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Friday, 2 February 2024

Ajudar trapistas no Palaçoulo e desbaptismos na Bélgica

A polémica da semana é o cartaz da Semana Santa de Sevilha 2024. O cartaz dividiu opiniões, levando até um grupo a marcar uma missa de desagravo. Tendo falado com especialistas na área da arte, admito que estou algo dividido sobre o assunto. Aproveito, por isso, para convidar os meus leitores que tenham alguma opinião fundamentada sobre o cartaz para me enviarem por mail as vossas ideias.

Na Bélgica existe outra polémica que, parecendo até cómica ou distante, poderá bem vir a ter repercussões em Portugal e toda a União Europeia. Uma pessoa pediu à sua paróquia para apagar o seu registo dos assentos de baptismo. A paróquia recusa. Noutros países em que isto aconteceu, os tribunais têm-se colocado do lado da Igreja, mas aqui o Tribunal deu razão à pessoa e à Autoridade de Protecção de Dados. A Igreja recorreu, e isto pode mesmo chegar a um tribunal europeu. Este é, para mim, um sinal perfeito dos tempos em que vivemos, os tempos do pensamento mágico, em que alguém acha que só porque lhe apetece, pode obrigar todo o resto do mundo a alinhar numa fantasia, neste caso fingindo que um facto histórico – o facto de ela ter sido baptizada – simplesmente não aconteceu. Há aqui uma ligação evidente com a ideia de que é possível, por exemplo, mudar de sexo. É uma ideia que desenvolvo neste artigo “A Consagração da Mentira”, que vos convido a ler.

Como muitos já saberão, as Monjas Trapistas do Palaçoulo tiveram um incêndio na sua hospedaria, onde viviam enquanto esperam a construção do mosteiro. Já muita gente contribuiu para ajudar a financiar os reparos, de tal forma que o MBWay das monjas ultrapassou o limite mensal. Felizmente há sempre a possibilidade de fazer transferência. Aqui encontram todos os detalhes necessários. Toda a ajuda é preciosa!

O Papa Francisco pergunta se nos incomoda o grito dos oprimidos. É uma excelente pergunta para ir preparando a Quaresma, que está a quase a chegar!

E da China chega uma notícia interessante. Depois de vários actos unilaterais por parte do Governo, que punham em causa a posição do Vaticano naquele país, foi agora instalado um novo bispo, de uma nova diocese, criada por Roma. Mais do que pontos a favor de um ou outro, se Deus quiser isto poderá demonstrar que o acordo entre a China e Roma está finalmente a permitir uma normalização das relações. A notícia está aqui em português, e analisada aqui pelo The Pillar.

O artigo desta semana do The Catholic Thing é sobre a autoridade de Cristo. O Pe Paul Scalia explica que ao contrário no nosso tempo, em que pomos em causa a autoridade de tudo e todos, os contemporâneos de Jesus davam uma enorme importância ao conceito, e queriam mesmo saber com que autoridade Cristo pregava e actuava. É um artigo que vale bem a pena ler, com base no Evangelho do passado domingo.

Tuesday, 24 May 2022

Hospital de Campanha Ep. 6 - Zen, e a arte de ser católico na China

Este sexto episódio do Hospital de Campanha vem a lume no Dia Mundial de Oração pela China, e no dia em que o Cardeal Zen, com os seus 90 anos, foi apresentado em tribunal, depois de ter sido detido, há vários dias, em Hong Kong. 

Para tentar compreender melhor a vida dos católicos na China, e como o Estado os encara, falámos com um padre que esteve vários anos naquele país em missão clandestina. Por isso, e para não comprometer os seus contactos por lá, ele pede para não ser identificado. 

Ouçam e partilhem esta conversa interessantíssima que só pecou por curta, e onde falámos ainda do acordo entre Roma e Pequim para a nomeação de bispos.



Wednesday, 11 May 2022

As repercussões da detenção do Cardeal Zen em Hong Kong

Aqui podem ouvir a minha análise à detenção do cardeal Zen, em Hong Kong, bem como a minha leitura das repercussões que pode ter nas relações entre a Santa Sé e a China.

Tratou-se de uma conversa com Hugo Pinto, jornalista do Observador.


Posts antigos sobre este assunto: 

Wednesday, 9 March 2022

Todos pela Ucrânia, mas até quando?

Randall Smith

O mundo está horrorizado pelo ataque não provocado da Rússia à Ucrânia e ao seu povo. Não tenho nada de especialmente novo ou sábio para acrescentar sobre a Rússia, a Ucrânia ou a guerra. Por isso, se me permitem, prefiro dizer umas palavras sobre a nossa reacção à crise.

Há vários anos houve um terramoto terrível no Haiti. Todos os dias, quando eu ia à missa, o padre rezava durante a oração dos fiéis pelas pessoas do Haiti. Várias semanas mais tarde, porém, quando o Haiti deixou de figurar na primeira página do “New York Times”, já não estávamos a rezar “pelo povo do Haiti”. Lembro-me de dizer a mim próprio: “Não me parece que esteja tudo bem agora no Haiti. De facto, acho que as coisas estão bastante terríveis”. Então porque é que deixámos de falar do povo do Haiti?

Há muitas razões pelas quais não é boa ideia basear as orações na missa no que encontramos nas manchetes do dia, uma das quais é a natureza efémera e transitória do ciclo noticioso moderno.

Esta é uma razão pela qual eu prefiro a prática dos ritos orientais de percorrer uma longa lista de orações intercessórias por uma série de coisas: agricultores, líderes políticos, operários, famílias, desempregados, prisioneiros, perseguidos, e por aí fora, em todas as celebrações – orações que não estão dependentes do ciclo noticioso.

Neste momento muitos de nós estamos a rezar pela Ucrânia e pelo povo ucraniano. E é assim que devia ser. Mas temo que a situação na Ucrânia não melhore tão depressa. O cenário mais provável, temo, é que Putin consiga sujeitar a Ucrânia à sua tirania. Se isso acontecer os jornalistas serão expulsos do país e as imagens grotescas que agora estamos a ver deixarão de surgir – tal como nunca aparecem da China ou do Irão. As notícias sobre a Ucrânia desaparecerão das primeiras páginas do “New York Times” e de outros dos principais jornais. Então ainda veremos alguém a rezar pela Ucrânia? Ou será que as orações cessam quando a Ucrânia deixar de ser “notícia”?

