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Friday, 28 July 2023

Contagem decrescente e adeus à Madre Marie Bernardette

Já se começam a ver por aí, mas dentro de poucos dias Lisboa será inundada de centenas de milhares de jovens repletos de uma alegria contagiante. Este será, sem comparação possível, o maior evento alguma vez organizado em Portugal. Se vivem em Lisboa, ou tencionam estar por cá durante a JMJ, sugiro que párem uns instantes para pensar no enorme privilégio que é podermos acolher cá esta malta toda.

Já agora, se conhecem pessoas que vêm a Portugal como peregrinos, ou noutra qualidade, não deixem de partilhar com elas o guião que escrevi com dez dicas fundamentais!

Infelizmente nem todos os que querem vão conseguir estar presentes, uma vez que Portugal está a recusar vistos a muitos, sobretudo de países em desenvolvimento, levando-os a perguntar se a JMJ é só para ricos.

Da minha parte, estarei a trabalhar durante a semana da JMJ como comentador, por isso se me virem várias vezes na SIC Notícias, não estranhem nem mudem de canal. Na véspera, dia 31, também vou estar no Contracorrente, da Rádio Observador.

O resto do mundo está já de olhos postos em nós. Esta semana dois dos principais jornais católicos americanos publicaram reportagens sobre Portugal. Tive o privilégio de ser entrevistado para ambos esses artigos. Podem ler aqui o do National Catholic Reporter e aqui o do National Catholic Register.

A delegação portuguesa da fundação Ajuda à Igreja que Sofre vai estar muito activa na JMJ, alertando para a realidade da perseguição aos cristãos em todo o mundo.

Um bom exemplo passa-se o Iraque, onde o Patriarca da Igreja Católica Caldeia, a maior do país, está em guerra aberta com a presidência da República, e anunciou que iria retirar-se de Bagdade, mudando-se para o Curdistão Iraquiano.

Já na Ucrânia há a lamentar a destruição de uma grande catedral ortodoxa em Odessa.

Mudando totalmente de assunto, certamente ouviram que na quarta-feira morreu a cantora Sinéad O’Connor. A irlandesa gostava de usar a sua bela voz para mais do que apenas cantar, não hesitando em partilhar as suas opiniões sobre os mais diversos assuntos, incluindo a religião. Aqui podem ler um apanhado que fiz sobre a sua muito conturbada caminhada religiosa, que incluiu rasgar uma fotografia do Papa João Paulo II, a posterior ordenação na “Igreja Latina Tridentina” e por fim a conversão ao Islão. Tem tanto de fascinante como de trágico, sendo por isso um bom reflexo do resto da sua vida.

O artigo do The Catholic Thing desta semana é do Pe Paul Scalia, que faz uma análise interessantíssima do Evangelho da semana passada, sobre o trigo e o joio. Não deixem de ler.

Obviamente, estarei muito ocupado na próxima semana, por isso não consigo garantir que tenha tempo para enviar o Actualidade Religiosa, mas vou tentar.

Thursday, 27 July 2023

A tortuosa caminhada religiosa da Madre Marie Bernadette (AKA Sinéad O’Connor)

A morte de Sinéad O’Connor, ontem, aos 56 anos, tem sido lamentada e muito se tem falado sobre o seu percurso musical. Menos atenção tem merecido a sua muito complexa caminhada religiosa.

O primeiro grande incidente de carácter religioso em que Sinéad O’Connor se envolveu foi em 1992 quando rasgou uma fotografia do Papa João Paulo II durante uma actuação em directo na televisão.

A cantora estava a cantar a música “War” de Bob Marley, no Saturday Night Live e o combinado era que durante a música seguraria numa fotografia de uma criança soldado. Contudo, quando chegou a esse momento mostrou uma fotografia de João Paulo II e rasgou-a em pedaços, enquanto dizia “luta contra o verdadeiro inimigo”.

O’Connor defendeu o seu gesto como uma crítica aos abusos sexuais de crianças no seio da Igreja Católica. Independentemente do que se possa pensar sobre o acto em si, a verdade é que estava alguns anos à frente do seu tempo, pois como se veio a ver o escândalo dos abusos e do seu encobrimento existiam de facto em vários países, incluindo na sua nativa Irlanda, mas ainda não se falava muito do assunto.

