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Thursday, 12 October 2023

A complexa relação entre cristãos e Israel

[Artigo escrito originalmente em 2012, actualizado em 2023]

Este tema dava para um livro, ou vários, e por isso vou ser o mais sintético possível. O meu objectivo é elaborar aqui um ‘mini guia’ para os leigos compreenderem alguns dos aspectos mais relevantes de uma relação complexa.

Embora o Estado moderno de Israel só exista há 75 anos, as relações entre este e as diferentes igrejas cristãs são influenciadas por muitos aspectos que antecedem a fundação do país. A isso deve-se somar a existência de diferentes igrejas cristãs, cada uma com os seus interesses estratégicos, o que neste contexto não significa necessariamente “interesseiros”.

Comecemos pelos “melhores amigos” de Israel. Ao contrário do que se possa esperar, nem sempre os melhores amigos de Israel são os judeus noutros países - muitos dos quais são até bastante críticos do Estado Israelita, mas sim cristãos evangélicos. Isto é particularmente verdade nos Estados Unidos, onde estes cristãos têm maior expressão, influência e força, mas não é uma realidade confinada à América.

Os evangélicos americanos acabam por reflectir a posição genérica das diferentes administrações em Washington, mas por razões mais complexas. Em alguns casos pelo menos, não digo que seja em todos, está em causa uma visão milenarista que defende que a existência de Israel enquanto Estado político independente é uma pré-condição necessária para o fim dos tempos, a segunda vinda de Cristo e o Juízo Final.

Claro que muitos desses cristãos acreditam que os judeus que agora tanto defendem serão condenados ao inferno por não terem acolhido a salvação que vem de Cristo, por isso é uma amizade um tanto ou quanto estranha. Mas é palpável e não apenas moral, assumindo a forma de ajuda financeira e política.

A situação muda de figura com as igrejas evangélicas mais liberais/progressistas, que tendem a apoiar mais a causa palestiniana, mas estas são menos expressivas, porque menos organizadas.

Na Europa, por exemplo, a situação é bastante diferente. Em alguns países mantém-se uma lamentável desconfiança dos judeus que se traduz em atitudes anti-Israelitas. Outras pessoas simplesmente não concordam com as políticas daquele Estado face aos palestinianos, o que não deve ser necessariamente confundido com antissemitismo. Isto aplica-se tanto a cristãos como a não-cristãos, mas nos últimos tempos tem-se tornado particularmente a bandeira de uma certa esquerda radical, que é também anticristã, e por conseguinte tem empurrado alguns cristãos para o lado contrário.

Protesto anti-israelita na Grécia
No plano oficial, porém, a atitude dos cristãos na Europa, sobretudo da hierarquia católica, rege-se pela linha orientadora do Vaticano que tem defendido consistentemente o direito à existência de Israel, aliado a uma defesa dos direitos dos palestinianos, o que se traduz na defesa da solução de dois estados para aquela região.

Os interesses do Vaticano na Terra Santa são representados pelo Patriarcado Latino de Jerusalém, cujo Patriarca, Pierbattista Pizzaballa, foi recentemente elevado a cardeal. Quando recebeu do Papa os símbolos cardinalícios, este disse-lhe "força, coragem!", mostrando entender a delicadeza da sua posição, de ter de cuidar de cristãos de ambos os lados da barricada e de lidar com as autoridades árabes e judaicas.

Do ponto de vista geopolítico e ideológico isto até poderá parecer estranho. Nos dias de hoje, não têm os judeus mais em comum com os cristãos face à ameaça comum que representa um Islão em expansão? Talvez. Note-se que a nível de diálogo inter-religioso, por exemplo, o Judaísmo é tratado de forma diferente do que o Islão, em reconhecimento dessa maior proximidade.

Contudo, e aqui chegamos ao aspecto mais importante, há que recordar o factor dos cristãos árabes. Uma boa percentagem da população palestiniana é cristã, tanto no território da Administração Palestiniana (mais na Cisjordânia do que em Gaza, mas a diminuir em ambos), como em Israel propriamente dito, onde são cerca de 10% da população palestiniana.

Tradicionalmente estes cristãos palestinianos eram tão ferozmente anti-israelitas como os seus compatriotas árabes. George Habash e Nayef Hawatmeh, por exemplo, dois dos pioneiros da luta armada contra Israel, eram ambos cristãos e aquele que foi talvez o único exemplo de um bispo detido por tráfico de armas foi o palestiniano Hilarion Capucci.

George Habash, cristão e pioneiro da luta armada palestiniana
Esta tendência alarga-se ao resto do mundo árabe. Geralmente os cristãos árabes são anti-israelitas e culpam o conflito israelo-árabe pela instabilidade da zona, que acaba por desembocar em perseguições anticristãs.

Compreende-se por isso que a Igreja Católica, uma vez que muitos destes cristãos árabes são católicos, tenha que manter um, por vezes difícil, equilíbrio entre uma maior proximidade ideológica com os israelitas democráticos e ocidentalizados - sobretudo reconhecendo uma dívida para com o povo judaico, fruto de séculos de perseguição - e a defesa de alguns direitos elementares de justiça e dignidade para os palestinianos, muitos dos quais são cristãos. Nem sempre é um jogo fácil de jogar e as relações diplomáticas entre a Santa Sé e Israel são tensas. Ainda recentemente, quando começou este novo conflito em Outubro de 2023, o Governo israelita criticou o Papa por apelar à paz e à contenção de ambas as partes, acusando-o de falsos paralelismos.

Por fim, temos o factor ortodoxo. Aqui sente-se de forma particular o peso da história. Recordemos que até à Primeira Guerra Mundial toda a Terra Santa pertencia ao Império Otomano, a grande potência do mundo islâmico.

Havia cristãos em vários territórios do Império Otomano, que viviam com uma boa dose de liberdade, incluindo na Terra Santa. O Patriarcado de Constantinopla tinha a sua sede precisamente na capital deste mesmo Império.

Clérigos ortodoxos gregos em Jerusalém
Aos olhos dos Otomanos, os cristãos ortodoxos, fiéis ou a Constantinopla ou a Moscovo, mas não a Roma, eram de maior confiança que os católicos, que mais facilmente podiam ser encarados como “agentes” dos países ocidentais. Os ortodoxos ganharam bastante com isso. O Patriarcado Ortodoxo Grego de Jerusalém é ainda hoje o maior detentor de terras em Israel, possuindo por exemplo o terreno no qual está construído o Knesset, o parlamento israelita.

Ao mesmo tempo os Russos investiram muito dinheiro em Jerusalém, construindo inúmeros mosteiros, albergues para os seus peregrinos e outras instituições, estabelecendo uma significativa presença na Terra Santa.