Neste momento as nossas emoções estão ao rubro. Mas este combate não vai acabar tão depressa para o povo ucraniano. Mesmo que eles saiam desta invasão com a sua soberania intacta, a reconstrução levará décadas. As pessoas gritam: “Ucrânia, estamos convosco!”. Ainda bem. Mas por quanto tempo? Duas semanas? Enquanto nos souber bem? A nossa tendência para a superficialidade deve-nos fazer pensar.

Conheço um professor universitário que tinha um póster na porta do seu gabinete com a famosa fotografia do chinês que, durante os protestos de Tiananmen, em 1989, se posicionou diante de uma coluna de carros de combate – ficou conhecido como o “Tank Man”. Lembro-me que na altura as pessoas diziam que tudo iria ser diferente, que o Governo comunista chinês seria obrigado a mudar, que tinha os dias contados, tal como dizem agora sobre Putin e os russos. 

Mas não foi isso que aconteceu na China. O mais provável é que o “Tank Man” tenha sido executado dias depois dessa famosa fotografia, e sabemos que milhares de outros alunos foram massacrados em Tiananmen. E anos mais tarde, quando o tal professor foi visitado no seu gabinete por um aluno chinês, este perguntou. “Porque é que tem essa fotografia na porta? Sabe que isso nunca aconteceu, certo? É só uma peça de propaganda ocidental.”

"Tank men" na Ucrânia. Qual será o seu futuro?
Até as lutas mais nobres podem ser esmagadas. Acontece a toda a hora. Por isso costumo achar que ou acreditamos que esses actos voluntários de heroísmo altruísta vivem para sempre na Glória eterna de Deus, ou o mais provável é entrar em desespero. As pessoas que esperam justiça perfeita nesta vida tendem a desiludir-se.

Devemos, por isso, ser brutalmente honestos. É possível que Putin conquiste a Ucrânia e a sujeite á sua tirania; que sobreviva às sanções que o Ocidente impõe ao seu governo; que tome nota dos russos que se opõem a ele e os destrua agora que se revelaram, deixando-o numa posição mais forte que nunca. E é perfeitamente possível que dentro de uma ou duas décadas muito poucas pessoas se recordem das terríveis atrocidades cometidas pela Rússia na Ucrânia. Quantos jovens hoje sabem que a Rússia enviou carros blindados para a Checoslováquia em 1968 para esmagar as manifestações contra o Governo comunista durante a chamada “Primavera de Praga”?

Então, se a ideia é estarmos “com a Ucrânia” – e espero que seja – é bom que estejamos prontos a estar “com a Ucrânia” a longo prazo. Porque por mais que queiramos que este espetáculo de terror acabe dentro de uma semana, o mais natural é que isso não aconteça. E nem todas as lutas contra o mal têm o final feliz dos filmes da Marvel. Às vezes os maus vencem, e não dá para voltar atrás no tempo e tentar outra vez. Os mortos permanecem mortos, e temos de viver com isso.

Continuaremos a rezar pelos ucranianos e a fazer sacrifícios para ajudar quando já não estiverem nas manchetes, quando os media tiverem passado para outro pseudo-evento pensado para excitar os espetadores e aumentar as audiências? Espero que sim. Caso contrário, dentro de 10 anos os jovens estarão a perguntar: “Então, está a dizer que a Rússia invadiu a Ucrânia? Pensei que tinha feito sempre parte da Rússia”. E os universitários russos dir-lhes-ão: “E fez. O boato de que não fez é apenas propaganda ocidental”.

A verdade é a primeira baixa na guerra. E com demasiada frequência essa ferida infecta e espalha-se, em vez de sarar. O povo heroico da Ucrânia merece mais do que apenas o mais recente ciclo noticioso. Merece o nosso compromisso a longo prazo, as nossas orações contínuas e a nossa devoção absoluta a viver na verdade em vez de numa enganadora teia de mentiras, ou o conforto fácil de um esquecimento conveniente.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 8 de Março de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Friday, 17 December 2021

Sugestão de Natal e liberdade de oração restaurada na Alemanha

Começo este mail com uma sugestão de Natal. Há vários anos li, fascinado, o livro “Not in God’s Name” do rabino Jonathan Sacks. Foi com enorme alegria que soube agora que a editora Saída de Emergência publicou o livro em português. Já comprei um exemplar (encomendei da editora, chegou em dois dias) e vou oferecer a pelo menos duas pessoas próximas. “Não em Nome de Deus” é uma resposta à subida da violência religiosa. O rabino, que tristemente já morreu, faz uma análise de episódios de conflito – incluindo conflito fratricida – no Antigo Testamento e mostra como o objetivo dos textos sagrados é mesmo o contrário de incentivar à violência. Termino assegurando que este não é um livro para especialistas ou académicos, sendo acessível para toda a gente.

Passando às notícias do dia, os EUA impuseram sanções à China por causa da perseguição aos muçulmanos uigure.

Boas notícias da Alemanha, onde um tribunal anulou a proibição de se rezar em frente a uma clínica de aborto perto de Frankfurt.

A Renascença entrevistou o presidente da Conferência Episcopal, D. José Ornelas, que falou sobre vários assuntos, incluindo o papel das igrejas na pandemia, a crise dos abusos e ainda os problemas no sistema de nomeação dos bispos.

Tudo isto no dia em que o Papa Francisco completa 85 anos!

Wednesday, 1 September 2021

O essencial da entrevista do Papa à Cadena COPE

A “silly season” costuma terminar com o final de Agosto, e parece que assim foi. O espanhola Cadena COPE divulgou esta quarta-feira uma longa entrevista ao Papa Francisco, cheia de coisas interessantes, como o facto de assumir que tem medo dos “demónios bem-educados”.

O Papa começa por falar da luta contra a corrupção e de como foi necessário, para tal, reformar o sistema judicial. Expressa ainda o desejo, sem se comprometer, de que o cardeal Becciu, actualmente ser julgado, seja inocente.

Francisco não foge a temas como os abusos sexuais na Igreja, mas pergunta por que razão os estados não fazem mais para combater a pornografia infantil dentro das suas fronteiras, afirmando que não acredita que seja por falta de conhecimento.

