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Friday, 14 April 2023

Quando pensamos que Deus está a dormir, afinal está no Ruanda

Espero que tenham tido uma Santa Páscoa! Para mim, o ponto alto foi poder ouvir de novo o Precónio Pascal cantado durante a vigília de Sábado.

O mail da semana passada tinha como título “Para alguns cristãos toda a vida é uma Sexta-feira Santa”. Na altura ainda não sabia que na Nigéria, em plena Sexta-feira Santa, um novo ataque a um campo de deslocados de maioria cristã fez dezenas de mortos. É uma situação de desespero a que se vive naquele país, sem fim à vista.

Onde está Deus nestes momentos de horror? A resposta, por vezes, só é compreensível anos mais tarde. Leiam esta entrevista feita a um padre ruandês que acompanha e ajuda a reintegrar na sociedade reclusos que foram condenados por participar no genocídio contra os tutsis. No Ruanda existe um ditado: “Deus passa os dias noutros países, e vem passar a noite ao Ruanda”, mas este sacerdote garante que hoje pode dizer que “Deus estava com os seus filhos sofredores, com os justos perseguidos, sinal da vitória da vida sobre a morte, sinal da esperança num futuro melhor em Jesus Cristo”.

Como já devem ter percebido, o podcast Hospital de Campanha está em hibernação. Em larga medida por falta de tempo, não temos gravado novos episódios. Mas a Renascença acaba de anunciar um novo podcast de assuntos religiosos que estreia amanhã. Fiquem atentos.

A questão dos abusos parece ter caído da agenda mediática, mas isso não significa que tenha perdido importância, e tenciono ir acompanhando o assunto. Entretanto no final do mês será entregue a lista de alegados abusadores dos institutos e ordens religiosas, portanto podemos esperar novo interesse dos meios de comunicação. Vale a pena ler esta entrevista ao padre Pedro Fernandes, provincial dos Espiritanos e vice-presidente da Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal sobre este assunto.

A semana passada chamei atenção para uma série de reportagens de José Pedro Frazão sobre a fé na linha da frente na Ucrânia. Entretanto foi acrescentada uma importante entrevista com o responsável da Cáritas da igreja latina na Ucrânia, mais reportagens de Zhaporizhzhia e de Kharkiv. Está tudo aqui.

Uma simpática leitora chamou-me atenção a semana passada por não ter feito referência à homilia do Patriarca D. Manuel na missa crismal, em que ele assume que foi a última vez que presidia à celebração na qualidade de Patriarca. Foi de facto um lapso da minha parte. Não só a homilia é bonita, como a referência, não surpreendente, é importante. Deduz-se que para D. Manuel ter dito tal coisa é porque já recebeu alguma garantia de que a sua renúncia vai ser aceite, provavelmente logo a seguir à JMJ. Já no Domingo de Páscoa o Patriarca assumiu também que a crise dos abusos foi a mais difícil dos seus dez anos no cargo.

E para terminar, não percam o artigo desta semana do The Catholic Thing. Randall Smith questiona movimentos como o “Caminho Sinodal” da Alemanha, que considera existirem apenas como caprichos de uma elite aburguesada, com a agravante de minarem as próprias fundações daquilo que pretendem avançar, a justiça social.

Thursday, 21 April 2022

Francisco sobre Ucrânia e Ucrânia sobre Francisco, Aleluia, Aleluia!

É justo pôr em causa a posição de Francisco sobre a guerra na Ucrânia? O facto de ele não se ter referido diretamente à Rússia, nem a Putin, significa que não condena a invasão? Porque é que nos últimos dias ele tem sido criticado por alguns líderes católicos da Ucrânia? E o que é que tudo isto tem a ver com as duas senhoras que seguram na cruz nesta foto?

São questões importantes, que analiso aqui, da forma mais simples possível, e que vos aconselho a ler.

Espero que tenham tido todos uma Santa Páscoa! Não se esqueçam que na Ucrânia ainda estão nas vésperas da Sexta-feira Santa. E não é uma metáfora… Estão mesmo. Em todo o caso, este ano, como é sua tradição, o The Catholic Thing publicou no Domingo de Páscoa um texto de uma grande figura católica. Tinham saudades de ler coisas de João Paulo II? Também eu. Esta sua bênção Urbi et Orbi de Domingo de Páscoa de 2001 é uma beleza.

Se ainda não ouviu o podcast Hospital de Campanha da semana passada, aproveite para o fazer agora. Eu e a Inês Dias da Silva conversámos com uma voluntária que esteve na linha da frente no acolhimento a refugiados na Polónia e falámos das virtudes, mas também das fraquezas, deste esforço colectivo.

Depois de vários dias sem o poder fazer, voltei a juntar uma batelada de textos ao post onde tenho recolhido declarações de líderes religiosos sobre a guerra na Ucrânia. Nomeadamente do Papa Francisco, de Sviatoslav Shevchuk, do metropolita Epifânio e uma interessantíssima entrevista dada pelo grão-mufti da Ucrânia, em que explica porque razão grande parte do mundo árabe está no bolso de Moscovo.

Wednesday, 20 April 2022

Ressurgiu a Vida do Género Humano

João Paulo II
1. “Na ressurreição de Cristo, ressurgiu a vida do género humano”

Que o anúncio pascal chegue a todos os povos da terra

e toda a pessoa de boa vontade se sinta protagonista

neste dia que o Senhor fez,

dia da sua Páscoa,

no qual a Igreja, com sentimentos de júbilo,

proclama que o Senhor ressuscitou verdadeiramente.

Este grito, saído do coração dos discípulos

no primeiro dia depois do sábado,

atravessou os séculos e agora,

neste preciso momento da história,

volta a alentar as esperanças da humanidade

com a certeza imutável da ressurreição de Cristo

Redentor do homem.

2. “Na ressurreição de Cristo, ressurgiu a vida do género humano”.

O espanto incrédulo dos apóstolos e das mulheres,

que tinham ido ao sepulcro ao nascer do sol,

hoje torna-se experiência comum de todo o Povo de Deus.

Enquanto o novo milénio dá os primeiros passos,

desejamos confiar às jovens gerações

a certeza fundamental da nossa existência:

Cristo ressuscitou e n'Ele ressurge a vida do género humano.

“Cristo ontem, Cristo hoje

Cristo sempre, meu Salvador”.

Volta à memória este cântico de fé,

que tantas vezes, ao longo da recente caminhada jubilar,

repetimos, aclamando Aquele

que é “o Alfa e o Ómega, o Primeiro e o Último,

o Princípio e o Fim” (Ap 22, 13).

A Ele permanece fiel a Igreja peregrina

“entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus” (S. Agostinho).

