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Thursday, 12 October 2023

A complexa relação entre cristãos e Israel

[Artigo escrito originalmente em 2012, actualizado em 2023]

Este tema dava para um livro, ou vários, e por isso vou ser o mais sintético possível. O meu objectivo é elaborar aqui um ‘mini guia’ para os leigos compreenderem alguns dos aspectos mais relevantes de uma relação complexa.

Embora o Estado moderno de Israel só exista há 75 anos, as relações entre este e as diferentes igrejas cristãs são influenciadas por muitos aspectos que antecedem a fundação do país. A isso deve-se somar a existência de diferentes igrejas cristãs, cada uma com os seus interesses estratégicos, o que neste contexto não significa necessariamente “interesseiros”.

Comecemos pelos “melhores amigos” de Israel. Ao contrário do que se possa esperar, nem sempre os melhores amigos de Israel são os judeus noutros países - muitos dos quais são até bastante críticos do Estado Israelita, mas sim cristãos evangélicos. Isto é particularmente verdade nos Estados Unidos, onde estes cristãos têm maior expressão, influência e força, mas não é uma realidade confinada à América.

Os evangélicos americanos acabam por reflectir a posição genérica das diferentes administrações em Washington, mas por razões mais complexas. Em alguns casos pelo menos, não digo que seja em todos, está em causa uma visão milenarista que defende que a existência de Israel enquanto Estado político independente é uma pré-condição necessária para o fim dos tempos, a segunda vinda de Cristo e o Juízo Final.

Claro que muitos desses cristãos acreditam que os judeus que agora tanto defendem serão condenados ao inferno por não terem acolhido a salvação que vem de Cristo, por isso é uma amizade um tanto ou quanto estranha. Mas é palpável e não apenas moral, assumindo a forma de ajuda financeira e política.

A situação muda de figura com as igrejas evangélicas mais liberais/progressistas, que tendem a apoiar mais a causa palestiniana, mas estas são menos expressivas, porque menos organizadas.

Na Europa, por exemplo, a situação é bastante diferente. Em alguns países mantém-se uma lamentável desconfiança dos judeus que se traduz em atitudes anti-Israelitas. Outras pessoas simplesmente não concordam com as políticas daquele Estado face aos palestinianos, o que não deve ser necessariamente confundido com antissemitismo. Isto aplica-se tanto a cristãos como a não-cristãos, mas nos últimos tempos tem-se tornado particularmente a bandeira de uma certa esquerda radical, que é também anticristã, e por conseguinte tem empurrado alguns cristãos para o lado contrário.

Protesto anti-israelita na Grécia
No plano oficial, porém, a atitude dos cristãos na Europa, sobretudo da hierarquia católica, rege-se pela linha orientadora do Vaticano que tem defendido consistentemente o direito à existência de Israel, aliado a uma defesa dos direitos dos palestinianos, o que se traduz na defesa da solução de dois estados para aquela região.

Os interesses do Vaticano na Terra Santa são representados pelo Patriarcado Latino de Jerusalém, cujo Patriarca, Pierbattista Pizzaballa, foi recentemente elevado a cardeal. Quando recebeu do Papa os símbolos cardinalícios, este disse-lhe "força, coragem!", mostrando entender a delicadeza da sua posição, de ter de cuidar de cristãos de ambos os lados da barricada e de lidar com as autoridades árabes e judaicas.

Do ponto de vista geopolítico e ideológico isto até poderá parecer estranho. Nos dias de hoje, não têm os judeus mais em comum com os cristãos face à ameaça comum que representa um Islão em expansão? Talvez. Note-se que a nível de diálogo inter-religioso, por exemplo, o Judaísmo é tratado de forma diferente do que o Islão, em reconhecimento dessa maior proximidade.

Contudo, e aqui chegamos ao aspecto mais importante, há que recordar o factor dos cristãos árabes. Uma boa percentagem da população palestiniana é cristã, tanto no território da Administração Palestiniana (mais na Cisjordânia do que em Gaza, mas a diminuir em ambos), como em Israel propriamente dito, onde são cerca de 10% da população palestiniana.

Tradicionalmente estes cristãos palestinianos eram tão ferozmente anti-israelitas como os seus compatriotas árabes. George Habash e Nayef Hawatmeh, por exemplo, dois dos pioneiros da luta armada contra Israel, eram ambos cristãos e aquele que foi talvez o único exemplo de um bispo detido por tráfico de armas foi o palestiniano Hilarion Capucci.

George Habash, cristão e pioneiro da luta armada palestiniana
Esta tendência alarga-se ao resto do mundo árabe. Geralmente os cristãos árabes são anti-israelitas e culpam o conflito israelo-árabe pela instabilidade da zona, que acaba por desembocar em perseguições anticristãs.

Compreende-se por isso que a Igreja Católica, uma vez que muitos destes cristãos árabes são católicos, tenha que manter um, por vezes difícil, equilíbrio entre uma maior proximidade ideológica com os israelitas democráticos e ocidentalizados - sobretudo reconhecendo uma dívida para com o povo judaico, fruto de séculos de perseguição - e a defesa de alguns direitos elementares de justiça e dignidade para os palestinianos, muitos dos quais são cristãos. Nem sempre é um jogo fácil de jogar e as relações diplomáticas entre a Santa Sé e Israel são tensas. Ainda recentemente, quando começou este novo conflito em Outubro de 2023, o Governo israelita criticou o Papa por apelar à paz e à contenção de ambas as partes, acusando-o de falsos paralelismos.

Por fim, temos o factor ortodoxo. Aqui sente-se de forma particular o peso da história. Recordemos que até à Primeira Guerra Mundial toda a Terra Santa pertencia ao Império Otomano, a grande potência do mundo islâmico.

Havia cristãos em vários territórios do Império Otomano, que viviam com uma boa dose de liberdade, incluindo na Terra Santa. O Patriarcado de Constantinopla tinha a sua sede precisamente na capital deste mesmo Império.

Clérigos ortodoxos gregos em Jerusalém
Aos olhos dos Otomanos, os cristãos ortodoxos, fiéis ou a Constantinopla ou a Moscovo, mas não a Roma, eram de maior confiança que os católicos, que mais facilmente podiam ser encarados como “agentes” dos países ocidentais. Os ortodoxos ganharam bastante com isso. O Patriarcado Ortodoxo Grego de Jerusalém é ainda hoje o maior detentor de terras em Israel, possuindo por exemplo o terreno no qual está construído o Knesset, o parlamento israelita.