O diálogo com a China também foi falado, com Francisco a defender que este deve continuar, mas a aceitar que existam dúvidas e críticas legítimas ao que foi alcançado até agora.

E por fim o Papa deixa um recado aos próprios espanhóis, apelando a que se reconciliem com a história do século passado, dizendo ainda que a Europa tem de escolher entre aperfeiçoar-se ou desintegrar-se.

Noutras latitudes, os EUA deduziram acusação contra um padre americano em Timor-Leste por abusos sexuais. Richard Daschbach já está a ser julgado em Timor e foi laicizado pela Igreja. Mas conta naquele país com importantes aliados.

E o tema do artigo do The Catholic Thing em português é, hoje, a aparente derrota dos EUA e aliados no Afeganistão. A ex-militar Michele Maria McAloon explica qual deve ser a atitude cristã peranteesta realidade.

Friday, 2 July 2021

Gritos pelo Líbano e Hotel genocídio

Os líderes cristãos do Líbano estiveram juntos ontem em Roma para dar um grito por aquele país em crise. Um momento ecuménico inédito que vale a pena recordar.

Hoje Francisco recebeu o primeiro-ministro do Iraque, meses depois da sua própria histórica visita ao país.

Os símbolos das JMJ vão estar em tour pelo país. Saiba quando é que vão estar na sua diocese.

A cadeia de hotéis Hilton está a ser acusada de cumplicidade no genocídio dos uigures na China.

Continua a dar que falar a questão das crianças indígenas retiradas às famílias no Canadá. Os líderes das comunidades vão a Roma em Dezembro para tentar convencer o Papa Francisco a pedir desculpa pelo papel desempenhado pela Igreja na gestão das escolas.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing. Elizabeth Mitchel encoraja-nosa “lançar as redes” de novo, mesmo quando tudo nos parece perdido.

Monday, 26 October 2020

Peter Stilwell sobre a Universidade de São José, em Macau e o cristianismo na China

Esta é a transcrição integral da entrevista que fiz ao Pe. Peter Stilwell. A entrevista resultou em dois artigos que podem ser lidos aqui e aqui.

Foi chamado para a Universidade de São José numa missão de "bombeiro", para apagar fogos. Sente que a deixou melhor do que a encontrou?

Acho que no conjunto dos oito anos, e graças ao trabalho de todos os que estão dentro da Universidade, e aos apoios que recebemos dos que estão fora, muitos dos projetos do professor Ruben Cabral que tinham sido desenhados, do novo campus e de ter uma universidade que pudesse ter critérios internacionais, foi possível realizá-los ao longo dos meus dois mandatos. Por isso, sem dúvida que os oito anos foram de crescimento e de estabilização e hoje a universidade é vista com respeito pelas outras universidades locais. 

Quando saiu de Portugal levava uma grande experiência académica, mas sempre em Portugal e na Europa. Foi fácil adaptar-se à realidade asiática?

Macau tinha um sistema de ensino superior muito nos primórdios. A primeira universidade propriamente de Macau, a Universidade de Macau, foi criada em 1992, exatamente 20 anos antes de eu ir para lá. Tinha havido uma outra universidade antes, que era uma universidade particular, mas foi criada por gente de Hong Kong, para Hong Kong, como Universidade da Ásia Oriental porque não puderam criá-la em Hong Kong. Foi essa que foi comprada pelo Governo de Macau e foi desdobrada num politécnico, na Universidade de Macau e numa universidade aberta que mais tarde seria comprada por uma entidade particular e se tornou a Universidade Cidade de Macau. 

Portanto quando eu cheguei a Macau as universidades estavam a pensar reorganizar os seus estatutos, ter uma nova lei do ensino superior que pudesse corresponder às exigências que o ensino superior tem hoje em dia a nível mundial, todo o processo de Bolonha tinha sido introduzido na Europa e depois com impacto mundial no princípio deste milénio, por isso tudo era bastante recente. Eu tinha a vantagem de ter assistido aqui e ter sido responsável na Faculdade de Teologia pela adaptação da Universidade Católica ao sistema de Bolonha, portanto conhecia por dentro as exigências desse sistema e que nos tinha levado a repensar o que era o ensino superior e como se podia desenvolver. 

Portanto eu levava muitas vantagens e coincidiu ser num momento em que a própria região autónoma de Macau estava a desenvolver o seu ensino superior para uma nova etapa.

E a nível da relação com as autoridades chinesas?

Quando pensamos em Macau temos de pensar em duas autoridades. Temos a autoridade regional e depois temos o Governo central que está presente no território com duas grandes entidades, os Negócios Estrangeiros e Segurança, porque isso está a cargo de Beijing e a região autónoma é depois supervisionada por um gabinete de ligação e esse gabinete de ligação tem um setor responsável pela educação e que acompanhou o que nós íamos fazendo. De vez em quando a nossa equipa ia sentar-se à mesa para explicar o que é que estávamos a fazer e eles acompanharam-nos sempre com muita simpatia e muita boa-vontade, dando-nos algumas orientações. Perguntámos como é que viam a Universidade de São José e diziam que a viam como uma entidade que mantinha a ligação com a Europa, enquanto que as outras universidades locais estavam a tender, sobretudo na área do Business, para se articularem com os Estados Unidos e com o Canadá e eles achavam que a ligação com a Europa e a maneira de gerir negócios na Europa era muito importante e que não se perdesse esse ponto de vista. 

Também a ligação aos países lusófonos, achavam que nós tínhamos uma posição privilegiada pela nossa ligação com a Universidade Católica, porque um número significativo dos professores da Universidade de São José é oriundo da Universidade Católica Portuguesa, portanto havia várias possibilidades de nós enriquecermos as ligações com os países lusófonos. E gradualmente ao longo dos oito anos foi-se sentindo que a Universidade de São José era cada vez mais solicitada para fazer coisas que interessavam localmente, mesmo ao Governo central. 

Um dos seus objetivos quando foi para lá era conseguir que alunos da China continental fossem estudar para a Universidade. Não conseguiu. Foi um fracasso?