Levanta o olhar para Ele e não teme.

Caminha fixando o seu rosto,

e repete aos homens do nosso tempo

que Ele, o Ressuscitado,

é “o mesmo ontem, hoje e sempre” (Heb 13, 8).

3. Naquela dramática Sexta-feira da Paixão,

que viu o Filho do Homem

feito “obediente até à morte

e morte de cruz” (Fil 2, 8),

encerrava-se a existência terrena do Redentor.

Já morto, foi Ele depositado à pressa no sepulcro,

ao ocaso do sol. Ocaso singular aquele!

Aquela hora obscurecida pelas trevas ameaçadoras

marcava o fim do “primeiro acto” da obra da criação,

transtornada pelo pecado.

Parecia o êxito da morte, o triunfo do mal.

Mas não, na hora do gélido silêncio do túmulo,

era levado ao seu pleno cumprimento o desígnio salvífico,

tinha início a “nova criação”.

Feito obediente por amor até ao sacrifício extremo,

Jesus Cristo é agora “exaltado” por Deus

que “Lhe deu um nome que está acima de todo o nome” (Fil 2, 9).

Por este nome, retoma esperança toda a existência humana.

Por este nome, o ser humano

é arrebatado ao poder do pecado e da morte

e devolvido à Vida e ao Amor.

4. Neste dia, o céu e a terra cantam

“o nome” inefável e sublime do Crucificado que ressuscitou,

d'Aquele que realizou o prodígio mais desconcertante da história.

Tudo parece como antes, mas na realidade já nada é como antes.

Ele, Vida que não morre, redimiu

e reabriu à esperança toda a existência humana.

“Passou o que era velho,

eis que tudo se fez novo” (2 Cor 5, 17).

Todo projecto e desígnio do ser humano,

desta nobre e frágil criatura,

tem hoje um “nome” novo em Cristo ressuscitado dos mortos,

porque, n'Ele, “ressurgiu a vida do género humano”.

Realiza-se plenamente, nesta nova criação,

a palavra do Génesis: “E Deus disse:

‘Façamos o homem à nossa imagem,

à nossa semelhança’” (Gen 1, 26).

Na Páscoa, Cristo,

novo Adão que Se tornou “espírito vivificante” (1 Cor 15, 45),

resgata o velho Adão da derrota da morte.

5. Homens e mulheres do terceiro milénio,

a todos se destina o dom pascal da luz,

que põe em fuga as trevas do medo e da tristeza;

a todos se destina o dom da paz de Cristo ressuscitado,

que quebra as cadeias da violência e do ódio.

Redescobri hoje, com alegria e admiração,

que o mundo deixou de ser escravo de acontecimentos inelutáveis.

Este nosso mundo pode mudar:

a paz é possível mesmo em lugares onde há demasiado tempo

se combate e morre, como na Terra Santa e Jerusalém;

é possível nos Balcãs, já não condenados

a uma aflitiva incerteza com o risco

de tornar vã qualquer proposta de acordo.


E tu, África, terra martirizada

por conflitos sempre na espreita,

levanta esperançada a cabeça

confiando na força de Cristo ressuscitado.

Graças à ajuda d'Ele, também tu, Ásia,

berço de seculares tradições espirituais,

podes vencer o desafio da tolerância e da solidariedade.

E tu, América Latina, depósito de jovens promessas,

só em Cristo encontrarás capacidade e coragem

para um desenvolvimento respeitador de todo o ser humano.

Vós, homens e mulheres dos vários Continentes,

extraí do seu túmulo, já vazio para sempre,

o vigor necessário para derrotar

as forças do mal e da morte,

e colocar toda a pesquisa e avanço técnico e social

ao serviço dum futuro melhor para todos.

6. “Na ressurreição de Cristo, ressurgiu a vida do género humano”.

Desde que o vosso túmulo, ó Cristo, foi encontrado vazio

e Cefas, os discípulos, as mulheres,

e “mais de quinhentos irmãos” (1 Cor 15, 6)

Vos viram ressuscitado,

começou o tempo em que a criação inteira

canta o vosso nome ”que está acima de todo o nome”

e espera o vosso regresso definitivo, na glória.

Neste tempo, entre a Páscoa

e a chegada do vosso Reino sem fim,

tempo que se assemelha às dores de um parto (cf. Rom 8, 22),

amparai-nos no compromisso de construir um mundo mais humano,

onde as chagas do sofrimento humano se vão cicatrizando,

graças ao bálsamo do vosso Amor que venceu a morte.

Vítima pascal oferecida pela salvação do mundo,

fazei que não desfaleçamos neste nosso compromisso,

mesmo quando o cansaço tornar pesados os nossos passos.

Vós, ó Rei vitorioso, concedei-nos a nós e ao mundo

a salvação eterna!


O Papa João Paulo II nasceu no dia 18 de Maio de 1920 em Wadowice, na Polónia, e foi eleito Papa no dia 16 de Outubro de 1978. Foi declarado Santo pelo Papa Francisco no dia 27 de Abril, 2014

Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 17 de Abril de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.


Wednesday, 13 April 2022

De regresso do país dos cedros e preocupações sinodais

Nossa Senhora do Líbano,
em Harrissa
Estou de regresso a Portugal, depois de vários dias no Líbano, a conhecer projectos da fundação Ajuda à Igreja que Sofre naquele país. Foi uma experiência fantástica, mas pesada, que espero poder partilhar convosco em breve. Entretanto pode ficar aqui com uma boa ideia, através da entrevista que Catarina Bettencourt Martins, directora da AIS em Portugal e que também esteve presente, deu à Renascença.

Ontem a Comissão Independente que investiga os casos de abusos na Igreja em Portugal apresentou alguns números. São já 290 denúncias e 16 casos enviados para o Ministério Público. A cronologia que mantenho no blog foi devidamente actualizada.

Hoje é dia de novo artigo do The Catholic Thing. Devemos estar preocupados com o “Caminho Sinodal” na Alemanha? Dezenas de bispos no mundo pensam que sim, e assinaram uma carta aberta ao episcopado alemão, precisamente nesse sentido. O artigo da semana passada é de teor mais pessoal, com Stephen White a explicar porque é que a morte prematura do seu pai, em plena Quaresma, tornou esta época ainda mais especial para ele. A ler, sobretudo em vésperas do tríduo pascal!

Continuo a acrescentar, a um ritmo quase diário, excertos de discursos e homilias a esta lista de declarações de líderes religiosos sobre a guerra na Ucrânia. Recentemente coloquei excertos de uma longa carta de um padre da Igreja Ortodoxa da Ucrânia leal a Moscovo, que critica ferozmente a sua própria hierarquia. Vale mesmo a pena ir ver!