Ao mesmo tempo os Russos investiram muito dinheiro em Jerusalém, construindo inúmeros mosteiros, albergues para os seus peregrinos e outras instituições, estabelecendo uma significativa presença na Terra Santa.

As boas relações que os ortodoxos tinham com o Império Otomano chegaram ao fim com a guerra e não são as mesmas com o Estado de Israel. Por um lado, os ortodoxos e os judeus têm obrigatoriamente que se entender, mas da parte dos ortodoxos não existem as mesmas atenuantes que há em Roma para moderar a desconfiança ou mesmo ódio que os fiéis árabes sentem pelo Estado Judaico.

Quem são os cristãos na Terra Santa?

Normalmente olhamos para a Terra Santa, e para o conflito entre Israel e a Palestina, como uma dicotomia judaica-muçulmana, mas são muitos os cristãos que vivem nestes territórios. 

Os mais numerosos são os cristãos árabes, identificados hoje em dia como palestinianos. Neste momento estes constituem cerca de 3% da população na Faixa de Gaza e da Cisjordânia, embora historicamente tenham sido uma percentagem muito maior, que foi diminuindo pelo facto de os cristãos emigrarem em muito maior proporção que os muçulmanos. 

Entre a comunidade árabe/palestiniana que vive em Israel a percentagem de cristãos é significativamente maior, cerca de 7%, o que representa a vasta maioria dos cristãos israelitas (75%). Os cristãos palestinianos dividem-se mais ou menos em igual número entre católicos e ortodoxos, sendo que existem católicos de rito latino e de rito oriental, principalmente melquita. 
Judeus messiânicos

Os restantes cristãos em Israel são de diferentes comunidades, incluindo entre três e seis mil arménios. Há um número muito significativo de russos de ascendência judaica que emigraram para Israel mas cujas famílias tinham entretanto convertido ao cristianismo, pelo que existem dezenas de milhares de fiéis da Igreja Ortodoxa Russa no país. O mesmo se aplica a alguns milhares de membros da comunidade etiope em Israel. 

Existe também uma relativamente pequena, mas significativa comunidade de cristãos de língua hebraica. Integrada na Igreja Católica de rito latino, esta comunidade é composta por judeus convertidos ao Cristianismo, mas também por descendentes de católicos que já nasceram em Israel e para quem o hebraico é a língua materna.

Por fim, existem algumas comunidades protestantes, a mais polémica das quais são os chamados "judeus messiânicos", que são judeus que acreditam que Jesus é o Messias prometido a Israel e que são por isso cristãos, mas continuam a vestir-se e a comportar-se como judeus, procurando muito activamente converter outros judeus à sua fé. Por causa do seu proselitismo, são muito mal vistos por judeus devotos em Israel. Segundo alguns dados, existem mais de cinco mil judeus messiânicos em Israel.

Thursday, 20 July 2023

Polarização na Igreja: Serei parte do problema?

A semana passada escrevi um texto em que referi o problema da polarização na Igreja. Era sobre a frase polémica de D. Américo Aguiar, e concluí com o seguinte parágrafo.

Todos sabemos que a Igreja está polarizada, como está a sociedade. Podemos alimentar isso, ou podemos agir como irmãos e dar ao outro o benefício da dúvida em situações que podem dar aso a incompreensões. Julgo que essa é uma obrigação que temos enquanto cristãos e pessoas civilizadas. 

O problema é que no seguimento da publicação deste artigo recebi vários comentários a sugerir que eu próprio estava a contribuir para a polarização, atribuindo a culpa da polémica aos conservadores e tradicionalistas.

Estou habituado a receber críticas pelo meu trabalho e opiniões, e acho que lido bastante bem com isso. Às vezes respondo, outras vezes ignoro – sobretudo quando os autores são anónimos – e frequentemente aprendo com elas. Mas desta vez fui apanhado de surpresa porque as críticas vieram de vários campos diferentes, desde tradicionalistas revoltados, a pessoas moderadas e até de amigos próximos cuja opinião estimo e respeito muito.

Transcrevo alguns, para terem uma ideia:

De uma grande amiga: Olá Filipe! Não pondo em questão a intenção da tua tentativa, para dares a tua opinião não me parece que seja preciso dares sempre “encostos” “aos mais conservadores”! Na verdade, nem consigo perceber a quem metes este selo, nem o que este selo significa.

De um “amigo” do Facebook, que não conheço pessoalmente mas que se dirige a mim sempre com bom-senso e cordialidade: Tomo também a liberdade de fazer um comentário ao teu comentário. Concretamente, escreveste que “Agora o meu comentário. A frase foi infeliz, sim. Mas é preciso uma certa má vontade para a interpretar da pior maneira possível, como aconteceu, sobretudo por parte de alas mais conservadoras ou tradicionalistas.”

Tal como tu, sou Católico. E certamente, tal como tu, não olho para a Igreja como para um parlamento ou um partido político. Por isso, se me permites a franqueza, creio que não ajuda a ninguém (exceptuando aos inimigos de Cristo) que se fale em “alas” dentro da Igreja. Todos conheceremos irmãos nossos a quem parece, p. ex.º, que o VI e o IX mandamentos deveriam ser abolidos ou reformados. Serão progressistas? Não creio. Hereges? Talvez também não. Certamente, tal como eu, precisam sim é de conversão. Todos conheceremos irmãos nossos a quem parece que a Missa deveria ser sempre celebrada no Rito Tridentino. São conservadores? Liturgicamente, talvez. Mas talvez também precisem, como eu de conversão.

A Igreja, independentemente da “polaridade” de opiniões dos seus membros sobre temas opináveis (já que, de um modo geral, o que é dogma não é, ou não deveria ser, matéria de discussão), é uma família. E aos filhos de um mesmo Pai penso que não se justifica dividi-los entre conservadores e progressistas. Se alguém o fizer, que seja quem não é Católico ou não entende a Igreja.