A Igreja Católica está em Macau há mais de 400 anos a tentar posicionar-se na China de maneira a tornar presente a mensagem do Evangelho e tem, ao longo desses 400 anos, tido avanços e sofrido recuos. E, portanto, não me surpreendeu que fosse uma coisa lenta conseguir a autorização para que os alunos da China viessem estudar para a Universidade de São José. 

Um pouco como o Vaticano, também a China pensa em décadas e séculos mais do que em anos e eu percebia nas entrelinhas que lhes fazia alguma confusão que a Igreja dedicasse tanto esforço à construção e implantação de uma Universidade e que isso não fosse para criar adeptos da Igreja Católica. Um dos altos funcionários do Estado perguntou-nos se obrigávamos os alunos a rezar no início da aulas, se os obrigávamos a ir à missa, se os obrigávamos a estudar catequese e nós explicámos que não, que não perguntávamos a religião das pessoas ao inscreverem-se, nem ao sair da Universidade, que os princípios cristãos eram os que estavam presentes na gestão da vida comum da Universidade e na maneira como geríamos a vida universitária, o que não é difícil, já que as universidades nasceram no seio da Igreja Católica, na Idade Média europeia. Havia esse receio, portanto acho que há um compasso de espera enquanto as autoridades esperam para ver se a Universidade é perigosa. 

Há que acrescentar aqui um elemento que se torna circunstancialmente importante, que é a questão de Hong Kong. Porque certos grupos dos jovens que animaram estas manifestações que tem havido em Hong Kong vieram dos quadros de escolas cristãs – não só católicas – portanto aos olhos das autoridades estão marcados como sendo de proveniência cristã. Não fazem imediatamente confusão, mas andam um bocadinho de pé atrás. 

Mas voltando à questão inicial, porque é que a Igreja investe tanto na educação, se não quer criar mais adeptos? E fomos explicando que é uma das obras de misericórdia, ensinar. Um dos altos funcionários dos Negócios Estrangeiros, perguntei-lhe onde tinha estado antes e disse que tinha estado na Índia, e eu perguntei se tinha visitado a casa da Madre Teresa de Calcutá, e ele disse que sim, que ficou muito sensibilizado com o trabalho delas. E eu disse que ela tinha esse princípio que acolhia pessoas indiferentemente da religião e não as procurava converter à força. E isso é porque a nossa experiência cristã, uma das vertentes da nossa experiência espiritual, é encontrar Deus nessas obras de misericórdia, seja no cuidado pelos pobres, no ensino aos ignorantes, isso faz parte da experiência tipicamente cristã. Não sei se ficou convencido, mas era a minha justificação repetida às autoridades. 

Houve protestos muito graves em Hong Kong, mas Macau também teve leis semelhantes e não houve protestos significativos. Como é que se explica esta diferença?

Quando houve os acordos para Hong Kong e depois Macau voltarem à soberania chinesa, ou à administração chinesa – porque no caso de Macau a soberania chinesa existiu sempre – foi acordado que os negócios estrangeiros e a segurança nacional pertenciam a Beijing, como acontece connosco com os Açores e a Madeira, são regiões autónomas, mas debaixo da soberania nacional. Ficou acordado também que cada uma das regiões iria elaborar a sua lei de segurança nacional. Foi uma concessão por parte de Beijing que fossem os parlamentos locais a decidir sobre uma lei que, claro, levaria o placet de Beijing. Macau avançou e fez a sua lei, que foi aprovada e a lei de Macau mantém tudo dentro de Macau. Se há casos considerados de perigo para a segurança nacional são julgados pelos tribunais de Macau e ficam dentro de Macau. No caso de Hong Kong tem havido esta longa sessão de protestos que remonta já há uns tempos e Hong Kong avançou com uma proposta de lei de segurança que foi chumbada, por assim dizer, nas ruas, pelas manifestações e a recusa da oposição no Parlamento em discutir e votar a lei.

Passados anos, e tendo aumentado os protestos em Hong Kong, o Governo central disse então fazemos nós e aplicaram uma lei de segurança nacional que é pior do que aquela que estava prevista pelas autoridades de Hong Kong, porque estabelece que conforme a gravidade dos crimes, segundo as autoridades locais e as centrais, as pessoas podem eventualmente ser extraditadas de Hong Kong para serem julgadas por um tribunal na China continental. Isso é bem pior – na perspetiva dos manifestantes de Hong Kong – do que aquilo que aconteceu em Macau e do que aquilo que eles chumbaram. 

Universidade de São José

Há uma diferença na forma como macaenses e Hong Kong vivem a relação com o Governo central da China?

Macau é muito pequeno, são 700 mil habitantes. Hong Kong são sete milhões. É quase o tamanho de Portugal, em termos demográficos. Portanto há aí uma diferença substancial. Hong Kong tem o estatuto de um grande centro financeiro mundial que ombreava com Nova Iorque, Londres e os grandes centros mundiais da Finança. Era um lugar onde as empresas que queriam negociar com a China vinham estabelecer as suas bases e, portanto, tinha um estatuto económico e cultural, sentia-se seguro de si próprio. 

Hong Kong também é composto em grande parte – se as minhas informações estão corretas – por gente que se refugiou da invasão dos japoneses, das guerras civis na China, enfim, gente que saiu da China e que eventualmente nunca esteve de acordo com o que aconteceu no final da Guerra Civil. Um pouco como aconteceu em Taiwan.

Já Macau existe há 450 anos, tem uma população luso-asiática, a comunidade macaense, que está lá há gerações, à volta da qual se constituíam mais duas comunidades ou três, uma de chineses vindos para trabalhar ou em fuga, mas que eram menos; filipinos de língua inglesa que vinham trabalhar e com portugueses que vinham agora mais recentemente por causa das crises económicas na Europa e em Portugal que iam lá trabalhar.

No centro está esta comunidade que faz a ponte entre a cultura chinesa e a ocidental há séculos e que conhece e sempre soube gerir estas relações com a China continental ao longo de mudanças de regime, de imperadores, de dinastias, sabendo que às vezes é preciso recuar, outras avançar nestas negociações, é preciso ter calma, não ser confrontacional e isso explica um pouco a diferença. Eu notei, nas pessoas com quem lidava e contactava, que havia algum receio de um "spillover" de Hong Kong para Macau. 

