quarta-feira, 18 de setembro de 2013

O Casamento É o que É

Anthony Esolen
E uns fariseus aproximaram-se dele, para O tentar, perguntando, “É permissível, por qualquer razão, um homem pôr de lado a sua mulher?” E Ele respondeu, dizendo, “Não sabem que o Criador, desde a fundação [arche], os fez homem e mulher? E disse-lhes, ‘Por isso o homem deixará o seu pai e a sua mãe e unir-se-á à mulher, e os dois serão uma só carne.’ Por isso já não são dois, mas uma carne. Por isso o que Deus uniu, não separe o homem.”

Eles disseram-lhe, “Então porque é que Moisés ordenou que fosse concedida uma carta de divórcio [apostasiou – conferir “apostasia”, em português], para que ela fosse posta de lado?” Ele disse-lhes: “Por causa da dureza dos vossos corações, Moisés permitiu-o, mas desde a fundação das coisas, não era assim”.

O leitor que me desculpe a tradução penosamente literal desta passagem do Evangelho de São Mateus. Ela foi necessária para tornar o mais claro possível a natureza radical do que Jesus está a dizer sobre o casamento. Em português a palavra “princípio” tem um significado particular. O primeiro “set” é o princípio de um jogo de volley, a letra A é o princípio do alfabeto. Depois os sets e as letras prosseguem e o que segue pode ter pouco a ver com o que veio antes. Mas esse não é o caso da palavra grega arche.

Estamos perante uma palavra que é ontologicamente fundacional. Tal como a cabeça é o “primeiro” ou principal membro do corpo, o “arche” é o primeiro princípio orientador e não está limitado a um tempo particular. Isso encaixa bem no que Jesus está a dizer sobre o casamento. Ele não diz que, há muito tempo, numa terra longínqua, os homens e as mulheres não se divorciavam. Ele diz é que a união indissolúvel do homem e da mulher faz parte da ordem do mundo, assim como foi, é, e será.

Note-se que Ele não está a apelar a uma lei “prévia”, que seja mais antiga que a de Moisés que permite o divórcio. A questão não é essa. Não faz sentido que uma lei antiga seja melhor que uma nova, simplesmente por causa da idade. A questão aqui é que essa lei não tem tempo. Pode ser ignorada, mas não pode nunca ser alterada ou posta de lado, da mesma maneira que não podemos descartar a própria natureza humana.

Os fariseus esperavam um comentário rabínico sobre a Torá, mas em vez disso é-lhes dito que pensem no significado da própria criação, do ser homem e do ser mulher. Este significado aplica-se a todos os homens, não apenas a judeus. Jesus alcança um exemplo anterior a qualquer divisão da humanidade entre um povo escolhido e o resto.

Por isso qualquer cristão que diga que uma coisa é o casamento religioso e outra o casamento civil, está a negar a verdadeira importância das palavras de Cristo. Nós não acreditamos que, se por acaso formos católicos, não nos podemos divorciar. Acreditamos que a lei do divórcio se aplica à humanidade em geral, da mesma maneira que, de certa forma, as bênçãos do casamento são dadas a um homem e a uma mulher que se casam sem conhecer o Evangelho ou Cristo. Quando Adão tomou Eva como sua mulher não entrava na sua ideia qualquer Igreja para além dos dois, a sua união, e Deus.
 
Adão e Eva - ícone etíope
Segue-se que um ataque ao casamento tem necessariamente que ser uma rebelião, uma apostasia, contra o Criador, e um ataque ao próprio homem. A violência do divórcio é sugerida pelas metáforas dos verbos gregos: livrar-se de, rasgar, levantar-se contra. É tanto mais deplorável quanto os ataques surgem de uma sociedade supostamente cristã; mas é um mal sempre e em todo o lado em que ocorre e, como qualquer mal, acarreta a sua própria punição sobre aqueles que o praticam, encorajam ou defendem.

Não temos de esperar para que todo o mundo professe o nome de Cristo, para ver o encanto de toda a criação, incluindo a majestade e a divindade da humanidade, homem e mulher. Esse encanto, essa majestade e essa divindade já existem. Já existe algo sacramental na união entre um homem e uma mulher em casamento, mesmo entre os pagãos. Não estou a dizer que o seu casamento é um sacramento em sentido estrito; mas afirmo a sacralidade daquilo que fazem, mesmo que esteja pejado de erros humanos, ignorância e tolice.

Erramos se separarmos a afirmação de Jesus sobre o casamento do seu contexto expresso – a fundação das coisas, a intenção do Criador – e a recolocarmos numa qualquer lei neo-mosaica. Isso transformar-nos-ia em fariseus; casamento para mim, o que seja para ti. Oh, seríamos fariseus bem mais afáveis (e cobardes), uma vez que o nosso sentido de superioridade moral seria apenas para consumo interno, para não ferir as sensibilidades dos pagãos.

Isto deve ficar absolutamente claro. Não podemos aceitar o divórcio, muito menos a fornicação, a sodomia ou outras práticas aberrantes, da mesma maneira que não podemos aceitar o roubo, o assassinato ou uma depravada indiferença pela vida humana. Podemos tolerá-lo, num ou noutro contexto, porque a tentativa de o eliminar nos meteria em males maiores; mas não podemos nunca aceitá-lo permanentemente  É um mal grave, ponto final. Ser “pluralista” em relação ao divórcio é nos vedado, como nos é proibido sermos “pluralistas” sobre o assassinato.

Nem nos devemos congratular quando vemos os nossos irmãos a cair na loucura e na incoerência nestes e noutros assuntos que envolvem a sexualidade. Isso seria como festejar por ver os nossos irmãos a contrair tifóide. Nesta luta precisamos de todos os aliados que conseguirmos encontrar. E devemos lutar. A verdade e a caridade a isso obrigam.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 15 de Setembro de 2013 em The Catholic Thing)

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