quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O Avanço da Desordem

Joseph R. Wood
Ao longo das últimas semanas vimos as forças da desordem a avançar, entusiasmadas com os seus triunfos dos últimos anos. Assim rapidamente temos:

• A ex-estrela e mais-valia da Disney, Miley Cyrus, deu um espectáculo pornográfico nas MTV Video Music Awards. As suas simulações explícitas de actos sexuais, para uma audiência que os produtores sabiam que incluiria crianças, atraiu a atenção e o dinheiro que os seus managers provavelmente ansiavam. Apesar de algumas críticas, o seu desempenho reforça o argumento do “sexo enquanto entretenimento” como norma cultural, para todas as idades.

• O Internal Revenue Service [Finanças], anunciou que casais do mesmo sexo que se tenham casado em Estados que o permitem, podem preencher a declaração de rendimentos em conjunto estejam onde estiverem, mesmo em Estados que não reconhecem o seu casamento. Em linha com o chumbo do Supremo Tribunal a aspectos do Defense of Marriage Act [que proibia o reconhecimento de casamentos homossexuais a nível federal], o Estado progressista e a sua agência fiscal criaram mais um “facto no terreno” em relação à legitimação legal do casamento homossexual e a ostracização daqueles que se opõe ao seu reconhecimento.

Hadley Arkes deu a conhecer a decisão do Supremo Tribunal do Novo México de manter as multas aplicadas a um casal que se recusou, com base em argumentos religiosos, a fotografar actos de intimidade homossexual num casamento. A autoridade do Estado para descartar objecções religiosas e de consciência à sua visão de igualdade acaba assim por ser alargada.

• O Huffington Post alertou-nos para a entrada rápida no mercado de testes fáceis e baratos de despistagem de anormalidades em nascituros, tão cedo como as dez semanas de gestação, sobretudo de trissomia 21. “Estes testes… dão às mulheres mais tempo para tomarem uma decisão informada sobre se continuam com a gravidez ou para se prepararem médica e emocionalmente para o desafio de criar uma criança diferente daquela que talvez esperassem”. Um médico descreve os testes como a “entrada” que pode, se necessário, conduzir a outros mais invasivos e certos, durante a gravidez. É interessante que a reportagem tenha incluído entrevistas e fotografias de mães que ou recusaram estes testes mais invasivos (devido ao risco de aborto espontâneo) ou escolheram levar a termo a gravidez de uma criança com trissomia 21. Mas a autonomia da escolha da mãe sobre a vida e morte do seu filho vê-se assim alargada.

• O Médio Oriente tornou-se mais caótico. A administração americana, que tem resistido a intervir na Síria para ajudar a depor Assad, aceitou como verdadeiras as alegações de que a Síria, um cliente da Rússia e do Irão, tinha morto centenas de civis não combatentes, com armas químicas. Entre os cerca de 75 mil a 100 mil mortos nesta guerra civil, desde os inícios de 2011, os cristãos, muitos dos quais já tinham fugido da violência islamista no Iraque após a remoção de Saddam Hussein por parte dos americanos, têm enfrentado consequências particularmente duras. Nesta fase não é possível determinar quem é que os americanos poderiam apoiar, entre os carrascos ao serviço de Assad e os grupos de oposição na Síria, que incluem tanto adeptos do liberalismo ocidental, como islamistas.

Igualmente, no Egipto, a América enfrenta uma escolha entre um Governo da Irmandade Muçulmana, devidamente eleito e que estava a implementar uma agenda islamista tanto no Egipto como no resto da região, e uma retoma do poder por parte das Forças Armadas. E os cristãos, que nas últimas décadas tinham encontrado um modus vivendi desconfortável com o Governo militar, tornaram-se o alvo da ira da Irmandade. Mais uma vez, a confusão é tanta que nesta altura é impossível avaliar as consequências de qualquer acção ou inacção.

• Na América os católicos ficaram incomodados com o caso Jody Bottum, ou Bottumgate, que gerou um poço sem fundo de descontentamento. Bottum, por razões intelectualmente flácidas e quem sabe por outras, concluiu num artigo que os católicos devem aceitar o casamento homossexual como um facto consumado na praça pública.

Como vários críticos fizeram questão de assinalar, contudo, perder a discussão política sobre o casamento não vai apaziguar aqueles cujo propósito final é a eliminação de qualquer referência a uma ordem de vida que não foi criada por eles próprios.
 
Miley Cyrus - modelo para a infância...
Dito isto, simpatizo com Bottum a respeito de uma coisa. A confusão actual é tanta, como demonstrado pelos exemplos recentes nos campos de cultura popular, direito, ciência e política, que qualquer resposta coerente política ou na praça pública é difícil de imaginar.

Um físico famoso disse, certa vez, que por mais que a ciência goste de divergir, “a realidade acaba sempre por contra-atacar”. Chegámos ao ponto, no nosso abandono cultural colectivo de verdadeira ordem, em que a realidade tem de contra-atacar, talvez de forma suave e lenta, talvez de forma rápida e violenta.

A questão está em saber como testemunhar a verdade entretanto. Uma resposta é a defendida por Alasdair MacIntyre, que passa por criar pequenas comunidades que, de forma generalizada, se isolam da praça pública.

É uma posição desconfortável para católicos, e são muitos os que a rejeitaram, porque a Igreja está interessada em todos os aspectos da verdade, incluindo a forma como a verdade molda a acção política. Mas até que a nossa cultura niilista e a política de poder dos progressistas seculares forem reformadas por alguma forma de renascimento espiritual, ou cedam debaixo do seu próprio peso morto, haverá sérios limites ao que é possível alcançar na praça pública. E a participação nessa praça pública tem de ser avaliada contra o risco de legitimar e perpetuar tudo o que ela tem de mal.

Teremos de aprender dos cristãos no Médio Oriente, dos cristãos na Europa central durante o tempo do comunismo e, sobretudo, dos cristãos dos primeiros séculos. Todos eles sobreviveram a uma grande dose de contra-ataque da realidade. E testemunharam Jesus Cristo, sempre e em primeiro lugar.

Joseph Wood é professor no Institute of World Politics em Washington.


(Publicado pela primeira vez no sábado, 31 de Agosto de 2013 em The Catholic Thing)

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3 comentários:

  1. O artigo coloca a questão, interessante, de como lidar simultaneamente com a "praça pública" e com a nossa consciência e convicções pessoais... a primeira é hoje ilimitada e tão multifacetada que difícilmente se criam consensos! Mas é da reflexão informada que depende o reforço da segunda...creio que o melhor modelo é o que Jesus nos oferece nos Evangelhos: participa na praça publica até ser "silenciado" mas o seu investimento é em nas pessoas, isoladas ou em pequenos grupos...

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  2. Gostei muito! Saliento este último parágrafo: «Teremos de aprender dos cristãos no Médio Oriente, dos cristãos na Europa central durante o tempo do comunismo e, sobretudo, dos cristãos dos primeiros séculos. Todos eles sobreviveram a uma grande dose de contra-ataque da realidade. E testemunharam Jesus Cristo, sempre e em primeiro lugar.» Ao ler este e outros textos tenho sempre a sensação de que caminhamos a passos largos para o fim do "império romano".

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  3. Muito obrigado, Filipe d'Avilez. É um santo serviço que presta.

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