E incontáveis comentários irónicos no Facebook ao estilo de: Claro que a culpa aqui também tinha de ser dos tradicionalistas

Eu poderia aqui adoptar uma postura defensiva e dizer que o meu comentário sobre conservadores e tradicionalistas não era uma atribuição de culpa, mas apenas a constatação de um facto, que foi nesses meios e ambientes que a frase – e a pior interpretação possível da mesma – se tornou viral. Agora, a culpa da polémica, a existir, é de quem profere uma frase que depois tem de ser explicada, sobretudo quando a pessoa em causa é conhecida por ser boa comunicadora.

Mas o facto de terem sido estas as reacções ao que eu escrevi leva-me a pensar que desta vez não me posso safar à defensiva. Tenho de pensar se de facto não ando a contribuir para esta polarização que tanto lamento, e tenho de perceber que este último “incidente” não aconteceu apenas por causa de um texto meu, mas provavelmente porque já fiz o mesmo noutras alturas.

Por mais que eu compreenda a posição do meu amigo do Facebook, a verdade é que existem tendências e alas na Igreja e não me parece ser necessário fingir o contrário. Onde concordo com ele é no facto de sermos todos filhos do mesmo Pai, todos membros da mesma Igreja, e por isso não podemos nem devemos apontar o dedo aos que se encontram noutro grupo e dizer que nós somos filhos e eles enteados.

Nem é necessário que a existência de alas seja uma coisa má, na medida em que cada uma pode contribuir com os seus dons e capacidades, e na medida em que a sua coexistência seja marcada pela caridade e pela compreensão. Haverá sempre extremos que não se suportam facilmente, mas também na família isso acontece.

A questão central para mim está na relação com o sucessor de Pedro, que deve ser o centro e garante da nossa catolicidade. E é nesse sentido que eu reajo contra os ataques ao Papa e aos bispos vistos como próximos dele neste pontificado, da mesma forma como reagia contra os ataques a Bento XVI ou a João Paulo II. A questão é que nessa altura eu não tinha o “palco” que tenho hoje, e por isso poucos davam por isso.

Não se põe aqui a questão de defender sempre tudo o que o Papa diz e faz, mas sim de dar sempre o benefício da dúvida e agir com ele sempre dentro do respeito, da caridade cristã e da filial obediência. E a verdade é que fico chocado com alguns dos ataques que vejo ao Papa e à Igreja actualmente, vindos de pessoas que noutros pontificados defendiam acerrimamente o Sumo Pontífice.

Dito tudo isto, se me pedissem para me definir a mim mesmo, diria que sou um conservador em vários sentidos da palavra, embora tente manter uma mente e um coração aberto, esperando poder discernir entre o trigo e o joio, mas confiando acima de tudo que o Espírito Santo ajuda quem de direito a fazer essa discriminação para bem da Igreja e do Reino de Deus.

O que nos traz de volta à questão inicial. Com os meus sucessivos “encostos” aos conservadores e tradicionalistas, sobretudo quando sinto que eles estão a atacar o Papa directa ou indirectamente, estou a contribuir para o bem da Igreja e para o Reino de Deus? A julgar pelas reacções ao meu post sobre o D. Américo, estou a falhar. Peço por isso desculpa, a todos, mas especialmente aos que se sentiram visados.

Como disse nesse post, o combate contra a polarização começa em casa, com cada um de nós. Também eu vou tentar melhorar nesse aspecto.

Monday, 13 March 2023

Recentes intervenções televisívas

Tenho sido bastante solicitado para falar em diferentes estações de televisão sobre este assunto dos abusos, e ontem recebi uma referência muito simpática do Paulo Portas no seu programa de comentário "Global", no final do noticiário da TVI

Nem todos os canais disponibilizam esses clips isoladamente, mas alguns têm-no feito. 

Aqui podem ver o tal comentário de Paulo Portas completo, e aqui a parte em que ele se refere especificamente a mim


Na sexta-feira anterior fui à CNN a pensar que ia apenas comentar e quando dei por mim estava num debate com o José Brisso-Lino e a Joana Amaral Dias. Levei um bocado de porrada, mas sobrevivi. Podem ver aqui um dos clips em que eu falo e aqui, julgo que o programa total não está online.

 

  

Wednesday, 25 January 2023

Papa Francisco sobre a homossexualidade: pecado, mas não crime

O Papa Francisco deu uma entrevista à Associated Press em que foi questionado sobre as leis que criminalizam a homossexualidade. 

Respondeu que embora os actos homossexuais sejam pecado, não são crime nem devem ser tratados como tal. 

O Observador pediu-me para comentar estas declarações.

Wednesday, 11 January 2023

Cardeal Pell, abusos e o perigo do histerismo

Morreu ontem o cardeal australiano George Pell.

O cardeal foi um homem muito importante para a Igreja, sobretudo ao longo da última década. Foi o escolhido pelo Papa Francisco para ajudar a pôr ordem nas finanças do Vaticano, tendo enfrentado forte resistência, e a dada altura viu-se acusado de ter cometido abusos sexuais sobre dois menores na Austrália.

Mesmo os mais avessos às teorias da conspiração, como eu, têm suspeitas de que possa haver uma ligação entre estes dois factos, sobretudo depois de se ter sabido que houve transferências de valores avultados da Santa Sé para a Austrália, ordenadas pelo Cardeal Becciu, um dos seus principais rivais na Curia romana, e que ainda estão por explicar.

Pell foi condenado em primeira e em segunda instância por ter abusado de dois acólitos depois de uma celebração na Catedral de Sidnei, quando era lá arcebispo. Cumpriu pena de prisão efectiva, até que a sua condenação foi revertida pelo Supremo Tribunal australiano, e saiu em liberdade.

Não há palavras para descrever a imensa injustiça que sofreu este homem, mas há aqui uma lição que é importante também para nós em Portugal.

Na altura em que Pell foi acusado e julgado a Austrália estava a acabar de atravessar um longo processo de revelação e investigação de crimes de abuso e de encobrimento por parte da Igreja Católica. Houve um inquérito levado a cabo por uma Comissão Real independente, que chegou a recomendar que fosse levantado o segredo de confissão.

Tudo isto para dizer que o ambiente na Austrália estava no ponto de histerismo para que mesmo num caso em que muito evidentemente não havia qualquer prova de culpa, um homem do estatuto de George Pell acabasse por ser condenado à prisão.

Portugal está neste momento a atravessar o mesmo processo que a Austrália e tantos outros países já atravessaram. Temos tido uma onda de revelações – não um tsunami, mas uma onda – e estamos a aguardar a publicação de um relatório da Comissão Independente, que certamente trará ainda mais casos a público. Gerar-se-á – e bem – uma onda de indignação por estes crimes e por quaisquer eventuais casos de encobrimento que se comprovem.

