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Wednesday, 13 January 2021

Martírio “nas Mãos de Deus”

Ines A. Murzaku
Já visitei várias vezes o Vale dos Templos em Akragas – hoje Agrigento, na Sicília. É um dos locais mais arrebatadores da Magna Graecia, que remonta ao Século V antes de Cristo, a era dourada dos gregos na Sicília, antes da chegada dos cartaginenses e dos romanos.

Mas desde 1993 esse vale não tem sido o mesmo para mim. Nesse ano cobri para a Rádio Vaticano a viagem de São João Paulo II, no dia 9 de maio. Todos os presentes ficaram pasmados quando o Papa decidiu improvisar, denunciando enfaticamente a máfia siciliana durante uma homilia diante do Templo da Concórdia.

Foi um discurso histórico: João Paulo II tornou-se o primeiro Papa a pronunciar a palavra máfia. A partir desse discurso a relação ambígua entre La Cosa Nostra e a Igreja tornou-se mais clara (algo que nem sempre tinha sido no Sul de Itália): a máfia e a Igreja estavam em lados opostos. E aqueles que lutam para expor a máfia, incluindo clero e heróis leigos como o juiz Rosario Livatino, são aliados da Igreja, combatendo juntos na mesma trincheira pela justiça:

Deus disse: Não matarás! O homem não pode, nenhum homem, nenhum grupo… a máfia não pode mudar e espezinhar esta mais sagrada lei de Deus!... Este povo, o povo siciliano, ligado à vida, pessoas que amam a vida, que dão a vida, não podem viver para sempre debaixo da pressão de uma civilização contraditória, uma civilização da morte!... Em nome deste Cristo crucificado e ressuscitado, do Cristo que é vida, caminho, verdade e vida. Digo-o aos responsáveis: Convertam-se! Um dia chegará o juízo de Deus!

Poucos sabem que este apelo de São João Paulo foi feito depois de uma reunião privada com os pais do juiz assassinado Rosario Livatino, que será beatificado em breve. Mas o pontífice foi mais longe, descrevendo o juiz de 38 anos morto pela Stidda (a Estrela), um grupo criminoso do Sul de Itália, como: “um mártir da justiça e indirectamente da fé”.

Quando Livatino foi assassinado quase ninguém conhecia este jovem juiz talentoso e exemplar, que trabalhava nas periferias de Itália. O seu trabalho estava ligado à apreensão e confisco de propriedade de origem ilícita adquirida pela mafia siciliana. Fazia-o em total respeito pelos direitos dos acusados, com grande profissionalismo e com resultados concretos. E, também, por compromisso com a sua Fé Católica.

Em 2019 o Papa Francisco reflectiu sobre o que o juiz Livatino tinha escrito acerca da relação entre Fé, Direito e Caridade:

“Decidir é escolher [...]; e escolher é uma das coisas mais difíceis que o homem é chamado a fazer. [...] E é precisamente nesta escolha para decidir, decidir para ordenar, que o magistrado crente pode encontrar uma relação com Deus. Uma relação direta, porque fazer justiça é realização de si mesmo, é oração, é dedicação a Deus. Uma relação indireta, através do amor pela pessoa julgada. [...] E esta tarefa será tanto mais leve quanto mais o magistrado sentir humildemente as suas próprias fraquezas, quanto mais ele se reapresentar à sociedade disposto e inclinado a compreender o homem que está na sua frente e a julgá-lo sem a atitude de um super-homem, mas com contrição construtiva.”

A luta da Igreja contra a Máfia continuaria durante o pontificado de Bento XVI e do Papa Francisco que, em 2014, declarou que “aqueles que na sua vida percorrem este caminho do mal, como são os mafiosos, não estão em comunhão com Deus: estão excomungados!”. Em 2020 Francisco promulgou os “decretos sobre o martírio do Servo de Deus Rosario Angelo Livatino, leigo.” O caminho está por isso aberto para a beatificação do Juiz Livatino, que será o primeiro caso de um juiz-mártir morto pela mafia a ser declarado beato.

Teologicamente, o martírio do Juiz Livatino é um martírio indireto de fé. É mais um exemplo daquilo a que João Paulo II chamou os “novos mártires”, outro modelo de martírio que surgiu durante o Século XX, quando muitos morreram em condições de ataque ideológico ou de violência social em larga escala, ainda que muitas vezes a relação com a fé fosse indireta.

Desde o Século IV que a Igreja reconhece dois caminhos tradicionais para a canonização: a via martyrii (o caminho do martírio) e a via virtutum (o caminho das virtudes). Em 2017, baseando-se na referência de João Paulo II a “um mártir da justiça e indirectamente da fé”, o Papa Francisco introduziu um terceiro caminho para a canonização com um Motu Proprio que especifica que “A oferta da vida é um novo caso no processo de beatificação e canonização, que se diferencia do caso sobre o martírio e sobre a heroicidade das virtudes.”