As boas relações que os ortodoxos tinham com o Império Otomano chegaram ao fim com a guerra e não são as mesmas com o Estado de Israel. Por um lado, os ortodoxos e os judeus têm obrigatoriamente que se entender, mas da parte dos ortodoxos não existem as mesmas atenuantes que há em Roma para moderar a desconfiança ou mesmo ódio que os fiéis árabes sentem pelo Estado Judaico.

Quem são os cristãos na Terra Santa?

Normalmente olhamos para a Terra Santa, e para o conflito entre Israel e a Palestina, como uma dicotomia judaica-muçulmana, mas são muitos os cristãos que vivem nestes territórios. 

Os mais numerosos são os cristãos árabes, identificados hoje em dia como palestinianos. Neste momento estes constituem cerca de 3% da população na Faixa de Gaza e da Cisjordânia, embora historicamente tenham sido uma percentagem muito maior, que foi diminuindo pelo facto de os cristãos emigrarem em muito maior proporção que os muçulmanos. 

Entre a comunidade árabe/palestiniana que vive em Israel a percentagem de cristãos é significativamente maior, cerca de 7%, o que representa a vasta maioria dos cristãos israelitas (75%). Os cristãos palestinianos dividem-se mais ou menos em igual número entre católicos e ortodoxos, sendo que existem católicos de rito latino e de rito oriental, principalmente melquita. 
Judeus messiânicos

Os restantes cristãos em Israel são de diferentes comunidades, incluindo entre três e seis mil arménios. Há um número muito significativo de russos de ascendência judaica que emigraram para Israel mas cujas famílias tinham entretanto convertido ao cristianismo, pelo que existem dezenas de milhares de fiéis da Igreja Ortodoxa Russa no país. O mesmo se aplica a alguns milhares de membros da comunidade etiope em Israel. 

Existe também uma relativamente pequena, mas significativa comunidade de cristãos de língua hebraica. Integrada na Igreja Católica de rito latino, esta comunidade é composta por judeus convertidos ao Cristianismo, mas também por descendentes de católicos que já nasceram em Israel e para quem o hebraico é a língua materna.

Por fim, existem algumas comunidades protestantes, a mais polémica das quais são os chamados "judeus messiânicos", que são judeus que acreditam que Jesus é o Messias prometido a Israel e que são por isso cristãos, mas continuam a vestir-se e a comportar-se como judeus, procurando muito activamente converter outros judeus à sua fé. Por causa do seu proselitismo, são muito mal vistos por judeus devotos em Israel. Segundo alguns dados, existem mais de cinco mil judeus messiânicos em Israel.

Wednesday, 27 September 2023

Tragédia em casamento cristão no Iraque

Mais de 100 pessoas morreram num incêndio que deflagrou durante uma festa de casamento no norte do Iraque, na terça-feira, e outras 150 ficaram feridas.

A tragédia aconteceu na cidade de Qaraqosh, também conhecida como Baghdeda, ou Bakhtida, que tem a particularidade de ser a única cidade 100% cristã do Iraque. Embora existam cristãos de diferentes ritos e igrejas na cidade, este parece ter sido um evento da comunidade Siríaca Católica (e não a ortodoxa, como erradamente afirmei de início).

Um acidente destes é sempre uma enorme tragédia, não há vidas mais valiosas que outras, mas este incidente tem a dimensão acrescida de representar mais um grave golpe contra a comunidade cristã do Iraque.

Qaraqosh sempre foi um símbolo para a comunidade cristã deste país. O facto de serem maioria permitiu aos cristãos daqui manterem as suas tradições e costumes durante os anos de caos que se seguiram à invasão americana de 2003. Podiam praticar a sua religião sem qualquer medo ou restrição.

O primeiro grande teste para Qaraqosh veio com a ascensão do Estado Islâmico. A cidade foi ocupada pelos jihadistas quando varreram a região em torno de Mossul, mas todos os cristãos conseguiram fugir. Contudo, a instabilidade geral e o medo de que a situação se possa repetir no futuro levaram muitos cristãos a preferir emigrar, ou a permanecer no Curdistão Iraquiano, que é mais seguro e estável.

Os cristãos que regressaram a Qaraqosh são aqueles que resistiram, são aqueles que não quiseram, ou não puderam, sair do país. São, numa palavra, a esperança para o futuro do Cristianismo no Iraque.

Que 100, ou mais, dos membros dessa comunidade tenham morrido num acidente desta natureza é mais do que um desperdício de vidas, é um ataque a essa mesma esperança, mais uma razão na já longa lista de razões para simplesmente desistirem e saírem para a Europa, América do Norte ou Austrália, onde de geração em geração os seus costumes, práticas, língua e espiritualidade se vão dissipando.

Rezemos pelos cristãos do Iraque que, mais uma vez, enfrentam o desespero e a morte. Que Deus lhes dê coragem para resistir, que a luz do Evangelho se mantenha naquele país. E que Deus dê eterno descanso às vítimas deste incêndio, e a graça da recuperação aos feridos.

Wednesday, 15 September 2021

Ajudar os nossos irmãos na Terra Santa

 Recebi há dias um pedido de ajuda, que partilho convosco.

Como sabemos, os cristãos na Terra Santa são cada vez menos e passam muitas dificuldades. Muitos dos que vivem em Belém dependem da indústria do turismo, que por causa da pandemia tem estado parada. 

Todos os anos costumava vir a Portugal o Nicolas, católico de Belém, que trazia peças esculpidas em madeira de oliveiras da Terra Santa, para vender. É uma importante fonte de rendimento que, infelizmente, secou por causa da Covid. 

Já em desespero, ele e outros vendedores juntaram-se para vender as peças, a preço quase de custo, com possibilidade de envio por correio. De uma perspetiva comercial, quase que não vale a pena, para nós, uma vez que pagamos mais pelo envio do que pelas peças, mas não são os cristãos chamados a olhar a realidade por outra perspetiva?

Estes cristãos precisam da nossa ajuda. Aqui podem ver em detalhe as peças (cliquem para aumentar as fotos) e em baixo está a lista com os preços. As encomendas podem ser feitas diretamente ao Nicolas por whattsapp, para o número +972 52-457-6851.

Ele poderá depois dar melhor ideia de valores de envio, mas pelo que me disse uma encomenda de 20 quilos fica a cerca de 100 euros e uma de 2 kilos a cerca de 20 euros. Os pagamentos podem ser feitos por transferência para uma conta que eles mantêm em Portugal, evitando taxas. Por que não juntar uma família, ou uma paróquia, para fazer encomendas maiores e ter peças para vender ou distribuir pelo Natal?