O que não podemos permitir é que essa indignação chegue ao ponto do histerismo, pois é nesse estado que se cometem injustiças.

O combate aos abusos sexuais, seja dentro seja fora da Igreja, deve ser implacável, mas deve ter sempre como bitola a justiça e a verdade.

Será demais pedir que em Portugal reine a serenidade sobre este assunto nos próximos meses, mas que nunca se caia na injustiça e na mentira, pois isso não beneficia ninguém.

Saturday, 31 December 2022

Morreu o Papa que surpreendeu o mundo

Este texto foi originalmente escrito como parte de um pacote a publicar na morte de Bento XVI, pela Renascença. De todos os que deixei, era o que sentia ser mais "meu". Poderá, ao longo dos próximos dias, ser publicado numa versão alterada. Publico-a aqui com autorização da Renascença, a quem agradeço.

Durante séculos os cristãos perseguiram e mataram judeus, culpando-os pela morte de Cristo. Uma frase em particular da Bíblia parecia justificar esta tese da culpa colectiva, o grito dos judeus quando Pôncio Pilates tenta livrar Jesus da crucificação: “Que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos”.

O Concílio Vaticano II foi enfático ao negar esta visão das coisas, mas a passagem bíblica permanece e continuava a ser usada por alguns para criar problemas e minar o diálogo entre católicos e o mundo hebraico.

Entra em cena Bento XVI, com esta passagem do II volume da sua trilogia sobre “Jesus de Nazaré”: “Mesmo que ‘todo o povo’, segundo Mateus, tivesse dito ‘que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos’, o cristão há de recordar que o sangue de Jesus fala uma linguagem diferente da do sangue de Abel: não pede vingança nem punição, mas é reconciliação.”

Bento XVI era, sobretudo, isto. Homem de uma inteligência brilhante e de grande perspicácia teológica, com uma fé apaixonada mas firmemente ancorada na razão. Os seus discursos e homilias tinham sempre uma grande carga de erudição mas conseguiam ainda assim manter uma simplicidade que os deixava abertos a todos, mesmo os que não se moviam com naturalidade nos meios da teologia e da filosofia.

Ao mesmo tempo, porem, o Papa alemão não era um homem mediático. Foi-se habituando, mas nunca se sentiu particularmente confortável com a atenção dos meios de comunicação social. O seu sorriso não era espontâneo, as suas intervenções não se prestavam facilmente à cultura do “soundbite” e a forma como defendia a cultura e civilização cristã, sempre com base na razão e na história e não em sentimentalismos ou saudosismos, valeram-lhe a inimizade dos media mais ideológicos.

Este último aspecto pode ser comprovado pela constante discrepância entre a cobertura mediática dos eventos do Papa e a realidade. Cada viagem de Bento XVI era precedida de augúrios de fracasso. A missa campal iria estar vazia, a população local sentia-se indiferente, os manifestantes seriam mais que os fiéis. Mas no fim, surpresa geral, dava-se o braço a torcer, porque o povo acorria a este Papa, enchia estádios e descampados e cantava o seu nome deixando-o com aquele sorriso envergonhado que o caracterizava. Mesmo os intelectuais, tanto em França como em Portugal, como os políticos, no Reino Unido e na Alemanha, aplaudiram-no longamente e com o respeito de quem reconhece que está diante de uma mente brilhante, de um professor.

“Este poder de ensinamento assusta muitos homens dentro e fora da Igreja. Perguntam-se se ela não ameaça a liberdade de consciência, se não é uma presunção oposta à liberdade de pensamento, mas não é assim. O poder conferido por Cristo a Pedro e aos seus sucessores é, em sentido absoluto, um mandato para servir. O poder de ensinar na Igreja implica um compromisso ao serviço da obediência à fé”, disse, no dia em que tomou posse da Basílica de São João de Latrão.

As viagens eram menos frequentes que as de João Paulo II, mas ainda assim significativas tendo em conta que Bento XVI tinha 78 quando foi eleito. Houve várias de grande importância, a primeira de todas enquanto Papa, à Jornada Mundial da Juventude em Colónia, em 2005; a viagem ao Reino Unido, primeira visita de Estado às ilhas britânicas de um Papa; a Jornada Mundial da Juventude em Madrid, onde debaixo de uma ferocíssima tempestade o Papa, tocado pela insistência de dois milhões de jovens que não o abandonavam, manteve-se firme dizendo aos presentes: “A vossa força é maior que a chuva”, enquanto os seus colaboradores o tentavam proteger com guarda-chuvas brancos; a ida a Cuba, uma das últimas, onde terá concluído que lhe começavam a faltar as forças para prosseguir com a missão que lhe tinha sido encarregada.

Mas a viagem a Portugal em 2010 distingue-se de todas por uma razão muito particular. O Papa chegou visivelmente cansado, alguns diriam até desanimado. Como sempre, previa-se o pior. Entre os católicos discutia-se a possibilidade de esperar o cortejo no caminho entre o aeroporto e Belém, muitos diziam que se devia abandonar a ideia porque a fraca participação popular ficaria mal na televisão. Mas em todo o percurso nunca faltou gente, bandeiras, estandartes de apoio para mostrar ao Papa que se devia sentir em casa entre os portugueses.

Depois de uma missa no Terreiro do Paço, perante centenas de milhares de pessoas, o Papa foi pernoitar à nunciatura. Os jovens, que tinham estado em grande destaque na missa campal, não o abandonaram e junto ao edifício cantaram e chamaram por ele até que veio à janela e, com um sorriso genuíno na cara, agradeceu a sua presença mas pediu que o deixassem dormir.

Foi em Portugal que Bento XVI beijou pela primeira vez um bebé em público e os vaticanistas que o acompanhavam por todo o mundo não hesitaram em dizer que depois de três dias cansativos viam partir um homem que parecia refrescado. Falar-se-ia então de um pontificado pré e pós visita a Portugal.

A injecção de energia que terá recebido era bem precisa. Na altura já havia rumores de que nem tudo ia bem no Vaticano, nomeadamente na cúria. Entre mal-estar e guerra civil, não faltavam adjectivos, mas poucos esperariam algo da dimensão do vatileaks, um escândalo que arrastou a reputação da Santa Sé pela lama e que abalou muito o Papa pelo envolvimento pessoal de um dos seus colaboradores mais próximos, o seu mordomo.