Houve uma ou outra pequena manifestação a certa altura, há uns anos, mas depois as pessoas viram que em Hong Kong aquilo estava a levar a uma situação que ninguém queria para Macau, de instabilidade e insegurança nas ruas, e, portanto, não notei que houvesse grande tentação. 

As autoridades estavam preocupadas com as universidades e perguntavam-nos que medidas é que tínhamos. Nós respondemos que tínhamos as medidas que eram habituais em todo o mundo, que o campus universitário não era espaço para debates politico-partidários, esse género de coisas, mas nunca sentimos que da parte dos nossos alunos houvesse movimentação que notássemos. 

Sei que houve um momento mais difícil com um docente que criticava abertamente o regime de Beijing e por isso foi afastado. Foi criticado por isso. Acha que tomou a decisão certa?

Fui o responsável. Não posso deixar de pensar que agi bem. O processo está em curso, nos tribunais, sei que haverá uma audição agora no dia 17 de novembro. Espero que seja a última e que seja possível ver como uma autoridade independente, como são os tribunais, ajuíza uma decisão sem dúvida difícil na altura.

Durante os seus mandatos celebrou-se o acordo entre o Governo da China e o Vaticano. Como é que recebeu esta notícia?

Foi com surpresa. Eu sabia que as negociações estavam em curso, mas depois na última fase não sabia que tinham chegado ao ponto de assinar o acordo. Depois ninguém o viu, portanto não sabemos exatamente o que lá está escrito. E não foi assinado pelos tops, não foi assinado pelo Papa e pelo Secretário de Estado do Vaticano e um ministro do Governo chinês, foram figuras de segunda linha que terão assinado esse documento. 

Ele terminou em setembro e estão em curso negociações para saber se se prolonga através de um novo acerto [NOTA: O acordo já foi renovado por dois anos]. Abrangia, pelo que conseguíamos perceber, a nomeação dos bispos, que é sempre uma questão delicada, e não se sabe muito bem o procedimento, mas parece que Beijing avança com dois ou três nomes e o Vaticano tem a última escolha. Pode dizer que sim ou que não. E se disser que não haverá outra seleção a seguir. Havia um acordo semelhante com Espanha no tempo de Franco, portanto não é uma coisa que seja estranha à tradição da Igreja. No Século XIX houve entendimentos desse género com vários países. O que faz mais confusão às pessoas é que seja um regime comunista, que se diz aberta e publicamente ateu, a escolher os dirigentes da Igreja Católica. Mas isso faz parte da própria visão que o regime tem de si próprio. 

A China não se entende como um Estado acima dos partidos, mas como um partido acima do Estado. É uma visão diferente. É um pouco o prolongamento da visão que tinham os imperadores, portanto havia toda a administração burocrática, que no Ocidente dizemos que são os mandarins, que eram supostamente um regime meritocrático, ou seja, as pessoas entravam na função pública através dos seus méritos, através de exames públicos. O próprio Matteo Ricci e os jesuítas entraram para a China e entraram em diálogo com as autoridades chinesas através desse processo, fazendo o exame e tornando-se funcionários públicos. Mas acima dessa função pública, semelhante à nossa ideia de Estado, havia o imperador e o imperador não era governado por nenhuma outra lei a não ser o que era considerado o mandato celeste.

Desde que ele, ou ela, contribuísse para que o Povo se desenvolvesse harmonicamente, e havia esta ideia da harmonia com a natureza e com o Céu, então o mandato do Céu ia-se prolongando. E há um pouco essa continuação, um pouco parecido com o absolutismo régio que tínhamos no ocidente, em que os reis consideravam que eram reis por direito divino, que estavam acima dos parlamentos. O partido considera-se sucedâneo disso e enquanto o partido contribuir para que o povo se desenvolva, que viva em harmonia, que possa ganhar projeção mundial – e olhando para os últimos 30 anos da China ela posicionou-se como não se tinha posicionado há mais de mil anos, é a segunda potência mundial em termos económicos, e há muitos chineses que ainda se lembram dos tempos da fome e de comer grilos porque não havia outra carne para comer. 

Portanto este desenvolvimento como que garante que o Partido tem legitimidade para governar, está acima dos tribunais, dos parlamentos, etc., e há essa perspetiva, mesmo em relação às igrejas é o partido que tem a última tutela para dizer o que contribui ou não para o desenvolvimento da sociedade e é isso que faz confusão quando vemos estas negociações. 


Aquilo que se chama a Associação Patriótica tem diversos ramos, tem um ramo para cada uma das religiões reconhecidas na China e aí cabem o Budismo, naturalmente, o Islão e dentro do Cristianismo as autoridades chinesas vêem duas religiões, o Catolicismo e o Protestantismo. E cada uma delas tem os seus responsáveis centrais, uma espécie de tutela do Partido Comunista e supostamente as autoridades dentro de cada uma delas tem de assinar, para ser reconhecido publicamente, um reconhecimento da soberania do Partido. Portanto os bispos têm de fazer isso, é o que se quer dizer quando se diz que é exigido aos bispos tornarem-se membros da Associação Patriótica, ou o padre assinar a dizer que reconhece a autoridade do partido. É uma coisa que causa algum conflito de consciência para os padres que tenham estado fora desse sistema, portanto na chamada Igreja Clandestina, ao entrarem agora para uma China em que as duas comunidades supostamente devem estar a harmonizar-se porque o Vaticano assinou com o Governo chinês, ao saírem da clandestinidade têm de assinar um acordo de reconhecimento do partido. 

Houve muitos críticos em relação ao acordo – o cardeal Zen é um dos exemplos – mas a maior parte dos críticos apontam para o facto de a perseguição aos cristãos estar a aumentar com a atual administração da China. É justo misturar as duas coisas?

Eu não isolaria a Igreja Católica disso. Um dos discursos nos primeiros anos do Xi Jinping foi para os membros do partido. É preciso lembrar que o PCC tem 100 milhões de militantes, portanto é dez vezes o tamanho de Portugal em militantes, e ele fez um discurso muito contundente, falando da questão da corrupção e recordando que o partido é ateu e não se pode ser membro de uma religião e do partido. 