Falamos muito em ajudar os cristãos perseguidos e que passam dificuldades. Rezamos por eles. Esta é uma forma prática e ao alcance de todos de ajudar pessoas em concreto. Não a desperdicemos!











Friday, 5 March 2021

Papa no Iraque: Dia 1

O Papa chegou hoje ao Iraque, uma viagem que ficará para a história. Francisco foi avisado por todos para não ir, mas fez questão, e hoje percebeu-se porquê.

Hoje houve dois momentos marcantes, o discurso aos políticos, em que Francisco pediu direitos para os cristãos, e o discurso perante os católicos, em que o Papa pediu que o sofrimento e o martírio não sejam sementes de ressentimento e vingança, mas de perdão e reconciliação.

Houve um momento bonito em que Francisco recebeu uma estola, muito simbólica, feita por cristãos que voltaram agora às suas casas depois de terem tido de fugir do Estado Islâmico.

Os cristãos, esses, são cada vez menos, mas os que permanecem querem que o Papa ponha a máquina diplomática a funcionar.

Leiam ainda a entrevista com o ex-embaixador do Iraque em Portugal – não o da polémica dos filhos que espancaram um rapaz em Ponte de Sor, o antecessor – que diz que o futuro do Iraque não pode ficar refém do seu passado.

Amanhã há mais momentos importantes, incluindo um encontro com o líder supremo do islão xiita no Iraque.

Termino com o apelo para lerem o artigo desta semana do The Catholic Thing, com importantes reflexões sobre a Quaresma. É do nosso grande Randall Smith.

Wednesday, 25 October 2017

Jihadi Judge e Estado Islâmico prefere Messi a Ronaldo

ISIS prefere Messi a Ronaldo
Nos últimos dias um juiz no Porto lembrou-se de citar a Bíblia num acórdão sobre violência doméstica. Isso em si não tem mal. O problema é a forma como a cita e aparente enormidade da decisão, como explica Graça Franco nesta carta aberta, que vale a pena ler. Até os bispos tiveram de vir a público lamentar o sucedido.

Morreu o padre Noronha Galvão, que foi aluno de Ratzinger e um teólogo influente em Portugal.


No Médio Oriente aconteceu precisamente aquilo que, infelizmente, eu tinha previsto no Verão. Após o referendo no Curdistão iraquiano abriu-se um conflito entre Bagdad e os curdos e quem está a levar com os combates à porta de casa são os… Cristãos, claro.

O Estado Islâmico pegou numa imagem de Lionel Messi para ameaçar o mundial de 2018.

Mesmo as pessoas que cometem os crimes mais horríveis terão feito algum bem ao longo da vida. No artigo desta semana do The Catholic Thing em português o diácono James Toner recorda o seu antigo pároco, que teve sobre ele uma grande influência, mas que afinal revelou-se mais tarde como um violador e abusador de rapazes. Um artigo duro, mas que todos devemos ler.

Friday, 29 September 2017

Actualidade Religiosa: Plano Marshall para cristãos iraquianos? Wahou!

Terminaram esta sexta-feira as Jornadas da Comunicação Social. Os presentes ouviram falar de muitos instrumentos e formas de marcar presença nas redes sociais, agora é passar da teoria à prática.

Ontem, no primeiro dia das jornadas, D. João Lavrador disse que a Igreja tem de estar em tudo o que possa ser meio de comunicação e José Manuel Fernandes explicou que os jornalistas e profissionais de comunicação têm de estar onde as pessoas estão, e as pessoas estão online.

Por falar em igreja e comunicação, o Vaticano quer combater o fenómeno do “fake news”.

Foi ontem revelado um “Plano Marshall” para ajudar os cristãos iraquianos a voltar às suas terras.

No próximo fim-de-semana decorre o segundo “Fórum Wahou!”, sobre a Teologia do Corpo. Se estiverem interessados, ou souberem de quem possa estar, vejam e divulguem, porque promete ser muito interessante.


E por fim, um desafio. Quem quiser rezar pelas crianças não nascidas, e por todos os casais que vivem com esperança os desafios à sua fertilidade, juntem-se à Esperança de Ana, amanhã, Sábado, às 21h00 na Capela da Ordem Hospitaleira São João de Deus, na rua São Tomás de Aquino, nº20, Lisboa.

Tuesday, 17 November 2015

Papa vai à sinagoga e dicas de presentes de Natal

Presentes de Natal!
O Papa Francisco vai visitar a sinagoga de Roma em Janeiro, como já fizeram antes dele os Papas Bento XVI e João Paulo II.

Está disponível o livro “Quero dizer-Te: Obrigado!”, um roteiro espiritual, que pretende ajudar doentes e os que cuidam de quem está a viver a última etapa da vida.

Enquanto prosseguem os desenvolvimentos à volta dos atentados de Paris, a comunidade muçulmana de França teme represálias e insiste na mensagem de que o Islão não tem nada a ver com aquilo.

Encontram-se em Lisboa dois irmãos cristãos da Palestina, que vêm vender artesanato produzido pela comunidade cristã de Belém. Os artigos estão à venda na entrada da Igreja dos Mártires, no Chiado e a sua compra é uma forma muito concreta de ajudar estes cristãos, que vivem situações complicadas.

O ano passado também cá estiveram e na altura entrevistei um deles. A transcrição integral dessa entrevista, muito interessante, está aqui e não perdeu nada da sua actualidade.

Thursday, 8 October 2015

“Estamos dispostos a morrer na Síria”

Transcrição da entrevista ao abuna Munir al Rai, provincial dos salesianos no Médio Oriente. A reportagem pode ser lida aqui.

É responsável por quantos salesianos no Médio Oriente?
Eu sou responsável por cerca de 100 salesianos, presentes no Médio Oriente, e que são de quase 18 nacionalidades. 40% são italianos, 30% são locais e outros 30% de outras nacionalidades.

Em que países?
Temos a casa provincial em Belém, depois temos na Terra Santa, no Egipto, Turquia, Irão, Síria e Líbano. Também nos é confiado o Iraque.

Trabalham sobretudo na educação?
Sim, essa é a nossa missão fundamental. Temos muitas escolas para crianças e jovens, sobretudo escolas profissionais e centros profissionais. Temos também oratórios juvenis e também paróquias e igrejas públicas, bem como vários serviços sociais para as pessoas.

Estas escolas e trabalhos servem quantas pessoas no Médio Oriente?
Temos no Médio Oriente, entre crianças, jovens e leigos que frequentam as nossas casas, cerca de 10 mil pessoas. São números estimados, tudo depende da situação. Mas registados são quase 10 mil.