Se o vatileaks foi decisivo na sua decisão de resignar é especulação, mas contribuiu certamente para a perda da sua idoneidade física e espiritual, para usar os seus próprios termos.

Em retrospectiva, a escolha não deveria ter sido tão surpreendente assim. O Papa já tinha dito, no livro-entrevista conduzido por Peter Seewald, que aceitava a ideia de resignar se sentisse incapacidade de desempenhar a sua função. Foi recuperada também a fotografia que na altura tinha passado bastante despercebida, de Bento XVI a deixar o seu pálio, símbolo de autoridade, em cima do túmulo do Papa Celestino V, um dos poucos na história da Igreja a resignar por sentir que não era capaz.

Mas quando o Papa anunciou a sua decisão, num consistório quase insignificante e em latim, o mundo parou. Bento XVI era visto por muitos como o guardião inflexível da doutrina e da tradição e a tradição dizia que um Papa só abandona o seu posto quando é chamado pelo Criador. Afinal de contas, este era o mesmo homem que tinha dito: “O Papa não é um soberano absoluto cujo pensar e querer são leis. Pelo contrário: o ministério do Papa é a garantia da obediência a Cristo e à sua palavra. Ele não deve proclamar as próprias ideias, mas vincular-se constantemente a si e à Igreja à obediência da palavra de Deus perante todas as tentativas de adaptação, de adulteração e todo o tipo de oportunismo”.

Não deixa de ser paradoxal que um dos homens da Igreja mais inteligentes e brilhantes dos últimos séculos seja recordado para sempre por aquele que foi um dos seus últimos gestos, o de desprendimento do poder. É uma memória que não lhe faz justiça, mas talvez isso não desagradasse a Joseph Ratzinger, que nunca se mostrou muito confortável debaixo dos holofotes e que preferiria, certamente, deixar os seus livros e textos falar à história por ele.

Friday, 14 October 2022

Hospital de Campanha - Episódio 11: Os casos de D. José Ornelas e D. Ximenes Belo

Já depois dos dois episódios gravados com o Pedro Gil, em que falámos da questão dos abusos na Igreja portuguesa mais de forma geral, surgiram dois casos envolvendo altas figuras da Igreja: D. Ximenes Belo, Nobel da Paz, acusado de abusos sexuais de menores, e D. José Ornelas, bispo de Leiria-Fátima e presidente da CEP, acusado de encobrimento.

Neste episódio olhamos mais atentamente para esses dois casos, analisando-os com base na informação de que dispomos, vendo o que é verosímel, o que não é, e o que a Igreja poderia ter feito melhor na forma como lidou com eles. 

É de assinalar que voltamos nesta conversa a contar com Duarte Castro, o nosso "expert" residente em assuntos envolvendo Timor. 

Na mesma noite em que conversámos sobre estes assuntos a TVI emitiu uma longa reportagem sobre um dos dois casos alegadamente envolvendo D. José Ornelas, comentei algumas dessas revelações aqui.

Foi uma boa conversa, que vale a pena ouvir. Prometemos que as próximas serão sobre temas um bocado mais alegres!





Mais sobre este assunto dos abusos na Igreja

Conversa com Pedro Gil no Hospital de Campanha - Parte 1

Conversa com Pedro Gil no Hospital de Campanha - Parte 2

Cronologia de casos de abusos na Igreja em Portugal

Contributos para uma reflexão sobre casos de abusos na Igreja


Monday, 19 September 2022

Detidos por protestar no Reino Unido? O problema não é de agora

Tem levantado alguma polémica o facto de várias pessoas terem sido detidas, ao longo da última semana e meia, por se manifestarem de uma forma ou de outra durante as cerimónias fúnebres da Rainha Isabel II.

Alguns foram detidos depois de gritar ofensas em locais públicos, outros por segurar em cartazes com palavras de ordem contra a Monarquia. Eventualmente os poucos antimonárquicos que optaram por se manifestar fizeram-no em silêncio e ostentando folhas em branco.

Podemos ter as mais variadas opiniões sobre isto. Quer se seja monárquico ou não – e eu sou – podemos achar que é de muito mau gosto aproveitar um momento de profundo pesar e luto nacional para dar voz a essas opiniões em público. Mas também podemos achar que o mau gosto não é necessariamente crime, e que mesmo essa liberdade de expressão deve ser protegida.

Um paralelo interessante chega-nos do outro lado do Atlântico, onde o Supremo Tribunal tem apoiado insistentemente as manifestações absolutamente grotescas dos membros da Igreja Baptista de Westboro que gostam de ir manifestar-se nos funerais de militares americanos mortos em combate, argumentando que todas essas mortes são castigo divino por os EUA terem virado as costas a Deus.

Mas voltando ao Reino Unido, há um ponto muito importante neste debate. É que esta hipersensibilidade das autoridades britânicas não é nova. Vejamos mais alguns exemplos*