Existem cinco critérios para avaliar uma “oferta de vida”:

a) oferta livre e voluntária da vida e aceitação heroica propter caritatem de uma morte certa e a curto prazo;

b) nexo entre a oferta da vida e a morte prematura;

c) exercício, pelo menos em grau ordinário, das virtudes cristãs antes da oferta da vida e, depois, até à morte;

d) existência da fama de santidade e de sinais, pelo menos depois da morte;

e) necessidade do milagre para a beatificação, ocorrido depois da morte do Servo de Deus e por sua intercessão.

Aquele jovem e bravo juiz siciliano ofereceu a sua vida, preenchendo abundantemente os cinco critérios: ofereceu a sua vida pela sua vocação de ser um juiz exemplar, combatendo um mal público – a máfia – sabendo que isso poderia conduzir a uma morta iminente; sendo um juiz cristão que aplicava as virtudes cristãs ao exercício do direito; demonstrando como juiz que a Fé e o Direito ou o Evangelho e o Código Civil podem coexistir se forem conduzidos pela virtude teológica da caridade; sendo um juiz que colocou a sua vida e vocação para combater a máfia Sub Tutela Dei (nas mãos de Deus), para usar a expressão que Livatino usava frequentemente no seu diário.


Ines A. Murzaku é professora de Religião na Universidade de Seton Hall. Tem artigos publicados em vários artigos e livros. O mais recente é Monasticism in Eastern Europe and the Former Soviet Republics. Colaborou com vários órgãos de informação, incluindo a Radio Tirana (Albânia) durante a Guerra Fria; a Rádio Vaticano e a EWTN em Roma durante as revoltas na Europa de Leste dos anos 90, a Voice of America e a Relevant Radio, nos EUA.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 8 de Janeiro de 2020 em The Catholic Thing)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

Wednesday, 28 October 2020

Fogo Sagrado: Renovação depois da Destruição

Ines A. Murzaku

Recebi recentemente uma mensagem de uma ex-aluna, que agora é professora num liceu católico e que escrevia, alarmada: “Dr. Murzaku – espero que esteja bem. Ouviu falar do vandalismo na Igreja de Santa Ágata, na Sicília? É terrível.” Ela tinha viajado comigo numa visita de estudo à Sicília e estava muito aflita com a notícia.

A Igreja de St. Ágata, em Caltanissetta, na Sicília, foi sujeita a um grande ataque – assalto e profanação, a Eucaristia lançada ao chão, relíquias destruídas, o vidro da Nossa Senhora da Dormição quebrado e um dos seus braços partidos e a destruição de objetos sagrados. O que a minha aluna não sabia era que este mais recente ato de vandalismo e profanação aconteceu apenas um mês depois de um ataque à mesma igreja.

Mas aqui mais perto de casa as coisas não são melhores. Há poucas semanas soube-se que o padre Travis Clark, pároco da paróquia de São Pedro e São Paulo, em Pearl River, no Louisiana, tinha cometido um ato de profanação e sacrilégio no altar da igreja, tendo relações com duas prostitutas. O ato foi filmado por alguém que viu e informou a polícia.

O arcebispo Gregory Aymond, de Nova Orleãs, não perdeu tempo e reagiu com força. O padre foi removido permanentemente do ministério e “nunca mais servirá na Igreja Católica”. Numa mensagem de vídeo publicado pela Arquidiocese, o arcebispo Aymond condenou o ato de profanação do altar, dizendo:

“A sua profanação do altar e da igreja foi demoníaca e estou enfurecido pelas suas ações. Quando soubemos dos detalhes removemos o altar e queimámo-lo. Irei consagrar um altar novo.”

As medidas do arcebispo são para proteger a sacralidade do altar porque, na Igreja Católica, um altar não é um ornamento, uma decoração ou uma peça de mobília. Pelo contrário, segundo Catecismo da Igreja Católica:

O altar da Nova Aliança é a cruz do Senhor, de onde dimanam os sacramentos do mistério pascal. Sobre o altar, que é o centro da igreja, é tornado presente o sacrifício da Cruz sob os sinais sacramentais. Ele é também a mesa do Senhor, para a qual o povo de Deus é convidado. Em certas liturgias orientais, o altar é, ainda, o símbolo do túmulo (Cristo morreu verdadeiramente e verdadeiramente ressuscitou).

Para além disso, o Cânone 1239 §1 do Código de Direito Canónico, especifica que um altar deve ser reservado unicamente à adoração de Deus, excluindo qualquer outro uso profano ou sacrílego. Aplicando ainda o Cânone 1212, uma vez que o acto de sexo em grupo teve lugar em cima do altar, este foi violado por actos gravemente injuriosos e escandalosos para os fiéis.

As violações foram tão graves e contrárias à sacralidade do local (Cânone 1211) que o altar da Igreja de São Pedro e São Paulo perdeu a sua dedicação e bênção e deixou de poder ser usada para as funções sagradas. A exclusão absoluta e perda da dedicação explicam as ações do arcebispo, nomeadamente a remoção do altar antigo, a sua purificação pelo fogo e a dedicação de um altar novo – cumprindo assim o rito penitencial da restauração.

Obviamente a profanação é o contrário da santidade. O profeta Ezequiel usou palavras duras para avisar os seus ouvintes da natureza radical do sacrilégio cometido quando se profanavam os santuários.