Também pode ver aqui a conferência “Para um Ecumenismo de Paz”, da Capela do Rato, em que participei no dia 30 de março, na companhia de figuras muito interessantes, incluindo um padre ucraniano, um moldavo e Paulo Portas.

Amanhã é dia de novo episódio do podcast “Hospital de Campanha”. Se ainda não ouviu o segundo, não perca a oportunidade. A próxima conversa é sobre a resposta dos portugueses à crise dos refugiados ucranianos, e é muito interessante!

Wednesday, 6 April 2022

Esperança e Morte

A semana passada marcou o quinto aniversário da morte do meu pai. Tinha apenas 60 anos quando morreu. Morreu durante a Quaresma, o que nunca deixará de me parecer adequado. A Quaresma é uma boa altura para nos recordarmos, por mais doloroso que seja, de como a vida é fugaz. Também é uma boa altura para contemplar a forma como a fragilidade humana é transformada pelos eventos gloriosos para os quais este tempo quaresmal nos prepara.

Para um filho que perdeu o pai é fácil desejar que as coisas não fossem como são. É tentador deter-nos nas inumeráveis possibilidades do que poderia ter sido – netos que ficaram por conhecer, músicas por cantar, alegrias por partilhar. Mas deixarmo-nos levar por essa tristeza – e admito que há uma certa doçura em fazê-lo – apenas disfarça a belíssima gratuidade da vida, por mais breve que seja. O facto de tudo não ser como eu gostaria é um pequeníssimo preço a pagar por ter existido de todo.

A Quaresma é um tempo de preparação, de olhar para o futuro. De certa forma a Quaresma é-me mais cara desde que o meu pai morreu. A esperança da Páscoa é a esperança do que há de vir, a esperança da restauração, da ressurreição. Mas a esperança não é só para o futuro. A esperança muda o espectro de como podemos sofrer, daquilo pelo qual estamos dispostos a sofrer. A esperança permite-nos, como São Paulo, contar tudo o que seja o aqui e agora como perda. A esperança liberta-nos. 

Há um episódio da grande série da HBO sobre a II Guerra Mundial, “Band of Brothers”, sobre o qual penso com frequência e que ilustra esta questão. O cabo Albert Blithe salta de paraquedas para a Normandia na véspera do Dia-D. No caos que se segue, separa-se do seu pelotão. Mas em vez de partir em busca dos seus camaradas, Blithe esconde-se numa valeta, por baixo de uma sebe, com medo. Tal é o pânico, que sofre de “cegueira histérica”. Ou seja, teve tanto medo que ficou literalmente sem ver.

Blithe acaba por recuperar a visão e reagrupa-se com os seus camaradas, mas está assombrado por o que considera ser a sua cobardia – um sentimento reforçado pelos actos de bravura que testemunha à sua volta. Certa noite, na linha da frente, Blithe encontra o Tenente Speirs, um homem com uma reputação de brutalidade sanguinária. Blithe decide confessar a sua cobardia a Speirs e a resposta que este lhe dá, sobre o medo face à morte, ficou na minha memória.

Speirs: Sabes porque é que te escondeste nessa valeta, Blithe?

Blithe: Estava com medo…

Speirs: Todos temos medo. Tu escondeste-te naquela valeta porque achas que ainda há esperança. Mas, Blithe, a única esperança que tens está em aceitar o facto de já estares morto. E quanto mais depressa o aceitares, mais depressa conseguirás agir como um soldado deve agir, sem misericórdia, sem compaixão, sem remorsos. Toda a guerra depende disso.

Esta visão de Speirs é obscura e pagã. Mas se a sua visão é pagã também possui um certo realismo. A falsa esperança da autopreservação, a falsa esperança de que podemos adiar indefinidamente a morte, leva apenas a paralisia e medo ofuscantes (literalmente, no caso de Blithe). Se a morte significa o aniquilamento e o esquecimento, então a única opção que temos perante a morte é a aceitação. Esta realização livra-nos da cegueira da falsa esperança e permite-nos ver com mais claridade a tarefa que temos pela frente.

E São Paulo, que sabe uma coisa ou duas sobre cegueira, concorda! “Se é somente para esta vida que temos esperança em Cristo, somos, de todos os homens, os desgraçados”. Speirs aconselha Blithe a abandonar a esperança para poder ver claramente a difícil tarefa que tem de desempenhar. Tal como Speirs, também Paulo sabe que a sua vida está perdida. Mas uma vez que ele vê pelos olhos da fé – “Fui crucificado com Cristo, porém já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” – a visão de Paulo estende-se não só para o que fica deste lado da morte, mas através dela e mais além.

Como o Papa Bento XVI escreveu na Spe Salvi, “o Evangelho não é apenas uma comunicação de realidades que se podem saber, mas uma comunicação que gera factos e muda a vida. A porta tenebrosa do tempo, do futuro, foi aberta de par em par. Quem tem esperança, vive diversamente; foi-lhe dada uma vida nova.”

Acrescente-se a esperança Cristã, nascida da fé, à inevitabilidade da morte e toda a experiência humana se altera. A esperança cristã não previne a morte. A esperança cristã não atrasa sequer a morte. Mas uma vez que a esperança cristã é a esperança na vida eterna, altera completamente a forma como vivemos o aqui e o agora. A nossa esperança por aquilo que virá liberta-nos da necessidade de nos agarrarmos demais à vida. A esperança permite-nos viver a nossa vida generosamente e sem medo. A esperança liberta-nos para enfrentar a Cruz e abraçá-la.

Este é o coração da Boa Nova: A esperança, nascida da fé, liberta-nos para o amor. Aquele que tenta salvar a sua própria vida – para preservar aquilo que no final de contas não pode ser preservado – perdê-la-á. Quem perder a sua vida por amor – aquele que sabe que já morreu em Cristo, e para quem tudo o resto é perda – é quem receberá a vida eterna.

A nossa esperança não está em prevenir ou evitar a morte, mas em aceitar o facto de já termos morrido em Cristo. Quanto mais cedo aceitarmos isso, mais depressa poderemos viver como um cristão deve viver: cheios de misericórdia, cheios de compaixão, e cheios de esperança.

A Quaresma é um tempo em que devemos praticar a morte: morrer para nós mesmos de formas pequenas e grandes. Para o mundo isto é mera cegueira. Mas as muitas mortes da Quaresma são uma lembrança da nossa esperança que nos liberta para viver a Páscoa… E tudo o que fica adiante.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na terça-feira, 29 de Março de 2022)


© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 14 April 2021

A Ressurreição dos Mortos

A imagem mais comum de Jesus é da crucifixão. Algumas mostram-no morto, pendurado, outros, mais icónicos, mostram-no na Cruz, sim, mas ressuscitado, de olhos abertos e braços estendidos, convidando todos a ir ter com Ele. No seu conjunto, estas imagens captam a dupla verdade de que Cristo morreu e ressuscitou. Ambas as afirmações estiveram sempre no cerne do credo cristão.