Sobretudo cristãos? Ou cristãos e muçulmanos?
A maioria são muçulmanos. Servimos também cristãos, mas de vários ritos, ortodoxos, católicos... De vários ritos.

Disse uma vez que os salesianos estavam preparados para serem martirizados por permanecer na Síria. Já perderam algum salesiano durante esta guerra civil?
É verdade, os salesianos presentes na Síria arriscam, como disse, o martírio. Estamos sempre disponíveis até a dar a vida.

Houve vários momentos graves, de grande perigo, mas graças a Deus estão todos seguros.

Abuna Munir al Rai, à direita
Qual é a presença dos salesianos na Síria neste momento?
A primeira casa fundada na Síria é em Aleppo, no Norte, data de 1948. Foi a primeira escola profissional da Síria. Em 1960 foi nacionalizada. Actualmente temos um grande oratório e centro juvenil e uma grande igreja publica. Estão lá actualmente três salesianos, dois sírios e um italiano.

Depois temos em Damasco uma casa fundada em 1990, o oratório e centro juvenil, inserido num ambiente ligado às nossas irmãs salesianas, que gerem lá um grande hospital, que serve muitos doentes. Lá temos quatro salesianos, três sírios e um italiano.

Temos uma outra casa, sobretudo com a presença de salesianos religiosos e no inverno confiámos esta casa a uma família de colaboradores salesianos.

Nenhuma destas casas está em áreas controladas pelo Estado Islâmico?
Não. São zonas que até agora têm estado nas mãos do Governo, zonas bastante tranquilas, mas tranquilo, na Síria deixou de existir, porque o perigo é iminente e o improviso pode sempre acontecer.

Enquanto provincial, onde está sedeado?
A sede é na Terra Santa, porque os salesianos chegaram ao Médio Oriente pela Terra Santa e as grandes obras são na Terra Santa. A casa provincial é em Belém e eu faço as minhas visitas às casas do Médio Oriente a partir de lá. Passo muito tempo com os meus irmãos e com as pessoas.

É fácil viajar?
Não. Nada fácil. É muito difícil. Mas vamos conseguindo.

Como é que faz para visitar Aleppo ou Damasco, por exemplo? É fácil entrar e sair de lá?
Depende do momento. Há alturas em que era impossível, estava muito grave e era difícil a passagem. Há alturas menos difíceis, mas não usamos a palavra fácil, nem tranquilo. Não se usa. Usamos situação gravíssima ou menos grave. São estes os termos.

Quando viajamos são viagens cansativas e duras e podem surgir problemas inesperados. Por exemplo, recordamos que foram várias pessoas raptadas e mortas, dois padres raptados nas suas viagens, bispos também. Pode acontecer o inesperado. Mas é preciso muito cuidado e quando viajamos é com muita simplicidade, com muito cuidado, tentando confiar-nos ao Senhor.

Ainda tem família em Aleppo?
A minha família... Como sabe, no Médio Oriente tivemos várias etapas de emigração. A minha família emigrou no fim dos anos 80, para o Canadá, tenho lá muitos parentes. Eu escolhi permanecer no Médio Oriente.

Igreja destruída em Aleppo. Foto: Alfredo Girardi
A Europa está agora a debater a questão dos refugiados, muitos dos quais vêm da Síria. Como sírio, como descreve a resposta europeia a este problema?
É verdade que a questão dos refugiados é muito complicada e muito difícil. É justo recordar que há muitos refugiados - e fala-se pouco deste problema - também na Turquia, Líbano, Jordânia, também no Egipto. Estamos a falar de milhões. É justo sublinhar este ponto. Muitos deles vivem em campos de refugiados e sofrem.  Este é um ponto a recordar e sublinhar, porque se fala do problema como se só afectasse a Europa.

Desde o início da guerra que alguns começaram a vir para a Europa. Muitas pessoas, ao longo dos anos da guerra, vieram para a Europa. Estranhamente, e é isso que questionamos, só agora é que são notícia de primeira página e só os da Europa.

Outra coisa, é certo que a Europa está a tentar ajudar estes refugiados, mas não existe um plano bem organizado nem adequado. Por isso há deslizes e divergências entre países europeus. Há também fortes restrições. Por isso muitos jovens perdem-se, não sabem o que é que deviam fazer, basta dizer também, porque é que devem arriscar as suas vidas para chegar à Europa?

É preciso um plano bem organizado e bem preparado para que possam ao menos deixar de arriscar a vida, porque tantos morrem durante a viagem, muitos são deixados aos traficantes, muitos sofreram verdadeiramente, por isso, na minha opinião, devemos agradecer à Europa este acolhimento, esta vontade de acolher, mas neste momento falta um plano bem estudado, bem organizado, para poder acolher e acompanhar, porque são duas coisas diferentes.

Acolher uma coisa, mas acompanhar, de forma sistemática e com dignidade, isso seria uma coisa importante.

Também há pessoas que dizem que o facto de muitos destes refugiados serem muçulmanos constitui uma ameaça à Europa e à sua identidade cristã.
O que digo é que esta questão é muito complicada. Em todo o lado em que existe emigração há lados negativos e positivos. Penso que esta resposta basta.

Há também pessoas que dizem que com os refugiados podem vir jihadistas infiltrados...
Como já disse, há sempre lados positivos e negativos.

Penso que é preciso resolver o problema das pessoas e do Médio Oriente procurando soluções pacíficas para evitar todos os perigos possíveis e imagináveis. Esta é a questão mais importante. Depois, acolhendo as pessoas, é preciso haver um plano bem claro. Cada estado deve estudar a sua capacidade de acolher e acompanhar para inculturar estas pessoas nos seus países, porque caso contrário podem surgir vários problemas incontroláveis.

Mas a coisa principal, para mim, é procurar soluções para os problemas que causaram esta imigração, que causaram esta inundação massiva de pessoas do Médio Oriente, potenciando mais a paz, esse é que é o grande trabalho para evitar tantos problemas e tantos perigos.

Desde o início da crise no Iraque e, antes disso na Palestina, temos visto cristãos a abandonar o Médio Oriente em maior proporção que muçulmanos. E fala-se no perigo de o Médio Oriente ficar sem cristãos nos próximos anos. Ouvimos alguns patriarcas a dizer que em vez de ajudar os cristãos a abandonar o Médio Oriente devíamos estar a ajudá-los a permanecer. Isto é realístico?
Para nós, pastores das igrejas do Oriente, o nosso sonho, não só o sonho, mas aquilo que desejamos e queremos e pelo qual trabalhámos toda a vida, é que os cristãos permaneçam no Médio Oriente. Isto é o mais importante, o mais fundamental para nós.