  • Em 2002 Harry Hamond, de 69 anos, foi atacado por transeuntes, chegando a ser lançado ao chão, quando mostrou um sinal que criticava a conduta homossexual. Quando a polícia chegou ao local decidiu, contudo, deter Hammond. Acabou por ser condenado a uma multa de 300 libras e a pagar as custas do processo. Perdeu o recurso, e morreu antes de sair o resultado de mais um recurso.
  • Em 2008 o pregador Anthony Rollins foi detido por pregar numa rua em Birmingham e por ter dito que os actos homossexuais são moralmente errados. Acabou por ser libertado e indemnizado.
  • Em 2008 um rapaz de 15 anos foi chamado a uma esquadra por ter participado numa manifestação contra a Igreja da Cientologia, e ter ostentado um cartaz a dizer “a Cientologia não é uma religião, é uma seita”. O caso acabou por ser arquivado.
  • Em 2010 Dale McAlpine estava a pregar na rua quando foi abordado por um agente da polícia que se identificou como homossexual. Enquanto os dois conversavam, em privado, o pregador disse que “a Bíblia diz que a homossexualidade é pecado”. Foi detido por outros três polícias fardados e passou sete horas numa cela. Mais tarde ganhou um processo contra a polícia por estes factos.
  • Em 2011 o adepto do Glasgow Rangers Stephen Birrell foi condenado a oito meses de prisão por ter feito comentários ofensivos a adeptos do Celtic, a católicos e ao Papa, numa página do Facebook.
  • Em 2014 o eurodeputado Paul Weston foi detido por citar uma passagem de um livro de Winston Churchill em que este critica o Islão. O caso acabou por ser arquivado.
  • Em 2014 Tony Miano foi detido por criticar publicamente o “pecado sexual”, incluindo o adultério, a promiscuidade e a prática homossexual”. Passou uma noite na esquadra depois de uma mulher ter feito queixa dele. Uma vez que tudo tinha sido gravado, foi possível, porém, provar que as acusações da queixosa eram infundadas e foi libertado.
  • Em 2014 outro pregador de rua, John Craven, foi abordado por dois adolescentes que lhe pediram a opinião sobre a homossexualidade. Ele citou a Bíblia, ressalvando que “Deus odeia o pecado, mas ama o pecador.” Todavia, os rapazes queixaram-se a um polícia, dizendo que tinham-se sentido ofendidos pelas palavras do pregador, que foi então detido durante 19 horas, 15 das quais sem comer e sem poder tomar medicamentos. Mais tarde foi indemnizado.
  • E, por fim, em 2021 aseptuagenária Rosa Lalor foi detida e multada por estar a rezar o terço diante de uma clínica de aborto em Liverpool. Recorreu da multa e ganhou.

É certo que esta questão não se coloca só no Reino Unido, existe em vários outros países, com uma preponderância para o norte da Europa, mas agora é do Reino Unido que estamos a falar.

Aquilo a que temos vindo a assistir é o fruto de uma cultura que começou a interiorizar a ideia de que ferir os sentimentos de outra pessoa deve ser tratado como um crime. O problema é que quando essa caixa de Pandora se abre, as consequências são imprevisíveis. Mais valia, se calhar, voltarmos a perceber que o debate público nem sempre é bonito, e que para nós termos liberdade de expressão, os idiotas que só dizem porcaria quando abrem a boca também a devem ter. Até porque, sei-o bem, para muitos deles o idiota sou eu.

*Todos estes casos são retirados do livro “Censored” de Paul Coleman, com a excepção do último, que é posterior à publicação da obra

Thursday, 7 July 2022

Hospital de Campanha - Episódio 8: A Crise na Saúde

Foi preciso esperar nove episódios, mas no Hospital de Campanha desta semana temos finalmente um médico a sério em estúdio. 

O José Diogo Ferreira Martins é um crente no SNS, mas isso não o impede de fazer um diagnóstico pessimista ao SNS. O também presidente da Associação de Médicos Católicos fala também das ameaças à objecção de consciência, dos desafios de se viver no mundo da medicina com fé e da forma como a pandemia afectou os cuidados espirituais nos hospitais. 

Foi uma excelente conversa, vale bem a pena ouvir!


Tuesday, 5 July 2022

Temas de Ética - Reflexões e Desafios

Foi um enorme privilégio ser convidado para escrever um capítulo do livro "Temas de Ética - Reflexões e Desafios", publicado recentemente pelo Movimento Acção Ética.

O livro contém 14 capítulos sobre variados temas, o meu explora a ética no jornalismo e nas redes sociais. Sem pretensiosismos, procuro abordar o assunto da perspectiva prática, apontando alguns dos pontos principais a ter em conta num assunto cada vez mais importante. 

O livro está à venda nas livrarias e através do site do MAE. Toda a informação aqui.

Outros temas abordados no livro são a objecção de consciência, relações internacionais, desporto, política e medicina. Podem ler o índice aqui.

Lista completa de autores: André Azevedo Alves, Isabel Almeida e Brito, Filipe Almeida, Filipe d’Avillez, José Carlos Lima, João César das Neves, José Manuel Moreira, Manuel Monteiro, Margarida Góis Moreira, Margarida Machado Gil, Margarida Mateus, Maria da Glória Garcia, Maria do Céu Patrão Neves, Marta Lince Faria, Paulo Otero, Pedro Afonso e Pedro Vaz Patto, assinam os catorze artigos, a maioria a título individual, alguns em co-autoria.

Thursday, 9 June 2022

Hospital de Campanha - Episódio especial Pe João Seabra

O padre João Seabra marcou milhares de pessoas ao longo da sua vida, que terminou de forma prematura na semana passada. 

Os elementos que compõem o "Hospital de Campanha" não são excepção. Todos o conhecemos pessoalmente, e neste episódio especial do podcast recordamos o seu exemplo, histórias da sua vida, episódios engraçados e até algumas reflexões sobre o sentido da doença que o deitou por terra e elevou ao Céu. 

É um episódio especial, em mais sentidos do que um. Sobre um homem especial, em mais sentidos do que um. 

Ouçam por vocês mesmos, e partilhem.




O Aborto - Roe v. Wade, e agora?

Actualização: Vai ter transmissão no Zoom.

salL está convidando você para uma reunião Zoom agendada.

Tópico: Aborto - Roe v Wade, e agora?
Hora: 14 jun. 2022 09:00 da tarde Lisboa

Entrar na reunião Zoom
https://us06web.zoom.us/j/83223793472?pwd=MzdEd2V5N0NLNy9DMWxXbGJBNXZrZz09

ID da reunião: 832 2379 3472
Senha de acesso: sal

No próximo dia 14 de Junho estarei a moderar o que promete ser uma interessantíssima conversa entre o procurador estadual americano Tom Haine e o especialista em direito Francisco Correia. 

A conferência é organizada pelo Sall, uma associação portuguesa que intervém na área da liberdade religiosa e de consciência e objectivo é compreender as implicações e consequências da muito provavel revogação da famosa sentença Roe v. Wade, nos Estados Unidos. 

Sim, é um assunto interno americano, mas é também, claro, muito mais do que isso!

Já escrevi um pouco sobre este caso aqui no blog e no Hospital de Campanha dedicámos-lhe um episódio inteiro também.

A conferência é às 21h, no auditório do Colégio de São Tomás, na Quinta das Conchas. Apareça!

 

Tuesday, 24 May 2022

Hospital de Campanha Ep. 6 - Zen, e a arte de ser católico na China

Este sexto episódio do Hospital de Campanha vem a lume no Dia Mundial de Oração pela China, e no dia em que o Cardeal Zen, com os seus 90 anos, foi apresentado em tribunal, depois de ter sido detido, há vários dias, em Hong Kong. 