Se, como proclama São Paulo, “Cristo ressuscitou, e é primícias daqueles que adormeceram” (1 Cor. 15,20), então podemos compreender algo do que nos espera ao olhar atentamente para o que Cristo revelou com a sua morte e ressurreição. Uma coisa que deve ser imediatamente evidente é que a promessa cristã da vida eterna não é a mesma coisa que o objetivo transhumanista da imortalidade. A promessa de que os cristãos jamais morrerão não existe.

No Evangelho de João, pouco depois de Jesus ter lavado os pés dos seus discípulos, ele diz-lhes: “Na casa de meu Pai há muitos aposentos; se não fosse assim, eu vos teria dito. Vou preparar-vos um lugar. E se eu for e vos preparar um lugar, voltarei e levar-vos-ei para junto de mim, para que estejam onde eu estiver. Vocês conhecem o caminho para onde vou” (João 14, 2-4).

Só com base nesta afirmação podemos bem imaginar que Jesus está a dizer que vai para um lugar e que mais tarde mostrará aos apóstolos como é que lá se chega. Tomé, sem compreender, diz: “Senhor, nós não sabemos para onde vais, como podemos saber o caminho?” (Jo. 14,5). Mas Tomé não captou o sentido subtil das palavras de Jesus. Ele é “o caminho”. Por isso quando diz, “vocês conhecem o caminho”, o que quer dizer é “vocês conhecem-me, e Eu sou o caminho”. De facto, é precisamente isso que ele diz a Tomé: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. (João 14,5)

Perto do final do conto humorístico de Mark Twain “Os Diários de Adão e Eva”, Adão, que inicialmente tinha resistido a Eva, esta nova criatura que está a invadir o seu espaço, chora sobre a sua campa, tendo compreendido que “onde ela estava, aí estava o Éden”. O “Diário” de Twain é uma comédia romântica, e não uma obra de teologia complexa, mas levanta questões importantes: O paraíso é um lugar, ou uma pessoa? Enquanto cristãos não somos também chamados a reconhecer que o Paraíso não é apenas um lugar, mas sim a união a uma Pessoa (ou Pessoas) – Cristo, que envia o Espírito Santo para “implementar a caridade em todo o mundo no meu coração” e nos introduz numa união com o Pai?

Na Última Ceia Cristo diz aos seus discípulos que Ele deve partir, mas que depois enviará o Espírito Santo para os ajudar e guiar. E, eventualmente, Ele “parte” mesmo. Mas depois da sua morte na cruz faz uma pausa antes de regressar ao Pai (por assim dizer) e passa mais algum tempo com os discípulos.

Porquê? Não lhes tinha dito já tudo o que precisavam de saber? Não lhes mostrou “o Caminho?” Têm a prova da sua ressurreição dos mortos no túmulo vazio.

Talvez fossem necessárias uma ou duas aparições do ressuscitado para convencer os apóstolos de que ainda vive. Mas Ele permanece com eles durante 40 dias e aparece várias vezes. Porquê?


Se, como São Paulo afirma, Cristo é as “primícias” daquilo que os fiéis defuntos vão poder gozar na ressurreição geral, o que é que as suas aparências nos revelam sobre a vida ressuscitada?

Sugiro duas coisas.

Primeiro, a sua morta não o desligou, como se poderia pensar, do Pai; pelo contrário, Ele partilha inteiramente a glória do Pai, que é revelada mais plenamente agora que Ele ressuscitou dos mortos. Mas, em segundo lugar, a pessoa diante deles ainda é o Jesus que conheciam e amavam. Dizemos às vezes que a presença de Cristo entre os onze na sala onde estavam escondidos, era uma presença glorificada, mas isso não significa que Ele estava menos presente para eles do que durante a sua vida. Ainda podiam sentar-se, conversar e comer com Ele.

O que nos é prometido, então, pelo Cristo ressuscitado, que é as “primícias” daquilo que também nós vamos gozar, é de que poderemos, depois da morte, obter a união plena com Deus e partilhar da comunhão eterna de amor partilhada entre o Pai, Filho e Espírito Santo. E porém, nesta união com o Deus Trino, não nos vamos perder como um pingo de água no oceano.

Aquilo que muitos temem na morte, seja a deles ou a dos outros, é a perda da ligação com as pessoas que amam. Se pensamos que ir para o Céu é como ir para Cleveland (só que melhor), então ficamos tristes porque eles, ou nós, “vamos embora”, ainda que esperemos que seja para “um sítio melhor”. Mas se o Céu é uma união com o Pai em Cristo através do Espírito, e se Cristo vive e está em cada um de nós, então também nós nos mantemos em comunhão com os nossos entes queridos – mais intimamente e plenamente, até – no Corpo de Cristo e na comunhão dos santos.

Uma das maiores tragédias, quando as pessoas perdem a fé na Presença Real de Cristo na Eucaristia, é de que rapidamente perdem a sua esperança na comunhão dos santos – de que mesmo na morte continuamos presentes para os nossos amados e eles connosco. Se Cristo não ressuscitou e está presente para nós, então o mesmo se aplica a todos aqueles que amamos. E isso é algo demasiado triste para contemplar.

Por isso regozijemos na Boa Nova. Cristo ressuscitou, o amor não foi derrotado, as portas da morte foram escancaradas e os santos correm ao nosso encontro em alegria.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 7 de Abril de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Thursday, 1 April 2021

Votos de Santa Páscoa!

Nos últimos dias não tenho conseguido postar, por isso peço desculpa, mas não queria deixar de o fazer antes da Páscoa.

Por falar em Páscoa, este ano os católicos podem participar nas celebrações, mas há várias tradições que continuam confinadas. Pede-se criatividade para as ultrapassar.

As notícias que chegam de Cabo Delgado são cada vez mais preocupantes. Uma religiosa fala de um “filme de terror”.

Nesta Páscoa somos, como sempre, convidados a olhar de forma especial para os que são perseguidos pela sua fé.

Temos dois artigos do The Catholic Thing para vos propor, e que vêm mesmo a propósito para este tempo pascal. O da semana passada, de Stephen White, é dirigida especialmente aos católicos de tendência mais conservadora (como o autor) e contém um importante aviso e o desta semana, do padre Paul Scalia, pergunta se continuamos a escolher Barrabás em vez de Cristo, quando a questão nos é posta.