É verdade que no Médio Oriente estamos a assistir a esta hemorragia de cristãos, mas também de muçulmanos, de pessoas que não quer aceitar a guerra, o sofrimento e a destruição e procura um mundo melhor.

Membros da família salesiana em Aleppo
Mas quando, falando com as pessoas, falando com os jovens sobretudo, quando depois de anos de guerra e de destruição e há um alto risco de vida, não podemos dizer-lhes para permanecer. Obviamente eles dizem que querem tentar salvar pelo menos as suas vidas, por isso procuramos uma solução.

Nós tentamos ajudar, sustentar espiritualmente, moralmente, materialmente, procurando sustentá-los nos países vizinhos, mas muitos decidem ir, de modo definitivo, para mais longe.

Esta forte imigração é a principal questão com que nos confrontamos no cristianismo oriental.

Os cristãos estarão algum dia em segurança no Médio Oriente, ou no mundo islâmico em geral?
Tento sempre dizer que no Médio Oriente tanto cristãos como não-cristãos têm sofrido com a guerra. Também muitos muçulmanos morreram. Bebés, jovens, mulheres, homens e todos pagaram o preço da guerra.

Vivemos também momentos felizes e belos no Médio Oriente, mas também momentos de sofrimento. Por isso acredito que podemos voltar a ter momentos bonitos também.

Alguns grupos cristãos defendem a criação de uma região autónoma ou mesmo independente, onde os cristãos e outras minorias possam viver com protecção e maior segurança. A maioria dos bispos com quem falei rejeitam esta ideia. Acredita que isto pode ser uma solução?
Eu não vou entrar em política. Como bom salesiano não falo de política. Falo de jovens e os jovens querem segurança, uma justa segurança uma justa paz e uma justa justiça. Apenas direi isto.

Os cristãos no Médio Oriente estão divididos entre diferentes ritos, com diferentes patriarcas. Não seria melhor ter uma voz forte para falar pelos cristãos no Médio Oriente, em vez de muitas vozes mais fracas?
Digo antes que esta diversidade não é uma fraqueza. Esta diversidade, para nós cristãos no Médio Oriente, é uma riqueza. Por isso eu não digo que estamos divididos, mas somos de muitos ritos mas unidos no caminho cristão. Penso que os cristãos do Médio Oriente e os homens de boa-vontade são unidos na condenação desta guerra e na busca por uma solução de paz.

O Papa Francisco falou de um ecumenismo de sangue. Sentem isso, que o sofrimento aproximou os cristãos?
Sim. O sofrimento e o conflito uniram-nos mais.

Acredita que haverá paz na Síria, ou não vê qualquer solução para breve?
Como sou bom sírio, bom cristão e bom salesiano, creio na paz. Chegará certamente o tempo da paz.

Friday, 15 May 2015

Um Arraiolos para o Papa e duas santas para a Palestina

As duas novas santas palestinianas
Um autarca em França, do mesmo partido de Sarkozy, teve a brilhante ideia de propor que o Islão seja proibido, dizendo que isso resolverá os problemas do país. Sem dúvida um candidato a Ministro das Ideias Inúteis, no caso de vitória eleitoral de Sarkozy.

Uma artesã alentejana quer homenagear o Papa oferecendo-lhe um tapete de Arraiolos. Demorou quatro meses a ser elaborado e tem mais de 200 mil pontos.

No próximo domingo o Papa Francisco vai canonizar duas freiras palestinianas, um gesto que enche de esperança os cristãos da Terra Santa.

Também no domingo decorre a Festa das Famílias do Patriarcado de Lisboa. Eu vou lá estar e sei que estará uma banca da Alêtheia onde o meu livro “Que fazes aí fechada” estará à venda, por isso quem quiser adquirir o livro e pedir uma dedicatória só tem de procurar o tipo alto e careca a tentar controlar os filhos.

Por falar no livro, ontem apareceu uma reportagem alargada no programa de televisão da Ecclesia. Vale a pena ver sobretudo por causa do trabalho inicial, com declarações de Maria João Avillez e de uma das freiras entrevistadas no livro.

Tuesday, 5 August 2014

Iraque, Iraque... pobre Iraque!


Cristão refugiado no Iraque
Faz sentido armar os cristãos iraquianos para poderem defender uma região autónoma? Alguns activistas acreditam que sim. Mardean Isaac, a residir em Londres, diz que nestes assuntos os cristãos no Médio Oriente não deviam ter de seguir os seus bispos.

É que os bispos discordam, tanto num ponto como no outro, como me disse há quase três anos o agora Patriarca dos Caldeus. Contudo, face ao agravamento das perseguições nos últimos dias, Louis Sako exige uma intervenção internacional.

Como de costume temos as transcrições completas da entrevista a Mardean Isaac. Numa primeira parte ele explica quem são os assírios, um termo que designa os cristãos daquela região, mas cuja utilização nem sempre é pacífica. Na segunda fala, então, do projecto de criação de uma região autónoma.

Não se esqueçam, entretanto, que amanhã é o dia de oração pelos cristãos iraquianos e leiam, se ainda não o fizeram, o excelente texto de David Warren sobre a perseguição que está a ter lugar.

Uma voz consistente de apoio aos cristãos perseguidos tem sido a da baronesa Warsi, no Reino Unido. Mas a única ministra muçulmana do actual Governo britânico apresentou hoje a sua demissão por não concordar com a posição de Cameron face ao conflito em Gaza.

Conheça ainda o plano de Hitler para raptar o Papa Pio XII e o cónego de Viseu que está prestes a fazer 100 anos. (Não, Hitler não queria raptar o cónego, que em 1939 nem era cónego ainda, mas já era padre).

"There is a place for arming Christians to defend themselves"

Manifestação a favor da criação
de um território para os assírios
Mardean Isaac defends the creation of a semi-autonomous homeland for the Assyrians in Iraq. This is the full transcript of the second part of an interview. The first part, about who the Assyrians are, is here. The news piece, in Portuguese, can be found here.

Mardean Isaac defende a criação de um território semi-autónomo para os Assírios, no Iraque. Esta é uma transcrição completa da segunda parte de uma entrevista. A primeira parte, sobre quem são os assírios, está aqui. A reportagem encontra-se aqui.

There were demonstrations today [Saturday, August 1st] all over the world. How many people took part? What is it you are asking for in these demonstrations?
Demonstrations took place in around 30 cities, in around 10 to 12 countries. In terms of numbers, around 40 to 50,000. Australia alone had around 6.000.