Para tentar compreender melhor a vida dos católicos na China, e como o Estado os encara, falámos com um padre que esteve vários anos naquele país em missão clandestina. Por isso, e para não comprometer os seus contactos por lá, ele pede para não ser identificado. 

Ouçam e partilhem esta conversa interessantíssima que só pecou por curta, e onde falámos ainda do acordo entre Roma e Pequim para a nomeação de bispos.



Wednesday, 11 May 2022

Hospital de Campanha Ep. 5 - As implicações da (possível) revogação do Roe V. Wade

Uma fuga de informação muito recente sugere que o Supremo Tribunal dos EUA está a deliberar a revogação do famoso caso "Roe vs. Wade" que levou à legalização do aborto a nível federal. 

Neste episódio três católicos juntam-se para perceber exactamento o que isto pode implicar dos dois lados do Atlântico. 

Ao Filipe e à Inês, já habituais aqui no Hospital, junta-se o José Maria Duque, coordenador-geral da Caminhada pela Vida e dirigentge da Federação Portuguesa pela vida.

Este tema também foi abordado pelo Filipe neste texto e é assunto do artigo desta semana do The Catholic Thing. 

Thursday, 14 April 2022

Ir à Polónia buscar refugiados. Compaixão, aventureirismo ou loucura?

Todos devemos conhecer pessoas que ao longo das últimas semanas se puseram à estrada para ir buscar refugiados à Polónia, ou outros países na fronteira com a Ucrânia.

Por um lado, esta onda massiva de solidariedade que assolou o nosso país, e outros, é o exemplo acabado do que o Papa Francisco queria dizer quando referiu que a Igreja deve ser um Hospital de Campanha. E é também um acto profundamente evangélico, pois em cada uma daquelas mulheres e crianças perdidas, desesperadas, sem nada, estava Cristo.

Mas quer isso dizer que os métodos estão acima da crítica? Faz sentido ir de carrinha de nove lugares buscar refugiados? E o que dizer da aparente falta de coordenação central dos Governos, e da União Europeia, neste processo todo? E as terríveis histórias de tráfico humano que vamos conhecendo?

Mais que motivo para uma excelente conversa com Inês Tinoco de Faria, que com um grupo de colegas de trabalho montou uma operação de resgate de refugiados que é um exemplo de boa organização, generosidade e sensatez.

É isso que vos oferecemos neste terceiro episódio do Hospital de Campanha. Ouçam, partilhem, comentem! E obrigado pelo vosso apoio.

Caso não tenham ouvido ainda, aqui têm o primeiro e o segundo episódios.

Tuesday, 12 April 2022

Conferência "Para um Ecumenismo da Paz"

 No passado dia 30 de Março tive a honra de participar na conferência "Para um Ecumenismo da Paz", organizado pela Capela do Rato, em Lisboa. Foi online, e a gravação pode ser vista aqui.

Friday, 18 March 2022

A imagem de Nossa Senhora em Lviv

Aqui podem ver a minha participação ontem na CNN Portugal para falar da visita da imagem peregrina de Fátima a Lviv. Começa em 1'15 minutos do vídeo, 21h13, se se guiarem pela hora da emissão. 

Nos minutos antes da minha participação há uma interessante reportagem feita no local, que também devem ver.

Thursday, 17 March 2022

Chegou o novo podcast: Hospital de Campanha

Outros médicos, outro
Hospital de Campanha
Chegou o Hospital de Campanha!
Há algum tempo que andava a pensar lançar um podcast e eis que ele chegou. 
O tema deste episódio piloto não podia ser outro. Durante pouco menos de 45 minutos analisamos rapidamente o panorama religioso da guerra na Ucrânia e assuntos associados, como por exemplo a dimensão ética das sanções.
Podem ouvir aqui, mas vai estar presente noutras plataformas também. Recordo que este é um episódio piloto, tem certamente algumas falhas do ponto de vista de som, por exemplo, que irão sendo limadas. 


Os médicos de serviço deste Hospital de Campanha sou eu, Filipe d'Avillez; a Inês Dias da Silva e o Duarte Castro. Somos todos amigos de longa data, católicos praticantes e comprometidos e neste podcast pretendemos ir olhando a realidade e a actualidade através de uma perspectiva cristã.

A Inês Dias da Silva é especializada no ramo da comunicação e marketing. É casada e mãe de quatro filhos, sendo que um deles, o Pedro, exige-lhe uma atenção especial e permanente. O seu pai, Pedro Aguiar Pinto, criou um serviço de mailing que se chamava O Povo e que tinha muitos seguidores. Quando morreu, de forma inesperadamente prematura, a Inês tentou dar algum seguimento a esse trabalho e é nessa linha que também quis entrar nesta aventura. 

O Duarte Castro é casado, pai de quatro filhos também e trabalha na área financeira. Tem uma experiência antiga e actual de trabalho missionário, através, entre outros, dos Leigos para o Desenvolvimento, que o levou a passar um ano em Timor-Leste num projecto de micro-crédito. Dessa experiência saiu o livro "Em Timor". 

O nosso objectivo é publicar um episódio do podcast de quinze em quinze dias. Contamos com o vosso apoio, críticas e, claro, sugestões. 

Saturday, 16 October 2021

Transfusões de sangue e liberdades diluídas

A Renascença transmitiu este sábado uma edição interessantíssima do Em Nome da Lei, programa da minha colega Marina Pimentel, dedicado ao tema do jovem de 16 anos com leucemia que recusa transfusões de sangue, por ser testemunha de Jeová.

Este caso é atual, e saltou para a comunicação social por causa da decisão de um tribunal que aceita a possibilidade de o menor decidir, caso se faça prova da sua maturidade. Porém, o dilema ético/moral/legal das testemunhas de Jeová (TJ) e das transfusões de sangue é já antigo e tem sido muito discutido.

A mim, o caso interessa-me sobretudo da perspetiva da liberdade religiosa e é nesse sentido que faço alguns comentários.