Wednesday, 15 April 2020

Ao Terceiro Dia: uma Fantasia

Brad Miner
Quando o escriba informou Pôncio Pilatos de que Tito queria falar com ele, percebeu que algo estava mal. O prefeito da Judeia tinha enviado Tito, o seu melhor oficial, fazer o que seria sem dúvida a tarefa mais simples de toda a carreira de um dos melhores soldados de Roma. Porque é que tinha voltado cedo?

Tito era um homem velho – pelos padrões da Legião – mas ainda assim era duas vezes melhor guerreiro do que homens com metade da sua idade, e o mais fiável de todos.

Mas aqui estava ele, depois de ter abandonado o seu posto. Porquê?

Tito entrou na sala, batendo com o punho direito contra o peito: “Prefeito!”

Pilatos olhou de trás de uma secretária cheia de despachos. Fixou os olhos do militar e franziu. Depois olhou de volta para os seus papeis e perguntou:

“Porque é que está aqui, sargento?”

Tito sabia que o prefeito estava mais irritado do que zangado. Por enquanto.

“Prefeito, o sepulcro abriu-se e o homem, Jesus, desapareceu.”

O escriba estava à direita de Pilatos. Tinha estado a escrevinhar as mensagens que o prefeito ditava. À entrada do quarto – por onde Tito acabara de entrar – estavam dois guardas em sentido.

Empurrou a cadeira para trás e levantou-se. Os seus olhos cruzaram-se com os do escriba.

“Saia”, disse Pilatos, acenando também aos guardas para o seguir. Fecharam a porta atrás deles.

De repente Pilatos sentiu-se muito cansado. Levantou-se e deu a volta à secretária, encostando-se a ela, e cruzou os braços.

 “Explica-te”

Tito olhou em frente e, como sempre, contou a verdade.

“Prefeito, deu-se uma explosão silenciosa. Só consigo descrever como se fosse uma rajada a abrir uma porta. Não ouvimos nada, mas sentimos o ar projectado, que nos lançou por terra. Tapei os olhos com as mãos mas… Havia uma luz brilhante toda a volta. Cerrei os olhos e obriguei-me a olhar para cima, no meio da luz estava a figura de um homem. A luz vinha dele. Depois houve outra rajada, ou explosão, e a luz desapareceu. Só se via a luz da aurora, como antes. E silêncio prefeito: nem passarinhos, nem grilos, mas ouvia a minha própria respiração e a dos meus homens. O homem tinha desaparecido. Levantei-me e vi que a pedra já não cobria a entrada do sepulcro. Então entrei e vi a coisa mais estranha –”

Pilatos quase que se riu. O que é que poderia ser mais estranho do que Tito já tinha dito?

“ – lá dentro”, disse Tito, “onde o corpo tinha repousado, vi a mortalha cuidadosamente dobrada e colocada de lado”.

Pilatos reparou que enquanto falava, a voz de Tito não tinha aquela calma clínica que costumava ter quando fazia os seus relatórios em Cesareia ou em Jerusalém. Era porque o velho – já tinha cinquenta anos – já tinha estado em todo o lado e lutado contra todos e visto tudo que Pilatos o tinha trazido com ele para a Judeia. Se alguém podia ajudar a lidar com os israelitas, raciocinou Pilatos, era Tito.

“E quem é que dirias que era o homem na luz?”

“Jesús de Nazaré.”

Pôncio Pilates
Pilatos sabia que o Galileu tinha dito que isto iria acontecer. Era por isso que os sacerdotes do Templo tinham pedinchado um destacamento de soldados romanos para guardar o sepulcro. Na altura tinha estado demasiado cansado para insistir, como deveria ter feito, que esse era um assunto deles e não do Pretório. Gostaria de ter dito: Eu matei um inocente por vocês; tratem vocês de guardar o seu sepulcro. Mas tinha parecido mais fácil aceder. E então enviou o seu melhor homem para supervisionar os turnos durante os três dias.

Partiu do princípio que isso seria o fim da história, porque homens crucificados não se levantam e põem-se a andar.

Por isso é que era tão perturbador ouvir uma testemunha de confiança dizer que Jesus – um homem como qualquer outro, que tinha, na verdade, sangrado e sofrido e morrido como qualquer outro – estava de novo vivo.

“Então a crucifixão falhou.”

“Não, Prefeito.”

“Então tu e os teus homens embebedaram-se e adormeceram em serviço –”

“– Prefeito, não! Eu tinha acabado de regressar com o turno da manhã. Estávamos todos acordadíssimos!”

Se fosse qualquer outro a dizê-lo, que não Tito, Pilatos tê-lo-ia mandado prender imediatamente. Olharam um para o outro.

“Os teus homens estão por perto?

“Lá fora.”

Pilatos olhou-o diretamente nos olhos. É tudo verdade, pensou. Agora o que é que dizemos aos anciãos do Templo?

Para a surpresa de Tito, o prefeito ordenou-o a ir imediatamente ao Templo para dar conta da situação aos sacerdotes: “Exatamente como me contaste a mim, mas sem dizer que estiveste aqui primeiro”, disse.

Então Tito saiu e levou os seus homens. Ficou admirado quando eles lhes deram dinheiro para se manterem calados sobre o que tinham visto. Muito dinheiro, prata suficiente para comprar o silêncio de uma dúzia de homens.

“Digam”, disse o Sumo Sacerdote, “que os seus discípulos vieram durante a noite e roubaram o seu corpo enquanto vocês dormiam”.

Perante o olhar zangado dos soldados romanos (que sabiam bem o castigo que enfrentariam por tamanha negligência), os sacerdotes acrescentaram logo:

“Se isto chegar ao governador nós damos-lhe uma explicação que vos livre de problemas.”

Tito queria rir-se na cara dele, mas pegou nas moedas e dividiu-as igualmente entre os soldados satisfeitos. Não ficou com nada para ele.

O Prefeito da Judeia sorriu quando ouviu as novidades.

“Então eles também acreditam?”

Tito respondeu: “Talvez partam do princípio que nós retirámos o corpo… ou simplesmente queiram acabar com um boato.”

“Era escusado. Em breve tudo isto será esquecido”, disse Pilatos.

Tito saiu pelas portas altas. Não sabia em que é que o Prefeito acreditava verdadeiramente, mas sabia que ele, certamente, nunca se iria esquecer.


(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 15 de Abril de 2020 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de TheCatholic Thing.