What we are asking for is, first of all, a recognition that what is going on is Ethno-religious cleansing. That is to say, in Iraq we have absolutely no protection, no security of our own, no legal or political recourse. We have simply been surrendered to the chaos which is taking place there, with nothing to stand against it.

Many of the signs you'll see point to a movement called #DemandForAction and also contain the phrase SafeHavenNow. What they point to is our desire to create a semi-autonomous region, within the Ninevah province where we can guide our own destiny, where we no longer have to be at the mercy of death squads, paramilitary groups, auxiliary forces, all other groups which have taken over Iraq, which have turned the Iraqi army into what it is now, which is nothing.

We want a region where we can live side by side with the other minorities which inhabit it, and where we can flourish, and where we can secure our own future in Iraq. That is what we want. However, we also exhibit solidarity with all our brothers and sisters in Syria, especially in the province of Hassekah, who are also undergoing terrible security crisis, and securing themselves against ISIS's onslaught.

Who would set up this province, who are you directing these pleas to?
This movement has been going on for a long time. It has really gathered momentum over the past 7 years. What is strange about what is going on now is that previously we were lobbying the Federal Government of Iraq to say "look, there is a region which Kurdistan covets and it’s in between the area which is definitely yours, and the area that is definitely theirs, and they have designs on it and we want it to become semi-autonomous.

So it was directed at the Federal Government, sort of against Kurdish designs, especially since Kurdistan kept putting off a referendum in the region in order to flood the area with more Kurds. Now all of a sudden the situation is very different indeed, that is to say, most of the plains have been taken by the Kurds. There is no reason to believe that they want to give them back, they have expanded their own territory by over 30%.

So in our protest today [August 2nd 2014] in London, in our demands, we said: Irrespective of who controls the plain, we want it to be semi-autonomous whether its Kurdish or Iraqi. Either way it will not pose a security threat to anybody, to say the least. To arm extremely disadvantaged groups like the Assyrians, the Yezidis, the few Mandeans, an absolutely extraordinary sect, the Shabaks and so on... these people are not interested in taking anybody else’s land, they simply want to secure their own.

We don't want a state, we want a part of Iraq, whether with the Kurds - we have a long and very complex relationship with them, we can certainly "do business with them" - or whether it is with Iraq, if they can get it together and expel ISIS.

Mardean Isaac
Interestingly the Kurds at the moment seem to be the ones who are best equipped to confront ISIS and defend the Christians in the region...
That's also interesting. There have been reports of fighting between the Kurds and ISIS today [August 2nd 2014], but they have so far had an implicit mutual enemy. The Kurds have taken what they want from Iraq and ISIS have taken what they want and they have allowed each other to do that.

Of course, with all these implicit deals, once these territories are secure now it’s uncertain what is going to happen. The Kurds have taken us in. I don't think they should be praised to much for that, we're talking about dealing with people like the Christians of Mosul who have been dispossessed of absolutely everything, they weren't even allowed to take watches or rings for God's sake. So the fact that the Kurds have set them up in shelters is... ok, fine.

But the Kurdistan Regional Government has a lot to answer for in terms of the way they treat us. They need to stop privileging building rights to Kurds, they need to stop confiscating our lands, all kinds of issues need to be worked out between us and the Kurds. But yes, certainly, there is a possibility of establishing an understanding. But the Kurds need to get out of their mode of insecurity, this mode of land grabbing and desperation to secure as much as possible, and ethnic hegemony. Its partially understandable why they are in that state, given their history and their antagonism towards Arabs and the State of Iraq, but they need to get out of it immediately and recognize that we suffered together in the North, we fought together against Saddam, our villages and our treasures were also destroyed, we have a shared history and they must recognize this. They must stop calling us Kurdish Christians. We have no interest in being called Kurdish Christians, we are not Kurds. And we deserve not only our full cultural, linguistic and religious rights, but also some degree, an appropriate degree of self-administration.

All of the Middle Eastern Christian religious leaders I have spoken too, and others I have read have been unanimous in saying they don't want a separate homeland just for the Christians. How far can this movement go if it doesn't have the backing of the religious leaders?
That's an interesting question...

I'll speak for myself. The position of the Chaldean church, especially their leader in America, is an outrage. His position is that because the Chaldeans inhabit a spiritual nation they have no particular interest in clinging to the territories they have in Iraq. Many statements have been made by Chaldeans that have deeply disappointed us regarding their attachment to Iraq.

As far as any religious leader who is ignoring the political reality must be criticized for it. We have absolutely no interest in being politically beholden to our religious leaders. If people want to go to church, affiliate themselves with whichever ecclesiastical institution it's their business. When it comes to issues of politics and history, I personally, and many other Assyrians, don't believe that the Churches should play a leading role, at all.

Autonomy, that's fine... but who would defend this state? Would it make a difference if you're all gathered in one place but there are still these groups that just want you gone? And on this subject, the bishops have been clear in saying that they don't want Christian militias, they don't want to respond to these persecutions with force. Is that your position? Is there a place for arming the Christians to be able to defend themselves in the Middle East?
Yes, I think there is a place for arming Christians to be able to defend themselves. To say that we don't want to respond to these persecutions with force is utterly baffling to me. We have no interest in doing anything with arms, other than protecting our villages. So in terms of the Church leaders who have a blanket position on these things, which I consider to be a politically cowardly one, I would simply like them to answer specifically as to what many people in the Ninevah plains need to do when they hear news of ISIS approaching within half a day.

Militantes do Estado Islâmico em cima
de uma Igreja em Sinjar, no Iraque
I've spoken to some of these people and they've gone to Turkey, where they live in a state of Limbo, because they are not Turkish citizens, especially when whole villages or communities are drained, they have no idea when they can return. Leaving is difficult, returning is difficult, their lives are completely suspended.

We're not talking about suddenly handing out guns to people, we're not talking about being irresponsible, and to suggest that we are, simply by recognizing the security problem is just bizarre to me. It's bizarre to anybody involved. Just go to Demand For Action, an initiative unconnected to any religious group or political party, its bizarre to them too.

What we need is organized, sanctioned, official security forces. Not militias, not squads of guys with guns, but people who protect villages and will put off attacks by looters and pillagers, which is what these groups are.

To even describe ISIS as an Islamic State is an absurdity. It’s a rag-tag crew of angry, stupid young men, who join together to go on a murder spree. It’s as if they are playing video games, that's how despicable they are. They gun people down wantonly... And there aren't that many of them. The Iraqi army should have protected us and they didn't.