O facto de ele ter identificado essa questão da religião dá-nos a entender que provavelmente havia membros do partido que se sentiam sensibilizados pelo Taoismo, ou pelo Confucionismo e eventualmente por outras religiões. Portanto o apelo ao ateísmo surgiu daquele que é hoje em dia o homem com mais poder na China desde Mao Tsé Tung, que é Xi Jinping e é compreensível que num país da dimensão da China haja quem queira avançar com os seus projetos, com a sua carreira, e se queira mostrar mais papista que o Papa e portanto quando se deitam abaixo igrejas, ou se retiram cruzes, é bem possível que haja gente a ultrapassar o que se faria em Beijing. Em Beijing não se vê isso, não se vêem igrejas a serem fechadas forçosamente, longe disso. 

Portanto é preciso matizar e perceber que talvez não seja a mesma imagem em todo o lado. É evidente que não há amizade para com as religiões, foi implementada uma lei que, segundo me dizem já existia mas que caiu em desuso, que proíbe a entrada nas Igrejas de jovens entre os seis e os 18 anos, portanto eles não se vêem nas igrejas. Isso é supostamente para que os jovens não sejam desencaminhados pelas "falsas doutrinas" das religiões.

A meu ver é uma faca de dois gumes. Atinge as comunidades, eu participei em missas em vários lugares da China e notava-se que havia bebés nos braços das mães e depois havia gente a partir dos 20 e tal anos, mas não havia ninguém de idade intermédia, nem entre os acólitos. 

Isso levou-me a pensar que às vezes o fruto proibido torna-se apetecível e portanto pode ser que isto acabe por sair o tiro pela culatra e os jovens poderão querer saber o que é isso que lhes estava proibido e quem sabe se não vai levar a que haja mais fiéis. 

Encontrei vários jovens nas minas viagens pela China, que não foram muitas, mas encontrei vários que se tinham aproximado do Cristianismo, uma do catolicismo e outra do protestantismo, outro que fez a viagem entre ambos, tornou-se católico mas depois por razões de trabalho deslocou-se para outra zona do país onde só havia comunidades protestantes e portanto ia às comunidades protestantes e depois ficou com problemas de consciência, de que talvez tivesse passado de uma religião para a outra. Mas em termos capilares o que está a surgir é uma inquietação religiosa entre as pessoas, uma procura e as pessoas estão a bater à porta das igrejas. 


Que futuro é que vê para o catolicismo na Ásia?

Como se sabe, excetuando as Filipinas e Timor-Leste, o Catolicismo e o Cristianismo em geral na Ásia é ultraminoritário, não tem nada a ver com a nossa visão na Europa, Estados Unidos, América Latina ou mesmo na África, onde o Cristianismo acaba por ser a religião marcante. Depois no Médio Oriente temos o Islão, na Indonésia temos o Islão e naquelas zonas da Ásia é o budismo ou, no caso da China, os restos de religiosidade popular que renascem. 

Quanto ao futuro da Igreja, e é essa a preocupação do Papa, estou convencido, é de que na China o crescimento do Cristianismo é muito grande. 

Diz-se que no ano 2030 a China ultrapassa o Brasil como maior país cristão do mundo. Apesar de isso continuar a ser uma minoria da população. 

Há um outro fator interessante presente, que as autoridades chinesas eventualmente têm consciência ou não, não sei, mas ao introduzirem o comunismo e o capitalismo na China como grandes fatores para o desenvolvimento económico e a articulação social do país, introduziram dois sistemas que têm raízes judaico-cristãs. e portanto que têmm uma antropologia que é estranha à antropologia confuciona e budista. Portanto está na matriz económica e do desenvolvimento económico e social, um gérmen cristão que faz com que quando as pessoas se inquietam com o sentido das suas vidas as religiões que mais correspondem ao tipo de desenvolvimento em curso são as religiões ou protestante ou católica, e portanto o crescimento dessas religiões dentro da China. 

Essa é a minha impressão neste momento. O que pode acontecer a médio prazo só Deus sabe. 

Falámos de perseguição às igrejas. Enquanto estava em Macau chegavam-lhe ecos daquilo que se passa com a comunidade muçulmana na China, que está a ser muito duramente perseguida? 

Chegavam, a maior parte delas através dos meios de comunicação ocidental. 

Tínhamos acompanhado com alguma preocupação notícias do interior da China de atentados à faca em Beijing e noutros pontos do país, que eram depois atribuídos a gente inquieta da zona de Xinjiang, portanto os uigures e muçulmanos, e agora chega-nos esta notícia de grandes campos de reeducação. Vamos ver o que é que dá. É um sinal do tipo de regime, mas também do medo que o regime tem ao criar esta dinâmica da rota da sede, de retomar a rota da seda, que todos aqueles estados que ficam a ocidente do norte da China, são todos países de maioria muçulmana e portanto há medo de que aquela luta interna que o Islão vive neste momento pelo seu coração, que tem dado origem a vários grupos extremistas, possa vir a ter influência na China, e a estabilidade social é uma coisa fundamental para o Governo. 

A identidade portuguesa de Macau está para ficar?

Acho que sim, no sentido de que estão lá essas famílias luso-asiáticas e com passaporte português, porque na altura da transição foi dada a oportunidade aos macaenses de obterem passaporte português e muitos têm. Muitos não falavam português, mas fizeram o passaporte para o que desse e viesse. E depois descobriram que isso lhes dá acesso à União Europeia, dá acesso aos seus filhos às universidades na Europa, pelo preço dos europeus, e portanto isso, acompanhado da ideia de que o Governo central abençoou a relação com países lusófonos e que tem muita preocupação com isso, porque tem consciência de que a sul do equador a língua mais falada é o português, no Brasil, Angola, Moçambique e o pequeno Timor, levou a que o prestígio de Portugal tem vindo a subir na China. 

Houve um impacto, um reflexo em Macau. O Governo central também disse a Macau que Macau devia ser a plataforma de encontro entre a China e os países lusófonos e quando Macau não tem feito o suficiente nessa área o Governo tem espicaçado e tem substituído pessoas e mostrado que isso não foi simplesmente uma coisa escrita num papel, é um interesse que se desenvolveu. Portanto neste momento estuda-se mais português, fala-se mais português em Macau, na comunidade chinesa, do que no tempo da administração portuguesa. 