Wednesday, 25 March 2020

Não Fazer Nada é Fazer Tudo

Helen Freeh
Confrontados com um ataque, um desastre natural ou um acto de guerra o Ser Humano sente uma vontade incontrolável de fazer algo. No Nebraska sofremos inundações históricas o ano passado e os nossos cidadãos uniram-se para construir barreiras com sacos de areia, limpar, doar comida e água. Havia algo para fazermos em resposta à catástrofe. Recentemente Nashville, no Tennessee foi atingido por tornados que mataram 25 pessoas e devastaram uma grande parte da baixa. Milhares de pessoas vieram ajudar nas operações de busca e na limpeza da cidade. Tantas, aliás, que as autoridades tiveram de mandar pessoas embora.

Está no nosso sistema fazer algo em reação ao sofrimento, perda, ataques e ameaças à comunidade.

Mas agora que enfrentamos a maior disrupção da vida global desde a Segunda Guerra Mundial, tudo o que somos chamados a fazer é – nada. Não nos podemos mobilizar para confrontar o assalto global do novo coronavírus. Não nos podemos alistar. Não podemos doar aço e borracha para o esforço de guerra. Nem sequer podemos marchar em protesto ou em solidariedade com as políticas do Governo.

A mobilização a que somos chamados é a mobilização do isolamento.

Fazer algo, agora, é ficar em casa, não ir trabalhar, nem à escola, a festas, eventos desportivos, concertos ou – infelizmente, para muitos de nós – à missa. O nosso dever cívico e até moral é de nada fazer. Agora, em plena Quaresma, a três semanas do grande Tríduo e das celebrações pascais da Igreja, fomos chamados pelo nosso Governo a entrar numa vida enclausurada e monástica nas nossas próprias casas. Não devemos menosprezar o significado disto.

No seu livro “Deus ou Nada” o cardeal Sarah alerta para a “heresia do activismo”, um indício de que nos esquecemos de que o coração da nossa vida encontra-se apenas em Deus. O ritmo da vida contemporânea cria uma cegueira e surdez para a realidade da nossa dependência de Deus. Somos peregrinos neste mundo e a maior parte da nossa vida foge ao nosso controlo.

Esta situação do coronavírus revela a realidade como ela sempre foi. O vírus, tal como outros desastres naturais, foge ao nosso controlo. O que podemos controlar são as nossas reações à situação. O nosso falso sentido de poder foi-nos retirado e estamos desnudos. Este despir do poder revela a beleza da vida escondida debaixo destas exterioridades. Como lemos em Colossenses 3,14 e em 1 Pedro 4,8, a caridade liga todas as outras virtudes domina sobre elas como rainha.

A nossa situação está repleta de paradoxos com um profundo significado simbólico espiritual. Para fazer algo contra este contágio, devemos fazer nada. Para fortalecer a nossa aliança global, cada nação deve fechar as suas fronteiras aos outros. Nunca estivemos tão ligados uns aos outros em espírito por nos desligarmos uns dos outros fisicamente. Por amor aos nossos vizinhos, não os devemos visitar. Para manter as nossas comunidades fortes, devemos quebrá-las. A própria sociedade é composta agora por lares isolados. E espiritualmente aproximamo-nos de Deus e do seu corpo mantendo-nos afastados da sua presença sacramental.

A vida de clausura tem desafios e benefícios. Um dos benefícios é que agora podemos todos andar descalços, mas fomos colocados nesta situação contra a nossa vontade e sem uma preperação adequada. Mesmo dentro das nossas celas, porém, ainda podemos “fazer” algo. A forma de nos mobilizarmos, de “fazermos” alguma coisa, é ajudar os nossos amigos e familiares a serem santos monges. Isto inclui o encorajamento de outros, conhecidos e desconhecidos, através das redes sociais. Agora é tempo de edificar o Corpo de Cristo, não de o despedaçar. Os nossos primeiros pensamentos para com os outros devem partir da caridade e ser vistos pela óptica da caridade.

Uma das verdades enfatizadas por este vírus é o isolamento da nossa população mais velha. Há soluções práticas que podemos implementar em reposta a isto. Estou a sugerir à minha paróquia que emparelhe jovens saudáveis com pessoas mais velhas e vulneráveis. Os saudáveis contactariam os idosos todos os dias para saber se precisam de alguma coisa, mesmo que apenas precisem de falar. [Veja aqui um exemplo bem sucedido disto em Portugal].

O isolamento já é difícil para uma família, imaginem agora o quão difícil é para aqueles que já viviam sozinhos. As nossas paróquias podem ajudar, iniciando programas para “adoptar um paroquiano”, chegando assim aos que neste momento estão em maior risco e com mais medo. É um acto de caridade que poderia salvar vidas.

A todos é pedido que experimentemos um jejum severo. Recordem-se que não jejuamos de coisas pecaminosas, mas das coisas boas, para nos unirmos mais a Deus, a fonte de toda a nossa vida. Agora devemos jejuar do bem que é a vida comunitária. Mas os jejuns não são para sempre. Pensem no quanto vamos festejar, enquanto comunidade global, quando terminar este jejum!

Damos por adquirida a nossa comunhão com outras pessoas e damos por adquirida a comunhão sacramental na missa. Mas o significado desta comunhão quotidiana revelou-se agora através do mal da separação. O livro do Genesis tem uma frase belíssima em que José diz aos seus irmãos: “A vossa intenção era de fazer-me mal, mas Deus tirou daí um bem”. O coronavírus e os seus efeitos são um mal e a nossa resposta pode prolongar ou piorar os seus efeitos, ou então podemos colaborar com Deus e transformar este mal em bem.

O isolamento social é a cruz que todos somos chamados a tomar agora. Mas se abraçarmos a nossa cruz ela conduzirá a uma plenitude de vida que de outra forma não poderíamos conhecer.

Esta experiência histórica de sofrimento comunitário é um grande dom que nos foi dado – o dom do tempo para rezar, para refletir e – se conseguirmos encará-lo dessa forma – de lazer. Abracemos aquilo que não podemos escapar e aceitemos que neste momento o nosso “nada fazer” é precisamente o que todos devemos fazer.


(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 23 de Março de 2020 em The Catholic Thing)

Helen Freeh obteve a sua licenciatura e mestrado na Universidade de Dallas e fez o doutoramento na Baylor University. Leccionou em Hillsdale College, onde conheceu o seu marido, John. Actualmente goza de uma reforma antecipada e está a criar e a educar em casa os seus filhos em Lincoln, Nebraska

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

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Wednesday, 26 February 2020

Elogio do (verdadeiro) jejum

Helen Freeh
Recentemente chamou-me a atenção um panfleto na minha paróquia. Continha sugestões inovadoras para sacrifícios quaresmais. Partes eram atribuídas ao Papa Francisco, mas outras partes eram escritas por alguém certamente bem-intencionado, mas claramente tonto. Perguntava em letras garrafais: “Está a pensar deixar de comer chocolate para a Quaresma? Para uma Quaresma mais profunda, pense antes em…” E depois vinha a lista: Jejue de dizer palavras ofensivas e diga coisas simpáticas; jejue de rancor e encha-se se paciência; jejue de egoísmo e seja compassivo para com os outros. E por aí fora.

