksandr Solzhenitsyn, o escritor russo que, apesar de ser o autor mais importante do último século, já não é bem conhecido, muito menos compreendido, pelos cristãos dos Estados Unidos.

A sua mãe enviuvou antes de ele nascer e os Bolsheviks confiscaram-lhe as terras de família. Mudou-se para Rostov, em busca de emprego, mas grande parte da vida inicial de Solzhenitsyn foi passada a partilhar a sua pobreza. Contudo, nascer na Rússia em 1918 significava pertencer à primeira geração da gloriosa revolução comunista e as escolas marxistas ensinavam ao jovem Solzhenitsyn que os princípios do comunismo em breve conduziriam ao estabelecimento de uma época da História da humanidade totalmente nova e livre do mal.

Quando irrompeu a Segunda Guerra Mundial, Solzhenitsyn saiu da universidade em Rostov para servir nas Forças Armadas soviéticas. Em 1945 foi detido por comentários numa carta privada para um amigo que foram considerados críticas de Stalin. Foi condenado a oito anos no sistema dos campos soviéticos; mais tarde foi libertado para um exílio perpétuo no Cazaquistão. Foi então que começou a escrever, sobretudo recorrendo às 12 mil linhas de poesia que tinha composto em segredo nos campos, e memorizado.

Em 1962, Solzhenitsyn pôde regressar à Rússia, mas não se atreveu a publicar ou sequer a submeter os seus manuscritos aos editores. Sob a liderança de Krushchev começaram a surgir sinais de um degelo cultural e Solzhenitsyn arriscou enviar – de forma anónima – um longo conto sobre um único dia na vida de um prisioneiro dos campos para um jornal literário chamado Novy Mir. O editor do jornal reconheceu imediatamente o valor da história e levou-a directamente a Krushschev, que autorizou a publicação de “Um dia na vida de Ivan Denisovich”.

A aceitação foi incrível. Uma testemunha escreve: “só o facto de passear por Moscovo naqueles tempos era entusiasmante, havia multidões de pessoas em cada quiosque, todos a pedir o mesmo jornal esgotado. Nunca me esquecerei de um homem que não se conseguia lembrar do nome do jornal e pedia ‘aquele, sabe, aquele em que está publicada toda a verdade’. E a dona do quiosque percebeu imediatamente do que é que estava a falar”.

A identidade do autor foi rapidamente conhecida e chegaram centenas de cartas de antigos presos que, como Solzhenitsyn, tinham desafiado as probabilidades e sobrevivido. Solzhenitsyn teve a ideia de usar as suas histórias e memórias para escrever uma obra mais aprofundada sobre os campos. Mas o “degelo” cultural rapidamente se transformou num “congelamento” e a polícia secreta soviética começou a persegui-lo incessantemente.

Ainda assim, sentia o dever moral de escrever aquilo que eventualmente viria a ser conhecido como “O Arquipélago Gulag”. Solzhenitsyn teve de trabalhar em segredo e ia passando partes do seu enorme manuscrito de uma secretária clandestina para outra, por forma a preservá-lo. Eventualmente foi contrabandeado para fora do país e publicado em França. Daí foi rapidamente traduzido para várias línguas e o mundo inteiro aprendeu a verdade sobre a enormidade dos crimes soviéticos.

É fácil olhar para Solzhenitsyn apenas como o autor de uma poderosa exposição política. Contudo, esse ponto de vista passa por cima do verdadeiro poder e significância da sua escrita, porque ele não se limitou a dizer-nos o quão terrível era o sistema de campos da União Soviética, mas explicou porque é que era tão terrivelmente errado.

Durante o tempo que passou no arquipélago, Solzhenitsyn tinha vindo lenta, mas firmemente, a rejeitar o marxismo da sua juventude e abraçado a fé cristã. Esta conversão, todavia, não foi alcançada sem um enorme sofrimento pessoal e um grau ainda maior de reflexão pessoal.

O marxismo afirma que há grupos e classes de seres humanos que são bons e outros que são maus. Para se aperfeiçoar, a humanidade deve isolar e eliminar as pessoas más. Solzhenitsyn viria a perceber que, pelo contrário, a linha que separa o bem do mal vive dentro de cada coração humano individual.

A posição marxista argumenta, por isso, que a humanidade seria aperfeiçoada através do inevitável progresso da história do mundo. Mas se a linha divisória está dentro de cada coração humano, então só é possível uma melhoria limitada nesta vida, na mesma medida em que é possível alguma degeneração. A posição marxista deve ser rejeitada, por isso, porque ignora a realidade do pecado original.

Mais, a consciência cristã obriga os seres humanos a tentar justificar os seus atos e persegue-os, ou chega mesmo a devorá-los, se tal justificação não puder ser encontrada. Os marxistas, porém, forneciam os seus adeptos não uma consciência, mas uma ideologia que justificava atos malévolos em nome de um fim inatingível. Esta justificação ideológica levava os marxistas para além dos limites normais da maldade e tonou possível que a destruição de milhões não fosse vista como aberrante ou impensável, mas sim como necessária e aceitável.

O marxismo não compreendeu a origem do mal nem percebeu o que fazer com os seus efeitos, isto é, o sofrimento. Solzhenitsyn veio a perceber que embora não existisse correlação entre aquilo de que ele, e outros presos políticos, eram acusados e aquilo a que foram sujeitados, os cristãos no arquipélago – ou pelo menos os melhores de entre eles – aprendiam a tornar o sofrimento redentor. Isto é, sabiam como tornar o seu sofrimento uma penitência contínua, que radicava numa confissão contínua.

A partir daí podiam alcançar a ascensão espiritual através daquilo a que Solzhenitsyn apelidava “autolimitação”. Mais tarde ele viria a avisar o Ocidente – na sua palestra em Harvard e no discurso de aceitação do Prémio Nobel – que o “mundo livre” estava a abraçar a sua própria escravidão materialista. Esse processo está hoje muito mais avançado do que estava durante a vida de Solzhenitsyn.

Esta autolimitação assemelha-se muito à autolimitação de Cristo, que não procurou equiparar-se ao ilimitado, mas limitou-se de livre vontade e se tornou homem, aceitando a forma humana e o sofrimento humano, oferecendo-nos assim a divina misericórdia.

Há aqui uma lição importante para nós, porque estas verdades profundas que Solzhenitsyn revelou devem governar todos os regimes, e todas as vidas.


Douglas Kries é professor de filosofia na Universidade Gonzaga, em Spokane, Washington. É co-autor, com Brian Clayton, de Two Wings: Integrating Faith and Reason (Ignatius Press, 2018).

(Publicado pela primeira vez na terça-feira, 11 de Dezembro de 2018 em The Catholic Thing)

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