Por isso, juro pela minha vida, palavra do Soberano, o Senhor, que, por terdes contaminado meu santuário com vossas imagens detestáveis e com vossas práticas repugnantes, eu retirarei a minha bênção. Não olharei com piedade para vós e não vos pouparei.

Ezequiel descrevia as consequências devastadoras para todos os envolvidos no ato de profanação: Deus iria vingar-se porque o santo tinha sido profanado e violado.

A destruição de Sodoma

O fogo simboliza destruição e juízo, mas é também uma manifestação de Deus e um sinal de renovação. O Senhor fez chover enxofre sobre Sodoma e Gomorra, fogo enviado dos céus pelo Senhor. Deus consumiu os ídolos pelo fogo: “Tomou o bezerro que eles tinham feito e destruiu-o no fogo; depois de moê-lo até virar pó, espalhou-o na água e fez com que os israelitas a bebessem”.

Mas a destruição e o juízo pelo fogo têm também um elemento construtivo. O fogo é a manifestação de Deus e um meio para a renovação do homem.

Quando João Baptista falava aos impenitentes avisou-os que aquele que vinha depois dele baptizaria de forma diferente: com o Espírito Santo e com o fogo. Este novo baptismo traria a salvação, o fogo destruiria o pecado e daria nova vida.

O “baptismo pelo fogo” é simultaneamente destrutivo e construtivo; é um fogo que consome o pecado e o mal e conduz a nova e regenerada vida que floresce.

O arcebispo Aymond reafirmou esta verdade quando queimou o altar profanado. E depois encontrou-se com os seus irmãos no sacerdócio e convidou-os a renovar as suas promessas. Vai depois celebrar uma missa de reparação.

Quanto à Igreja de Santa Ágara, em Caltanissetta, Sicília, os polícias detiveram dois indivíduos que crêem ser os autores do acto de vandalismo. Têm chovido donativos para reparar os danos e restaurar o altar.

O mal e a profanação da santidade sempre os teremos connosco. E com o aumento das correntes pós-cristãs e anticristãs na nossa cultura estes ultrajes tornar-se-ão mais frequentes e flagrantes. (Duas igrejas foram incendiadas no Chile há dias durante protestos políticos e vários locais católicos nos Estados Unidos têm sido atacados). Mas como se vê por este caso do altar que foi rapidamente purgado e restaurado, a Igreja continua pronta a renovar – precisamente porque é o verdadeiro e vivo Corpo de Cristo.


Ines A. Murzaku é professora de Religião na Universidade de Seton Hall. Tem artigos publicados em vários artigos e livros. O mais recente é Monasticism in Eastern Europe and the Former Soviet Republics. Colaborou com vários órgãos de informação, incluindo a Radio Tirana (Albânia) durante a Guerra Fria; a Rádio Vaticano e a EWTN em Roma durante as revoltas na Europa de Leste dos anos 90, a Voice of America e a Relevant Radio, nos EUA.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 22 de Outubro de 2020 em The Catholic Thing)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Thursday, 6 October 2016

Guterres alegra pró-vidas, desporto e fé no Vaticano

Novo SG da ONU. A long, long time ago...
António Guterres vai ser o próximo secretário-geral da ONU. A nomeação do português, que é católico e pró-vida, já foi saudada por pelo menos um grupo de lobbying pelos valores da família na ONU e os bispos portugueses também elogiaram Guterres, nomeadamente o seu sentido de fé e de humanismo.

Está a decorrer no Vaticano um encontro dedicado ao tema da fé e do desporto. A esse propósito falámos com o autor de uma história da selecção de 66 e também com o nosso já conhecido IronPriest, o padre Ismael Teixeira, que em Agosto se tornou o primeiro a fazer um Ironman, uma das provas mais duras do desporto.

Já está a decorrer a peregrinação dos educadores de infância, que anunciámos aqui há alguns dias, saibam mais sobre o que move estes peregrinos, aqui.

O caso da paquistanesa condenada á morte por blasfémia, Asia Bibi, está a entrar numa fase decisiva. A questão vai ser debatida pelos deputados portugueses.

O Papa fez uma visita surpresa às vítimas do terramoto em Amatrice e ontem e hoje, menos surpreendentemente, encontrou-se com líderes anglicanos que estão em Roma para assinalar os 50 anos do encontro histórico entre o Arcebispo de Cantuária e o Papa Paulo VI.

Monday, 21 May 2012

Teologia do Corpo, sismos e twitter


É já daqui a pouco que começa a conferência na Universidade Católica com Peter J. Colosi , especialista em Teologia do Corpo (na imagem). Aqui podem ver a entrevista que lhe fiz.

Colosi vai dar outras conferências, na notícia estão as datas, locais e horas. Para quem está interessado em aprofundar mais o tema, leiam aqui a transcrição completa da entrevista, sem cortes nem edições, na qual Colosi fala também da actualidade americana.

Mudando de ares, no Paquistão o twitter foi suspenso, por risco de blasfémia contra o Islão.

O Papa falou do atentado e do sismo que abalaram, em diferentes sentidos, a Itália durante o fim-de-semana.

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