Depois veio a linha que, sinceramente, me fez rir alto: “Jejue de pornografia”. A ausência de uma compreensão correcta de jejum católico seria cómica se não fosse tão tragicamente enganadora para católicos com falta de catequese.

Devemos sempre evitar pecados como palavras cruéis, rancor injusto, egoísmo e, claro, pornografia! Estas não são coisas boas das quais nos abstemos temporariamente, para oferecer como sacrifício a Deus como parte do nosso jejum. São só coisas más que ofendem sempre a Nosso Senhor e que devíamos sempre evitar fazer.

A ideia de abdicar de pecados como parte da nossa Quaresma confunde a própria natureza e propósito do jejum, que é privarmo-nos de um bem em nome de um bem maior – a proximidade e, por fim, a união com Deus. Não se pode “jejuar” de pecado. Se jejuamos de palavras ofensivas e de pornografia durante a Quaresma, devemos depois voltar a elas na Segunda-feira de Páscoa e anunciar orgulhosamente que no ano seguinte vamos deixá-las novamente? A própria noção é absurda.

Há já algum tempo que muitos de entre nós têm abandonado a compreensão tradicional de jejuar de bens físicos, considerando-o um acto superficial, antiquado ou impensado. Isso leva as pessoas a fazer as “sugestões inovadoras” referidas acima e muitas outras que os leitores facilmente podem imaginar.

O que é que nos leva a descartar a ideia do jejum corporal? Será um medo visceral de privar o corpo de luxos ou de nos sentirmos fisicamente desconfortáveis? Será uma forma de escravatura das nossas dependências físicas, disfarçada de enfoque nas coisas aparentemente superiores e “espirituais”?

Este salto de mortificações corporais para espirituais arrisca-se a tornar-se uma espécie de espiritualismo, em que alguém crê que o espírito é inteiramente à parte da matéria ou do corpo. Ou talvez um tipo subtil de gnosticismo em que se descarta a importância do corpo e, por isso, as mortificações do corpo são vistas como sendo desnecessárias para o crescimento espiritual.

Um católico não deve deixar-se enganar por estas mudanças das práticas tradicionais. Não devemos denegrir a mortificação da carne ou simplesmente considerá-la uma coisa do passado. A natureza do corpo não muda com o tempo e nunca deixa de pedir a sua própria satisfação. Mesmo que diga palavras bonitas e reduza a sua pegada ecológica, colocando os plásticos no ecoponto certo, as dependências corporais mantêm-se presentes, escondidas, até serem postas à prova.

Cristo tentado no deserto
Esse é o problema com estas tentativas erradas de “aprofundar” o tempo quaresmal. A Quaresma não é um período ou de crescimento espiritual ou de melhorar a disciplina corporal. Porque a oração e o jejum andam de mãos dadas. Os três pilares da época penitencial da Quaresma são a oração, o jejum e a esmola. Jejuar sem ser de comida e de bebida real é como dar esmola sem ser com dinheiro verdadeiro. O jejum é de bens físicos e as esmolas para os pobres são de dinheiro verdadeiro ou de bens materiais.

As oferendas espirituais são, como é evidente, muito boas e justas e uma necessidade para quem deseja avançar no caminho da perfeição. Mas para a maioria de nós o progresso costuma fazer-se da ordem natural para a ordem sobrenatural das coisas.

Os nossos corpos estão intimamente ligadas às nossas almas. Os críticos podem pensar que o jejum de gelado, chocolate, doces e por aí fora são actos “menores” ou “impensados” só porque muitos homens e mulheres de fé têm feito as coisas assim ao longo dos anos. Mas permitam-me sugerir, humildemente, que na nossa cultura indulgente a primeira coisa que uma pessoa deve tentar fazer é abdicar dos bens materiais de comida e de bebida.

É precisamente porque é difícil abdicar de bens destes que a pessoa que deixou de consumir café, por exemplo, precisa de recorrer ao auxílio da oração. Quando começarmos a ganhar maior autocontrolo sobre o corpo, então podemos passar para o próximo nível espiritual em que para além de abdicar destes bens espirituais, aprofundamos também a ligação espiritual a Nosso Senhor. Pedimos a graça de ter fé, esperança e amor mais profundos; para ser mais castos, temperados, diligentes, pacientes, bondosos e humildes.

Por isso, durante esta Quaresma, mortifique o seu corpo abdicando daquele café matinal, ou da doçura das sobremesas, e não deixe que ninguém o convença que essa disciplina corporal é simplista ou ultrapassada. E, já agora, arrependa-se dos seus pecados também.


(Publicado pela primeira vez no sábado, 22 de Fevereiro de 2020 em The Catholic Thing)

Helen Freeh obteve a sua licenciatura e mestrado na Universidade de Dallas e fez o doutoramento na Baylor University. Leccionou em Hillsdale College, onde conheceu o seu marido, John. Actualmente goza de uma reforma antecipada e está a criar e a educar em casa os seus filhos em Lincoln, Nebraska

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Tuesday, 23 April 2019

Notre Dame e Sri Lanka. Uma Sexta-feira Santa que não acaba

Peço desculpa pelo meu silêncio dos últimos tempos, entre folgas, férias e horários complicados, a coisa tem sido mais difícil. E deve continuar durante as próximas semanas, mas farei os possíveis.

Para além da Páscoa, o dia mais importante do calendário cristão, dois grandes eventos marcaram as últimas semanas.

O terrível massacre no Sri Lanka, em que foram atingidos hotéis para estrangeiros e igrejas cristãs, voltou a transformar a Páscoa numa longa Sexta-feira Santa. Os ataques foram reivindicados pelo Estado Islâmico – o que não quer dizer grande coisa – mas tudo indica que são da autoria de extremistas islâmicos, de facto. Felizmente há muitos muçulmanos que condenam estes actos.

Anda tudo a dizer que morreu um português, e oficialmente será verdade, mas se formos a ver os apelidos dos que morreram nas Igrejas encontraremos certamente muito mais apelidos familiares. Ser português não é apenas uma questão de BI.

O outro evento triste foi, claro, o incêndio na Catedral de Notre Dame, que pôs o mundo a chorar, e a cantar.

Mais algumas coisas que poderão ter passado despercebidas…
Continuam as conferências “E Deus nisso tudo?”, o último contou com Rui Vieira Nery e o fadista Peu Madureira.

