quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Santa Barba!

Matisyahu antes e depois

Em Dezembro foi com espanto que se soube que Matisyahu, o artista judeu ortodoxo de Reggae, tinha rapado a barba. Especulou-se sobre as implicações religiosas de tal acto, porque toda a gente sabe que um verdadeiro judeu ortodoxo pode sempre ser identificado pela sua barba.

Mas os judeus não estão sós neste fascínio por assuntos capilares. Várias são as religiões que regulam detalhadamente as barbas ou os cabelos dos seus crentes.

Entre as religiões que dão preferência a barbas encontramos também o Islão, mas com uma particularidade. Maomé terá dito que o bigode deve ser aparado, mas alguns interpretam isso como significando que se deve cortar totalmente o bigode, enquanto outros afirmam que isso é estritamente proibido e que se deve apenas aparar.

A situação é tão séria que no Irão o Governo publicou um manual com exemplos de cortes de cabelo e estilos de barba que são “islamicamente” aceitáveis.


Entre as culturas orientais a barba é frequentemente um símbolo de dignidade e sabedoria. A tradição passou para as religiões também. Os Sikhs, por exemplo, recusam cortar o cabelo e consideram que a barba é um símbolo da sua masculinidade e dignidade.

Este conceito passou também para o jainismo, outra religião do subcontinente indiano, mas já entre o hinduísmo não há uma corrente única. Algumas correntes ascetas proíbem a posse de bens, o que inclui lâminas, mas outras exigem caras rapadas como símbolo de limpeza.

Um fiel da religião Sikh
Também os rastafáris, uma religião que nasceu na Jamaica e que mistura conceitos cristãos, judaicos e um messianismo negro, proíbem que se corte quer o cabelo como a barba.

No Budismo, embora haja alguma liberdade, a tradição mais generalizada é de rapar não só os pelos faciais como todo o cabelo também.

E quanto ao Cristianismo? Depende da geografia.

No ocidente há uma longa tradição, herdada do império romano, de ausência de barbas. A razão é que a barba seria considerada um adorno, um sinal de vaidade, que se devia evitar a todo o custo. Por isso, embora hoje em dia não seja obrigatório, os clérigos cristãos de tradição ocidental tinham a tradição de não deixar crescer a barba.

No oriente, porém, é diferente. Aí a barba é um adereço obrigatório para os clérigos. A razão é que rapar a barba é considerado um sinal de vaidade… tudo depende da perspectiva! Essa tradição ainda é largamente respeitada, sobretudo nas igrejas ortodoxas.

Monges cristãos ortodoxos
Mas este fascínio por barbas tem às vezes efeitos inesperados, até no campo legal.

Nos Estados Unidos já se registaram vários casos de conflitos laborais e judiciais. Foi o caso de um bombeiro a quem foi ordenado que rapasse a barba para poder caber a máscara de oxigénio ou de um guarda-prisional Sikh que teve de ir a tribunal para poder guardar a dele, uma vez que era considerado um risco para a segurança.

Entre os Amish, uma confissão cristã anabaptista que enaltece a não-violência e evita o uso de tecnologia, tem sido um assunto particularmente complexo. Recentemente uma das comunidades sofreu uma dolorosa disputa na qual uma das facções adoptou o hábito de cortar as barbas dos seus adversários enquanto dormiam, para os humilhar…

Os Amish, curiosamente, não cortam a barba a partir do dia em que casam, mas uma vez que há uma longa tradição militar associada aos bigodes, estes são proibidos por causa dos princípios de não-violência.


O assunto também é melindroso nas prisões americanas, mas aí afecta sobretudo rastafarianos. Em vários estados a lei obriga a que os reclusos tenham o cabelo curto, sobretudo para evitar esconder objectos perigosos, mas como os “rastas” não podem cortar o cabelo tem havido casos de prisioneiros que passam anos em solitária.

E tudo isto a propósito de quê?

Ah, é verdade! Podem respirar de alívio. Contrariando os rumores de que tinha abandonado a sua fé, Matisyahu colocou ontem uma fotografia on-line onde se vê claramente que a sua famosa barba está de volta!


A nova barba de Matisyahy,
para sossego dos seus fãs

Filipe d'Avillez

2 comentários:

  1. tanto quanto julgo saber os judeus ortodoxos cortam a barba em sinal de luto.

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  2. Pelo que investiguei, historicamente havia essa tradição, mas hoje em dia é o contrário. Durante o período de luto (30 dias) os judeus não fazem a barba.
    Há outros detalhes engraçados. Em cumprimento da lei judaica, rapar a barba ou o cabelo com uma lâmina contra a pele é proibido, mas cortar (em que é lâmina contra lâmina), já é permitido.

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