So my question to all of our church leaders who are saying "we're Christian, we don't do violence", and so on, is, "what is the alternative?". That's my question.

Who are the Assyrians?

Mardean Isaac explains who the Assyrians are and gives us his perspective on the debate over Arab/Assyrian identity of Middle Eastern Christians. This is a full transcript* of the first part of an interview. The second part, on the possible creation of an Assyrian homeland, can be found here.

Mardean Isaac ajuda-nos a perceber quem são os Assírios e dá-nos a sua perspectiva sobre o debate acerca da identidade dos cristãos no Médio Oriente. Transcrição completa da primeira parte de uma entrevista, cuja continuação, sobre a eventual criação de um território para os assírios, está aqui.

Where were you born?
I was born in England. My father is an Iraqi Assyrian and my mother is an Iranian Assyrian.

Assyrian, what exactly does that term mean?
The term refers to an ethnic group who inhabit a contiguous region which is roughly correspondent to what is now described as Kurdistan, so South-east Turkey, North-East Syria, North-West Iraq, the Urmia region of Iran, and we are a non-Arab, non-Kurdish people, we speak colloquial dialects of Aramaic with some native morphology, even though our liturgical and ecclesiastical dialects are middle-Aramaic/Classical Syriac, we speak vernacular versions of those.

We have existed in those settings as a community for hundreds if not thousands of years.

Assyrian is a term we use to describe ourselves because we trace our ancestry and heritage to the inhabitants of that ancient civilization and we continue to inhabit many of its territories.

Are Assyrians Christians?
Yes. That is to say that they are almost entirely a Christian people -- I am not speaking to their particular beliefs, i.e. whether they are practicing or not. There are ethnic Assyrians who have converted to Islam over the centuries and have lost their identity and language. In recent memory, there are Assyrians who were forcibly converted to Islam and/or 'Kurdified' during the Assyrian genocide of the early 20th century. There is also a small number of Jewish Assyrians.

When we speak of Assyrians, we are not speaking of all Christians in the Middle East... Would Assyrians include the Chaldeans for example?
The Chaldean church is a Catholic branch of what is now called the Assyrian Church of the East. The first Church of the East Patriarch to enter communion with Rome was Yohannan Sulaqa in 1552. The Chaldean Church became a 'millet' of the Ottoman Empire in 1846. Chaldeans are Catholic, but ethnically Assyrian.

How about the maronites, for example?
The Maronites are obviously a Levantine people. Historically they have used Syriac, our classical language, but ethnically it depends what you mean. They belong to a different region, but it is tricky because many of them refer to themselves as Surayeh, which is hard to translate directly, but translates into Syriac -- or Syrian, in a non-Arab sense. So I would say there is a link in terms of a Syriac heritage, as well as a culture of martial highland resistance, but ethnically, directly, they are not the same as us, no.

I know that the term Assyrian is not necessarily embraced in the Middle East, there are many who are attached to an Arab identity. How peaceful is the term in characterizing Christians in the Middle East?
I think the Maronites have a very special place in the political history of the Middle East, especially in the XXth Century, that is to say, at the time of the Lebanese independence they were around 40 or 50% of the population. They spearheaded the independence movement, so their adoption of the Arab identity was the closest you could say to a majoritarian adoption of that identity. They chose to do it for the sake of the country, so to say, they wanted to align themselves with the countries nearby them and so on.

Iraqi Christian displaced by Islamic State
They don't call themselves Assyrian and over time, especially with the failure of our own national movement, which collapsed when the Ottoman Turks massacred us in 1915-1918, with the collapse of that movement the churches started to entrench themselves and try and enforce their own authority over their communities and distance themselves from a national identity.

I call myself Assyrian, I have many Chaldeans in my family who also call themselves Assyrian, we all speak Suret, which is a dialect of Aramaic with Akkadian elements, which we usually refer to in English as Assyrian, and I know countless members of the Syriac Orthodox Church also refer to themselves as Assyrian.


The Patriarch of the Melkite church, for example, is very emphatic about the Christians being Arabs just like their neighbours. Is that also a leftover of the Arab Nationalist movement?
Absolutely. The division, broadly, is between people who want to assert themselves independently of Arabism, and independent of the dominant hegemonic forces in the region, which are and were Arabism and more recently Islam. So when it comes to the Melkite Church, increasingly it is true of the Chaldean Church, this was true of the Maronite Church, although Maronite political parties have more recently begun to move away from an Arab identity, and during the Lebanese Civil War many groups, though ostensibly Catholic, refused to identify as Arabs. It has to do with whether the leaders of the churches feel they have to prioritize their congregation and their ecclesiastical authority on the Arab dominion, or whether they side with their people, in other words, they try and move towards a situation where they establish themselves quasi-independently.

Our Patriarch of the Church of the East wanted to establish an Assyrian State, under the auspices of the British, so that division between Arab and Non-Arab, has to do with that. But of course, when they describe themselves as Arabs it goes without saying that they are not "real" Arabs. They are not the Arabs of the Gulf, they don't belong to Arab tribes. The Arabism is a political movement which began in the Early XXth Century and under whose auspices they wish to go in order to save their own church and find a place for their religion in an Arab world.

During the Arab Nationalist movement, many Christians saw this as an opportunity and thought this was a chance to fit in and play leading roles, and many did. But with the failure of the Arab Nationalist movement, in practical terms, could it make it worse if they identify as non-Arabs?
It’s an odd situation. In the case of ISIS there is not a trace of Arabism in them. It’s a kind of bizarre international murder gang of Chechen and Welsh teenagers, and Afghans and all kinds of people. Of course they are preoccupied in a bizarre manner with what they call original Islam, but overall in terms of the discussions I have with Middle Eastern people my age, they find the ethnic aspect of Assyrians utterly baffling. They may discover with surprise that we don't speak Arabic, but broadly they simply see us as Christians and increasingly they see each other as simply Shiite or Sunni rather than primarily as Arabs.

Of course there are all kinds of tribal, geographical, local forces at work in all of these conflicts, but the area of broad ethnic identification is certainly in decline. And the regimes that supported that identification are collapsing. 


*A few corrections and minor alterations were submitted to these answers by Mardean Isaac in November 2014. I accepted these as they made no change to the overall tone or message of the original interview, and improved its clarity in some ways. In some cases they were spelling corrections to terms I had misheard during the interview.

Wednesday, 30 July 2014

A Fuga do Iraque

David Warren
Quando os americanos (“e aliados”) ocuparam Cabul, descobriram que um dos velhos clichés sobre o Afeganistão estava, afinal, errado. Não era verdade que já não existiam judeus no país. Um cavalheiro idoso surgiu de entre os destroços, um certo Ishaq Levin (que Deus o guarde). Durante todos aqueles anos tinha evitado dar nas vistas, mas agora estava convicto que era seguro emergir.

