quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O Espírito de Bergoglio?

Quem costuma falar ou escrever em público sabe que dizer uma coisa é diferente de comunicá-la. Qualquer afirmação pode ser mal interpretada e é preciso ter coragem, ou ser simplesmente impertinente, para arriscar dizer o que quer que seja.

É por isso que, como Richard Weaver argumenta de forma brilhante, existe uma ética da retórica. É preciso ter cuidado não só com o que se diz, mas como se diz. O como faz parte do quê. Um apelo moral cuidadosamente preparado mas insípido não chega a lado nenhum. A apresentação descuidada de um argumento complexo deixa as pessoas mais incertas e ansiosas do que antes.

O que nos conduz à recentemente publicada e longa entrevista com o Papa Francisco. Os media agarraram-se a várias frases sobre como a Igreja não deve falar sempre e só de aborto, contracepção e homossexualidade, que precisa de “um melhor equilíbrio”, com mais enfoque no amor de Deus e menos “insistência” ou “obsessão” sobre regras rígidas e por vezes triviais. Previsivelmente, a imprensa está a clamar que o Papa quer dizer que os ensinamentos morais da Igreja mais controversos são “secundários”.

Têm surgido defesas eloquentes do Papa, entre os quais destaco esta do meu ex-colega George Weigel. O George contextualiza correctamente as afirmações de Francisco – bem como o seu papado em geral – numa ofensiva evangélica. Ao colocar as pessoas novamente em contacto com o amor de Deus, argumenta o Papa, elas estarão disponíveis novamente para acatar os ensinamentos morais mais difíceis.

Quem quiser sentire cum Ecclesia (pensar com a Igreja) e acredita que o Espírito Santo age nas eleições papais, tem de adaptar-se a este novo espírito de Francisco.

Já devem estar a antever um “mas”, por isso deixem-me pôr o dedo na ferida. Não obstante tudo o que escrevi acima, quando este Papa dá entrevistas (algo que não gosta de fazer), o resultado é quase sempre desconcertante. E pode haver boas razões para isso. Não se pode impedir as pessoas de nos interpretar mal, mas entre outras coisas o Papa é um professor, e um bom professor tem uma responsabilidade moral para se proteger das más-interpretações.

Já lá vou às especificidades, mas quero só indicar – na esperança de que esteja enganado – algo que temo já ter começado.

Depois do Vaticano II a Igreja atravessou décadas de sobressalto por causa do “Espírito do Vaticano II”, um espírito que contradizia muitos dos documentos conciliares e muita da história do Cristianismo, mas isso não interessa, esse “espírito” progressista levava tudo à sua frente.

Creio que estamos perto do que se poderá chamar o “Espírito de Bergoglio”, outro período de confusão baseado, mais uma vez, não nas palavras do Papa, mas nas emoções desequilibradas que algumas das suas afirmações mais casuais provocam.

As palavras em si, embora sempre ortodoxas, não deixam de ter os seus problemas. O meu colega Brad Miner realça que 1.300.000.000 bebés foram abortados em todo o mundo desde os anos 80. A Igreja acabou de falar firmemente sobre a necessidade de se impedir a morte de inocentes na Síria. É uma obsessão gritar aos quatro ventos sobre a enorme matança moderna dos inocentes?

O Papa tem razão quando diz que é um erro pastoral obcecar ou insistir a toda a hora sobre certos pecados. É completamente contraproducente, de um ponto de vista meramente humano, interagir com as pessoas dessa forma.

A questão aqui, porém, não tem tanto a ver com uma abordagem pastoral. Devo admitir que não sei a quem é que o Papa se referia em relação à obsessão, para além de uns poucos zelotas. Nos Estados Unidos – e podemos dizer o mesmo sobre a Europa e a América Latina – temos falado do amor salvífico de Deus para com os pecadores há décadas. Os papados de João Paulo II e de Bento XVI não foram eras de moralismo autoritário. Foram esforços sofisticados para nos dar o verdadeiro Concílio Vaticano II – uma proclamação do poder salvífico de Deus e um claro farol moral, em conjunto. Essa é que tem sido a experiência da maioria de nós na Igreja ao longo das últimas décadas.



Mas o Papa Francisco acrescenta algo:

Os ensinamentos, tanto dogmáticos como morais, não são todos equivalentes. Uma pastoral missionária não está obcecada pela transmissão desarticulada de uma multiplicidade de doutrinas a impor insistentemente. O anúncio de carácter missionário concentra-se no essencial, no necessário, que é também aquilo que mais apaixona e atrai, aquilo que faz arder o coração, como aos discípulos de Emaús. Devemos, pois, encontrar um novo equilíbrio; de outro modo, mesmo o edifício moral da Igreja corre o risco de cair como um castelo de cartas, de perder a frescura e o perfume do Evangelho. A proposta evangélica deve ser mais simples, profunda, irradiante. É desta proposta que vêm depois as consequências morais.

Essa urgência, irradiação e frescura são novas – e bem-vindas.

Mas se o Papa me ligasse – e ele é o género de fazer essas coisas, mas não vou esperar sentado – eu apontar-lhe-ia a frase ambígua com que inicia a passagem. É verdade: nem udo no Catolicismo se encontra no mesmo plano. Bento XVI e os bispos americanos, por exemplo, tentaram durante anos explicar que a vida tem precedência sobre questões secundárias de política. Não duvido que Francisco esteja de acordo, mas antes de chegar ao seu ponto forte evangélico, concedeu a todos os que gostariam de distorcer-lhe as palavras uma abertura desnecessária.

Aqueles que travam estes combates em público já conseguem prever as bocas do outro lado: “E se parassem de falar o tempo todo sobre o aborto [ou contracepção ou casamento gay]. Até o Papa já vos pediu para largarem o osso”. E não estarão totalmente errados.

O mundo agradece que a Igreja abandone o campo de batalha e permita ao mundo secular continuar a matar bebés em quantidades inimagináveis, destruir o casamento e, pelo caminho, reduzir a liberdade religiosa. Nenhuma destas coisas será benéfica para os esforços de Francisco a longo prazo.

Francisco procura trazer um novo espírito católico para o mundo, e isso é louvável. Esperemos que o resultado seja o que ele procura, e não um espírito progressista que outros imponham a ele e à Igreja.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está agora disponível em capa mole da Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez no Sábado, 21 de Setembro 2013 em The Catholic Thing)

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