Por fim, o artigo da semana passada do The Catholic Thing volta ao tema dos abusos sexuais e questiona se a abordagem do Papa Francisco ao problema é o ideal. O tempo dirá, conclui Stephen White. Leia, que vale a pena.

Wednesday, 3 April 2019

Que Tipo de Filho?

Pe. Paul Scalia
A Quaresma é sobre o tipo de filho que escolhemos ser. Tem a ver, em primeiro lugar, com a filiação de Cristo, e depois com o facto de nós sermos filhos de Deus através dele, com Ele e nele. A Quaresma alcança o seu propósito e significado final na Vigília Pascal, quando os catecúmenos são baptizados e os fiéis renovam as suas promessas baptismais, isto é, quando nos tornamos, ou renovamos a nossa relação de, filhos de Deus.

As leituras reflectem esta realidade. O primeiro Domingo de Quaresma coloca-nos diante das tentações que queriam afastar o Filho do Pai. Ele tinha acabado de escutar a voz do Pai no Rio Jordão: “Tu és o meu Filho muito amado; em ti pus toda a minha complacência”. Agora é o demónio que põe à prova as palavras do Pai, propondo outro tipo de relação filial – não proposto e desejado pelo Pai, mas baseado antes nas suas próprias sugestões: Se és de facto o filho de Deus…

É confiando no Pai, recebendo o que Ele dá e rejeitando qualquer relação filial contrafeita, que Nosso Senhor triunfa. E como que a confirmar esta vitória, o segundo Domingo da Quaresma dá-nos a voz do Pai no Monte Tabor: “Este é o meu Filho muito amado, em quem pus toda a minha complacência; escutai-o”. A Quaresma toda tem a ver, portanto, com a rejeição da falsa filiação, afastando o que não é de Cristo e preparando-nos para renascer, ou vermos renovada a nossa relação filial com Deus.

É neste contexto de filiação – tanto real como falsa – que devemos escutar a parábola do Filho Pródigo, de domingo passado. Na verdade, claro, é sobre dois filhos. Embora sejam muito diferentes, têm algo em comum: cada um escolhe o seu próprio tipo de filiação, independentemente do pai. Ou melhor, cada um nos revela formas diferentes de sermos apanhados nas ciladas do demónio e na filiação criada à nossa medida.

A rebelião do filho mais novo é mais infame. Ele “consumiu os bens [do pai] com mulheres de má vida”, nas palavras do irmão. Esta vida dissoluta poderá parecer-nos o pecado mais grave. Mas na verdade é apenas o fruto terrível, e não a raiz, da sua rebelião.

Na raiz do pecado do filho pródigo está a vontade de querer uma relação filial à sua medida. “Pai, dá-me a parte da herança que me toca”. Esta exigência dura revela o seu desejo de querer ter todos os benefícios da filiação – a sua herança – mas sem o pai. Note-se que não lhe basta estar longe do pai, quer que o pai deixe de existir. Quando diz: “Pai, dá-me a parte da herança que me toca” o que está a dizer de facto é: “Eu quero aquilo a que tenho direito quando morreres”… “Eu só posso viver a filiação que desejo quando tu partires”… “Gostaria que morresses”. 

O filho mais novo é Adão, tentando alcançar o fruto, procurando obter à sua maneira aquilo que o Pai lhe quer dar livremente – e acabando em grande desapontamento. Esta é a doença do homem caído. Queremos as coisas de Deus, mas sem Deus. Queremos a bondade da criação, sem o Criador, a dignidade que Ele nos deu, sem qualquer responsabilidade para com Ele, e a vida eterna que Ele promete, sem o seu caminho.

O Ocidente pós-cristão quer o património intelectual, moral e espiritual da Cristandade – mas sem Cristo. No final nós, tal como o filho pródigo, percebemos que não podemos ter um sem o outro. Sem o Pai, os seus dons rapidamente nos traem. E nós, tal como o filho pródigo, encontramo-nos no meio dos porcos.

E depois temos o filho mais velho. Também ele vive uma relação filial à sua maneira. Só não é tão evidente. O filho mais novo estabelece a sua própria rota, em claro contraste com o pai. O mais velho estabelece os termos para a sua relação (ou falta dela) com o pai, mas de forma menos clara. Também ele quer as coisas do pai sem o pai. Em vez de ser dissoluto e irresponsável, porém, os seus termos são mercantilistas e (espera ele) lucrativos.

“Há tantos anos que eu te sirvo, sem nunca transgredir uma ordem tua”. Esta não é a voz de um filho, mas de um empregado ou de um escravo. Trai a visão distorcida do filho mais velho da relação filial e uma fraca compreensão do seu pai. Ele encara o seu trabalho, não em união com o pai ou para bem da família, mas apenas como obrigação. O filho mais velho está sozinho em casa: todo este tempo na casa do pai, mas não da casa do pai.

Se o filho pródigo representa aqueles que se afastam, ou que se revoltam mesmo contra a Igreja (a casa do Pai) o mais velho representa aqueles que, enquanto na Igreja e talvez até a trabalhar para a Igreja, são animados apenas por um sentido de dever.

Ao contrário da vida dissoluta do filho pródigo, este vício ameaça aqueles que levam a sua fé a sério e, também ao contrário do pródigo, não querem abandonar a casa do Pai. Arriscam estar na casa do Pai, mas sem o sentido de serem seus filhos. O perigo, para eles, está em substituir o Pai pelas coisas do Pai – colocando a piedade acima da santidade e satisfazerem-se com a observação externa acima da obediência filial.

“Pai, pequei contra o céu e contra ti”. Embora partam da boca do mais novo, ambos os filhos o poderiam ter dito. A ambos falta uma relação genuína com o pai. Cada um deles, à sua maneira, distorceu-a, criando uma relação filial à sua medida.

É normal tentarmos reconhecer em nós mesmos um ou outro dos dois filhos. Mas a realidade é que nos assemelhamos a ambos, até certo ponto. Por isso, agora que nos encontramos a meio da Quaresma, fazemos bem em perguntar não se, mas como é que agimos como cada um. Quando e como é que prefiro as bênçãos de Deus ao próprio Deus? E, igualmente, quando e como é que reduzo a minha relação com o pai a um mero quid pro quo?

Temos de renunciar a estas falsas relações filiais para sermos renovados como filhos de Deus, na filiação autêntica de Cristo.


O Pe. Paul Scalia (filho do falecido juiz Antonin Scalia, do Supremo Tribunal americano) é sacerdote na diocese de Arlington e é o delegado do bispo para o clero.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 31 de Março de 2019 em The Catholic Thing)

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