O incidente foi recebido com silêncio sepulcral em estúdio, mas levou a fortes críticas nas semanas seguintes, de tal forma que num concerto de tributo a Bob Marley nem conseguiu acabar de cantar, tais foram os apupos da multidão. Foi ainda criticada por Madonna por ter ofendido a Igreja Católica e pelo apresentador do SNL, Joe Pesci, que mostrou a mesma fotografia recomposta e colada por ele e disse que se não fosse o apresentador teria dado à cantora uma chapada.

Foi por isso com alguma estranheza que muitos assistiram à transformação de O’Connor de contestatária do Papa em sacerdotisa de uma Igreja cismática supostamente tradicionalista.

A Igreja em causa era a Igreja Latina Tridentina, conhecida oficialmente como Igreja Ortodoxa Católica e Apostólica da Irlanda (IOCAI), liderada pelo bispo Michael Cox. Cox tinha sido ordenado por Ciarán Broadbery, que por sua vez tinha sido ordenado por Clemente Dominguez, líder da Igreja Católica Palmariana, que por sua vez tinha sido ordenado pelo bispo vietnamita Ngô Đình Thục. De todos estes, Thục era o único que alguma vez tinha sido um bispo católico válido, mas acabou, sem surpresas, por ser excomungado, juntamente com todos os outros bispos que ordenou ilicitamente. A IOCAI apresentava-se como sendo ultraconservadora e celebrava o rito tridentino, mas isso não impediu o seu bispo de convidar Sinéad O’Connor para ser ordenada depois de ela lhe fazer um donativo de 50 mil libras irlandesas. Em abono da verdade, diga-se que o donativo foi retirado depois de ela ter sido acusada de simonia pela Igreja Católica da Irlanda, mas a “ordenação” avançou e Sinéad adoptou o nome “Madre Marie Bernardette”.

Numa entrevista em que falou longamente sobre o assunto explicou que se considerava uma sacerdotisa católica legítima e válida e que poderia levar anos, mas Roma acabaria por aceitá-la como tal. Disse também que nunca mais iria usar outra roupa para além das suas vestes sacerdotais e que iria leiloar toda a sua roupa e maquilhagem, para juntar dinheiro para fundar uma casa em Lourdes onde os “travellers” – uma comunidade ao estilo cigano que vive nas Ilhas Britânicas – poderem ir passar férias. Por fim, disse que estava a pensar seriamente em fazer um voto de celibato, mas que o seu namorado lhe tinha pedido para pensar no assunto durante uns 25 anos. Não faço ideia se o leilão da roupa chegou a acontecer, nem se a casa em Lourdes foi construída, muito menos se o voto de celibato se concretizou, mas tenho sérias dúvidas. O mais espantoso é que toda esta conversa decorreu – pelo menos da parte de Sinéad – com a maior seriedade e convicção.

Não sei ao certo quando é que Sinéad deixou de se considerar sacerdotisa e de exercer como tal, mas sabe-se que em 2018 a sua vida religiosa levou outra volta inesperada quando ela anunciou que se tinha convertido ao Islão, adoptando o nome Shuhada' Sadaqat. Shuhada significa “mártires”, ou mais literalmente “aqueles que dão testemunho” e Sadaqat significa dar esmola.

Na altura O’Connor, AKA Madre Marie Bernardette, AKA Sinéad Sadaqat (e estou a deixar de fora outro nome – Magda Davitt – que tinha adoptado entretanto) justificou a sua decisão de se converter ao Islão como “a conclusão natural da caminhada de qualquer teólogo inteligente”. Numa mensagem particularmente polémica, disse que as pessoas não muçulmanas são nojentas, e que nunca mais queria passar tempo com qualquer uma. Mais tarde pediu desculpa.

Não se goza com os mortos, nem é esse o objectivo deste texto. Antes, pretendo demonstrar não só a fascinante – se conturbada – vivência religiosa da cantora irlandesa, mas também como estas procuras por espiritualidades alternativas tão facilmente acabam por conduzir a uma espiral de loucura e irracionalidade.

Num dos seus muitos comentários sobre religião, Sinéad O’Connor disse: “Penso que Deus salva todos, quer queiram ser salvos ou não. Por isso, quando morremos, iremos todos para casa. Acho que Deus não julga ninguém. Ama a todos por igual”.

Esta frase não podia ser menos ortodoxa, mas pelo meio tem uma verdade. Sim, Deus ama todos por igual. E a verdade é que só Deus sabe o que se passava na mente e na alma claramente perturbadas de Sinéad O’Connor. Esperemos que o seu encontro com Ele tenha sido de facto um regresso a casa e o começo de uma nova vida de paz.

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