O seu sucessor é um diácono galês, mas é da diocese de Southampton. Que conselhos é que lhe deixou?

Ele teve dois ou três anos na Universidade. Por sugestão minha, quando o bispo mostrou interesse em ter esta pessoa como futuro reitor sugeri que ele se adaptasse conhecendo a partir da base o que era a universidade, portanto ele foi diretor da Faculdade de Estudos Religiosos, ou seja, de Teologia, conheceu a Universidade Católica, participou em atividades da Federação Internacional de Universidades Católicas e portanto conhece a universidade por dentro. Eu pude-lhe dar alguns conselhos, mas grande parte daquilo que tinha acontecido na Universidade estava no papel, nos procedimentos instituídos. Ele teve a sorte, por assim dizer, de que para o ajudar agora nas relações com as autoridades chinesas o reitor da Universidade Cidade de Macau, que era a nossa rival, quis vir para vice-reitor dele, portanto eu sinto isso como um elogio ao trabalho feito, porque a Universidade ganhou prestígio suficiente para uma pessoa sair de reitor de uma universidade e querer vir para vice-reitor de outra. Ele é um chinês, com experiência também fora da China, nas altas esferas do ensino superior na China e espero que consiga ajudar a fazer pontes com a China. 

E agora?

Acho que o merecido descanso, para mim, para os alunos e para os colegas. Falaram-me de no próximo ano poder eventualmente dar uma cadeira a nível dos doutoramentos; estou a ajudar a Faculdade de Teologia a constituir o seu Conselho Estratégico e pediram-me para retomar o projeto Cinatti na Universidade. O Patriarca pediu-me para retomar o departamento do diálogo inter-religioso e das relações ecuménicas, e por isso já tenho coisas mais que suficientes, e estou ainda a arrumar a casa! Tenho muita coisa para arrumar. 

Tuesday, 20 October 2020

Líderes pela paz e gérmenes de Cristianismo na China

O Papa Francisco presidiu esta terça-feira a um encontro internacional pela paz, juntamente com outros líderes religiosos mundiais. Francisco disse que o “evangelho do salva-te a ti mesmo” não é o Evangelho da Salvação e responsabilizou os políticos do mundo pela construção da paz.

No final do encontro todos os lideres presentes assinaram uma declaração conjunta pela paz, dizendo que a guerra é um “falhanço da política e da humanidade”.

Hoje olhamos para Macau, de onde regressou recentemente o padre Peter Stilwell, que foi durante oito anos reitor da Universidade de São José. O padre Peter faz uma análise muito interessante sobre o Cristianismo na China, concluindo que o facto de o país ter apostado no comunismo e no capitalismo como motores sociais e económicos facilita a evangelização da população.

Noutra nota, o padre Peter fala da identidade portuguesa de Macau e de como esta não só não está em perigo, como está mais forte desde que o território passou para administração chinesa.

Permitam-me ainda partilhar o Postal de Quarentena de hoje. Não é um assunto religioso, mas é uma iniciativa que me dá imenso gozo fazer. Esta terça-feira recebemos um postal da Suíça, com banda sonora dos The Doors.

Friday, 25 October 2019

Caminhada Pela Vida com enfoque na Eutanásia

Peço desculpa pela longa ausência, que só não se prolonga porque urge avisar-vos sobre a importância de participarem na Caminhada Pela Vida, que se realiza amanhã em várias cidades (ver abaixo).

O Bloco de Esquerda, mostrando claramente as suas prioridades, já anunciou um projecto de lei no primeiro dia da nova legislatura. Sabendo que a lei passa quase de certeza no Parlamento, a Federação Pela Vida quer que o tema seja posto a referendo.

Ontem foi detido no Algarve um ex-padre abusador em série, que já tinha sido condenado na Califórnia e na Irlanda por abusos e posse de pornografia infantil. Porque este é um problema que diz respeito a todos, o artigo do The Catholic Thing desta semana fala do novo filme francês “Graças a Deus”, sobre o caso do abusador Bernard Preynat, de Lyon. A ler.

Por fim, chamo a vossa atenção para o relatório da fundação Ajuda à Igreja que Sofre, sobre a perseguição aos cristãos. Se a situação no Médio Oriente melhorou um pouco – já que pior seria difícil – a área que mais preocupa agora é a Ásia Meridional. O termo correcto, segundo Paulo Portas, é genocídio. Catarina Martins Bettencourt diz que o Ocidente ignora a perseguição na China porque o dinheiro fala sempre mais alto.


Pontos de partida da caminhada marcada as para 15h00 de sábado:
Lisboa – Praça Luis Camões
Porto – Sé
Aveiro – Largo do Mercado Manuel Firmino
Braga – Avenida central (Arcada)
Viseu- Campo de Viriato

Veja também


Thursday, 26 September 2019

Governo chinês de corações na mão

Derrotados na política, vencedores da verdade
A China foi acusada, diante da ONU, de estar a matar pessoas de minorias religiosas pra colher órgãos para transplante. Boatos já havia há muito, mas agora haverá provas.

O Estado de Nova Gales do Sul tornou-se o último dos territórios australianos a legalizar o aborto.

O Patriarca de Lisboa acredita que Portugal tem-se portado “dignamente” no que toca ao acolhimento de migrantes e refugiados.

Conheça a família Martins dos Santos, que partiu em missão para Moçambique, com criançada e tudo!

Outubro está à porta e com ele um novo semestre do Supremo Tribunal dos EUA, que se prepara para ouvir um caso envolvendo alegada discriminação sexual de um homem que se afirma mulher. Leiam o artigo desta semana de Hadley Arkes, no The Catholic Thing, para compreender como este debate afecta-nos a todos, e não é apenas uma questão de respeito por escolhas individuais.

Wednesday, 26 September 2018

China - Longa marcha rumo à unidade

O acordo entre a China e a Santa Sé continua a dar que falar. Hoje o Papa escreveu uma longa mensagem ao povo chinês, apelando à reconciliação e pedindo aos chineses que sejam bons cidadãos.

O padre Peter Stilwell, que conhece bem a realidade chinesa, diz que será muito difícil unir a Igreja chinesa. É um projecto para longos anos, considera.

Já o Governo chinês diz que quer “sinceramente” avançar no diálogo com Roma.