A idade do rapaz – Uma das questões centrais neste caso é a idade do doente. Ninguém duvida que um adulto tem direito a recusar tratamento, ainda que seja tratamento para lhe salvar a vida e mesmo que seja por questões de fé. Mas como agir quando se trata de um menor de idade? Nesses casos normalmente a Justiça intervém para retirar temporariamente a guarda da criança aos pais, permitindo aos médicos intervir. Fica assim o assunto resolvido. Aqui, porém, o tribunal entendeu que o rapaz talvez possa decidir por si, tendo apenas 16 anos, caso demonstre ter maturidade para isso.

Os críticos apontam a discrepância de uma pessoa com 16 anos não ser considerado maduro para poder conduzir, votar, nem beber álcool, mas poder eventualmente decidir em questões de vida ou de morte. É um ponto válido. Mas também é válido referir que a mesma sociedade permite ao jovem de 16 anos ter relações sexuais consensuais, abortar e até “mudar de sexo”, sem o consentimento dos pais. Não se resolve a situação com esta troca de argumentos. A linha que se traça entre a maioridade e a menoridade é sempre subjectiva, e esteja ela onde estiver vai sempre gerar casos complexos.

Pessoalmente, tendo a concordar com a decisão do tribunal, embora não saiba precisamente como é que essa maturidade pode ser aferida.

A liberdade do rapaz – Esta é uma questão verdadeiramente interessante e muito difícil. A decisão de recusa de um tratamento médico tem de ser livre e esclarecida. Alguns participantes no programa – e importa realçar que apesar de convidados e de inicialmente terem aceitado, os TJ acabaram por não se fazer representar – puseram em causa um rapaz nesta situação poder decidir livremente.

Aqui não é tanto a maturidade, mas a pressão social que existe por parte da religião a que pertence. Foi muito interessante o testemunho da enfermeira Carmen Garcia, que viveu de perto o caso de uma rapariga de 21 anos, TJ, que acabou por morrer. Ela explica que enquanto “Sara” esteve internada esteve sempre acompanhada por um ancião dos TJ que nunca saiu do seu lado e que, aos olhos do pessoal no hospital, estava a exercer uma tremenda pressão sobre ela para não aceitar as transfusões. Mais, diz a enfermeira, o doente nessas condições está ainda sujeito à pressão de saber que caso aceite a transfusão será proscrito pela comunidade onde, dada a natureza dos TJ, tendem a estar todos os membros da sua família, amigos, etc.,

Este é certamente um ponto importante a ter em conta.

Outra questão é a de saber até que ponto é que a criança é livre, uma vez que está a decidir com base em preceitos de uma religião que não escolheu, como chegou a ser proposto no programa. Mas esse argumento, para mim, já não colhe. Para isso ninguém é verdadeiramente livre, pois todos somos sujeitos a influências de meios, relações e, sim, sistemas de fé, que não escolhemos.

A liberdade religiosa do rapaz – Esta é uma questão fundamental e foi aqui que achei a argumentação dos participantes do programa mais fracos. É normal, em certa medida, uma vez que não estamos perante especialistas e por isso até entendo que não tenham uma reflexão profunda feita sobre o assunto.

Dito isto, houve uma frase que me chocou, proferido pela Dulce Rocha, actual presidente do Instituto de Apoio à Criança, que a este propósito disse: “Quando se diz o direito à liberdade religiosa é o direito de associação, de professar a sua religião. Não vamos chegar a esse ponto... É o direito de se expressar, do nível religioso, não me parece que seja o direito de decidir sobre a vida e a morte.”

Da liberdade religiosa deles depende a minha

Mas não, a liberdade religiosa não é de todo apenas uma questão de direito de associação e de expressão da nossa fé. A liberdade religiosa existe porque a religião, como a consciência, tem uma importância tão grande para o homem que muitos estão dispostos a morrer antes de violar os preceitos religiosos em que acreditam.

A Dulce Rocha não é obrigada a partilhar dessa visão da religião na vida das pessoas, mas não tem o direito de diluir completamente o conceito de liberdade religiosa.

E porque é que isto é importante? Porque da liberdade religiosa deste rapaz TJ depende a minha e a de todos os outros. Por exemplo, segundo esta visão de Dulce Rocha, a integridade física está acima da liberdade religiosa? Podem, então, os judeus e os muçulmanos circuncidar os seus filhos? É que precisamente com este tipo de argumento já se tentou proibir a circuncisão por motivos religiosos em vários países europeus.

E precisamente porque a liberdade religiosa é um direito humano, e não exclusivo do sistema jurídico português, podemos perguntar como devemos aplicar a visão de Dulce Rocha a uma realidade como o Afeganistão? Se um rapaz de 16 anos no Afeganistão professa o Cristianismo e as autoridades dizem que ele tem de optar entre renunciar à sua fé ou ser executado, devemos concluir que o Estado deve intervir para o obrigar a converter-se para lhe salvar a vida?

Ou se uma rapariga menor de idade engravida e os médicos concluem que a gravidez põe em risco a sua vida, deve ser obrigada a abortar, mesmo contra a sua vontade livremente expressada, para se salvar a sua vida?

É sempre mais fácil decidir quando o que está em causa são os “maluquinhos” dos TJ, que até, pasme-se, rejeitam as transfusões. Mas convém ter bem presente que nós, católicos, somos aos olhos de muitos os “maluquinhos” que acreditam que o pão e o vinho se transformam verdadeiramente em Corpo e Sangue de Cristo durante a Missa e que insistimos que um feto de 10 semanas, de 20 dias ou de 3 horas é vida humana plenamente digna e merecedora de proteção jurídica.

A liberdade religiosa ou é também para os “maluquinhos” ou não existe para ninguém. Pode-se eventualmente argumentar com a necessidade de a confissão religiosa em causa ter representatividade, continuidade histórica, etc., para não termos de levar com toda e qualquer seita que aparece do dia para a noite, mas por esses critérios os TJ têm de ser aceites como uma religião estabelecida.

Quero, por fim, deixar claro que este desabafo sobre este último ponto levantado pela Dulce Rocha não é uma embirração pessoal. Ela faz outros pontos muito interessantes e válidos durante o programa que, repito, deve ser ouvido na íntegra e é muito útil para um debate esclarecido. 

Wednesday, 28 July 2021

Conversa inquieta sobre o motu proprio Traditionis Custodes

Podem assistir aqui à conversa em que participei no programa "Conversa Inquieta", do Ponto SJ, sobre o motu proprio do Papa Francisco, no passado dia 26 de julho de 2021.

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