E ainda havia outro. Talvez tenha ouvido falar nele uma vez que a sua história foi adaptada para uma pequena peça de teatro em Londres. Zabolon Simenov (a ortografia varia) era negociante de tapetes e vendedor de kebabs e tinha sobrevivido aos Talibans, mantendo-se secretamente judeu. A sua família, incluindo duas filhas, tinha fugido para Israel há muito tempo.

Da última vez que ouvi falar nele continuava a recusar partir, acreditando que enquanto filho e neto de rabinos distintos, vivendo no que restava de uma sinagoga, tinha a obrigação de permanecer, se possível. O negócio dos kebabs, contudo, já não é o que era – as bombas persistentes mantêm os clientes à distância – pelo que foi obrigado a fechar o restaurante.

Lembrei-me desta história pouco depois de ter escrito no meu próprio site, no passado domingo, que “pela primeira vez em mais de 18 séculos, não há cristãos em Mossul”, no Iraque. Actualmente, a informação de que disponho é de que dezenas, talvez centenas, permaneceram e encontram-se escondidos.

Mas os poucos milhares que havia anteriormente, apesar de uma variedade de provações, naquilo que em tempos já foi uma cidade cristã e continua a ser a sede nominal da Santa Igreja Apostólica Católica Assíria do Oriente [que não se encontra em comunhão com nenhuma outra Igreja apostólica], fugiram, na sua maioria para o Curdistão.

A alternativa dada pelo Estado Islâmico, o exército fanático que actualmente controla regiões inteiras do Oeste do Iraque e Este da Síria, que rebaptizou de “califado”, era a morte. Os relatos na imprensa repetem mecanicamente que as outras opções eram a conversão ao Islão ou o pagamento da jizyah, mas não têm espaço para explicar que estas não eram alternativas viáveis.

Já não vimos muitas reportagens sobre o Iraque, agora que as forças ocidentais foram retiradas, e a nossa escolha de amigos regionais limita-se aos terroristas de um lado e, do outro, dois regimes, do Assad na Síria e de Maliki, no Iraque, que se tornaram clientes de Teerão.

Ao abandonar as suas responsabilidades morais no Iraque, os nossos líderes ocidentais deixaram a outrora numerosa comunidade cristã entregue a si mesma. Mesmo enquanto as nossas tropas permaneciam no local, e tinham os meios para evitar o pior, o destino dos cristãos foi em larga medida ignorada. Estes, juntamente com outras minorias dentro do Iraque, eram um factor inconveniente num jogo maior.

Seria preciso um texto longo para explicar a impossibilidade da actual situação, mas vou tentar fazê-lo num parágrafo.

Embora os cristãos sempre tenham tido uma existência ténue em terras islâmicas (e vice versa, numa visão ainda mais longa), as suas comunidades maiores conseguiram sobreviver durante 14 séculos, através de um acordo tácito com os seus senhores muçulmanos. O Islão “tradicional” reconhecia de facto os cristãos e os judeus que permaneceram como “povos do Livro”, com algum direito à vida, embora não reconhecessem a conversão a estas religiões. Os muçulmanos taxavam-nos para conseguir rendimentos, inteligentemente impedindo os fanáticos de matar a galinha dos ovos de ouro. Mas com a subida do Islamismo “ideológico”, depois do nacionalismo árabe do século XX, tudo se complicou.

Cristãos obrigados a abandonar Mossul
Vale a pena mencionar dois factos importantes, que facilmente passam despercebidos na confusão dos nossos tempos. O primeiro é que em sítios como Raqaah, na Síria, a sobrevivência dos refugiados tem dependido dos vizinhos muçulmanos os esconderem, alimentarem e transportarem, uma vez que as suas casas foram marcadas e foram roubados pelos islamitas de tudo quanto possuíam.

Notem bem: Os muçulmanos defendem-nos quando nós os abandonámos.

Quando rezamos pelos cristãos devemos também rezar pelos muçulmanos que arriscam tudo para os abrigar – obviamente com a maior discrição. Isto ajuda-nos a não generalizar, dizendo que todos os muçulmanos são iguais, como se dizia que todos os alemães eram nazis. Mesmo que uma maioria tenha sido, no auge do sucesso de Wehrmacht, também existiam aqueles que os judeus apelidam de “justos entre as nações”.

Devemos aspirar a isto quando nos encontrarmos entre uma raça de perseguidores.

A outra questão a assinalar é sobre a “esperança”, em relação ao “tempo”. Talvez esteja a chegar o dia em que há tantos cristãos no Médio Oriente como judeus – isto é, um número que pode ser arredondado para zero. E talvez se siga um dia em que aconteça o mesmo na América, onde os cristãos são já uma minoria desprezada.

Mas isto não belisca o valor das comunidades cristãs que se perdem, cujas casas e igrejas são agora irreconhecíveis, eliminadas da paisagem.

Elas existiram, no seu tempo, como nós existimos no nosso. Essa dura realidade nunca pode ser apagada. Não há pardal que caia do céu que passe despercebido aos olhos de Deus.

Mas é este o nosso mundo, cheio de perseguições e injustiças, cheio de homens impiedosos e homicidas, à espera das suas oportunidades, até que as portas do Inferno se abram para poderem correr por elas a dentro. Tem sido sempre assim entre os homens, estes homens caídos em desgraça. É isso que os cristãos ensinam e não devemos abandonar a nossa fé agora que verificamos que os ensinamentos são verdadeiros.

A propósito, as cruzadas foram lançadas porque os cristãos da Terra Santa estavam a ser massacrados e o acesso aos lugares santos negado. A Cristandade oriental já tinha sofrido a sua quota-parte de derrotas, e sofreria mais até ser totalmente invadida. A Cristandade Ocidental decidiu contra-atacar, foi por isso que sobreviveu.

Não me parece haver “boas opções”, pelo menos nenhuma que possa preservar o modo de vida cristão quando este é atacado no Oriente e no Ocidente. Hoje, tudo o que sabemos defender são as nossas fontes de rendimento.

Mas Cristo prevaleceu, mesmo quando os seus apóstolos O abandonaram e ficaram reduzidos a um homem.


David Warren é o ex-director da revista Idler e é cronista no Ottowa Citizen. Tem uma larga experiência no próximo e extreme oriente. O seu blog pessoal chama-se Essays in Idelness.

(Publicado pela primeira vez no Sábado, 26 de Julho de 2014 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

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