Ontem, no avião de regresso dos bálticos, o Papa falou sobre a questão dos abusos e garantiu que nunca assinou qualquer indulto após uma condenação.

O que é que sonha para os seus filhos? Preocupa-se que tenham uma educação que abra portas para uma vida de sucesso, ou que tenham uma educação de valores sólidos cristãos? Randall Smith escreve sobre o trabalho, no artigo desta semana do The Catholic Thing.

Monday, 24 September 2018

Sintonia sino-latina e Papa báltico

Fiéis aguardam o Papa na Letónia
O Papa está a visitar os países bálticos. Depois de uma passagem pela Lituânia, encontra-se agora na Letónia e vai amanhã para a Estónia. Na Letónia esteve numa cerimónia ecuménica, em que disse que sim, os tempos são difíceis, mas se não fossem não seriam para nós. Depois foi para um santuário mariano onde falou dos excluídos, com claras indiretas para o mundo ocidental.

A outra grande notícia do fim-de-semana é o acordo entre Roma e a China. Não se sabem os detalhes, apenas que existe um acordo e que este é o início e não o fim de um processo. É uma novidade que tem tido os seus críticos, mas cuja importância não pode ser desvalorizada e que é enquadrada aqui pelo padre Peter Stilwell, que vive e trabalha em Macau.

Uma aparente disputa de terrenos deixou uma comunidade em Moçambique sem igreja. Conheça aqui a história e vejas as fotografias da igreja antes e depois do incêndio. Muito triste.

E também na Sexta-feira passada o Papa Francisco aceitou a resignação de mais dois bispos chilenos por causa da crise de encobrimento de abusos sexuais naquele país.


Wednesday, 18 April 2018

Sem filhos não há padres e outras chinesices

O bispo de Viseu, D. Ilídio Leandro, liga a crise de vocações à crise das famílias. Sem filhos não há novos padres, deduz, dizendo ainda que num futuro breve poderá haver ordenação de homens casados para fazer face à escassez.

D. Manuel Monteiro de Castro faz 80 anos e a autora da sua biografia falou com Ângela Roque sobre “O Núncio Português”.

Temos acompanhado na medida do possível os desenvolvimentos em torno de um suposto acordo entre a China e a Santa Sé. Quem sabe ainda menos que nós, aparentemente, são os próprios católicos chineses
                                       
Queria agradecer a todos os que rezaram pela intenção que partilhei ontem. Não querendo lançar foguetes antes da festa, as notícias, por enquanto, são boas. Continuemos a rezar! Obrigado.

Thursday, 29 March 2018

O bom chefe é quem serve

Aproveito já para desejar uma Santa Páscoa a todos os cristãos! De hoje a segunda-feira só publicarei post em caso de notícias urgentes. Se tudo correr bem, não as haverá!

O Papa celebrou esta quinta-feira a Ceia do Senhor com reclusos, a quem lavou os pés, dizendo que bom chefe deve servir. Antes, na celebração da missa crismal, Francisco tinha pedido aos padres para serem próximos.

Mas não tem sido um dia fácil para o Vaticano. O jornalista italiano Eugenio Scalfari, que apesar de ter 93 anos insiste em transcrever conversas de memória, sem gravação e sem notas, publicou mais uma “entrevista” com o Papa. O Vaticano já negou a sua fiabilidade.

Também esta manhã a sala de Imprensa da Santa Sé publicou um desmentido, dizendo que não há assinatura “iminente” de qualquer acordo com a China. Um caso que temos acompanhado de perto.

O tríduo pascal em Fátima vai ter tradução simultânea em Língua gestual.

E esta quinta-feira apresentamos uma entrevista de fundo com D. José Traquina, bispo de Santarém. O bispo diz que as instituições sociais não estavam preparadas para ser empresas e levanta algumas questões sobre o acompanhamento de divorciados, dizendo que a resposta a este problema não pode ser discutir “que bispo tem a melhor nota”.

Wednesday, 28 March 2018

Coelhos fora-da-lei e heróis dos nossos dias

Cabeça de coelho ilegal na Áustria
Morreu D. António Santos, bispo emérito da Guarda. O funeral foi hoje.

Foi homenageado o polícia francês que deu a vida pelos reféns no caso de terrorismo da semana passada. Conheça também a história da menina nigeriana que recusou converter-se ao Islão e por isso continua refém do Boko Haram. Heróis dos nossos dias.

Continuamos na expectativa de saber se vai, ou não, haver acordo entre a China e o Vaticano. Entretanto os sinais que chegam não são os mais positivos, com mais um caso de um bispo leal a Roma detido.

Uma portuguesa entregou esta quarta-feira um presente muito original ao Papa Francisco. Veja aqui as imagens.

A Áustria aprovou o ano passado uma lei anti-burqa. Até agora foram advertidos turistas asiáticos, esquiadores e até a mascote do Parlamento. Um fracasso total, diz a polícia.

Hoje temos novo artigo do The Catholic Thing. Robert Royal reflecte sobre o encontro pré-sinodal que teve lugar em Roma a semana passada e pesa os prós e os contras desta forma de pastoral juvenil. Uma análise interessante que vale a pena ler.

Monday, 12 March 2018

Kabila contra os acólitos

A Igreja no Congo está a fazer frente ao Presidente. O custo é alto, mas a causa é justa, como explica uma fonte que contactei em Kinshasa e que conta histórias de dura perseguição.

O Papa Francisco cumpre cinco anos de pontificado amanhã. Hoje o padre Tolentino recordou o retiro que lhe pregou esta Quaresma e Adriano Moreira elogiou o Papa que reconheceu um mundo de desigualdades. D. Manuel Clemente considera que Francisco é um “grande estímulo evangélico”, mas Francisco continua horrorizado com a situação na Síria.

A semana passada falámos sobre um eventual acordo entre o Vaticano e a China. Falámos com um missionário que lá esteve e que se mostrou céptico, mas hoje trago-vos a opinião de um especialista que se mostra esperançoso.

Conheça o projecto “Short Girl”, que valeu um prémio internacional aos alunos de Educação Moral e Religiosa Católica de Miranda do Corvo.

Os Leigos para o Desenvolvimento estão à procura de voluntários para trabalhar em… Portugal.

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